‘Sente-se. Sua Mãe Está Aqui.’ – As Primeiras Palavras de Chico Que Mudaram Aquela Noite
Em 1967, um diretor de rádio de nome Artur Mendonça chegou a Uberaba numa manhã de terça-feira com um dossiê de 14 páginas, um gravador de couro marrom e um propósito que ele próprio descreveu depois como a convicção mais sólida que já tinha carregado na vida. Tinha depoimentos gravados, documentação legal assinada e o respaldo financeiro silencioso de um grupo de investidores que queria o programa no ar antes do final do ano. A missão era reunir provas suficientes para destruir a reputação de Chico Xavier.
Saiu de Uberaba seis meses depois, sem ter publicado uma única palavra, e passou os 23 anos seguintes defendendo publicamente o homem que havia vindo destruir. Existe uma carta escrita à mão por Artur Mendonça em 1990. Ele tinha 65 anos quando a escreveu. Morreu três anos depois. A carta chegou à Federação Espírita Brasileira em 2003, endereçada ao presidente da organização, com um bilhete manuscrito pedindo que fosse guardada.
Quem a encontrou, anos depois, vasculhando os arquivos da federação, foi um pesquisador que estudava o histórico de investigações jornalísticas sobre espiritismo no Brasil. O relato que ele publicou passou por alguns veículos e parou, mas o conteúdo daquela carta ficou, e é ele que você vai ouvir agora. Segundo a correspondência de Arthur e os depoimentos de pessoas que estiveram ligadas a essa história, o relato começa com um documento notariado e termina numa sala de sessão espírita, com uma cadeira de madeira vazia ao lado de Chico Xavier.
Entre esses dois pontos, há uma investigação que desmoronou completamente. Uma mulher que construiu um depoimento falso com detalhes escolhidos com cuidado, um sócio que fez ameaças com um advogado em *standby*, e uma carta psicografada que continha quatro informações que Artur passou meses tentando explicar e nunca conseguiu. A carta de Artur começa com uma frase: “Sempre me pergunto o que teria acontecido se eu tivesse chegado 5 minutos mais tarde.” Você vai entender o que ele quis dizer quando chegar ao fim dessa história.
Mas antes de chegar lá, há cinco coisas que ficam sem resposta quando você ouve pela primeira vez o que aconteceu em outubro de 1967, e essas cinco coisas são o que vai fazer você ficar até o final. A primeira: o que estava escrito exatamente nesta carta psicografada que Chico Xavier entregou naquela noite a um homem que ele nunca tinha visto antes? Artur descreve o conteúdo na correspondência de 1990, mas há um trecho específico que ele se recusa a transcrever.
Escreve apenas que era uma frase que nunca saiu de dentro de casa e que qualquer pessoa de fora não teria como saber. Que frase era essa? A segunda: por que Eulália Gonçalves de Souza, a mulher cujo depoimento notariado era a base legal de toda a investigação, viajou de Patos de Minas para Uberaba, sem que ninguém tivesse pedido isso? E o que Arthur encontrou quando foi ao cartório que destruiu completamente a versão dela?
A terceira: o que Osvaldo Drumont fez quando Artur ligou dizendo que o projeto estava acabado? E por que Arthur descreveu esse telefonema na carta de 1990 como o momento mais difícil de toda a história? Mais difícil que a própria noite na sessão. A quarta: o que aconteceu na sala dos fundos do Centro Espírita quando Artur sentou sozinho com Leandro, o responsável do grupo, e saiu de lá disposto a encontrar Chico Xavier pessoalmente?
E a quinta, que é a única para a qual não existe resposta documentada: por que Chico Xavier parou de escrever no meio da sessão, levantou a cabeça e olhou direto para um homem que nunca tinha entrado naquele lugar? Que nunca tinha dado o nome, que estava sentado no meio de outras 60 e tantas pessoas, e disse exatamente o que disse?
Artur Mendonça tinha 42 anos em 1967. Nascido em Belo Horizonte, formado em jornalismo pela Universidade Federal de Minas Gerais, era diretor de programação da Rádio Triângulo, emissora que cobria quase todo o Triângulo Mineiro e que tinha construído sua reputação em reportagens sobre a administração pública. Antes disso, 12 anos de redação diária. O tipo de homem que verifica data em documento público antes de citar, que lê contrato até a última cláusula, que desconfia de testemunho oral sem nada embaixo.
