Relação entre professora e aluna termina em tragédia | Caso Vitória Romana Graça
A história completa
Vitória Romana Graça tinha apenas 26 anos e morava na zona oeste do Rio de Janeiro. Ela tinha sido adotada ainda bebê logo depois de nascer em Irecê, uma cidadezinha com pouco mais de 70.000 habitantes no interior da Bahia. Ela cresceu ao lado da sua mãe adotiva, Maria Zélia, e do marido dela, que criaram a Vitória como filha única e tinham uma relação extremamente próxima com ela.
Quando criança, a Vitória sonhava em ser médica e trabalhar na área da saúde, tanto que ela chegou a se formar como técnica em enfermagem e até começou uma graduação nessa área. Só que não demorou muito para ela perceber que aquele talvez não fosse o seu caminho. Então, a Vitória trancou o curso e aproveitou a boa nota que ela tinha tirado para começar a cursar Pedagogia na Universidade Estácio de Sá, em Campo Grande, porque assim ela conseguiria estudar mais perto de casa.
E foi aí que, segundo a própria mãe dela, ela acabou se encontrando de verdade. Descrita como uma menina do bem, cristã, inteligente e estudiosa, a Vitória virou professora de inglês e português. Ela fez vários concursos públicos, passou em alguns deles e, inclusive, ela aguardava ser chamada em um concurso da UERJ.
Na época do caso, fazia cerca de quatro meses que ela trabalhava como professora contratada do município na Escola Municipal Oscar Thompson, em Santíssimo, também na zona oeste do Rio. Como a casa dos pais da Vitória era muito grande, ela decidiu aproveitar o espaço para construir uma espécie de escolinha de reforço.
Parte da varanda da casa foi adaptada para virar três salas de aula. A Vitória já tinha três auxiliares trabalhando com ela, e ela queria formalizar aquele projeto, registrar tudo e transformar aquilo em uma escola de verdade. Então, aos 26 anos, ela estava naquela fase da vida em que tudo começava a se transformar profissionalmente.
Ela tinha o emprego, tinha a escolinha, fazia concursos e ainda produzia conteúdo para a internet. A Vitória gostava muito das redes sociais e, no ano de 2017, quando ela tinha por volta de seus 20 anos, ela criou um canal no YouTube chamado *Eu Escolho Deus Channel*, onde ela publicava vídeos cristãos, mensagens motivacionais e alguns momentos da vida com seus pais.
Ao todo, foram 31 vídeos publicados pela página. Já fazia cerca de dois anos que ela não atualizava o YouTube, mas ela continuava usando bastante o Instagram, principalmente para mostrar o seu trabalho como professora. Existiam várias histórias dela falando inglês com os alunos, comemorando quando eles tiravam notas boas, mostrando partes das aulas de reforço.
Então, a educação realmente tinha se tornado uma enorme parte na vida da Vitória. E quem convivia com ela sempre falava muito sobre uma característica específica: a Vitória gostava de ajudar as pessoas. Um amigo próximo descreveu a professora como alguém de mão aberta, muito prestativa, que fazia o que estivesse ao seu alcance quando alguém precisava.
E foi justamente por isso que começou uma situação bastante complicada. Em algum momento de 2023, através do Instagram, a Vitória conheceu uma adolescente de apenas 14 anos que estudava na mesma escola onde ela dava aulas. Após longas trocas de mensagens, as duas acabaram engatando em um relacionamento amoroso. E aqui tem uma coisa que eu acho extremamente importante falar antes de continuar a explicar o caso.
A Vitória tinha 26 anos e essa menina tinha apenas 14. Só que, independentemente de tudo o que aconteceu depois, e obviamente sem usar isso para justificar o que eles fizeram com a Vitória, essa era uma relação completamente inadequada, ou seja, a situação já começou errada. Inclusive, a própria mãe da Vitória não concordava com aquele relacionamento de jeito nenhum.
A Maria Zélia contou que encontrou a menina poucas vezes, apenas três, sempre quando ela estava acompanhada da Vitória dentro da casa da família. E disse que ela nunca chegou nem a saber direito o nome da adolescente, que não teve as informações divulgadas devido à sua idade. Mas uma informação que também precisa ficar clara é que a menina não era aluna diretamente da Vitória.
