Palace II: A Tragédia que ABALOU o Brasil

Você sabe que bairro é considerado o melhor e mais valorizado do Rio? A Barra, naturalmente. Imagine-se morando na Barra. O Palácio 2 era um dos seus projetos mais ambiciosos.

Um prédio de 22 andares de frente pro mar na rua Jornalista Henrique Cordeiro, 350, na Barra da Tijuca, com 176 apartamentos espaçosos no total, com lazer, segurança e tudo que a classe média sonhava ter. A obra começou em 1990 e a previsão de entrega era 95, mas a obra foi se arrastando, isso por conta de uma série de problemas na construção e atrasos que foram irritando os moradores que compraram na planta.

Eu fiquei aguardando mais de um ano. Comprei e fiquei aguardando que terminassem, aquilo não terminava nunca. Só em 1996 as pessoas começaram a receber as primeiras chaves, e aí já veio o primeiro sinal vermelho. O prédio não tinha o habite-se, aquele documento, né, que a prefeitura emite, dizendo que tá tudo certo ali, né, tá tudo regular, que a pessoa pode morar lá.

Só que sem o habite-se, nenhum banco aprova o financiamento, então os moradores faziam um financiamento direto com a construtora. Muita gente nem desconfiou, né? Afinal, um prédio novo, imponente, de frente pro mar, na Barra da Tijuca, o que que podia dar errado, né? Mas o Palácio 2 não era só um prédio sem habite-se.

Ele pertencia a uma construtora que já tinha um histórico nebuloso. A Cersã já tinha sido processada quatro vezes por conta da má qualidade da construção. Em outubro de 96, a Defesa Civil chegou a interditar a obra de um prédio depois que um operário caiu no poço do elevador que estava com defeito e morreu.

Enquanto isso, os moradores do Palace 2 seguiam suas vidas morando num novo prédio, que desde os primeiros dias já dava vários indícios que escondia algo muito errado.

Quem morava no Palace 2 sabe que desde o começo o prédio não era aquele paraíso que a construtora prometia. Vários problemas foram constatados logo nos primeiros dias.

Os apartamentos foram entregues sem acabamento, com problemas hidráulicos, blocos de mármore que desprendiam das paredes, gesso que esfarelava, afastamento entre lajes, alvenaria fraca, vazamentos e infiltrações em todo lugar.

Nós recebemos o apartamento no osso, né? O apartamento não tinha piso, tá? Não tinha escada pro segundo andar e a parte de hidráulica também tava toda, tava toda desfeita, né? Quer dizer, não tava completada, né? E quando a gente, nós começamos a furar a parede para colocar quadros, eh, usava-se broca e quando você aplicava a furadeira, a broca entrava e arrombava a parede. Era uma coisa estranhíssima isso, né?

Os moradores também perceberam que a qualidade do material usado na construção não era boa e os problemas começaram a ser frequentes.

E comecei a notar que o material que era feito o acabamento do apartamento era de muito baixa qualidade. Eu tive que tirar todo o reboco das paredes porque o reboco era mais areia do que cimento. Então se eu colocasse um prego, o prego descia. Se você colocasse um quadro, mesmo com bucha, você não ia conseguir colocar.

O síndico do prédio, que era por acaso engenheiro, chegou a relatar vários problemas, inclusive mandou cartas pra construtora e pro Sérgio Naia relatando os problemas, mas nada foi feito.

Quando mandava alguém, eles faziam lá uma gambiarra, algo paliativo, nada definitivo. Mas tinha uma coisa que era ainda muito mais grave do que infiltração e paredes esfarelando.

Num dos pilares do subsolo, pilar 17A, a ferragem estava tão corroída que dava para ver o problema a olho nu. O engenheiro Milton Pereira Ramos chegou a comentar com outro morador o estado crítico daquele pilar.

Eles também, claro, avisaram a construtora, e o que que eles fizeram? Colocaram um tapume em volta do pilar para ninguém ver que o negócio já estava podre. Sim, um tapume num pilar que sustentava um prédio de 22 andares.

E aquela área sempre esteve isolada até então, até o desabamento, era uma área isolada, as pessoas não tinham acesso. Por que isso? Porque como era a área de guarda de materiais, eles não deixavam ninguém entrar, e quando a gente entrava por alguma coisa, essa pilha estava totalmente coberta.