A investigação sobre Chico Xavier não tinha sido ideia dele. Tinha chegado em março de 1967, na forma de um envelope com o nome da emissora escrito à mão. Dentro do envelope havia um depoimento notariado de três páginas, assinado por Eulália Gonçalves de Souza, viúva, 56 anos, moradora de Patos de Minas. O depoimento descrevia o seguinte: no início de 1965, Eulália tinha ido a uma sessão de psicografia em Uberaba e recebido uma carta psicografada por Chico Xavier com palavras do espírito do seu marido falecido.
Nessa carta, o marido pedia que ela entregasse toda a poupança que ele tinha deixado, 38.000 cruzeiros, ao grupo espírita responsável pelo evento. Ela disse que obedeceu. Três meses depois, quando voltou pedindo que o dinheiro fosse devolvido porque o filho mais novo estava com tuberculose e precisava de tratamento, o responsável do centro lhe disse que Chico Xavier não controlava os recursos da organização e que a decisão de fazer a doação havia sido dela. 38.000 cruzeiros em 1965: dinheiro suficiente para comprar uma casa de dois quartos em Uberaba com troco.
Osvaldo Drumont, codiretor da rádio e responsável pelos contratos de publicidade, foi quem abriu o envelope. Quando Artur chegou à redação naquela manhã, o documento estava em cima da mesa com uma anotação à caneta vermelha: “Pode ser grande, precisa apurar.” Artur leu as três páginas, devolveu e disse: “Vou verificar se tem mais.” Havia mais.
Osvaldo tinha contatos numa diocese de Belo Horizonte que acompanhava o crescimento do espiritismo no Brasil com atenção crescente. Esses contatos tinham outros quatro depoimentos, nenhum notariado, todos de terceiros, com histórias de estrutura parecida: pessoas que diziam ter tomado decisões financeiras com base em orientações de sessões espíritas e que depois não puderam reverter.
O problema era que esses quatro depoimentos não tinham substância. Anônimos, sem data precisa, sem nenhum documento embaixo. Eulália era a única peça com peso legal, e foi em cima dela que Osvaldo montou o projeto. Um programa especial de investigação jornalística com patrocínio confirmado e data prevista para novembro de 1967. Artur na frente da apuração. Os investidores ligados à diocese bancando os custos.
Um advogado em Belo Horizonte esperando o material para montar a estratégia de publicação. Havia também uma dimensão política que Artur só entendeu completamente mais tarde. Certos grupos dentro da Igreja Católica de Minas Gerais acompanhavam o crescimento dos centros espíritas com uma preocupação que ia além do debate teológico. O programa de rádio era conveniente para mais de uma agenda.
Tudo dependia de Artur ir a Uberaba e construir o caso. Mas havia coisas que Artur não sabia quando embarcou. A primeira: que o depoimento de Eulália tinha uma fissura que só aparecia quando você puxava um fio que parecia sem importância. A segunda: que havia uma sessão marcada no Grupo Espírita da Prece para o dia 18 de outubro e que, naquela sessão, algo ia acontecer que ninguém no grupo tinha previsto.
E a terceira, segundo a carta de 1990, era a mais difícil de articular: que havia uma pergunta que Artur carregava fazia mais de três anos sobre uma tarde de sábado com chuva pesada em Belo Horizonte, e que essa pergunta estava prestes a receber uma resposta que ele não pediu e que não estava pronto para receber. O que vem agora é mais pesado que o que você ouviu até aqui.
Artur chegou a Uberaba e se instalou num hotel pequeno na Avenida Leopoldino de Oliveira. Passou o primeiro dia reorganizando o material, o dossiê. As perguntas, os contatos fornecidos por Osvaldo na cidade. Os dois primeiros contatos foram decepcionantes: um jornalista local que cobria a política municipal e tinha muito na memória e pouco em papel; um contador aposentado com rancor antigo de quando seguiu uma orientação espírita num negócio que deu errado.
Histórias de terceiros, versões que variavam conforme quem contava. Arthur anotou tudo, descartou 90%. Na segunda semana, mudou de estratégia. Decidiu ir pessoalmente ao Grupo Espírita da Prece. Não foi como jornalista. Chegou numa quinta-feira perto das 7:30 da noite, sem gravador, sem identificação. A rua na frente do centro já tinha uma fila de uns 30 metros. Gente de todos os tipos: homens de terno, mulheres com crianças no colo, velhos com bengala, jovens que olhavam pro chão com aquela qualidade de silêncio que não é timidez.
Do lado de fora, enquanto esperava a porta abrir, uma mulher mais velha, que estava na fila à sua frente, começou a falar. Disse que vinha ali fazia 12 anos. Ela esperava por alguma confirmação sobre o destino do filho que tinha perdido num acidente de caminhão e que um mês antes, numa sessão naquele mesmo centro, uma carta psicografada por Chico Xavier tinha chegado com o nome do filho e com a descrição de uma conversa que ela e o filho tinham tido numa madrugada, dois dias antes do acidente, quando mais ninguém estava em casa. Ela disse, sem que a voz quebrasse: “Nunca contei isso para ninguém. Quem sabia daquela conversa era só ele e eu.”
