O TRÁGICO FEMINICÍDIO que CHOCOU PORTO ALEGRE nos ANOS 40

Arthur ocupava o cargo de gerente do British Bank of South America em Porto Alegre. A posição profissional do padrasto e os negócios da família paterna colocavam Maria Luía num ambiente de estabilidade financeira. Ainda assim, o que mais aparecia nas descrições sobre a jovem não era a condição econômica. Ela era lembrada como uma estudante dedicada, afetuosa com a família e interessada em atividades artísticas.

Maria Luía gostava especialmente de desenhar, observava formas, registrava imagens e demonstrava uma sensibilidade que contrastava com a personalidade mais inquieta do rapaz com quem se relacionava. Também escrevia com frequência. Hein Werner, João Schmellin, vinha de um meio social semelhante. Também era descendente de alemães, protestante e filho de pais separados.

Seu pai era empresário e sócio de uma metalúrgica. A mãe Frida Widman, passou a viver com o empresário Hans Fryer depois de uma separação conturbada. Hein não era conhecido pela mesma dedicação aos estudos demonstrada por Maria Luía. Seus interesses estavam ligados à velocidade e às motocicletas. competia, vencia e tinha conquistado reconhecimento naquele ambiente.

Liderava um grupo de motociclistas conhecido como Os Mikeis, formado por ele, pelo irmão Guer de Joachim e por outros rapazes que circulavam por Porto Alegre e organizavam passeios pelo interior. Para os amigos, aquela rotina representava liberdade e aventura. Para famílias mais tradicionais, podia ser vista como sinal de imprudência.

No início de 1940, Rin se envolveu num acidente de trânsito em que um menor morreu. O inquérito isentou de culpa, mas a morte reforçou a preocupação daqueles que já o consideravam impulsivo. O episódio também aumentou os conflitos familiares. Depois dessa fase, Rin e o irmão deixaram a residência do pai em moinhos de vento e passaram a viver com a mãe e o padrasto no bairro Cristal.

O comportamento dele alternava carisma e instabilidade. Era alto, considerado bonito e exercia influência sobre os amigos. Gostava de competir, liderar e chamar atenção. Ao mesmo tempo, demonstrava ciúme, irritação e dificuldade para aceitar contrariedades. Essas características teriam peso cada vez maior em sua relação com Maria Luía.

Os dois começaram a namorar quando ela tinha 13 anos. O relacionamento atravessou uma parte importante da adolescência de ambos. Para Maria Luía, ele reunia qualidades que podiam parecer fascinantes. Era atraente, carismático, aventureiro e respeitado dentro do próprio grupo. Ela se apaixonou por um rapaz muito diferente da vida organizada que conhecia em casa.

Érica não via Heins da mesma maneira. A mãe considerava a filha jovem demais para assumir um compromisso e acreditava que ela ainda precisava concluir os estudos. Também desconfiava da impulsividade do namorado, da ligação dele com corridas e motocicletas e da forma como conduzia o relacionamento. A opinião de Érica sobre a família de Heins tornava a resistência ainda maior.

Ela considerava Frida mãe do rapaz. uma mulher irresponsável, insensata e mal vista por parte da comunidade. Essa era a avaliação de Érica, não uma descrição neutra da conduta de Frida. Para a mãe de Maria Luía, a influência daquela família não combinava com a educação e com o futuro que desejava para a filha.

Havia também uma ausência difícil de ignorar. Durante todo o namoro, Rein não frequentou a casa de Maria Luía, não procurou estabelecer uma relação com os familiares e não pediu autorização para namorá-la. Naquele meio social, esperava-se que um rapaz interessado se apresentasse à família e assumisse formalmente suas intenções.

Ao evitar essa aproximação, R aumentava a impressão de que não respeitava as normas valorizadas por Érica. O relacionamento continuou apesar da oposição. Maria Luía estava apaixonada e não aceitava encerrar o namoro apenas porque a família o desaprovava. Com o passar do tempo, porém, ela própria começou a perceber aspectos do comportamento de Rins que a incomodavam.

O ciúme já não parecia apenas uma demonstração de interesse. As mudanças de humor e as mentiras provocavam discussões e faziam com que ela questionasse se os dois poderiam manter aquela relação. Maria Luía escreveu em seu diário em alemão. Abre aspas. Ao falarmos de ciúmes, disse-lhe ser muito, muito ciumento, mesmo quando não o mostrasse.

