TAXISTA CONTA QUE LEVOU PASSAGEIROS QUE JÁ HAVIAM SIDO ENTERRADOS

Passei devagar por ela e olhei pelo retrovisor. Não sei dizer exatamente a idade, mas parecia muito jovem, talvez uns 12 ou 13 anos. O que mais me chamou a atenção foi o jeito dela: a menina parecia desnorteada. Ela não estava pedindo carona, não levantou o braço, não tentou chamar minha atenção; simplesmente estava ali, olhando para a estrada como se não soubesse para onde deveria ir.

Continuei alguns metros, mas não consegui ir embora. Eu tinha filhos e imediatamente pensei no que faria se fosse uma filha minha sozinha numa estrada daquele jeito, naquele horário. Parei o carro, engatei a ré e voltei lentamente até onde ela estava. Baixei o vidro: “Menina”, ela olhou para mim. “Está tudo bem?” Ela não respondeu imediatamente.

Eu perguntei: “O que você está fazendo aqui sozinha a essa hora?” Ela ficou olhando para mim por alguns segundos. Depois respondeu: “Estou indo para casa.” Olhei ao redor: não havia casa nenhuma por perto. “Sua casa fica aqui?” Ela apontou na direção da cidade: “Fica para lá.” Perguntei onde estavam os pais dela.

A menina abaixou a cabeça e não respondeu. Naquela hora, comecei a imaginar que talvez tivesse brigado com alguém ou saído escondida de casa. Poderia ter acontecido qualquer coisa, mas deixá-la sozinha ali estava fora de questão. “Quer que eu leve você?” Ela levantou os olhos novamente: “Pode?” “Posso. Você me fala onde mora.”

Ela abriu a porta traseira e entrou. Esperei que fechasse a porta e voltei para a estrada. Olhei pelo retrovisor: a menina estava sentada no banco de trás com as mãos juntas sobre o colo. “Como você se chama?” Ela me disse o nome. Eu ouvi perfeitamente naquele momento. O estranho é que, por algum motivo, hoje não consigo me lembrar dele.

Posso recordar a estrada, posso recordar o lugar onde ela estava. Consigo lembrar até do modo como ela me olhou, mas o nome desapareceu completamente da minha memória. Continuei dirigindo. “E onde você mora?”, perguntei. Ela explicou. Conhecia mais ou menos a região indicada; não ficava exatamente dentro da cidade.

Precisávamos seguir por aquela estrada por algum tempo e depois entrar em outro caminho. Perguntei: “Sua família sabe que você está voltando?” Ela respondeu apenas: “Minha mãe está em casa.” Achei melhor não fazer muitas perguntas. Talvez estivesse assustada comigo também; afinal, eu era um homem desconhecido oferecendo carona no meio da madrugada.

Continuei dirigindo. Alguns minutos depois, olhei novamente pelo retrovisor. Ela estava olhando pela janela. Não parecia mais perdida; na verdade, parecia muito tranquila. Quando chegamos a uma bifurcação, perguntei: “É por aqui?” “Pela esquerda.” Virei. A estrada ficou ainda mais estreita. Seguimos mais alguns minutos até que ela falou: “É aquela casa.” Vi uma casa simples, um pouco afastada da estrada.

Havia um pequeno portão na frente e um caminho que levava até a entrada. Encostei o táxi: “Chegamos.” Ela não disse nada. Olhei rapidamente para a casa: estava tudo escuro. Pensei que talvez a mãe estivesse dormindo. Como aquela menina era muito nova e já era madrugada, não achei certo simplesmente deixá-la no portão e ir embora. Desliguei o carro.

“Vou chamar sua mãe.” Abri a porta e desci. Caminhei até o portão, entrei e fui em direção à casa. Quando cheguei à porta, bati. Nada. Esperei alguns segundos e bati novamente. Dessa vez houve movimento lá dentro: uma luz se acendeu. Pouco depois a porta se abriu. Era uma senhora. Ela olhou para mim assustada: “Pois não?”

