PERDI MEU FILHO MATEUS EM 2009… NO CEMITÉRIO, ANOS DEPOIS, VI UM GAROTO IGUAL A ELE
A história completa
Eu achei que tinha ido ao cemitério visitar meu filho. Só depois entendi que outra criança estava me esperando entre aquelas campas. Fazia tempo demais. Naquela manhã, eu não vi assombração saindo de trás de cruz, nem ouvi voz chamando meu nome. Se tivesse sido assim, talvez eu mesmo tivesse encontrado uma forma de rir daquilo depois.
O problema foi justamente o contrário. Tudo aconteceu de um jeito comum demais. Um menino sentado perto de uma sepultura antiga, um pedaço de madeira na mão, um rosto que lembrava o do meu filho nos detalhes que eu passei anos tentando esquecer. E a impressão difícil de explicar, sem parecer doido, de que ele já sabia que eu ia passar por ali.
Meu nome é Antônio, mas quase ninguém me chama assim. Na cidade sou o Tonho do material de construção. Trabalho há mais de 20 anos no depósito de uma loja que vende cimento, telha, cano, areia. Essas coisas que deixam a roupa da gente sempre com uma poeira fina, mesmo depois do banho. Quem olha de fora acha que é só carregar saco, conferir nota e atender pedreiro apressado.
Mas quem passa a vida nesse tipo de serviço aprende a reparar em detalhe. Uma pilha torta pode cair. Uma telha trincada denuncia lote ruim. Um cliente que não olha no olho quase sempre está devendo ou vai pedir fiado. Eu nunca fui homem de acreditar em tudo. Na verdade, sempre fui o contrário. Eu desconfiava de benzedeira, de promessa, de sonho com morto, dessas histórias que o povo conta sentado na calçada depois do jantar.
Eu respeitava, mas não comprava. Depois que perdi meu filho, então, fiquei mais duro ainda. Meu menino se chamava Mateus. Morreu pequeno antes de ter idade para entender metade das coisas que eu prometi fazer com ele. Não vou entrar nisso do jeito que as pessoas gostam de perguntar. Tem dor que, quando a gente começa a explicar, vira curiosidade dos outros.
E a morte de uma criança não deveria virar assunto de mesa. O que posso dizer é que depois que ele foi enterrado, eu fiquei de um jeito que nem minha mulher soube alcançar. Ela chorava de portas abertas. Eu chorava escondido, quando chorava. Ela queria ir ao cemitério toda semana. Eu dizia que ia junto, mas sempre inventava serviço.
Tinha caminhão chegando, tinha cliente esperando, tinha conta atrasada, tinha dor nas costas, tudo servia. No começo, ela brigou comigo, depois cansou. Com o tempo, nosso casamento foi ficando igual casa fechada. Ainda está de pé, mas ninguém sabe direito o que tem por dentro. A gente continuou junto por um tempo, mais por costume do que por força.
Depois ela foi morar com a irmã em outra cidade. Não houve escândalo, não teve prato quebrado, só uma mala, umas roupas dobradas e uma frase que ficou na minha cabeça: “Você deixou ele sozinho até depois de morto”. Eu disse que era injusto. Na hora eu precisei dizer isso. Hoje eu não tenho tanta certeza.
O cemitério de Santa Rita fica no alto de uma rua estreita, depois da última padaria e antes de o mato começar. Não é grande. Tem um muro baixo pintado de branco uma vez por ano, mas sempre descascando antes da próxima pintura. O portão é de ferro, pesado, com umas partes enferrujadas perto da dobradiça. Quando venta, ele faz um rangido curto, não daqueles de filme, mas um som de coisa velha reclamando.
Eu conhecia o caminho até a campa dele sem precisar contar fileira. Passava pela capelinha pequena, virava depois de uma cruz de cimento quebrada na ponta, seguia por duas campas de família com azulejo azul e chegava no corredor onde ele estava. Naquele dia eu fui sozinho. Fazia anos da morte dele. Eu tinha acordado cedo antes do despertador.
Fiquei sentado na cama um tempo, olhando para a parede do quarto. Ainda havia uma marca retangular mais clara no lugar onde ficava uma prateleira com os brinquedos dele. Eu tinha tirado tudo dali quando minha mulher foi embora. Guardei numa caixa no quarto dos fundos e fechei com fita. Não por cuidado, por covardia.
No caminho para o cemitério, passei na venda de seu Arlindo e comprei flores simples dessas que ficam num balde de água na porta. Ele me olhou por cima dos óculos e não perguntou nada. Talvez soubesse a data. Em cidade pequena, até o silêncio dos outros tem memória. O sol estava forte, mas já prometia castigar. A rua subia devagar, com casas antigas de um lado e um terreno baldio do outro.
