O RITUAL MISTERIOSO QUE CHOCOU O BRASIL: O CASO DE MATOTA E MARATA
A história completa
Passado das 5 horas da manhã do dia 1º de maio de 1977, na praia de Stella Maris, em Salvador, Bahia, em meio à ventania, uma senhora que catava materiais da ressaca do mar para ajudar no orçamento de casa se deparou com algo que de longe parecia ser um objeto maior do que os geralmente encontrados naquele trecho. Ao chegar perto, ela se deparou com o corpo de uma criança desfalecida na areia, enquanto as ondas ainda batiam naquele pequeno corpo à sua frente. Ela ainda avistava ao longe mais quatro corpos, todos de crianças.
A princípio, os populares acreditavam que alguma embarcação havia naufragado com toda uma família dentro. Bastava esperar o dia seguinte que talvez aparecessem o pai ou a mãe. Porém, o mar devolveu mais três crianças, totalizando oito corpos que variavam entre 9 meses e 8 anos de idade. Mal sabia a população que ali estava o resultado de um culto religioso liderado por Matota e Marata. O caso virou um livro chamado Matota e Marata: Cavaleiros da Fé, escrito por Valdemir Pinheiro. Trata-se de um livro-reportagem que serviu como trabalho de conclusão de curso da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, do qual foi usado para contar este caso de hoje.
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Vamos iniciar o caso falando sobre José Maurino Carvalho, filho do seu Edgar e da dona Maria, que era uma dona de casa mãe de 10 filhos. A família morava na Fazenda São Gabriel, na Vila de Santo Antônio de Jesus, em Salvador, Bahia. O pai do Maurino, seu Edgar, trabalhava na Fazenda São Gabriel e era pau para toda obra. Um homem que arrumava cerca, carpia, plantava, cuidava dos animais; ele fazia de tudo. Esse homem extremamente trabalhador e rígido criava os filhos a rédeas curtas, autoritário ao extremo. Era a palavra dele que predominava dentro de casa. O que o seu Edgar falasse, estava falado.
Este homem também tinha problemas sérios quanto a barulho; ele odiava qualquer som, incluindo a voz da esposa, a fala dos filhos e o grito das crianças. Isso não poderia ocorrer dentro daquela casa, tanto que não ocorria. A dinâmica familiar funcionava mais ou menos assim: falava-se o que era necessário e muito preciso, e essas falas que ocorriam eram cochichando, tinha que ser assim para que ele não ouvisse. Se a mãe dissesse: “Venham almoçar”, eles diziam: “Uhum”. Só isso. As crianças quase não tinham comunicação com outras pessoas. Era um local bem isolado onde eles moravam, então não tinham vizinhos, raramente aparecia alguém lá. Visitas também quase não ocorriam.
Resumidamente, eles não tinham convívio com a sociedade. Era uma família que também não participava de nenhum rito religioso: os pais não rezavam, a família não rezava, não tinha nada disso. Era silêncio absoluto. Seu Edgar só ouvia mesmo o barulho dos animais; esse ele deixava gritar, mas os filhos não poderiam falar. A mão do seu Edgar também era pesada demais. E não era um pai que batia consecutivamente nos filhos; ele batia uma vez só na vida de cada um, né? Porque, se uma criança apanhasse dele, lembraria para sempre. Então ela não queria apanhar de novo. Portanto, Maurino lembra de ter apanhado do pai uma única vez e não quis experimentar mais, entenderam?
E não é fácil um pai sustentar uma família com 10 filhos mais a esposa. Então, era uma família assim que passava muitas dificuldades. Eles passaram fome algumas vezes, e quem ajudava um pouco o seu Edgar era o filho mais velho, chamado Leandro. Até nesse período em que o Leandro estava em casa, era um pouco mais fácil, porém o Leandro fez 18 anos, resolveu sair da casa dos pais e foi trabalhar na principal linha férrea, a Leste Brasileiro, que ligava a Estação da Calçada, de Salvador, até São Francisco, em Alagoinhas. A família sempre procurava saber do Leandro e, para isso, eles iam até a estação ferroviária perguntar se alguém tinha notícias dele, e realmente as notícias eram muito boas. O Leandro estava muito bem, inclusive financeiramente, e teve uma melhora de vida. A partir disso, a família seguiu: o seu Edgar, a dona Maria e os nove filhos.
Maurino, por sua vez, foi crescendo; era um guri magro, moreno, com cerca de 1,65 m de altura, bem baixo. Ele era um guri que também não suportava barulho, não suportava risada, não gostava muito dessa questão social. Estudou até a terceira série do primário e encerrou seus estudos por aí. Mas ele tinha um sonho, um grande sonho de um dia se tornar um juiz de Direito. Chegou a conhecer a Maria, uma moça que morava perto da região onde ele morava, e inclusive queria se casar com ela, mas o seu Edgar disse que não, que ela não era uma boa moça para o filho. Aí o Maurino desistiu e não enfrentou o pai em nada, ele simplesmente concordou. Logo ele começou a pensar então: “Quem sabe, né, namorar com a prima?”. Mas ficou só no pensamento mesmo, porque ele já sabia que o seu Edgar também não iria aceitar. Parecia que o seu Edgar não se agradava muito das moças que tinham por ali; nenhuma delas seria boa o suficiente para o filho dele. Maurino, por sua vez, também não insistiu na questão da prima e deixou por isso mesmo. É por isso que ele desiste de casar.
Entre o final da década de 60 e o início da década de 70, Salvador alcançou seu primeiro milhão de habitantes, sendo a maioria delas vinda do interior do Estado. A economia de Salvador crescia desde 1939, com a descoberta do poço de petróleo chamado Petrolífero Lobato, e com a criação do Centro Industrial de Aratu, em 1967. Como Salvador era a grande oportunidade, Maurino, assim que completa 18 anos em 1966, com um pedaço de papel com o endereço do primo que morava em Salvador, se joga para lá. Quando chega à capital, depara-se com aquele monte de gente, casas diferentes, prédios e tudo mais. Ele mal acreditava no que estava vendo. Mas o que ele relata que ficou gravado nele era como as pessoas falavam bonito.
Ele já se alista no Exército e mora com o primo. Escolhe se alistar no Exército justamente porque não tinha estudos e também porque sabia que os militares não sorriam, tinham disciplina, e ele achava maravilhoso ter disciplina. Então era isso que ele queria. Mas as coisas não ocorreram como Maurino imaginava: o Exército era pesado demais e não deu certo; morar com o primo também não deu certo, e ele vai morar sozinho no bairro do IAPI (eu acho que é assim que se pronuncia; se não for, vocês me corrijam aqui embaixo nos comentários). E ali ele consegue dois empregos: de manhã, trabalhava em uma sorveteria e, à noite, trabalhava no bar do Bonfim.
Passado um bom tempo, até que ele já estava empregado nos dois empregos, percebeu que estava pesado trabalhar lá e cá. Ele consegue um outro emprego, onde fica num lugar só em período integral, o que facilitou muito para ele. Esse emprego era no Restaurante Fronteira: ele servia bebidas, limpava as mesas, varria o chão, atendia os clientes. Como ele queria se tornar quem sabe um dia um juiz, resolveu voltar a estudar, pensando em quem sabe conseguir um emprego melhor por meio dos estudos. Só que era pesado para ele estudar à noite: alguns clientes bebiam demais, ele tinha que esperar a pessoa sair para poder ir embora, às vezes faltava à aula, às vezes chegava atrasado. Com isso, ele acaba desistindo dos estudos.
Estando já na capital fazia 3 anos, quando ele estava com 21 anos, foi quando pela primeira vez o Maurino teve uma relação (né, uma relação assim, com uma mulher), que foi bem rápida e um pouco suja. Ele ficou com muito medo de ter pegado uma doença. Devido a esse medo, ficou meio neurótico durante um ano: não podia nem ver mulher na frente dele. Esse medo, segundo ele, foi passando com o tempo. Mas passou, e foi durante esse período que também ocorre uma mudança na vida de Maurino: ele consegue um emprego numa loja de móveis chamada Porvir. Inclusive, ele gostava muito de trabalhar nesse local, gostava dos patrões, os patrões gostavam dele, ele gostava dos colegas. E nessa loja de móveis ele trabalhava com entrega, então foi muito bom para ele na questão social: conheceu vários bairros de Salvador.
Ele tinha uma mania também de ir para a frente do estabelecimento (da loja) ver os crentes que ficavam gritando na rua que Deus ia voltar (aquelas profecias). Achava graça, porque ele não acreditava naquilo, né, visto que a família dele não era uma família religiosa. Diante disso, um colega de trabalho acaba dando para Maurino uma Bíblia, uma Bíblia bastante usada, mas que o amigo o presenteou. Um dia, aleatoriamente, na rua, ele vê um homem muito bem vestido pregando a palavra de Deus. Só que, desta vez, diferente das outras, havia algumas pessoas prestando atenção no que ele dizia, e aquilo chamou a atenção de Maurino. O pastor falava sobre castigo, fé, arrependimento. Mas o que Maurino pensou não foi sobre o que o homem estava falando ou pregando; o que ele observou foi como aquele homem falava bem e como, falando bem, atraía olhares, atraía pessoas e quem sabe multidões. Visto aquele cidadão com uma grande reverência, ele pensa: “Se um dia eu for crente, eu quero ser que nem ele. Só que eu não vou pecar de jeito nenhum”.

E foi assim que ele resolveu, um dia, visitar a Igreja Batista Missionária. Segundo Maurino alega, parecia que ele estava em transe; do nada ele começou a chorar, sentiu uma paz inexplicável e, a cada culto do qual ele participava, sentia-se cada vez mais completo. Havia uma pregação que ele fez questão de gravar na cabeça: a passagem de Abraão. Quando Deus exige de Abraão uma prova de fé, Abraão vai fazer o sacrifício do próprio filho. No último momento, quando Abraão vai fazer o sacrifício do filho, Deus diz para ele que a prova de fé dele estava aprovada; então, assim, a vida do filho é salva. Uma outra passagem também gravada muito bem por Maurino é do livro dos Atos dos Apóstolos (ele diz Novo Testamento), que conta a história de Paulo. Ele era um furioso perseguidor de cristãos até que a voz de Jesus diz que ele deveria obedecer somente a Deus. Ele acaba enxergando uma luz que o deixa cego por três dias, do qual ele entende que foi curado. Ele se converte, passa a ter um outro nome, que é Paulo.
