O TRISTE CASO DE ANGELA DINIZ
como a mãe da Ângela, Maria Dinis, era uma mulher que a influenciava bastante. Ela queria que ela encontrasse o homem perfeito para casar, e ela podia até ser bastante controladora com a filha. A Ana Marina Siqueira, colunista veterana do Estado de Minas, fala no podcast que ela conheceu a Angela desde que nasceu, por ser amiga da Maria Dinis, e diz que a mãe tinha uma admiração imensurável pela filha, achando que tudo que a Angela fazia era perfeito. Para a época e para o futuro que a Angela e sua mãe queriam, era mais importante que ela participasse de eventos do que, por exemplo, dos estudos. Então, ela acabou abandonando a escola antes que terminasse o que seria hoje o ensino médio.
Ainda na adolescência, a Ângela foi embaixatriz do turismo em Belo Horizonte em 1960. Os bailes de debutantes na época, que seriam as festas de 15 anos de várias meninas juntas, eram eventos muito aguardados por elas e pela alta sociedade mineira. Então, eram festas gigantescas, e na festa de 15 anos da Angela, ela apareceu completamente diferente, ela estava repaginada. O baile de debutante da Angela aconteceu no dia 3 de maio de 1960 e foi uma produção gigantesca; aconteceu no salão do Museu da Pampulha e foram 50 debutantes no total. A Angela roubou a cena da festa com seu vestido branco costurado à mão por sua mãe.
Nessa época, a Angela já tinha um namorado. Seu pretendente era Milton Vilas Boas, um homem bastante rico, mas que também trabalhava bastante como engenheiro e construtor, e na época ele já tinha mais de 30 anos de idade, enquanto a Angela ainda tinha 15. Apesar da diferença de idade, os dois estavam bastante apaixonados e o Milton era considerado um bom partido; ele já tinha seu trabalho consolidado, ele era filho de um Ministro do Supremo Tribunal Federal, mas, mesmo assim, a Angela já tinha outro pretendente em vista. Ela se interessou por um homem chamado Parker Gilbert Cavalcanti de Carvalho, e suas habilidades na dança encantaram Angela. Em 16 de março de 1962, o jornal Estado de Minas divulgou que a Angela e Parker haviam oficialmente ficado noivos em uma recepção na casa dos pais da Angela, onde compareceram apenas parentes mais próximos. O casamento estava agendado para setembro do mesmo ano, mas logo no dia 15 de junho foi divulgado que o casal terminou o seu noivado. Há dúvidas sobre por que esse término aconteceu, se foi pela idade da Angela ou pelo fato de Parker não ter muito dinheiro.
De qualquer forma, em novembro do mesmo ano, a Angela volta a namorar com o Milton. Logo que ela completou 18 anos, o casamento entre os dois foi marcado para o dia 31 de janeiro de 1963. Eles se casaram na Igreja Metodista Central para seguir a religião do Milton. A festa foi enorme, segundo os jornais, mas mesmo tendo acontecido no início do ano, o casamento já poderia receber o título de casamento do ano. A Ângela sempre era notícia nas colunas de jornais por motivos diversos. O primeiro filho do casal nasceu prematuro e também recebeu o nome de Milton. Ele nasceu 7 meses depois do casamento. Aos 24 anos de idade, a Ângela já era mãe de três filhos: Milton, o mais velho, Cristina, apelidada de Gata, e o filho mais novo chamado Luís Felipe.
A impressão que as amigas da Angela tinham era de que ela não era completamente feliz na vida de mãe, dona de casa e esposa. Ela deu uma entrevista para Roberto Drummond em que ela se mostra bastante melancólica em relação à sua vida, dizendo que dias com nuvens a deixavam triste. O divórcio não era muito bem visto na época e, segundo a historiadora Mary del Priore, existiam muitos casos em que o adultério era algo consensual entre os casais da elite, desde que fosse feito de maneira discreta, justamente para evitar o divórcio. Mesmo assim, a Ângela decidiu deixar o seu marido e eles passaram por um processo chamado desquite, já que na época não existia o divórcio. No desquite não se pode casar novamente. A Ângela acabou ficando com vários imóveis e ela vivia do aluguel deles. Seus filhos ficariam entre a casa do pai e a casa dos avós maternos, mas a guarda ficou majoritariamente com o Milton, devido ao acordo deles de separação.