Eu disse: “Desculpe incomodar a senhora a essa hora. Eu sou taxista. Encontrei uma menina sozinha na estrada e ela me passou este endereço.” A expressão daquela mulher mudou. Ela ficou parada olhando para mim, então perguntou: “Que menina?” Eu virei na direção do carro: “Ela está ali.” Apontei para o táxi e foi nesse momento que percebi que o banco traseiro estava vazio.

Por alguns segundos, eu fiquei olhando para o carro sem entender. A porta traseira estava fechada, o banco vazio. Eu ainda dei dois passos para a frente, pensando que talvez ela tivesse se abaixado ou passado para o outro lado sem que eu percebesse, mas não havia ninguém. Olhei para a estrada; também não vi movimento algum. A senhora continuava na porta esperando uma explicação. “Ela estava no carro”, eu disse. “Eu a trouxe até aqui.” A mulher apertou os olhos: “Como era essa menina?” A pergunta me deixou desconfortável. Descrevi como pude a idade aproximada, o cabelo, o jeito dela, a roupa simples. A senhora levou a mão até a boca.

Na hora pensei que talvez eu tivesse encontrado uma filha que havia fugido de casa. “A senhora a conhece?” Ela não respondeu de imediato. Ficou olhando para mim de um jeito que eu nunca esqueci. Depois perguntou: “Onde você a encontrou?” Expliquei o trecho da estrada. Quando terminei, a mulher pareceu perder a força nas pernas, segurou-se na lateral da porta e respirou fundo.

“Entre um pouco.” Eu disse que não precisava, que queria apenas ter certeza de que a menina estava bem, mas ela insistiu. Entrei. A casa era simples: havia poucos móveis e uma luz fraca acesa na sala. A mulher pediu que eu esperasse e entrou em outro cômodo. Eu fiquei parado perto da porta, ainda pensando que a menina poderia ter saído do carro e entrado pelo quintal sem que eu tivesse visto.

Pouco depois, a senhora voltou segurando uma fotografia. Ela estendeu a foto para mim. Olhei. Meu corpo inteiro gelou: era a menina. Não apenas parecida; era ela. O mesmo rosto, o mesmo cabelo. Até a expressão na fotografia tinha alguma coisa daquele olhar que eu tinha visto pelo retrovisor. “É ela”, respondi. “Foi essa menina que eu trouxe.”

A senhora baixou a cabeça. Eu perguntei: “Ela é sua filha?” A mulher confirmou. Então veio uma frase que eu demorei alguns segundos para compreender: “Minha filha morreu.” Eu fiquei olhando para ela. Achei que tivesse ouvido errado: “Como assim?” “Ela morreu há alguns anos.” Eu não respondi.

A mulher continuou segurando a fotografia e contou que a filha havia morrido ainda muito jovem. Eu olhava para a foto e tentava encontrar alguma explicação: talvez eu tivesse me confundido, talvez fosse alguma irmã, talvez uma parente muito parecida. Perguntei: “A senhora não tem outra filha parecida com ela?” “Não.” “Uma sobrinha?”

Ela balançou a cabeça: “Não.” Minha primeira vontade foi sair dali. Não por medo da senhora, mas porque minha cabeça começou a repassar toda a viagem: a menina entrando no carro, a porta fechando, a voz dela, as direções, ela dizendo que a mãe estava em casa. Eu tinha conversado com aquela menina, ela tinha me mostrado o caminho.

Não era uma sombra, não era alguma coisa que vi rapidamente na estrada: ela entrou no meu táxi e permaneceu no banco traseiro durante vários minutos. Perguntei à senhora onde a filha tinha morrido. Ela ficou em silêncio, depois apontou para a direção de onde eu tinha vindo: “Naquela estrada.” Senti um aperto no peito.

Ela explicou que a menina havia sofrido um acidente naquela região. Não entrei em detalhes: naquela hora eu já não queria saber mais nada. Apenas devolvi a fotografia. A mulher percebeu que eu estava assustado: “Você não é o primeiro que fala que viu minha filha por ali.” Essa frase piorou tudo.