O que ninguém sabia ainda, porque o laudo só seria feito meses depois, é que o problema não era só esse pilar. O engenheiro calculista do projeto cometeu um erro gravíssimo na hora de calcular as estruturas do prédio.

Ele simplificou o detalhamento dos pilares para facilitar a execução da obra, entre aspas. O resultado foi que quase 80% dos pilares do prédio foram construídos com coeficiente de segurança de 0.66, muito abaixo do que exige a norma brasileira, que é no mínimo 1.4.

Ou seja, para simplificar um coeficiente abaixo de um, significa que a estrutura já tá trabalhando muito além do limite ali, perto da ruptura, então esse prédio já tava condenado desde o dia em que foi construído.

Por que fazer um prédio para cair se você tem que ter um coeficiente de segurança praticamente com o dobro para segurar outro prédio? Por que fazer um prédio arriscar com a vida dos outros?

Os dois pilares mais críticos eram o P4 e o P44A. Eles deveriam ter sido projetados e construídos para suportar 480 toneladas de carga, mas por conta desse erro de cálculo, foram executados para aguentar no máximo 230 toneladas, ou seja, menos da metade.

Durante quase 10 anos, esses pilares foram carregando um peso que nunca deveriam ter carregado, e o prédio foi ficando em pé quase que por um milagre, até que ele não aguentou mais.

Chegamos no momento mais dramático dessa história. Era a noite de sábado, 21 de fevereiro de 1998. O Rio de Janeiro tava em pleno carnaval e por isso muitos moradores do Palace 2 estavam fora aproveitando o feriado, outros estavam em casa dormindo.

Por volta da 1:20 da madrugada veio o primeiro grande sinal, um estrondo enorme, parecia uma explosão que balançou o prédio. Moradores relataram que as camas pularam, as janelas vibraram e até as portas emperraram.

Era o som dos pilares cedendo lá embaixo, enquanto rachaduras apareciam por todos os apartamentos. Ele falou assim: “O meu apartamento está todo rachado, tá tudo bem aí?” Eu falei: “Sim”. Mas quando ele falou: “Tá todo rachado, eu fui acender a luz da sala, eu só tinha ido até a cozinha”, e realmente, quando eu olho, tinha rachadura do teto ao chão na minha sala, eu podia assim colocar a mão que entrava um pouco.

Dois moradores então correram rápido pro subsolo para tentar entender o que tava acontecendo. Um deles era o coronel Marcos Aurélio Carlos da Silva, do Corpo de Bombeiros; o outro era o engenheiro civil Gerard de Azevedo Queiroz.

É, quando deu o estrondo eu desci, desci pro primeiro subsolo, procurei as colunas para ver se tinham colunas colapsadas e tal, nenhuma comprometida. No segundo subsolo procurando, foi que eu encontrei, né? Atrás de um tapume escondida, a coluna explodida com o peso, ela explodiu concreto.

Essa coluna que deveria estar assim, tava na verdade assim flambada, ou seja, um grande sinal de que ela estava prestes a romper.

Quando chegamos, demos de cara com uma coluna enorme, somente com os ferros e o concreto já todo estourado em volta. O coronel e o engenheiro não perderam tempo, começaram uma corrida desesperada, interfonando para todos os apartamentos e batendo de porta em porta, acordando todo mundo.

O coronel Marcos do Corpo de Bombeiros, que na semana passada encontrou três russos perdidos na floresta da Tijuca, foi herói mais uma vez, morador do prédio, ajudou a esvaziar os apartamentos. Se eu soubesse a dor que eu tô dentro de mim, como eu tô me sentindo aqui.

De repente, moradores do prédio vizinho que também perceberam o problema começaram a gritar desesperados para todo mundo sair do prédio. Aí vamos descer, acorda.

O cenário era de pânico e caos absoluto. Gente sendo acordada sem entender direito o que tava acontecendo, criança chorando, idosos com dificuldade para andar, todo mundo tentando descer ao mesmo tempo pelas escadas do prédio naquela madrugada. Os bombeiros e a Defesa Civil chegaram e interditaram o bloco.

Atenção, senhores moradores do edifício, peço que dois queiram aparecer na janela dos seus respectivos apartamentos. A maioria das pessoas que estavam no prédio conseguiram sair, mas nem todos.

