OBCECAD0 PELA ESTUDANTE BRASILEIRA | Caso Érika de Lima Corte
A história completa
Milhares de brasileiros atravessam a fronteira com o Paraguai para realizar um sonho que para a maioria de nós é impossível: cursar medicina. Cidades paraguaias próximas da fronteira acabaram se tornando polos universitários justamente porque oferecem mensalidades muito mais acessíveis.
E Pedro Juan Caballero, que fica do lado de Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, é um desses lugares. E foi para lá que a Érica de Lima Corte, uma enfermeira de 29 anos, decidiu se mudar porque ela queria voltar a estudar, conquistar uma segunda formação e, finalmente, se tornar médica. Só que o que a Érica não imaginava é que, ao precisar de um simples reparo elétrico na pensão onde ela morava, o seu caminho acabaria se cruzando com o de um homem muito perigoso, que nunca deveria ter sido solto depois de ceifar a vida de uma mulher. E depois disso…
Todos fixatos dados? Bora pra história. Érica de Lima Corte tinha 29 anos e nasceu em Barra do Garças, no Mato Grosso. Mas a sua história também está muito ligada a Pontal do Araguaia, cidade vizinha de apenas 6.200 habitantes, onde a sua família era bastante conhecida. O pai dela, Raniel Antônio Corte, tinha sido prefeito de Pontal durante dois mandatos, enquanto a sua mãe, Marleide de Lima Corte, também tinha participado da administração municipal como secretária de educação.
E, se eu não me engano, uma prima dela também era vereadora da cidade. A Érica, porém, não seguiu o seu caminho apenas no entorno da história política da sua família. Ela começou a construir a sua própria carreira profissional, se formando como enfermeira. Ela também tinha um mestrado na área de saúde pública e trabalhou por vários anos como enfermeira.
Ela também chegou a atuar como servidora da Secretaria de Saúde Municipal lá de Pontal do Araguaia. As pessoas que conviveram com ela sempre destacaram, principalmente, a sua personalidade muito marcante. Os colegas de faculdade lembravam da Érica como uma mulher extremamente comunicativa, alegre e sorridente. Um amigo chegou a chamá-la de “O sorriso da sala”, porque era ela a pessoa que estava sempre brincando, conversando com todo mundo e parecia não ter tempo ruim.
Outra colega contou que ela ficou muito próxima da Érica durante um trabalho de faculdade e que, a partir dali, as duas criaram uma amizade muito forte, justamente porque a Érica tinha facilidade de se aproximar das pessoas e estava sempre com um sorriso enorme no rosto. Só que a vida profissional da Érica não tinha seguido exatamente como ela imaginou, já que, depois de concluir o curso de enfermagem, ela teve muita dificuldade em conseguir trabalho na área.
O próprio pai da Érica, o Raniel, contou que a filha chegou a se mudar para São Paulo para concluir o seu curso. Só que quando ela voltou pro Mato Grosso, teve muita dificuldade em arrumar emprego. E foi nesse momento meio complicado que a Érica começou a insistir para a família que ela queria cursar medicina no Paraguai. Segundo o Raniel, a sua filha queria construir uma profissão em que ela não dependesse mais financeiramente da família, e ela acreditava que aquela era uma grande oportunidade na sua vida, principalmente porque cursar medicina aqui no Brasil
está muito distante da maior parte das famílias brasileiras. A Érica então se mudou para Pedro Juan Caballero, uma cidade no nordeste do Paraguai, entrando para a enorme comunidade de brasileiros que vive na fronteira justamente por conta dessas universidades. Na época do caso, ela já estava no Paraguai havia aproximadamente 1 ano e meio ou 2 anos e cursava o segundo ano de medicina.
Lá, ela dividia uma residência alugada, que era uma espécie de pensão ou dormitório, com outra estudante brasileira, a Milena Oliveira, de 20 anos. Em pouquíssimo tempo, a Érica já fez muitos amigos na universidade. Ela estava solteira e não mantinha nenhum relacionamento amoroso conhecido naquele momento.
O pai da Érica, porém, nunca ficou completamente tranquilo em relação à filha estar vivendo no Paraguai. O Raniel contou que ele tinha um sonho muito específico. Ele queria conseguir trazer a sua filha de volta pro Brasil para que ela morasse mais perto dele, talvez em Cuiabá. E ele disse que nenhum pai ficaria totalmente tranquilo enquanto sua filha estivesse vivendo tão longe dele.