Um cachorro dormia na sombra de uma caminhonete sem roda. Duas mulheres conversavam no portão e pararam quando me viram com as flores na mão. Cumprimentei com a cabeça e segui. No cemitério havia poucas pessoas. Um homem capinava perto do muro. Uma senhora ajeitava velas numa campa nova. Mais adiante, um funcionário empurrava um carrinho de mão com vasos quebrados, pedaços de plástico, flores queimadas de sol e restos de fita.
Deixei as flores na campa do meu filho. Tirei umas folhas secas que estavam presas no canto da pedra. Passei os dedos pelo nome dele, como se aquilo pudesse servir de conversa. Mateus de Oliveira. O nome parecia pequeno demais ali. Fiquei de pé sem rezar. Eu nunca soube rezar direito depois dele. Antes, quando a vida ainda obedecia a alguma ordem, eu até fazia o sinal da cruz. Pedia proteção, agradecia.
Depois fiquei com vergonha de pedir qualquer coisa. Parecia tarde demais. Não sei quanto tempo fiquei parado. Talvez poucos minutos. Talvez mais. O cemitério tem um jeito estranho de fazer a gente perder a medida. O barulho da rua chega abafado, os passos parecem mais altos e até o vento, quando passa entre os vasos e as coroas velhas, faz a gente virar o rosto.
Foi quando vi o menino. Ele estava mais adiante, depois de uma fileira de campas antigas, sentado no chão, perto de uma sepultura baixa, sem placa visível. Usava uma roupa clara, simples, dessas que poderiam ser de qualquer criança. Estava de costas, inclinado para a frente, riscando o chão com um pedaço de madeira.
Na primeira hora, pensei que fosse filho de alguém que trabalhava ali. Criança em cemitério não é comum, mas também não é impossível. Tem mãe que leva porque não tem com quem deixar. Tem neto que acompanha a avó. Tem menino que se enfia onde adulto não presta atenção. Mas tinha uma coisa errada. Ele estava sozinho demais.
Não olhava para os lados, não chamava ninguém. Não parecia perdido, parecia esperando. Eu fiquei olhando por mais tempo do que deveria. E como se tivesse sentido, o menino parou de mexer no chão e virou o rosto. Foi aí que eu senti o corpo falhar. Não era Mateus. Eu sei disso. Meu filho estava morto. Eu tinha visto a campa dele diante de mim, tinha colocado flores ali, tinha passado a mão no nome gravado.
Eu não sou homem de inventar milagre para sobreviver, mas aquele menino se parecia com ele de um jeito que me fez esquecer até de respirar. Não era uma semelhança de fotografia. Não era igual no rosto inteiro. Era no modo como levantava o queixo, no jeito de olhar, sem abrir muito os olhos, na boca quieta, como se segurasse uma pergunta. Eu chamei baixo.
— Ei! — minha voz saiu menor do que eu queria. O menino continuou olhando. Dei um passo, depois outro. Fui passando entre as campas, desviando de vasos rachados, cruzes baixas, placas tortas. Não queria assustar a criança, mas também não conseguia parar. Havia uma parte de mim dizendo para virar as costas, outra parte, mais funda e mais burra, queria chegar perto.
Quando eu estava a poucos metros, ele se levantou. Não saiu correndo, não fez nenhum gesto assustado, só ficou de pé e entrou por trás das campas, como uma criança que conhece um atalho. Eu apressei o passo. Passei por uma sepultura com o cimento quebrado na lateral, depois por outra coberta de azulejos antigos. Quando cheguei ao lugar onde ele tinha virado, olhei para os dois lados. Nada.

O menino tinha sumido entre as campas. Não estou dizendo que ele sumiu no ar. Não foi isso. Eu não vi o corpo dele apagar, não vi sombra esticar. Não vi coisa nenhuma dessas. Foi pior porque foi possível demais. Ele entrou por trás das sepulturas e, quando cheguei, não havia corredor, buraco, portão aberto, nem muro baixo por onde uma criança pudesse ter passado tão rápido.
Chamei de novo, ninguém respondeu. Olhei para o chão. Onde ele estava sentado, havia riscos feitos com madeira. Eram linhas tortas sem desenho claro. No meio delas, um círculo quase fechado e três marcas curtas, uma do lado da outra. Fiquei agachado olhando aquilo, como se fosse entender alguma coisa. Atrás de mim, o homem que capinava tossiu.
Levantei depressa, com vergonha de ser visto ali, agachado perto de uma campa que nem era da minha família. Passei ainda uns minutos procurando. Dei a volta na fileira. Olhei atrás do túmulo alto, perto do muro, do lado da capelinha. Nada. Na saída, perguntei ao funcionário do carrinho de mão se tinha alguma criança por ali.