“Como assim?” Ela disse que, ao longo dos anos, algumas pessoas afirmaram ter visto uma menina próxima daquele trecho. Nem sempre acontecia da mesma maneira: alguns paravam, outros diziam que ela caminhava pela beira da estrada, mas ninguém, segundo a senhora, tinha chegado até aquela casa com ela dentro de um carro. Eu não sabia o que responder. Olhei novamente para fora.

Meu táxi continuava parado diante da casa. De repente, eu não queria voltar para dentro dele. Mesmo assim, agradeci à senhora e me despedi. Ela veio comigo até o portão. Antes de eu sair, falou: “Obrigada por trazer ela para casa.” Aquilo me atingiu de um jeito estranho. Não respondi. Entrei no carro.

Antes de dar a partida, acendi a luz interna. Olhei o banco traseiro, passei a mão pelo estofado: não havia nada. Fechei as portas e comecei a voltar. Durante todo o caminho, olhei várias vezes pelo retrovisor. Eu sabia que o banco estava vazio; mesmo assim, não conseguia evitar. Quando cheguei à cidade, já não quis continuar trabalhando.

Fui direto para casa. No dia seguinte, contei para um colega taxista. Ele riu, disse que eu estava cansado e devia ter imaginado parte daquilo. Outro falou que talvez uma garota tivesse me enganado e saído do carro enquanto eu caminhava até a casa. Durante algum tempo, tentei aceitar essa explicação, mas havia um problema: a fotografia.

Eu tinha visto aquela fotografia, e a mulher não sabia que eu apareceria em sua casa naquela madrugada. Também não tinha como saber como eu descreveria a menina antes de me mostrar a foto. Por muitos anos, evitei aquela estrada durante a madrugada. Se aparecesse uma corrida naquela região, eu fazia durante o dia sem problema; mas à noite, sempre que podia, procurava outro caminho.

Com o tempo, tentei deixar aquela história para trás. Eu ainda precisava trabalhar, tinha família, contas, e taxista não pode parar de dirigir porque viu alguma coisa que não consegue explicar. Achei que aquela seria a experiência mais estranha que eu teria dentro de um táxi. Eu estava enganado. Anos depois, já na década de 1980, aconteceu outra coisa.

Dessa vez foi dentro da cidade e, ao contrário da menina da estrada, esse passageiro entrou no meu carro em um lugar cheio de gente. Era uma noite de semana. Eu estava trabalhando próximo ao hospital municipal. Naquela época era comum os taxistas ficarem perto de hospitais, rodoviárias e bares esperando corrida.

Já estava tarde, mas ainda havia movimento na entrada do hospital. Vi algumas pessoas saindo: funcionários, familiares de pacientes. Um homem se aproximou do táxi; parecia ter uns 50 anos. Vestia roupa escura e estava sozinho. Abriu a porta traseira e entrou: “Boa noite.” Ele respondeu baixo.

Perguntei para onde queria ir. Deu o nome de uma rua que eu conhecia. Era um bairro residencial, não muito longe dali. Liguei o taxímetro e saí. No começo não achei nada estranho: o homem apenas não parecia disposto a conversar. Isso era comum: alguns passageiros falavam durante toda a corrida; outros entravam, davam o endereço e não diziam mais uma palavra. Eu respeitava.

Seguimos por algumas ruas. Em determinado momento, olhei pelo retrovisor: ele estava olhando pela janela. Perguntei: “O senhor estava visitando alguém no hospital?” Ele demorou um pouco para responder: “Estava.” Só isso. Continuei dirigindo.

Alguns minutos depois, ele falou: “Quando chegar perto da praça, vire à direita.” Eu disse: “Sei onde é.” Ele ficou quieto novamente. Chegamos ao bairro. Aquela região era tranquila, principalmente à noite: poucas pessoas na rua, algumas casas ainda com luz acesa. Quando entramos na rua indicada, o homem se inclinou um pouco para a frente:

“Pode parar naquela casa?” Vi uma residência alguns metros adiante. Encostei em frente ao portão, puxei o freio de mão, olhei para o taxímetro e disse o valor da corrida. Não ouvi resposta, então me virei. O banco traseiro estava vazio. Na mesma hora senti aquele frio no corpo que eu conhecia muito bem.