Às 4:25 da madrugada, o inevitável aconteceu. As colunas um e dois do bloco dois colapsaram, uma faixa inteira do prédio com 44 apartamentos veio abaixo em questão de segundos.

O estrondo foi ouvido por todo o bairro e uma nuvem de poeira tomou conta das ruas. Foi um silêncio muito grande. Olha que silêncio, um silêncio que eu nunca mais, nunca mais ouvi esse silêncio. Um silêncio muito grande, e de repente, depois do silêncio, veio a gritaria.

No meio da confusão, muitas pessoas tentaram voltar para os seus apartamentos para recuperar pertences, dinheiro e documentos. Uma mulher, Fátima Barbosa Ferraz, voltou para buscar as fantasias que iria usar no desfile de escolas de samba, ela tava animada pro carnaval e não imaginou que seria a última coisa que faria.

Ontem disseram que a mulher de Marcelo, Fátima, tinha voltado para buscar uma fantasia. Não importa, Marcelo quer justiça.

Nem que seja a última coisa que eu faça na minha vida, eu quero ver essas pessoas na cadeia, é isso que eu quero, eu não quero mais nada, dinheiro não paga a vida dela.

Outra vítima foi uma mulher com dificuldade de locomoção, que não conseguiu descer as escadas a tempo, e o próprio engenheiro Gerhard Queiroz, que tinha ajudado a salvar tantas pessoas, voltou para o apartamento para buscar alguma coisa e não conseguiu sair.

Quando a poeira baixou, onde antes existia um prédio de 22 andares, agora era uma montanha de entulho de 20 metros de altura. Oito pessoas morreram soterradas, entre elas uma família inteira: Newton, sua esposa Rosângela e seus filhos de 13 e apenas 3 anos de idade.

No domingo de manhã, a notícia parou o país. Parte de um prédio residencial de 22 andares desaba na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. Quatro moradores estão desaparecidos.

Os moradores do edifício Palace, na rua Jornalista Henrique Cordeiro, número 350, começaram a ouvir estrondos e rachaduras por volta de 1 hora da manhã. Eles chamaram o Corpo de Bombeiros, a Defesa Civil e resolveram abandonar os apartamentos.

Começou então uma incessante e delicada busca por sobreviventes, mas infelizmente o resgate só conseguiu encontrar os oito corpos. Enquanto isso, as famílias desesperadas não tinham nem para onde ir.

Perdi minha dignidade porque eu tô na rua, em pé no meio da rua com essa idade depois de ter trabalhado uma vida inteira.

Eu não tenho documento, eu não tenho roupa, eu tenho a roupa que eu tô vestida, meu filho não tem mais nada, a gente perde o referencial mesmo.

Famílias que passaram anos para conseguir ter um lar, né, uma casa para morar, de repente se viram desabrigadas. Uma base de calmante, uma luta, uma vida inteira tentando conseguir as coisas. Casa mal, meu filho, nós vamos ter outra.

Sem ter para onde ir, muitas famílias ficaram meses morando na casa de parentes, em hotéis, amontoando suas coisas em pequenos quartos.

Os moradores passaram a noite em casas de amigos, hotéis, motéis, hoje se reuniram na rua, discutiram o futuro de cada um e não encontraram solução.

Mas a tragédia não acabou naquele dia 22 de fevereiro, porque uma parte do prédio continuou de pé, mas completamente instável. As equipes de resgate tentaram trabalhar nos escombros, mas o risco de novos desabamentos era enorme.

Os bombeiros chegaram a suspender as buscas por temer que o restante do prédio viesse abaixo. Dois corpos só foram recuperados depois da implosão. Olha para isso, meu apartamento desceu inteiro, um apartamento que eu comprei, que aqui tava toda a minha vida. Toda a minha vida não é só dinheiro, não é só trabalho, não, tava a vida das pessoas que viviam comigo, da mulher que eu amava.

Um dia depois do desabamento, Sérgio Naia ainda não tinha aparecido para dar explicações, quando um dos responsáveis pela obra tentou falar em prejuízos da empresa e acabou apanhando de uma das vítimas. Ontem o engenheiro Sérgio Murilo, um dos responsáveis pela obra, veio falar de prejuízos, apanhou de moradores revoltados. Pera aí, pera aí.