Só que esse plano nunca aconteceu da maneira como ele imaginava. Isso porque, enquanto a Érica estudava lá em Pedro Juan Caballero, um eletricista chamado Christopher Andrés Romero Irala também vivia naquela região. O Christopher tinha 27 anos em 2018 e trabalhava fazendo instalações elétricas, câmeras e antenas. Ele prestava serviço junto com seu pai, que trabalhava para a ANDE, a companhia de energia do Paraguai.
E quem via aquele rapaz fazendo reparos em alguma residência não imaginava o tamanho do histórico que ele carregava. Seis anos antes, no dia 14 de agosto de 2012, uma jovem universitária chamada Daisy Patrícia Benítez Gomes tinha sido encontrada sem vida no Paraguai. A Daisy tinha 25 anos e foi vítima de um crime extremamente violento.
Ela sofreu golpes de objeto cortante, a compressão das vias respiratórias e o responsável ainda tentou atear fogo para se desfazer das provas. E o Christopher foi apontado como o principal suspeito disso. Naquela época, ele tinha apenas 21 anos e, depois do crime, ficou foragido durante algum tempo, mas posteriormente acabou se entregando e foi preso no dia 17 de agosto de 2012.
Apenas três dias depois do ocorrido com a Daisy, o Ministério Público paraguaio chegou a denunciá-lo como o autor. Mas em março de 2013, o Christopher conseguiu a liberdade provisória porque, segundo o Ministério Público, as provas recolhidas até aquele momento eram insuficientes para incriminá-lo. Mas o processo não terminou ali, porque em setembro de 2013, o Ministério Público reabriu o caso e marcou uma audiência preliminar para julho de 2014.
Só que nessa data o Christopher simplesmente não apareceu na audiência e também não explicou os motivos. A justiça então decretou uma ordem de prisão internacional contra ele. Ou seja, oficialmente o Christopher deveria ser preso inclusive se fosse encontrado até mesmo fora do Paraguai. Mesmo assim, durante os anos seguintes, ele continuou vivendo normalmente e trabalhando junto com seu pai, fazendo os reparos elétricos.

E foi justamente fazendo esses serviços junto com seu pai que ele acabou conhecendo a estudante Érica. O primeiro contato entre eles aconteceu quando o Christopher fazia uma instalação elétrica em uma casa ao lado daquela onde a Érica morava. A partir daí, ele teria ficado encantado com a beleza da estudante e começou a insistir para que ela aceitasse namorar com ele.
Conforme algumas informações que não foram confirmadas, ele teria uma espécie de obsessão pela Érica. A polícia local afirmou que o Christopher, enquanto fazia os serviços de eletricista na casa da brasileira, teria se apaixonado por ela. Outras matérias ainda apontam que ele também passou a realizar serviços dentro da casa dela e que, pouco antes do crime, ele tinha sido chamado justamente para fazer um reparo no aquecedor do chuveiro elétrico do apartamento.
Até que no domingo, dia 19 de agosto de 2018, a colega de apartamento da Érica, a Milena de Oliveira, saiu por volta das 5 horas da tarde de casa e deixou a Érica sozinha lá dentro. E o horror que aconteceu nas horas seguintes foi aos poucos sendo descoberto, conforme a polícia descobria vários elementos. Por volta das 7:40 da noite, câmeras de segurança de um comércio próximo ao local registraram o eletricista Christopher entrando em um estabelecimento e comprando um pote de sorvete de chocolate. Até então, aquilo
parecia apenas uma informação completamente aleatória, mas guardem esse pote de sorvete porque posteriormente ele se tornou uma das principais provas nesse caso. Depois disso, o Christopher teria seguido até a casa da brasileira naquela noite. Ele foi até lá para terminar aquele serviço relacionado ao chuveiro e teria se aproveitado do fato de a estudante estar sozinha em casa.
Infelizmente, foi apontado que houve uma tentativa de ele se relacionar com ela sem o seu consentimento, apesar dessa violência, dessa conjunção carnal nunca ter sido comprovada. Mas o que não resta dúvidas é quanto à violência física que foi empregada contra a Érica, já que ela foi atacada várias vezes com um objeto cortante dentro da própria casa.
Os primeiros boletins registrados divulgaram números diferentes, falando em 16 ou 17 perfurações. Mas conforme a investigação avançou, as reportagens passaram a mencionar 19 lesões provocadas pelos golpes, sendo duas maiores na região do peito, uma na altura do pescoço e outras 16 menores espalhadas pelo corpo.
