TENTE NÃO CHORAR: JOGADA PRA MORRER NA RUA PELOS PRÓPRIOS IRMÃOS
pelo contrário, parecia se espalhar. Preocupada e sentindo que algo não estava certo, Maria buscou ajuda médica. Os primeiros exames de rotina não apontaram nada de anormal, deixando uma falsa sensação de segurança que logo seria estilhaçada. Mas a sua intuição e a persistência diante do desconforto a levaram a exigir uma biópsia. Quando o envelope com o resultado foi aberto, foi um golpe devastador, uma sentença que mudaria a sua vida, o seu corpo e o seu destino para sempre: ela estava com hanseníase.
A doença, infelizmente, já se encontrava em um estágio muito avançado, silencioso e terrivelmente agressivo. A hanseníase, outrora conhecida pelo termo carregado de preconceito “lepra”, é uma doença que, além de atacar os nervos periféricos e a pele, carrega um peso histórico de exclusão social gigantesco, isolando as vítimas da sociedade. O impacto no corpo de Maria foi impiedoso e rápido. As sequelas foram severas, dolorosas e irreversíveis. Ela perdeu a visão de um dos olhos, que precisou ser cirurgicamente removido após complicações graves, deixando uma marca profunda e um vazio no lado direito do seu rosto. O seu nariz sofreu deformações estruturais, achatando-se e alterando completamente a sua fisionomia, enquanto as terminações nervosas de suas extremidades foram brutalmente afetadas, tirando-lhe a sensibilidade e a força. O seu pé entortou de forma definitiva, criando uma deficiência motora grave que a impede de caminhar com firmeza, e duas feridas terríveis se abriram. Úlceras que até hoje abrem e fecham em um ciclo contínuo, exaustivo e infinito de dor, se formaram na sola e no calcanhar. Ela tinha apenas entre vinte e vinte e dois anos, a flor da idade, quando sentiu e viu o seu próprio corpo começar a desmoronar diante do espelho.
Mas a maior dor que Maria sentiria não viria das feridas abertas, latejantes e expostas em sua pele, e sim da ferida incurável aberta em sua alma. Quando o diagnóstico foi confirmado pelos médicos e os sintomas se tornaram visíveis, inegáveis e assustadores para quem olhava de fora, a reação de sua própria família foi de uma crueldade inimaginável, beirando a desumanidade. O medo irracional da infecção, aliado à ignorância sobre o tratamento e à absoluta falta de empatia, transformou seus próprios irmãos em seus cruéis algozes. Em um dia que ficará para sempre marcado a ferro e fogo em sua memória, um dia de palavras cortantes como vidro, seus irmãos se reuniram na sala da casa e proferiram as frases que a destruiriam por dentro: “Mana, tu caça o teu rumo, junta tuas coisas e vai embora daqui, porque essa lepra, ela pega e a gente não quer isso aqui dentro”.
Maria, absolutamente incrédula, com o coração sangrando no peito e o corpo já debilitado pela bactéria, olhou para aqueles com quem havia crescido, com quem dividiu a infância e os pratos de comida, e perguntou, com a voz embargada pelas lágrimas quentes de desespero: “Vocês vão mesmo fazer isso comigo? Vão me jogar fora?”. A resposta foi seca, fria e sem qualquer resquício de afeto ou humanidade: “Pode pegar os teus panos e sair fora agora. A porta é a serventia da casa”. Naquela mesma hora, sem ter para onde ir, sem um pai para defendê-la, sem uma mãe para interceder por ela e secar suas lágrimas, Maria foi enxotada de sua própria casa como se fosse um lixo. A casa que sua mãe havia deixado como herança, o único porto seguro que ela conhecia, foi tomada por eles, sem que lhe dessem um único centavo ou um pingo de compaixão. Ela foi jogada na rua como se fosse um animal doente e indesejado.
