O Milionário que Destruiu a Própria Família: Luxo, Mistério e o Obelisco da Morte
Ele era o que chamamos de bon vivant. Desde a adolescência, ele já sabia como aproveitar a boa vida. E para ele, limites eram coisas que existiam apenas para os pobres. A família, cada vez mais preocupada com as farras homéricas e o comportamento desregrado dele, onde ele já causava escândalos com bebidas e mulheres, decidiu usar a velha tática das famílias ricas da época: mandá-lo para estudar fora.
Em 1913, com apenas 14 ou 15 anos, ele foi enviado para os Estados Unidos e depois para a Europa. A ideia era que ele voltasse um homem sério, pronto para assumir os negócios. O resultado foi exatamente o oposto. Na Europa dos anos 20, Raúl Barón Biza encontrou o seu habitat natural. Estamos falando da Belle Époque tardia, o período efervescente entre guerras, onde Paris, Veneza e Viena eram o centro cultural e hedonista do mundo.
Raúl não estudou como a família queria. Ele mergulhou de cabeça na vida noturna e se tornou o rei da noite. Ele era conhecido pelas festas intermináveis, as francatelas, como diziam na época, regadas a tudo o que o dinheiro podia pagar. Ele não era um homem tradicionalmente bonito, mas tinha uma presença magnética, um olhar intenso e uma carteira sem fundo.
Sempre vestido com ternos impecáveis, cortados pelos melhores alfaiates, dirigindo carros esportivos velozes, pilotando iates no Mediterrâneo, ele jogava alto nos cassinos mais exclusivos. Conta-se que em Monte Carlo ele fez a banca quebrar mais de uma vez, ou seja, ganhou tanto dinheiro numa única noite que o cassino ficou sem fichas na mesa e teve que encerrar as apostas.
No entanto, havia um lado sombrio em Raúl. Ele não queria apenas se divertir. Ele gostava de chocar, de humilhar a moral burguesa. Ele consumia tudo o que havia de proibido na época: álcool em excesso, ópio, cocaína. E ele tinha um senso de humor perverso e cruel. Uma das histórias mais famosas sobre ele ilustra bem sua personalidade.
Conta-se que certa vez ele organizou uma festa de gala luxuosíssima em Paris. O convite dizia que era uma festa à fantasia e o tema era vagabundos e mendigos. A alta sociedade europeia e argentina foi em peso, achando divertidíssimo se vestir de pobre com roupas de grife rasgadas. O que eles não sabiam é que Raúl tinha ido às ruas e aos bordéis mais sujos e contratado mendigos reais e prostitutas reais para se misturarem na festa.

Ele passou a noite observando com um sorriso cínico a elite convivendo com a miséria real, sem saber, rindo da desgraça alheia enquanto bebia champanhe com ela. Esse era o tipo de mente que Raúl tinha: provocadora, anarquista e cruel. Além de playboy, ele se considerava um intelectual revolucionário. Aos 18 anos já escrevia. Mas seus livros não eram romances inofensivos; eram obras polêmicas, panfletos políticos misturados com ficção, carregados de um erotismo agressivo e críticas sociais pesadas.
O mais famoso deles, O Direito de Matar, era tão escandaloso para a moral da época que ele fez questão de mandar encadernar uma edição de luxo e enviá-la de presente para o Papa no Vaticano. O resultado? O livro foi censurado na Argentina e Raúl foi excomungado pela Igreja Católica. Ele não se importou. Pelo contrário, ele usava a excomunhão como uma medalha de honra.
Ele se sentia um Deus na terra: intocável, acima do bem e do mal. E foi no meio dessa vida de excessos, caminhando por uma rua de Viena, na Áustria, que o destino de Raúl mudou para sempre. A cena parece saída de um filme surrealista, mas aconteceu. Raúl estava andando pela calçada quando viu uma mulher vindo em sua direção.
Ela era deslumbrante, tinha uma beleza que parava o trânsito e usava roupas exóticas, muito modernas para a época. Mas o que chamou a atenção de Raúl não foi a roupa, nem o rosto; foi o que ela trazia na mão. Ela segurava uma corrente dourada e, na ponta da corrente, caminhando ao lado dela calmamente, como se fosse um cachorro poodle, havia um leopardo vivo. Raúl parou.