E foram essas lesões menores que fizeram os investigadores levantarem, inclusive, a possibilidade de que a jovem tivesse sido torturada antes de perder a vida, por volta da meia-noite. O ataque teria começado na cozinha, mas o corpo da Érica foi arrastado por diferentes cômodos até o quarto, algo que foi percebido pelas várias manchas de sangue que seguiam de um ambiente pro outro.
Quando o ataque terminou, o rosto da Érica ainda foi coberto com um pano branco. No entanto, a faca utilizada não permaneceu na casa e o telefone celular da estudante também desapareceu. Horas depois, quando a Milena voltou para casa durante a madrugada, a proprietária do imóvel contou que acordou assustada com os gritos da jovem, após ter encontrado o corpo da amiga por volta de 1:15 da manhã.
A Érica foi encontrada caída dentro do quarto, já sem os sinais vitais. A Milena então chamou a polícia imediatamente, que começou a investigar o ocorrido. A dona do imóvel contou depois que não tinha ouvido nenhum grito ou qualquer movimentação durante o ataque, e ela ainda lamentou que, se tivesse escutado alguma coisa, teria tentado chamar alguma pessoa para entrar no local à força e salvar a Érica.
A proprietária ainda mencionou que ela viu um eletricista entrando no local, que teria sido chamado para consertar o chuveiro elétrico. Ela não soube dizer quem era ele e nem se ele voltou ao quarto depois daquilo, uma vez que a entrada na quitinete só era permitida com autorização prévia. Outras testemunhas ainda alegaram que esse eletricista foi a única pessoa que eles viram entrando e saindo do imóvel.
No começo, ainda havia uma certa confusão sobre quem tinha, de fato, feito aquilo com a Érica e também sobre a identidade daquele eletricista. O Ministério Público paraguaio chegou a falar, inicialmente, que dois homens teriam se encontrado com a Érica em horários diferentes naquela noite, um por volta das 8 e o outro por volta das 10:30. Como ela estava solteira,
começaram também alguns rumores de que aquilo poderia se tratar de um crime passional, mas o próprio promotor do caso afirmou que não existia a informação de que a Érica mantivesse relacionamento com nenhum daqueles suspeitos. Enquanto os investigadores tentavam descobrir quem tinha entrado na casa, eles também tentavam encontrar o celular da Érica, que tinha desaparecido.
A polícia paraguaia então pediu ajuda aos policiais brasileiros para tentar rastrear o aparelho. Paralelamente a isso, o Ministério Público Paraguaio solicitou à Universidade de Medicina, onde a Érica estudava, uma lista de todos os estudantes matriculados nos primeiros anos de medicina. E eles começaram a mapear todas as pessoas que tinham tido contato com a Érica.
E enquanto ainda tentavam identificar o autor, a família da Érica precisava lidar com algo muito triste e burocrático: tentar levar a jovem de volta pro Brasil. Quando uma pessoa perde a vida fora do seu país de origem, todo esse processo de reunir as papeladas e arcar com os custos acaba pesando ainda mais a situação.
O consulado brasileiro então os ajudou e acompanhou todo o processo de liberação e o traslado do corpo. A Érica chegou a ter um velório no próprio Paraguai, onde ela tinha construído inúmeras amizades, antes de o seu corpo seguir de volta pro Mato Grosso, quando o seu pai foi buscá-la.
No velório, uma faixa dizia: “Quando uma mulher morre dessa maneira, todas morrem um pouco com ela.” A prefeitura de Pontal do Araguaia decretou três dias de luto oficial e publicou uma nota lembrando o trabalho que a Érica tinha desenvolvido como enfermeira e servidora municipal. “Érica Lima prestou seu brilhante trabalho como enfermeira em Pontal do Araguaia, nossa grande amiga que sempre prestou bons serviços à comunidade.
A sua perda nos pegou de surpresa e a levou de nós repentinamente. Nesse momento de dor e consternação, só nos cabe pedir a Deus que a ilumine e lhe dê paz e que Deus dê conforto à sua família para que possam enfrentar essa imensurável dor com serenidade”, dizia a nota. Depois, o corpo foi velado na Câmara de Vereadores de Pontal do Araguaia e enterrado no jazigo da família dela, no cemitério central de Barra do Garças.
