“Só mato se pisar comigo e se vier na minha captura”: A trajetória sombria de Piu Piu em Bacabal expõe a miséria, as vinganças banais e a ilusão do crime no andar mais baixo do banditismo.
O universo do crime organizado possui uma estrutura hierárquica bem definida, marcada por profundas desigualdades. Enquanto a opinião pública e os grandes veículos de imprensa voltam suas atenções para os líderes das grandes facções — criminosos que movimentam milhões de reatose vivem escondidos em mansões —, existe um subterrâneo esquecido. No andar mais baixo dessa pirâmide estão os chamados faccionados “pé de chinelo”. São jovens periféricos, buchas de canhão que alimentam guerras locais em bairros pobres do interior do Brasil, sem jamais ver a cor do dinheiro ou o verdadeiro poder. A história de Piu Piu, apelido de um jovem que aterrorizou a cidade de Bacabal, no Maranhão, é o retrato fiel dessa realidade miserável, onde a vida humana vale pouco e o destino final é traçado com violência e esquecimento.

A infância em Trizidela e a fratura das amizades
Bacabal é um dos municípios mais importantes do interior do Maranhão, mas carrega em suas periferias bolsões de extrema vulnerabilidade social. Foi no bairro Trizidela que Piu Piu nasceu e cresceu. Na infância, dividia as brincadeiras de rua, os jogos de futebol e as festas comunitárias com outros meninos da vizinhança. Dentre eles, destacava-se um grupo unido de amigos: Kin, Isaac, Zomin, Curirim e Piu Piu. Os pais se conheciam, frequentavam as mesmas casas e mantinham laços de vizinhança sólidos.



Contudo, a chegada e a expansão de siglas criminosas na região alteraram radicalmente essa dinâmica comunitária. A lógica das facções dividiu jovens que cresceram juntos em lados opostos de uma guerra sangrenta. O grupo de amigos formou uma pequena quadrilha e começou a praticar pequenos furtos e roubos pela cidade. O que começou com delitos patrimoniais rapidamente evoluiu para esquemas mais pesados, culminando no derramamento de sangue. Quando o grupo cruzou a linha dos homicídios, não houve mais margem para retorno.
A espiral de homicídios e a banalidade da violência
Piu Piu e seu comparsa Curirim destacaram-se rapidamente como os membros mais violentos do bando. A transição de pequenos roubos para execuções sumárias ocorreu de forma célere. A primeira vítima oficial de Piu Piu foi um jovem conhecido como Macacau, executado em praça pública. Em pouco tempo, o jovem já acumulava pelo menos quatro mortes em sua ficha, incluindo a de um antigo amigo de infância chamado Yarle.
Em depoimentos e conversas gravadas por autoridades policiais, a motivação apresentada por Piu Piu para tirar a vida de seus afetos de infância assustava pela futilidade. As razões variavam desde simples antipatia pessoal até pequenas desavenças ocorridas durante partidas de futebol na época da escola. No caso de Yarle, Piu Piu admitiu ter tirado a vida do jovem com golpes de faca apenas por futilidade e sádica satisfação pessoal. A escalada de violência fez com que ele acumulasse inimigos a cada novo crime, tornando sua permanência no crime uma questão de sobrevivência armada constante.
Alianças rompidas e a guerra declarada a antigos parceiros
A dinâmica de desconfiança interna destruiu o que restava do grupo original. Zomin, considerado até então o melhor amigo de Piu Piu, foi brutalmente assassinado. Sem buscar provas conclusivas, Piu Piu atribuiu a autoria do homicídio aos seus outros dois antigos companheiros de infância: Isaac e Curirim. A partir daquele momento, tomado pelo desejo de vingança, Piu Piu declarou guerra aberta a ambos, prometendo executar qualquer um que se aproximasse deles.
Na tentativa de localizar seus alvos, Piu Piu foi até a residência de um indivíduo apelidado de Satã, que era cunhado de Isaac. Como não o encontrou em casa, localizou-o em um bar próximo e efetuou disparos contra ele. A tentativa de homicídio fracassada alimentou um novo ciclo de vingança: Isaac passou a caçar Piu Piu para vingar o atentado contra seu cunhado, enquanto Piu Piu continuava no encalço de Isaac para vingar a morte de Zomin. As ameaças mútuas passaram a ser gravadas em vídeos e áudios que circulavam em redes sociais e aplicativos de mensagem.
A rivalidade com Carlinhos Bolota e a escalada nas redes
Enquanto trocava ameaças com os rivais locais, Piu Piu acabou entrando em rota de colisão com um criminoso de maior hierarquia na região, conhecido como Carlinhos Bolota. Diferente do grupo de Piu Piu, Bolota possuía conexões diretas com lideranças faccionadas de patamar superior e ostentava uma ficha criminal extensa, sendo considerado pelas forças de segurança como um elemento de altíssima periculosidade.