Na mesma época, Angela conheceu Jô Souza Lima, que também era da sociedade mineira e estava passando pelo processo de desquite com o seu marido, logo depois assumindo um novo relacionamento. Aos 26 anos, a Ângela já estava solteira. Com a mesma idade, no dia 9 de julho de 1971, ela assinou seu próprio testamento. Nessa mesma noite, a sua amiga Jô Souza foi assassinada pelo ex-marido Roberto Lobato, que atirou nela duas vezes. O Roberto foi julgado duas vezes em 1972 e 1973, e ele foi absolvido nos dois julgamentos. A Ângela não tinha problema em ficar com diversos homens e assumi-los e, segundo suas amigas, a sua reputação ficou péssima depois da separação; ela causava um certo transtorno na sociedade mineira.

E aí aconteceu uma festa no início de 1970 em homenagem a Antenor Patiño, que era um milionário boliviano conhecido também como o rei do estanho, e nesse dia a Angela o encantou. Só que nessa mesma festa, ela dançou com Juscelino Kubitschek. Durante a dança, ele pediu que ela esquecesse do genro dele chamado Bebeto Barbará, que era um importante empresário da indústria mineira. Supostamente, ela estava tendo um caso com ele, só que o Bebeto era casado com a filha do presidente, chamada Márcia Kubitschek. A Ângela teria ouvido Juscelino e se afastado do seu suposto amante, e foi a partir daí que ela começou a ser referida nas colunas de jornais com um novo apelido: então eles começaram a chamá-la de Pantera de Minas.
Então, ela deixa de ser amante do genro do Juscelino Kubitschek e ela passa a se aproximar de outro homem também casado, conhecido como Tuca Mendes. Tuca era herdeiro de uma empreiteira chamada Mendes Júnior, e a Ângela era uma mulher destemida e, mesmo sabendo dos julgamentos e de olhares, ela não se importava. O Tuca, além de ser casado, ele tinha filho, e também não teve problemas em ser visto com a Ângela enquanto eles viajavam. Depois da separação da Ângela, ela construiu uma casa para os seus pais no mesmo terreno da casa dela. Dentro da casa, ela tinha uma campainha que ela tocava na casa dos pais, que deveria ser apertada quando houvesse algum tipo de emergência acontecendo, era como se fosse um botão de pânico.
Na madrugada do dia 11 de junho de 1973, era um domingo, a Ângela tocou essa campainha várias vezes sem parar até que seus pais chegassem. A mãe dela foi a primeira a chegar no local e ela encontrou um corpo na rampa da entrada da casa da filha. O corpo em questão era de um homem chamado José Avelino dos Santos, e ele fazia alguns bicos na casa da Ângela, trabalhando como lavador de carros e vigia. O adolescente, que tinha 18 anos e estava prestes a completar 19, tinha levado um tiro na cabeça. Ele estava segurando uma faca de prata, o zíper da calça dele estava aberto e tinham vestígios de sêmen. As barras de suas calças estavam cheias de carrapichos, que são aquelas sementes de plantas que grudam nas roupas. A Maria Dinis, mãe da Angela, entra correndo na casa dela e encontra a filha no quarto ao lado do botão de pânico, chorando.
De maneira imediata, Angela assume que foi ela quem atirou nele. E aí, antes de chamar a polícia, a mãe dela liga para o advogado da família, que era também tio da Angela, chamado Maurício Aleixo. Ele era casado com a Zélia, que era tia da Angela e irmã da mãe dela. O Maurício já tinha cuidado da Angela no processo de desquite que ela teve. Segundo Maurício, o adolescente vinha furtando a casa da Ângela, e isso era de conhecimento geral. E aí, na madrugada do dia 11, ele tinha tentado invadir a casa. O Maurício levou a Ângela até o hospital porque ela estava muito abalada e, depois disso, ele foi conversar com o delegado que estava fazendo plantão naquela madrugada, e esse caso foi uma grande notícia na cidade.