Ela estudava na mesma escola onde a professora trabalhava, mas não eram na mesma turma. E as duas afirmaram ter se conhecido pelas redes sociais. Esse relacionamento durou aproximadamente quatro meses. E, junto com a menina, a Vitória acabou conhecendo também a mãe dela, Paula Custódio Vasconcelos, de 33 anos, e também outros integrantes da família da adolescente, como um irmão mais velho dela e um tio.
E foi nessa dinâmica que a bondade da Vitória começou a se misturar com assuntos financeiros. Isso porque a família da namorada da Vitória não tinha boas condições. Eles viviam numa casa muito simples em uma comunidade em que muitas vezes faltava até comida. A professora, então, muito comovida, começou a ajudar financeiramente a namorada e também a família dela.
Segundo pessoas próximas, a Vitória chegou a contar que a geladeira da casa da Paula vivia vazia e, por isso, ela comprava cestas básicas, alimentos e outros produtos para a casa. No começo, pelo jeito, a Vitória só fazia isso porque ela queria ajudar. Ela não gostava de ver a namorada dela sofrendo. Só que, olhando para tudo o que a investigação revelou depois, dá para perceber que aquela ajuda, que no começo era apenas pontual, acabou se tornando uma oportunidade que a família da adolescente enxergou para continuar tirando mais e mais coisas da professora. Existe até um episódio contado por um amigo da Vitória que mostra bem essa dinâmica. A Paula, mãe da adolescente, convidou a Vitória para comemorar o aniversário de um dos seus filhos em um rodízio. Eles foram, comeram normalmente e, quando chegou a hora de pagar a conta, a Paula teria simplesmente dito que não tinha dinheiro, e a Vitória acabou pagando a conta de oito pessoas.
Aos poucos, ela começou a perceber que aquilo já estava passando dos limites. Então, a Vitória começou a comentar isso com pessoas próximas. Ela dizia que já tinha ajudado bastante aquela família e que não tinha mais condições de continuar arcando com todas as despesas. Um amigo contou que a Vitória começou a achar que a Paula estava se aproveitando do namoro da filha para obter vantagens financeiras.
E, em determinado momento, o relacionamento da professora com a adolescente terminou. Ela contou para a menina que o término se deu por conta da diferença de idade entre elas, o que as tornava incompatíveis. Mas o verdadeiro motivo mesmo eram as discussões por causa do dinheiro, que tiveram ali um peso importante para que a Vitória decidisse se afastar.
Depois do término, a Vitória bloqueou a adolescente e todos os parentes dela nas redes sociais. E, junto com o fim do relacionamento, ela parou também de ajudar a família financeiramente. Foi aí que a situação começou a ficar ainda mais estranha. Nos últimos dias antes de desaparecer, a própria mãe percebeu que a Vitória não estava completamente normal.
Ela dizia que estava muito cansada, que já não aguentava mais. Só que a Maria Zélia achou que a filha estava falando do trabalho, porque a Vitória realmente fazia muita coisa ao mesmo tempo. Só que, depois que tudo aconteceu, a mãe começou a se perguntar se, na verdade, a Vitória já não estava enfrentando algum problema relacionado àquela família e preferia não contar para não preocupar os pais.
E tudo piorou quando a Vitória tomou uma decisão muito repentina. Pouco tempo antes do crime, ela saiu da casa dos pais e se mudou para uma outra residência. Do nada. A mudança tinha acontecido havia apenas duas semanas e foi tudo muito rápido. A Maria Zélia contou que a filha mal tinha começado a morar direito no novo lugar, o que depois fez a mãe acreditar que a Vitória talvez tivesse saído justamente porque estava sendo ameaçada pela família da ex-namorada.
“A Vitória se mudou tão rápido e sem nenhum motivo. E ela nem estava morando naquela casa direito. Havia acabado de levar as coisas. Foi uma atitude estranha. Na minha cabeça, ela já estava sendo ameaçada há algum tempo e resolveu sair de casa para proteger a gente”, afirmou a Maria Zélia. Mas outros comportamentos da filha também ficaram marcados na mente da mãe.
Em um de seus últimos dias, a Vitória entrou no quarto dos pais, se deitou com os dois na cama, entrou debaixo do cobertor e falou que amava muito os dois. Naquela hora, aquilo parecia apenas mais um momento de carinho entre a filha e os pais. Só que depois, obviamente, a Maria Zélia começou a pensar que aquilo poderia ser um pressentimento, uma despedida da filha.