O mundo inteiro desabou sobre seus ombros fragilizados. O abandono absoluto tomou conta de sua existência e a escuridão parecia não ter fim. O momento de sair pela porta, arrastando os pés machucados, carregando apenas uma sacola com suas roupas velhas e o peso invisível de uma doença mutiladora, foi de um desespero indescritível e sufocante. Maria chorou amargamente, sentada no meio-fio, vendo a porta de sua casa ser trancada por dentro. As ruas frias, sujas e perigosas do Maranhão se tornaram seu único lar e a sua única cama. Foram cerca de quatro ou cinco meses de puro terror psicológico, frio cortante na madrugada, solidão esmagadora e fome que rasgava o estômago. Ela vagava sem rumo pelas calçadas, sentindo dores físicas intensas que a faziam gemer baixinho, e uma dor emocional que a sufocava, tirando-lhe a vontade de respirar.
Durante esse período sombrio e cruel, ela tentou buscar abrigo em qualquer lugar que pudesse lhe oferecer um teto. Uma vizinha que a conhecia desde criança chegou a acolhê-la por uns três dias no fundo do quintal de casa, mas o preconceito era uma barreira alta e intransponível. Com pavor de ser contagiada, a vizinha tratava Maria com extrema distância, cobrindo o rosto quando se aproximava. A comida, muitas vezes sobras do dia anterior, lhe era servida de forma humilhante, colocada dentro de uma velha vasilha de plástico de manteiga que ia direto para o lixo depois, e a água era oferecida em um copinho áspero feito de uma garrafa de plástico cortada ao meio com uma faca. Tudo isso para garantir que Maria não tocasse nas louças de vidro e nos talheres de metal da casa. O preconceito e o nojo doíam mais, muito mais, do que as úlceras latejantes em seus pés. Ser tratada dessa forma, ser olhada com nojo, repulsa e pavor por pessoas que antes sorriam para ela, empurrou Maria para uma depressão profunda e paralisante. Ela sentia que havia perdido a sua humanidade, que não era mais gente. Ela comia pelas ruas, dependendo da caridade e das sobras que lhe davam em uma casa ou outra, vivendo de restos e escondendo o rosto desfigurado, exatamente como um cachorro abandonado no meio de uma rodovia.
Nesse turbilhão de sofrimento, humilhação e dor crônica, a mente de Maria começou a ser assombrada, noite após noite, por pensamentos sombrios e perigosos. Ela pensou muitas vezes em desistir de tudo, em tirar a própria vida, em amarrar uma corda no pescoço na viga de algum casebre abandonado e acabar de uma vez por todas com todo aquele pesadelo que se recusava a acabar. Ela se olhava nos reflexos das poças d’água e das vitrines sujas e se via destruída: suja, magérrima a ponto de os ossos marcarem a pele, desnutrida, com o cabelo duro, opaco e embaraçado pelo tempo exposto ao sol e à poeira da rua, vestindo roupas encardidas e rasgadas. Ela não queria mais viver. Não havia motivo para acordar no dia seguinte. Mas, no fundo do seu coração, no lugar mais íntimo de sua alma, uma pequena, teimosa e brilhante faísca de fé ainda resistia. Nas madrugadas mais frias, ela olhava para o céu sem estrelas e clamava com a pouca voz que lhe restava: “Senhor, tem misericórdia de mim. Me mostra uma pessoa, toca no coração de alguém que possa me ver como ser humano, que possa me estender a mão”. E foi exatamente quando ela não tinha mais um pingo de forças, quando o corpo já cedia, que o milagre aconteceu, da forma mais inusitada, improvável e misteriosa possível.

Tudo começou com um simples e providencial erro de digitação num telefone público. Um número discado errado que mudaria os rumos do universo para ela. Maria, em um momento de desespero e precisando ouvir a voz de alguém conhecido, tentou ligar para uma velha conhecida pedindo algum apoio, mas o destino interveio e a ligação caiu no telefone de um homem distante chamado João. Quando ela percebeu o engano e, envergonhada, tentou desligar rapidamente o aparelho, João, movido por uma força inexplicável que ele mesmo não sabe descrever até hoje, disse com firmeza: “Não desliga não, fica na linha”. Eles começaram a conversar timidamente. João ouviu a voz trêmula e carregada de dor daquela mulher desconhecida e, com uma paciência de anjo, a encorajou a falar, a desabafar. As conversas ao telefone continuaram nos dias seguintes. Aquele aparelho se tornou um confessionário. João se tornou o único refúgio seguro de Maria, a única pessoa no mundo inteiro que a tratava com dignidade, que perguntava como ela estava e que não se importava com as suas lágrimas.