Ele parou de empurrar o carrinho. — Criança? — Um menino estava sentado ali embaixo, perto das campas antigas. Ele olhou na direção que eu apontei, mas demorou um pouco antes de responder. — Hoje não vi criança nenhuma. — Disse isso e voltou a empurrar o carrinho. Podia ter acabado ali. Eu fui embora tentando escolher a explicação mais limpa.
Criança de alguém, menino ligeiro. Confusão minha. Saudade pregando peça. O sol batendo nos olhos. Cabeça cheia por causa da data. Quando se perde um filho, as pessoas permitem que você veja coisa errada. Ninguém chama de loucura de primeira. Chamam de luto, chamam de trauma, chamam de fase. É quase uma licença para desconfiar de si mesmo. Eu aceitei essa licença.
Voltei para casa antes do almoço. Minha casa ficava numa rua simples, com calçada estreita, portão baixo e um pé de acerola no quintal dos fundos. Era uma casa comum, de sala pequena, cozinha comprida, dois quartos e um cômodo nos fundos onde eu guardava ferramenta, lata de tinta, ventilador quebrado e a caixa das coisas do Mateus.
De dia, a casa não tinha nada de estranha e isso era o que mais me incomodava depois. O piso frio vivia manchado perto da porta, porque eu entrava com poeira do depósito. A janela da cozinha emperrava, o relógio da sala atrasava se acabasse a luz. O sofá tinha um rasgo no braço esquerdo.
A mesa da cozinha ficava bamba se alguém apoiasse o cotovelo. Nada ali parecia preparado para guardar mistério. Almocei qualquer coisa. Arroz requentado, ovo, café passado de manhã. Depois deitei no sofá, mas não dormi. Toda vez que fechava os olhos, via o rosto. Não o rosto inteiro, só aquele modo de olhar. À tarde fui trabalhar.
O movimento na loja estava pesado. O caminhão de cimento chegou atrasado. Um cliente discutiu por causa de entrega e um rapaz novo derrubou uma pilha de canos no corredor. Passei o resto do dia irritado, o que me ajudou. Irritação é uma distração boa. A gente fica bravo com coisa pequena para não olhar a grande. À noite cheguei em casa cansado, tomei banho, liguei a televisão sem prestar atenção e deixei a casa aberta até tarde por causa do calor.
Antes de dormir, fui até o quarto dos fundos pegar uma extensão. A caixa do Mateus estava no canto, embaixo de uma prateleira. Eu não mexia nela havia muito tempo. Era uma caixa de papelão grosso, dessas de mudança, fechada com fita larga. Em cima, minha mulher tinha escrito “Mateus” com caneta preta.
A letra dela ainda estava ali firme, mais corajosa que eu. Não sei por que reparei tanto naquela caixa naquele dia. Talvez por causa do menino. Talvez porque alguma parte de mim já soubesse que aquilo não ia ficar quieto. Peguei a extensão e saí. Na manhã seguinte, antes de ir trabalhar, abri a porta dos fundos para jogar água no quintal.
Foi aí que vi o carrinho. Ele estava perto do portão, encostado no muro baixo, virado para fora. Era um carrinho pequeno, vermelho, de plástico duro, com uma roda meio torta. Tinha sido do Mateus. Eu lembrava porque ele gostava de empurrar aquilo pela sala, fazendo barulho com a boca. O carrinho não devia estar ali.
Fiquei olhando, parado com a mangueira na mão, como se alguém tivesse colocado uma cobra no chão. Depois fui até o quarto dos fundos. A caixa estava no mesmo lugar. A fita, porém, tinha uma parte levantada na lateral. Não muito, só o suficiente para caber uma mão pequena, se alguém insistisse. Eu não queria abrir. Essa é a verdade.
Não queria, porque abrir aquela caixa era abrir um pedaço da casa que eu tinha fingido não existir. Mas o carrinho estava no quintal e eu precisava provar para mim mesmo que havia uma explicação. Rasguei a fita devagar. Dentro havia roupa dobrada, uma manta, livros de capa grossa, um boneco sem uma das mãos, uma bola murcha, pecinhas de montar dentro de um pote e o espaço vazio de onde o carrinho devia ter saído.
Peguei o carrinho no quintal. Ele estava coberto por uma poeira clara, seca, dessas que grudam em beirada de calçado depois que a gente passa perto de obra velha. Tinha pó nas rodinhas, na parte de dentro, até na fresta onde ficava o eixo. Pensei em rato. Foi a primeira explicação que me veio. Rato mexe em tudo, arrasta pano, papel, plástico.
