Tragédia em Casamento: Noivo Atenta Contra Noiva e Padrinho
A história completa
18 de dezembro de 2010, Camaragibe, Recife. 200 convidados estavam reunidos para celebrar o casamento de Renata e Rogério. A festa estava programada para seguir até a manhã seguinte. Naquela madrugada, ninguém tinha motivo para imaginar que estava prestes a testemunhar uma tragédia. Na última fotografia, tirada às 2h21, Renata aparece sorrindo ao lado de Rogério.
Poucos minutos depois, a noiva, um dos padrinhos e o próprio noivo estariam mortos. Tudo aconteceu diante dos convidados. Em questão de minutos, o que deveria ser uma das noites mais felizes da vida de Renata se transformou em uma cena que aquelas pessoas jamais esqueceriam. E havia algo ainda mais perturbador: o responsável pelas mortes era justamente o homem que, poucas horas antes, havia prometido passar o resto da vida ao lado dela.
Como uma festa de casamento terminou tão tragicamente e, principalmente, por quê? Durante semanas, a polícia procurou uma resposta. Surgiram histórias sobre traição, ciúme, vingança e até sobre um plano premeditado. Porém, quando a investigação terminou, algumas das explicações que pareciam mais óbvias simplesmente não se sustentaram.
Para compreender por que aquela madrugada permanece um mistério, é preciso voltar alguns anos. Muito antes de Renata Coelho aparecer naquela fotografia vestida de noiva, sua história começa em circunstâncias bem diferentes daquelas que cercariam seus últimos anos de vida. Renata era uma dos três filhos de Maria, uma mulher que vinha enfrentando um período de muitas dificuldades, sem condições financeiras para oferecer aos filhos a vida que gostaria.
Maria chegou com eles a Amaraji, uma pequena cidade da Mata Sul de Pernambuco. Foi ali que uma situação pouco comum acabaria marcando profundamente a infância de Renata. Maria começou a trabalhar para uma família da cidade. Com a convivência, a mulher para quem trabalhava se afeiçoou especialmente à menina e, em determinado momento, perguntou se poderia ajudar a criá-la.
Para uma mãe que enfrentava dificuldades e queria oferecer à filha oportunidades que talvez sozinha não conseguisse proporcionar, aquela certamente não era uma decisão simples, mas Maria concordou. E assim, Renata cresceu com duas mulheres ocupando lugares importantes em sua vida. Maria continuou sendo sua mãe. A outra mulher passou a ser chamada de madrinha, embora sua presença na criação de Renata fosse muito maior do que a palavra normalmente sugere.
Ela não precisou escolher entre uma e outra. As duas fizeram parte de sua história. Conforme crescia, Renata compreendia bem de onde tinha vindo e, principalmente, aonde queria chegar. Ela queria estudar Direito. Para uma menina cuja família havia atravessado tantas dificuldades, chegar à faculdade já representava uma mudança de perspectiva.
Mas Renata não via aquela conquista apenas como uma forma de melhorar a própria vida. Ela pensava em Maria, conversava com a mãe sobre o futuro e dizia que queria trabalhar, ganhar seu próprio dinheiro e um dia comprar uma casa para ela. Era uma promessa simples, dessas que uma filha faz quando começa a imaginar como será a vida depois que finalmente puder caminhar com as próprias pernas.
Renata, no entanto, não teve tempo de cumprir a promessa. Ela entrou na faculdade de Direito, se formou e começou a trabalhar como defensora pública municipal. Aos 22 anos, estava naquela fase da vida em que muitas das coisas sonhadas durante a adolescência começavam finalmente a se tornar realidade. Foi nesse momento que o passado reapareceu, não na forma de um desconhecido, mas de um menino que Renata havia conhecido muitos anos antes.
Renata e Rogério Damascena tinham estudado na mesma escola quando eram crianças, em Ribeirão, também no interior de Pernambuco. Naquela época, nenhum dos dois poderia imaginar que anos depois estariam casados, e muito menos que, antes de a festa de casamento terminar, ambos estariam mortos. Eles cresceram, perderam contato, cada um seguiu seu caminho, teve seus próprios relacionamentos, construiu sua própria história e, durante muitos anos, um praticamente deixou de fazer parte da vida do outro.
