PRECONCEITO E NEGLIGÊNCIA: O CASO NORA DALMASSO

Com as primeiras economias do casal, eles saíram de um apartamento no centro e se instalaram no exclusivo bairro fechado de Villa Golf. Foi na casa do Villa Golf que a Nora projetou um jardim que era especial para todos da família. Ela cuidava pessoalmente das plantas. A vida da família era tranquila e feliz.

Os filhos estudaram no colégio San Ignacio de Loyola, um dos melhores da cidade e de orientação católica. A Valentina cresceu jogando golfe com o pai no clube. Já o Facundo se voltou para os livros, preferia a atividade intelectual ao esporte, e ele se sobressaía em tudo que envolvia estudo. Já a Nora era o centro afetivo da família.

Conhecida carinhosamente como Norita no seu círculo íntimo, ela tinha uma rede vasta de amizades entre as mulheres do bairro. Ela fazia parte de um grupo informal chamado “As Congressistas”, ela e sete amigas que saíam juntas quando os maridos viajavam a congressos. Ela era uma presença constante em eventos sociais, fiel às suas raízes filantrópicas e à vida comunitária de Río Cuarto. Quem a conhecia de perto dizia que era a Nora quem segurava a família.

Ela era a mais tranquila e a que amortecia os atritos. O Marcelo era quem colocava os limites, sempre presente, mas sempre com o trabalho puxando para um lado. Os anos foram passando e a casa deles em Villa Golf foi ficando mais silenciosa. O Facundo foi para Córdoba para estudar direito e a Valentina, aos 16 anos, embarcou para um intercâmbio nos Estados Unidos.

No dia 24 de novembro de 2006, que era uma sexta-feira, a Nora foi almoçar com a mãe dela, depois voltou para casa e aproveitou a piscina sozinha, já que os filhos não estavam em casa e o marido tinha viajado para o Uruguai para um campeonato de golfe. Naquela noite, a Nora saiu com as amigas para um dos restaurantes mais badalados da cidade, o Alvear 923.

O jantar foi regado a champanhe e a Nora disse uma frase que ninguém esqueceria. Ela disse: “Não me perturbem por todo o fim de semana”. Por volta da 1h30 da manhã, o grupo todo decidiu ir para a casa da Rosario, que também morava no Villa Golf, para fumar. Córdoba tinha aprovado uma lei antifumo, por isso elas foram para a casa da Rosario.

E aí elas beberam mais umas taças e, cerca de uma hora depois, a Nora foi para a sua casa. Desde sexta à noite, o Marcelo tentava falar com a esposa, mas ele não conseguia. Então, ele ligava no celular dela, no telefone fixo da casa, e ela não atendia. Ele imaginou que talvez ela tivesse ido para a casa de campo de uma de suas amigas e que estivesse sem sinal, alguma coisa do tipo.

E aí, no domingo, ele ganha o torneio de golfe e ele ainda não tinha conseguido falar com ela. Foi nesse ponto que ele começou a se preocupar de verdade. Então ele começou a entrar em contato com pessoas próximas para que eles pudessem tentar ir até a casa, tentar localizá-la. Ele faz essa ligação para pessoas de confiança e, quando eles estavam próximos à ponte La Barra, o celular de Daniel Lacase tocou.

O Daniel era amigo do Marcelo, ele era advogado e tinha ido nessa viagem de golfe junto com ele no fim de semana. Vários amigos tinham ido e o Daniel, embora estivesse junto, não jogava golfe. Quem tinha feito a ligação para ele era sua namorada, Silvia Magallanes, e ele estava dirigindo no momento. Então, ele para o carro, atende e ela pede para ele se afastar.

Então ele sai do carro para falar com ela, e quando volta ele fala para o Marcelo o abraçar, porque a Norita foi encontrada morta. Quem encontrou o corpo da Nora foi um vizinho. Como eu falei para vocês, o Marcelo tinha pedido para pessoas de confiança checarem a casa, e esse vizinho foi até lá para ver se estava tudo bem.