Ele, que achava que já tinha visto tudo na vida, nunca tinha visto uma mulher passeando com um leopardo no centro da Europa. Aquele ato de excentricidade e perigo falou diretamente à alma dele. Naquele momento, ele se apaixonou perdidamente, não pensou duas vezes e a abordou. Aquela mulher era Myriam Stafford. Na verdade, esse era o nome artístico dela.
O nome real era Rosa Margarita Hoffman. Ela era uma atriz austríaca, nascida em 1905, ou seja, 6 anos mais nova que Raúl. Ela tinha fugido de casa aos 15 anos em busca de fama e fortuna. O romance foi explosivo. O milionário excêntrico e a atriz do leopardo era o encontro de duas vaidades, duas potências. Em 1930, eles se casaram em Veneza, na Basílica de São Marcos.
Dizem que foi uma das festas mais luxuosas e comentadas da década. Raúl trouxe Myriam para a Argentina. Eles se instalaram na estância da família e viveram uma vida de sonho, queimando a fortuna da família em joias, viagens e festas. Myriam, a pedido de Raúl, ou por vontade própria, abandonou a carreira de atriz. Mas uma mulher que passeia com leopardos não consegue ficar parada fazendo tricô.
Ela logo encontrou uma nova paixão para substituir o cinema: a aviação. O mundo estava na era de ouro dos aviões. Voar era perigoso, era sexy, era para os corajosos. E Myriam queria ser uma pioneira, a rainha dos ares. Raúl, sempre querendo exibir a esposa como um troféu valioso, apoiou a ideia com entusiasmo.
Myriam tirou o brevê de piloto em tempo recorde. Ela era boa nisso. Raúl comprou para ela um monoplano alemão moderno, um biplace de dois lugares que eles batizaram carinhosamente de Chingolo, que é o nome de um passarinho comum na região. O casal planejou um feito histórico que os colocaria nas manchetes de todos os jornais: fazer um reide aéreo.
A ideia ambiciosa era voar com o Chingolo e unir as 14 capitais das províncias argentinas pelo ar. A aventura começou em 1931 com muita publicidade. No início, Raúl voava junto no banco do passageiro. Mas convenhamos: voar naqueles aviões antigos era desconfortável, barulhento, sujo de óleo e cansativo. Raúl, acostumado ao luxo e ao conforto, logo se entediou daquela rotina de graxa e vento na cara.
Ele decidiu descer, mas Myriam não podia voar sozinha o tempo todo em rotas tão longas. Ela precisava de um copiloto e instrutor experiente. O escolhido foi um alemão chamado Ludwig Fuchs. E aqui a história começa a ficar turva e perigosa. Ludwig era jovem, bonito, loiro e passava dias e noites ao lado de Myriam planejando rotas, consertando o avião, dormindo nos mesmos hotéis, nas escalas isoladas pelo interior do país.
Em Córdoba e Buenos Aires, os boatos corriam soltos de que a esposa do Barón Biza tinha um amante. Raúl era um homem moderno para muitas coisas, mas era antiquado e possessivo para outras. O ciúme começou a corroê-lo. Ele já tinha tido centenas de amantes, às vezes várias ao mesmo tempo. Mas a ideia de que sua mulher, sua propriedade exclusiva, estivesse com outro homem era inaceitável.
A lenda mais sombria sobre essa história diz que Raúl não apenas suspeitava; ele tinha certeza e decidiu agir. Durante o reide aéreo, o avião Chingolo teve um problema mecânico sério perto de Salta e precisou fazer um pouso forçado. O avião ficou inutilizado. Myriam e Ludwig sobreviveram ilesos e avisaram Raúl pelo telégrafo. O que um marido normal faria? Diria para voltarem para casa e cancelarem tudo, pois era muito perigoso.
O que o milionário Raúl fez? Disse que mandaria outro avião imediatamente. Ele comprou e mandou entregar um segundo avião idêntico, que ficou conhecido como Chingolo II, para que eles continuassem a viagem. Mas será que esse segundo avião estava em perfeitas condições? No dia 26 de agosto de 1931, Myriam e Ludwig decolaram da localidade de Marayes, na província de San Juan.