E a partir dali, Maurino promete a si mesmo que também seria como Abraão e como o apóstolo Paulo. Ele acaba se demitindo da loja Porvir e passa a ser um vendedor autônomo. Ele vendeu, na época, algumas telas que se colocavam na frente da TV. A maioria das pessoas, gente, tinha televisão em preto e branco; raramente mesmo alguém tinha TV colorida. E algumas pessoas eram adeptas a comprar essas telas coloridas que se colocavam na frente da TV preta e branca (mas ela ficava com uma faixa, acho que azul, outra amarela, outra vermelha, se eu não me engano era assim). E ele ia de lugar em lugar, de cidade em cidade para vender. Mas geralmente ele frequentava a cidade de Feira de Santana, porque lá ele conhecia mais comerciantes, mais pessoas, e era mais fácil de negociar. Ele ia lá e vendia bastante dessas telas.
Em Feira de Santana ele também frequentava uma igreja, o que fez com que, em 1975, o Maurino conhecesse a Maria Nilza. Eles foram apresentados por amigos em comum da igreja. A Maria Nilza tinha 20 anos, era pequena, magra, frágil, de cabelos castanhos. Porém, a Maria Nilza estava em Feira de Santana na casa de amigos porque ela não morava ali. Ela estava em Feira de Santana porque precisava organizar os documentos da escola em que ela tinha estudado e queria uma transferência dessa escola em Feira de Santana para a Barra do Mundo Novo.
Quem era a Maria Nilza? Ela nasceu em junho de 1954, filha do seu Fideles, um homem que sempre trabalhou no campo, e também filha da dona Isabel, que era dona de casa. A Maria Nilza possuía dois irmãos homens. Ela era uma criança que não gostava muito de brincar. Ela não via sentido em brincar de boneca, ela não via sentido em brincar de correr, ela não via sentido em nada disso. Era uma família bastante unida; não era uma família de se brigar muito. O pai também não precisava brigar, chamava a atenção aqui, outra acolá, mas conversava muito com os filhos. Não havia espancamento, não havia nada disso na casa da Maria Nilza.
A família era natural da Barra do Novo Mundo; a Maria Nilza nasceu nesse local. A família era de religião católica. Ela era ótima aluna, gostava de estudar, fez curso de datilografia e de culinária. Porém, a família foi surpreendida com uma doença da dona Isabel: da noite para o dia, dona Isabel começou a falar enrolado e teve uma paralisia no corpo. Lá na Barra do Novo Mundo não tinha recurso para a dona Isabel, o que fez com que a família, para buscar tratamento para dona Isabel, saísse da Barra do Novo Mundo e fosse embora para Feira de Santana, onde tinha hospital e recursos para tentar um tratamento. E nessa época em que a dona Isabel fica doente, a Maria Nilza tinha 15 anos.
Mas, estando em Feira de Santana e a dona Isabel fazendo tratamento, os médicos não viam mais o que fazer, porque o que a dona Isabel tinha era decorrência de um derrame. Mas a Maria Nilza não aceitava essa condição. Isso porque ela acreditava que a mãe foi vítima de uma feitiçaria, e é diante disso que a Maria Nilza passa a frequentar a igreja evangélica. Então ela para de estudar, porque “Deus é que dá o conhecimento para as pessoas e a sabedoria vem de Deus”; não teria o porquê ela dar continuidade aos estudos. E é assim que ela larga o terceiro ano do primário nesse período já adolescente.
Ela também não via sentido em se arrumar, ela não seguia a moda, ela não se interessava por roupas que as meninas da idade dela usavam. Uma vez só ela tirou a sobrancelha e depois se arrependeu horrores, porque aquilo seria um pecado e tudo o mais. Então ela seguia à risca todas as coisas ditas na igreja. Bom, a família não tinha mais o que fazer em Feira de Santana, e dona Isabel continua com os mesmos problemas. A família volta para a Barra do Novo Mundo. A Maria Nilza, que fazia almoço e janta, dava banho na mãe e cuidava da família lá, enquanto o pai trabalhhava na roça e os irmãos ajudavam como podiam. Mas a grande parte da responsabilidade de cuidar da dona Isabel ficava com a Maria Nilza.
Depois, quando ela precisou ir até Feira de Santana, quem ficava com dona Isabel era o seu Fideles, o pai de Maria Nilza. Aliás, desde que ocorreu isso com a dona Isabel, ele também não tirava o pé de dentro de casa. A vida dele era trabalhar, casa, e assim era para toda a família. Então, essa era a Maria Nilza que foi apresentada ao Maurino. Desde o primeiro dia em que se conhecem, eles falam sobre tudo isso que aconteceu com a Maria Nilza. O Maurino conta um pouco sobre a vida dele. Ele ficou encantado com a Maria Nilza, até porque todas as características que ela deu sobre si mesma se encaixavam com ele. Ela era uma pessoa que não ria muito, o que agradava a ele; era uma pessoa muito decente. Ele fica literalmente encantado por essa mulher.
Nessa conversa ainda do primeiro dia, a Maria Nilza, em segredo, conta pela primeira vez para alguém que o Espírito Santo desde sempre vinha a ela: ela sabia de coisas que iriam acontecer, ela sabia o futuro, ela sabia de tudo que o Espírito Santo contava. O Maurino, por sua vez, diz que com ele também, mas de uma forma diferente. Conta que, uma vez, estava dormindo e, quando acordou, havia um monte de anjinhos ao redor da cama dele, e ao lado da cama, entre esses anjinhos, havia um homem em especial que ele tinha certeza de que era Deus. E que, depois disso, ele começou a conversar com Deus, que falava com ele através do Espírito Santo. Inclusive, Deus dizia o quanto ele estava magoado com os homens, e qual era a missão do Maurino nesta Terra.
E nessa conversa eles já fixam um namoro, a partir desse primeiro dia. Mas isso, gente, era bem natural de acontecer antigamente assim. Eles conversavam ali, já estavam namorando sério, era assim mesmo: “Estamos namorando”. Maurino volta para Salvador, enquanto a Maria Nilza ainda permaneceria em Feira de Santana para resolver essas tais documentações escolares. Toda vez que eles se encontravam, o assunto deles era a Bíblia, era Deus, era o Espírito Santo; era isso direto. E ambos passaram a pregar na rua para as pessoas. Mas vocês podem se perguntar assim: “Tá, mas se Maurino não tinha nenhuma cultura religiosa, será que em pouco tempo ele saberia tantas coisas bíblicas para pregar na rua?”. Claro que ele não sabia, mas Maria Nilza dizia para ele o que ele tinha que falar.
No fim do ano de 1975, Maurino, que havia trabalhado o dia inteiro, parou de trabalhar e seguia a pé para casa. Quando ele dobra a esquina de sua casa, vê um homem todo de branco. Esse homem que se vestia todo de branco, segundo Maurino, tinha um rosto iluminado. Ele tinha a certeza de que era Cristo. Na visão dele, devagarzinho esse homem foi sumindo e, do outro lado da rua, surgia quem? Maria Nilza. Na visão dele, né gente, ele via a Maria Nilza. Claro que aquilo era um sinal de Deus. Era Deus dizendo para ele: “Olha, casa com a Maria Nilza que ela é de Deus”, ou alguma coisa desse gênero. E foi exatamente por conta dessa visão que ele teve que decide casar com a Maria Nilza.
Ele vai até Feira de Santana, encontra a Maria Nilza, conta para ela sobre essa visão e fala o seguinte: “Olha, se Deus mandou, a gente tem que obedecer, a gente tem que fazer aquilo que Deus mandou para ser obediente a Deus”. Se Deus mandou, a Maria Nilza aceita se casar com Maurino e combinam que a partir dali ele a aguardaria em Salvador. O Maurino volta para Salvador, continua trabalhando e, num lindo dia, andando de ônibus e passando pela frente da Lagoa do Abaeté, ele sente naquele momento, dentro do ônibus, que aquele lugar era um lugar de Deus. Ele para o ônibus, desce, corre para esse local, começa a orar, sente a presença de Deus e ora mais um pouco.
Diz que lá não é a Lagoa do Abaeté, lá é o Monte das Oliveiras. Ele recebe uma ordem divina de que tem uma missão na Terra. Além disso, ouviu Deus dizer o seguinte: que, depois do casamento dele com Maria Nilza, ela engravidaria rapidamente e teria um filho menino que nem Jesus Cristo, e que o povo seguiria esse Jesus Cristo, os discípulos… Enfim, era isso que Deus queria dele. Não é fácil, né? É um abençoado, um escolhido de Deus. E inclusive, é aí, nesse Monte das Oliveiras, que ele leva Maria Nilza, aí ele pega Maria Nilza, leva até esse local e é ali que ocorre o casamento. O casamento ocorre sem padre, sem pastor, sem testemunhas, sem o pai dela, sem a mãe dela, sem ninguém. Não tem nada, nenhum familiar. São só os dois.
Por que só os dois? Quem está acima desse casal abençoado para fazer um casamento? Ninguém. Então não precisa de nada, só os dois bastariam. Ali mesmo eles juram amor eterno, fidelidade um com o outro, pelo poder da força de Deus e do Espírito Santo. E no Monte das Oliveiras eles consagram, né, minha gente, o casamento ali, né, o “rali-rola”, rola no Monte das Oliveiras. Mas eles só deitaram no Monte das Oliveiras e fizeram o “rali-rola” porque Deus mandou; eu tinha esquecido de contar essa parte. Maurino passa a se chamar Matota e Maria Nilza passa a se chamar Marata. Acredita-se que eles tenham trocado de nomes no dia do casamento. Isso nunca ficou claro qual foi o dia em que trocaram de nome, mas a partir dali eram Matota e Marata, casados e indo morar juntos na Barra do Novo Mundo.
A cidade de Novo Mundo estava em progresso desde 1937, quando foi inaugurada, pela Companhia Leste Brasileiro, a estação ferroviária. Isso trouxe um movimento para o local e novos comércios abriram, principalmente pousadas e hotéis, já que os passageiros que chegavam àquele local só teriam trem no dia seguinte, o que obrigatoriamente fazia com que esses viajantes ficassem na cidade de um dia para o outro. Organizada, bonita, calçada e iluminada. Porém, conforme os anos foram passando, as ferrovias foram perdendo a força, devido às rodovias ganharem espaço. O povoado foi enfraquecendo, porque cada vagão que chegava à cidade já vinha mais ou menos vazio, chegando a ficar extinto, né, em 1978.