Mas um rato não tiraria um carrinho de dentro de uma caixa fechada e deixaria perto do portão, virado para a rua. Então pensei em criança. Algum menino da vizinhança podia ter pulado o muro, entrado no quarto dos fundos, mexido na caixa e largado o brinquedo no quintal.
A ideia era ruim, mas ainda era melhor do que a outra. Conferi a porta dos fundos, trancada; a janela do quarto também. O portão não tinha sinal de arrombamento. Mesmo assim, aceitei a explicação. Quem está cansado escolhe a resposta que deixa a vida continuar. Levei o carrinho para dentro, limpei com um pano velho e coloquei de volta na caixa.
Fechei com outra fita. Passei duas voltas, depois três. Empurrei a caixa mais para o canto e coloquei uma lata de tinta em cima. Fui trabalhar sem contar a ninguém. No depósito, passei o dia ouvindo o barulho dos sacos de cimento batendo no chão, o telefone tocando, a empilhadeira velha falhando na subida.
Tudo normal, tudo bruto, tudo real. Eu me agarrei naquilo. Quando voltei para casa, perto das 8 da noite, a primeira coisa que fiz foi ir ao quarto dos fundos. A caixa estava fechada. A lata de tinta continuava em cima. Ri sozinho. Um riso curto, de vergonha. Pensei que eu estava virando um velho impressionado por causa de uma manhã no cemitério.
Tomei banho, esquentei comida e dormi mal, mas dormi. No outro dia, o boneco apareceu no quintal. Ficava perto do mesmo lugar, encostado no portão, sentado, com as pernas abertas. Era um boneco pequeno de borracha, sem uma das mãos. Mateus tinha mordido aquela mão quando era menor. Minha mulher dizia para jogar fora, mas ele não deixava.
Fui ao quarto dos fundos. A caixa fechada, a lata de tinta em cima, a fita intacta. Foi nessa hora que comecei a sentir uma coisa diferente. Não medo ainda. Medo a gente só admite quando não consegue mais explicar. Aquilo era uma raiva nervosa, uma vontade de pegar alguém no flagra. Eu pensei em vizinho de novo.
Pensei em moleque entrando pelo telhado. Pensei até em algum parente mexendo comigo, o que não fazia sentido nenhum, porque ninguém da minha família brincaria com as coisas do meu filho. Mesmo assim, eu precisava que fosse alguém vivo. Limpei o boneco, coloquei de volta na caixa e dessa vez amarrei com barbante por cima da fita e prendi o nó bem apertado.
Encostei uma cadeira na porta do quarto dos fundos antes de dormir. Se alguém abrisse, eu ouviria. De madrugada, acordei com sede. A casa estava quieta. O ventilador do quarto girava, fazendo um estalo a cada volta. Levantei, fui até a cozinha e bebi água direto do filtro. Quando voltei pelo corredor, parei.
A cadeira estava no lugar, mas havia uma marca fina no chão, saindo da porta do quarto dos fundos até a cozinha. Não era pegada, era como se algo pequeno tivesse sido arrastado. Acendi a luz do corredor. A marca seguia até a porta dos fundos. Abri devagar. No quintal, perto do portão, estava a bola murcha. Ela tinha saído da caixa.
Não dava para dizer que caiu, que rolou sozinha, que eu tinha esquecido ali. A bola estava colocada no mesmo ponto dos outros brinquedos, como se aquele lugar tivesse sido escolhido. Fiquei tanto tempo parado que a lâmpada da cozinha atraiu mosquito. Só depois fui até o quarto dos fundos.
A cadeira continuava encostada na porta por fora. O nó do barbante estava fechado, a lata de tinta em cima da caixa, no mesmo lugar. Eu não abri. Não tive coragem naquela hora. Voltei para o quarto com a bola na mão e sentei na beira da cama. Ela estava áspera de poeira. Apertei o plástico murcho com os dedos e lembrei de Mateus tentando chutar aquilo no corredor, tropeçando no próprio pé, rindo antes de cair.
Foi aí que chorei. Não chorei bonito, não foi alívio. Foi uma coisa feia, presa, como se meu peito tivesse desaprendido. Na manhã seguinte, levei a bola para a loja comigo. Não sei por quê. Talvez porque não quisesse deixar o brinquedo sozinho em casa. Talvez porque, se ele aparecesse no quintal de novo enquanto estava comigo, eu teria que aceitar alguma coisa.
Guardei a bola dentro do armário do depósito junto com minha mochila. Passei o dia olhando para o relógio. Quando deu fim de expediente, abri o armário. A bola estava lá. Senti vergonha de mim mesmo outra vez. Fechei a mochila, fui para casa e tentei levar a vida como se nada tivesse acontecido. Mas já não era a mesma casa.