Artur anotou mentalmente. Disse que entendia. A mulher não perguntou se ele era jornalista. Entrou quando as portas abriram. Ficou de pé perto da parede do fundo. O salão era simples. Paredes brancas com marcas de umidade no rodapé, cadeiras de madeira enfileiradas como numa sala de aula antiga. O chão de cimento pintado de cinza, desgastado no centro pelo trânsito de anos e anos de gente passando, fluorescentes no teto com uma luz fria que não favorecia ninguém.

Na frente, uma mesa longa coberta com toalha branca dobrada nas pontas com precisão, e um cheiro específico. Incenso de cedro no primeiro plano. Embaixo do incenso, o cheiro de um espaço que recebe muita gente há muito tempo: perfume barato, algodão lavado, respiração coletiva que impregna o reboco das paredes com os anos. Mais de 70 pessoas dentro daquela sala. E um silêncio que Arthur descreveu na carta de 1990 como o tipo de silêncio que faz a sua própria respiração parecer intrusiva.
Chico Xavier entrou pela porta lateral uns 20 minutos depois. Paletó escuro, óculos de armação grossa, cabelo liso penteado com divisória lateral. Vinha conversando em voz baixa com Leandro, o responsável do grupo, um homem magro de cabelos brancos que Artur mais tarde ia conhecer pelo nome. Chico atravessou o salão sem olhar para ninguém em particular, sentou na cadeira do lado direito da mesa, ajustou os óculos, pegou o lápis.
A expressão dele era difícil de catalogar. Artur voltaria a essa dificuldade várias vezes nos anos seguintes, tentando encontrar a palavra certa. A mais próxima que chegou foi: parecia a expressão de alguém que estava no lugar certo do corpo, mas com a atenção completamente em outro lugar, como se estivesse ouvindo alguém falar numa frequência que só ele recebia. Leandro leu uma oração em voz alta. A sala inteira inclinou a cabeça.
Artur ficou de pé com os olhos abertos. Depois da oração, o lápis de Chico encostou no papel. Durante 45 minutos, Arthur monitorou de longe. Estudou cada detalhe que conseguia enxergar. O ângulo da mão sobre o papel, a velocidade do lápis, a posição dos ombros, para onde os olhos iam. O lápis se movia rápido e depois devagar. E depois rápido de novo, num ritmo que não parecia planejado. Chico não olhava pro papel. Os olhos estavam fechados a maior parte do tempo.
No final, Leandro chamou 16 nomes; 16 cartas distribuídas. As pessoas foram uma por uma até a mesa e receberam o papel dobrado com as duas mãos abertas, como quem recebe algo que pode quebrar. Algumas liam ali mesmo, em silêncio completo. Uma mulher de cabelos grisalhos leu a carta dela, fechou os olhos por quase 30 segundos com os lábios tremendo e saiu da sala com a mão tapando a boca.
Artur saiu sem falar com ninguém. No hotel, abriu o caderno e escreveu: “O espetáculo é convincente, mas é um espetáculo. Preciso entender o método.” Voltou na semana seguinte. Desta vez conseguiu uma cadeira na quarta fila da esquerda, a uns 5 metros da mesa, linha de visão mais próxima para o rosto de Chico Xavier. Antes de entrar, parou num café perto do centro. Estava sentado numa mesa quando o dono, ao ver que Artur olhava na direção do Grupo Espírita da Prece, perguntou se ele ia à sessão.
Artur disse que sim. O homem, um padeiro de uns 50 anos, disse que ele mesmo tinha ido anos atrás, quando a mulher estava internada com um câncer que os médicos tinham dado como terminal. Disse que Chico tinha psicografado uma carta com palavras da sogra da mulher, morta 20 anos antes, descrevendo o quarto do hospital com um detalhe que ninguém, segundo ele, tinha como saber: uma mancha em forma de folha no canto superior direito do teto que a mulher ficava olhando nas noites sem dormir. O padeiro disse: “Eu estive naquele quarto. A mancha existia. Nenhuma explicação simples me convence de que é coincidência.”
Arthur ouviu, agradeceu, não perguntou mais nada. Mas esse tipo de relato, que aparecia toda vez que ele falava com alguém da cidade sobre o assunto, era a parte que complicava o raciocínio. Não podia usar esses depoimentos para nada legalmente, mas também não conseguia simplesmente descartá-los como fabulação coletiva de uma cidade inteira.