Quase 20 anos se passaram. Quando seus caminhos voltaram a se cruzar, eles já não eram aquelas crianças. Renata tinha 22 anos, Rogério, 26. Ela havia terminado recentemente outro relacionamento, tinha se formado e começava a construir a vida profissional que tanto desejava. Rogério também estava estabelecido profissionalmente e trabalhava em uma área ligada a uma de suas grandes paixões: motocicletas.
O reencontro aproximou os dois e, talvez justamente por já existir uma história, ainda que distante, Rogério não entrou na vida de Renata como um completo estranho. As famílias também já se conheciam havia muitos anos. Ele começou a demonstrar interesse. A aproximação se transformou em namoro. No início, não havia motivo para que alguém próximo a Renata enxergasse naquela relação o começo de um problema.
Rogério era atencioso com ela, dava presentes, tratava bem sua família. O relacionamento, no entanto, não seguiria o mesmo caminho até o casamento. Com o tempo, Renata conheceria um lado de Rogério que não conhecia antes. No começo, talvez fosse difícil para Renata distinguir o ciúme de Rogério de uma demonstração exagerada de amor.
Ele gostava de estar perto dela, prestava atenção nas pessoas ao redor e parecia incomodado quando outro homem se aproximava. Isoladamente, uma reação ou outra poderia parecer apenas insegurança. Com o tempo, Renata começou a perceber que situações comuns podiam adquirir para Rogério um significado que não existia para mais ninguém.
Um homem que olhasse por tempo demais, um cumprimento mais caloroso, uma conversa. Às vezes, nem isso. Segundo pessoas próximas ao casal, quando estavam dentro do carro, até o simples fato de Renata olhar para o lado podia desencadear uma discussão. Viver ao lado de alguém assim significava nunca saber exatamente qual gesto banal poderia ser interpretado da maneira errada.
Em uma ocasião, um homem cumprimentou Renata beijando sua mão. Para ela, aparentemente aquilo terminou no próprio cumprimento. Para Rogério, não. O gesto o incomodou. Em outra ocasião, durante uma reunião entre familiares, Rogério passou a acreditar que o marido de uma sobrinha de Renata estava flertando com ela.

Dessa vez, a reação não ficou apenas no incômodo. Houve uma discussão. Rogério empurrou o homem e outras pessoas precisaram interferir. Rogério não gostava de algumas amizades dela. Também se incomodava quando ela saía com grupos maiores de amigos. Renata começou a adaptar o próprio comportamento para evitar novas crises.
Naquele tempo, ela ainda tentava administrar o namoro que se tornava cada vez mais difícil. Até que chegou um ponto em que ela decidiu que não queria mais viver daquela maneira. Em 2008, Renata terminou o relacionamento. Se a história tivesse terminado ali, Rogério teria sido apenas um relacionamento do passado. Mas Rogério não desapareceu.
Ele voltou a procurá-la, pediu desculpas e prometeu mudar. Há um detalhe na vida de Rogério que só seria examinado com outros olhos depois da tragédia. Antes de Renata, ele havia tido um relacionamento sério com uma mulher chamada Laura. Rogério estava apaixonado e queria se casar, mas o casamento nunca aconteceu.
Laura acabou se envolvendo com um amigo de Rogério. Segundo relatos posteriores, ele sofreu bastante com o rompimento e chegou a perder 15 kg. Curiosamente, algum tempo depois, Rogério aceitou ser padrinho do casamento de Laura com esse amigo. Para todos, parecia que Rogério havia superado, mas quando ele começou a namorar Renata, o medo de ser traído ou substituído aparecia repetidamente em seu comportamento.
Depois que os dois reataram, após dois meses separados, Rogério parecia ter mudado. As crises diminuíram. Ele parecia mais tranquilo, menos controlador. Renata decidiu dar uma segunda chance. É fácil olhar para essa decisão sabendo o que aconteceu em dezembro de 2010 e imaginar que os sinais já apontavam para uma tragédia. Para Renata, não apontavam.
Ela não conhecia o final da própria história. Em 2010, Rogério começou a falar em casamento. Ele parecia pronto para transformar aquele namoro em uma vida definitiva a dois. Renata não tinha tanta pressa. Ela estava investindo na profissão, pensava no futuro e chegou a considerar que talvez fosse melhor os dois se concentrarem primeiro nas carreiras antes de pensarem em casamento.
