OS LUXOS ABSURDOS ABANDONADOS POR RAUL SEIXAS APÓS SUA MORTE

nem médico soube explicar direito. Fica comigo até o final, porque essa é uma história que ninguém te contou inteira. Para entender quem foi Raul Seixas, a gente precisa voltar bem antes do rock, bem antes do palco, bem antes da fama. A gente precisa voltar para Salvador, ano de 1945, uma casa simples na rua Rio Itapicuro, número 17, no bairro da Boa Viagem.

Era ali que morava a família Seixas, o pai, engenheiro de estradas de ferro, a mãe, dona Eugênia, dona de casa, e o filho mais velho, um menino chamado Raul Santos Seixas, que veio ao mundo no dia 28 de junho daquele ano. Mas tem um detalhe sobre essa casa que muda tudo. Bem do lado, separado só por um muro, ficava o consulado americano.

E nos anos 50, no quintal vizinho, brincavam os filhos dos diplomatas dos Estados Unidos. Eles traziam coisas que nenhum menino baiano tinha acesso na época, discos de Elvis Presley, Little Richard, Jerry Lee Lewis. Enquanto o Brasil inteiro dançava baião e ouvia Luís Gonzaga no rádio, o pequeno Raul ouvia rock americano pela janela e aprendia inglês antes mesmo dos 15 anos.

Olha que curioso essa coincidência geográfica, esse muro que separava duas culturas, foi o que plantou a semente do que viria a ser o pai do rock brasileiro. Não foi escola, não foi professor, foi um acaso de vizinhança. Na escola a história era outra. Raul odiava estudar. >> É um capeta. Ele e o irmão aprontavam toda a hora, não era todo dia, não.

>> Repetiu três vezes a segunda série do ginásio no colégio São Bento. Os pais desesperados transferiram pro Marista. Não adiantou. Ele só conseguiu terminar a terceira série e parou por aí. A verdadeira universidade dele era o cinema Roma, lá no centro de Salvador, onde ele assistia a tudo o que era filme do Elvis.

ficava horas dentro da sala escura e saía de lá querendo ser igual ao americano, de cabelo penteado para trás. E foi exatamente aí que tudo começou. Em 1959, com apenas 14 anos, Raul fundou junto com o amigo Valdir Serrão um clube chamado Elvis Rock Club. Mas espera, porque tem mais. Não pense que era um clube tranquilo de jovens sentados numa roda ouvindo disco. Não era nada disso.

O próprio Raul contou em entrevistas que o Elvis Rock Club era uma turma que brigava na rua, fazia bagunça, procurava confusão. Era a forma deles de mostrar que rock and roll naquela época era rebeldia pura. E aqui tem um ponto que quem viveu aqueles anos entende bem. No Brasil dos anos 60, ser roqueiro era ser mal visto.

Bossa nova era considerada arte, era chique, era nacionalista, era coisa de gente fina. Já o rock, o rock era coisa de moleque alienado, reacionário, americanizado demais. O próprio Raul disse uma vez: “De um lado, a bossa nova do teatro Vila Velha, do outro, o rock do cinema Roma. E eu era o chefe do rock em Salvador. Imagina a cena.

Um menino de 15 anos, magro, de óculos, andando pelas ruas da Bahia, carregando nas costas o peso de defender uma música que ninguém queria ouvir. Enquanto os colegas de colégio sonhavam em ser advogado, médico, engenheiro como pai, Raul sonhava em ser Elvis Presley e ninguém acreditava nele. Mas tem uma coisa que poucos sabem.

Esse moleque que não passava de ano, que vivia em pé de guerra com a escola, que era visto como caso perdido. Esse mesmo moleque estava prestes a fazer uma coisa que mudaria a música brasileira para sempre. E o caminho até lá ia passar por um encontro improvável com um sujeito que ninguém conhecia ainda, mas que um dia se tornaria o segundo escritor mais lido do planeta.

A história começa a mudar para valer em 1967. Raul tinha 22 anos. Estava casado com a primeira mulher, uma americana chamada Edit, filha de um pastor protestante que não queria a filha namorando um roqueiro fracassado. Para agradar o sogro, Raul fez o impossível, se enfiou nos livros e passou no vestibular para direito.