E foi nesse período que o pai dela deu uma das entrevistas mais dolorosas sobre o caso. O Raniel contou sobre aquele sonho dele de levar a filha de volta pro Brasil, porque ele queria poder cuidar dela mais de perto. Então, ele resumiu isso em uma única frase: “Agora eu a tirei do Paraguai dentro de um caixão.”
Outros amigos e colegas também fizeram suas últimas homenagens na página da Érica no Facebook. Um deles desejou que Deus confortasse o coração de todos os familiares e que a justiça divina fosse feita. Outra amiga lembrou a Érica como uma menina linda e educada e desejou que Deus a recebesse em seus braços.
Na faculdade de medicina no Paraguai, o clima era de pura consternação. Um colega de classe da Érica comentou: “Simplesmente a gente está sem acreditar, ainda mais nós que éramos próximos da sala dela. Estamos sem chão, buscando forças uns nos outros. Estamos unidos. Ninguém quer ficar sozinho”, comentou o colega de sala da Érica.
Uma outra colega disse ainda que a volta às aulas após o caso, que foram suspensas, foi extremamente triste e dolorosa sem a amiga. Enquanto todos se despediam da Érica, a investigação policial já começava a apontar pro eletricista Christopher. Uma testemunha contou que ele tinha estado nas proximidades do bairro naquela noite e a partir daí iniciou-se uma busca por ele.
Só que ele já não estava mais em Pedro Juan Caballero. O Christopher tinha fugido para Concepción, uma cidade localizada a mais de 200 km de lá, onde ele ficou na casa de um irmão. Na madrugada do dia 22 de agosto, a polícia recebeu informações sobre o esconderijo dele. Eles montaram uma vigilância e por volta das 4:20 da manhã conseguiram prendê-lo quando ele saía da residência.
Um vídeo feito naquele momento mostra o homem com o rosto coberto, sem responder a nenhuma das perguntas dos jornalistas. Só que vários detalhes encontrados naquele momento batiam exatamente com o que as câmeras de segurança já tinham mostrado antes. O Christopher foi preso usando um boné verde muito parecido com o utilizado pelo homem registrado nas câmeras daquele comércio próximo à casa da Érica e ele dirigia um carro modelo Corsa prata, veículo que também tinha sido visto circulando nas proximidades no dia
do crime. Quando foi interrogado, o Christopher preferiu se manter em silêncio. Ele disse apenas que tinha fugido porque ficou sabendo que estava sendo procurado e que estava com medo de sofrer represálias da população. Quando foi questionado diretamente sobre o crime contra a Érica, ele afirmou que só responderia em juízo e diante de um advogado.
Só que uma das provas que ligavam o Christopher diretamente no caso era justamente aquele pote de sorvete. Isso porque, dentro da casa onde a Érica foi encontrada, a perícia localizou um recipiente que continha sorvete exatamente da mesma marca e do mesmo sabor. O Christopher chegou a negar que tinha comprado esse sorvete, mas as imagens daquele estabelecimento mostraram ele claramente fazendo isso.
Uma testemunha também contou que tinha vendido o sorvete para esse eletricista e, a partir daí, as suspeitas confirmavam a participação do Christopher no caso. Os policiais apreenderam um par de sapatos e um short jeans, que aparentemente tinha pequenas gotas que poderiam ser sangue, e uma camiseta que ele possivelmente teria usado naquela noite.
No local também foram encontradas roupas femininas e todo esse material foi encaminhado para análise forense. No mesmo dia da prisão, o Ministério Público do Paraguai apresentou a denúncia contra o Christopher pelo crime contra a Érica, afirmando que já existiam indícios sérios e elementos suficientes para colocá-lo formalmente como acusado.
Pro promotor do caso, apesar de ainda existir a presunção da inocência, o MP já tinha provas suficientes para oferecer a denúncia. Ele disse: “Temos toda a investigação policial preliminar, a atuação da investigação criminalística, temos evidências coletadas, temos indícios contra os suspeitos, presunções graves e sérias.
Estamos averiguando, indagando, investigando, perguntando, tomando declarações sobre o caso para ter todos os elementos necessários para pedir a sua condenação por homicídio doloso”, disse o promotor. Ainda de acordo com ele, a lei do feminicídio foi aprovada lá no Paraguai em dezembro de 2017, só que de forma integral, poucos meses antes do caso.
Só que o crime contra a Érica, até aquele momento, estava sendo tratado apenas como um crime doloso, porque a própria lei ainda estabelecia uma série de requisitos para que o crime se configurasse um feminicídio, como tempo de convivência e grau de relacionamento. No Paraguai, naquela época, a pena pro feminicídio era de 10 a 30 anos de reclusão.