Era uma zona desértica, difícil. Pouco tempo depois da decolagem, camponeses que trabalhavam na terra ouviram um estrondo terrível. Eles olharam para o céu e viram o avião mergulhando de bico, caindo reto como uma pedra. Não parecia um pouso de emergência ou uma tentativa de planar.
Parecia que o avião tinha perdido o controle total dos comandos. Ele bateu no solo e explodiu numa bola de fogo instantânea. Quando os socorristas chegaram, encontraram apenas metal retorcido e dois corpos carbonizados irreconhecíveis. Myriam Stafford, a mulher do leopardo, perdeu a vida aos 26 anos. A notícia abalou a Argentina.
Raúl entrou em um estado que ninguém sabia definir se era luto profundo ou loucura obsessiva. Imediatamente surgiu a teoria nunca provada judicialmente, mas repetida por décadas nos bastidores, de que o Chingolo II tinha sido sabotado: que Raúl ou seus mecânicos, a mando dele, teriam alterado uma peça vital do motor, sabendo que ela falharia durante o voo.
Teria sido o crime perfeito. Ele eliminou a esposa infiel e o amante em um acidente trágico. Se foi culpa ou se foi um amor doentio, a reação de Raúl foi construir. Ele não queria enterrar Myriam e seguir em frente. Ele queria eternizá-la, mas de uma forma possessiva. Logo após a tragédia, ele mandou erguer um primeiro monumento estranho no local da queda, onde colocou, vejam só a morbidez, o motor retorcido e queimado do avião sobre a tumba, expondo o ferro que matou sua esposa como um troféu macabro.
O corpo de Myriam foi levado para Buenos Aires e sepultado no luxuoso cemitério da Recoleta. Mas Raúl não suportava a ideia de ela estar longe, ou talvez não suportasse dividi-la com os outros mortos. Num ato de loucura, ele mandou exumar o corpo da esposa pouco tempo depois. Ele levou o caixão para sua própria casa na estância Los Cerrillos.
Durante um ano inteiro, Raúl viveu com o caixão de Myriam dentro de casa. E foi durante esse período mórbido, convivendo com a morte na sala de estar, que ele planejou a prisão eterna dela: o obelisco. Ele desenhou e começou a construção do grande mausoléu na Rota 5. Um detalhe muito estranho e revelador dessa construção é a mão de obra.
Raúl contratou cerca de 100 operários, mas ele fez questão de contratar imigrantes poloneses recém-chegados. Por que poloneses? Porque eles não falavam uma palavra de espanhol. Eles não podiam conversar com os locais, não podiam contar o que estavam construindo e, principalmente, o que estavam enterrando lá. O sigilo era total.
Quando a estrutura de 82 m ficou pronta, lembrando uma asa de avião estilizada apontando para o céu, Raúl finalmente tirou o corpo de casa. Ele colocou as cinzas ou os ossos de Myriam em um pequeno cofre de metal. Mas ele não enterrou apenas ela. Ele pegou as famosas joias de Myriam Stafford, uma coleção avaliada em milhões.
Colares, anéis, pulseiras de ouro maciço. Inclusive um anel com um diamante lendário de 45 quilates, conhecido como Cruz do Sul, que ela usava em festas e que valia uma fortuna por si só. Ele colocou tudo isso em um cofre junto com o corpo. Colocou também o capacete de aviadora que ela usava, seus óculos de voo, o relógio do painel do avião e várias cartas de amor que trocaram.
Tudo isso foi descido para a cripta, a uma profundidade impressionante de 15 m no subsolo. E então Raúl deu a ordem final: encham de concreto. Toneladas e toneladas de cimento foram despejadas sobre o cofre. Selando para a eternidade, Raúl mandou instalar um dispositivo com explosivos de alta potência.