Com o passar do tempo e das muitas ligações, o vínculo entre os dois através daquela linha telefônica se fortaleceu de tal maneira que João fez uma proposta que, para qualquer outra pessoa, pareceria uma completa loucura: perguntou se ela teria coragem de deixar tudo para trás e ir morar com ele, para ser cuidada e amada. Maria, já calejada pela dura rejeição da vida e não querendo criar falsas esperanças ou, pior ainda, enganar o homem que havia sido o único ser humano bom com ela, decidiu ser brutalmente, dolorosamente honesta. Ela abriu seu coração e revelou todas as suas feridas, físicas e emocionais: “João, eu preciso que você saiba a verdade. Eu sou deficiente. Eu tenho o pé torto por causa de feridas graves que não saram. Eu perdi um olho, o meu rosto é deformado pela doença e o meu nariz é chato e caído. Você tem absoluta certeza de que vai me querer desse jeito? Você não tem nojo de mim?”.
A resposta de João não demorou nem um milésimo de segundo e veio carregada de uma pureza e de um amor incondicional que Maria nunca, em toda a sua vida, havia experimentado. Ele disse, com uma firmeza que acalmou o coração dela e uma ternura que a fez chorar: “Maria, eu vou te querer exatamente do jeito que tu quer, do jeitinho que tu tá agora. Não me importa a aparência. Te arruma como puder, pega as tuas coisinhas, que amanhã mesmo eu vou pegar a estrada e vou te buscar”.
João não hesitou e não voltou atrás em sua palavra. No dia seguinte, logo cedo, ele partiu em direção ao local exato onde Maria estava vivendo nas ruas do Maranhão. Ele contratou um mototáxi para fazer a etapa final da jornada até a calçada onde ela costumava ficar. Quando chegaram, a visão era de cortar o coração e absolutamente desoladora. O próprio motorista do mototáxi, ao ver o estado deplorável, a magreza cadavérica e as deformidades no rosto e no pé de Maria, parou a moto e tentou intervir, dizendo a João com um misto de preconceito, espanto e pena: “Meu amigo, presta atenção no que você tá fazendo. Eu acho melhor você arrumar outra mulher por aí. Essa aí já era, não dá pra ti não, vai ser só problema”. Mas João, guiado por um amor profundo que transcende a carne, os preconceitos e a aparência superficial, olhou para o motorista e respondeu de bate-pronto, sem hesitar: “Não. É essa mulher que está no meu caminho, é ela que Deus separou pra mim, e é ela que eu vou levar comigo pra casa”. O homem encolheu os ombros e retrucou, dizendo que a escolha e o arrependimento seriam dele.
Quando João finalmente se aproximou e viu Maria de perto pela primeira vez, a magreza extrema que delineava seus ossos, as roupas sujas e rasgadas, e a vulnerabilidade absoluta e assustada estampada em seu rosto, ele não conseguiu conter a emoção. As lágrimas desceram grossas pelo seu rosto. Ele não chorou de repulsa, ele chorou de compaixão, de amor e de revolta por ver o que o mundo havia feito com ela. Ali, com um abraço apertado que ignorava qualquer doença, ele a resgatou. Naquele instante mágico, Maria soube com todas as letras que Deus havia escutado a sua prece na madrugada fria e enviado um anjo de carne e osso para salvá-la da morte certa. “Se eu tivesse continuado naquela calçada, naquela rua, eu já estava morta, eu não aguentava mais um mês”, ela sempre repete, com a voz cheia de gratidão.
A viagem para a nova vida, longe dos irmãos cruéis, foi um desafio à parte. Eles seguiram rumo ao estado do Pará, para recomeçar em uma ilha mais isolada e pacata. Maria, que passou a vida toda no interior e nunca havia andado de barco, enfrentou a escuridão da noite sobre as águas profundas do rio e o balanço forte das ondas, o temido “banzeiro” da região. Aterrorizada, agarrando as bordas da embarcação, ela dizia a João em pânico: “Meu Deus, eu vou morrer aqui afogada!”. Mas ele estava ao seu lado, e a segurava firme na canoa, passando os braços ao redor dela e transmitindo-lhe a segurança e a paz que ela havia perdido há muito tempo. Quando finalmente atracaram e chegaram à ilha, a recepção foi um bálsamo curativo e uma surpresa imensa. As pessoas do local, humildes e acolhedoras, curiosas para ver “a nova mulher do João”, aproximavam-se dela não com o nojo e os xingamentos dos seus irmãos, mas com empatia genuína. Abraçavam-na, apertavam suas mãos e davam-lhe palavras doces de conforto. Maria, que estava só pele e osso e morrendo de fome, começou a se alimentar direito. Ela comia panelas de muito peixe fresco, prato que ela mais adora na vida, e aos poucos, dia após dia, foi recuperando o peso, a força do corpo e, acima de tudo, a sua dignidade como mulher e ser humano.