A Barra do Novo Mundo, onde a Maria Nilza morava, ficava a 5 km da cidade. Na Barra do Novo Mundo tinha pouco comércio, era dois botecos, algum ou outro armazém, um vilarejo pequeno com pouco mais de 1.000 habitantes. A grande maioria dessas pessoas trabalhava em fazendas na área rural. E o casal chega à casa da Maria Nilza de madrugada. Quem abre a porta é o seu Fideles, o pai dela, e de imediato ele já vê aquela figura ao lado da filha. Ao mesmo tempo que ele fica aliviado que a filha chegou, de imediato seu Fideles não gostou dele. Olhou e pensou: “É grota”.
O Maurino foi apresentado também para dona Isabel, a sogra, e para os dois guris, irmãos da Maria Nilza. A casa dela era simples, de chão batido, tinha dois quartos, uma sala, uma cozinha. O Maurino tenta fazer com o sogro um acordo para esse casamento, mas o seu Fideles era muito franco, muito sincero. Ele nem media o que falava, né? E logo o seu Fideles diz: “Não, tu não és homem para a minha filha. Tu não tens nem condições de te sustentar; como é que vais sustentar a minha filha?”. Ele deixou claro que não estava de acordo com esse casamento, até porque a Maria Nilza apresentou-o como namorado, não como marido, porque eles já haviam casado, lembram? Mas ela disse que era o namorado dela. O seu Fideles ainda chama a Maria Nilza em particular e diz a seguinte frase para ela (que eu até achei muito interessante, nunca havia ouvido alguém falar isso): “O que é cedo tem jeito, o tarde não tem”. Ou seja, para que ela rompesse com aquilo enquanto houvesse tempo.
A Maria Nilza não ouviu o pai dela, porque acreditava que teria uma missão junto com o marido no mundo. Grande parte do tempo, o dia inteiro, os dois passavam lendo a Bíblia e rezando. Eles gritavam muito, rodavam dentro do quarto, clamavam, cantavam. Seu Fideles tinha vergonha dos vizinhos, de quem passava na rua, porque todo mundo ouvia aquela coisa estranha. E essa “coisa estranha” que seu Fideles não entendia o que era, eram as línguas estranhas; para eles, os dois pareciam loucos dentro de casa. A paradinha que eles faziam, a gritaria, essa coisa toda fervorosa assim, parava somente para ir à igreja. Essa igreja era a igreja que a Maria Nilza frequentava, era essa igreja dela, e ela continuou indo com o, então, agora marido. Mas, na igreja, ela também o apresentou como namorado.
O que acontece é que em 1965 chegou um grupo de crentes pelo trem. Eles se estabeleceram na cidade de Mundo Novo, formando ali a Igreja Pentecostal Assembleia de Deus. Os cultos eram liderados pelo pastor Agenor, que também era dono da barbearia Meneses, no centro da cidade. A igreja ficava na cidade, mas vez ou outra o pastor Agenor ministrava esses cultos na Barra do Mundo Novo, que é onde a Maria Nilza frequentava. Geralmente as pregações do pastor Agenor se referiam a como o diabo se escondia atrás do cigarro, da bebida. Outra coisa que ele fazia no culto era perguntar se alguém ali aceitava Jesus, aceitava Deus. E logo que alguém dissesse que sim, a pessoa era convidada a dar o seu depoimento como um pecador.
Foi o que aconteceu com Matota, porque ele disse que aceitava Deus e ali teve a primeira oportunidade de pregar, né, e dizer para a população que estava naquele local o quanto ele era pecador. Nessas falas no culto sobre o quanto ele foi abençoado, os fiéis começaram a elogiar muito Matota, o Maurino. Enquanto isso, seu Fideles começou a perceber que passavam dias, passavam semanas, estava passando o mês, e Maurino não estava nem aí, nem se preocupava em trabalhar. Ele toma uma atitude, chama o Maurino e diz o seguinte: “Ó, eu consegui um serviço para ti, vamos lá roçar um pasto, que tem gente precisando para trabalhar. Eu vou te levar lá para tu começares a trabalhar. Tem que fazer alguma coisa”. O Maurino, por sua vez, vendo que o sogro o chamou para trabalhar, ficou meio sem graça de dizer não. Ele vai.
Quando chega ao local, seu Fideles vê que ele não sabia roçar. Como pode esse rapaz ter vindo lá da Fazenda de São Gabriel e não saber roçar? Ele não sabia nada, dava uma roçada e parava, estava quase morto. Batia um suador nele que nossa… Passou o dia inteiro, ele não tinha feito quase nada e estava quase morto. Acaba o dia, e ele já mostra a mão para o sogro, dizendo assim: “Olha aqui a minha mão. Tá vendo a minha mão? Esse serviço não é para mim, Deus não quer isso para mim. A minha mão tá toda machucada, Deus não quer que eu trabalhe”. A mão dele não estava machucada, porque ele não estava acostumado a pegar numa foice, gente. Deus não queria que ele fizesse força nenhuma, por isso ele estava com a mão machucada; era um sinal de Deus que ele não iria mais.
Quando chegou perto de casa, ele foi correndo para dentro, e o seu Fideles foi para trás da casa tomar banho. Eu acredito que eles não tinham banheiro com chuveiro; então ele vai lá de canecada tomar banho. Enquanto seu Fideles ouve, o Maurino diz o seguinte para a Maria Nilza: “Tás vendo as minhas mãos? Isso aqui é as Chagas de Cristo. Deus não quer que eu trabalhe, eu não vou mais trabalhar a partir de agora, eu vou cumprir a minha missão. É para isso que eu tô aqui”. E ali era o momento de unir rapidamente um grupo e iniciar o que seria, então, a missão desse casal. Mas não demorou muito, foi só ele dizer isso para Maria Nilza que o Espírito Santo baixou nele; começou aquela gritaria, aquela palhaçada toda. A loucura dos dois era tanta que até o feixe de luz que entrasse no quarto era a presença, era o Espírito Santo ali, não era o sol.
A Maria Nilza tinha conhecimento de alguns fiéis da Igreja que participavam com ela, mas que trabalhavam na fazenda — a Fazenda Ravana. A Fazenda Ravana tinha vários trabalhadores. Era uma fazenda enorme, havia trabalhadores que moravam na fazenda e outros que eram moradores da Barra. “Vamos até lá fazer uma visita para eles”, e a gente começa a conversar. E é nesse período, ainda, que a Maria Nilza apresentava os primeiros sintomas de gravidez. Sobre a Fazenda Ravana: ela ficava localizada na Barra mesmo, lá de Mundo Novo, e era destaque em Salvador na década de 70 pela criação de gado nelore. Eram mais de 600 cabeças de gado distribuídas em uma grande extensão de terra. O dono das terras era o seu Vavá, que morava na capital e raramente ia até a fazenda, por isso contava com a ajuda do filho dele, Alberto Torres da Silva, para administrá-la.
Mas esse filho também não ficava muito tempo na fazenda, passava grande parte do tempo em Salvador, contando com a ajuda do Godofredo, que era o gerente. O Godofredo não era da Barra, mas foi contratado para cuidar da fazenda; já era um funcionário de bastante confiança, estava com eles há mais de 10 anos, um homem de 50 anos, responsável. Então praticamente a fazenda ficava nas mãos do Godô, e, por sua vez, ele distribuía as tarefas para os funcionários, conseguia administrar ali as casas, o que necessitava e o que não para a fazenda. O que facilitava tanto para o seu Vavá quanto para o filho dele. E, dentro da fazenda, como eu disse para vocês, alguns funcionários moravam lá, formando pequenos vilarejos, em casas construídas de barro, como a casa da Maria Nilza.
Foi quando Marata, junto com Matota, foram até esses grupos. A princípio ele não chegava falando de Deus, ele falava outras coisas. Quando dava uma oportunidade ali, ele começava a pregar mais ou menos assim: O pessoal estava trabalhando, sentava para tomar um café lá na roça, ele caía em cima falando sobre Deus. Isso ocorreu seguidas vezes, e alguns trabalhadores não suportavam mais. Começou a dar confusão entre os trabalhadores, inclusive chegou a ter briga corporal mesmo com relação a Matota. Daí o que acontece? Matota vai embora. Passa um dia, passam dois, e vem quem? A Maria Nilza sozinha, porque ninguém iria brigar com ela. “A paz é o negócio”, ela vinha na frente. Não se passava muito tempo, tá, no dia seguinte o Matota voltava ali.
Mas o fato é que eles chegaram a conseguir ali um grupo, sim, de pessoas que começaram a dar ouvidos ao que o Matota dizia, até porque ele pegava muito pelo medo algumas vezes. Ele dizia que havia visto como o Espírito Santo falava com ele, né? “Uma bola de fogo ia descer do céu” e que naquele local ali só sobrariam cinzas. E ele começava a falar em língua estranha, aí a Marata vinha e traduzia: “Ó, ele tá dizendo isso, isso e isso”. Ele não chegava a dizer só “Deus vai abrir a terra e vai engolir vocês”, não, ele falava lá lá lá, e aí ela dizia: “Ó, ele tá dizendo, pelo Espírito Santo, que a terra vai abrir e vai engolir todo mundo porque vocês estão pecando”. Todo o divertimento que o povo tinha até então foi proibido. E rapidamente a vaidade daquelas mulheres acabou, o comportamento daqueles homens acabou.
Eles tinham que ser sempre cada vez mais humildes e guardar o dinheiro, e não gastar com coisas que são do mundo, mundanas. E, claro, a galera começou a não gastar mais com cigarro, nem com bebida, nem com nada. “Minha vida tá prosperando, vou ouvir esse cara, minha vida tá mudando.” Ninguém do grupo podia usar relógio, o relógio era algo proibido. Relógio de pulso, relógio na parede… Relógio não pode porque os apóstolos de Cristo não tinham relógio; então eles também não tinham por que ter relógio. Essa galera já começou a vender os relógios que tinham, porque era pecado. E é assim que se forma a religião de Matota e Marata, chamada Igreja Universal dos Santos. No fim de novembro para dezembro de 1976, nasceu a filha, a filha do casal. Não veio um menino como ele havia dito que era, o Jesus Cristo; veio uma menina, à qual Marata deu o nome de Biolene.