Fiquei olhando para o banco traseiro sem conseguir reagir: o homem não estava mais lá. Olhei para a porta do lado direito: estava fechada. Olhei para a outra: também estava. Minha primeira reação foi pensar que ele tivesse descido sem eu perceber. Pode parecer impossível, mas quando você trabalha muitas horas dirigindo, às vezes se distrai por alguns segundos.

Pensei que talvez, enquanto eu olhava o taxímetro, ele tivesse aberto a porta e saído rapidamente. Então olhei para a casa: não havia ninguém no portão. Olhei pelos retrovisores, procurando alguém caminhando pela calçada. A rua estava vazia. Baixei o vidro: “Senhor?” Esperei. Nada. Desci do táxi.

Olhei embaixo das árvores, para os dois lados da rua e até atrás do carro. Ninguém. Aquilo não fazia sentido: eu tinha parado havia poucos segundos. Mesmo que ele tivesse saído sem pagar, eu deveria vê-lo correndo ou entrando em algum lugar. Foi quando olhei para a casa diante da qual ele tinha pedido para parar.

Pensei que talvez tivesse entrado rapidamente pelo portão. Eu estava irritado também; até aquele momento ainda tentava tratar aquilo como um passageiro que tinha fugido para não pagar a corrida. Atravessei a calçada e bati palmas diante do portão: “Ô de casa!” Uma luz se acendeu.

Esperei. Pouco depois, uma mulher apareceu na janela e perguntou quem era. “Desculpe incomodar. Sou taxista. Acabei de trazer um senhor para este endereço.” Ela abriu a porta, mas permaneceu perto da entrada: “Que senhor?” Expliquei que havia pegado um passageiro em frente ao hospital e que ele próprio tinha indicado aquela casa.

A mulher pareceu confusa: “Aqui?” “Aqui mesmo. Ele pediu para parar exatamente na frente.” Perguntei se algum homem de aproximadamente 50 anos morava ali. Ela perguntou como ele era. Descrevi o passageiro. Quanto mais eu falava, mais séria ela ficava. Quando terminei, ela perguntou: “Você disse que pegou ele onde?” “No hospital.”

Ela ficou em silêncio. Eu já conhecia aquela sensação: era o mesmo tipo de silêncio que eu tinha enfrentado anos antes diante daquela senhora na estrada. E eu não queria ouvir o que viria depois. A mulher abriu o portão: “Espera um pouco.” Entrou na casa. Eu pensei em ir embora, de verdade. Já tinha perdido o dinheiro da corrida e não queria descobrir mais nada.

Mas alguma coisa me fez permanecer ali. Ela voltou acompanhada de um homem mais jovem. Ele me perguntou novamente o que tinha acontecido. Contei tudo desde o começo: o passageiro tinha entrado no meu táxi em frente ao hospital, dado aquela rua como destino e, chegando ali, apontado justamente para aquela casa. O rapaz perguntou: “Ele falou alguma coisa durante o caminho?” “Quase nada.”

“Falou algum nome?” “Não. Tinha certeza de que queria vir para cá. Foi ele que me mostrou a casa.” Os dois se olharam. Então a mulher falou: “Pela descrição, parece meu marido.” Eu perguntei: “Ele está aí?” Ela respondeu: “Meu marido está internado.” Naquele momento, senti um alívio. Pode parecer estranho, mas aquilo me pareceu uma explicação:

talvez ele tivesse recebido alta, saído do hospital e voltado para casa sem avisar a família. Talvez tivesse entrado pelo fundo enquanto eu estava procurando na rua. “Então deve ser ele”, falei. “Talvez tenham dado alta.” A mulher balançou a cabeça: “Não, ele está muito doente, não consegue sair sozinho.”

O rapaz disse que era filho deles. A mulher então entrou novamente e voltou com uma fotografia. Quando vi, reconheci o homem: era meu passageiro. Não tive dúvida: “É esse.” O filho perguntou: “Tem certeza?” “Absoluta. Foi esse homem que entrou no meu carro.” A mulher começou a ficar nervosa. Perguntei havia quanto tempo ele estava internado.