Ele encontrou o corpo da Nora em cima da cama da Valentina. Ela estava seminua e tinha sido estrangulada com o cinto do próprio roupão. A autópsia determinaria a causa da morte como asfixia e havia sinais de atividade sexual, mas não tinha nenhum sinal de luta, o que levou à hipótese inicial de que ela tivesse tido um encontro com alguém e que esse encontro foi consentido, mas que terminou em morte. Isso foi contestado logo depois.

A cena do crime foi gravemente comprometida porque muitas pessoas entraram na casa, entraram no quarto, cerca de 23 pessoas circularam pela casa, incluindo o padre da família. Outra coisa que é importante citar é que o bairro, que era um bairro de classe alta, tinha câmeras, mas as câmeras não funcionavam.

Então, o trabalho da perícia já começou muito difícil, sem as imagens das câmeras e em uma cena completamente contaminada. O promotor responsável pela investigação inicial foi Javier Di Santo, mas antes que ele pudesse montar qualquer teoria coerente sobre o crime, sobre o que tinha acontecido, a imprensa já tinha tomado um lado.

A imprensa não estava falando sobre o que tinha acontecido, quem tinha matado a Nora, e sim sobre o que a Nora tinha feito. Nos primeiros dias após o crime, as câmeras invadiram o bairro Villa Golf. Eles montavam acampamentos na rua e o nome da Nora já estava em todos os jornais, já estava na imprensa, mas eles não falavam sobre ela como vítima de um crime, falavam sobre ela como a suspeita da própria morte.

Como eu falei para vocês, a Valentina estava nos Estados Unidos fazendo intercâmbio. Então, ela volta dos Estados Unidos, ela e o irmão, para poder ir até o cemitério, visitar o túmulo da mãe. Para vocês entenderem como a imprensa estava muito em cima desse caso, tinha fotógrafos lá.

E tem um trecho da história que foi feito nesse dia que aparece no documentário, que é os dois irmãos ali lutando naquele momento tão difícil entre lágrimas, tentando falar para as pessoas recuarem um pouco, para eles terem um pouco de privacidade. Eles tentam ter um momento de privacidade para poder visitar o túmulo da mãe morta, e as câmeras não recuam.

Ao mesmo tempo que isso acontecia, começaram a surgir listas sobre supostos amantes da Nora. Essas listas foram publicadas, republicadas e as pessoas começaram a falar muito sobre a vida amorosa da Nora. E as coisas que as pessoas falavam eram teorias, mas eles falavam como se aquilo fosse fato. Alguém chegou a vender camisetas escritas: “Eu não estive com a Norita”.

Outra coisa extremamente absurda nesse caso é que tiraram fotos da autópsia da Nora e essas fotos foram parar na TV em horário nobre. Anos depois, um jornalista iria confirmar que tinha um policial que vendia essas fotos para a imprensa em troca de dinheiro. O Facundo e a Valentina tiveram que ver a foto do corpo exposto da mãe publicada no país inteiro.

A família não tinha nem como permanecer em silêncio com tudo isso acontecendo. E antes mesmo que o Marcelo, o marido, pudesse falar alguma coisa sobre isso, outro homem já tinha tomado a frente. Esse homem era o advogado amigo do Marcelo, Daniel Lacase, então ele virou o rosto da família para a imprensa. Ele nunca foi nomeado porta-voz oficial da família.

Ele dizia até que falava por conta própria. Era ele quem falava com os jornalistas, que sugeria pistas e quem pautava a narrativa. Nos corredores dos tribunais de Río Cuarto, as pessoas sussurravam o apelido dele entre dentes, que era “Monge Negro”. Dez dias após o crime, no dia 5 de março, o Marcelo convocou uma coletiva de imprensa ao lado do seu filho Facundo em um hotel.

Essa foi a primeira vez que ele falou, e suas palavras ficariam marcadas para sempre. Sobre a possibilidade de ter sido um crime encomendado, ele disse que isso era ridículo, porque ele jamais mandaria matar a mulher que ele amava. Ao se referir sobre o comportamento da Nora nos últimos dias de vida, ele disse que ele e a família a perdoavam, que se ela se equivocou naqueles últimos dias, ela está perdoada por eles, que ele não vai julgá-la e quem pode julgá-la é Deus.