Aparentemente ficava calmo, mas interiormente se tornava furioso e seria capaz de cometer por causa de ciúmes, uma grande loucura. Então, começamos a conversar sobre brigas e a minha pergunta disse-me ele que teria apenas dois motivos pelos quais brigaria comigo e baixinho e pausadamente ele me disse: “Se tu tivesses um outro e ainda mais baixinho ou se tu não aceitasses o meu amor”.

Hein tinha avisado, com as próprias palavras, o que poderia provocar nele uma reação extrema. As mentiras também desgastavam o namoro. Maria Luía se sentia magoada com a falta de sinceridade e percebia que qualquer tentativa de conversa pessoal acabava em desentendimento. Em vez de enfrentar novamente uma discussão, começou a preparar no diário o texto de uma carta que pretendia entregar a Rins.

Não há confirmação de que ele tenha recebido o documento. O que permaneceu registrado foi a forma como ela desejava se dirigir a ele. Querido Heines, eu desejei te escrever esta carta para poupar a nós dois um desentendimento pessoal. Notei que não fomos criados para entendimentos pessoais e um entendimento entre nós se torna necessário.

Para o entendimento verbal não fomos feitos e por isso esse entendimento se faria por escrito. Eu desejaria chamar a tua atenção para o fato de que as relações entre nós, pelo menos na minha opinião, tornaram-se insuportáveis. Não sei se sentes o mesmo ou se tuas reservas têm outros motivos ou se elas não têm motivo algum.

Uma coisa que sempre me causava mágoas era a tua falta de sinceridade para comigo. Eu aguardo uma resposta clara, sem sentido dúbio. Até lá. Fica em amor. Sua lisinca. No sábado, 17 de agosto de 1940, Maria Luía ainda não tinha resolvido o que faria em relação a Heins. As anotações do diário mostravam que o namoro tinha se tornado difícil, mas ela havia decidido esperar pelo baile dos estudantes antes de tomar uma decisão definitiva.

A festa aconteceria naquela noite no salão da sociedade Germânia e escolheria a rainha dos estudantes entre as jovens presentes. Enquanto se arrumava em casa, Érica percebeu que a filha estava mais triste do que de costume. Maria Luía escolheu um vestido azul. Para completar o trage, a mãe lhe emprestou o colar de pérolas que tinha pertencido à avó.

A joia carregava uma lembrança familiar e deveria acompanhá-la apenas durante aquela noite. Artur levou a entiada até a sociedade germânia. Depois da festa, Maria Luía dormiria na residência do avô, há poucas quadras do clube. Esse plano não causava preocupação. Ela estaria acompanhada num ambiente frequentado por famílias conhecidas e ao fim do baile seguiria para a casa de um parente.

Maria Luía entrou na sociedade germânia, acompanhada da prima irma. Durante a noite conversou, dançou com diferentes rapazes e participou da festa. Segundo o relato de Paulo, um dos jovens com quem dançou, ela teria confidenciado que pretendia terminar o namoro com Heins. Enquanto Maria Luía permanecia no baile, Hein atravessava o sábado de outra maneira.

Passou parte do dia com os companheiros do grupo de motociclistas, mas estava retraído e pouco comunicativo. A princípio, não pretendia comparecer à festa. Naquela noite não jantou. Mais tarde mudou de ideia e pediu ao padrasto o Ford V8 cinza, modelo 1939. O padrasto não queria emprestá-lo, mas Heines insistiu e acabou saindo com o carro em direção à sociedade Germânia.

Quando chegou ao salão, a festa já estava em andamento. Hein bebeu algumas doses de whisky e passou a observar Maria Luía. Ela conversava e dançava com outros rapazes. Para alguém que tinha admitido ser profundamente ciumento, aquela cena atingia exatamente o ponto que mais o incomodava no relacionamento. Os relatos sobre o que aconteceu dentro do salão não permitem reconstruir cada conversa.

O que permaneceu registrado foi uma demonstração de ciúme. Hein interpretou um dos rapazes como adversário e reagiu à maneira como Maria Luía se divertia sem a companhia dele. Em determinado momento da madrugada, Hein chamou Maria Luía para conversar fora do salão. Não ficou estabelecido o que ele disse para convencê-la a acompanhá-lo.