O corredor parecia comprido demais. O quarto dos fundos parecia esperar que eu passasse. O portão dos fundos, que antes eu mal notava, virou uma coisa que eu olhava toda hora. Nos dias seguintes, os brinquedos continuaram. Nem sempre de madrugada. Às vezes, eu chegava do trabalho e encontrava um deles no quintal. Às vezes acordava e via pela janela da cozinha um carrinho, o boneco, a bola, depois pecinhas de montar, sempre em três, enfileiradas no chão perto do portão. Três peças, sempre três.
Eu comecei a reparar nisso. No cemitério, o menino tinha feito três marcas no chão com um pedaço de madeira. No quintal, as peças apareciam em três. Na terceira vez que o carrinho voltou, ele estava virado para a rua com as rodas marcadas por pó de cova. Não de casa, não de depósito. Eu conheço poeira.
Passei a vida trabalhando com ela. Aquela era fina, clara, misturada com farelo de cimento antigo e resto de folha seca triturada. Era poeira de lugar parado. Foi quando liguei para minha irmã. Não contei tudo. Disse só que tinha ido ao cemitério e visto uma criança perto das campas antigas. Perguntei se ela sabia de alguma família que levava menino ali de manhã.
Do outro lado da linha, ela ficou calada. — Que foi? — perguntei. — Nada. Você conhece alguma criança assim? — Tonho, para com isso. O jeito como ela disse meu nome me incomodou mais do que se tivesse gritado. — Parar com o quê? — Você já está mexido por causa da data. Não fica procurando coisa onde não tem. — Eu só perguntei se tinha criança.
Ela respirou fundo. — Não volta lá por enquanto. — Por quê? — Porque não faz bem. Minha irmã sempre falava demais. Naquele dia falou pouco e quem fala pouco de repente quase sempre está escondendo o resto. No sábado fui à venda de seu Arlindo. Ele era mais velho que meu pai seria se estivesse vivo. Conhecia todo mundo.
Lembrava de enterro, casamento, briga de família e terreno vendido errado. Comprei uma garrafa de café e fiquei enrolando o assunto até a venda esvaziar. Depois perguntei sobre a parte antiga do cemitério. Ele limpava o balcão com um pano encardido. Parou. — Que parte? — A de baixo. Depois das campas com azulejo quebrado. Ele continuou passando o pano, mas no mesmo lugar. — Ali tem muita gente antiga.
— Tem criança enterrada ali? — Cemitério tem de tudo, Tonho. — Um menino. Seu Arlindo levantou os olhos. — Você viu alguma coisa? — Não gostei da pergunta. — Eu perguntei primeiro. — Ele largou o pano. — Tem assunto que não é bom desenterrar. — Não estou desenterrando nada. Só quero saber quem foi. Ele olhou para a porta, foi lá pra porta da venda, como se alguém pudesse estar ouvindo do lado de fora.
— Teu pai nunca te falou? — Senti o estômago apertar. Meu pai tinha sido funcionário da prefeitura por muitos anos. Cuidava de manutenção, capina, muro, encanamento, essas coisas. Às vezes trabalhava no cemitério quando faltava gente. Eu lembrava dele chegando em casa com calça suja, mãos grossas e um silêncio que minha mãe não cutucava.
— Falou o quê? — Seu Arlindo se arrependeu antes de continuar. Dava para ver. — Esquece, eu sou velho. Misturo as coisas. — Segurei a borda do balcão. — O nome. — Ele fingiu não entender. — Que nome? — Do menino. — A boca dele endureceu. — André. Só isso. André. Na mesma hora, lembrei de uma conversa antiga, dessas que a gente ouve quando é criança e finge que não ouviu.
Eu devia ter uns 10 anos. Estava no corredor de casa brincando com um carrinho de madeira que meu pai tinha trazido de algum lugar. Minha mãe na cozinha falava baixo com ele. Ela disse o nome “André”. Meu pai respondeu bravo, mandando ela nunca mais tocar naquele assunto. Na época eu não entendi ou não quis entender.
Voltei para casa com esse nome batendo na cabeça, André. Quando abri o portão, já senti que havia algo errado. O quintal estava limpo demais, não limpo de varrido, limpo de ausência. Os brinquedos do Mateus não estavam lá. Pela primeira vez em dias, não havia nada perto do portão. Entrei devagar. A casa estava quente, abafada, com aquele cheiro de janela fechada e móvel antigo.
Fui até a cozinha, deixei a sacola na mesa, tomei água. O tempo todo eu ouvia meu próprio coração. Depois fui ao quarto dos fundos. A porta estava encostada, eu sempre deixava fechada. Empurrei com o pé. A caixa do Mateus estava aberta. As roupas continuavam dobradas. Os livros, o pote de peças, o boneco, o carrinho e a bola estavam lá dentro, tudo no lugar.