Aí ele disse: “Não, isso aqui não é uma menina, não é Biolene. Porque não é uma menina, é um menino”. Aí baixou o Espírito Santo nele, ele falou com o Espírito Santo, e o Espírito Santo disse o quê? Que ali tinha o corpo de uma menina, mas não era uma menina, era um menino. Porque Deus havia castrado esse menino ainda no período de gestação, para torná-lo puro, para ele nunca pecar. Então, não podia ter aquele nome. Sabe como é que o Matota chamava a criança, a menina? De Morotó. Então, a Biolene era Morotó. Ele insistia em dizer que aquela menina era um menino, e ai de quem não concordasse. Inclusive, o seu Fideles a chamava de Morotó, e todo mundo a chamava de Morotó, porque era um menino, era um menino puro, era um santo. Ele dizia com o maior orgulho do mundo que o filho Morotó nasceu com três poderes ou dons divinos: a fé, a sabedoria e a ciência.
O fato é que depois do nascimento da criança, o casal decide ir morar na casa de duas irmãs, que eram Maria da Paz e Maria Alves. Porém, era um local que não tinha janela, não tinha ventilação e tinha só uma cama de solteiro. Mas ficou desse jeito estabelecido ali: Matota, Marata e Morotó. Nesse quarto, havia mais crianças na casa: o José Carlos, Rosimery e a Ledina, de 9 anos, que também trabalhava na fazenda (filhos da Maria da Paz com um rapaz chamado João, com quem ela teve o primeiro relacionamento), e a Núbia, fruto do segundo relacionamento e casamento que a Maria da Paz tinha com o Godô. A Maria da Paz trabalhava como doméstica na fazenda, casada (como eu disse) com o Godofredo, que era 30 anos mais velho que ela. O Godô tinha 56 anos, era gerente da Fazenda Ravana, braço direito do seu Valdomiro Brandão.
Nesse período, já morando na casa das irmãs, o casal já tinha alguns seguidores, que somavam pouco mais de 10 pessoas, e essas 10 pessoas ouviam desse pastor que se saíssem da igreja ficariam cegas, ficariam doentes, ficariam loucas, elas perderiam a sanidade mental. Então, elas tinham pavor de sair dessa igreja fundada por eles. Tudo isso, gente, gerado à base do medo. Havia uma regra, praticamente: fazer tudo e ouvir tudo o que o Matota e a Marata diziam, porque eles é que tinham o dom de receber essas mensagens. Um dos lavradores da fazenda, o seu José Catarino, já era um senhor de idade, casado com a dona Almerinda, ele tinha 68 anos, quando foi convencido pela esposa a seguir Matota e Marata. Tanto o casal quanto os filhos trabalhavam também na fazenda. Dos sete filhos, dois se juntaram à Universal Assembleia dos Santos: Janilton, 21 anos, e Marilene, 24, a única mulher da família, que teve uma filha com um homem da região, a pequena Márcia. A menina tinha apenas 3 anos.
Também na fazenda viviam Lorisvalda e Romildes, que eram irmãs da Maria Alves e da Maria da Paz. As quatro eram filhas do velho Sérgio Alves Araújo e da dona Almerinda. Mas os pais viviam lá desde o nascimento do quinto filho da Maria da Paz, e esse quinto filho quem cuidava era os avós; essa criança não ficava com a Maria da Paz. Como as filhas começaram a insistir muito para a dona Almerinda participar da religião e tudo, ela acaba entrando para a religião de Matota e Marata. Porém, o marido dela não gostou nada, nada da história, e ela acabou sendo obrigada pelo marido a sair da religião. Mas a Romildes, a segunda filha do seu Sérgio e da dona Almerinda, era casada com o Pedro, o vaqueiro da fazenda; ela já trabalhava lá na fazenda quando conheceu o esposo, um rapaz bem-apessoado, comparado com os outros homens da fazenda. Eles estavam casados há 3 anos e tinham dois filhos, a Andreia e o Samuel.
A outra irmã, a Lorisvalda, com o Dário, natural da cidade de Baixa Grande, vivia na Barra fazia 10 anos. Eles tinham três filhos: Marivaldo, o Sérgio e a Cleide. Eles também faziam parte dessa nova religião. A Flora, que era casada com o Nani, também vaqueiro da Fazenda Ravana, passou a participar da religião. O marido não aceitou. Ela ainda preferiu se separar do marido do que sair da religião, por isso ela abandona a casa e vai morar com o grupo, onde ela conhece e é obrigada a se casar com o Adilton, que tinha 19 anos, filho do seu José Catarino. O outro membro da igreja era o José Alves, um guri de 17 anos que fazia pequenos serviços na fazenda do seu Vavá. Portanto, Jesus já tinha escolhido os 12 apóstolos para o Matota.
Os cultos aconteciam na fazenda, então eles arrumaram lá um local e passaram a fazer esse culto somente dentro da Fazenda Ravana. O pastor Agenor ficou sabendo que até então os fiéis pararam de ir na igreja dele porque haviam fundado uma outra igreja na região e ele vai até o Godô. Então, o pastor fala com ele a respeito daquilo tudo. Ele disse que estava errado, que estava estranho, que o Matota não tinha nada disso, que era um cara que estava passando a perna neles. Mas o Godô preferiu ficar do lado do Matota do que do pastor Agenor. A rotina do casal era cuidar da criança e fazer os cultos à noite, e nesse intervalo de cuidar da criança e fazer o culto à noite eles ficavam gritando muito dentro de casa. Eles continuavam no mesmo ritmo que eles tinham lá na casa do seu Fideles, só que ali aconteceu um negócio bem diferente: os moradores vizinhos lá da Maria da Paz e da irmã dela, a Maria Alves, começaram a jogar pedras na casa, pauladas na casa, pediram para eles pararem com aquela gritaria, de fazer aquilo ali. Afinal, tinha gente que tinha medo.
Diante disso, um dos vizinhos adentrou a casa e agrediu o Matota, que saiu correndo pela parte dos fundos e voltou para casa só no outro dia. Eles viram que não havia mais condições nenhumas de permanecer no local porque não era seguro. Sendo assim, eles falam com o Godô para que, dentro da fazenda, o Godô arrumasse um local grande rapidamente. O Godô providencia isso rapidamente, mas não foi só o casal, todos os membros da igreja foram morar juntos, porque Deus mandou. Inclusive o filho da Maria da Paz, que até então morava com os avós, foi retirado dos avós e levado até esse local. A partir dali, Matota estabeleceu, desde o primeiro dia, que seria o seguinte: haveria uma rotina que ele mesmo colocou. Mulheres não trabalhavam mais, apenas os homens poderiam trabalhar. As crianças seriam educadas por ele e pela esposa dele.
A partir dali, quem batia nas crianças eram os dois, principalmente o Matota. Ele pesava a mão em cima das crianças; os pais não podiam falar nada porque ele estava educando, porque Deus mandou, e os homens só tinham que trabalhar, tá? E o dinheiro… o dinheiro ia para um bolo só: o bolso de Matota, né? Ele não podia trabalhar, não, porque ele tinha que esperar as mensagens de Deus. “Vai que Deus manda uma mensagem, e ele tá carpindo”, não dava. A Marata também não trabalhava mais, não fazia nada, porque quem fazia era aquela mulherada que tava ali, as mulheres faziam tudo. E os dois, como são “divinos”, tinham que sair da casa, ir até lá fora, lá fora, escondidinhos; só os dois. Deus falava com eles, eles voltavam e davam a nova ordem que Deus mandou. E na hora de dormir? Vocês devem estar se perguntando como dormir essas pessoas, né? Devia ter em torno de umas 31 pessoas, com crianças, adultos, tudo.
Como esses casais iam ter privacidade? Então, não tem privacidade? “Ah, então não tinha nada, né?”. Não tinha. Tinha muito, inclusive troca de casais, porque isso pode. O Matota dizia assim: “Hoje, Marata, Deus me disse que eu tenho que dormir com a fulana de tal”. Que também é casada ou solteira, não interessa; Deus disse, “então tá”. E o esposo não falava nada, porque Deus mandou. Ele vai dizer o quê? Se Deus é que sabe. O Matota podia escolher qualquer mulher ali para dormir porque Deus mandou, e os outros homens como é que funcionava? Os outros homens tinham que perguntar para a Marata, aí ela escolhia os pares. Era uma orgia toda noite, então a galera não via a hora de acabar o culto, né? Porque acabava o culto e começava um outro culto. O Matota diz que eles deveriam se batizar.
Para o batismo ocorrer, precisaria que todos os homens tivessem calça branca, terno branco e camisa branca. As mulheres, saia comprida branca e blusa branca. Quando eles têm a data marcada — porque isso era o Espírito Santo que determinava pela Marata —, eles foram todos juntos até um açude, com aquela roupa (que ficava fora da fazenda), e se batizaram. Todos eles tiveram, nesse dia, o seu novo nome. A partir dali, nascia uma nova pessoa. Apenas dois não tiveram os seus nomes trocados porque, segundo Matota, como o nome deles já era bíblico, não havia necessidade de trocar os nomes. Retornaram para a fazenda onde eles moravam, lá rezando, gritando, cantando… Um chorando, a comunidade via aquilo e achou estranha aquela atitude, porque parecia uma cambada de loucos. Com o perdão da palavra, parecia que eles tinham enlouquecido.
A Maria Alves, que era a irmã solteira da Maria da Paz, teve, por determinação do pastor, um casamento com o Antônio Davi, filho do seu José Catarino. O seu Sérgio, ele não tinha mais paz na vida dele. Ele sabia que as crianças lá estavam sendo agredidas e acaba falando com o padrinho da criança se haveria como esse padrinho ir lá, roubar o neto dele da aquele lugar e trazê-lo para casa. Pois acreditem: esse homem consegue fazer isso. Ele vai a cavalo, se esconde e, quando o grupo estava lá no culto, naquela questão de receber o Espírito Santo, ele consegue chamar o menino no canto e pergunta para ele: “Tu quer ir embora com o teu vô?”. Assim que ele faz a pergunta, o menino já se joga nos braços dele, ele sobe no cavalo e leva o menino para o seu Sérgio.
Além das crianças sofrerem agressões, elas eram castigadas. Eles amarravam a mão das crianças com urtiga; elas choravam, gritavam de ardência e queimação na pele. Eles chamavam diversas vezes as crianças de satanás. Eles não as chamavam pelo nome; era “o capeta” ou “Satanás, vem cá”. Os próprios pais das crianças chamavam-nas dessa forma. Quando um pai demonstrava um pouco de piedade em relação ao filho (“Oh, o que que estão fazendo com meu filho? Pera aí, vou tomar uma atitude”), o Marota já fazia questão de repreender aquilo, dizendo assim para a pessoa: “Não tenha pena, não. Tu não podes ter pena, porque aqui nesse corpo não é uma criança, é um capeta que tá aqui, é um demônio. Porque, se tu tás sofrendo, tu não tens Deus como teu Salvador; se tu tens Deus como teu Salvador, tu não sofres”. E, para acabar, ainda nesse mesmo ano de 1976, em novembro, corria a eleição para prefeito, e lá na cidade de Mundo Novo era bem acirrada naquele ano.