Os dois eram namorados havia anos e sair com ele não pareceu incomum para quem os viu juntos. Maria Luía deixou a sociedade Germânia e entrou no Ford V8. O automóvel partiu levando os dois depois daquela saída. Nenhuma testemunha voltaria a ver Maria Luía com vida. Na manhã seguinte, ela não tinha chegado à casa do avô.

também não havia retornado para a residência da mãe. A ausência já não podia ser explicada por uma mudança simples de planos. A família começou a procurá-la e o desaparecimento chegou ao conhecimento das autoridades. Enquanto Érica e os parentes tentavam descobrir onde Maria Luía estava, Rein apareceu sozinho em Belém Velho.

Por volta das 9 horas da manhã, estacionou o Ford diante de um pequeno estabelecimento. Ainda usava a roupa da festa. Entrou, pediu uma bebida e solicitou ao proprietário autorização para se sentar. O rapaz parecia exausto. Depois de ocupar o lugar que lhe ofereceram, adormeceu profundamente. Permaneceu naquele estabelecimento durante quase 12 horas.

O proprietário tentou acordá-lo, mas não conseguiu obter uma reação normal e decidiu chamar a polícia. Os agentes examinaram os documentos encontrados com o rapaz. O nome registrado era Heines Werner João Schmellin. A identificação ligava aquele jovem diretamente a adolescente que tinha desaparecido depois do baile. E havia mais.

Ele apresentava um ferimento de arma de fogo no peito. Hein foi encaminhado ao hospital alemão em Moinhos de Vento, onde passou por cirurgia. A partir daquele momento, a polícia precisava descobrir o que tinha acontecido entre a saída da sociedade germânia e o aparecimento dele em Belém Velho. Hans era a última pessoa conhecida que tinha estado com Maria Luía e também a única que poderia explicar porque retornou sozinho e ferido.

O delegado Carlos Armando Gadré assumiu a investigação e foi ao hospital para interrogá-lo, enquanto os peritos examinariam o automóvel, a arma, os projéteis e os resíduos deixados pelos disparos. Rein ainda se recuperava da cirurgia quando começou a responder às perguntas. Mais tarde, a defesa alegaria que sua condição física, os medicamentos e o abalo emocional comprometiam aquelas declarações.

Para a polícia, entretanto, o problema não estava apenas no estado de saúde do rapaz. As informações mudavam à medida que o interrogatório avançava. O próprio advogado reconheceria que Reins apresentou três versões em menos de 48 horas. Entre respostas parciais e alterações de detalhes, duas narrativas completas orientaram as primeiras etapas da investigação.

No primeiro relato, ele afirmou que Maria Luía havia terminado o namoro e já demonstrava interesse por outro rapaz. disse que a convidou para sair do baile porque queria esclarecer a situação. Depois de deixarem a sociedade Germânia, seguiram até o Morro Montserrá e estacionaram nas proximidades do Instituto Porto Alegre.

Segundo Heines, a conversa se transformou em discussão. Maria Luía teria insistido que já não o amava. Ainda assim, ele declarou que os dois mantiveram contato íntimo naquela madrugada. Depois voltaram ao Ford e deixaram a área urbana pela estrada Porto Alegre, Tramandaí. Ao chegarem à região de aldeia dos anjos em Gravataí, Heines teria entrado numa estrada em meio a um descampado.

Foi ali, conforme essa primeira explicação, que Maria Luía retirou do porta-luvas o revólver pertencente à família e atirou contra o peito dele. Refirmou que perdeu a consciência. Quando despertou, Maria Luía já não estava no automóvel. Ele não soube explicar como uma jovem sozinha teria deixado aquele ponto afastado durante a madrugada, nem porque não procurou imediatamente a polícia ou atendimento médico.

Disse que tentou voltar para casa, mas teve medo da reação da mãe e do padrasto ao vê-lo ferido. Por isso, continuou dirigindo até terminar em Belém Velho. Gadré ainda considerava possível encontrar Maria Luía com vida. Com base nas indicações dadas por Hines, a polícia iniciou buscas em Aldeia dos Anjos, Glorinha, Miraguaia e em outros pontos ao longo da estrada.