Filosofia e psicologia, tudo de uma vez. e logo depois largou tudo, porque o que ele queria mesmo era música. No mesmo ano, ele e a banda Os Panteras desembarcaram no Rio de Janeiro a convite de Jerry Adriane. Gravaram um disco pela Odeon foi um fracasso completo. Nada. Ninguém comprou. Ninguém tocou no rádio, ninguém quis saber.

A banda passou fome no rio, chegou a dormir mal e parte dos músicos voltou derrotada para Salvador. Raul ficou, mas ficou abalado e aí veio a virada. Em 1969, a gravadora CBS chamou ele para trabalhar como produtor musical. E foi nessa cadeira, dentro de uma gravadora que Raul aprendeu como funcionava a engrenagem da indústria por dentro.

 

produziu disco para Jerry Adriane, para Renato e seus blue caps. Pro Odair José foi uma escola, mas no fundo do peito ele continuava querendo ser ele mesmo o cantor. E aí vem o detalhe que muda tudo. Em maio de 1972, Raul leu uma revista chamada A Pomba. Tinha um artigo sobre discos voadores e astrologia assinado por um sujeito desconhecido.

Raul achou aquilo tão estranho, tão fora da curva, que foi atrás do autor, o nome do cara Paulo Coelho. Isso mesmo. O Paulo Coelho que hoje vem de livro no mundo inteiro. Naquela época era um jornalista metido com ocultismo que ninguém conhecia. Os dois viraram parceiros de uma forma que só acontece uma vez na vida. Em apenas 4 anos, escreveram juntos 41 músicas. 41.

E não eram músicas qualquer. Saíram dali: Guita, Sociedade Alternativa, Tente outra vez, Ama Maçã. Eu nasci há 10.000 anos atrás. Medo da Chuva. Música que até hoje, mais de 50 anos depois, toca em rádio, toca em show, toca em casamento. O próprio Paulo Coelho confessou numa entrevista recente em 2025, eu poderia viver, se eu quisesse, só dos direitos das músicas que fiz com Raul.

Pensa só, o segundo escritor mais vendido do planeta diz que poderia se aposentar só com o dinheiro daquelas canções. Isso te dá uma ideia do tamanho do que esses dois fizeram juntos. E o resultado veio rápido. Em 1973, Raul lança o primeiro disco solo Krigha Bandolo. Em 1974 vem Guita. E aqui o negócio explode de vez. O disco Guita vendeu 600.

000 cópias. Para você ter uma ideia, isso é coisa de astro internacional. Era praticamente um disco de ouro virando platina, virando diamante. Raul Seixas, o mesmo moleque que tinha passado fome no Rio 5 anos antes, agora era a trilha sonora da novela O Rebu da Globo. Aparecia no programa do Chacrinha, Lotava Estádio.

E quem viveu aquela época lembra: sábado à tarde, a família reunida na sala, a TV ligada e de repente toca Gita no final da novela. Era impossível não cantar junto, era impossível não bater o pé. Mas o ápice mesmo veio em fevereiro de 1982, praia do Gonzaga, em Santos. Raul Seixas subiu num palco montado na areia e fez um show que entrou pra história entre 150.

000 e 180.000 pessoas. Você leu certo? Quase 200.000 pessoas espremidas numa praia para ver um homem cantar. Para você ter dimensão, isso é mais gente do que cabe no Maracanã lotado duas vezes. Foi um dos maiores públicos da história da música brasileira até hoje. E aí qualquer pessoa olha para essa cena e pensa a mesma coisa.

Esse cara tava ricaço, tinha que tá nadando em dinheiro. E faz todo sentido pensar assim: “Quem lota uma praia inteira vende 600.000 cópias de disco, toca em novela das 8. Certamente faturou alto.” É lógica básica, só que a realidade era bem diferente. E quem contou isso foi a pessoa que mais conhecia Raul no mundo, a própria mãe dele, dona Eugênia.