Ela disse que já fazia alguns dias e que o estado dele tinha piorado. Foi aí que o filho resolveu telefonar para o hospital. Eu permaneci perto do portão. Não consegui ouvir direito a conversa, apenas algumas palavras. Depois de alguns minutos, ele voltou: o pai continuava internado, não tinha recebido alta, não tinha deixado o hospital.

Eu olhei para o táxi; a partir dali já não sabia mais o que pensar. Diferentemente do caso da menina, aquele homem estava vivo — pelo menos era o que eu entendia naquele momento. A mulher quis saber exatamente onde eu o tinha encontrado. Expliquei a entrada do hospital onde ele havia entrado. Ela perguntou que horas eram.

Eu disse aproximadamente o horário. O filho ficou pensativo. Depois me perguntou uma coisa de que até hoje lembro: “Ele parecia doente?” Pensei antes de responder: “Não. Ele estava sério e falava pouco, mas caminhou normalmente até o carro. Abriu a porta sozinho, entrou e ficou sentado durante toda a viagem. Não parecia um homem incapaz de sair de uma cama.” A mulher começou a chorar.

Eu me arrependi de ter ido até aquela porta. Não queria deixar aquela família mais preocupada. Disse que poderia ter me confundido, mas nós três sabíamos que eu estava apenas tentando aliviar a situação. Eu tinha reconhecido a fotografia. Despedi-me e voltei para o carro. Dessa vez, antes de entrar, abri a porta traseira, olhei o banco, passei a mão pelo assento, depois entrei e fui embora.

Naquela noite continuei trabalhando. Talvez tenha sido minha maneira de não pensar no assunto. Nos dias seguintes, evitei passar em frente ao hospital, mas aquela corrida não saía da minha cabeça. Algum tempo depois, encontrei outro taxista que costumava trabalhar naquela região e contei o ocorrido.

Ele conhecia a família. Foi por ele que soube que o homem havia morrido pouco tempo depois. Não sei dizer exatamente quantos dias se passaram, então prefiro não afirmar; só sei que ele não voltou para aquela casa, pelo menos não da maneira que todos esperavam. Durante anos, tentei comparar aquela experiência com a da menina, mas eram diferentes.

A menina estava morta havia anos quando entrou no meu carro; aquele homem ainda estava internado. Às vezes me perguntei se ele estava sonhando no hospital e, de alguma forma, eu participei daquele sonho; se foi uma confusão minha, se peguei outra pessoa extremamente parecida com ele. Só que, novamente, havia detalhes difíceis de ignorar:

ele sabia o endereço, reconheceu a rua, apontou a casa e eu reconheci seu rosto na fotografia. Depois daquele segundo caso, comecei a olhar para o meu trabalho de outra maneira. Não fiquei com medo de passageiros, não abandonei o táxi, continuei trabalhando normalmente; mas nunca mais tive tanta certeza de que todas as pessoas que entram em um carro durante a madrugada estão simplesmente indo de um lugar para outro.

Os anos passaram, envelheci. Ouvi histórias de outros motoristas, algumas muito mais assustadoras que as minhas. Nunca soube quais eram verdadeiras e quais tinham sido aumentadas depois de tantas vezes contadas. Eu quase nunca falava das minhas: a menina da estrada ficou guardada comigo, o homem do hospital também.

Talvez eu tivesse continuado tratando aqueles acontecimentos como duas coisas estranhas que ocorreram durante décadas de trabalho se não fosse por uma terceira experiência. Essa não aconteceu no meu táxi, não havia passageiro desconhecido, não aconteceu numa estrada deserta nem diante de um hospital: aconteceu na minha própria casa.

E talvez por isso tenha sido a única vez em que eu parei de procurar uma explicação, porque a pessoa que vi naquela noite era alguém que eu conhecia desde criança: era meu pai. Na época, meu pai já era um homem de idade. Nós não morávamos juntos, mas mantínhamos contato. Ele tinha aquele jeito antigo de homem criado no interior, que não falava muito sobre sentimentos.

Nunca foi de abraçar toda hora ou dizer que sentia saudade, mas eu sabia que ele gostava de mim e ele sabia que eu gostava dele. Naquele dia eu tinha trabalhado normalmente. Não havia recebido nenhuma notícia grave sobre meu pai, nada que me fizesse pensar que alguma coisa estivesse para acontecer. Cheguei em casa cansado, jantei e fiquei algum tempo acordado.