Até que chegamos no dia 10 de agosto de 2023. Naquela quinta-feira, por volta das 2 horas da tarde, a Paula apareceu na escola onde a Vitória trabalhava, acompanhada do irmão dela, Edson Alves Viana Júnior, que tinha 26 anos, era transexual e tio da adolescente. Guardem esse nome: Edson. A Paula e o irmão conseguiram entrar na escola sem muita dificuldade, porque um dos filhos dela também estudava ali.
Testemunhas contaram que ela procurou a professora Vitória para falar sobre o término do namoro e disse que a sua filha adolescente não estava lidando bem com o fim da relação. A Paula e o irmão queriam convencer a professora a reatar o namoro. Só que a Paula sugeriu que os três conversassem fora da escola, em um lugar mais privado, fora do ambiente de trabalho.
Um amigo da professora ficou sabendo daquela conversa e achou a situação estranha o suficiente para fazer um alerta. Ele disse para a Vitória que, se ela realmente fosse conversar com a Paula, deveria marcar em algum lugar público, de preferência em um shopping, onde teria várias pessoas por perto e diminuiria as chances de algo acontecer com ela.
A Vitória, a princípio, não parecia muito disposta a ir até a casa daquela família, mas acabou concordando em conversar fora do local. Então, depois do trabalho, por volta das 9 horas da noite, a Vitória passou na casa dos pais, e aquela foi a última vez que a Maria Zélia viu a filha ainda com vida. Logo depois de se despedir dos pais, a Vitória saiu dali e foi para o encontro marcado.
Só que depois disso, ela simplesmente desapareceu. A família não tinha mais contato normal com ela. A Vitória não voltou para casa e, ao longo daquela madrugada, começaram a aparecer movimentações estranhas na conta bancária dela. Mas até então a família ainda não sabia disso. O que a Maria Zélia soube primeiramente aconteceu por volta das 5 horas da manhã.
A sua filha Vitória ligou para ela desesperada, aos prantos, dizendo que tinha sido sequestrada, que não sabia onde estava e que aquelas pessoas queriam R$ 2.000 para libertá-la. A mãe tentou perguntar quem tinha feito aquilo, mas a Vitória respondeu que não poderia revelar. Durante as várias tentativas de contato, a Maria Zélia também ouvia vozes de homens e de mulheres, reforçando o pedido de dinheiro e simulando um sequestro relâmpago.
E no meio das ligações, uma frase ficou marcada na mente da Maria Zélia. A Vitória disse: “Mãe, eles vão me matar agora. Já colocaram até a luva.” A Maria Zélia até tentou conseguir esse valor, porém o resgate nunca chegou a ser pago. Sem saber exatamente o que estava acontecendo ou onde procurar a filha, a Maria Zélia foi até a 35ª DP, lá em Campo Grande, para registrar o desaparecimento da Vitória e contar sobre o sequestro da filha.

Enquanto a Maria Zélia ainda acreditava que a filha estava viva em algum lugar, sendo mantida em um cativeiro ou algo do tipo, a polícia já estava sendo chamada para atender uma outra ocorrência. Naquela mesma manhã, por volta das 7h15, moradores da região da Praça Damasco, em Senador Camará, avisaram aos PMs que um corpo tinha sido carbonizado no local. Por volta das 8 horas, equipes foram até lá e encontraram um corpo num estado que impossibilitava qualquer identificação visual. Quase não dava para saber se a vítima era homem ou mulher devido ao grau da carbonização. Só que, naquele momento, para a polícia, aquilo era um caso distinto ao desaparecimento da Vitória. Só que, algumas horas depois, começou a surgir uma ligação entre essas duas ocorrências.
Um vizinho da família da Vitória estava ajudando nas buscas pela professora quando ouviu uma história circulando pela comunidade de Cavalo de Aço. Duas mulheres tinham sido expulsas dali porque estariam envolvidas no sequestro de alguém. Essa informação chegou até os policiais que estavam procurando a Vitória e eles resolveram verificar, descobrindo que essas duas mulheres eram justamente a Paula e a filha dela adolescente.
Mãe e filha então foram encontradas pela polícia naquela tarde, caminhando às margens da Avenida Santa Cruz. Elas tentaram fugir assim que notaram a chegada dos agentes de segurança, mas foram capturadas. As duas foram levadas para a delegacia e a Paula, inclusive, estava com o braço machucado, dizendo que tinha sido agredida durante a expulsão da comunidade.