Numa entrevista, anos depois da morte do filho, ela soltou uma frase que ninguém esperava ouvir. Raulzito não ligava para dinheiro, nunca trazia dinheiro no bolso. Tudo que entrava era administrado por outros. Pelo advogado, pela esposa da vez, pela secretária. Pois é, o homem que levou 180.

000 pessoas para uma praia em Santos não tinha controle sobre o próprio dinheiro. E é exatamente aí que essa história começa a ficar estranha, porque o cara que cantava para estádios cheios, o cara que era trilha de novela, o cara que era chamado de pai do rock brasileiro, esse mesmo cara, na hora em que morreu, não tinha uma única casa registrada no próprio nome.

E o que ele tinha, ou melhor, o que ele não tinha quando o inventário foi aberto é uma coisa que choca até hoje. Quando uma pessoa famosa morre no Brasil, a gente já tá meio acostumado com o tipo de notícia que vem depois, um mês, 2 meses, e começa a aparecer reportagem sobre a herança, a mansão em tal lugar, a coleção de carros importados, a casa de praia, a fazenda no interior, o iate ancorado em Angra é quase um ritual.

Quanto maior o artista, maior a fortuna que aparece. Com Raul Seixas, todo mundo esperava a mesma coisa. Afinal, era Raul Seixas, o cara que vendeu 600.000 cópias de um disco só. O cara da praia do Gonzaga, o cara que tocou no Chacrinha. Quando o inventário foi aberto, em 1992, 3 anos depois da morte dele, o Brasil esperava descobrir uma fortuna escondida.

propriedades em várias capitais, alguma coisa à altura do tamanho do nome, mas o que apareceu no documento oficial deixou todo mundo sem entender. Nenhum imóvel, nenhuma casa, nenhum apartamento, nenhum terreno em lugar nenhum do Brasil, nenhum carro registrado no nome dele, nenhum barco, nenhum avião, nenhuma fazenda, nenhuma joia, nenhum investimento, nenhuma aplicação financeira, nada, absolutamente nada.

O único bem material que aparecia no inventário oficial de Raul Seixas eram 300 cruzados novos numa caderneta de poupança do Bradesco. 300 cruzados novos convertidos pelo Banco Central para valores de hoje com correção pelo IPCA. Isso dá exatamente R$ 551,88. Pausa aí. O homem que é considerado o pai do rock brasileiro, o cara que escreveu mais de 300 músicas que tocam até hoje no rádio, o cara que reuniu 180.

000 pessoas numa praia, morreu deixando menos do que custa um par de tênis decente. R$ 551 é o valor de uma conta de luz de uma casa grande. É menos do que muita gente gasta no mercado num mês. E aqui a maioria das pessoas vai pensar a mesma coisa. Então ele morreu na miséria. Morreu pobre, abandonado, sem nada.

E faz sentido pensar assim, porque o número é tão pequeno que parece miséria de verdade. Só que a realidade era mais complicada que isso. Quem rebateu publicamente foi a própria filha dele, Vivian Seixas. Ela explicou que o pai vivia confortavelmente até o fim. recebia direitos autorais todo mês. No último ano de vida, fez 50 shows pelo Brasil inteiro, com plateias grandes, com cachê, recebeu disco de ouro póstumo.

Não era miséria, era outra coisa. Era simplesmente um homem que ganhava bem, mas não convertia nada em patrimônio. Tudo o que entrava saía para aluguel, para estúdio, para acompanhar a vida errante, para bancar o estilo de vida que ele escolheu. Agora, presta atenção nesse detalhe, porque é aqui que a coisa fica simbólica.

Em São Paulo, nos últimos anos de vida, Raul Seixas morou em pelo menos seis endereços diferentes. Uma casa no Butantã, perto da USP, um apartamento no Itaim Bibi, outro no Brooklyn e o último, o famoso o edifício Aliança, na rua Frei Caneca, número 1100, apartamento 1003, no bairro da Consolação. Todos esses endereços tinham uma coisa em comum.

Nenhum era dele. Todos eram alugados. O pai do rock brasileiro morreu em Quilino. Hoje em dia, o prédio da Frei Caneca virou ponto de peregrinação. A prefeitura de São Paulo instalou uma placa de memória na fachada e fãs do mundo inteiro vão até lá tirar foto, deixar flor, prestar homenagem.