Já era noite quando ouvi o portão. Não foi um barulho forte: foi aquele som comum de alguém empurrando o portão para entrar. Eu conhecia aquele barulho. Olhei na direção da frente da casa e vi meu pai entrando. Não foi de relance, não foi uma sombra: era ele. Reconheci o jeito de andar, reconheci o porte e reconheci as roupas.

Meu pai atravessou o portão e seguiu em direção ao corredor lateral da casa. Eu estranhei: “Pai?” Ele não respondeu. Levantei: “Pai!” Continuei vendo-o caminhar. Naquele momento eu não estava com medo: eu só queria saber por que meu pai tinha aparecido na minha casa àquela hora e por que não respondia. Fui atrás dele.

Quando cheguei ao corredor, ainda consegui vê-lo seguindo adiante: “Pai, espera aí!” Ele virou a esquina do corredor. Eu fui logo atrás: não demorou nem alguns segundos. Quando virei também, não havia ninguém. Parei no meio do corredor, olhei para a frente, depois para trás: “Pai?” Nenhuma resposta. Fui até o final do corredor: nada.

Procurei no quintal, olhei perto da porta dos fundos e voltei para a frente da casa. Meu pai não estava em lugar nenhum. A primeira coisa que pensei foi que ele tivesse saído novamente pelo portão enquanto eu dava a volta. Fui até a rua, olhei para os dois lados: não havia ninguém. Voltei para dentro, ainda tentando entender.

Eu tinha visto meu pai, não tinha dúvida: vi quando ele entrou pelo portão e acompanhei seus passos até o corredor. Era o jeito dele de andar, eram as roupas que eu conhecia. Só não entendia por que ele não tinha respondido. Naquela época não existia celular; se você queria saber de alguém, precisava telefonar para a casa da pessoa quando havia telefone disponível, mandar recado ou ir até lá.

Pensei em procurar meu pai naquela mesma noite, mas já estava tarde. Também comecei a duvidar de mim mesmo: talvez ele tivesse passado apenas para me ver e ido embora; talvez eu tivesse me confundido sobre onde ele tinha entrado. Tentei encontrar uma explicação simples, só que uma coisa me incomodava: meu pai não teria entrado na minha casa, me ouvido chamar duas vezes e ido embora sem dizer uma palavra.

Isso não combinava com ele. Minha esposa percebeu que eu estava estranho e perguntou o que tinha acontecido: “Eu vi meu pai entrando aqui.” Ela me olhou sem entender: “Seu pai?” “Ele entrou pelo portão agora.” Expliquei que tinha ido atrás dele e não o encontrara. Ela perguntou: “Você tem certeza de que era ele?” “Tenho.”

Fomos olhar novamente. Nada. O portão estava fechado, a casa estava como antes. Minha esposa tentou me tranquilizar, disse que eu estava cansado, que tinha trabalhado o dia inteiro e talvez tivesse visto alguém passando pela rua e me confundido. Mas eu sabia a diferença entre alguém passando na rua e meu próprio pai entrando pelo portão.

Ainda assim, não quis discutir. Fui dormir, ou pelo menos tentei. Demorei muito para pegar no sono; toda vez que fechava os olhos, lembrava da imagem dele entrando. O que mais me perturbava não era o desaparecimento: era o silêncio. Eu chamava e ele continuava andando. Em determinado momento da madrugada, acabei dormindo.