Na segunda sessão, durante as duas horas de observação de perto, não encontrou nada que pudesse identificar como fraude: nenhum papel preparado com antecedência, nenhuma consulta a arquivos antes de começar, nenhuma interação suspeita com o público, nenhum assistente circulando informação. Ausência de evidência de fraude não é evidência de autenticidade. Artur repetia isso para si mesmo quando voltava para o hotel, mas havia uma pergunta mal resolvida que não saía.
Enquanto isso, em Belo Horizonte, a pressão de Osvaldo aumentava semana a semana. As ligações de quinta-feira à noite tinham mudado de tom. No começo, eram perguntas: “Como está indo? O que você tem? Precisa de mais gente?” Agora eram lembretes: “O patrocínio foi pago. A gráfica tem prazo. Os investidores querem confirmação antes de outubro.” Nos últimos minutos de cada ligação, havia sempre uma frase solta que Artur passou a reconhecer como aviso disfarçado de comentário casual.
Osvaldo dizia algo como: “Espero que você esteja lembrando do que está em jogo aqui.” Artur sempre dizia que estava lembrando, mas havia algo no dossiê que não parava de incomodar. Artur tinha relido as três páginas de Eulália umas seis vezes naquelas semanas e, em cada releitura, um detalhe ficava um pouco mais incômodo. Ela descrevia ter entregue 38.000 cruzeiros em espécie ao grupo espírita, sem recibo, sem testemunha, em mãos. Qualquer repórter com experiência em investigação financeira reconhece esse padrão.
Precisão excessiva nos detalhes secundários e vagueza cuidadosa nos pontos que podiam ser verificados externamente. Eulália sabia exatamente qual era a cor da toalha que cobria a mesa naquela sessão de 1965, mas não conseguia dizer quem tinha recebido o dinheiro das mãos dela. Havia uma pergunta que ele ainda não tinha feito. Eles se encontraram numa tarde quente de outubro num café da Rua Vigário Dantas. Eulália tinha chegado a Uberaba por conta própria, não porque Artur a tivesse chamado. O jornalista local, que servia de ponte entre os dois, tinha avisado que ela queria ampliar o depoimento. 56 anos, vestido preto de algodão, cabelo preso com presilha de plástico, uma bolsa pequena de couro que parecia mais velha do que ela. Artur a deixou falar primeiro. Ela repetiu a história como quem lê de um papel que sabe de cor. Artur anotou.
Quando ela terminou, fez a pergunta. “Disse que antes de ir ao centro espírita, a senhora tinha alguma outra dívida em aberto que o marido tivesse deixado?” A xícara de café ficou parada no ar. Ela disse: “Não, claro que não”, mas demorou um segundo para dizer. E esse segundo era do tipo que Arthur tinha aprendido a contar durante anos de entrevista: uma hesitação específica, o peso de uma palavra verdadeira sendo substituída pela palavra errada no último momento possível. Artur não pressionou.
Agradeceu, anotou e deixou o café terminar como se tivesse ficado satisfeito. Mas naquela mesma tarde, do quarto do hotel, ligou pro cartório de Patos de Minas. Pediu que verificassem se havia inventário registrado em nome do marido de Eulália entre 1964 e 1965. O funcionário disse que precisaria de três dias. Três dias era exatamente o intervalo até a próxima sessão no Grupo Espírita da Prece.
E havia uma razão, que Artur, na carta de 1990, descreveu como inexplicável, mesmo depois de décadas tentando articulá-la, que naquela sessão ele decidiu entrar de verdade, sentar na frente, ficar perto, ver o que não tinha conseguido ver nas outras vezes. Segundo o próprio Artur, a única coisa que conseguiu escrever sobre essa decisão foi: “Não sei por que fui. Só sei que fui.”
Dirceu Figueiredo, ex-colega de Artur, que deu depoimento num documentário espírita em 1997, confirmou que Artur usou essa mesma frase mais de uma vez ao longo dos anos, sempre que tentava explicar o que o levou a estar naquela sala naquela noite específica. A sessão do dia 18 de outubro de 1967 começou às 8 da noite. Artur chegou às 7:45. Fez o caminho do hotel a pé, uns 12 quarteirões. O casaco fechado contra o frio seco do cerrado naquele fim de outubro.
As ruas de Uberaba, àquela hora, estavam quietas; os postes de luz laranja fazendo manchas ovais no cimento molhado de uma chuva que tinha caído mais cedo. O Grupo Espírita da Prece estava com a luz dos corredores acesa lá de longe, visível de dois quarteirões de distância. A sala estava quase lotada. Conseguiu uma cadeira na quarta fila da esquerda, a 5 metros da mesa de Chico Xavier. Colocou o casaco no encosto, cruzou os braços, esperou. Às 8 em ponto, Chico entrou pela porta lateral.