Mas o apartamento 1003 segue sendo um imóvel residencial qualquer. Não virou museu, não virou nada. Alguém mora lá hoje, provavelmente sem fazer ideia de quem morreu naquela cama. E em Salvador, a cidade onde ele nasceu, a casa de infância dele, lá na rua Rio Itaicuro, número 17, no bairro da Boa Viagem, aquela casa onde o moleque ouvia Elvis pela janela do consulado americano.

Hoje funciona uma loja maçônica no endereço. Pensa na ironia, o homem que fundou a sociedade alternativa, que mergulhou no ocultismo, que seguiu a filosofia daquele inglês maluco chamado Alister Crawley, que escreveu o hino dizendo: “Faz o que tu queres, pois é tudo da lei”. A casa de infância dele virou sede de maçonaria. É o tipo de coincidência que se fosse num filme ninguém ia acreditar.

Mas tem um pedaço dessa história que machuca mais do que o resto. Porque enquanto Raul não deixou casa, não deixou carro, não deixou nada material, ele deixou três filhas, três meninas de três mulheres diferentes em dois países. E essas três mulheres, mais a guardiã do legado dele aqui no Brasil, entraram numa briga que dura até hoje, mais de 30 anos depois da morte do cantor.

E o que elas disputam não é o inventário de R$ 551, é outra coisa muito maior, algo que vale milhões e que ninguém imaginava o tamanho na época em que Raul fechou os olhos pela última vez. A destruição de Raul Seixas não aconteceu de uma vez. Ela foi acontecendo aos pouquinhos, ao longo de mais de 10 anos, num processo lento, doloroso, que todo mundo perto dele viu de camarote, mas ninguém conseguiu impedir.

E ela tem uma data de início que pode ser marcada com precisão, 1978. Naquele ano, com apenas 33 anos de idade, Raul foi parar numa mesa de cirurgia em estado grave. Os médicos abriram o corpo dele e tiveram que retirar uma parte considerável do pâncreas. A causa era óbvia para qualquer um que conhecesse a rotina dele.

Anos e anos de bebida, pesada, sem freio, sem limite, sem pausa. Quando ele acordou da cirurgia, os médicos foram diretos: “Raul, ou você para de beber agora ou você morre, não tem meio termo.” E não parou. E aqui é importante a gente fazer uma pausa, porque alcoolismo é uma doença que muita gente que tá assistindo esse vídeo conhece de perto.

Talvez não em si mesmo, mas num tio, num primo, num pai de amigo, num vizinho da infância. O brasileiro de 35, 40, 50 anos cresceu vendo isso acontecer com alguém. É uma doença que não escolhe classe social, não escolhe profissão, não escolhe inteligência, pega gênio, pega operário, pega gente fina, pega gente simples. Não tem julgamento aqui.

Tem só a constatação dura de que quando o álcool toma conta, ele toma conta de tudo. E com Raul, ele tomou conta de uma forma que faz a gente sentir um aperto no peito só de ler. A quarta companheira dele, Kika Seixas, escreveu um livro contando como foi. E os relatos são daqueles que a gente preferia não saber.

Kika contou que Raul bebia vodicaa em quantidades industriais. Quando o estômago já não aguentava mais deste lado, ele migrou pra cerveja, que ele tomava em sequências infinitas. E quando nem isso bastou, ele começou a usar uma coisa chamada éteretílico. Aquilo empestava o apartamento inteiro, o prédio inteiro.

Ele comprava litros e litros nas farmácias do bairro, até que as farmácias começaram a recusar a venda para ele. E aí vem a parte mais difícil de contar. Para continuar tendo acesso ao éter, Raul chegou a mandar uma menina de 11 anos, filha de uma das companheiras dele, ir comprar o produto para ele. Uma criança de 11 anos descendo na farmácia da esquina comprando étera Seixas.

Quem leu o livro da Kika nunca esqueceu essa cena. E o fundo do poço veio quando ela percebeu que ele tinha começado a beber álcool de limpeza daquele de supermercado trancado dentro do banheiro. Quando ela conseguiu interná-lo, uma médica disse uma frase que resume tudo: “Esse homem não fala, ele tá sempre representando.