Mas havia outra coisa em cima. Um brinquedo que eu nunca tinha visto adulto, mas que reconheci de criança. Um carrinho de madeira, pequeno, mal lixado, com rodas grossas presas por prego torto. Tinha uma fita de pano amarrada na parte de trás e uma etiqueta antiga, amarelada, presa por barbante. Peguei com cuidado.
A etiqueta tinha um nome escrito à mão, quase apagado: André. Sentei no chão do quarto dos fundos porque minhas pernas não quiseram continuar. O carrinho estava coberto por aquela poeira clara, seca, mas embaixo dela havia marcas de dedos pequenos, como se alguém tivesse segurado o brinquedo muitas vezes pelo mesmo lugar. Eu conhecia aquele carrinho, não como adulto, como lembrança velha.
Era o brinquedo que eu usava no corredor quando ouvi meus pais discutindo. Eu tinha esquecido dele por completo, ou achei que tinha. Naquela noite não dormi. Fiquei sentado na cozinha até clarear com o carrinho de madeira em cima da mesa. De vez em quando passava um carro na rua. Um cachorro latia longe.
O relógio da sala atrasou 15 minutos, depois parou. Nada sobrenatural aconteceu e talvez por isso tenha sido uma das piores noites da minha vida. Na manhã seguinte, fui procurar minha mãe. Ela morava numa casa pequena, perto da igreja. Já estava velha, andando devagar, mas a cabeça continuava melhor que a minha.
Quando me viu no portão com o carrinho de madeira dentro de uma sacola, o rosto dela mudou antes que eu dissesse qualquer palavra. Mãe reconhece o objeto antes de ouvir a explicação. — Quem te deu isso? — ela perguntou. — Eu achei em casa. — Ela se apoiou na porta. — Onde? — No quarto dos fundos, em cima da caixa do Mateus. — Ela fechou os olhos. — Pedi para entrar.
Ela não respondeu, só saiu da frente. A casa dela cheirava a café requentado, pomada e roupa guardada. Sentei na mesa da cozinha. Ela ficou de pé um tempo, como se sentar fosse aceitar a conversa. Coloquei o carrinho sobre a mesa. — Quem foi André? — Minha mãe levou a mão à boca, mas não chorou. Minha mãe aprendeu a chorar por dentro.
— Seu pai devia ter contado. — Então conta a senhora. — Ela olhou para a janela, para o quintal, para qualquer lugar que não fosse o brinquedo. — André era filho de uma mulher que trabalhou na casa da família do seu pai. Isso foi antes de você nascer. A moça morreu cedo. O menino ficou largado de favor.
— Naquele tempo, as pessoas faziam muita maldade, chamando de ajuda. — E morreu como? — Ela balançou a cabeça. — Não vou falar disso. — Eu preciso saber. — Precisa não. — Ele apareceu para mim. — A frase ficou na cozinha como um copo quebrado. Minha mãe sentou devagar. — Como assim apareceu? — Contei do cemitério, do menino entre as campas, dos brinquedos no quintal, das três marcas, do nome na etiqueta.
Minha mãe ouviu sem me interromper. Quando terminei, ela parecia menor. — André foi enterrado naquela parte velha? — perguntei. Ela assentiu. — Sem nome? — Com nome no papel da prefeitura, mas não na campa. Ninguém quis pagar placa, ninguém quis assumir. Seu avô dizia que menino sem família não precisava de luxo. — Meu pai? — Ela apertou as mãos no colo.
— Seu pai era novo quando ajudou a levar o caixão. Depois, quando virou funcionário, mexeu muito naquela parte do cemitério. Teve reforma. Abriram corredor, trocaram campa de lugar, juntaram osso antigo, fizeram o que faziam. Ele trouxe esse carrinho para casa um dia. Roubou de uma campa. — Ela não respondeu de primeira.
— Ele dizia que brinquedo enterrado apodrece à toa. — Eu senti nojo do meu pai, de mim, da casa, daquele carrinho. — E eu brinquei com isso. Você era adulta e deixou? — Eu não soube de onde vinha no começo. Quando soube, já era tarde. Depois eu pedi para ele devolver. Ele não devolveu. — Por quê? Minha mãe olhou para mim.
E naquele olhar tinha pena e medo. — Porque seu pai não acreditava em descanso de morto. Ele dizia que morto não sente falta de brinquedo. — Fiquei calado. Ela continuou. — Quando o Mateus nasceu, seu pai quis dar o carrinho para ele. Sua mulher não gostou. Disse que era velho, feio, cheio de farpa. Eu escondi.