Mas Rogério insistiu. Em setembro daquele ano, a decisão foi tomada. Eles se casariam em dezembro. Porém, durante os preparativos para o casamento, uma discussão aparentemente pequena mostraria que aquela necessidade de Rogério de interferir nas escolhas de Renata talvez não tivesse desaparecido completamente.
E o motivo da discussão seria justamente o vestido que ela usaria para se casar com ele. Renata experimentou alguns modelos. Sua madrinha gostou de um dos vestidos. Rogério preferia outro. Até aí, não havia nada de extraordinário. Uma diferença de opinião sobre um vestido poderia facilmente ter terminado ali. Mas, segundo o relato da família, para Rogério, aquilo pareceu importar mais do que deveria.
Ele queria que Renata usasse o vestido que ele havia escolhido. Quando percebeu que ela preferia o modelo escolhido pela madrinha, seu comportamento mudou. Rogério ficou contrariado. A alegria que deveria acompanhar aquele momento deu lugar a uma tensão que Renata já conhecia bem. Ela cedeu, escolheu o vestido que Rogério queria e a tensão desapareceu.
Rogério ficou emocionado com a escolha, chegou a chorar. Renata não compartilhou da mesma emoção, mas guardou para si os seus sentimentos. No dia 17 de dezembro, eles oficializaram a união civil. No dia seguinte, aconteceria a grande celebração. 200 pessoas seriam reunidas para comemorar com eles. A festa havia sido preparada para atravessar a madrugada e terminar apenas pela manhã com um café da manhã para os convidados.
Mas, poucas horas antes de Renata vestir definitivamente o vestido que Rogério havia escolhido para ela, um imprevisto roubaria parte da alegria daquele dia. Sua mãe não estaria no casamento. Na tarde de 18 de dezembro, Maria começou a passar mal. Não era o nervosismo comum de uma mãe no dia do casamento da filha. Ela sentia uma ansiedade intensa, um aperto no peito que a levou a procurar atendimento médico.
Por volta das 4 da tarde, Maria foi levada ao Hospital Barão de Lucena, recebeu medicação e precisou permanecer em observação. Enquanto os convidados começavam a se preparar para a cerimônia, Renata descobriu que uma das pessoas mais importantes de sua vida talvez não estivesse presente. Mais tarde, ela foi ao hospital ver a mãe, já vestida de noiva.
Para Maria, aquela deveria ter sido a imagem da filha antes de acompanhá-la em um dos momentos mais importantes de sua vida. Em vez disso, as duas precisaram se despedir dentro de um hospital. Maria não estava em condições de ir à cerimônia. Renata chorou, não porque imaginasse que alguma tragédia estivesse prestes a acontecer, mas porque sua mãe não estaria lá para vê-la se casar.
Renata precisou ir embora sem ela. Rogério também se despediu e, então, os noivos seguiram para o casamento. Maria ficou no hospital. Ela ainda não sabia, mas seria a última vez que veria a sua filha viva, vestida para casar. Renata não voltaria no dia seguinte para contar como havia sido a festa. Não mostraria as fotografias.
Na próxima vez em que Maria precisasse reconstruir aquela noite, faria isso através das histórias contadas por outras pessoas. A festa acontecia em Aldeia, uma região conhecida pelos condomínios e casas de luxo de Camaragibe, na região metropolitana do Recife. Renata e Rogério fizeram uma entrada triunfal. Chegaram de moto.
Para Rogério, motos não eram apenas um meio de transporte. Faziam parte de sua vida profissional e eram uma de suas grandes paixões. O detalhe aparecia até no bolo do casamento. No topo, uma representação dos noivos sobre uma moto. Durante a festa, nada pareceu diferente de uma comemoração de casamento. Os convidados conversavam, comiam, bebiam e tiravam fotografias.
Rogério circulava entre familiares e colegas de trabalho. Entre eles estava Marcelo Guimarães. Marcelo tinha 40 anos, era casado e pai de dois filhos. Naquela noite, havia ido à festa acompanhado da esposa. As crianças não estavam com eles. Ele ocupava um cargo de direção na empresa em que Rogério trabalhava e havia sido escolhido como um dos padrinhos do casamento.
Nada indicava que sua presença ali tivesse qualquer significado além disso. Em algum momento da festa, Rogério procurou o músico responsável por animar os convidados. Havia uma música que ele queria ouvir: “Eu Quero Só Você”, da banda Chicabana. A canção tinha um significado especial para o casal e Rogério pediu que ela fosse tocada quatro vezes naquela noite.