O corpo foi cobrando diabetes, hipertensão, hepatite crônica, pancreatite que não dava trégua. Em 1988, ano e meio antes de morrer, Raul precisou arrancar todos os dentes da boca, todos. E nos últimos meses andava com uma perna inchada de retenção de líquido. Dormia em cadeira de rodas porque não conseguia mais deitar direito. Ficava sem tomar a medicação.

Mas a parte mais cruel não era nem a doença física, era a outra. A invisível era a solidão, porque junto com o corpo a carreira também estava caindo. Raul passou por nove gravadoras ao longo da vida. Nove. Brigava com todas, rompia contrato, era dispensado, voltava, era dispensado de novo. Em determinado momento, um executivo de gravadora declarou em voz alta uma frase que virou famosa nos bastidores.

Eu já tô vacinado contra Raul Seixas. Enquanto isso, lá fora, o Brasil mudava. Os anos 80 chegaram trazendo uma explosão do rock nacional, como ninguém tinha visto antes. Barão Vermelho, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Titãs, capital inicial. Os caras lotavam o estádio, vendiam disco aos milhões, viravam ídolos de uma geração inteira.

E Raul Seixas, o homem que tinha aberto o caminho para todos eles, o cara que era literalmente chamado de pai do rock brasileiro, tava sem gravadora, sentado em casa, vendo a festa passar pela janela. Ele mesmo soltou uma frase numa entrevista que dói só de ouvir. Às vezes, minha música tá tocando numa padaria que não quer me servir.

Imagina a cena. Raul Seixas, descabelado, doente, entrando numa padaria de bairro para comprar um pão e na rádio do balcão tocando maluco, beleza! E o atendente olhando para ele de cima a baixo, achando que era um mendigo qualquer e mandando ele sair. Isso aconteceu. Não é metáfora, é relato dele mesmo. Os últimos meses foram assim: sozinho num apartamento alugado em São Paulo, sem mulher, sem empresário, sem gravadora, sem carro, sem nada.

A única companhia certa era a empregada Dalva Borges, que ia lá durante a semana cuidar da casa. fazer comida e, principalmente, garantir que Raul tomasse a injeção de insulina, porque ele era diabético e a insulina era a única coisa que segurava o corpo dele de pé. E foi exatamente aí que o destino pregou a peça mais cruel.

Naquele último fim de semana, dias 19 e 20 de agosto de 1989, Dalva não tava trabalhando. Era sábado e domingo, dia de folga. Raul ficou sozinho no apartamento da Frei Caneca, bebeu e não tomou a insulina. Ninguém ali para lembrar, ninguém ali para obrigar, ninguém ali para cuidar. Na noite de domingo, o zelador do prédio foi a última pessoa que viu ele com vida.

Na manhã de segunda-feira, 21 de agosto, Dalva chegou cedo, como fazia todo o dia. Subiu até o 10º andar, abriu a porta, foi até o quarto, encontrou Raul deitado, coberto e o até o peito, sereno. Tentou acordá-lo como sempre fazia. Ele não respondeu. Geralmente bastava qualquer ruído para Raul abrir os olhos. Dessa vez nada.

Ela telefonou para um amigo da família que pediu para ela colocar um espelho na frente do nariz dele. O espelho não embaçou. Raul Santos Seixas tinha morrido na madrugada, 44 anos de idade. Causa oficial: parada cardiorrespiratória provocada por pancreatite crônica e hipoglicemia. Causa real a soma de 15 anos de uma vida que ninguém conseguiu segurar.

E ali no criado mudo, do lado da cama, tinha uma foto. Uma foto de Elvis Presley, o ídolo da infância dele lá em Salvador, o cara que ele ouvia pela janela do consulado americano quando tinha 9 anos. Elv estava ali, tinha estado ali perto dele, do começo ao fim. Mas se você acha que a história termina aqui com a morte do cantor naquela manhã de segunda-feira, você tá enganado.