Então, no dia que a Angela foi dar o depoimento dela no Fórum Lafayette, eles tiveram que fechar a porta com grades e colocar policiais lá, porque tinha uma multidão tentando entrar. O Maurício, que era o advogado e tio da Angela, suspeitou da história dela desde o início por conta de algumas coisas que ele encontrou na casa dela. Por exemplo, tinham dois travesseiros usados na cama de casal; do lado da cama também tinha um cigarro pela metade, e ela não costumava fumar. Então ele passou a desconfiar que havia uma terceira pessoa na casa naquele dia e começou a questionar a Angela sobre isso. Então, no primeiro momento, ela manteve sua versão dizendo que ela estava sozinha em casa e que ela tinha atirado, mas depois ela admitiu que, na verdade, quem atirou foi o Tuca Mendes, com quem ela estava tendo um caso. Tuca era casado, como eu falei para vocês, e ela disse que não tinha contado a verdade por conta do casamento dele; ela disse que não queria que o casamento dele fosse comprometido de qualquer forma.
O Tuca foi chamado para depor e, no seu primeiro depoimento, ele já assume a responsabilidade, dizendo que realmente quem tinha atirado era ele e não a Ângela. A Ângela também foi indiciada porque ela teria passado a arma para o Tuca naquele dia. No depoimento do Tuca, ele disse que estava com a Ângela na casa dela e que os dois ouviram um barulho. Então ele foi até a janela para olhar e ele viu o jovem saindo de trás de um carro. A Ângela teria reconhecido ele imediatamente, já que ele fazia alguns trabalhos na casa dela, mas o Tuca teria percebido que ele estava com um objeto na mão e aí ele percebeu que era uma faca. Segundo ele, ele deu um tiro para o lado do José, não diretamente nele, mas ele continuou andando em sua direção. Então o Tuca atirou mais duas vezes em direção ao José, que andou mais um pouco e caiu. O José, a vítima, foi registrado no IML como desconhecido, e nada muito aprofundado apareceu sobre ele nos jornais; eles o chamavam de “Zé Preto”. Já o Tuca Mendes, que era o autor do crime, apareceu nos jornais sendo muito bem descrito.
Aparentemente, a morte do José foi tratada como um tropeço na vida de Tuca e Ângela. Não se sabe até hoje se a história da faca seria realmente verdade, já que a faca estava na mão direita do José e ele era canhoto. Então, ela poderia ter sido colocada ali posteriormente à sua morte para corroborar com a versão de legítima defesa. Em 1975, a denúncia contra Angela e Tuca foi descartada. O caso ficou conhecido como o “Caso do Caseiro” e, mesmo sem uma condenação judicial, a Ângela foi bastante julgada na mídia. Havia teorias sobre isso e uma delas era de que teria sido um crime passional, já que o José tinha sêmen na calça dele e tinha os carrapichos também, como eu falei para vocês, e esses mesmos carrapichos tinham sido encontrados no quarto da Angela.
No podcast, existem várias teorias e versões da história que são contadas. Outra delas era de que estava acontecendo um ménage, e outra versão é que a Angela estaria ficando com o José; os dois teriam sido pegos no flagra pelo Tuca, que teria atirado e cometido o crime por conta de ciúmes. Ou, talvez, que o jovem estava na parte de fora da casa se masturbando enquanto ele via o casal, a Angela e o Tuca, que estavam dentro da casa, e que depois disso ele foi pego.
Ainda em junho de 1973, Angela dá uma entrevista para o Diário da Noite onde ela nega ter dado qualquer tipo de chance para o José, e logo depois disso ela se muda para o Rio de Janeiro. Na época, o caso do caseiro acabou pesando muito na vida da Angela, principalmente na guarda que ela tinha dos filhos, que na época tinham 10, 9 e 7 anos de idade. Os advogados do ex-marido disseram para a Angela que ela não tinha capacidade de cuidar das crianças, já que o crime aconteceu no mesmo imóvel que as crianças frequentavam. Depois disso, ela passou a ter autorização para ver os filhos somente quando eles estavam na casa dos tios da Angela.
No Natal de 1974, ela vai para Belo Horizonte para ver os filhos e, mesmo contra a decisão judicial, no dia 25 ela leva a filha dela, Cristina, com ela para o Rio de Janeiro. Então, a família do Milton acabou acusando-a de sequestro, de ter sequestrado a própria filha, e ela foi condenada por isso. Então, ela teria que cumprir seis meses de prisão. Depois que eles conseguiram recuperar a Cristina, a filha da Ângela, ela ficou proibida de ver os filhos. Segundo uma amiga dela chamada Kiki Garavaglia, depois disso a Ângela nunca mais foi feliz e passou a se entorpecer grande parte do tempo.