Os adultos daquela seita, daquela religião, fizeram o quê? Rasgaram os títulos de eleitor. Por quê? Matota falou: “Jesus Cristo não votava, discípulo não votava, votar é pecado”. Os políticos, por sua vez, souberam disso, o delegado sabia disso, quer dizer: os castigos aplicados às crianças não eram algo preocupante, o problema era rasgar o título de eleitor. Não há como dizer, diante desse caso, que políticos não tinham conhecimento, que o delegado não tinha conhecimento, que autoridades não tinham conhecimento, porque eles tinham conhecimento do que estava ocorrendo dentro daquela fazenda. Mas o seu Vavá não, porque o seu Vavá não morava na fazenda; o gerente era a pessoa que estava na congregação.
Em janeiro de 1977, o grupo precisava passar por uma prova, segundo Matota e Marata. E a prova era a seguinte: eles reuniram o grupo em círculo na rua, próximo ao curral, onde uma vaca havia acabado de parir. Ele pede para um dos vaqueiros abrir a porta do curral e, na hora em que abrisse a porta do curral, ninguém deveria se mexer. Mas daí, minha gente, quando esse vaqueiro abre a porteira do curral, a vaca sai igual a uma louca, né? E foi para cima do povo, e todo mundo correu, inclusive o Matota e a Marata. E visto que não sobrou ninguém, que todo mundo correu (inclusive eles), o Matota teve uma crise. Disse que ali ninguém confiava nele, nem em Deus, e que Deus castigaria a todos que estavam ali. Nessa noite, ele disse que ninguém mais deveria sair para trabalhar, porque Deus mandou que eles cumprissem a sua missão. Simplesmente no outro dia não apareceram mais no serviço.
O pastor comunica a eles também que poderiam ocorrer alguns sacrifícios de algumas crianças que estavam possuídas pelo demônio, e que eles sairiam daquele local da fazenda, que iriam para um outro local chamado Monte das Oliveiras, e que a partir daí eles deveriam seguir no mundo buscando fiéis, levando a palavra de Deus em todo lugar em que andassem. Quem fosse casado iria com seu par, quem não fosse casado faria um novo par (ou seja, “Ah, não é casado, não é casado? Junta um par”). Todos concordavam com o sacrifício dos próprios filhos, todos concordavam em parar de trabalhar, todos concordavam com tudo o que esse pastor dizia. A Marata disse que Deus diria o dia exato em que eles deveriam partir da Barra do Novo Mundo para, então, o Monte das Oliveiras, mas que até lá eles deveriam vender tudo que tinham, levantar o máximo de dinheiro que pudessem.
Então, teve pessoas que venderam tudo o que conseguiram a vida inteira para ter. Eles foram até alguns locais e venderam ao preço que conseguiram. E lá foi galinha, foi porco, foi vaca, foi casa. Juntaram 18.000 cruzeiros e entregaram ao Matota no dia 16 de março. Ele avisou que no dia seguinte eles partiriam. Eles alugaram um caminhão para transportar o grupo. Foram correndo até dois — acho que armazéns que tinham na barra —, compraram o máximo de comida que poderiam levar, e no caminho que eles seguiam a pé para pegar esse caminhão, o Matota diz assim: “Antes de eu partir, eu tenho que passar num local para pegar mais uma ovelha”. Sabe quem era essa ovelha? O sogro dele, seu Fideles. Ele bate na porta do seu Fideles, que vê a Marata correndo atrás do grupo. Ele não se despediu da filha, e o Matota diz a ele que deveria seguir o grupo. O seu Fideles disse que ele era qualquer coisa, menos pastor.
Eles partiram para Feira de Santana no dia 17 de [março de] 1977, depois para o Arraial, ou seja, as dunas da Lagoa de Abaeté. Esse era o tal Monte das Oliveiras. Eles chegaram ao local às 10 horas da noite e dormiram numa tenda improvisada, todos juntos como sempre. Usaram um resto de madeira, pedaço de plástico, palha, que serviam como lona. Estabelecidos ali, eles só saíam do local para comprar alguma coisa. Então, necessitavam comprar hoje tantos pães, aí o Matota pegava aquele dinheiro que todo mundo deu para ele e dava o dinheiro certo para comprar comida. Grande parte das vezes, eles comiam pão, sardinha e tomavam água. Havia duas refeições geralmente: o almoço e a janta. E na hora de comer, eles jogavam areia dentro do prato das crianças. Eu não sei se era para render mais ou se era para castigar essas crianças, eu não entendo. O fato é que tanto o Matota quanto a Marata riam daquilo, assim como os pais, os tios e as pessoas do grupo achavam aquilo engraçado.
Era pouca comida para as pessoas que tinham ali. Eles possuíam dinheiro que os manteria a todos em torno aí de dois ou três meses no máximo. Eles tinham consciência de que a partir dali não teriam mais recursos financeiros. O Matota resolve sair com o grupo e ir à casa de uma amiga dele que morava em Paripe. E aquele grupo vai caminhando, vai caminhando, vai indo; todos maltrapilhos chegam à casa à noite. A casa não tinha ninguém; essa amiga do Matota não estava, e eles ficam na rua, com o vento, com tudo. A filha da Maria da Paz, a Rosimery, tinha 9 anos. A menina começa a entrar em desespero, começa a chorar. O Matota ordena que deixassem essa menina para trás numa pedreira onde se extraía calcário. E ali ela ficou sozinha a noite toda, e o grupo desapareceu. O fato é que, no dia seguinte, Francisco Sales Lima, um homem casado que trabalhava como motorista de uma fábrica de cimentos em Salvador havia mais de 15 anos e morava no bairro do Tubarão, sai do trabalho e vê essa criança chorando.
A menina pede socorro e pede para que ele a tirasse dali. Ela não sabia onde estavam os pais dela, disse que estava com um grupo e conta uma história meio mirabolante. Esse homem pega essa menina e a leva para casa. Ele recebe a menina como filha em casa; tanto ele quanto a esposa ouvem tudo o que a menina diz, inclusive que algumas crianças que estavam nesse grupo com ela seriam sacrificadas, que ela era diariamente agredida, torturada, abusada… um monte de problemas. Os dois ouvem aquilo tudo e vão até a Delegacia de Jogos e Costumes. Chegando lá, o atendente os envia, diante daquele caso, para o Juizado de Menores, para quê? Para que, se eles tivessem interesse de adotar aquela menina, pudessem adotar essa criança. E é assim que a menina permanece com esse casal. Enquanto isso, lá na fazenda, as pessoas viram que não aparecia mais Godô, não aparecia mais nenhum trabalhador. Eles vão até o tal local onde todos da religião moravam e se deparam com um caminho já cheio de mato, sujeira na rua, panela, pedaço de prato, tudo jogado.
Não havia mais ninguém lá. Aí eles ficam sabendo, né: “Ó, eles foram embora, partiram”. Juntaram mais informações do pessoal da Barra, e todo mundo sabia que o grupo religioso havia partido da Barra do Novo Mundo. Com a partida do Godô, quem assume a nova gerência da fazenda é o Seu Luís Guimarães, que era morador da Barra do Novo Mundo, e começa a tentar organizar novos funcionários para a função. Afinal, foram 21 pessoas adultas seguindo o grupo. Nesse período, quem chega novamente à Fazenda Ravana é o José Alves, aquele guri de 17 anos. Ele foge do grupo e parte para a fazenda, pedindo para o seu Vavá dar uma nova oportunidade para ele, para voltar a trabalhar, e diz que fugiu do grupo. Ele contou tudo: que as crianças eram torturadas e que tinham tocado fogo na Bíblia, rasgado a Bíblia, toda aquela história que eu tenho contado para vocês até aqui. O seu Vavá ouve tudo aquilo, mas meio que não acredita, acha a história um tanto fora de contexto e não faz nada. Diz assim: “Não, então tá. Já que estamos precisando de novos funcionários e gente não arruma, então tu estás empregado novamente”.
No dia 29 de abril de 1977, o Matota e a Marata vão em direção à praia. Lá eles recebem um anúncio de Deus, do Espírito Santo. Voltam para o grupo e dizem que o dia do sacrifício estava próximo, que ninguém deveria se esconder, fugir ou tentar proteger seus filhos, e que, se isso ocorresse, a ira de Deus desceria sobre aquele local: os montes de areia iriam se abrir e todos seriam devorados e soterrados, devendo eles sacrificar todos os desobedientes. Eloísa, a esposa do Pedro, desesperada, vai correndo implorar para que o Matota não jogasse os filhos dela no mar. Quando ela pede isso a ele, ele diz que, se ela falasse mais uma vez, quem ia ser jogada no mar seria ela, não os filhos.
No dia seguinte, dia 30 de abril de 1977, a Marata explica que alguns sacrifícios deveriam ocorrer na praia de Stella Maris, num trecho onde o mar devolve as coisas, e que caberia somente a ela e a Matota jogar as crianças e fazer esse sacrifício, porque, pelas mãos deles, as crianças reencarnariam boas. Noite de lua cheia, passadas as 8 horas da noite, muita ventania. O grupo deixa o acampamento e segue para a praia: homens, mulheres… Algumas crianças eram levadas nos braços dos pais; algumas estavam cochilando, outras estavam dormindo, outras iam caminhando, bem acordadas e sabendo exatamente o que iria ocorrer com elas. Eles chegam à beira-mar, ficam sentados ali durante um tempo.
Quando foi quase 10 horas da noite, a Marata entra na água onde batiam as ondas, até a cintura, aponta para a beira-mar, faz um sinal, onde alguém entrega para ela a primeira criança, que foi a Andreia, de 2 anos, que ainda estava dormindo. Quando a Marata a pega nos braços, a menina (filha do fanuel e da romildes, ou seja…) a Marata se vira para o mar e, sem rezar, sem falar nada ou fazer qualquer oração (acredito que era isso que o grupo esperava), ela joga a criança no mar. A criança começa a se debater; em torno de um minuto, ela desaparece no mar. A Marata ainda estava na água quando Matota pega o menino Sérgio, de 2 anos, filho de Dário e Lorisvalda, e andou com ele em direção ao mar. Dormindo; a criança estava dormindo. Ele simplesmente a arremessou na água; foi mais um corpo que rapidamente afundou.