Se alguém tentasse cavar para roubar o diamante de 45 quilates, ao atingir a tampa, a tumba explodiria, matando o ladrão e destruindo as joias. A lógica de Raúl era clara: se não for minha, não será de ninguém, nem na morte. Foi aí que ele mandou gravar a frase na entrada, protegida pela porta de aço do navio Graf Spee: “Maldito seja quem profanar esta tumba”.
Ele não estava protegendo o descanso dela; estava protegendo sua posse. Com a primeira esposa enterrada sob uma montanha de concreto inviolável, a vida de Raúl continuou. E foi então que ele entrou na fase mais sombria e cruel de sua existência. Pouco tempo depois de terminar o mausoléu, Raúl, agora um viúvo misterioso, beirando os 40 anos, colocou seus olhos em outra mulher.
O problema? Ela era quase uma criança. Seu nome era Clotilde Sabatini. Ela tinha apenas 16 anos. E para complicar tudo, ela era filha de Amadeo Sabatini. Amadeo não era um homem qualquer: ele era um caudilho radical de enorme prestígio na Argentina, um político íntegro, sério, ex-governador de Córdoba, que representava tudo o que Raúl não era.
Raúl, com sua vida devassa, até financiava campanhas políticas, mas quando Amadeo descobriu que o playboy quarentão, famoso por livros pornográficos e escândalos, estava rondando sua filha adolescente, ele cortou relações imediatamente e proibiu a entrada dele em sua casa. Mas Raúl Barón Biza nunca aceitou um não.
O que ele fez? Ele foi até o internato de freiras onde Clotilde estudava, usou sua lábia sedutora, convenceu a menina ingênua a fugir com ele e a raptou. Eles fugiram clandestinamente para Montevidéu, no Uruguai, onde as leis de casamento eram mais flexíveis, e se casaram lá, sem a bênção e contra a vontade desesperada da família dela.
Foi um escândalo nacional. O barão louco tinha roubado a filha do político mais sério do país. Clotilde, no início, achou que estava vivendo um grande romance proibido, uma aventura romântica, mas a realidade logo bateu à porta. O casal foi para o exílio na Europa, não apenas pelo escândalo do casamento, mas porque ambos tinham militância política e a Argentina vivia tempos turbulentos.
Eles foram viver na Suíça. Lá tiveram três filhos: Carlos, Jorge e María Cristina. Quando finalmente puderam retornar à Argentina, durante o governo de Juan Domingo Perón em 1952, a vida de Clotilde sofreu um golpe brutal da realidade. Devido à sua oposição política ao regime, Clotilde foi detida e não foi uma prisão domiciliar elegante, como se esperaria para alguém de sua classe.
Clotilde Sabatini, uma mulher culta e de família nobre, foi jogada em uma cela comum. Ela foi obrigada a dividir o espaço imundo, úmido e perigoso com prostitutas e ladras. Essa experiência de humilhação marcou profundamente sua alma, endurecendo seu caráter e tirando qualquer resquício de ingenuidade que ela ainda tivesse.
Após essa experiência traumática, o casal voltou a se exilar até a queda de Perón em 1955. Foi nesse período que a dinâmica do casal mudou drasticamente. Raúl esperava que Clotilde fosse apenas uma esposa troféu, uma substituta para Myriam, submissa às suas vontades. Mas Clotilde era uma Sabatini. Ela era brilhante.
Na Europa, ela estudou, formou-se em pedagogia, tornou-se professora de história e começou a escrever ensaios pedagógicos. Quando voltaram à Argentina definitivamente, Clotilde ascendeu politicamente durante o governo do presidente Arturo Frondizi. Ela foi nomeada presidente do Conselho Nacional de Educação. Ela era uma mulher poderosa, respeitada, uma intelectual de luz própria que reformava o sistema de ensino do país.
Enquanto Clotilde subia e brilhava, Raúl descia. Ele estava envelhecendo, gordo, amargo, vivendo das glórias e escândalos do passado. A inveja começou a corroê-lo. Ele não suportava ver a criança que ele raptou se tornar maior e mais importante que ele. O casamento se transformou em um campo de batalha.