Depois das restrições impostas para ver os filhos, a Ângela não parecia se importar com mais nada a não ser eles. Em setembro de 1975, outro crime aconteceu com seu envolvimento. A polícia foi até seu apartamento depois que uma denúncia anônima foi feita dizendo que ela mantinha drogas no local. Ângela tinha maconha em casa e, ao invés de esconder da polícia no momento em que eles chegaram, ela disse que a droga era toda deles e que eles podiam levar embora. Ela foi detida por posse de maconha, pois ela tinha dois pacotes de cigarro da droga. Ela chorou enquanto assinava suas declarações, pois sabia que isso a prejudicaria ainda mais na questão dos filhos.
Assim que chegou ao Rio, a Ângela entrou para um mundo de festas e de vida noturna da cidade. Ela era uma mulher bastante sedutora e tinha consciência disso. Segundo sua amiga de infância, Jaqueline Pitanguy, ela gostava de beber, de sair, de namorar. A fama do caso do caseiro acabou indo junto com a Angela para o Rio, o que fazia com que ela fosse vista como uma mulher perigosa, mas isso não a impediu de ter vários namorados. Ela chegou a ter um relacionamento com Ibrahim Sued, o colunista que a apelidou de Pantera, e que escrevia quase que de maneira diária sobre ela. Os dois tinham uma relação conturbada; ele sempre andava armado e amigos já tiveram que tirar a arma de sua mão durante uma discussão entre os dois, porque ele queria atirar em Angela.
Em agosto de 1976, ela conheceria seu próximo namorado, Doca Street. Seu nome era Raul Fernando do Amaral Street, mas ele tinha o apelido de Doca. Ele era de uma família rica de São Paulo e já havia sido salva-vidas em Miami, diplomata saudita em Washington e até caçou elefantes por marfim no continente africano. Eles teriam se conhecido quando Ibrahim foi cobrir uma festa na casa do Doca e de sua esposa, Adelita Scarpa, para um programa de TV. Inclusive, a Adelita estava presente na festa; ela era divorciada do seu primeiro casamento e casada com o Doca, com quem teve um filho. Ela deu uma entrevista para o Ibrahim naquele dia. Adelita teria apresentado Doca a Ângela, e não muito depois os dois se esconderam no banheiro juntos para fumar maconha e, no mesmo dia, trocaram telefones.
A Ângela ainda namorava o Ibrahim na época, e ele precisou fazer uma reportagem em São Paulo, ficando hospedado na casa de Doca e Adelita. Enquanto Adelita e Ibrahim estavam dormindo, Doca e Angela tiveram relações. Isso aconteceu em outras ocasiões também, em outras visitas feitas a São Paulo. Adelita percebeu o que estava acontecendo e tentou salvar o seu casamento. Ela deu uma pulseira de ouro de presente para o marido, que jurou para si que não a trairia mais e focaria na família deles. Tudo parecia estar melhor, só que, em menos de uma semana depois disso, o Doca se muda para o Rio de Janeiro para morar com a Angela.
Os dois estavam extremamente apaixonados e isso era claro para todo mundo à volta deles. A amiga da Angela, Kiki, disse que ela falou para ela que estava super apaixonada, que ela queria constituir uma família com o Doca e queria voltar para a igreja. Mas isso contrastava muito com o início do relacionamento dos dois, onde havia muitas noites em que eles bebiam muito, usavam cocaína, e o Doca disse que eles faziam ménage também, porque nessa época a Angela começou a se interessar por mulheres. Mas, mesmo assim, existia muito ciúme na relação dos dois.
Alguns desses episódios de ciúme envolviam até violência, porque o Doca era considerado um valentão, ele sempre andava armado. Ele até admitiu que teve uma vez que eles estavam no Museu de Arte Moderna e que ele viu a Angela flertando com um homem. Então ele pegou ela pelo braço, levou até o banheiro e chacoalhou ela. Ele disse que chacoalhou tão forte que ela chegou a desmaiar, então ele largou ela lá e voltou para a sua mesa. Ela demorou um tempo para aparecer e aí ela chegou pálida, pedindo para ir embora, dizendo que ela não estava se sentindo bem.