Vinha conversando em voz baixa com Leandro. Sentou na cadeira de sempre, ajustou os óculos, olhou pra sala uma vez de forma geral, sem fixar em ninguém, pegou o lápis. Leandro leu a oração de abertura. A sala inteira inclinou a cabeça. Artur ficou com os olhos abertos, as mãos nos joelhos. Depois da oração, o lápis de Chico encostou no papel e o silêncio daquele lugar ficou diferente, mais espesso, mais presente do que em qualquer das outras sessões.
Por 45 minutos, Arthur monitorou, como nas vezes anteriores, procurando o erro, o desvio, a irregularidade que explicasse. Faltando uns 15 minutos pra sessão acabar, o lápis de Chico Xavier parou súbito, como se um fio tivesse sido cortado. O lápis ficou parado no papel. Os ombros de Chico subiram levemente, como quem recebe um peso novo. E devagar, muito devagar, ele levantou a cabeça, olhou pra esquerda, pra quarta fila, direto para Artur.
O silêncio, que já estava na sala, ficou mais espesso ainda. Leandro, do outro lado da mesa, também voltou os olhos na mesma direção. Pessoas na terceira fila viraram o pescoço discretamente. Chico Xavier colocou o lápis no porta-lápis e se levantou da cadeira. Não foi um gesto brusco, foi o gesto de alguém que segue uma instrução que chegou com total clareza. Deu dois passos em direção à quarta fila da esquerda. Parou.
“Sente-se. Sua mãe está aqui.” Artur não se mexeu. Tantas pessoas na sala e ninguém se mexeu. Chico Xavier estava olhando direto para ele com aquela expressão de sempre, o olhar de quem escuta algo que mais ninguém ouve, mas com uma adição: uma atenção específica, como um foco que não admite erro sobre o alvo. A mão esquerda aberta, apontando levemente pra cadeira vazia ao lado dele, esperando.
Arthur descreveu essa sensação na carta de 1990 com a precisão de quem passou décadas tentando encontrar as palavras certas. Escreveu que foi como sentir o chão se abrir por baixo de um degrau que você não esperava encontrar. As mãos ficaram frias primeiro. Depois o calor subiu pela nuca e pela garganta. E dentro daquele calor havia algo que ele levou muito tempo para nomear: a forma que a culpa toma quando alguém de fora, sem que você tenha pedido, a chama pelo nome correto.
Sua mãe, Dona Maria das Dores Mendonça, nascida em Diamantina, filha de mineiros, professora primária aposentada. Morreu em fevereiro de 1964 de insuficiência cardíaca, num sobrado na rua Sapucaí, em Belo Horizonte. O velório foi num sábado de chuva pesada que encharcou a calçada de pedra da rua. Artur estava cobrindo uma eleição municipal em Sete Lagoas quando o carro quebrou no meio da estrada. Chegou quando o caixão já estava fechado. Nunca perdoou isso a si mesmo. Ninguém naquela sala sabia o nome de Artur Mendonça. Tinha chegado como visitante anônimo, sem assinar nada, sem falar com ninguém do grupo antes, igual às outras vezes.
Chico Xavier ficou parado esperando com a cadeira vazia ao lado. Artur Mendonça, 42 anos, jornalista. O homem que tinha chegado a Uberaba com um dossiê de 14 páginas para destruir esse homem se levantou da cadeira, caminhou até a frente, sentou. O que aconteceu nos 20 minutos seguintes está descrito na carta de 1990 com uma honestidade que desconcerta qualquer leitura. Arthur admite que não consegue garantir que lembrou de tudo com precisão. Escreve que havia um estado naquela sala (usa essa palavra exata: estado), sem conseguir especificar melhor, que dificultava a memória ordenada. Como tentar se lembrar de um sonho que foi intenso, mas que escorregou assim que o dia começou.
Chico Xavier pegou uma folha de papel limpa e o lápis. Começou a escrever mais rápido que antes, a cabeça levemente inclinada, olhos fechados, o lápis cobrindo o papel linha por linha, sem parar. Artur ficou ao lado, os joelhos quase encostados nos joelhos de Chico, olhando o papel se encher de palavras que não conseguia ler da posição em que estava. Depois de um intervalo que ele não soube calcular, talvez 12 minutos, talvez menos, Chico parou, dobrou o papel em três partes e entregou para Artur com as duas mãos abertas.