Hoje, a realidade é outra. Maria e João vivem juntos no Pará, em uma pequena, quente e humilde casa alugada. A vida está muito longe de ser fácil ou luxuosa, mas o ambiente é preenchido e sustentado por um amor, uma parceria e um respeito mútuo que são absolutamente admiráveis. Quem passa pelo portão e visita a casa deles imediatamente se impressiona, arregalando os olhos com a limpeza impecável e a organização caprichosa do ambiente. O piso está sempre varrido e lavado, o fogão antigo brilha de tão areado, a geladeira branca, que na verdade pertence à dona da casa, não tem uma marca de sujeira. Maria tem um orgulho imenso do seu pequeno e modesto lar. João, que é o seu grande amor e companheiro inseparável, sempre avisa aos visitantes com um sorriso no rosto: “Para entrar aqui, na sala da Maria, tem que tirar o chinelo na porta, senão ela briga”. Ele sabe bem o quanto Maria se esforça, suando a camisa, para manter tudo um brinco, parecendo uma casa de bonecas.
Apesar de todas as suas sérias limitações físicas e da dor que sente, Maria recusa-se terminantemente a ficar parada em cima de uma cama. “Ficar parada é uma doença pior que a que eu tive, atrofia a mente e o corpo”, ela afirma com convicção e um brilho guerreiro no olhar. A sua rotina diária é um testemunho de pura luta e superação silenciosa. De manhã cedo, como seu estômago debilitado não aceita café puro devido a um antigo problema de ameba que adquiriu nas ruas, ela vai para o fogão e prepara um mingau quentinho e nutritivo. Depois do café, ela toma um longo banho relaxante – ela adora a sensação da água, banha-se várias vezes ao longo do dia quente do Pará e ama usar muito perfume, espirrando pelo corpo e deixando a casa inteira e as roupas de cama extremamente cheirosas. E então, perfumada e disposta, ela vai à luta diária. Ela limpa os móveis da casa, passa pano úmido em todos os cômodos, lava os azulejos do banheiro e até mesmo vai para o quintal capinar o mato teimoso. Como não consegue ficar muito tempo em pé por causa das feridas latejantes e do pé torto, ela pega um banquinho de madeira, senta-se na terra quente e, com as próprias mãos machucadas, arranca o mato pela raiz. Ela também possui uma pequena coluna desviada, uma escoliose dolorosa que lhe causa fortes dores e pontadas nas costas, mas ela não se entrega de forma alguma.
Além de todos os pesados afazeres domésticos, Maria descobriu, através de um projeto social, um grande e belo talento escondido em suas mãos: o crochê. Ela aprendeu a arte pacientemente com uma professora excelente chamada Rita, lá no centro de assistência local, e passou a confeccionar com agulha e linha tapetes coloridos, porta-joias delicados e capas para almofadas com pontos maravilhosos e complexos. O único e triste problema é que, na grande maioria das vezes, ela não tem condições financeiras de comprar os novelos de linhas e os materiais básicos necessários para trabalhar, ficando com várias peças maravilhosas guardadas num canto ou com lindos projetos paralisados no meio do caminho. Quando Deus abençoa e ela consegue material através de doações, ela termina e vende suas peças por módicos vinte ou vinte e cinco reais, um dinheiro extremamente suado, honesto e que ajuda diretamente a pagar as despesas básicas de feira da casa.