Era uma relação doentia definida pelos amigos próximos como “nem contigo, nem sem ti”. Eles se separavam, brigavam furiosamente, trocavam insultos públicos e depois uma força misteriosa e tóxica os unia de novo. Tentaram viver juntos por quase 30 anos nessa toxicidade, mas o ciúme de Raúl, agora misturado com inveja profissional e decadência física, tornou a convivência impossível e perigosa.
Até que chegamos ao ano de 1964. Já tinham se passado 33 anos desde a morte de Myriam no avião. A situação era insustentável. Raúl e Clotilde estavam separados fisicamente. Dessa vez parecia definitivo. Clotilde queria o divórcio legal para se livrar da sombra dele e seguir sua carreira. No dia 16 de agosto de 1964, um domingo cinzento e frio de inverno, eles marcaram um encontro no apartamento de Raúl, na rua Esmeralda, em Buenos Aires.
A reunião era para acertar os detalhes finais da divisão de bens e assinar os papéis. Os advogados de ambos estavam presentes para garantir a civilidade. A reunião correu de forma surpreendentemente calma, cordial até. Parecia que Raúl finalmente tinha aceitado o fim e estava pronto para deixar Clotilde livre. Quando terminaram as discussões e leituras, ele, bancando o anfitrião civilizado, sugeriu um brinde para celebrar o acordo.
Disse que serviria algo para beber com voz tranquila. Ele foi até o barzinho da sala. De costas para todos, ele preparou os copos, serviu o uísque para os advogados e preparou um copo especial para Clotilde. Ele se virou, caminhou calmamente até ela, que estava sentada no sofá, cansada, mas aliviada. Clotilde estendeu a mão para pegar o copo, esperando o uísque, mas Raúl não entregou o copo.
Num movimento brusco e violento, ele atirou o conteúdo do copo diretamente no rosto dela. Não era uísque, era vitríolo, ácido sulfúrico industrial altamente concentrado, uma substância capaz de corroer metal. O horror foi instantâneo. Clotilde teve o reflexo instintivo de levar as mãos ao rosto, o que talvez tenha salvado parcialmente a visão de um dos olhos. Mas o ácido era impiedoso.
O líquido começou a derreter a pele, a carne, as pálpebras, o nariz, os lábios. Ela gritava de uma dor que não existem palavras humanas para descrever, um urro gutural de agonia. O ácido queimava suas mãos, seu pescoço, seu peito. Os advogados, em pânico absoluto e sem saber o que fazer, tentaram socorrê-la.
Eles a arrastaram para o banheiro, tentando lavar o ácido com água e, no desespero, tiveram que arrancar as roupas dela, que estavam se desfazendo e grudando na pele queimada como plástico derretido. Clotilde, a grande educadora, a mulher elegante e forte, estava ali nua, desfigurada e agonizando no chão do banheiro.
Enquanto o caos e os gritos reinavam na sala, Raúl não tentou fugir. Ele caminhou tranquilamente, quase com satisfação, para o quarto principal e trancou a porta. A polícia não precisou caçá-lo. Dentro do quarto, Raúl decidiu que era hora de sair de cena. Ele havia destruído sua criação. Primeiro, ele tentou ingerir veneno.
Ele tomou uma dose maciça de estricnina misturada com uísque. Mas o corpo dele, talvez recusando-se a morrer fácil, reagiu violentamente. Ele começou a ter espasmos e vomitou o veneno no tapete. A morte estava demorando muito e era suja. Raúl, vaidoso e controlador até o último segundo, não quis esperar a agonia do veneno.
Ele se limpou, vestiu sua jaqueta de couro de camelo favorita, deitou-se na cama como se fosse dormir, pegou um revólver e encerrou sua própria jornada com um disparo na têmpora. O barão estava morto, mas a tragédia estava longe de acabar. O ácido de Raúl continuou queimando a família por décadas. Clotilde sobreviveu ao ataque, mas a mulher que ela era morreu naquele dia.
Seu rosto, antes belo e expressivo, transformou-se em uma máscara de cicatrizes rígidas e deformadas. Ela perdeu a visão de um olho. O que se seguiu foram 14 anos de um calvário silencioso. Clotilde viajou para a Europa dezenas de vezes, submetendo-se a enxertos de pele dolorosos, cirurgias reconstrutivas intermináveis, tentando recuperar algo que parecesse humano.