Em setembro de 1976, o Doca já tinha deixado a Adelita definitivamente para viver apenas com a Ângela. No mesmo ano, a Ângela e o Doca foram para uma casa de veraneio na Praia dos Ossos, em Búzios. Eles planejavam comprar a casa de pescador onde ficaram hospedados, e o casal foi para lá para passar o réveillon com uma amiga da Ângela chamada Ângela Teixeira de Melo, o marido dela e o filho deles. No dia 30 de dezembro, todos eles estavam juntos na praia, mas naquela tarde a Angela e o Doca tiveram uma discussão e ele a assassinou.
Uma das testemunhas foi a Ivanira Gonçalves de Souza, de 17 anos, e ela trabalhava na casa em que eles estavam hospedados. Ela disse que a Ângela sentou em um banco da casa, que os dois começaram a discutir e que o Doca tentou acalmá-la, mas não conseguia. Depois disso, ele se ajoelhou e a Angela mandou ele ir embora, dizendo que ela não queria mais ficar com ele. Então ele pegou uma bolsa marrom de dentro do quarto, saiu da casa, entrou no carro dele e saiu de lá. Ele costumava fazer isso para ver se a Angela iria atrás dele. Ele ficou esperando na esquina, mas ela não foi atrás dele. Então ele voltou para casa com uma pistola dentro da bolsa marrom.
O Doca conta em seu livro Mea Culpa de 2006 que ele voltou para casa e que, quando ele entrou, viu a Angela dentro da piscina e que ele pediu que ela o aceitasse de volta. Então ela saiu da piscina, se sentou no banco novamente e disse que aceitaria ele se ele aceitasse que ela tivesse outros homens e também mulheres. Ele se sentiu humilhado com a fala dela. Então ela pegou aquela bolsa marrom e bateu na cara dele; ele caiu no chão, a bolsa também caiu e a pistola saiu de dentro da bolsa. Ele levantou já atirando nela; foram cinco tiros no total, quatro deles a atingiram, sendo três no rosto e um na nuca. Angela tinha 32 anos de idade. Ela morreu no local e, logo depois de cometer o crime, ele entrou no carro dele e fugiu. Foram os caseiros que chamaram a polícia, e o Doca fugiu para um sítio da família dele em Passos, Minas Gerais.
Quando a polícia chegou no local, eles encontraram o corpo da Angela já sem vida, e ela estava vestindo o maiô que tinha estampa de pantera. Ao lado do seu ombro direito estava a arma do crime, que era uma pistola automática, e não tinha mais nenhuma bala dentro dela. A polícia sabia que aquela arma pertencia ao Doca, então imediatamente começou uma caçada por ele. Como a Angela era bastante conhecida, principalmente em Belo Horizonte, o caso dela teve muita cobertura midiática. Muitos momentos foram filmados pela mídia, como a chegada do corpo na cidade, o seu enterro e sua missa de sétimo dia. Tanto a polícia de São Paulo quanto a do Rio de Janeiro estavam pressionadas a encontrar o Doca, que passou duas semanas sumido.
Ele retorna no dia 16 de janeiro de 1977 e não se entrega direto à polícia; ele aparece primeiro na TV Globo. Seu advogado na época, Paulo José da Costa Júnior, trabalhou para que ele aparecesse primeiro na mídia para depois falar com a polícia, e eles escolheram até o repórter que conversaria com o Doca. Então, levaram ele até um sítio isolado em São Paulo e, na entrevista, o Doca diz o quanto ele amava Angela. No dia 18 de janeiro, ele foi para uma clínica médica em São Paulo, e os médicos do local avisaram a polícia. Segundo o Dr. Edmundo Maia, ele chegou lá quase entrando em coma alcoólico. O Doca foi levado ao aeroporto de Congonhas para embarcar para o Rio de Janeiro e precisou praticamente ser carregado pelos policiais devido ao seu estado de embriaguez; ele tinha misturado os remédios receitados na clínica para ele com whisky.