E as despesas, infelizmente, são muitas e não param de chegar. O aluguel da modesta casa custa trezentos reais mensais, um valor que já consome boa parte do que têm, e ainda há a conta de energia elétrica que sobe todo mês, a água e a alimentação, que está cada vez mais cara no mercado. A saúde fragilizada de Maria exige cuidados constantes, rigorosos e muito dispendiosos. Ela sofre atualmente de pressão alta severa, necessitando comprar medicamentos específicos nas farmácias quando o posto não tem. Além disso, as úlceras crônicas em seu pé exigem curativos rigorosos, limpos e cuidadosos todos os santos dias da semana. As feridas causadas pela hanseníase, que nunca cicatrizam completamente e formam uma pele fina que logo se rompe, abrem e fecham em um ciclo exaustivo e muito doloroso.
João é o enfermeiro dedicado que faz os curativos com todo o cuidado e amor do mundo, limpando, passando a pomada e colocando a atadura limpa e a gaze por baixo das meias grossas que ela usa, combinadas com suas sandálias especialmente adaptadas para não machucar mais. É também João quem levanta cedo, pega a sua bicicleta surrada e pedala longas distâncias até o hospital público ou posto de saúde do bairro para tentar conseguir, de graça, os materiais de curativo, os esparadrapos, as gazes e as pomadas antibióticas para que a perna de Maria, que vive extremamente inchada, vermelha e dolorida, não piore ou sofra uma infecção generalizada. Atualmente, com a situação difícil do país, ela relata estar sofrendo muito por causa da falta constante de antibióticos na rede pública de saúde, o que tem agravado enormemente o inchaço e feito as dores intensas voltarem a tirar o seu sono.
Para tentar complementar a parca renda do lar e não passar fome, Maria também conta com a solidariedade e ganha roupas usadas de membros da igreja evangélica que frequenta. Com essas peças em mãos, ela lava, passa e monta com muito orgulho um pequeno brechó em uma calçada de feira local. O suado dinheiro arrecadado com a venda de algumas peças de roupa baratas é usado integralmente para inteirar o valor que falta para comprar os seus remédios de pressão e os antibióticos na farmácia. No entanto, quando não há doações de roupas para vender, o movimento na feira é fraco, ou as encomendas de crochê estão completamente paradas, a situação dentro de casa fica desesperadora e muito crítica. A dor esmagadora da fome, infelizmente, já bateu à porta deles várias vezes ao longo desses anos. Houve dias muito tristes em que não havia absolutamente nada nos armários para comer na casa, não havia um grão de feijão ou um pedaço de carne, e a única refeição que Maria e João tiveram para tapear a barriga foi um prato ralo de arroz branco cozido apenas na água e uma pitada de sal. Nesses dias difíceis, a fome castiga o corpo frágil e a mente. “Me dá uma fome tão grande, chego a tremer e o estômago dói, dá pontadas fortes. Eu sento na cadeira e falo: ‘Senhor Jesus, me ajuda, vou beber um copão de água pra enganar'”, relata Maria, com os olhos marejados de lágrimas e a voz embargada ao lembrar do prato vazio. No entanto, mostrando uma força espiritual gigante, mesmo nos momentos de extrema e cruel escassez, quando havia apenas o arroz puro e sal no fundo da panela, ela afirma categoricamente que continuava orando e dando glórias a Deus em voz alta, pois, afinal de contas, pelo menos ela tinha um teto seguro sobre sua cabeça para não tomar chuva e o amor incondicional de João a abraçando à noite.
Felizmente, as pessoas ao redor, os vizinhos de muro e os valorosos irmãos da igreja, percebendo a imensa bondade, a transparência e a luta diária e honesta do casal, muitas vezes se mobilizam e os ajudam como podem. Alguém passa e traz um quilo de arroz ou um pacote de macarrão, outro bate na porta e traz um litro de leite de gado fresquinho, que ela ama profundamente tomar misturado com farinha seca e raspar um arroz bem queimadinho e crocante no fundo da panela, bem ao estilo tradicional e nostálgico maranhense que a faz lembrar das poucas coisas boas de sua infância. O vizinho da casa de cima, um senhor extremamente bondoso e atento às necessidades deles, chamado Jurandir, doou até um ventilador grande para ajudá-los a suportar o calor sufocante e abafado que faz no interior do Pará. João, por sua vez e com a força do seu suor, não mede esforços e trabalha duro para colocar qualquer comida na mesa.