Em seguida, o Godô, que tinha a pequena menina, né, a Miriam, de dois aninhos, filha dele com a Maria da Paz, ele a entrega para Matota. Ele consegue ver o pastor arremessar a filha dele na água, só que o corpo dessa criança volta para perto do Godô e do próprio Matota. Ela não afunda como as outras. E aí o Matota dá a ordem para Godô empurrar a filha dele para o fundo do mar. E aí, a última vez em que ele então encosta na filha é para empurrar essa criança. Esse pai não podia expressar seu sentimento, mas ele sai da água com a cabeça baixa e bastante transtornado. Um pai que tinha um filhinho de 9 meses, que estava dormindo, nesse momento não teve coragem de acordar a criança. Ele entrega a criança para Matota, que, por sua vez, arremessa a criança tão alto que ela cai na água fazendo um barulho como se fosse uma pedra.
Daniel, por sua vez, não se conteve. Angustiado, sabendo que logo seria a sua vez de perder um filho, resolve acabar logo com aquilo e entrega a filha Cloé para Matota. Essa criança lá, arremessada no mar, também retorna. Mas dessa vez quem acaba empurrando a criança novamente para o fundo do mar é um outro membro da igreja, que também estava na água. O mar foi ficando cada vez mais revolto, e ninguém mais entrou para entregar filho nenhum para o pastor. Mas o Matota faz questão de sair da água e vir até a areia para pegar a menina Marta, de 4 anos, que estava acordada, sentada do lado da mãe. A menina foi levada pelos braços pelo Matota, segurada pelos braços enquanto a onda batia nela. Ela mal conseguia mais governar o corpinho. Começou a se debater, lutando pela vida dela, e ele afundando a menina, e ela tentando sobreviver.
Mas chega um momento em que essa menina perde as forças, empurrada pelo próprio Matota. Logo, ele pega o Marivaldo, um menino de 5 anos, também filho de Daniel e da Lorisvalda (o casal teve, nessa noite, três filhos sacrificados). Ele leva o menino para dentro do mar, levanta a criança e a arremessa no mar, que na mesma hora a onda acaba puxando, de onde eles não viram mais nem sinal do corpo do menino. Por fim, ele busca o Obede, um menino de 8 anos. Este era um pouco maiorzinho, com um corpo mais fortinho. Também, o menino estava nervoso, inquieto. Ele pega essa criança e a leva para o mar o máximo que ele conseguia segurar esse guri. Só que chegando lá o menino Obede começa a se bater, a se bater, a se debater, e a lutar pela vida dele. E o Matota, vendo que não conseguiria segurar esse menino nem sacrificar o guri, chama Pedro e “Ara” (ou seja, o Janilton, né?) para que ajudassem a manter o menino Obede debaixo d’água.
E os três juntos começam a afundar o guri onda após onda, até onde o Obede não teve mais força no corpo para resistir a lutar pela sua própria vida. Durante todo esse tormento do sacrifício, apenas o seu José Catarino (aquele senhor de 68 anos) e a sua esposa Almerinda se negaram a ver o sacrifício. Eles se afastaram um pouco do local da praia, mas conseguiam ouvir os gritos das crianças e, daqui a pouco, só o barulho de mar; de repente, grito de criança e, de novo, só barulho de mar. E assim seguiu até o oitavo sacrifício daquela noite. Acabada a obediência do sacrifício, o grupo deveria então partir novamente para o acampamento, com as ordens do Matota de que ninguém deveria duvidar daquilo que vem de Deus, nem se perguntar, nem questionar, nem chorar, nem falar, e, dali em diante, seguir a vida normal; que, depois de um tempo, ninguém mais lembraria daquela noite.
Eles voltaram rezando, cantando, recebendo o Espírito Santo como sempre ocorria em cada reunião de culto. E no dia seguinte era o dia 1º de maio. Caiu num domingo, naquele ano de 1977. Dia 1º de maio é um feriado, Dia dos Trabalhadores, e geralmente quando é feriado prolongado as pessoas costumam sair do seu local e viajar, visitar parentes e tudo mais. Porém, naquele final de semana, isso não ocorreu. O grupo acorda em transe. No normal, eles não remoeriam a cena, eles não falaram sobre o dia anterior, eles não fizeram nada. Porém, Pedro não conseguiu disfarçar o quanto estava abalado. Ele começou a chorar perto da esposa, um pouco afastado do grupo, quando foi surpreendido pelo próprio Matota, que ficou furioso com ele porque não podia chorar.
Começou a dizer para o Pedro que também o sacrificaria. Pedro, por sua vez, acaba pegando uma faca, escondendo uma faca para tentar se proteger. Mas o pastor também acaba descobrindo sobre essa faca, pega a faca e a enterra na areia para que se encerrassem as coisas por ali. O que acontece é que nessa região, pela metade da década de 70, a localidade que ficava entre Salvador e Lauro Freitas começou a ser habitada por pequenos lotes de conjuntos residenciais, o que se estende a uma distância de 30 km entre um local e outro. Entre essas localidades encontram-se as praias de Ipitanga e Stella Maris. Alguns moradores tinham o hábito de acordar bem cedo, ainda de madrugadinha, para caminhar na beira da praia e recolher alguns materiais que o mar devolvia. Geralmente, eles encontravam algumas coisas que serviam de oferenda para Iemanjá.
Mas havia um trecho onde sempre o mar devolvia algumas outras coisas que eles poderiam vender, reaproveitar… como tábuas, ferro para vender no ferro-velho. Mas nesse dia primeiro estava ventando muito, muito mesmo. Teve muito movimento de moradores catando coisas naquele dia. Mas a dona Geraldina era uma senhora que precisava bastante ajudar na renda familiar e ia todos os dias cedo buscar recolher o que conseguisse. Nesse dia 1º de maio não foi diferente, e ela vai caminhando do local onde morava em direção à praia de Stella Maris. E ela vai caminhando, caminhando, caminhando… De longe, ela avista um montinho onde pensou: “Meu Deus, o que é que dessa vez o mar devolveu? Acho que é um material maior do que geralmente costuma devolver”. Ela vai se aproximando desse montinho, que na verdade não era um montinho de material, era uma das crianças que o mar já tinha devolvido.
E essa criança estava com parte do corpo na areia, e na outra parte as ondas ainda batiam. Nesse corpo, ela olha para a frente, ela já tinha observado outros montinhos. E por incrível que pareça, a distância entre um corpinho e outro dava 1 km mais ou menos, e ela vai correndo até a próxima criança e verifica que a segunda criança, inclusive, era muito parecida com a primeira que ela havia encontrado. Não demorou muito para que começasse aquela correria, aquela falação naquela manhã. Foram encontrados, ao todo, cinco corpos. Eles acionam a polícia. A polícia vai até o local e recolhe os corpos para que não fossem fotografados. A população acreditava, bem como até o delegado que atendeu à primeira ocorrência, que alguma embarcação havia naufragado e que bem provavelmente fosse uma família inteira, e que não demoraria muito — talvez naquele dia ou no dia seguinte, no máximo, como já ocorrera outras vezes em casos de afogamento —, para que os corpos aparecessem.
Então eles tinham aquela esperança de que voltassem o corpo da mãe e do pai. Quando a polícia chega ao local, é a polícia de Lauro Freitas, que encaminha os corpos das crianças para o IML Nina Rodrigues. Os legistas do caso eram Evandro Ferraz de Melo e Evandro Costa e Silva. Das cinco crianças encontradas, duas eram meninas. Os corpos apresentavam as mesmas características: inchados, roxos, enrijecidos. Eles verificaram também que, das cinco, apenas duas crianças estavam vestidas. A menina que aparentava ter 4 anos estava com uma calcinha rosa de algodão e o menino que parecia ter um pouquinho mais de 6 meses estava com uma camiseta. Os outros três não tinham roupa alguma. As cinco crianças apresentavam uma grande quantidade de água no estômago, bem como areia. Eles verificaram também que as crianças não foram abusadas, estavam nutridas e saudáveis, e que todas elas haviam falecido por afogamento.
Os corpos foram embalsamados até que a polícia tomasse alguma posição sobre o que ocorreria a partir dali. O laudo foi entregue à Delegacia da Boca do Rio, que até então assumiria o caso, já que o posto policial de Lauro Freitas não teria condições de investigar todo aquele ocorrido. No dia 2 de maio, na segunda-feira, quem assume o caso é o delegado Antônio Medrado, de 39 anos, da Divisão de Polícia da Capital. Para o delegado, a história não se encaixava, porque os corpos das crianças haviam sido encontrados bem cedo no domingo, já havia passado o domingo todo e nenhum outro corpo até então aparentando ser do pai e da mãe havia sido encontrado. Portanto, ele desconfiava de que era alguma outra coisa. Enquanto isso, os jornais já publicavam a notícia dos cinco irmãos que haviam falecido por afogamento. Quem acaba vendo isso estampado nas páginas do jornal é o seu Vavá, que lembra de toda a história contada pelo José Alves. Sendo assim, ele procura a delegacia e acaba contando toda a história para o delegado Medrado.
O delegado ouve toda a história que o seu Vavá lhe conta e diz assim: “Olha só, há uma forma de a gente saber se essas crianças são realmente algumas das crianças que eram da sua fazenda”. Ele leva o seu Vavá até o IML Nina Rodrigues para fazer o reconhecimento dos corpos. Seu Vavá, infelizmente, quando vê, reconhece uma das crianças, que era filha da mulher que trabalhava na casa da fazenda e ele via aquelas crianças brincarem na frente de casa. No dia seguinte, os policiais vão até a Fazenda Ravana encontrar o guri José Alves, para saber se ele poderia informar aos policiais onde se encontrava esse grupo. O pescador Clarindo, conhecido por todo mundo como Nelinho, estava na praia próximo a onde as cinco crianças foram encontradas. Ele acaba vendo uma criança boiando, bem como verifica mais dois corpos sendo tragados pela água. Ele imediatamente consegue resgatar o corpo dessa criança, que se tratava de uma menina, e, pela sua experiência de pescador, ele tinha certeza de que não demoraria muito para que o mar devolvesse aqueles outros dois corpos.