Só hoje o analista de sistemas Rui Faitel conseguiu explicar sua reação. Ganhamos o nosso dinheiro com suor, vimos amigos nossos morrerem e ver uma pessoa dar uma declaração de que eles não eram diretores nem representantes da empresa e que nós éramos invasores.

O clima que já era péssimo ficou insustentável, e infelizmente ali os moradores já perceberam que os responsáveis fariam de tudo para se livrar da culpa. Minha mulher tá morta lá dentro dos escombros, seus bandidos.

A construtora disse que vai estudar uma forma de ressarcir prejuízos. Assassino.

Dois dias depois do desabamento, o prefeito da cidade anunciou que o prédio seria implodido cinco dias depois. A notícia caiu como uma bomba nas famílias que ainda tinham esperanças de recuperar algum pertence.

Foi um momento muito difícil quando foi decidido que haveria a implosão e que ninguém mais poderia entrar, aí eu vi que eu tinha perdido tudo.

Mas antes da implosão programada, mais uma surpresa. No dia 27 de fevereiro, um laudo técnico tinha dito que era seguro os moradores entrarem rápido para pegar alguma coisa no que restava do prédio.

Só que meia hora antes desse aviso, do nada uma tromba d’água gigante jorrou da cobertura do 23º andar, e aí toneladas de água desabaram e derrubaram mais apartamentos. Caiu como se fosse uma cachoeira. Algumas imagens mostram uma queda d’água naquele momento, né? Porque caiu a caixa d’água, foi junto com o andar, né?

Finalmente, no dia 28 de fevereiro de 98, ao meio-dia, o edifício Palace 2 foi implodido de vez. Em 5 segundos, o que restava de 22 andares e 176 apartamentos virou pó. A implosão foi transmitida ao vivo para todo o Brasil.

120 famílias assistiram ao vivo o fim do que um dia foi o sonho de uma vida inteira, e a essa altura não tinha mais nada a se fazer. Os 22 andares do Palace 2 vão pro chão. Foram usados menos de 25 kg de dinamite, a metade do previsto.

Depois que a poeira abaixou, um perito encontrou conchas do mar no concreto e detectaram vestígios de cloreto e sais na estrutura. Isso levantou a suspeita de que a construtora poderia ter usado a areia da praia, o que comprometeria a resistência do aço, porém, depois os laudos oficiais confirmaram que a causa principal da queda foi o erro de cálculo dos engenheiros e não apenas o material de baixa qualidade.

O Palace 2 começou a ruir pela pilastra principal. A peça que deveria suportar 840 toneladas de peso, a maior carga da estrutura, não resistiu. O pilar foi esmagado e o peso do prédio distribuído para outras colunas que também não suportaram a carga e se romperam.

Agora o que restava era cobrar os responsáveis na justiça, mas foi justamente aí que começava um capítulo de ainda mais dor e angústia para todas aquelas famílias.

Com o prédio ao chão e o Brasil indignado, a pressão sobre Sérgio Naia foi imediata, e o que o deputado fez? Fugiu. Naia pegou um avião e foi pro Estados Unidos, mas a fuga não durou muito, ele foi localizado em Miami e trazido de volta ao Brasil para responder pelo que aconteceu.

Não fosse bastante, a prefeitura do Rio acusou a construtora de Sérgio Naia de fraudar documentos. Surgiu mais uma denúncia contra a construtora do deputado Sérgio Naia. A prefeitura do Rio acusa a Cersan de falsificar documentos para conseguir financiamento da Caixa Econômica Federal.

Enquanto isso, em Brasília, a pressão também era grande. Depois de muita insistência das próprias vítimas que passaram dias ali na Câmara dos Deputados, em 16 de abril de 98, pouco mais de um mês depois do desabamento, o mandato de Sérgio Naia foi cassado.

Além do mandato, Naia perdeu o registro profissional de engenheiro no CREA. Dia de limpar gavetas no gabinete de Sérgio Naia, cassado ontem. Mário Assad do PSL, substituto do ex-deputado, tentou ficar com o gabinete, mas perdeu o lugar pro ex-ministro Reinold Stephanes.

Agora, sem o foro privilegiado, Sérgio Naia começou a ser julgado, assim como os outros engenheiros envolvidos.