Em Cabo Frio, ele conversa com o delegado Newton Waltz junto com o seu advogado Paulo Roberto Pereira, conhecido como Badu. O advogado dele quis convencer o delegado que o Doca não estava em condições de permanecer na cadeia. O psiquiatra Ivo Saldanha foi chamado e conseguiu levar o Doca a um hospital da cidade, onde ele foi internado. Ele foi submetido ao tratamento conhecido como sonoterapia, bastante comum na época, em que o paciente é praticamente colocado em um coma induzido, mas é algo perigoso que pode levar à morte. O Doca passou alguns dias dormindo. Cerca de duas semanas depois do internamento, ele voltou à prisão e era chamado constantemente pelo delegado para confessar. O delegado tinha a teoria de que o Doca não era o real culpado e que ele estava acobertando os verdadeiros assassinos: traficantes comandados por um homem chamado Pierre, que na verdade parecia não existir. Para o delegado, Doca estava acobertando os homens por medo de morrer também.
Esse homem Pierre teria surgido na teoria da polícia depois da entrevista com uma das empregadas da casa, que comentou sobre esse homem, mas logo em seguida desmentiu a história. Mas outra pessoa que foi considerada pivô do que aconteceu foi a alemã Gabriele Dorer. Ela morava em Búzios havia poucos meses e vendia bolsas de pano que viravam tabuleiros de gamão. Ela teria se aproximado deles naquele dia e ficado horas conversando. Ângela teria se interessado por ela e começado a flertar com a mulher. Com isso, surgiu a teoria de que ela poderia ter sido o estopim para a discussão do casal.
Mais tarde naquele dia, a Gabriele foi entrevistada e, como ela não falava português muito bem, ela respondia em inglês. Ela teria dito em algum momento que Angela a tocou de maneira sensual, mas depois se retratou dizendo que poderia ser um problema de tradução. Depois comentou novamente sobre esse toque. Isso teria sido uma das bases da teoria de que o Doca matou a Angela por ciúmes. Naquele momento, até o delegado acreditava que se tratava de um crime passional, algo que estava fora do perfil do Doca.
Mas além dos amigos, até as mulheres que trabalhavam para o casal afirmam que viam a Angela machucada e sangrando. Uma delas disse que o Doca não a deixava sair do quarto por conta dos ciúmes. O Doca não deixava a Angela frequentar os lugares a que ela já estava acostumada e amava, e na mesma época a distanciou dos seus amigos. Ela aproveitava para ligar para os amigos quando Doca estava no banheiro. Ela se incomodava com esse tipo de coisa porque ela não era uma mulher submissa. Um dos amigos da Angela, chamado Fritz, disse que um dia antes do crime, a Angela o confidenciou dizendo que queria deixar o Doca e até já tinha falado com ele sobre isso; ela pretendia terminar com ele em Búzios.
O Doca ficou preso por sete meses no Rio de Janeiro antes de conseguir um habeas corpus. O julgamento ia sendo adiado e as pessoas iam quase se esquecendo do que tinha acontecido. O Doca ficava cada vez mais famoso: ele recebia cartas na prisão, camisetas eram estampadas com seu rosto e um prato de restaurante ganhou seu nome, sendo o filé do Doca Street; fizeram até um drink com o seu nome. A Gabriele não chegou a depor no tribunal, apesar das expectativas, pois 5 meses depois do crime ela desapareceu. Segundo uma mulher argentina chamada Mercedes Avellaneda, amiga da Gabriele, elas estavam fazendo uma trilha juntas em um morro, Gabriele teria pisado em falso e caído do penhasco, falecendo no mar.
No caso da morte de José Avelino, funcionário da Angela, a promotoria recorreu a um novo julgamento que aconteceu em 1978, com a condenação do Tuca, que pegou uma pena de apenas 18 meses. Já o julgamento do Doca só iniciaria quase 3 anos depois do crime, em 17 de outubro de 1979. Na época, ele tinha 40 anos. Sua condenação ou absolvição dividiam as opiniões da população. Quem o apoiava achava que ele não merecia ser condenado por conta das circunstâncias do caso e pela reputação que a Angela tinha. Esse julgamento foi muito esperado e foi o primeiro filmado em sua íntegra. Havia muitas pessoas fora do Fórum de Cabo Frio e muitos jornalistas também equipados e preparados para pegarem as melhores imagens que podiam. O advogado do Doca foi Evandro Lins e Silva, o juiz do caso foi Francisco da Mota Macedo.