Essa frase acabou virando combustível para quem já desconfiava dele. Começaram a achar que ele estava muito frio. Agora, para quem defendia o Marcelo, começaram a ver ali um homem destruído. Parecia que ele estava tentando ser generoso, e para a Argentina inteira o caso era um espetáculo. Nesse mesmo dia, o Marcelo disse que contava com o apoio da polícia, do Javier, responsável pela investigação inicial, e do governador para que o caso fosse até o fim.

O Javier estava ali apoiando o Marcelo publicamente e a investigação ali já estava começando a ruir. O Daniel, advogado, também estava presente, só que ele estava nos bastidores fazendo o que ele fazia de melhor, que era falar. Em fevereiro do ano seguinte, o Javier prendeu Gastón Zárate, que era um pintor que tinha feito várias reformas ali na casa.

A imprensa o apelidou de bode expiatório. A comunidade de Río Cuarto não aceitou essa versão e eles fizeram até um protesto. O que veio à tona depois explicaria muito sobre como a investigação chegou até esse pintor. O advogado Daniel tinha pagado a hospedagem dos policiais vindos de Córdoba, os mesmos que conduziram a investigação que resultou na prisão do pintor, o Gastón.

O hotel que ele pagou era o Opera, um dos mais caros de Río Cuarto. Um concierge identificou Daniel em uma câmera oculta. Os policiais foram investigados por receber propina. Daniel, o pagador, nunca foi chamado para depor. A causa foi arquivada por dúvida insuperável. Com o tempo, Marcelo foi percebendo que o amigo jogava um jogo próprio, então ele cortou relações.

Ele disse, entre aspas: “Naquele momento era meu amigo, mas agora não”. O Daniel nunca foi indiciado por isso que ele fez, e o nome dele aparece 39 vezes na requisitória do promotor e em nenhuma delas ele aparece como réu. Depois dessas descobertas, o Gastón foi solto. Em 2011, ele foi formalmente inocentado. Seu DNA não era compatível com as evidências.

Os dois testemunhos que embasaram a sua prisão vinham de um jovem de 19 anos com o discernimento de uma criança e de outro rapaz com deficiência cognitiva severa. Agora com o Gastón descartado, Javier virou a mira para dentro da família. A polícia tinha encontrado um DNA no cinto do roupão. Esse DNA indicava um homem da linhagem Macarrón.

Como o Marcelo estava em Punta del Este no torneio, a conclusão foi apontar para o filho deles, para o Facundo. Então, em junho de 2007, ele foi formalmente acusado. A tese do Javier, que estava investigando, era grotesca. Ele sugeriu uma perversão no vínculo entre mãe e filho. Ele levantou a hipótese de que Facundo teria viajado mais de 200 km de Córdoba até Río Cuarto para abusar da sua mãe e depois matá-la.

Motivado, segundo o promotor, pelo fato de a mãe não aceitar sua orientação sexual. Até aquele momento, a família não sabia que Facundo era gay. Eles descobriram isso pela mídia. Quando a notícia veio a público, Marcelo entrou em colapso. Ele disse para um amigo no telefone: “Se levarem o Facundo preso, eu me mato”. Esse amigo foi imediatamente até a casa dele em Villa Golf.

Já o Facundo, do outro lado, soube da acusação enquanto ainda chorava pela morte da mãe. Não houve transição. Em um instante ele passou de filho em luto a suspeito de ter violado e assassinado a própria mãe. Então ele ficou assim sendo investigado, sem poder sair do país e sendo exposto. Isso aconteceu por cinco anos e meio até ser inocentado em 2012.

Ele esteve a ponto de ser preso em 2007, contido apenas pela pressão dos seus advogados. Anos depois, ele diria, entre aspas: “Destruíram a minha juventude, Javier arruinou a minha juventude. A minha acusação teve uma clara motivação preconceituosa. Como um ato de homofobia, pensaram que, por minha sexualidade, havia algo errado. Queriam me prender por ser gay”.