Mas quando os agentes perguntaram por que elas tinham sido expulsas, as duas disseram que simplesmente não sabiam. Naquele primeiro momento, as duas negaram qualquer envolvimento com o desaparecimento da professora Vitória. A adolescente deu a sua própria versão sem a mãe e disse que tinha tomado um medicamento para dormir na noite do sumiço.
Só que quando ela acordou, percebeu que a sua mãe, Paula, não estava em casa. Então, ela perguntou pro irmão dela de 16 anos onde a mãe estava. E o irmão disse que a mãe deles tinha ido até uma mercearia próxima ali da casa deles para comprar biscoitos. Guardem essa informação. Enquanto os investigadores tentavam entender o papel de cada pessoa naquela história, apareceu um outro problema para a Paula.
Ao consultar a ficha dela, a polícia descobriu que aquela mulher já deveria estar presa muito antes de a Vitória desaparecer. A Paula tinha vários antecedentes relacionados à violência doméstica e a crimes patrimoniais. O primeiro aconteceu em 2010, quando a mulher foi acusada de lesão corporal decorrente de violência doméstica.
Contudo, em 2021, um juiz determinou a extinção da punibilidade dela, ou seja, anulou a possibilidade de ela ser presa. Em 2013, ela havia sido presa por um roubo cometido na companhia de um menor de idade, situação considerada corrupção de menores, um agravante de pena. E no processo consta que ela realizou quatro roubos em um curto espaço de tempo, acompanhada de um menor infrator.
Um trecho da decisão da época diz que a Paula usou um simulacro de arma de fogo, o que denota a extrema ousadia da acusada e a sua conduta social distorcida. Em 2014, ela recebeu uma condenação de mais de 6 anos por esse crime. Ela cumpriu parte dessa pena, progrediu para o regime semiaberto em 2015 e simplesmente fugiu da unidade prisional.
E desde então ela nunca mais tinha voltado. Ou seja, quando mãe e filha foram encontradas caminhando pela Avenida Santa Cruz, a Paula já era considerada foragida da justiça e ela ainda tinha mais 4 anos de pena para cumprir. Só que, enquanto tudo isso acontecia, os peritos ainda tentavam descobrir quem era aquela mulher encontrada. E eles só conseguiram identificar o corpo devido a um detalhe mínimo.
Apesar de praticamente todo o corpo ter sido atingido pelo fogo, uma única impressão digital não tinha sido completamente destruída. Ela foi submetida ao exame de papiloscopia e o resultado confirmou que o corpo encontrado na Praça Damasco era da professora Vitória Romana Graça. A Vitória foi sepultada no domingo, dia 13 de agosto, e, nesse mesmo período, a prisão da Paula foi convertida em preventiva, enquanto a filha adolescente permaneceu apreendida em uma unidade socioeducativa por conta da idade.
Mas a polícia ainda precisava entender o que tinha acontecido durante aquelas horas entre a saída da Vitória da casa da mãe dela e o encontro do corpo. E foi aí que começaram a aparecer várias pistas que ligavam o caso a um crime financeiro. Os investigadores analisaram a conta bancária da professora e descobriram que, durante o período em que ela esteve desaparecida, várias transferências bancárias e PIXs foram feitos.
Quatro transferências foram enviadas para uma conta que pertencia ao Edson, o irmão da Paula. Lembram dele? Foram R$ 500, depois mais R$ 250 e depois mais duas transferências de R$ 100. Além disso, apareceu ainda mais uma transferência no valor de R$ 328, feita para um mercadinho localizado a poucos metros da casa da Paula, justamente aquela mercearia que a adolescente contou no depoimento, onde a mãe dela tinha ido comprar os biscoitos.
Somando todas aquelas movimentações, a conta da Vitória tinha sofrido uma baixa de R$ 12.278 enquanto ela estava desaparecida. Então o Edson, o tio da adolescente, deixou de ser apenas o homem que tinha acompanhado a irmã até a escola naquele dia. Agora havia uma prova clara contra ele: o dinheiro saindo diretamente da conta da vítima e entrando na conta dele.