Artur abriu. A carta tinha três parágrafos. O primeiro começava com um apelido. Artur não transcreve o apelido na correspondência de 1990. Escreve apenas que era um apelido que a mãe usava desde que ele era menino, que nunca existiu em nenhum documento, que nunca saiu de dentro de casa, que qualquer pesquisa prévia, qualquer conversa interceptada, qualquer informação de terceiro, não teria como chegar até aquele apelido. O segundo parágrafo descrevia uma tarde de março de 1953, uma rua chamada Rua do Burgalhal, em Diamantina, uma casa de família conhecida que ele e a mãe visitaram naquele dia. Num corredor daquela casa, sozinhos, a mãe tinha dito uma frase sobre uma decisão que Artur tinha tomado naquele período da vida.
Uma decisão que nunca tinha contado para ninguém além dela. A frase estava na carta, descrita por Artur como sendo exatamente igual, palavra por palavra, ao que a mãe tinha dito naquele corredor num dia de março de 1953. O terceiro parágrafo era o mais curto dos três. Dizia que ela sabia que ele tinha chegado tarde no sábado da chuva e que estava tudo bem. Arthur leu o terceiro parágrafo três vezes, dobrou o papel e ficou sentado naquela cadeira de madeira por um tempo que, segundo pessoas que estavam na sala naquela noite e que foram ouvidas pelo pesquisador que publicou o relato em 2003, durou uns 15 minutos depois que a sessão terminou formalmente e a maior parte da sala já tinha esvaziado. Depois saiu pela porta principal, sem falar com ninguém. O que você teria feito no lugar de Artur, com um dossiê de 14 páginas de um lado e uma carta dobrada no bolso do casaco do outro, sem explicação que coubesse dentro do raciocínio que tinha usado a vida toda? Deixe nos comentários. Quero saber como você teria reagido.
Os sete dias seguintes foram os mais difíceis de toda aquela história, e Artur passa quase duas páginas da carta de 1990 descrevendo cada linha de raciocínio que tentou seguir. Pesquisa prévia? Impossível. Ninguém sabia que ele ia aparecer naquela sessão. Tinha chegado sem avisar, sem se identificar. Coincidência? Descartada com uma frase direta na carta: Quatro acertos simultâneos e independentes (o apelido, a Rua do Burgalhal, a frase de março de 1953 e o sábado da chuva) não formam coincidência. Formam outra categoria de coisa que Arthur disse não ter nome adequado para chamar. Memória falsa, confabulação? A hipótese de que estava construindo correspondências que não existiam ficou descartada porque a carta estava na mão dele, física, com palavras que podia reler, e releu muitas vezes. Foram sete dias de pouco sono, muito café e longas caminhadas pelas ruas de Uberaba de madrugada, com o casaco fechado contra o frio do cerrado.
Arthur descreveu essas caminhadas como a única forma que encontrou de manter o raciocínio funcionando sem entrar em colapso: colocar um pé na frente do outro, olhar pro chão de pedra portuguesa, deixar as perguntas circularem sem tentar forçar uma resposta antes da hora. Havia uma frase que Artur escreveu no caderno durante esses sete dias. Não está na correspondência de 1990, mas segundo Dirceu Figueiredo, que viu o caderno uma vez, estava lá escrita com letra pressionada: “A prova que eu vim buscar existe, só que ela aponta para outra coisa.” E foi no sétimo dia que o cartório de Patos de Minas retornou. O funcionário confirmou: havia inventário registrado em nome do marido de Eulália. Entre os itens listados constava uma dívida com um agiota local, 18.000 cruzeiros, contraída em 1963 e quitada em meados de 1965, a mesma época em que Eulália disse ter dado o dinheiro ao centro espírita de Uberaba.
Arthur ligou para Eulália. Ela demorou para atender. Quando atendeu, ficou em silêncio por alguns segundos antes de qualquer palavra. Artur disse que tinha os documentos do cartório, que a dívida estava registrada, que a data batia, e disse que não estava lá para julgá-la, que só queria entender o que tinha acontecido de verdade. Do outro lado da linha, mais silêncio. O tipo de silêncio de quem está decidindo se ainda faz sentido continuar carregando algo sozinha. E então, Eulália contou. O marido tinha contraído a dívida com o agiota sem que ela soubesse. Quando ele morreu, a dívida ficou para ela. O agiota começou a cobrar de um jeito que ia além de palavras.