O Christopher então teve a prisão preventiva decretada e, por solicitação da defesa dele, ele acabou sendo transferido para um presídio em Concepción, porque os seus advogados argumentaram que ele estava correndo risco de vida caso permanecesse naquele presídio lá em Pedro Juan Caballero, diante de toda a revolta provocada pelo crime que ele cometeu.
Só que quando o pai da Érica ficou sabendo que o Christopher já era um foragido da justiça por ter cometido um crime muito semelhante ao que foi feito com a Érica, o Raniel ficou revoltadíssimo e chegou a chamar o Christopher publicamente de psicopata. E ele chegou a afirmar categoricamente que ele foi o responsável sim pelo crime contra a filha dele, embora as investigações ainda não tivessem sido concluídas.
“Ele não passa de um psicopata… fazer uma ação dessa com a minha filha, uma menina totalmente desprendida. Isso é como uma facada em mim, muito forte, mas não tem como voltar. O que eu posso fazer é buscar justiça, que ela seja feita e dar o apoio para que os universitários se manifestem e que a gente se una cada vez mais para que o Estado tome providências”, afirmou o pai.
Poucos dias depois do enterro, cerca de 200 pessoas se reuniram entre as pontes do rio Garças e Araguaia para fazer uma vigília em homenagem à Érica. Todos foram vestidos de branco, carregando velas, cartazes e camisetas com o rosto da jovem. A manifestação tinha dois objetivos muito claros: homenagear a estudante e cobrar paz e justiça.
O primo da Érica, de nome José, falou em nome da família e contou que todos ainda estavam muito abalados e tentando lidar com o choque provocado pela tragédia. Ele agradeceu as muitas pessoas que deram forças à família naquele momento de dificuldade e sofrimento, dizendo que se sentiam como se a dor deles tivesse sido compartilhada por muitos outros corações.
No próprio Paraguai, colegas de medicina também saíram às ruas. Os pais da Érica participaram de uma manifestação em frente à universidade onde ela estudava. E o Raniel pediu que a perda da filha servisse para, pelo menos, fazer as autoridades brasileiras e paraguaias olharem com mais atenção para a segurança daqueles estudantes. Ele disse que o seu coração estava roxo e abatido e ele só queria justiça.
Só que naquele protesto aconteceu um encontro inesperado. Isidro Benítez (desculpem a pronúncia), o pai da Daisy, a estudante que perdeu a vida em 2012, apareceu no protesto para prestar solidariedade aos familiares da Érica. Ele disse que acompanhar aquele novo caso tinha aberto uma ferida que ele pensava que já estava cicatrizada.
E muito emocionado, ele deu algumas palavras sobre a filha dele. O Isidro dizia não entender como o Christopher conseguiu ficar livre depois do que ele já tinha feito contra a Daisy. O Isidro contou: “É difícil estar aqui. Abriu-se outra vez a ferida que eu tive há 6 anos. Brasileiros, vocês não sabem o que fizeram com a minha filha.
É uma pena que eu estou falando isso. Eu não queria ter um encontro desse. Da mesma forma que fizeram com a Érica. Desculpe-me, pai da Érica. É lamentável o que fizeram com ela. Praticamente destruiu quatro famílias: a minha família, a família da minha esposa, a família do pai da Érica e a família da mãe dela.
Não sei como esse homem estava livre, sem antecedentes policiais. Senhores fiscais, por favor, eu não sei o que está acontecendo”, lamentou o pai da Daisy, em lágrimas. Até que, no começo do mês de setembro, a polícia localizou o celular da Érica que tinha desaparecido do local. O aparelho já tinha passado pelas mãos de várias pessoas.
Um rapaz dizia ter sido o terceiro comprador, de nome Gustavo. E os investigadores foram voltando pela cadeia de vendas até chegarem no primeiro comprador. Além desse Gustavo, o aparelho passou pelas mãos de outros homens, como o José e o Marcelo. E esse último foi quem comprou o celular diretamente do Christopher. Segundo o depoimento dele, o rapaz tinha lhe vendido o aparelho na mesma noite do crime por aproximadamente 100.000 guaranis, que é o equivalente a R$ 75 na época. Essa venda teria acontecido por volta das 11 horas da noite do dia 19 de agosto, poucas horas antes de a Érica ter sido encontrada. O aparelho já tinha sido resetado, o que dificultava a recuperação das mensagens do WhatsApp. Então, a polícia requisitou às operadoras o histórico de chamadas, de mensagens e outros dados.