A polícia começou a procurá-lo e, no dia 16 de agosto, ele finalmente foi encontrado escondido em uma comunidade na zona oeste do Rio. Ele foi preso e levado para a delegacia. E foi só nesse momento que a polícia conseguiu pela primeira vez uma descrição detalhada do que teria acontecido naquela noite, porque o Edson confessou tudo e os detalhes que ele contou são horripilantes.
Segundo o depoimento dele, quando ele e a Paula voltaram da escola naquele dia, a Paula já tinha a intenção de tirar a vida da Vitória e, inclusive, chegou a separar uma mala, dizendo que serviria para despachar a professora. Ainda segundo ele, quando a Vitória chegou à casa naquela noite, acreditando que iria apenas conversar sobre o término do relacionamento, ela foi imediatamente imobilizada pelos irmãos.
A Vitória foi levada até um dos quartos do primeiro andar do imóvel e presa a uma cadeira com uma fita adesiva. Em uma matéria publicada pelo jornal O Globo, eles descreveram exatamente a cena onde tudo aconteceu. A casa da Paula e da adolescente tinha a fachada em tons claros. O imóvel ficava colado em duas residências e tinha dois andares, janelas frontais e uma única porta.
Do lado de dentro, as paredes eram azuis e manchadas por infiltrações. Os cômodos eram todos bagunçados e, no quarto para onde a Vitória foi levada, havia um estrado e um colchão apoiados na parede, que serviam como suporte para várias roupas empilhadas. Logo à frente ficava uma cadeira vermelha de plástico onde a Vitória foi amarrada.
No mesmo cômodo havia um armário preto e branco com gavetas quebradas. Na lateral do imóvel, uma foto da Paula estava cortada e colada, assim como uma imagem da adolescente quando mais nova e a de dois dos seus irmãos. E foi nesse cenário que a Vitória foi mantida por quase 10 horas. A partir dali, segundo a confissão do Edson, começou uma madrugada inteira de extorsões e torturas, com a adolescente ex-namorada da professora vendo tudo.
Os irmãos usaram o celular da professora com a sua impressão digital para conseguir entrar nas contas bancárias dela e fazer inúmeras transferências. Quando já não tinham mais de onde tirar dinheiro das contas dela, a Paula pensou que existia ainda uma outra fonte de onde eles poderiam tirar mais coisas: a própria casa da Vitória.
Então, ainda segundo o Edson, a Paula e a filha dela, a adolescente, pegaram o carro da própria professora e foram até o imóvel para o qual ela tinha acabado de se mudar, enquanto a professora permaneceu amarrada sob a supervisão dele. As duas começaram a retirar vários objetos de dentro do imóvel, como um botijão de gás, roupas de cama, panelas, maquiagem, produtos de beleza, tapetes, pratos e até três canecas que tinham o nome da Vitória.
Elas colocaram tudo no carro e depois voltaram para a casa onde a Vitória continuava presa. Como o dinheiro ainda não era suficiente, o próximo alvo foi a própria família. Foi aí que a Paula e o Edson fizeram aquela ligação para a Maria Zélia e deixaram a Vitória pedir os R$ 2.000 de resgate.
Só que o Edson disse algo no depoimento que mudou completamente a forma como aquela ligação foi interpretada. Segundo ele, mesmo que a Maria Zélia tivesse conseguido pagar os R$ 2.000, a Vitória não seria libertada. A intenção, de acordo com a confissão dele, era tirar a vida dela de qualquer maneira. Então, depois da tentativa frustrada de conseguir mais dinheiro, depois de 9 horas de ameaças, extorsões e roubos, o Edson contou que a Paula pegou uma corda e colocou ao redor do pescoço da Vitória. Ao nascer do sol, por volta das 5h17 da madrugada, os irmãos pegaram cada um uma ponta da corda e começaram a puxar. Eles fizeram uma espécie de cabo de guerra em uma cena totalmente doentia. E, segundo Edson, eles continuaram fazendo esse movimento por 20 a 30 minutos, até a Vitória perder completamente os sentidos. O Edson disse que a adolescente não participou desse ato, mas que ela estava ali no local e assistiu a tudo.
Quando a Vitória deixou de reagir, eles acreditaram que ela já tivesse perdido a vida, mas, mesmo assim, eles decidiram se assegurar. Os irmãos então abriram os olhos da professora e jogaram álcool para ver se existia algum reflexo. Só que, como ela não reagiu, eles colocaram a Vitória dentro daquela mala que a Paula já tinha separado horas antes, e depois colocaram a bagagem no porta-malas do carro da professora e saíram de casa.