Como se isso já não fosse absurdo o bastante, durante todos esses anos da investigação e depois que o caso aconteceu, a mídia não recuava, eles não paravam. Eles seguiam o Facundo para cima e para baixo, tirando fotos, filmando. Ele era seguido o tempo todo. Eles instalavam câmeras ocultas e ficavam chamando a família para entrevistas.

E quando a família dizia que não queria fazer, eles começavam a ver isso como uma suspeita. Cada silêncio da família era lido como culpa. O Javier, que é esse promotor, fez uma investigação extremamente doida, porque além do Facundo, ele tinha outros acusados ao mesmo tempo: o Gastón e o advogado Rafael Magnasco, que virou um suspeito dele apenas por ser apontado como possível amante da Nora.

Anos depois ele foi inocentado. Então, em determinado momento, Javier tinha esses três acusados simultâneos. O Javier finalmente se afastou do caso em 2015, após o Observatório de Direitos Humanos de Río Cuarto começar a questionar publicamente a sua atuação no caso e colocar em dúvida a sua imparcialidade. Ao sair do caso, ele ainda tentou se defender.

Dizendo que, em nome da transparência, ele se via na obrigação de deixar o caso. Ele ficou 9 anos à frente de uma investigação em que ele não trouxe nenhum resultado, onde ele acusou três pessoas inocentes e onde ele ignorou completamente um relatório do FBI. Depois que ele saiu, quem assumiu a investigação foi o Daniel Miralles. A gestão do Javier ficou marcada por uma perseguição aos inocentes.

Que foram acusados, né, e que eram os mais vulneráveis, enquanto a do Daniel ficaria marcada por uma teoria ainda mais delirante. Para o Daniel, o marido, o Marcelo, era o culpado do crime e a teoria dele era que ele tinha pegado um avião particular lá de onde ele estava, no Uruguai, e voado até em casa. Ele teria ido para casa, tido relações com a esposa, matado ela, depois voltado a tempo de competir e ganhar o campeonato no domingo.

Ele teria conseguido fazer tudo isso sem que ninguém visse e sem deixar nenhuma prova. O advogado da família disse que isso era fisicamente impossível e que mesmo assim o Marcelo foi acusado. O Daniel acabou sendo afastado em 2017 a pedidos dos advogados do Marcelo. As últimas palavras dele foram uma sentença que tentava justificar tudo isso. Ele dizia que havia muito DNA do Marcelo presente na cena.

Não importava que ele não tivesse conseguido prova nenhuma de que o Marcelo tinha feito esse deslocamento até a casa. Então ele sai do caso e quem assume, a terceira pessoa a assumir, foi Luis Pizarro. Bem mais cuidadoso do que os antecessores, ele percebeu que essa teoria não fazia sentido nenhum. Para ele, era claro que a teoria era insustentável.

Então ele mudou um pouco a visão dessa teoria e, ao invés de falar que o Marcelo foi lá sozinho, sem ninguém ver, e cometeu o crime, ele disse que o Marcelo era, na verdade, o mandante. Em 2018, ele agravou a acusação. Em 2019, elevou o caso a julgamento. A identidade desse suposto executor que ele teria mandado jamais foi revelada.

O julgamento do Marcelo começou no dia 14 de março de 2022 e durou 4 meses. Foram 39 audiências, 71 testemunhos presenciais, o que é menos de 1/4 dos mais de 300 previstos. A acusação era homicídio qualificado pelo vínculo, por frieza e por encomenda remunerada. A tese era que o Marcelo havia contratado um executor para matar a Nora enquanto ele disputava um torneio de golfe em Punta del Este.

O Facundo, o filho, que na época trabalhava fora da Argentina, voltou ao país para acompanhar o pai. Antes de o julgamento começar, ele disse à imprensa: “Estou angustiado de ter que enfrentar como família a pena do banco dos réus, sendo que o verdadeiro assassino está solto e satisfeito por saber que não poderá ser julgado”. Tanto ele quanto a Valentina foram ouvidos como testemunhas de defesa.

A Valentina entrou na sala com a voz firme, mas quebrou várias vezes durante o depoimento. Uma frase que ela disse que marcou muito foi que a família era muito unida e que isso os destruiu. Sobre o pai, ela disse: “Tudo o que disseram foi criado pelos meios de comunicação”. O Facundo foi mais direto ainda. Ele disse: “Faz 15 anos que o assassino anda solto.”