— Depois da morte do Mateus, achei que tinha jogado fora. — Não jogou. Parece que não. — Peguei o carrinho da mesa. — Por que ele se parece com meu filho? — Minha mãe demorou. — Talvez porque você só fosse olhar se parecesse. — Aquilo me feriu de um jeito que não consegui responder. Passei a tarde inteira com a história na cabeça. André, um menino enterrado sem placa, um carrinho tirado da campa, meu pai mandando calar, eu brincando com brinquedo que não era meu.
Mateus quase recebendo aquilo como presente. E agora, anos depois, os brinquedos do meu filho sendo levados para o quintal, sempre virados para o portão, como se alguém estivesse pedindo devolução ou troca. No fim da tarde, voltei ao cemitério. Levei o carrinho de madeira dentro de uma sacola. Levei também o carrinho vermelho do Mateus.
Não sei explicar por que levei os dois. Talvez porque uma parte de mim achasse que André queria o que era dele. Outra parte temia que ele quisesse algo do meu filho também. O cemitério estava quase vazio. O funcionário do carrinho de mão não apareceu. A capelinha estava fechada. Havia umas velas apagadas perto de uma campa recente e um gato magro deitado sobre uma pedra quente.
Fui até a campa do Mateus. Fiquei diante do nome dele e pela primeira vez em muitos anos falei em voz alta. — Me desculpa. — Só isso. Não senti alívio, não ouvi resposta, mas falei. Depois desci até a parte antiga. As campas ali eram mais apertadas, algumas tortas, outras quase tomadas pelo mato rasteiro. Procurei o lugar onde tinha visto o menino sentado.
Encontrei os riscos no chão, já mais fracos, o círculo torto, as três marcas. Atrás da campa baixa havia uma pedra sem nome. Não era lápide, era só uma placa de cimento antiga, rachada, meio enterrada na poeira. Passei a mão por cima e senti umas letras quase sumidas. Não dava para ler. Tirei o carrinho de madeira da sacola, coloquei sobre a pedra.
Fiquei esperando. Nada aconteceu. O mundo continuou do mesmo tamanho. Um carro passou na rua de baixo. Um pássaro pousou no muro. Um vento fraco mexeu uma fita velha numa sepultura próxima. Então ouvi passos. Não atrás de mim, ao lado. Virei devagar. O menino estava entre duas campas, parado, olhando para o carrinho.
De perto, a semelhança com Mateus era menor. Ainda doía, mas já não enganava tanto. O rosto parecia outro por baixo da lembrança, como se minha saudade tivesse colocado por cima dele uma máscara conhecida. Ele não sorriu. Também não parecia bravo, só olhava para o brinquedo. — Você é André? — perguntei. A criança levantou os olhos para mim.
Não respondeu. Eu sei como isso soa. Sei que contado assim, parece que eu fiquei ali conversando com o que minha cabeça inventou. Talvez tenha explicação. Talvez o cansaço, a culpa e a data tenham feito uma coisa dentro de mim que médico nenhum conseguiria explicar com palavras simples. O problema é que eu estava lá.
E o menino estava também. Peguei o carrinho vermelho do Mateus e segurei contra o peito. — Esse não. — Eu disse antes mesmo de entender por quê. O menino olhou para o brinquedo na minha mão. Depois olhou para a campa do meu filho lá em cima, como se pudesse ver através das fileiras. Foi a única vez em que senti medo de verdade, porque naquele gesto havia entendimento.
Não era uma criança perdida qualquer, não era só uma lembrança. Aquilo sabia onde meu filho estava, sabia qual brinquedo era de quem. Sabia o que tinha sido tirado, guardado, escondido, negado. Eu coloquei o carrinho vermelho de volta na sacola. — Esse é dele. — Minha voz tremia. — Eu trouxe o seu.
O menino baixou o olhar para o carrinho de madeira, então se agachou diante da pedra sem nome e tocou o brinquedo com dois dedos. Eu não vi luz, não ouvi choro, não houve vento forte, nem sino, nem nada que facilitasse a história. Ele apenas ficou ali agachado, quieto, como uma criança que finalmente encontra uma coisa esquecida. Quando pisquei, ele já estava mais longe. Não digo que desapareceu.
Ele se levantou, virou entre as campas e foi sumindo pelo corredor estreito, passando por trás das sepulturas, até que não consegui mais ver. Dessa vez eu não fui atrás. Fiquei parado até o sol começar a baixar. Antes de sair, procurei alguém da administração. Encontrei um homem numa salinha perto do portão, cercado de papéis velhos, recibos, chaves penduradas e um ventilador fazendo mais barulho do que vento.
Perguntei sobre a campa sem nome. Ele disse que aquele setor era antigo demais, que muita coisa não estava digitalizada, que os livros ficavam guardados no arquivo da prefeitura. Voltei no dia seguinte e no outro. No terceiro dia, consegui ver um livro grande de capa dura com páginas amareladas. O funcionário passou o dedo por nomes, datas, números de quadra, observações feitas à mão. Achou André.