A Paula foi dirigindo o veículo, o Edson estava no banco do carona e a sobrinha foi no banco de trás. No caminho, eles pararam em um posto e compraram litros de gasolina. Quando chegaram em uma área mais afastada de Senador Camará, eles tiraram a mala do carro. O Edson abriu uma parte da bagagem, despejou aproximadamente 2 litros de gasolina e ateou fogo.
Os três permaneceram ali até as chamas ficarem muito altas e depois foram embora. Só que quando os laudos do Instituto Médico Legal ficaram prontos, apontaram para uma coisa terrível: a Vitória ainda estava viva naquele momento, já que os peritos encontraram sinais da aspiração de fuligem nas vias respiratórias e concluíram que a Vitória ainda estava viva quando o incêndio começou.
A causa do óbito foi justamente a intoxicação pela fumaça e não a compressão das vias respiratórias. Ou seja, depois de passar praticamente a madrugada inteira amarrada, sendo extorquida, tendo a sua casa roubada e sendo enforcada até perder a consciência, a Vitória ainda estava viva quando eles atearam fogo. Ferragens e pedaços de tecido encontrados na cena também ajudaram a polícia a concluir que ela realmente estava dentro de uma mala naquele momento.
Só que nem mesmo depois disso a busca por dinheiro deles terminou. O Edson contou que, logo após atearem fogo na mala, ele e a Paula ainda foram até um caixa eletrônico 24 horas e ainda conseguiram retirar R$ 1.200 dos cartões da professora. A Paula também entrou em contato com diversas pessoas para tentar vender o carro da professora.
O Celta, que estava com eles, mas como ela não conseguiu, o veículo acabou sendo abandonado por eles e, posteriormente, foi recuperado pela polícia. Só que, antes de os irmãos se separarem para fugir, a Paula entregou o valor de R$ 107 pro Edson. O Edson explicou que ele usou esse dinheiro para comprar entorpecentes. Ele disse em depoimento que era usuário havia anos e que uma das razões pelas quais participou de tudo aquilo foi justamente para conseguir dinheiro de forma rápida para continuar usando.
Ele também afirmou que decidiu ajudar a Paula porque a sua irmã costumava lhe dar dinheiro para ele comprar entorpecentes. Só que, ao mesmo tempo, o Edson negou que qualquer um dos três estivesse sob o efeito de entorpecentes durante o crime. Eles estavam totalmente sãos e a motivação era basicamente extrair todo o dinheiro possível da professora.
Foi também através do depoimento do Edson que a polícia passou a atribuir uma participação mais direta da adolescente, que continuava negando totalmente o seu envolvimento. O Edson contou que a menina ajudou a imobilizar a Vitória quando eles chegaram na casa. Foi ela quem os ajudou a amarrar a professora e, inclusive, ela também foi junto com a Paula para roubar os pertences na casa da Vitória.
Segundo Edson, ela apenas não participou do momento em que a corda foi puxada. A corda, inclusive, permaneceu no pescoço da vítima e foi queimada junto com ela. Poucos dias depois, no dia 19 de agosto, a Polícia Civil informou que o inquérito do caso estava concluído. Os três foram responsabilizados na investigação por extorsão mediante sequestro, com resultado óbito.
Só que o enquadramento jurídico dos adultos ainda passaria por uma mudança importante. Em setembro daquele ano, a juíza da 2ª Vara Criminal de Bangu entendeu que tudo o que tinha sido reunido apontava que a intenção dos adultos já era tirar a vida da Vitória, e não simplesmente conseguir dinheiro. Por conta disso, o processo envolvendo a Paula e o Edson foi encaminhado para o Tribunal do Júri, responsável por julgar crimes dolosos contra a vida. E passou a existir a possibilidade da aplicação da qualificadora de feminicídio, já que o relacionamento da vítima com a adolescente também seria levado em consideração, de acordo com o entendimento do STJ, que a circunstância qualificadora de feminicídio possui natureza objetiva, pois se liga ao gênero da vítima (ser mulher), permitindo o homicídio privilegiado qualificado.
“A competência não se amolda à matéria inerente ao juízo comum”, disse a juíza em sua decisão. A adolescente, por ter apenas 14 anos, não poderia responder criminalmente da mesma maneira que os adultos. O caso dela, então, seguiu no sistema socioeducativo e sob sigilo. E o processo do Edson também passou a tramitar de forma separada.