A rivalidade entre os dois intensificou-se através de vídeos provocativos publicados na internet. Piu Piu exibia armas artesanais, como garruchas e pistolas adaptadas, e gravava mensagens desafiando Bolota e o grupo rival. Em resposta, Bolota jurou Piu Piu de morte. A tensão só não culminou em um confronto imediato porque Piu Piu acabou sendo preso pelas forças policiais de Bacabal, o que esfriou temporariamente o conflito nas ruas e interrompeu a sequência de atentados no bairro Trizidela.
O caos no bairro, a queda de Isaac e a rotina de pequenos roubos
Durante o período em que Piu Piu esteve custodiado no sistema prisional, o bairro continuou sob o terror imposto por Isaac. No entanto, a trajetória de Isaac no crime terminou de forma trágica ao se envolver no assassinato de um policial militar da região. Após o homicídio do agente, as forças de segurança iniciaram buscas intensas que culminaram na localização do suspeito. Ao reagir à abordagem policial, Isaac foi baleado e morreu no local.
Com Isaac morto e Curirim preso, Piu Piu retornou às ruas após cumprir pena e encontrou o cenário favorável para assumir o controle das ações criminosas na comunidade. Sem rivais diretos no bairro, ele passou a operar de forma autônoma, praticando uma série de roubos para se manter. Sem acesso a grandes esquemas de tráfego ou armas de alto calibre, seus alvos principais eram motocicletas antigas e de baixo valor comercial, que muitas vezes nem sequer conseguiam ser vendidas no mercado ilegal.
O confronto final com as forças policiais e o fim da linha

A rotina de pequenos assaltos e a ostentação de armas em vias públicas mantiveram Piu Piu sob o radar constante das polícias civil e militar do Maranhão. O desfecho da trajetória do criminoso ocorreu entre os anos de 2019 e 2023, período em que ele tentou se consolidar como a principal liderança violenta da Trizidela.
Durante uma incursão policial para apurar o roubo de um veículo, Piu Piu foi localizado por agentes de segurança. Ao perceber a aproximação das equipes, o jovem optou por não se render e disparou contra os policiais, iniciando uma troca de tiros. No confronto, ele foi atingido por diversos disparos, não resistiu aos ferimentos e faleceu antes de receber atendimento médico hospitalar.
A miséria oculta por trás da ilusão do crime organizado
A trajetória de Piu Piu em Bacabal exemplifica a realidade nua e crua do andar inferior do crime organizado no Brasil. Ao longo de toda a sua vida no banditismo, não houve registros de acúmulo de bens, veículos de luxo, roupas de grife ou grandes quantias em dinheiro. As armas utilizadas eram em sua maioria artesanais ou obsoletas, e muitos dos envolvidos operavam sem sequer possuir calçados adequados.
Ao final do ciclo de violência, as famílias desses jovens, historicamente pobres, acumularam dívidas e traumas emocionais. Em diversos casos da região, o custo dos sepultamentos precisou ser coberto por auxílios assistenciais da prefeitura local. Longe de alcançar o status ou a riqueza prometidos pela vida faccionada, esses criminosos serviram apenas como estatística violenta, mortos em confrontos banais sem que as grandes lideranças nacionais das facções jamais soubessem de suas existências.