Ele trabalha firme como serviços gerais, pega no pesado, faz diárias capinando grandes roças debaixo de sol a pino, limpa quintais cheios de entulho, e até pega sua linha e vai para o rio pescar nos dias de folga para garantir que a mistura rica em peixe do almoço não falte. Ele faz qualquer serviço honesto, limpo e digno que aparecer na frente para garantir que não falte o básico indispensável para a sobrevivência e o bem-estar de sua amada esposa. João é a rocha, o grande herói e o esteio inabalável de Maria. “Para mim, ele é muito mais que meu marido, ele é meu pai, meu anjo da guarda, ele é simplesmente tudo. O que seria da minha triste vida sem ele? Eu não sou nada sem ele aqui”, diz Maria com uma gratidão profunda que transborda em cada palavra. Muitos moradores da região já disseram, em tom de fofoca maldosa, para João desistir dela de uma vez, abandonar o peso e o fardo de cuidar de uma mulher adoentada e com tantas limitações complexas, mas ele é irredutível e surdo para essas maldades. O amor que ele sente é genuíno, puro e testado no fogo. Ele costuma dizer abertamente a quem quiser ouvir que a beleza exterior não revela nada do ser humano, que a casca envelhece e apodrece, e que o que realmente importa e tem valor são as boas virtudes, o sorriso sincero, o carisma contagiante e a bondade imensa que Maria carrega dentro do peito, e que, com a bênção de Deus, eles viverão unidos, cuidando um do outro, para o resto de suas preciosas vidas, e que serão separados apenas pela força da morte.
Maria também tem o seu pequeno, vaidoso e muito amado cantinho de organização dentro da casa que ela chama de lar. Com muito sacrifício, comprando a longo prazo e a prestação em uma loja local, eles conseguiram a duras penas adquirir um pequeno armário de cozinha de aço para guardar os mantimentos, pagando parcelas suadas de 135 reais por mês, e um guarda-roupa de madeira simples por parcelas fixas de 105 reais, tudo isso para que suas limpas roupas, seus lençóis cheirosos e pertences pessoais não ficassem jogados e amontoados no chão de cimento. Para quem tem muito, pode não parecer nada, mas para eles, são vitórias e pequenas conquistas grandiosas; contudo, essas benditas parcelas mensais muitas vezes pesam pesadamente no já apertado e restrito orçamento do fim de mês, tirando e comprometendo o suado dinheiro que poderia ser muito bem usado para ir ao açougue comprar um pedaço de carne, tomar um pote de açaí gelado que é a paixão deles, ou comprar uma fruta doce que Maria sente tanta e desesperada vontade de comer no meio da tarde.
Contudo, como se a vida não fosse difícil o bastante, uma nova e terrível tempestade está se formando escura e ameaçadora no horizonte já nebuloso do casal. A dona da casa alugada onde vivem bateu na porta recentemente e avisou de forma direta que precisa urgente do imóvel de volta para uso pessoal. Eles têm um prazo muito curto, espremido e desesperador, até o dia cinco do início de abril, para embalar tudo e desocupar o lugar. A preocupação constante e o medo do amanhã tirou por completo o sono e a paz de ambos. Onde vão morar agora? Para onde vão correr? Como vão conseguir juntar dinheiro para pagar o alto calção ou o primeiro mês de aluguel adiantado exigido em uma nova e desconhecida casa? João tem saído de casa quase todos os dias, de manhã até o final da tarde, caminhando exausto debaixo do sol escaldante, batendo de porta em porta pelos bairros vizinhos e esburacados para procurar uma pequena quitinete, algo mais modesto, barato e menor que caiba no bolso furado para eles, mas a incansável busca tem sido extremamente frustrante e muito difícil, pois ninguém quer alugar barato. O pânico e o desespero real de voltar a não ter onde morar, de voltar para as calçadas frias que quase a mataram, assusta profundamente a alma de Maria, pois o pagamento do aluguel já consome quase tudo o que eles têm, e a insegurança financeira e habitacional é um fantasma que os persegue de forma constante e implacável.