A assinatura do deputado federal Sérgio Naia como engenheiro responsável está na planta do prédio que desabou na Barra da Tijuca. O documento foi encontrado na Secretaria de Urbanismo. Os engenheiros Sérgio Murilo Domingues, que foi agredido por um morador, e José Roberto Schendes, que fez o cálculo estrutural, são considerados corresponsáveis.

Com base nas investigações, o delegado concluiu que os indiciados agiram conscientemente, assumindo o risco do desabamento que provocou oito mortes. Porém, além de moroso, o processo foi adiado e até paralisado várias vezes, o que indicava a influência de Sérgio Naia na política.

E o processo criminal está parado e ninguém aqui sabe por quê, a justiça ainda não abriu uma ação, o processo está na fase de inquérito.

Ele procurou um nível de influência dentro do judiciário muito forte. O advogado dele foi o Nilo Batista, ex-governador, ex-secretário de segurança.

Enquanto isso, as famílias continuavam numa situação muito complicada. A construtora Cersã, que tinha prometido pagar indenizações em até seis meses, não tinha cumprido a promessa.

A maioria das famílias foi mandada para hotéis, e aí foi criada então uma associação das vítimas do Palace 2. A presidente da associação descreveu essa situação afirmando que eles só pagavam a diária e o café da manhã, então todo o resto era por conta das vítimas.

E eu comecei a agitar para fazer a associação, para que tivesse força, para que a gente pudesse entrar em juízo. Então vamos tentar eleger esse grupo como representante da associação, levante a mão.

Em 1999, Sérgio Naia foi indiciado por homicídio doloso, mas o processo se arrastou durante muito tempo na justiça. Em 2001, 3 anos depois da tragédia, a maioria das famílias ainda morava em pequenos quartos de hotel enquanto aguardavam alguma resposta.

A vida era assim, acordar e falar: “Putz, eu tô aqui no hotel ainda”. Era todo dia isso. É complicado você fazer de um quarto a tua vida para três filhos, marido.

Enquanto isso, Sérgio Naia chegou a fazer várias propostas aos moradores para pagar valores bem abaixo do que era estipulado pela justiça.

54 famílias ainda moram num hotel no Recreio dos Bandeirantes e elas dizem que o senhor quer pagar uma quantia muito menor do que aquilo que a justiça determinou.

Não, alguns ex-moradores se recusam a qualquer tipo de entendimento, buscando obter vantagem pessoal com esse lamentável episódio.

Que tipo de vantagem, pessoal? Querem ganhar mais dinheiro do que a justiça determinou. É isso.

Há parâmetros judiciais para essas indenizações. Num clima emocional, essas indenizações vão a valores muito altos, esses querem receber mais, tá certo? No meu departamento jurídico.

Em 2002, a Câmara Criminal do TJ chegou a condenar Naia e o seu sócio, o engenheiro Sérgio Murilo Dominguez, a 2 anos e 8 meses de prisão, mas a defesa recorreu. Em 2004, Naia foi preso novamente, dessa vez em Porto Alegre, quando tentava fugir pro Uruguai, e no aeroporto e até dentro do avião, a indignação muito justificável, né, de um morador causou confusão.

Quando ele foi preso lá em Porto Alegre, né, ele foi devolvido pro Rio, queria fugir pro Uruguai, né, nós ficamos aguardando ele no aeroporto do Rio.

O voo foi tumultuado e tenso. A bordo, além do construtor do Palace 2, estava um ex-morador do prédio que desabou.

O senhor matou oito pessoas. José Roberto Schendes tem aí a declaração que ele que fez o cálculo, tem o recibo, tem o dinheiro que recebeu, tem tudo. Pegaram para bode expiatório para Cristo, né? Esses bonzinhos Palace só me deram calote de 90% de preço. Você não foi os assassinos.

Sua mãe.

Você tem que pensar sempre nisso, que você matou uma criança de 3 anos de idade. Você é um assassino.

Para, cachorro, cachorro. As vítimas comemoraram a prisão, mas não por muito tempo.

A prisão de um assassino, de um filho da mãe te alivia, te tira amargura do coração. Assassino, filho da mãe.

Isso aí vai me indenizar pelo menos moralmente um pouquinho.