Ele, por sua vez, chama a polícia, que envia mais um corpo para o IML. Enquanto isso, o guri José Alves foi levado pelos policiais. Os policiais, ainda naquele dia (na verdade já era noitinha), seguiram até o Arraial, até onde se encontrava o grupo. Os policiais se deslocam até próximo de onde estava o grupo. Porém, já era noite, não havia mais como encontrar nada. Eles resolvem dar seguimento às buscas do grupo no dia seguinte. Em 4 de maio, quarta-feira, bem cedo, às 6 da manhã, o seu Clarindo, o pescador que tinha encontrado um corpo no dia anterior, não sossegava. Em busca desses dois corpos, junto com o cachorro dele, seu Clarindo do Nascimento, ele saiu do bairro Nova Brasília e foi até a praia de Stella Maris. Começou a jogar a tarrafa, acreditando que pudesse assim, quem sabe, encontrar o corpo. Mas ele estava ali tentando esse resgate até que percebe que o cachorro dele começa a latir e a seguir um cachorro que estava passando do outro lado da estrada.
Ele arrastava um negócio pesado, aí o seu Nelinho começou a desconfiar do que seria aquilo. O cachorro dele saiu correndo; ele seguiu atrás do cachorro, que seguiu o cachorro da estrada. E quando ele percebe, o cachorro dele, junto com esse outro cachorro, puxava alguma coisa por trás do mato. Quando ele vai ver o que é esse negócio pesado, percebe que, durante a madrugada, a maré já tinha cavado ali naquele local. E ali estava uma cabeça ligada a um tronco, um braço destroçado onde parte do braço já estava só no osso. Os olhos não havia mais; havia apenas dois buracos aparecendo, somente o tecido interno. Mal deu tempo do seu Nelinho afastar o cachorro, ele percebe que o outro cachorro já estava com um pedaço de carne amolecida na boca. Ele consegue pegar um caixote que o mar tinha devolvido, coloca essas partes que ele encontrou dentro do caixote, enquanto isso um outro pescador, o seu Pedro Nascimento, que tem o apelido de [ __ ] (censura), o chamou: “Nelinho, Nelinho!”.
Ele estava um pouco distante, mais ou menos uns 300 m. E, com o barulho do mar e tudo mais, ele não conseguiu ouvir direito o que o seu Pedro dizia. Mas, na verdade, o seu Pedro havia encontrado somente uma cabeça. E foi de bicicleta que o seu Nelinho saiu em busca de ajuda policial. Enquanto isso, no grupo religioso as coisas não andavam bem, porque o Godô acabou discutindo severamente com Matota, que não gostou nada, nada de ser confrontado. Os policiais, por sua vez, já estavam em Nova Brasília. Eles mostravam fotos das crianças morador por morador, casa por casa, para encontrar os pais dessas crianças, enquanto ainda outra equipe policial que seguia com o José Alves continuava em busca do grupo religioso. Por volta das 10 horas da manhã, foi quando o José Alves conseguiu chegar onde seria possivelmente a concentração do grupo, e eles perceberam no meio assim do mato um pouco de movimentação de pessoas, e alguns membros do grupo perceberam a chegada dos policiais.
Não fizeram nada; havia 20 pessoas adultas no local. Todos eles sujos, maltrapilhos, alguns estavam em silêncio, outros sentados de forma desordenada. Alguns ainda estavam em transe; outros ficavam rabiscando a areia, como se não tivessem visto policial nenhum ali, como se estivesse tudo certo. O Matota estava com o filho no colo. O policial João Fernandes da Silva aproxima-se do Matota, que tinha 29 anos na época dos fatos. Ele já percebe que era o líder religioso. Pergunta-lhe por que ele está com essa criança no colo e por que essa não foi sacrificada como as outras. Daí ele diz: “Porque essa criança aqui, essa aqui, é santa”. A Marata tinha 22 anos na época dos fatos, com o cabelo todo estraçalhado pelo vento, sem expressão nenhuma; ela não chorava, ela não ria, ela nada. Todos eles do grupo apresentavam esse mesmo comportamento.
O grupo foi colocado dentro das viaturas, não apresentando também nenhuma resistência quanto à prisão. Deu todo um problema também quanto aos dois últimos corpos encontrados, porque o perito do caso, um franco-suíço, um homem que tinha inclusive muita fama, disse que aqueles corpos encontrados não tinham relação com as outras seis crianças encontradas até então, o que complicou bastante a situação, porque o grupo foi levado até a Praça da Piedade em Salvador e o próprio grupo, ao chegar para ser preso, e alega que foram oito crianças sacrificadas. Não havia como aquele perito, então, ter dito que os dois últimos corpos encontrados não faziam parte do grupo. As duas últimas crianças encontradas foram José Carlos (o Obede, aquele menino maiorzinho como eu disse) e a Núbia (que era apelidada como Miriam pela seita). Em relação a Matota e Marata, o comportamento do Matota ainda era extremamente autoritário; ele disse ao delegado que queria falar em particular com a esposa e falou isso de maneira ríspida.
Os outros membros do grupo foram seguindo um a um, e aí verificaram que havia idosos, pessoas de mais ou menos meia-idade e, inclusive, menores de idade. Três guris foram enviados para um Juizado de Menores, e o restante do grupo foi preso, bem como Matota e Marata, que também foram presos. O casal, diferentemente do restante do grupo, parou de se alimentar, até porque o Matota disse que não precisava comer, porque quem o alimentava era Deus, então ele podia ficar ali um mês sem comer que estava tudo certo, estava tudo de boa. No dia 5 de maio, o diretor da Polícia Técnica, José Raimundo Sales de Oliveira, respeitosamente (para não ficar tão feio, tão chato, né) explica a toda a população que foi um erro. Foi um equívoco do legista e que, sim, foram oito crianças ao total as sacrificadas, e que as oito estavam no IML Nina Rodrigues. Todos do grupo contavam as mesmas coisas que José Alves já havia relatado ao delegado.
Nesse mesmo dia, 5 de maio, o motorista Francisco, aquele que havia encontrado a menina, apresenta-se na delegacia e conta toda a história. O delegado pede que ele traga, então, a criança, para que a mãe pudesse fazer o reconhecimento. Os pais que haviam levado as crianças para o sacrifício tiveram que reconhecer os corpos no IML, bem como Matota e Marata. Lá na frente do IML a população já aguardava, querendo o couro deles a todo custo. Enquanto alguns queriam jogar pedras neles, cuspir neles, o Matota ainda dizia assim: “Olha, perdoai-lhes, Senhor. Eles não sabem o que fazem”. Eles organizaram os corpos dos menores até os maiores. Acabado o reconhecimento dos corpos, Matota teve uma visão um pouquinho mais ampla da raiva da população, porque dali a pouco chegou mais gente ainda; ele chegou até a dizer aos policiais: “Eu acho que Deus vai me chamar”. Ele não colocava a culpa em Deus, mas acreditava que Deus os havia guiado até ali para salvá-los da punição, do castigo que lhes seriam impostos por aqueles que não acreditassem.
As próprias crianças haviam sido sacrificadas porque haviam cedido espaço em suas almas para a presença do diabo, e ele explicava isso sem nenhum arrependimento, como se tivesse feito um favor para o mundo. Ainda mais tarde, naquele dia, a filha de Maria da Paz é colocada na frente dela. A menina chega juntamente com a psicóloga. A menina estava muito bem-vestida, arrumadinha, com lacinho no cabelo, tudo certinho. O delegado colocou a menina então na frente dessa mãe, da Maria da Paz, que reconheceu a filha, obviamente, e foi a primeira vez desde então que se viu a Maria da Paz chorar, desde que ela foi presa. Ela conta ao delegado que não sabia direito o que estava acontecendo, que todos eles do grupo depositaram toda a confiança no pastor, acreditavam e também que tinham muito medo de ser devorados pela terra, tinham medo de que caísse uma bola de fogo do céu; que, se eles não obedecessem, iam ficar cegos, que iam ficar loucos.
Então, tudo isso foi muito esclarecido conforme o período em que eles estavam ali ainda presos. No dia 6 de maio de 1977, o Matota, que dividia a cela com um outro presidiário, Manuel José Sales da Silva, 25 anos (que tinha o apelido de “Churrasco”; ele cumpria pena por dois assassinatos cometidos em São Paulo e um terceiro em Salvador; fazia dois meses que estava preso), e o Churrasco vê ali através do Matota uma oportunidade, talvez de intermediar, né, alguma conversa com os jornalistas, que estavam supercuriosos para saber de alguma coisa. Ele disse que o Matota não estava comendo, que já o tinha orientado a comer, porque senão, daqui a pouco, ele ia acabar ficando louco. Mas que via no Matota algo muito grave, porque ele era religioso, testemunha de Jeová, que bebia, fumava e era um assassino, mas que ele nunca botou a culpa em Deus pelas coisas erradas que fazia, diferente de Matota, que fez o que fez, inclusive com crianças, e que isso era muito grave dentro do sistema penitenciário.
E enquanto o Churrasco falava isso, outros presos gritavam de outras celas: “Ele que se cuide!”. E o Matota ficava acuado, no outro lado da cela, com medo do Churrasco. Foi assim que, acuado e com medo, o Matota aproveitou a presença dos jornalistas e acaba fazendo uma denúncia: disse que tinha medo de morrer e que apanhou muito dos policiais, inclusive do próprio companheiro de cela, o Churrasco. Isso sai também no jornal. Visto que isso sai no jornal, o delegado encaminha Matota para o IML para fazer, então, um laudo pericial para verificar se, de fato, ele havia sido agredido. Afinal, ele estava correndo risco de vida dentro da prisão. Por volta das 3 horas da tarde as crianças tiveram um funeral organizado pela Secretaria de Segurança Pública. Havia em torno de seis coveiros, e eles gritavam o nome da criança e, aí, vinha o caixote. Não tinha flor natural, não tinha flor de plástico, nenhum padre, nenhum pastor.
As covas eram rasas, as cruzes, improvisadas de madeira com o nome, a data de nascimento e a da morte, tudo isso pintado com uma tinta preta. E os caixões foram baixados um a um com a seguinte ordem: Sérgio Alves de Araújo (cova 342), Cloé de Jesus (cova 343), Andréa Bispo (cova 344), Samuel Bispo dos Santos (cova 345), Márcia Santos Souza (346). Em caixões menores, foram aqueles dois últimos corpos encontrados, que na verdade eram só os restos ali, né? Então, José Carlos na cova 358 e a Núbia na 357. O Marivaldo Alves de Araújo não foi chamado na lista daquele dia para ser então enterrado. Isso porque o enterro desta criança ocorreu já na segunda-feira. No momento em que foram enterrar as crianças, começou um temporal, começou uma tempestade; foi tudo muito corrido. Em 15 minutos, as crianças já estavam sepultadas. No dia 7 de maio, o delegado deu uma entrevista explicando que havia saído o laudo do Matota e, nesse laudo, constava que ele não sofreu um arranhão, nenhuma agressão, nenhum roxo, nenhum nada. Esse homem nem apanhou.