Diante de todo esse complexo, doloroso e dramático cenário de tanta luta pela sobrevivência, um repórter independente, com o coração sensível e criador de conteúdo voltado para causas sociais, ficou sabendo e conheceu a história impressionante da vida deles. Ele não perdeu tempo e foi até a casa de Maria e João, com câmeras e microfones, para gravar, ouvir de perto e documentar para o mundo essa grandiosa trajetória de resiliência e amor. Profundamente e genuinamente tocado pela situação visual de pobreza, pela iminente ameaça das dores pela falta de medicamentos básicos e pela cruel ameaça iminente de despejo em menos de um mês, ele decidiu agir rapidamente e não cruzar os braços. O repórter, com o apoio de seus milhares de seguidores, abriu uma grande e transparente campanha online de arrecadação de fundos na internet, divulgando a chave PIX e os links. O objetivo central e grandioso da campanha não é apenas resolver o problema de hoje, comprar os caros antibióticos que faltam urgentes ou ajudar a pagar as atrasadas e sofridas parcelas do armário da cozinha e do guarda-roupa, mas sim, através de uma mobilização de amor, arrecadar um valor financeiro substancial e sólido que permita, com total segurança, pagar de um a dois anos completos de aluguel antecipado para o sofrido casal. Garantir, de uma vez por todas, dois longos anos de teto seguro, paz de espírito e estabilidade para Maria e João mudaria de forma radical, milagrosa e absoluta a dura vida e o sofrimento diário deles, permitindo finalmente que o pouco dinheiro que o guerreiro João ganha nas roçadas debaixo de sol seja investido de forma digna e integral em uma alimentação farta e digna, como comprar o peixe frito com bastante açaí que Maria tanto ama, investir em verduras frescas para melhorar a anemia, em novelos coloridos de linhas para o seu talento no crochê e, principalmente, na melhora da sua saúde e controle da pressão alta e do inchaço.
Apesar de todas as incontáveis e quentes lágrimas que foram derramadas de forma amarga ao longo de sua difícil e tortuosa vida, Ana Maria Cabral é, incrivelmente, uma forte mulher que, mesmo com as cicatrizes expostas, irradia uma felicidade cativante e uma fé inabalável em Deus. “Apesar de tudo, da falta de dinheiro e das dores, eu sou uma menina muito feliz no meu lar”, ela faz questão de dizer com um sorriso largo, apontando para o pequeno espaço que cuida com amor. Quando a nuvem cinza da tristeza tenta invadir sorrateiramente a sua alma machucada, ou quando os pensamentos ruins, o medo do despejo e as trágicas lembranças do abandono terrível do passado no Maranhão vêm com força para atormentá-la e tirar sua paz mental, ela se levanta, vai a passos lentos até a prateleira do seu amado guarda-roupa, pega a sua gasta e sublinhada Harpa Cristã, um antigo e tradicional hinário da igreja evangélica, e, mesmo não tendo uma voz de cantora profissional, começa a cantar bem alto, enchendo os cômodos de louvor.
O seu hino favorito de todos, aquele que ela fecha os olhos marejados e canta com a alma, é um que fala profundamente sobre ser lavado, salvo e curado “Pelo Sangue”. Ao entoar e declarar esses belos louvores a Deus, ela sente uma paz indescritível e a poderosa presença de Deus enchendo o ambiente humilde, e, como num passe de mágica espiritual, a escuridão, a depressão e a vontade de morrer vão embora pelo ralo. Para complementar e ajudar na cura interna, ela agora faz acompanhamento terapêutico e psicológico gratuito no posto, para saber lidar com maturidade com os graves traumas e pesadelos do abandono familiar, e relata com grande alegria que está indo muito bem, reconstruindo passo a passo, como num mosaico, a sua autoestima despedaçada e o seu adormecido amor-próprio dia após dia de luta.
Quanto à sua antiga família de sangue distante lá do Maranhão, os próprios irmãos que de forma cruel a expulsaram e a escorraçaram de casa no momento de maior desespero, ela diz, com a sabedoria de quem sofreu, que orou e já perdoou no fundo do coração para não carregar a doença do ódio, mas prefere, para sua própria segurança emocional, manter a absoluta distância e nenhum contato. “Deus sabe o que faz e já tirou aquele ranço e rancor do meu peito, mas eu não gosto de ficar lembrando e de falar sobre eles. Eu digo a verdade: prefiro mil vezes hoje o carinho e o amor de um estranho da rua do que a falsidade da minha família de sangue. Se eles realmente me quisessem bem e me amassem, não teriam me jogado fora; estariam comigo, cuidando de mim nas piores horas”, desabafa com uma sinceridade que chega a doer em quem ouve. Hoje, a verdadeira, sólida e presente família de Maria é formada por João, o homem que lhe estendeu a mão, são as amigáveis vizinhas que passam pelo portão e lhe dão bom dia e um sorriso, são as atenciosas irmãs da igreja que a abraçam sem nojo, carinhosamente, e que de vez em quando sentam na varandinha e tomam um simples, mas afetuoso, café com leite e farinha na segurança de sua cheirosa casa.