Do outro lado, como testemunha de acusação, estava um dos suspeitos anteriores, o advogado que havia sido apontado como suposto amante da Nora e depois inocentado. Ele entrou na sala do júri e apontou para Marcelo, dizendo: “O verdadeiro homicida está sentado naquele banco”. Após 4 meses, chegou o dia dos argumentos finais. A audiência começou com um incidente quando um dos jurados teve um ataque de pânico e precisou ser substituído.

Julio Rivero, o promotor responsável por sustentar a acusação diante do júri, falou por quase três horas e, então, ele anunciou que não acusaria mais o Marcelo. Ele disse, entre aspas: “Não posso sustentar que foi um executor quem a matou. Como sou um promotor honesto, vou pedir a absolvição de Marcelo. Seria irresponsável, oportunista e covarde acusá-lo”.

Quando Marcelo ouviu isso, ele começou a chorar. O Facundo e a Valentina ao lado dele na sala também. O Marcelo teve direito às últimas palavras antes do veredito. Ele disse: “Sou inocente e agradeço a todos que me acompanharam”. O júri popular o absolveu por unanimidade. Um mês depois, a sentença escrita reconheceu que Nora foi vítima de violência de gênero.

Era a única verdade que o processo havia conseguido estabelecer em 16 anos. O julgamento do pai foi apenas o capítulo mais recente de uma vida que, para Facundo e Valentina, nunca conseguiu separar o luto da suspeita. A Valentina tinha 16 anos quando o caso aconteceu. Ela estava nos Estados Unidos fazendo intercâmbio e, através de uma ligação feita pelo pai, ela descobriu que a mãe estava morta.

E entrou direto num país que já tinha escolhido a narrativa do caso. Já o Facundo tinha 19 anos e era um estudante de direito. Em menos de seis meses, ele passou de filho em luto para suspeito do assassinato da própria mãe. Como eu falei para vocês, ele foi investigado por 5 anos e meio. Ele esteve a ponto de ser preso e ele tinha muito medo de falar sobre a mãe e falar sobre o caso.

Porque ele achava que tudo que ele dissesse podia ser usado contra o pai dele, que foi acusado depois dele. Quando a Netflix lançou o documentário sobre esse caso no ano passado, foi a primeira vez que os filhos da Nora decidiram falar publicamente sobre tudo que eles passaram. Então ali eles estavam falando não como suspeitos, não como filhos do acusado, mas sim como filhos da Nora.

Os dois disseram que eles foram as principais vítimas do caso. Já faziam 16 anos que o caso tinha acontecido e ninguém tinha sido condenado. E enquanto a justiça errava, a imprensa amplificava cada erro. Nesse ponto é muito importante eu ressaltar o quanto a imprensa foi horrível na vida deles, porque o crime tinha acabado de acontecer.

Eles publicavam o que bem entendiam, teorias eles publicavam como se fosse verdade. Quando a polícia tinha ali alguma coisa que podia ajudar na investigação, uma nova hipótese para a investigação, já virava manchete antes mesmo de eles terem certeza. Então, toda essa parte da imprensa foi muito, muito cruel com a família. E no epicentro dessa cobertura local estava Hernán Vaca Narvaja.

O diretor da revista El Sur, de Río Cuarto. Ao contrário do que boa parte da imprensa nacional fez, que foi cobrir o caso como um turista de escândalo, o Hernán cobria em profundidade. Então, no jornal eles publicavam absolutamente tudo e ele tinha uma pessoa que ele tinha certeza que era a culpada, que no caso era o Marcelo. Ele tinha essa tese que para ele era muito firme.

E aí o mais doido é que ele escreveu dois livros falando sobre isso. Ele publicou ao longo dos anos vários artigos investigativos que falavam sobre a intimidade da família. Então é aí que está o problema nesse trabalho investigativo, porque ele não estava só investigando um caso, fazendo esse trabalho de investigação jornalística. Ele ultrapassava tudo isso e divulgava coisas que não tinham nada a ver.