Porque o que aconteceu nos dois dias seguintes no velório em São Paulo e no enterro em Salvador é uma cena tão cinematográfica, tão impressionante, que parece roteiro de filme. E foi nesse momento que começou outra coisa, uma coisa que ninguém previu. briga que dura até hoje. O velório de Raul Seixas aconteceu no Palácio das Convenções do Hemboc.

Milhares de fãs apareceram vindos de todo canto da cidade, carregando violão, camiseta da sociedade alternativa, cantando música, chorando, gritando. Mas tem um detalhe que marcou para sempre quem viveu aquele momento. Quase nenhum artista famoso compareceu. O pai do rock brasileiro estava ali no caixão e a comunidade musical brasileira praticamente não foi se despedir.

Pico Zambiante que apareceu contou anos depois. Foi estranho. Eu fui mais um ou dois caras e ponto. Os outros não vieram. A multidão de fãs ficou tão agitada que o caixão precisou sair escoltado por um carro do corpo de bombeiros debaixo de chuva de pedra e xingamento. As pessoas não queriam deixar o corpo sair de São Paulo.

Queriam segurar Raul ali mais um pouco, mais um dia. No dia seguinte, em Salvador foi pior, ou melhor, foi mais Raul Seixas do que nunca. Quase 100 fãs invadiram a cerimônia no cemitério Jardim da Saudade, gritando: “Viva a sociedade alternativa!” Pegaram o caixão pelo ar e tentaram sair carregando ele cemitério aa.

Eles queriam, segundo Marcelo Nova contou depois, levar o Raul para passear, fumar maconha com ele, enfiar um baseado na boca dele. Foi preciso um fã anônimo se levantar e acalmar a multidão para que o enterro pudesse acontecer. Dona Eugênia, mãe do Raul, olhou para Marcelo Nova naquele momento e soltou uma frase que ficou: “Se o Raul Zito pudesse ver isso, ele ia adorar”.

E foi naquele cemitério em Salvador que aconteceu uma coisa tão estranha que parece lenda, mas é verdade. Em 2012, 23 anos depois do enterro, a família precisou abrir o jazigo para fazer uma reorganização. Procedimento normal. acontece em todo o cemitério. Só que quando levantaram a tampa, encontraram uma cena que ninguém esperava.

O corpo de Raul tava intacto, inteiro, não tinha se decomposto. 23 anos depois, ele estava praticamente como no dia em que foi enterrado. Os médicos atribuíram ao processo de embalsamamento que tinha sido feito em São Paulo antes do translado. É a explicação técnica, é a explicação racional e provavelmente é a verdadeira. Mas para quem é fã, para quem cresceu cantando metamorfose ambulante, esse detalhe carrega uma camada de mistério que combina demais com o personagem.

O cara que cantava sobre vidas passadas, sobre 10.000 anos atrás, sobre sociedades alternativas. Esse cara desafiou até a decomposição do próprio corpo. Faz pensar. Mas vamos pro presente, pra parte que machuca a família até hoje. Raul Seixas se relacionou com cinco mulheres ao longo da vida e teve três filhas, cada filha de uma mãe diferente.

E essas três meninas cresceram em mundos completamente separados. A primeira é Simone, nascida em 1970, filha da americana Edit. Quando o casamento acabou, Edit levou a menina pros Estados Unidos e Raul nunca mais viu a filha, nunca. Hoje Simone é bióloga, mora nos Estados Unidos, é discreta, foge dos holofotes.

A segunda é Scarlett, nascida em 1976, filha de outra americana, a Glória Vaquer. Mesma história. Quando o relacionamento ruiu por causa do alcoolismo do Raul, Glória pegou a filha e voltou pros Estados Unidos. Scarlett também cresceu longe do pai, longe do Brasil, falando inglês, vivendo uma vida americana.

Hoje ela é a mais combativa das três. É quem mais fala publicamente sobre a herança e quem mais peita quando acha que tá tendo injustiça. A terceira é Vivian, nascida em 1981, filha da Kika Seixas. Vivian é a única que cresceu no Brasil, a única que tem memória do pai, a única que mora aqui. Hoje ela é DJ e produtora musical. E é ela quem cuida do dia a dia do legado do Raul aqui dentro do país.