O maior sonho guardado a sete chaves no coração da vida de Maria, aquele sonho secreto que, quando o repórter perguntou, ela parou de falar, respirou bem fundo, fechou os olhos deformados e começou a narrar com o coração acelerado e transbordando de uma imensa esperança, não tem nada a ver com luxo. Não é ganhar prêmios milionários, rios de dinheiro, carros de luxo ou roupas de marca caras. O seu maior, verdadeiro e único sonho dourado é, um dia, antes de morrer, conseguir através das mãos de Deus ter, registrado em cartório no seu nome, o seu próprio e definitivo lar. Uma casinha muito simples, pode ser bem pequena, não importa o tamanho, mas que seja a sua, um pedaço de chão que ninguém possa tomar, para que ela nunca, mas nunca mais na vida, precise passar e reviver a dor da humilhação, da agonia e do medo asfixiante de ser despejada e enxotada no fim do mês por não conseguir pagar o pesado aluguel. Muitas pessoas cruéis, maldosas e sem coração já cruzaram o seu sofrido caminho na vida, apontaram o dedo na sua cara e lhe disseram com maldade: “Tu perdeu tudo, tu é deficiente e pobre, tu nunca vai ter uma casa própria, tu vai acabar morrendo sendo uma velha mendiga nas calçadas”. Mas Maria, que aprendeu a lutar e a apanhar da vida, levanta a cabeça, e com a força gigante de uma verdadeira guerreira sertaneja e a fé inabalável de quem sobreviveu, pelo poder de Cristo, ao impossível, sempre responde com voz alta: “Jamais! Isso é mentira do inimigo. Uma verdadeira serva e filha do Senhor jamais, em hipótese alguma, ficará desamparada e jogada ao relento”.
A longa, triste, mas inspiradora história de vida de Ana Maria Cabral e de seu maravilhoso e fiel esposo João não é apenas um simples relato jornalístico sobre dores físicas, o preconceito de uma grave doença e o desespero do abandono no mundo. É, sem a menor sombra de dúvidas, muito acima de tudo isso, um dos maiores e mais impactantes manifestos sobre a força silenciosa e inquebrantável do resiliente espírito humano em querer sobreviver. É sobre a beleza da solidariedade entre os mais pobres, sobre a urgente e vital importância de jamais julgarmos e apontarmos o dedo para as pessoas baseados apenas pelas aparências e feridas de seus corpos, e, essencialmente, sobre o absurdo, restaurador e poder milagroso e divino do amor verdadeiro. Aquele amor genuíno, como o de João, que enxergou, com olhos de empatia, muito além da casca e das feridas purulentas, que conseguiu enxergar a beleza da alma, ignorando um rosto mutilado pela dor e um corpo extremamente sofrido e estigmatizado pela sociedade.
Um amor sem medidas que resgatou uma mulher perdida e deprimida do fundo do abismo escuro das ruas, que limpou suas feridas com paciência, a levou para casa e lhe devolveu a vida, um sorriso e, o mais valioso de tudo, a capacidade de voltar a sonhar com o futuro. Mesmo com a perna inchada, a falta de pão na mesa e os ventos do despejo soprando contra a sua porta, Maria e João seguem juntos, firmes como uma rocha. Todos os dias, eles andam pela vida de mãos dadas, de cabeça sempre erguida para o céu, enfrentando o cansaço e a incerteza de um dia de cada vez, chorando e rindo juntos na pequena sala de casa, confiando e acreditando piamente que, no tempo certo, exato e perfeito de Deus, e através do amor das pessoas daquela campanha na internet, a tão sonhada, pintada e pequena casinha própria finalmente chegará para eles, provando a todos que as tempestades violentas que arrancam as telhas no dia de hoje se transformarão na mais linda, duradoura e eterna bonança na manhã do amanhã.