Ela vivia escondida atrás de véus e óculos escuros, mas o dano psicológico era muito mais profundo que o físico. E aqui entra o detalhe mais perturbador e complexo dessa história: dizem que, apesar de tudo, apesar do monstro que ele se revelou, Clotilde nunca conseguiu se libertar emocionalmente de Raúl. Durante esses 14 anos de sofrimento, ela guardou no armário as roupas dele, o terno, a jaqueta de camelo manchada; o ódio e o amor estavam fundidos naquelas cicatrizes de ácido.
Em 1978, Clotilde já não aguentava mais a dor e a solidão. No dia 25 de outubro, ela estava sozinha no mesmo apartamento da rua Esmeralda, o mesmo lugar onde seu rosto foi destruído 14 anos antes. Ela abriu a janela do oitavo andar e, talvez buscando a paz que nunca mais teve em vida, ela se lançou para a morte, encontrando no asfalto o fim de seu tormento.
Seus restos foram levados para Córdoba e enterrados em Villa María. Mas a maldição dos Barón Biza exigia mais sangue. Ela passou para a próxima geração, contaminando os filhos. A filha do casal, María Cristina, lutou contra a sombra dos pais durante toda a vida adulta. Mas o peso daquele sobrenome e daquela história de horror era insuportável.
Em 1990, 12 anos após a morte da mãe, María Cristina tomou uma dose letal de barbitúricos e também decidiu partir, deixando para trás um filho pequeno de apenas 7 anos e um bilhete de despedida cheio de dor. E sobrou Jorge. Jorge Barón Biza, o filho homem. Jorge foi a testemunha ocular do inferno. Ele estava lá no dia do ataque.
Ele acompanhou a mãe nos hospitais da Europa. Ele viu a destruição dia após dia. Ele tocou nas cicatrizes. Jorge tentou desesperadamente se salvar. Ele era um jornalista brilhante, culto, e tentou usar a palavra como cura. Em 1998, ele publicou um livro chamado O Deserto e Sua Semente. É considerada uma obra-prima da literatura argentina contemporânea.
Um livro doloroso, cru, onde ele narra os detalhes do ataque, as cirurgias da mãe, a loucura do pai e o deserto emocional em que viveram. O livro foi aclamado pela crítica e pelo público. Parecia que Jorge, ao colocar os demônios no papel e expor a verdade ao mundo, tinha conseguido se libertar. Parecia que ele seria o sobrevivente, aquele que contaria a história, mas a gravidade do destino dos Barón Biza é implacável, como um buraco negro que engole tudo ao redor.
Em 2001, pouco tempo depois do sucesso do livro, Jorge estava em um apartamento em Córdoba, no 12º andar. Em uma de suas obras, ele escreveu uma frase arrepiante sobre janelas abertas: “Sempre que chego a um lugar alto, alguém corre para fechar a janela com medo de que eu caia.” Mas naquele dia, em 2001, ele estava sozinho.
Não havia ninguém para fechar a janela. Jorge saltou para o vazio, repetindo o gesto final de sua mãe e encerrando a linhagem maldita. Quatro vidas interrompidas, duas esposas destruídas, uma família extinta pela própria mão. Hoje, se você passar pela Rota 5, o monumento continua lá. O cuidador do local, um homem simples que viu parte dessa história, disse certa vez chorando em uma entrevista: “Eu chorei lágrimas de incompreensão. Por que tanta necessidade de destruição? Por que tanto ódio?” A tumba de Myriam já tentou ser violada muitas vezes por caçadores de tesouros atrás do diamante de 45 quilates. Mas ninguém nunca conseguiu passar pelo concreto e pelos explosivos. O tesouro continua lá, guardado pela maldição e pelo peso da história.
O dinheiro dos Barón Biza acabou, as terras foram vendidas, os livros foram esquecidos nas prateleiras empoeiradas. Só o que restou foi aquela asa de concreto cinza apontando para o céu, lembrando a todos nós que o dinheiro compra tudo, menos a sanidade, e que o amor, quando vira obsessão, é a arma mais mortal que existe.