Em uma delas, Rogério chamou Renata e os dois dançaram juntos. Para quem assistia, era apenas uma cena de casamento. Depois, porém, algumas pessoas se lembrariam da letra. A canção falava de um homem apaixonado, mas também da sensação de que existiam pessoas tentando afastá-lo da mulher que amava. Em outro momento, Rogério se aproximou do pai, João Bosco.
Os dois se abraçaram. Rogério disse que o amava. Também disse que estava feliz. Para João Bosco, não havia motivo para interpretar aquelas palavras como uma despedida. Mas, dias antes da festa, Rogério havia comentado com um colega que haveria uma surpresa no casamento. Disse para ele não faltar.
Quando o colega perguntou o que Rogério estava preparando, ele não contou. Por alguma razão, aquele homem acabou não comparecendo à festa. Já era madrugada. Depois das 2 horas da manhã, Renata e Rogério voltaram a posar para fotografias. Uma delas foi registrada às 2h21. É a mesma imagem que vimos no início desta história. Agora, porém, sabemos um pouco mais sobre a mulher que aparece nela.
Renata olha para a câmera e sorri. Rogério está ao lado dela. Algumas pessoas, observando essa fotografia depois da tragédia, diriam enxergar algo estranho em sua expressão. Talvez seja possível enxergar. Talvez seja apenas impossível olhar para o rosto de um homem que sabemos estar a poucos minutos de cometer um ato extremo sem procurar nele alguma coisa que denuncie o que está por vir.
O fato é que ninguém percebeu naquela hora. A fotografia foi tirada, a festa continuou. Alguns convidados começaram a se despedir. Foi então que Rogério interferiu. Pediu para que não fossem embora ainda. Havia algo que eles precisavam ver antes. A surpresa. Rogério deixou o salão. Do lado de fora estava a caminhonete que havia pedido emprestada ao pai para transportar algumas coisas para a festa.
Dentro dela havia um pacote e, dentro daquele pacote, estava uma pistola calibre 380. Rogério abriu o veículo, pegou a pistola, escondeu-a sob o paletó e voltou para o salão onde sua esposa o aguardava. Ele se aproximou, abraçou Renata, a beijou e disparou contra ela. A festa se desfez em segundos. As pessoas correram sem entender de onde vinham os tiros.
Um sobrinho de Renata acabou ferido. Outra pessoa também seria atingida e sobreviveria. No meio daquela confusão, Marcelo Guimarães tentou escapar. Rogério o viu correndo e foi atrás dele. Marcelo atravessou o salão tentando fugir enquanto Rogério continuava disparando. Ele foi atingido várias vezes e não conseguiu escapar. Depois de atingir Renata, ferir outros convidados e perseguir Marcelo, Rogério voltou a arma contra si próprio.
Tudo aquilo que havia levado meses para ser preparado acabou em questão de segundos. João Bosco correu para o filho. Rogério ainda estava vivo. Ele foi socorrido e levado para o Hospital da Restauração, no Recife, onde os médicos tentaram mantê-lo vivo, mas o dano era irreversível. Sua morte cerebral foi confirmada horas depois.
Rogério tinha 29 anos, Marcelo 40, Renata tinha apenas 25. Três pessoas que haviam entrado naquele condomínio para uma festa de casamento não saíram de lá para continuar suas vidas. Nas primeiras horas depois da tragédia, talvez fosse impossível para quem estava naquele salão entender tudo o que havia acontecido.
Mas, para a polícia, havia uma pergunta que precisava ser respondida. Por que Marcelo? Rogério não havia apenas disparado em meio aos convidados. Quando Marcelo tentou fugir, ele foi atrás dele e isso parecia indicar que, por alguma razão, aquele homem havia se tornado um alvo. Diante do histórico de ciúme de Rogério, uma hipótese surgiu quase imediatamente.
Talvez houvesse alguma coisa entre Marcelo e Renata. Se Rogério tivesse descoberto uma traição ou simplesmente acreditasse que ela existia, de repente a escolha das duas vítimas parecia fazer sentido. Era uma explicação simples para uma tragédia que até então parecia inexplicável. Havia, entretanto, um problema. A polícia começou a procurar a traição e não encontrou.