Sérgio Naia ficou pouco mais de 4 meses preso, mas depois foi solto de novo. Ao todo, ele ficou 137 dias na cadeia em suas duas passagens.

E então veio o outro balde de água fria. Em 7 de junho de 2005, a Câmara Criminal do TJ do Rio de Janeiro absolveu Sérgio Naia e Sérgio Murilo Domingues, por unanimidade, cinco votos a zero.

A justificativa que eles usaram foi técnica e burocrática: o erro de cálculo foi do projetista e não de Sérgio Naia, e os promotores, ao recorrer da primeira absolvição, tinham mudado a classificação do crime de doloso para culposo sem avisar a defesa, o que, segundo eles, teria violado o Código de Processo Penal. Ou seja, por uma falha processual dos próprios promotores, Sérgio Naia ficou livre de novo.

Ele foi absolvido quando ele era o engenheiro da obra, ele que assinou aquilo ali, foi uma arrumação. O culpado de morrer foram os mortos. Ele não respondeu por crime, a partir desse dia eu não acreditei mais na justiça deste país, na justiça do país.

A reação das famílias, claro, foi de desespero e revolta. Infelizmente só ódio, ódio, ódio, ódio. É sentimento de vingança, de é o que tu tem mesmo.

O engenheiro que fez os cálculos, José Roberto Schendes, foi o único condenado criminalmente, mas a pena de 2 anos e 8 meses foi convertida em prestação de serviços comunitários.

Já o Naia, absolvido criminalmente, agora tinha que responder aos processos cíveis. Seus bens foram bloqueados pela justiça, ele tinha imóveis no Brasil e no exterior, uma dezena de carros de luxo, hotéis, empresas de mineração e turismo.

Com tantos bens, parecia que finalmente as famílias iam receber o que elas mereciam, porém, o Naia escapou de novo.

Em 2008, foi denunciado por fraude à execução. Ele tinha vendido um terreno avaliado em 40 milhões de reais, mas dois dias antes da venda, a construtora Cersã foi substituída por outra empresa no negócio para impedir que o dinheiro fosse usado para pagar as indenizações.

Meses depois, Sérgio Naia morreu de infarto, exatamente 11 anos depois do desabamento.

Sérgio Naia voltou ao hotel ontem, tarde da noite, e não apareceu para o café da manhã e nem para o almoço. A suspeita é que ele tenha sofrido um infarto.

Naia morreu sem ter pago a maior parte das indenizações e ainda recebia sua pensão de ex-deputado.

Ele era novo, ele tinha 68 anos. 68. Eu tô com 64. Se eu morrer com 68 vou ficar muito triste. Mas eu queria vê-lo na justiça determinando punição para Sérgio Naia, mais cadeia de 10, 20, 30 anos para Sérgio Naia. Isso nós não vimos, né?

Não fosse bastante, os processos continuaram se arrastando nos tribunais. Os herdeiros de Sérgio Naia assumiram a dívida, mas a burocracia judicial brasileira fez o que sabe fazer de melhor, né? Demorou e demorou muito.

As famílias que perderam tudo tiveram que tocar a vida. Os anos foram passando, as pessoas foram envelhecendo enquanto esperavam. Muitos tinham medo de morrer antes de receber qualquer coisa, e isso, infelizmente, aconteceu, muitos faleceram antes de receber qualquer centavo.

Em 2017, um terreno em Brasília pertencente ao espólio de Naia foi leiloado. Em 2022, ou seja, 24 anos depois da tragédia, o STJ finalmente decidiu que as 120 famílias vítimas do Palace 2 dividiriam os 30 milhões de reais arrecadados com esse leilão.

A decisão foi comemorada, mas com amargura. 30 milhões de reais divididos por 120 famílias dá em média 250.000 por família. Esse valor não compra nenhum quarto de um apartamento na mesma região hoje em dia, isso sem falar nos danos morais, a perda de bens, as pessoas que faleceram, não teve correção monetária e um monte de outras questões.

A Rauliet pagou na época 125.000 reais num apartamento. Hoje, de acordo com o índice geral de preços do mercado da FGV, esse valor equivale a quase 1 milhão de reais.

Os advogados das vítimas afirmam que o valor é insuficiente e estimam que ainda há uma dívida de 150 milhões a ser paga através de outros processos que ainda tramitam na justiça.