Na manhã seguinte, acordei com alguém me chamando. Não lembro exatamente quem veio trazer a notícia depois de tantos anos: algumas coisas ficaram muito claras na minha memória e outras desapareceram, mas lembro das palavras. Meu pai tinha morrido. Na hora não pensei em mais nada: perguntei quando fora e, quando me disseram que ele havia falecido na noite anterior,

eu fiquei parado. Minha cabeça voltou imediatamente para o portão, para o corredor, para as roupas, para o jeito dele de andar. Perguntei o horário aproximado. Quando ouvi a resposta, percebi que tinha sido naquela mesma noite, perto do momento em que o vi entrando na minha casa. Não sei dizer hoje se foi exatamente no mesmo minuto;

seria mentira minha afirmar isso, pois já se passaram muitos anos. Mas foi naquela noite — a mesma noite em que vi meu pai entrar pelo meu portão. Foi muito diferente das outras duas experiências: com a menina da estrada, eu senti medo quando descobri que ela havia morrido; com o passageiro do hospital, senti confusão porque naquele momento o homem ainda estava vivo;

mas com meu pai eu não senti medo: senti tristeza e uma sensação que demorei muito para entender. Durante o velório, olhei várias vezes para ele e me lembrava da noite anterior. Era impossível não pensar: aquelas eram as feições do homem que eu tinha visto entrar na minha casa. Eu conhecia meu pai desde que nasci;

não precisava de fotografia, não precisava que alguém confirmasse: era ele. Por muito tempo guardei aquilo comigo. Algumas pessoas da família souberam. Quando eu contava, sempre aparecia alguém tentando explicar: diziam que talvez eu estivesse preocupado com ele e meu cérebro criara aquela imagem; outros diziam que podia ter sido um sonho, mas eu não estava dormindo.

Eu me levantei, eu chamei por ele, eu caminhei atrás dele, vi meu pai entrar naquele corredor e, quando fui atrás, ele simplesmente não estava mais lá. Com o tempo, parei de discutir sobre o que aconteceu. Não havia motivo: se alguém dissesse que acreditava, eu aceitava; se alguém dissesse que era impossível, eu também aceitava.

Eu estava lá e isso bastava para mim. Hoje, quando penso nas três experiências, percebo como cada uma foi diferente. A menina da estrada eu nunca tinha visto antes; o homem do hospital também era um desconhecido. Meu pai, não. Meu pai eu conhecia melhor do que qualquer um daqueles passageiros. Talvez seja justamente por isso que esse último acontecimento tenha mudado a maneira como passei a enxergar os outros dois.

Durante muitos anos, achei que pudesse ter sido enganado pela menina. Depois pensei que tivesse confundido o homem do hospital com outra pessoa. Mas como explicar meu pai? Eu não tenho essa resposta e talvez nunca tenha. Trabalhei como taxista durante mais de 30 anos: se eu contasse todas as coisas estranhas que ouvi dentro daquele carro, provavelmente daria para escrever um livro.

Mas ouvir uma história é diferente de viver uma. Essas três eu vivi. Ainda consigo me lembrar daquela estrada de terra iluminada apenas pelos faróis, da menina sentada no banco traseiro indicando o caminho de casa, da senhora abrindo a porta durante a madrugada, da fotografia em suas mãos. Anos depois, lembro daquele homem entrando no meu táxi diante do hospital,

da voz baixa, do endereço da casa que ele apontou e daquele banco vazio quando me virei para cobrar a corrida. Mas, entre todas essas lembranças, existe uma que nunca perdeu a força: meu pai entrando pelo portão, eu chamando “pai!” e ele seguindo pelo corredor sem olhar para trás. Durante muito tempo, pensei por que ele teria ido até minha casa naquela noite.

Hoje, já velho, prefiro não procurar explicação. Gosto de pensar apenas que, se realmente foi meu pai que eu vi, talvez ele tenha passado por ali uma última vez: não para me assustar, não para avisar que alguma coisa ruim aconteceria, mas talvez apenas para se despedir. Foi por causa dessas histórias que resolvi escrever para a página.

Já faz muito tempo que tudo isso aconteceu e sei que algumas pessoas vão acreditar e outras não. Não quero provar que espíritos existem, também não posso afirmar o que eram aquelas pessoas que encontrei: só sei o que meus olhos viram. E existe uma coisa que aprendi depois de tantos anos dirigindo pelas noites, entrando em ruas desconhecidas e levando pessoas para lugares onde eu nunca tinha estado:

às vezes, uma viagem parece terminar quando o passageiro chega ao destino, mas algumas viagens ficam com o motorista pelo resto da vida. Essas três ficaram comigo e, agora que as contei, ficam também com vocês.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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