Aqui tem um detalhe que muita gente nem imagina. Simone e Scarlett, as duas filhas mais velhas, só se conheceram pessoalmente em 2012. Duas irmãs filhas do mesmo pai, criadas em estados diferentes dos Estados Unidos, levaram mais de 30 anos para se encontrar cara a cara e se encontraram nas gravações de um documentário sobre o pai delas.

Isso diz muita coisa sobre o tipo de família que o Raul deixou. Mas o ponto mais delicado dessa história é a figura da Kika Seixas. Porque a Kika não era esposa oficial do Raul. Eles nunca se casaram no papel. E quando ele morreu em 1989, eles já estavam separados há 5 anos. 5 anos. No documento oficial do inventário, que veio a público em 2025, quando a Scarlett publicou nas redes sociais, só aparecem três nomes como herdeiros legais: Simone, Scarlett e Vivian.

Kica não consta como herdeira, consta apenas como inventariante. Só que na prática, quem ficou cuidando do nome do Raul Seixas no Brasil durante mais de 30 anos foi a Kika. Foi ela quem criou o evento anual chamado Baú do Raul, lá em 1992. Foi ela quem fundou uma empresa de produção para cuidar dos direitos. Foi ela quem guardou roupas, manuscritos, cadernos, fotos.

Foi ela quem escreveu o livro contando a história deles. E foi ela, em parceria com a filha Vivian, quem virou na prática a guardiã do legado dentro do Brasil. E aqui é onde a tensão fica visível, porque tem quem diga que a Kika salvou o Raul Seixas do esquecimento, que sem ela não teria evento, não teria livro, não teria preservação nenhuma do acervo.

E tem também quem argumente que ela se apropriou de algo que legalmente nunca foi dela. As filhas que moram nos Estados Unidos, principalmente a Scarlett, já reclamaram publicamente que projetos foram vetados na justiça pela Kika, que ela age como se fosse viúva, sendo que nunca foi casada, que ela controla decisões que deveriam passar pelas três herdeiras.

E aí fica a pergunta: Quem tá certo? Eu não vou responder. Esse é o tipo de coisa que cada um tem que pesar e decidir por conta própria. Conta nos comentários o que você acha. Mas no meio de toda essa guerra tem uma coisa que ninguém discute, uma coisa que vale muito mais do que qualquer mansão, qualquer carro, qualquer iate que o Raul pudesse ter deixado. E essa coisa é a obra dele.

Raul Seixas deixou 324 composições registradas, 409 gravações cadastradas no ECAD. E essas músicas mais de 30 anos depois da morte dele, continuam tocando todo dia no mundo inteiro. Só no Spotify, Raul tem 3 milhões de ouvintes mensais, mais de 1 bilhão de execuções acumuladas na plataforma. 1 bilhão.

Metamorfose ambulante sozinha já passou de 140 milhões de reproduções. Tente outra vez 95 milhões. Maluco, beleza? 83 milhões. E aqui voltamos ao Paulo Coelho. Aquela frase que ele soltou em 2025 sobre poder se aposentar só dos direitos das músicas que fez com Raul ganha um peso totalmente diferente. Quando a gente entende esses números.

As filhas do Raul recebem royalties dessas execuções. Por lei, elas vão receber até pelo menos 259, 70 anos depois da morte do pai. Estamos falando de milhões de reais por ano divididos entre as três. Mais a Universal Music, que detém os direitos de gravação, mais o Paulo Coelho como coautor. Mais outros parceiros. Pensa na ironia. Raul Seixas.

morreu com R$ 551 no banco. E hoje, mais de 30 anos depois, a obra dele gera uma fortuna que se distribui entre vários herdeiros. O homem que não quis acumular nada em vida acabou deixando um patrimônio invisível que vale mais do que qualquer mansão. E esse talvez seja o ponto que faz a história inteira fazer sentido.

Porque o Paulo Coelho, em uma entrevista recente soltou uma frase que diz mais sobre o Raul Seixas do que qualquer biografia poderia dizer. Uma frase curta, simples, devastadora. E é com ela que a gente vai fechar essa história. A frase do Paulo Coelho é essa. Ele disse: “Em 2025, mais de 35 anos depois da morte do amigo, Raul escolheu sua vida, escolheu sua morte.