A partir dali, o secretário Luiz Artur de Carvalho ordenou que fossem suspensas quaisquer entrevistas com o Matota e que ele ficasse preso em uma cela sozinho. Então o Matota ficou isolado, não teria mais comunicação com ninguém, nem com jornalista para prestar entrevista. Mas nada disso ocorreria. O Matota passou a falar sozinho, a chamar o Espírito Santo para que o Espírito Santo se comunicasse com a Marata e desse os recados dele; era isso que acontecia. O Churrasco também foi prejudicado, porque foi enviado a uma outra penitenciária, dividindo a cela com estupradores e assassinos, no reformatório penal agrícola da Pedra Preta, atualmente conhecido como Colônia Lafayete Coutinho. A Marata ficou presa então num presídio feminino e prestava depoimentos e esclarecimentos ao delegado com firmeza. Ela olhava nos olhos, mantinha os olhos retos; em momento algum transparecia qualquer tipo de fraqueza. Sempre que olhou as fotos das crianças sacrificadas, ela nunca chorou, não esboçava qualquer sentimento ou arrependimento; que, por sua vez, não havia o porquê se arrepender, até porque ela obedeceu às ordens divinas.
Segundo ela, não eram crianças, mas sim Caim e Belial, que são referências a demônios. O irmão da Marata, por sua vez, alegou no dia 8 de maio aos jornalistas, que foram até a Barra do Mundo Novo, que tiraria a sobrinha do Juizado de Menores e que a família criaria essa criança. A mãe da Marata, dona Isabel, dizia que a filha não era capaz de fazer aquilo; eles não acreditavam, nem o pai nem a mãe, que a filha faria mal a alguém. Segundo ainda o pai dela, a filha queria ser professora, mas o rumo da vida dela mudou quando conheceu José Maurino, e ele foi o satanás que mudou a cabeça dela. No dia 11 de maio é feita uma avaliação de sanidade mental no grupo. Resumidamente, eles não apresentavam nenhum problema de doença mental. O que foi observado no grupo é que tinham uma personalidade de obediência total, submissão; eram pessoas submissas.
Pela metade, ainda do mês de maio de 1977, o seu José Catarino (de 68 anos) e a dona Almerinda (de 40 anos, sua esposa) não sofreram nenhuma condenação. Até porque eles não participaram do sacrifício, né? Lembra que ficaram lá na praia ouvindo, mas eles não participaram; então foram enviados à Barra de Novo Mundo e voltaram para o convívio dos sete filhos. Lorisvalda, de 19 anos, estava grávida de 8 meses do esposo dela, Dário (tiveram três filhos afogados). Eles foram enviados também para a Barra em liberdade. Romildes, de 20 anos, esposa de Pedro, também estava grávida (os dois tiveram dois filhos afogados). Também foi enviada para a Barra. A Justiça alegava que não tinha o que fazer com essas pessoas, por isso receberam a liberdade, bem como outros membros do grupo, alegando eles que apenas dois homens ajudaram a empurrar o corpo novamente ao mar e que agiriam como se fossem robôs.
E, como o seu Vavá prometeu dar de volta o trabalho para José Alves, e o mesmo fez com outros membros do grupo, então eles voltaram a trabalhar na fazenda do seu Vavá. Passados três meses da liberdade do grupo, a Justiça entendeu que eles estavam envolvidos diretamente no sacrifício e emitiu um mandado de prisão para cinco deles: Dário, Pedro, Godô, Janilton e Elói. Porém, o Godô fugiu e nunca foi encontrado. Portanto, dos cinco, quatro foram presos. Passando pela Casa de Detenção, são encaminhados ainda para o Manicômio Judiciário, onde ficaram por um ano e meio à espera de um laudo. Tudo isso para concluir a ação penal. No dia 23 de setembro de 1977, Matota e Marata também são encaminhados para o Manicômio Judiciário, para aguardarem o julgamento. Passando 9 meses no manicômio, no dia 4 de julho de 1978, a Flora acaba falecendo no Hospital Getúlio Vargas, em Salvador, vítima de broncopneumonia.
No dia 30 de novembro de 1978, sai o resultado dos pareceres psiquiátricos desses três do grupo que estavam internados no manicômio. Eles não eram culpados pelos sacrifícios. Eles não eram loucos. Mas tinham um grave problema socioeconômico, o que fez com que, diante da ignorância por não saberem ler, por não terem oportunidade de vida melhor, quererem melhorar de vida e temerem a Deus, além de estarem imersos naquela questão religiosa, acreditassem cegamente no pastor Matota e na pastora Marata. Sem instrução, enfraquecidos diante do carisma de Matota, submissos e incapazes de entender o ato criminoso, eles obtiveram a liberdade. Afinal, foram vistos como vítimas. Sobre Matota e Marata: eles foram tratados como portadores de doenças mentais. Permaneceram no manicômio entre 1977 e 1985. Quando precisavam prestar algum esclarecimento, um ia na frente e o outro ia atrás. Só se olhavam assim, mas não havia comunicação entre um e outro.
Matota se sentia solitário. Não conversava com ninguém, de jeito nenhum; não falava com ninguém a não ser com o psiquiatra. Não participava das atividades oferecidas pela instituição e ficava deitado, às vezes, no pátio. Algumas atividades que exerceu foram trabalhos de tecelagem e trabalho no refeitório; ele até fez esse tipo de ajuda. Assim, de atividade, continuou sendo o mesmo cara do passado, sem relação social nenhuma. Algumas vezes ele esquecia da data de nascimento, sobrenomes dos irmãos, coisas que antes sabia de cor e salteado. Sobre detalhes do dia do sacrifício, ele não comentava. Não gostava de falar nisso, nem mesmo com o psiquiatra. Com o tempo, ele perdeu aquele tom de autoridade, aquela fala autoritária que tinha até então, e à noite tinha graves pesadelos. Continuava ouvindo vozes e chorava, principalmente porque não entendia o porquê havia feito aquilo.
Ele sabia que não seria capaz de fazer mal nem a uma mosca. Hum, hum, ele não faria mal. O sonho dele era um dia poder sair do manicômio, trabalhar e seguir uma vida normal, mas gostaria muito de continuar frequentando a igreja. Quanto à Marata, ela chegou a ocupar uma atividade de ajudante de dentista. Diferente do Matota, ela apresentava uma tremedeira, era muito nervosa. Então chegou a um ponto que ela não conseguia mais exercer nem aquela atividade de ajudante de dentista para atender as outras pessoas que estavam no manicômio. Mudava de humor de uma hora para outra. Ela tinha uma dor de cabeça muito forte. Quando era questionada lá no manicômio sobre a seita em si, chorava tanto, mas chorava tanto de soluçar, que o psiquiatra não entendia o que ela estava falando. Não dava para entender o que ela falava. Só que não era um choro verdadeiro, porque ela continuava com as mesmas ideias quanto à fé e às falas com o Espírito Santo.
Não pensaria duas vezes se tivesse que sacrificar mais crianças em nome de Deus, tá, gente? É isso. Por fim, nunca ocorreu o tal julgamento de Matota e Marata, porque eles foram considerados portadores de doenças mentais; não poderiam ser responsáveis, não poderiam responder pelos seus próprios atos. No dia 12 de setembro de 1985, eles receberam a liberdade. Dessa liberdade, durante um ano, não poderiam sair da cidade. E ao Judiciário, informavam quanto estavam ganhando, onde estavam trabalhando. Eles não podiam sair para viajar, eles não podiam nada. Aí, o Matota consegue, depois de um ano, visitar os pais dele, e a Marata acaba indo embora — por uma autorização, pelo que dá para entender pelo livro, através da assistência social, que consegue contato com a família dela, e a mãe dela disse que sim, que a receberia de braços abertos. Dá a entender que ela volta para a casa dos pais, porque isso não é deixado claro no final do livro.
Passa o tempo da liberdade deles, e o psiquiatra alega o seguinte: que, na verdade, os dois não eram loucos. Hum, hum. Tudo não passava de uma crença religiosa, que era perceptível ver também em outras congregações religiosas. O próprio psiquiatra, Dr. Hamilton Meira, resolveu entender um pouco dessa seita, o que aconteceu ali. Ele começa a ler inúmeros livros sobre fanatismo religioso e vai a todas as congregações que Matota frequentou: Assembleia de Deus, depois Igreja Universal do Reino de Deus, no Aquidabã; posteriormente, Deus é Amor, no bairro Sete Portas. E, por fim, conclui: Matota sempre foi um indivíduo muito esperto. Vendia telas coloridas na frente da TV para dizer que era colorida, mas a TV não era colorida, era em preto e branco. O pastor só assumiu ter dons quando começou a perceber a perspectiva religiosa dos pentecostais, de que, talvez, ele percebeu o quão significativo é quando alguém diz que recebe o Espírito Santo.
Ele percebeu, pegou aquilo ali e disse: “Espera aí, isso aqui é um negócio para mim, é um negócio bom”. E aquilo veio naturalmente; que ele pensou em ter, foi muito rápido. E, por fim, que, se alguém tinha algum problema mental — se tinha, se é que tinha —, era Maria Nilza. Ou seja, essas pessoas receberam a liberdade e elas nem tinham nada, né? E aí, às vezes eu falo isso aqui, em alguns casos, e tem gente que mete o pau em mim nos comentários: “Ah, porque tem doença, tem gente…”. Será que tem mesmo, hein? Será que tem? Será que tem? A conclusão disso tudo que pelo menos eu tenho do caso Matota e Marata é que o Matota era um vadio, tinha preguiça de trabalhar, não queria saber do peso da enxada; e a Marata, uma guria que tinha uma fé absurda e talvez neurótica pelo que aconteceu com a mãe. Porque, para mim, nenhum dos dois, nenhum dos dois era louco. Quanto ao grupo, infelizmente isso ocorre há anos, ocorre até hoje e ainda vai ocorrer muito. Porque as pessoas fragilizadas estão aptas a qualquer coisa. Se quem está forte já está apto a cair no buraco, imagina quem está enfraquecido na sua vida, tanto social quanto econômica e até interpessoal. Vou ficando por aqui, agradeço a presença de todos vocês. Um grande beijo e que o universo nos abençoe.