E que ele não tinha o direito de fazer. Então, por exemplo, foi ele quem publicou a orientação sexual do Facundo antes de qualquer acusação formal que foi feita depois. Então ele publicou isso como se fizesse alguma diferença para o caso. Falando sobre a Valentina também não foi diferente. Ele publicou o número do celular dela e um cartão postal que ela teria enviado dos Estados Unidos.

Então ele não tinha limites, realmente, do que ele publicava. Ele não estava nem aí. E aí a família o processou. Esse processo correu por mais de 15 anos e ele nunca recuava. Nem quando a justiça o condenou, ele recuou ou reconheceu que ele estava errado, que ele foi longe demais. Então, no documentário, ele ainda aparece falando sobre a tese dele como se ela fosse a verdadeira.

E ainda batendo nesta tecla. Então, ele continua achando que tudo que ele fez está certo e que o Marcelo é o culpado. Então, ele aparece até inconformado. Mas isso só aconteceria depois, né? Então, antes disso tudo acontecer, o que faltava na investigação era apenas alguém olhar para uma coisa que estava ali o tempo todo. O Pablo Jávega assumiu o caso e foi o primeiro a olhar para toda a investigação com um olhar novo.

Ele chegou com uma abordagem radicalmente diferente. Ao invés de começar a perseguir hipóteses, que era basicamente o que os outros já tinham feito antes dele, ele decidiu pegar todos os arquivos do caso e revisar tudo. Ao todo, eram mais de 7.000 páginas distribuídas em mais de 30 volumes. Além de revisar tudo isso, ele decidiu pedir novas amostras de DNA para várias pessoas que tinham circulado ali na casa da família antes do crime.

Então, em setembro de 2023, ele ordenou as novas perícias. Os resultados chegaram em 2024. Como eu falei para vocês, tinha um DNA que foi encontrado no cinto do roupão da Nora, o mesmo objeto usado para estrangulá-la. Aquele DNA era compatível com um homem chamado Roberto Bárzola, de 45 anos. Um pelo púbico que também foi encontrado na cena teve comprovação de que pertencia a ele.

O resultado foi comprovado pelo FBI, que validou a coincidência genética. Mas afinal, quem era esse homem? Roberto Carlos Bárzola nasceu em 8 de janeiro de 1980 em Río Cuarto. Na época do crime, ele tinha 26 anos e trabalhava como instalador, lustrador de pisos de madeira. Ele foi contratado por um carpinteiro chamado Walter Gonzales, que realizava obras na casa da família naquela mesma semana de novembro de 2006.

Ou seja, ele não era alguém de fora, era alguém que havia estado naquela casa naqueles dias e naqueles cômodos. Ele declarou como testemunha seis vezes ao longo da investigação. Em 2022, voltou à sala de audiências durante o julgamento do Marcelo, dessa vez diante do júri popular. Ele descreveu sua relação com Nora com uma frase que deveria ter parado tudo.

Ele disse, entre aspas: “Só falei com ela na vez em que ela me repreendeu pelo pó de serragem”. E então ele contou o que ele fez no dia do crime. Ele disse que naquela manhã havia tentado trabalhar num condomínio próximo antes de ir para a casa da Nora, mas que ele não pôde usar sua máquina porque o piso da casa estava molhado pela chuva da noite anterior.

Depois ele foi até a casa da Nora para trabalhar. Ele disse que chegou na porta, mas não tocou o interfone. Ele ficou esperando até o patrão aparecer. Só que o patrão não apareceu e aí ele foi embora. Ninguém achou estranho. Quando o investigador Pablo e a sua equipe revisaram os depoimentos anos depois, eles cruzaram a história do condomínio com os registros.

Os guardas, os livros de entrada e o próprio dono do imóvel confirmaram: o Roberto não havia estado lá naquele dia. A descrição do piso molhado não correspondia àquele endereço. Correspondia à casa da Nora, que tinha janelas abertas e onde a chuva havia entrado durante a madrugada. Para saber que o piso estava molhado, ele precisava ter estado dentro da casa naquela madrugada.