O júri foi formado por sete moradores locais e, segundo o podcast Praia dos Ossos, a cada dois meses 21 pessoas eram sorteadas para ficarem à disposição da justiça e serem jurados de todos os julgamentos que ocorressem naqueles dois meses em Cabo Frio; sete pessoas eram escolhidas para cada júri. O pai do Doca acabou conseguindo o nome de todas as pessoas que tinham sido sorteadas (aquelas sete pessoas) e ele fez uma visita para cada uma delas levando um resumo do caso feito pela defesa do Doca. Mas essas mesmas pessoas também receberam cartas escritas pelos filhos da Angela.
O julgamento durou 21 horas e, durante todo o tempo, Doca ficou com a cabeça baixa e as mãos cruzadas. O seu advogado argumentou que o crime tinha sido um crime passional, que ele agiu no calor do momento e que não tinha sido planejado. Como, segundo ele, teria sido um crime passional, o Doca não precisaria ficar encarcerado, já que ele não cometeria o crime novamente. Já a acusação foi feita por Evaristo de Moraes Filho, contratado pela família da Angela. O promotor tentou argumentar que o Doca era sustentado pela ex-mulher Adelita e depois sustentado pela Angela. Ele quis dizer que a Angela morreu para que o Doca pudesse ficar com o seu dinheiro e, ainda sem evidências, ele tentou provar que o Doca também era um traficante.
Já o seu advogado defendeu dizendo que ele era um homem trabalhador e que sempre cuidou de suas mulheres. Ele falou um pouco sobre a história do Doca, de suas origens, e aí, quando ele foi falar da Angela, ele começou a traçar um perfil diferente para ela, tentando colocar o Doca como a vítima. O advogado também explorou muito a vida sexual e os comportamentos da Angela durante sua argumentação. Ele disse que ela era uma mulher fatal, capaz de levar qualquer homem à loucura. Ele também citou outros crimes nos quais ela tinha se envolvido antes, como as drogas encontradas no seu apartamento e o sequestro da própria filha. Ele chegou a chamar Ângela de prostituta de alto luxo da Babilônia.
Além disso, ele também argumentou que ela teria admitido ter tentado tirar a própria vida várias vezes e que ela queria morrer, tentando justificar o assassinato. Para isso, ele juntou argumentos de um lado psicológico e o fato de ela ter escrito um testamento aos 26 anos de idade. Além disso, o Ibrahim, que foi um ex-namorado da Angela, também andava armado assim como Doca, e em diversas discussões entre eles, mais uma pessoa citou ter ouvido a Angela falar para ele matá-la se ele fosse homem. A partir disso, ele deu a entender que ela foi morta pela própria vontade, que ela queria morrer, mas que ela morreu pelas mãos de outra pessoa.
Depois disso, o Evaristo, que foi o advogado contratado pela família da Angela, entra novamente e descreve como os tiros aconteceram e em quais partes do corpo os tiros pegaram; os jurados não puderam ver as fotos do corpo. Ele argumenta que o Doca teve tempo para pensar depois de ter dado o primeiro tiro, enquanto a Angela já estava caída no chão, e aí ele decidiu continuar atirando. O Evaristo queria mostrar que ele teve tempo para ponderar aquela decisão que ele estava cometendo naquele momento, que ele poderia ter desistido de matá-la, mas ele não o fez. E aí, quando o Evandro volta a argumentar, o advogado do Doca começou a dizer que aquele crime poderia ser também de legítima defesa, dizendo que o Doca poderia estar defendendo sua honra, mas acabou exagerando.
Os jurados vão para outra sala para deliberar e, quando eles voltam, o juiz lê a sentença. Doca foi condenado a 1 ano e 6 meses de detenção por excesso culposo de legítima defesa e mais 6 meses por ter fugido da polícia. Ele também foi condenado a pagar os custos do processo. Atualmente, essa tese de legítima defesa da honra é julgada como inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal. Como Doca já tinha ficado preso 7 meses antes do julgamento, ele já tinha cumprido um terço da sua pena, então ele recebeu uma suspensão constitucional de pena, saindo livre do tribunal.
Nessa época, o movimento feminista estava começando a fazer manifestações, mas elas ainda não usavam o termo feminista. Em 1980, depois de um caso de duas mulheres donas de casa chamadas Eloísa Ballesteros e Maria Regina Santos Souza Rocha, que foram mortas por seus maridos por tentarem se separar deles, manifestações de grupos de mulheres começaram a acontecer, muitas com a pauta da violência contra a mulher. Uma das manifestações aconteceu no dia 18 de agosto de 1980, em frente ao colégio de freiras onde a Angela fez o ensino primário; o slogan era “quem ama não mata”.