A Paula estava presa no Instituto Penal Santo Expedito, em Bangu, em uma cela coletiva por escolha própria. Ela não teve visitas, mas, segundo as autoridades, se comportava bem. Já a adolescente estava na unidade feminina de internação provisória no Centro de Socioeducação Professor Antônio Carlos Gomes da Costa. Ela passou por atendimento com a equipe técnica, inclusive com assistência psicológica.
Já o Edson foi levado para a cadeia pública José Frederico Marques. Enquanto isso, a Maria Zélia continuava a enfrentar uma realidade totalmente diferente. Poucos dias depois da perda da filha, a mãe foi até a delegacia buscar alguns pertences que tinham sido recuperados. Em caixas e malas, estavam separadas roupas da Vitória, o botijão de gás que eles roubaram, maquiagem, pratos, tapetes e aquelas três canecas com o nome da professora.
A Maria Zélia reconheceu todos aqueles objetos, já que uma semana antes ela mesma tinha ajudado a filha a organizar as coisas na casa nova, e ela sabia exatamente tudo o que a filha possuía. Ao olhar aqueles objetos recuperados, a Maria Zélia fez a pergunta: “Tiraram a vida da minha filha por tão pouca coisa?” Ela mesma disse que não fazia questão de recuperar nada, pois ela apenas queria a sua filha de volta.
Ao mesmo tempo, a família dela recebeu uma enorme quantidade de apoio. Amigos e vizinhos começaram a preparar o café da manhã, o almoço e o jantar para os pais da Vitória, que já eram bem idosos e tinham uma saúde debilitada. Eles acompanharam a família em diferentes momentos do dia e ajudaram com tudo aquilo que eles não conseguiriam resolver sozinhos.
“Apesar de tudo, temos recebido muito amor e carinho. Tem muita maldade no mundo, mas existe também a bondade. Não sei nem se mereço tudo isso”, disse a mãe. A Maria Zélia contou que uma das partes mais difíceis do dia era justamente o fim da tarde, perto das 6 horas, porque era quando ela estava acostumada a ver a Vitória chegando em casa para começar a dar as suas aulas de reforço.
Mesmo assim, ela preferia lembrar da professora, da menina que cresceu estudando, da fé que carregava e da pessoa que tinha tantos projetos. Até que, mais de 2 anos depois, finalmente chegou o julgamento da Paula. O júri aconteceu no dia 7 de novembro de 2025. Durante a sessão, o Ministério Público sustentou que o crime tinha sido premeditado e que o fim do relacionamento entre a Vitória e a adolescente também representaria o fim da ajuda financeira que a Paula e a família recebiam.
A acusação argumentou que, por isso, foi montada uma emboscada para retirar da Vitória tudo aquilo que ainda fosse possível. A defesa da Paula negou a participação dela no crime e afirmou que não existia nenhuma desavença que pudesse justificar o crime. No entanto, os jurados rejeitaram os argumentos da defesa e acolheram integralmente a tese apresentada pelo Ministério Público.
A ré Paula Custódio Vasconcelos então foi condenada a 64 anos de prisão, em uma pena que não envolvia apenas um crime contra a vida, mas também ocultação de cadáver, extorsão mediante sequestro, roubo duplamente majorado e corrupção de menores. Já o processo do Edson seguiu separadamente e sob segredo de justiça, assim como o caso envolvendo a adolescente.
Porém, as matérias disponíveis não apresentam uma decisão final pública para os dois. O que a família da Vitória espera é que a pena que o Edson pegue seja semelhante à que a Paula pegou, 64 anos. O caso da Vitória gerou muita polêmica, porque uma professora se relacionou com uma adolescente de apenas 14 anos, mas isso não muda absolutamente nada sobre o fato de que a Vitória foi vítima de um crime extremamente frio, planejado e cruel.
Hoje, a Maria Zélia prefere se lembrar da filha de outra maneira. Ela chegou a dizer que acredita que a Vitória esteja em outro lugar fazendo aquilo que mais amava: dando aulas no céu. E essas são as últimas notícias que temos do caso. Se você leu a história até aqui, deixe uma mensagem de carinho pra Maria Zélia, pro pai da Vitória e para todas as pessoas que conviveram com ela e que ainda sofrem com a sua perda.
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