A família esperava alguma notícia enquanto policiais percorriam as regiões mencionadas pelo namorado. Nenhum vestígio da jovem apareceu. Durante três dias, as equipes procuraram por alguém que, conforme Heins, poderia estar ferida, perdida ou escondida. Depois de abandonar o Ford. Ele permanecia internado e sabia que os policiais estavam seguindo o caminho que havia indicado.

Na nova versão, o namoro não tinha terminado. Heinz afirmou que a separação era apenas uma encenação destinada a enganar a família de Maria Luía. Os dois continuariam juntos em segredo enquanto Érica acreditaria que a filha havia finalmente encerrado o relacionamento. Essa explicação também justificaria porque Maria Luía chegou ao baile acompanhada da prima e não dele.

Heinz disse que foi à sociedade germânia depois de saber que ela dançava com outros rapazes. Queria descobrir se o rompimento, que considerava falso, tinha se tornado verdadeiro para namorada. Conforme essa segunda narrativa, ele chamou Maria Luía para conversar, saiu com ela no Ford e fez as pazes durante o percurso.

Por volta das 3 horas da madrugada, parou o automóvel. Ao olhar para o lado, viu o revólver nas mãos da jovem. Ela teria atirado primeiro contra o peito dele. Logo depois, Heinz ouviu um segundo disparo e viu Maria Luía cair sobre o banco. Mais uma vez ele afirmou que perdeu a consciência. Quando despertou, percebeu que a namorada estava morta.

negou ter efetuado qualquer disparo e disse que entrou em pânico. Em vez de procurar socorro ou comunicar o que tinha acontecido, decidiu esconder o corpo.Hein começou a dirigir com Maria Luía dentro do Ford. No relato apresentado à polícia, havia cordas ou arames guardados no porta-malas. Ao chegar à Lagoa dos Barros, a aproximadamente 100 km dali, recolheu pedras, amarrou os pesos ao pescoço e as pernas da jovem e prendeu junto dela os sapatos, as joias e outros pertences.

Mesmo ferido, retirou o corpo do automóvel e o levou até a água. Depois de deixá-lo submerso, iniciou o caminho de volta para Porto Alegre. também afirmou que se arrependeu, retornou à lagoa e tentou retirar Luía, mas não conseguiu por causa da dor provocada pelo tiro. Gadré exigiu que ele indicasse o ponto exato. Hein descreveu o caminho pela antiga estrada Porto Alegre, Tramandaí, e desenhou um croqui.

Disse que tinha deixado o corpo cerca de 20 minutos depois de passar pelo bar Bela Vista, no início da Lagoa dos Barros. Na madrugada de 21 de agosto, o delegado reuniu policiais, investigadores e moradores da região para iniciar as buscas. Pela primeira vez desde o desaparecimento, a equipe seguia para um local onde Heins reconhecia que Maria Luía poderia ser encontrada.

Quando a equipe chegou à Lagoa dos Barros, ainda era madrugada. Policiais, investigadores, soldados, jornalistas e moradores se distribuíram ao longo da margem. O croqui desenhado por Heinz indicava um trecho depois do Barbela Vista, mas não mostrava um ponto exato. A área era extensa, estava escura e havia neblina sobre a água.

Um morador contou que a esposa tinha ouvido o barulho de uma derrapagem na madrugada do desaparecimento. Na manhã seguinte, marcas profundas de pneus tinham aparecido no barro. Pareciam indicar que um automóvel havia feito uma curva brusca antes de retornar em direção a Porto Alegre. A informação ajudava, mas ainda não era suficiente para localizar Maria Luía.

As buscas começaram por volta das 2 horas da madrugada. Durante aproximadamente 7 horas, os homens percorreram a margem e entraram em diferentes pontos da parte rasa. Entre os moradores que colaboravam estavam Abílio e o pescador Fioravante, que conheciam melhor aquela região. No chão da antiga estrada surgiu uma pérola.

Outras foram encontradas perto de uma pequena praia. Um familiar confirmou que Maria Luís usava na noite do baile o colar que Érica tinha lhe emprestado. A joia que tinha pertencido à avó e que completava o vestido azul agora conduzia a polícia até uma parte específica da lagoa. Fioravante entrou na água e começou a examinar o fundo com os pés.