A investigação já reunia provas incontestáveis contra o Christopher, mas apesar disso, o processo ainda demorou muito. Em julho de 2019, uma audiência preliminar que deveria movimentar o caso acabou sendo adiada porque o promotor do caso alegou acúmulo de trabalho e pediu uma nova data.
Em agosto de 2020, quando a perda da Érica completou 2 anos, a família ainda aguardava pelo julgamento. A prima dela, Fabiana Corte, que tinha sido vereadora da cidade, dizia que saber que o Christopher ainda estava preso trazia uma sensação de segurança pra família, mas que eles só sentiriam algum tipo de alívio quando ele fosse condenado.
A prima disse: “Nós temos conhecimento de que ele está preso, mas para nós da família seria um alívio o seu julgamento pelo que ele fez com a minha prima, e há informações de que ele já havia tirado a vida de outra mulher. Um homem desse jamais deve voltar pro convívio social”, disse a prima.
O Christopher tinha se revelado um criminoso frio e calculista, porque ele usava a lei do silêncio para dificultar as investigações nos seus crimes. Era por isso que a família da Érica e da Daisy pediam todo o apoio da sociedade para não deixar esses casos caírem no esquecimento e que acontecesse logo o julgamento dele.
Só que antes do Christopher ser julgado pelo crime contra a Érica, o processo da Daisy chegaria ao fim primeiro. Em novembro de 2021, quase 10 anos depois da perda da Daisy Patrícia Benítez Gomes, natural do bairro Capitán Bado, a justiça paraguaia considerou o Christopher culpado e o condenou a 28 anos de prisão. As provas apresentadas naquele processo incluíam imagens de câmeras de segurança que mostravam Christopher deixando a região onde a Daisy tinha sido encontrada e entrando em um veículo com alguém.
O tribunal concluiu que ele era responsável pelo crime cometido em 2012. Quando soube da condenação, a mãe da Érica disse que, obviamente, a condenação não diminuía a dor ou a saudade que ela tinha da filha, mas que trazia algum conforto saber que o homem tinha sido penalizado, pelo menos, por um dos crimes de que ele foi responsável.
Já o julgamento pelo crime contra a Érica aconteceu apenas em julho de 2022. Christopher Andrés Romero Irala, agora com 31 anos e já cumprindo a condenação pelo crime contra a Daisy, se sentou novamente diante da justiça paraguaia, dessa vez para responder pelo que aconteceu naquela noite de agosto de 2018. No final do julgamento, o tribunal considerou que o conjunto de provas apresentado pelo Ministério Público era suficiente para condená-lo e a decisão foi unânime.
O Christopher recebeu 30 anos de prisão pelo caso da Érica e mais 10 anos como medida de segurança, totalizando uma sentença de 40 anos referente apenas a esse caso. A defesa dele, no entanto, anunciou que ainda recorreria da pena. O defensor público afirmou que, na opinião dele, não havia provas que eliminassem completamente todas as dúvidas sobre a autoria e criticou a atuação do tribunal.
Na opinião dele, o tribunal cometeu um erro grave ao condenar alguém sem certeza de que ele era o autor do crime. Ele também alegou problemas relacionados à composição dos julgadores e disse que o Christopher tinha deixado de participar ativamente da própria defesa por não confiar em alguns membros da Corte.
Por isso, apesar da condenação, os advogados informaram que levariam o caso ao tribunal de apelações. “Para aplicar uma pena severa, como a dada ao Christopher Romero, é preciso haver provas que não deixem margem para dúvidas”, disse o jurista. Só que a sentença finalmente entregava pra família da Érica uma resposta judicial que eles aguardavam há 4 anos, confirmando que o Christopher era realmente o culpado de ter tirado a vida de uma jovem que apenas queria estudar.
E essas são as últimas notícias que temos do caso. Érica de Lima Corte foi mais uma vítima de feminicídio que aconteceu não aqui no Brasil, mas no Paraguai. Deixem aqui nos comentários mensagens de carinho pros pais da Érica, pros amigos dela que acompanharam todo esse caso e ainda sofrem muito com a perda.
E se você chegou aqui, e ainda não segue a página, segue aqui, curte a história e compartilha para ajudar na divulgação do caso. É isso, até a próxima história. Beijos.