Ela usou a poupança para pagar, mas não podia contar isso para os filhos. O mais velho trabalhava na cidade do agiota e a memória do pai precisava ficar intacta para que o filho continuasse tendo segurança onde trabalhava. A história do Centro Espírita tinha sido a saída que ela encontrou, uma versão que explicava o desaparecimento do dinheiro sem revelar as dívidas do marido morto. Ela nunca tinha ido a nenhuma sessão de psicografia, nunca tinha recebido nenhuma carta. O depoimento inteiro era inventado. Artur ficou em silêncio do outro lado da linha por um tempo. Depois disse: “Obrigado, dona Eulália.” Em voz baixa, desligou. Ficou olhando pro dossiê de 14 páginas em cima da escrivaninha do quarto. A base inteira do projeto estava ali, e agora estava vazia.
Ligar para Osvaldo foi o passo seguinte, e o mais difícil de toda aquela história. Osvaldo não gritou. Com Osvaldo, o perigo nunca vinha gritando. Ficou em silêncio por quase 40 segundos depois que Artur terminou de explicar. Artur contou os segundos. Depois, Osvaldo falou em voz baixa que ia verificar se havia alguma forma de salvar o programa, que os compromissos existiam, que o dinheiro dos patrocinadores já tinha entrado, e que se Arthur achava que ia simplesmente abandonar o projeto e voltar para Belo Horizonte, como se nada tivesse acontecido, ia descobrir que as coisas não funcionavam assim. Disse que ia ligar pro advogado. Disse: “O meu advogado.”
Havia uma implicação nessa frase que Arthur entendeu completamente: se Osvaldo quisesse, podia construir uma versão dos fatos em que Arthur tinha sabotado a investigação por interesse próprio, destruído o material, feito acordos não autorizados com o lado investigado, virado de lado. Seria a palavra de Artur contra a dele. E Osvaldo tinha os investidores, os contatos na diocese e o peso financeiro do lado dele. Artur desligou o telefone e ficou olhando pela janela do quarto de hotel. A rua lá embaixo estava quieta. Uma loja de ferragem com o toldo fechado, um cachorro passando devagar por um canteiro de cimento, um poste de luz laranja fazendo uma mancha oval no asfalto molhado. Ficou quatro dias sem decidir nada e foi nesse período de espera que voltou ao Grupo Espírita da Prece. Não para uma sessão, para conversar com Leandro.
O responsável do grupo o recebeu numa sala pequena, nos fundos do centro: duas cadeiras de madeira simples, um copo d’água em cima de uma mesinha, uma janela com venezianas de madeira que deixava entrar o barulho da rua em tiras finas. Artur colocou a carta dobrada de Chico Xavier em cima da mesa. Leandro olhou para o papel. Não o pegou. Artur disse que precisava entender como aquilo era possível. Leandro disse que não tinha uma resposta técnica para isso. Disse que Chico nunca explicava o processo, que raramente se lembrava do conteúdo das cartas depois que a sessão terminava. Artur perguntou se Chico sabia quem ele era antes daquela noite, se alguém no grupo tinha recebido qualquer informação prévia sobre ele.
Leandro disse que não, com a serenidade de quem está acostumado à pergunta e que parou de se sentir defensivo sobre ela há muito tempo. Depois disse: “Se quiser, pode perguntar a ele diretamente.” Artur aceitou. O encontro com Chico Xavier aconteceu no começo da tarde do dia seguinte, numa sala pequena que dava para um jardim com uma mangueira grande no centro. Chico estava de camisa branca e calças escuras. Havia uma pilha de envelopes ao lado, cartas de todo o Brasil, alguns com fotos coladas no lado de fora. Ele não parecia um homem famoso, parecia um homem muito ocupado. Artur perguntou se Chico lembrava dele da sessão. Chico disse que lembrava do rosto, mas que, durante as sessões, ele não estava no controle do que acontecia.
Disse isso com a naturalidade de quem explica uma característica de uma ferramenta que usa há muito tempo e cujo funcionamento interno nunca precisou justificar. Arthur perguntou se Chico sabia que ele tinha chegado a Uberaba como jornalista com a intenção de investigar. Chico ficou em silêncio por um momento. Os olhos foram para a janela, para o jardim, para a mangueira no centro. Depois disse: “Eu sabia que havia pessoas com dúvidas sinceras e pessoas com outras intenções, mas nunca achei que era meu papel fazer distinção antes de entrar.” Artur olhou pro jardim também, as folhas largas da mangueira, quase sem vento naquela tarde. Perguntou o que estava no terceiro parágrafo da carta, sobre o sábado da chuva. Por que entrou? Chico disse que não sabia o que tinha escrito, que às vezes, quando lhe mostravam o conteúdo das cartas depois das sessões, ele mesmo ficava surpreso com o que saía. Artur ficou olhando para ele por alguns segundos e então fez a última pergunta, a que tinha guardado desde que leu o terceiro parágrafo daquela carta pela primeira vez. Disse: “A carta diz que ela sabia que eu cheguei tarde no sábado da chuva e que estava tudo bem. Mas como eu posso saber se é verdade?” Chico Xavier não respondeu de imediato. Ficou olhando pro jardim, pra mangueira, para as folhas que não se moviam por uns 10 segundos. Depois disse em voz baixa: “Não é possível saber com certeza. Só é possível escolher.”