Em determinado ponto, percebeu algo macio sob a superfície. chamou os policiais que avançaram ainda vestidos. Quando puxaram primeiro as pernas para perto da margem, viram as amarrações e os pesos. Quatro homens precisaram trabalhar juntos para retirar o corpo, sem romper os fios, nem deslocar os objetos que poderiam servir como prova. Eram aproximadamente 9 horas da manhã de 21 de agosto.

Maria Luía estava a cerca de 12 m da margem. tinha permanecido desaparecida durante três dias. Ela era pequena, de constituição delicada, estava descalça e apresentava um ferimento de bala na altura do seio esquerdo. Os pés estavam amarrados. A própria blusa envolvia a região do pescoço, onde fios de arame prendiam pedras e tijolos usados para mantê-la submersa.

A rigidez cadavérica havia conservado seus braços elevados e fechados diante do corpo, numa posição semelhante a um abraço. Apesar do tempo dentro da água, seu rosto ainda era descrito como tranquilo. Nas fotografias realizadas depois da retirada, Maria Luía parecia dormir. Os jornalistas presentes registraram as imagens que ocupariam os jornais do dia seguinte, mas aquela aparência serena não diminuía a violência sofrida por Maria Luía.

Ao contrário, tornava mais difícil compreender que uma jovem tão pequena havia sido transportada por aproximadamente 100 km, presa a pesos e abandonada no fundo da lagoa. Durante três dias, enquanto a família procurava por ela e Heinz apresentava versões diferentes, Maria Luía permaneceu submersa naquele ponto.

Entre os pesos havia um tijolo marcado com as letras J, D. Nenhum exemplar igual foi localizado nas proximidades da lagoa. A polícia relacionou a marca à Olaria de José de Fini e descobriu que o material era utilizado numa obra da rua Coronel Bordini há poucos minutos da sociedade Germânia. A origem do tijolo contrariava Heinz, que dizia ter recolhido os pesos apenas na margem.

Para a acusação, ele tinha levado a peça de Porto Alegre, o que fortalecia a hipótese de planejamento. O Ford também apresentava barro e vestígios compatíveis com a viagem, mas a defesa contestaria o alcance dessas conclusões. A parte técnica foi conduzida pelo Instituto de Identificação e Medicina Legal, sob a responsabilidade do Dr.

José Fibes Lubianca. Os exames encontraram resíduos de pólvora na mão direita de Heins. A acusação afirmou que o resultado indicava a realização de disparos. A defesa questionou o método e o momento da coleta. Nas mãos de Maria Luía não apareceram resíduos, mas os três dias de submersão podiam ter eliminado vestígios.

Esse resultado sozinho não permitia excluir a hipótese de que ela mesma tivesse atentado contra a própria vida. O ferimento de Heinz também dividiu as interpretações. Para a acusação, a trajetória e a superficialidade indicavam que ele tinha atirado contra si mesmo para construir uma explicação. Para a defesa, a lesão era compatível com um disparo feito por Maria Luía.

Ninguém havia presenciado os tiros. O exame médico não confirmou a violência sexual sustentada inicialmente pela polícia. Ainda assim, o depoimento de Heinz registrava que diante de uma recusa de Maria Luía, ele respondeu ter direito ao corpo dela. A frase revelava o sentimento de posse, mas não comprovava o crime.

Em setembro de 1940, Heinz foi acusado de rapto, abuso e homicídio. Para a perícia e para a acusação, o caso estava solucionado. As versões contraditórias, os resíduos de pólvora na mão direita, o ferimento superficial no peito e o tijolo levado de Porto Alegre apontavam para um único responsável. A defesa, porém, construiu a estratégia exatamente sobre o que ainda podia deixar dúvida.

Ninguém tinha presenciado os disparos. O corpo permanecera três dias dentro da água e os primeiros interrogatórios aconteceram enquanto Hein se recuperava de uma cirurgia. Com esses argumentos, os advogados sustentaram a versão dele, a de que a própria Maria Luía teria atirado primeiro contra o namorado e depois contra si mesma.

Nesse caminho, o processo também colocou Maria Luía sob julgamento. Sua intimidade e sua relação com outros rapazes foram discutidas para sustentar que ela poderia ter reagido de maneira extrema. Enquanto Heinz respondia por seus atos, parte da defesa desviava a atenção para a adolescente que já não podia se defender. O julgamento começou em 17 de dezembro de 1942 e o júri não aceitou toda a narrativa da acusação.