Depois do julgamento do Doca, a promotoria recorreu e pediu a anulação do julgamento. A argumentação utilizada para isso foi a de que o veredito do júri não ia de acordo com as provas apresentadas. O Tribunal Superior acabou concordando com a promotoria, anulando o julgamento e trazendo Doca para um novo julgamento em Cabo Frio, dois anos depois do primeiro. Dessa vez, a acusação seria feita por Heleno Fragoso, um advogado conhecido que havia acompanhado o primeiro julgamento. A defesa do Doca foi feita pelo advogado Humberto Telles, porque seu advogado do primeiro julgamento não poderia defendê-lo novamente. Seu novo advogado usou de algumas argumentações já usadas anteriormente, pintando Angela como uma mulher ruim e dizendo que ela queria morrer. O advogado da acusação disse que a Angela não era quem estava em julgamento naquele momento, mas sim o Doca. Nesse julgamento houve uma vigília de mulheres do lado de fora do fórum e elas levavam faixas em defesa feminina.
O segundo julgamento não durou muito mais do que 18 horas. Dessa vez, o resultado foi completamente diferente e, em 5 de novembro de 1981, Doca foi condenado a 15 anos de prisão pelo crime de homicídio qualificado. Em 1982, Milton, o filho mais velho da Angela, sofreu um acidente de moto e, como consequência, teve sérias lesões, ficando sob os cuidados da irmã. No ano seguinte, o primeiro marido da Angela, Milton Vilas Boas, morreu em um desastre de avião. O filho mais novo da Ângela, Luís Felipe, faleceu em 1988 em um acidente de carro. Doca cumpriu a maior parte de sua pena no presídio Ary Franco, em Água Santa, no Rio de Janeiro, sendo os três primeiros anos e meio em regime fechado; posteriormente, ele foi liberado em 1987.
Existe uma rua chamada Rua Angela Dinis em Búzios. A rua fica próxima à Praia dos Ossos e chega perto da casa onde a Ângela foi assassinada. Como eu falei para vocês, o Doca lançou um livro em 2006 chamado Mea Culpa, no qual ele dá sua versão do crime. Doca faleceu em 2020 na cidade de São Paulo, aos 86 anos; ele teve um ataque cardíaco e não resistiu. O caso Angela Dinis, que muitas vezes é citado como caso Doca Street, inspirou diferentes produções como o filme de 1977 “Os Amores da Pantera”, e em 5 de junho de 2003 foi exibido um episódio sobre o caso no programa Linha Direta.
Como eu falei para vocês, tem um podcast sobre o caso chamado Praia dos Ossos e vale muito a pena ouvir, além do filme lançado nesse ano chamado “Angela”, escrito por Duda de Almeida e dirigido por Hugo Prata. Mesmo a condenação do Doca tendo sido um marco importante para o feminismo no Brasil, casos de feminicídio não pararam de acontecer ao longo dos anos. Atualmente, existe a lei do feminicídio ou Lei Maria da Penha, que tem como objetivo trazer proteção às mulheres vítimas de violência doméstica e familiar.
Quando o podcast foi lançado em 2020, o caso veio à tona e muito se falou sobre ele, e aí agora com o lançamento do filme estão falando novamente sobre o caso. Achei que seria um bom momento para trazer essa história para vocês, já que é um caso brasileiro e eu trago bem de vez em quando casos brasileiros para vocês, mas esse em especial eu quis trazer. Então eu quero muito saber o que vocês acharam, me contem aqui nos comentários! Se você ainda não segue a página, já siga a página aqui embaixo para não perder nenhuma história nova. Tem história nova toda semana! A playlist completa da página está com mais de 300 casos para vocês maratonarem, e na descrição tem também o podcast para você ouvir quando e onde quiser. Não se esqueça de me acompanhar nas redes sociais que eu vou deixar aqui na tela para vocês, me acompanhem por lá que eu tô sempre trazendo outros conteúdos de true crime para vocês sobre séries, livros e filmes. Então me sigam por lá e eu vejo vocês na próxima história.