Os 30 milhões de reais correspondem a 1/3 de um terreno leiloado em Brasília em 2017. O espaço pertencia à empresa Cersan, que planejou o edifício Palace 2, que desabou na madrugada do dia 22 de fevereiro de 1998.

30 milhões que vai ser dividido agora representa o quê aí? 20%, 30% desse valor.

Hoje em dia, no terreno da rua Jornalista Henrique Cordeiro, 350, na Barra da Tijuca, existe um condomínio de luxo chamado Barra One.

Em 2010, a construtora Calçada comprou o terreno e ergueu um prédio novo, o edifício Marapendi, com 180 apartamentos. A vida seguiu em frente e o Palace 2 virou uma cicatriz eterna naquelas famílias.

O prédio vizinho, Palace 1, que foi construído pela mesma Cersã, sobreviveu, mas logo depois do desabamento do Palace 2, os engenheiros descobriram que ele também tinha problemas sérios em dois pilares idênticos aos que falharam no Palace 2.

Houve essa possibilidade de examinar uma estrutura similar e ver se havia algum sintoma. A gente viu que tinha sido feito algum tipo de reforço no Palace 1. O Palace 1 passou por uma grande reforma e principalmente um reforço estrutural, depois mudou de nome para edifício Joá, passou por outras reformas, mas o estigma ficou.

Até hoje apartamentos no Joá valem uma fração do que valeriam se não fossem vizinhos de uma tragédia, tragédia essa do Palace 2 junto com a da Encol, que eu também falei aqui no canal que aconteceu, né, mais ou menos na mesma época, forçaram o Brasil a mudar algumas leis no setor imobiliário.

Foi criado o regime de patrimônio de afetação, onde cada empreendimento passa a ter o seu próprio CNPJ e o dinheiro daquela obra não pode ser desviado para cobrir buracos em outros projetos da mesma construtora.

Bom, mas como estão as famílias hoje em dia? 28 anos depois, muitas ainda brigam na justiça. A associação das vítimas do Palace 2 continua ativa. Ainda existem processos na justiça tentando recuperar parte do dinheiro que teria sido enviado para contas na Suíça por meio de laranjas. O advogado que representa a associação estima que mais de 200 milhões foram expatriados.

Sinto que estou sendo massacrado até hoje': O relato do bombeiro que  sobreviveu e salvou moradores da tragédia do Palace II | Blog do Acervo - O  Globo

Morre o empresário e ex-deputado Sérgio Naya

Se esse dinheiro um dia for recuperado, as famílias finalmente poderiam receber o que é devido, mas ninguém sabe quando isso vai acontecer ou se vai acontecer, e por enquanto o que fica é a dor das famílias.

Eu gostaria muito de que essa briga acabasse, gostaria. Eu quero ter o direito de sentir falta da minha filha sem me lembrar do Naia, sem que a imagem dela seja poluída pela imagem dele, sei lá, que nada disso tenha, que eu me lembre daqui, que venha os escombros, que venha tudo o que a gente passou, que venha junto. Eu não acho, eu acho justo, justiça de novo, né? Não é justo que eu não possa chorar minha filha sem que uma dor pura e simples venha misturada com tanta raiva, tanto ódio.

No fim, o Palace 2 é um símbolo de tudo que pode dar errado quando ganância, impunidade e negligência se juntam.

Um deputado federal que usou a influência para construir um prédio sem habite-se, com material de baixa qualidade, com cálculo estrutural totalmente errado, um sistema de fiscalização que falhou em todos os níveis possíveis.

É também a história de uma justiça falha que demorou décadas para dar uma resposta parcial e frustrante para centenas de famílias, e também uma certeza de que Sérgio Naia não foi nem será o único a usar o poder e a influência para sair ileso num Brasil que infelizmente se acostumou com a impunidade.

O Brasil ainda convive com muitos Sérgio Naias. São pessoas que vivem, se alimentam da impunidade, que se escondem atrás de um título, atrás de um foro privilegiado.

28 anos se passaram e oito famílias continuam despedaçadas por terem perdido as pessoas que tanto amavam. E se a justiça muitas vezes custa a ser feita, que pelo menos os nomes dessas oito pessoas nunca mais sejam esquecidos.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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