Então o Pablo foi direto, ele disse, entre aspas: “Para que ele soubesse que o piso da casa estava molhado, ele teve que ter entrado durante a noite do crime, quando chovia, ou na manhã seguinte”. E a data da morte diz que a Nora foi assassinada entre as 4 e as 10 da manhã. Isso estava nos autos do caso o tempo todo. Nenhum promotor tinha enxergado.

E tem mais, em 2007, 5 meses após o crime, a família contratou uma empresa americana formada por ex-agentes do FBI para fazer uma revisão independente da investigação. O relatório apontou diretamente para Roberto como suspeito e recomendou a coleta do DNA. O advogado da família fez o mesmo pedido formalmente à justiça. O então promotor geral de Córdoba admitiu anos depois ter recebido o documento.

E que o Javier tinha conhecimento daquele conteúdo. Mas o relatório nunca foi incorporado ao processo e o pedido de coleta de DNA foi negado. Enquanto isso, os anos foram passando. Roberto seguiu sua vida, casou-se, teve filhos, se tornou avô, deixou o trabalho com pisos e passou a trabalhar como caminhoneiro, transportando grãos pelo interior da Argentina.

Ele continuou morando em Río Cuarto e sem antecedentes criminais, segundo seus advogados. Por quase duas décadas, foi apenas uma testemunha esquecida num processo que perseguiu as pessoas erradas. Até que em 2023, quando Pablo ordenou o novo rastreamento genético em larga escala, o nome de Roberto voltou à lista. Ele era a 39ª pessoa a ter o DNA coletado.

A compatibilidade de DNA dele apareceu no cinto do roupão oito vezes, além do pelo púbico encontrado no corpo da Nora. A testemunha esquecida havia se tornado agora o principal suspeito do caso. O mais doido é que as provas para chegar até ele nunca precisaram ser construídas. Elas estavam ali na investigação do caso desde o primeiro dia.

Roberto foi formalmente acusado no final de 2024, 18 anos após o crime. Imediatamente a sua defesa fez o que a matemática parecia autorizar. Então eles pediram o encerramento do caso por prescrição. O Código Penal Argentino estabelece que o delito de abuso sexual com acesso carnal seguido de morte prescreve em 15 anos. Como o crime tinha acontecido em 2006, o crime já tinha prescrito.

Em outubro de 2025, a Câmara Criminal Correccional e de Acusação de Segunda Nominação de Río Cuarto declarou a ação penal extinta por prescrição. Considerou que os períodos em que Marcelo e Facundo foram investigados não podiam ser contados como suspensão do prazo. O tribunal também descartou a possibilidade de enquadrar o caso como crime imprescritível.

Mas o investigador não recuou. Com um relatório de 357 páginas, detalhando provas, testemunhos e laudos periciais, ele pediu a elevação a julgamento de qualquer forma, seja em processo penal ordinário, seja no chamado “julgamento pela verdade”, mecanismo utilizado quando o crime já não pode ser punido penalmente, mas ainda pode ser investigado para reconstruir oficialmente o que aconteceu.

A resolução sobre a prescrição ainda está pendente no Tribunal Superior de Justiça de Córdoba. Mas, enquanto o destino de Roberto seguia em aberto, um outro processo começou a tomar forma, dessa vez contra os próprios responsáveis pela investigação. Em novembro de 2025, a família apresentou uma denúncia formal pedindo o impeachment dos três primeiros promotores do caso.

O Javier, que conduziu a investigação de 2006 a 2015; o Daniel, que assumiu em seguida por cerca de 1 ano; e Luis, que ficou até 2022. A acusação da família era de mau desempenho e negligência grave. Em dezembro de 2025, o Tribunal responsável por julgar magistrados e funcionários judiciais da província admitiu por unanimidade os três pedidos.

Esse era um fato inédito. Nunca antes três funcionários judiciais haviam sido levados a um julgamento político pela mesma causa. Em 24 de fevereiro desse ano, o promotor-geral Juan Manuel Delgado formalizou a acusação, um documento de mais de 70 páginas. A tese central é que, com elementos suficientes para suspeitar de Roberto desde o início, os três promotores o ignoraram sistematicamente.