Hein foi absolvido das imputações de rapto e quatro dos sete jurados rejeitaram a premeditação. Quanto à morte, porém, a maioria o considerou responsável por homicídio simples. A votação terminou em quatro votos contra três. Heinz recebeu inicialmente uma pena de 10 anos e 6 meses de prisão. A defesa recorreu, alegando que a comoção tinha influenciado parte dos jurados.

O Ministério Público também apresentou recurso por considerar a punição branda. Em 28 de março de 1944, o juiz coriolano Albuquerque acolheu parcialmente o pedido da acusação e elevou a pena para 12 anos. A decisão confirmou juridicamente que Heinz matou Maria Luía, mas manteve afastadas as acusações de rápto, estupro e assassinato premeditado.

Na prisão, Hein trabalhou como escriturário, passou por diferentes setores e recebeu avaliações de bom comportamento. Depois de cumprir o período necessário, pediu liberdade condicional e, apesar da resistência do relator, o Conselho Penitenciário recomendou a concessão do benefício. Heinz. deixou a prisão em novembro de 1946, aproximadamente 6 anos depois da morte de Maria Luía.

Seguiu para o Rio de Janeiro, onde a mãe, o padrasto e o irmão também passaram a viver e trabalhou numa empresa instalada na Avenida Rio Branco. Em 1948, Heinz se casou com Hilda Costa, sem contar que havia sido condenado pela morte da antiga namorada. O casamento entrou em crise quando Hilda descobriu o passado dele.

Segundo o episódio registrado no livro, Heins tentou sufocá-la com um travesseiro. Os dois se separaram. Depois do período no Rio de Janeiro, ele se mudou para São Paulo. Morreu em junho de 1971, antes de completar 50 anos. Até o fim da vida, negou ter efetuado o disparo que matou Maria Luía. Enquanto isso, os documentos do caso desapareceram da vista do público.

O que atravessou as gerações foi outra coisa, a lenda. Muito antes de 1940, a região já tinha histórias sobre águas encantadas e uma mulher que caminhava pela margem. Depois da morte, Maria Luía foi incorporada a esse imaginário. Embora nunca tivesse sido noiva, passou a ser chamada de noiva da Lagoa dos Barros e descrita como uma jovem de branco, vista por moradores e viajantes.

Esses relatos pertencem à tradição popular, não à história real. A lenda ajuda a compreender como o caso permaneceu na memória popular, mas não deve substituir a pessoa real por uma assombração. Os documentos só voltaram à luz em setembro de 2019, quando arquivistas do Instituto Geral de Perícias resgataram de um depósito laudos e fotografias que estavam prestes a ser destruídos.

E em agosto de 2025, nos 85 anos do crime, uma segunda amostra no Museu Caldas Júnior, em Santo Antônio da Patrulha, reuniu itens pessoais preservados pela família por mais de 90 anos, cartas, fotografias e o caderno de desenho da jovem, um acervo que deve dar origem a um memorial dedicado à memória de Maria Luía. Maria Luía Hausler tinha 17 anos.

Era filha de Érica. irmã, estudante, falava português e alemão, gostava de escrever e amava desenhar. Dentro da família era Lisinca. Na noite de 17 de agosto de 1940, vestiu azul, recebeu da mãe um colar de pérolas e saiu para um baile acompanhada da prima irma. Pretendia dormir na casa do avô e continuar uma vida que ainda estava sendo planejada.

Sua história acabou reduzida durante décadas ao nome de um crime e a figura de uma mulher vestida de branco. Mas Maria Luía não é somente a dama ou a noiva da lagoa. Durante a nossa investigação, notamos que muitas pessoas desconhecem a história real ligada a ela. Antes de qualquer lenda, ela foi uma jovem que tentou se afastar de uma relação marcada por ciúme, controle e falta de sinceridade. É por Maria Luía Hausler.

por Lisinca e por tantas outras anônimas, vítimas de um poder imaginário construído há séculos e reiterado diariamente, que essa história precisa ser lembrada. Obrigado por assistir a esse história. Se você chegou até aqui, nos conte, você já conhecia essa história ou só a lenda? Se você gostou do história, deixe seu like e se inscreva para mais casos como esse da nossa história.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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