Artur voltou para Belo Horizonte na semana seguinte. Não publicou nada, destruiu as gravações, devolveu o material para o arquivo da rádio sem o dossiê, e informou que a investigação tinha revelado inconsistências graves nos depoimentos e que não havia base suficiente para um programa de investigação responsável. Foi tudo que disse oficialmente. Osvaldo fez o que tinha dito: contratou o advogado, tentou durante seis meses construir uma versão alternativa dos fatos e reerguer o projeto com outros repórteres. Tentou reacender o interesse dos investidores e dos contatos na diocese. Mas, sem o depoimento de Eulália, que ela formalmente retirou, e sem o material que Artur tinha coletado, o projeto não ficou de pé. Os investidores recuaram um por um. A diocese redirecionou os recursos para outra frente.
Artur saiu da rádio Triângulo em janeiro de 1968. Trabalhou nos anos seguintes em veículos menores. Colaborou com a imprensa regional do interior de Minas. Nunca tocou no assunto publicamente, nunca deu entrevista sobre aqueles seis meses em Uberaba, nunca respondeu às poucas perguntas que jornalistas fizeram em momentos diferentes sobre o programa que não foi ao ar. Mas segundo Dirceu Figueiredo, no documentário espírita de 1997, Artur frequentava todo mês um centro espírita no bairro de Lourdes, em Belo Horizonte, sempre o mesmo centro, sempre sozinho, sempre na quarta fila. Dirceu disse que uma vez perguntou diretamente o que ele buscava lá. E Artur respondeu com uma frase que Dirceu guardou por décadas: “Eu já encontrei o que fui buscar. Agora só quero ter certeza que ainda está lá.” Você já parou para pensar no que é carregar uma certeza dessa por 20 anos sem poder falar sobre ela em voz alta? Deixe nos comentários. Quero saber o que essa frase faz em você.
Arthur Mendonça morreu em Belo Horizonte em 1993. Tinha 68 anos. Os filhos disseram que, nos últimos dias, ele dormia bem, que estava sereno, que não parecia com medo de nada. Na cabeceira da cama havia um papel dobrado. Os filhos encontraram depois do velório. Não era a carta original de Chico Xavier. Essa tinha sido enviada para a Federação Espírita Brasileira junto com a correspondência de 1990. Era uma cópia que Artur tinha feito à mão. A letra estava mais trêmula que no original, a letra de um homem com as mãos cansadas de muitos anos. Mas as palavras eram as mesmas. Os filhos leram o terceiro parágrafo. Entenderam por que o pai tinha guardado aquilo tanto tempo ali do lado.
A correspondência para a federação termina com uma frase que é a mais difícil de ler de tudo que Arthur escreveu ao longo da vida. Ele diz: “Não sei o que aconteceu naquela sala. Nunca vou saber com certeza, mas sei o que aconteceu comigo depois. E isso, por enquanto, parece suficiente.” Por enquanto. Essa palavra no final. Um homem de 65 anos que ainda não tinha fechado a pergunta, que não precisou fechá-la para continuar vivendo com ela. Tem algo nessa postura que é mais difícil de encontrar do que parece. A maioria das pessoas, quando chega onde Artur chegou, precisa transformar a dúvida numa certeza definitiva em alguma direção. Ele não fez isso. Viveu 26 anos depois daquela sessão de outubro com a pergunta aberta, indo todo mês à mesma quarta fila sem precisar resolver o que não conseguia resolver.
E há uma coisa que fica quando você termina de ler a carta de Artur, que fica quando você para para pensar no que Chico Xavier fez naquela noite. Ele não tentou convencer ninguém, não se defendeu, não argumentou, só disse três palavras para um homem que tinha vindo destruí-lo. Apontou para uma cadeira vazia e esperou. Tem algo nesse gesto que diz mais sobre o que Chico Xavier foi do que qualquer livro, qualquer depoimento, qualquer análise conseguiu dizer. Se esse relato chegou onde tinha que chegar, se fez lembrar de alguém que você perdeu, ou de uma pergunta que você carrega faz tempo sem saber direito o que fazer com ela, acompanhe a página. Aqui tem mais histórias como essa contadas com o cuidado que elas precisam.