Nem todo mundo tem esse privilégio. Pausa nessa frase, porque ela explica tudo. A gente começou esse vídeo falando dos luxos abandonados por Raul Seixas e ao longo desses minutos todos foi ficando claro que esses luxos não são o que a gente imaginava. Não tem mansão escondida em Salvador, não tem iate ancorado em algum porto, não tem garagem cheia de carro importado, não tem nada disso porque nunca teve.

O luxo que Raul Seixas abandonou foi outro. Foi um luxo bem mais caro do que qualquer um desses. Foi o luxo de ser comum. Pensa bem, Raul podia ter sido um cantor tranquilo. Podia ter aceitado as regras das gravadoras, gravado o que pediam, feito o show que mandavam, evitado polêmica, juntado dinheiro, comprado uma casa boa, quitado um apartamento, deixado uma aposentadoria garantida pras filhas. Era para ser.

Ele tinha talento de sobra para isso. Tinha público, tinha porta aberta, bastava jogar o jogo e ele simplesmente não quis. Escolheu ser metamorfose ambulante até o último dia. Brigou com nove gravadoras, bebeu até o pâncreas pedir socorro. Falou de ocultismo num país que estava no meio de uma ditadura militar.

foi torturado pelo DOPS, foi exilado, voltou, casou cinco vezes, deixou três filhas em dois países, compôs 324 músicas, lotou estádio, esvaziou plateia, foi rei e foi mendigo na mesma vida. e nunca, em momento nenhum fez uma escolha pensando em conforto. E aqui tem uma coisa que talvez o brasileiro de 40, 50 anos entenda melhor do que ninguém.

A gente foi criado ouvindo que sucesso é juntar coisa. Casa quitada, carro na garagem, terreno no nome, poupança no banco, filho formado. Esse era o sonho. Esse ainda é o sonho de muita gente. E não tem nada de errado nisso. Pelo contrário, esse é o sonho honesto de quem trabalha duro a vida inteira. Mas Raul Seixas viveu ao contrário desse sonho e mesmo assim deixou mais legado do que 90% dos milionários desse país.

Um bilhão de execuções no Spotify. Música tocando em rádio todo dia no Brasil inteiro. Letra que vira tatuagem, frase que vira manifesto. Uma expressão maluco beleza que entrou no vocabulário do brasileiro para sempre e que muita gente usa sem nem saber de onde veio. E o que sobra dessa história toda no fim é uma constatação simples.

O que fica de uma pessoa não é o que ela teve. é o que ela foi. E o Raul, com todos os defeitos, todos os excessos, todos os erros, todas as tragédias que ele mesmo criou, o Raul foi inteiro. Foi ele do começo ao fim. Não fingiu, não dobrou, não pediu desculpa. Viveu o que escolheu viver e morreu do jeito que escolheu morrer.

Talvez seja isso que faça a música dele continuar tocando mais de 30 anos depois. Não é nostalgia, é reconhecimento. Quando a gente escuta metamorfose ambulante, a gente não tá só lembrando de uma canção bonita. A gente tá reconhecendo um cara que teve a coragem de ser exatamente quem ele era. Isso é raro. Era raro nos anos 70. É raro hoje.

Vai ser raro sempre. O Paulo Coelho tem razão. Nem todo mundo tem esse privilégio. Agora eu quero saber de você. Na sua opinião, sinceramente, o que foi o Raul Seixas? Foi um gênio incompreendido pelo próprio tempo, alguém grande demais pra época em que viveu? Ou foi um cara brilhante que se autodestruiu por escolha própria, que tinha tudo para ser feliz e jogou fora? Não tem resposta certa.

Por favor, escreva sua escolha (uma ou duas) abaixo e me diga o porquê. Eu lerei todos os comentários, então não se preocupe. Se você gostou desta história, curta, siga a página e ative as notificações para não perder as próximas histórias. Muito obrigada a todos.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

Recommended for You

View Archive arrow_forward