Os investigadores analisaram a relação entre Renata e Marcelo e não encontraram evidências de um envolvimento amoroso. Na realidade, tudo indicava justamente o contrário. Os dois praticamente não tinham contato. Marcelo conhecia Rogério pelo trabalho. Era por causa dele que estava naquele casamento. A polícia também procurou uma possível rivalidade profissional.
Marcelo ocupava um cargo superior na empresa e havia sido promovido. Talvez Rogério sentisse inveja. Mais uma vez, os depoimentos não sustentaram a hipótese. Pessoas que trabalhavam com os dois disseram que Rogério e Marcelo se davam bem. Um diretor da empresa lembra que, na véspera do casamento, Rogério parecia alegre. O clima entre os colegas era de descontração e expectativa pela festa.
Nada indicava que ele estivesse prestes a matar um deles. Então, por que perseguir Marcelo? A resposta encontrada pelos investigadores seria muito menos elaborada do que os rumores que circularam depois. Para a polícia, Marcelo provavelmente não havia sido escolhido antecipadamente. Enquanto tentava entender a motivação, a polícia encontrou outro problema.
A arma havia desaparecido. Quando os investigadores chegaram ao condomínio, a pistola usada por Rogério não estava onde deveria estar. Durante quatro dias, a polícia não soube onde ela estava. Até que João Bosco foi à delegacia e levou a pistola consigo. O pai de Rogério admitiu que havia retirado a arma do local naquela madrugada.
Quando fez isso, seu filho ainda estava vivo. Segundo João Bosco, naquele momento, agiu pensando em protegê-lo. Escondeu a pistola e depois, orientado por advogados, decidiu entregá-la à polícia. Segundo o pai, Rogério a possuía havia cerca de 3 anos. Mas se Rogério não havia comprado a arma para aquela noite, por que a levou para a festa? E por que, antes mesmo do casamento, havia dito a um colega que preparava uma surpresa?
Durante quase dois meses, cerca de 40 pessoas foram ouvidas: familiares, amigos, colegas de trabalho, pessoas que estavam dentro daquele salão. A polícia procurou sinais de que Rogério vinha preparando um ataque e encontrou algo curioso. Enquanto os acontecimentos da festa pareciam planejados, a vida que Rogério levava fora dela apontava na direção contrária.
Ele e Renata estavam preparando o apartamento onde viveriam. Ainda havia coisas sendo compradas e providenciadas. Existiam planos profissionais, compromissos, uma rotina que deveria começar depois do casamento. Rogério parecia organizar a própria vida como alguém que esperava estar vivo na semana seguinte.
Quando o inquérito foi concluído em fevereiro de 2011, a polícia afirmou não ter encontrado elementos suficientes para sustentar que ele tivesse planejado previamente as mortes. Essa conclusão deixava o caso ainda mais intrigante. Se Rogério não entrou naquela festa decidido a matar Renata, em que momento tudo mudou? Uma das possibilidades consideradas foi a de que alguma coisa extremamente banal tivesse acontecido durante a festa e adquirido para Rogério um significado completamente diferente.
Talvez ele tenha visto alguma coisa, talvez tenha ouvido alguma coisa, talvez tenha interpretado um gesto de uma maneira que ninguém mais interpretaria. Mas isso nunca passou de uma possibilidade. Não havia como perguntar a ele. Ninguém entre os 200 convidados conseguiu apontar um momento específico e dizer: “Foi aqui que tudo começou”.
Esse momento, se existiu, foi enterrado com Rogério. Ele não deixou um diagnóstico capaz de explicar aquela madrugada e era impossível determinar, depois de sua morte, o que exatamente acontecia em sua mente. Durante semanas, a polícia procurou uma resposta que pudesse explicar por que Rogério havia feito aquilo, mas nunca conseguiu descobrir o que aconteceu dentro daquele salão ou dentro da mente de Rogério, entre a fotografia de um casal recém-casado e a tragédia que veio poucos minutos depois.
Talvez essa resposta nunca tenha existido da maneira que todos procuravam. O que sabemos é que, às 2h21, uma câmera registrou Renata sorrindo ao lado do homem com quem havia acabado de se casar. E talvez essa seja a parte mais difícil desta história. Nós sabemos o que aquela fotografia significa. Renata não sabia.
Para ela, aquela não era a fotografia do fim, era a fotografia do começo. Só que o futuro que Renata acreditava estar começando naquela noite duraria apenas mais alguns minutos.