Enquanto se voltavam contra a família, o relatório dos ex-agentes do FBI de 2007, os pedidos da família para que o DNA de Roberto fosse coletado e as contradições no próprio depoimento dele, tudo foi descartado. O processo tem prazo, então a sentença deve ser proferida até o dia 28 de maio deste ano. Se não for cumprido, cai.

Os três continuam em suas funções durante o julgamento. Nenhum pediu licença. Se condenados, serão destituídos. Paralelamente, a questão da prescrição do crime pode chegar à Suprema Corte. O Pablo acredita que o argumento de que a negligência dos promotores anteriores funcionou como obstáculo deliberado à investigação pode ser acolhido pelos tribunais, o que permitiria rever essa prescrição do caso.

A família também estuda recorrer a instâncias internacionais. Enquanto isso, o Roberto continua livre. E aí eu fico com muita raiva nesse ponto, porque, como assim ele está livre, né? Eles têm agora a prova, a prova do DNA, a prova do pelo. Ele tem tudo que eles investigaram na época, as coisas que ele falou, tipo, está ali mais claro do que nunca. Mas aí o crime prescreveu, o que é um absurdo. Eu odeio isso.

Eu acho que nenhum crime deveria prescrever jamais, especialmente em crimes de homicídio, porque agora que eles têm ali a prova e ele poderia finalmente ser julgado, prescreveu. Então ele segue livre, esperando para ver o que vai acontecer. A gente não sabe até hoje, no momento em que eu estou gravando esta história, se eles vão conseguir fazer alguma coisa sobre isso ou não.

Nesse ponto, existem duas batalhas judiciais acontecendo ao mesmo tempo sem desfecho. A primeira é essa que eu citei para vocês agora: a família e o investigador Pablo lutando juntos para que consigam levar o caso à frente, que não se encerre por ali, porque o crime prescreveu, para que de alguma forma o culpado seja julgado e pague pelo que ele fez.

Como eu falei para vocês, a prescrição pode ser revertida caso o Tribunal Superior ou a Suprema Corte entendam que a negligência deliberada dos promotores anteriores funcionou como um obstáculo à justiça. Seria uma decisão sem precedentes no direito argentino, mas é uma aposta, pode acontecer. E a segunda batalha é a de Juan, o promotor que formalizou a acusação contra os três promotores anteriores.

Eles poderiam ter solucionado o caso, mas foram incompetentes. Então, para vocês entenderem essa parte, os três têm de 5 a 10 dias para apresentar uma defesa, com audiência marcada e sentença obrigatória até o dia 28 de maio deste ano. Se eles forem condenados, eles serão destituídos. O cenário perfeito seria se a Suprema Corte decidisse que realmente o descaso dos promotores foi algo maior do que o crime já ter prescrito.

Dessa forma, o Roberto seria levado a julgamento. Nesse caso, as mesmas falhas que garantiram a impunidade dele por todos esses anos seriam o motivo para levar ele finalmente para o banco dos réus. Mas nada disso aconteceu ainda. Resta aguardar o desfecho desse caso, que, como eu falei para vocês, vai acontecer este ano.

Se a justiça chegar, vai ser este ano. Mas, assim, é muito doido para mim pensar que estava lá o tempo todo e que três promotores não conseguiram ver o que estava bem na frente deles. Esse é um caso muito absurdo, porque fala sobre descaso, negligência na investigação, tudo o que fizeram com essa família que estava lidando com uma perda horrível, um caso de assassinato.

E aí, de repente, todo mundo da família virou suspeito do caso, o que é absurdo. E agora que eles têm uma pessoa para culpar e que têm provas com o DNA, o crime prescreveu. É muito doido para mim ver todos esses erros cometidos justamente pelas pessoas que deveriam ter solucionado o caso. Toda essa negligência também é um crime, mas, nesse caso, ninguém vai a julgamento por ter cometido esse crime contra a Nora.

Quero muito saber o que vocês acharam. Me contem aqui nos comentários. Assim que tiver atualizações, eu trago para vocês, mas esse é um caso que me deixa com muita raiva. Tem o documentário na Netflix para vocês assistirem e ficarem com mais raiva ainda. Então é isso, eu vejo vocês na próxima história.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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