Não vou dizer o sobrenome, não por mistério, por respeito. Ao lado do registro havia uma anotação curta: “Sepultamento simples, sem identificação externa”. Simples. Era assim que chamavam uma criança enterrada, sem ninguém querer lembrar. Paguei uma placa pequena com o nome dele.
Nada bonito demais, nada que chamasse atenção, só o nome, a data aproximada que constava no livro e uma frase simples: “Aqui também houve uma criança”. Quando a placa ficou pronta, levei ao cemitério. O homem que instalou não perguntou muito. Talvez estivesse acostumado com gente tentando consertar tarde demais alguma coisa.
Enquanto ele mexia no cimento, eu fiquei de longe, segurando o carrinho vermelho do Mateus dentro da sacola. Não sei por que levei outra vez. Acho que eu ainda não confiava que aquilo tinha acabado. Depois que a placa foi colocada, deixei o carrinho de madeira ao lado dela. Naquela noite, voltei para casa esperando encontrar o quintal cheio de brinquedos. Não havia nada.
O portão estava do mesmo jeito, o chão limpo, a porta dos fundos trancada. Fui ao quarto dos fundos. A caixa do Mateus estava fechada, sem fita arrebentada, sem poeira em volta, sem sinal de mão pequena. Pela primeira vez em muitos dias, consegui dormir, mas isso não quer dizer que a história terminou. Passaram-se algumas semanas, depois meses.
Minha irmã perguntou por que eu estava indo mais ao cemitério. Eu disse que era por causa do Mateus. Não era mentira, só não era tudo. Minha mãe nunca mais tocou no nome André. Seu Arlindo, quando me via, cumprimentava mais baixo. A cidade continuou igual. Gente comprando fiado, caminhão atrasando, cachorro dormindo na sombra.
Sino da igreja marcando hora errada. Eu também continuei, só que mudei algumas coisas. Passei a visitar meu filho aos domingos de manhã. Não todos, mas muitos. Limpava a campa, trocava as flores quando dava. Ficava um pouco. Às vezes passava na parte antiga e olhava a placa pequena do André. O carrinho de madeira ficou lá por um tempo. Depois, um dia, não estava mais.
Não procurei. Tem coisa que a gente aprende a não chamar de volta. O que ainda me acompanha não é o menino no cemitério. Com o tempo, a imagem dele ficou menos nítida. O que não sai da minha cabeça são os brinquedos no quintal, porque eles não apareciam na porta da frente, não apareciam no quarto, não apareciam perto da caixa. Apareciam sempre junto ao portão dos fundos, virados para a rua, como se uma criança estivesse tentando sair ou como se outra estivesse tentando entrar.
Hoje, quando alguém me pergunta se acredito em alma penada, eu digo que não sei. E é verdade, eu não sei. Não gosto dessa palavra. Parece coisa de gente contando caso para assustar os outros. Eu sei de uma coisa mais simples. Existem mortos que não pedem muito. Às vezes, só querem que alguém diga o nome deles direito.
Às vezes, querem de volta uma coisa pequena que ninguém achou importante. Às vezes, escolhem a pessoa errada para cobrar uma dívida que não começou com ela. Mas também sei que culpa não morre junto com quem causou. Ela fica na casa, muda de cômodo, espera a gente abrir uma caixa, espera uma data, espera a coragem falhar. Ainda guardo os brinquedos do Mateus no quarto dos fundos.
A caixa continua lá, não está mais lacrada. De vez em quando eu abro, passo um pano, olho as coisas, fecho de novo. O carrinho vermelho fica por cima. Na maioria das noites, nada acontece. Mas às vezes, quando acordo antes do amanhecer, vou até a cozinha beber água e olho pela janela. O quintal está vazio, o portão está fechado.
Mesmo assim, tem manhã em que encontro três riscos finos na poeira, bem perto da saída. Não conto isso para ninguém. Quando alguém pergunta, digo que deve ter sido gato, vento, folha arrastando no chão. Eu digo isso porque é mais fácil. Mas toda vez que vou ao cemitério e passo pela parte antiga, evito olhar rápido demais para trás das campas.
Não porque eu tenha certeza de que vou ver o menino, é porque tenho medo de ele estar lá sentado de novo, esperando que eu reconheça outra coisa que minha família preferiu esquecer. Se você já sentiu que nem tudo termina quando alguém vai embora, escreve aqui embaixo: “Eu acredito que Deus proteja você, sua casa e quem dorme debaixo do mesmo teto que você.” A gente se encontra no próximo relato.