O HORROR DE UMA OBSESSÃO CASO DE SILVIA DA PONT – Itália 1951

Adele procurou a mulher que apresentou Silvia à família, esperando que ela soubesse de algum compromisso. Não sabia. As horas passavam e já não parecia um simples atraso. No quarto, a mala já estava preparada para a viagem e aproximadamente 40.000 liras continuavam dentro da bolsa, junto de todos os seus pertences.

Adele não encontrou o avental preto usado no trabalho, mas Silvia não costumava sair à rua vestida com ele. Quando deixou a casa para comprar leite, usava uma roupa comum. Adele decidiu ir à polícia de Busto Arsizio. Explicou que Silvia desapareceu depois de voltar para casa, sem levar dinheiro e a poucas horas de uma viagem; esperava que os agentes começassem a procurá-la.

Mas, na delegacia, a preocupação de Adele encontrou respostas prontas. Os policiais registraram a comunicação verbal e pediram que Adele voltasse no dia seguinte para formalizar a denúncia por escrito, caso Silvia não aparecesse. Para eles, não existia prova de crime. Silvia era adulta e podia ter saído por livre e espontânea vontade.

Não organizaram uma busca imediata pela cidade, nem trataram as primeiras horas como decisivas. No dia seguinte, antes de procurar Silvia, tentaram encaixá-la em histórias conhecidas sobre jovens empregadas que abandonavam a casa dos patrões. Cada nova sugestão parecia diminuir a responsabilidade da polícia e aumentar a culpa de quem estava desaparecida.

A primeira conclusão era simples: talvez Silvia decidisse trabalhar em outra casa. Empregadas jovens mudavam de patrão por um salário melhor e nem sempre avisavam. A polícia tratava essa possibilidade como se descrevesse um comportamento comum. Adele, porém, conhecia a moça que procurava e discordou.

Silvia Da Pont tinha 21 anos. Era loira, media cerca de 1,70 m e era considerada alta para a época. Pesava aproximadamente 70 kg. Os olhos grandes davam ao rosto uma expressão por vezes melancólica, embora as crianças conhecessem outro lado dela. Silvia brincava com os quatro filhos dos Nimo e chegava a esconder pequenas travessuras para poupá-los de um castigo.

Trabalhava na casa desde 1950 e já fazia parte da rotina familiar. Também era bem tratada. Naquele período, muitas jovens empregadas viviam em condições precárias dentro da casa dos patrões. Silvia, ao contrário, tinha um quarto limpo e exclusivo no último andar, perto do sótão. Adele confiava nela e não conhecia qualquer discussão que explicasse uma fuga repentina.

Os agentes voltaram então a atenção para a própria casa. Talvez Silvia partisse depois de algum desentendimento, sem enfrentar os patrões; mesmo sem qualquer indício, continuavam convencidos de que ela fora embora por vontade própria. Depois, surgiu a possibilidade de um namorado. Silvia conhecia Carmelo Tuzolino e passeava com ele em algumas tardes de folga.

Para a polícia, um envolvimento escondido podia explicar tudo. Ela talvez planejasse encontrar o rapaz e deixar o emprego para segui-lo. Adele procurou sinais dessa relação, mas não encontrou cartas ou qualquer plano secreto. Carmelo também não preparava uma viagem com Silvia. O vínculo entre os dois parecia uma amizade carinhosa, muito distante da fuga imaginada pela polícia.

Quando essa explicação perdeu força, a insinuação atingiu a própria família Nimo. A polícia perguntou se Silvia podia ter mantido uma relação com Adelchi, o marido de Adele. Naqueles anos, muitas famílias de classe média mantinham jovens empregadas dentro de casa. Em alguns lares, o serviço doméstico escondia outra função.

A moça também podia ser tratada como alguém disponível ao patrão, enquanto a esposa tolerava a situação para preservar o casamento. Era uma realidade conhecida, embora raramente admitida. Adele ficou horrorizada porque aquilo não correspondia ao que acontecia em sua casa. Adelchi trabalhava para a companhia aérea norte-americana TWA e passava a maior parte do tempo viajando.

Ela nunca percebeu qualquer intimidade entre ele e Silvia e nada indicava uma relação escondida. Havia também a mudança. Adelchi fora transferido para a filial da empresa em Roma e a família deixaria Busto Arsizio. Adele lamentava sair da cidade e temia não encontrar na capital alguém tão confiável quanto Silvia.

Por isso, convidou-a para acompanhar a família. Silvia aceitou imediatamente e parecia mais animada com Roma do que a própria Adele. Antes da mudança, passaria aproximadamente 20 dias com os pais e depois voltaria ao trabalho na capital. Nada em seu comportamento indicava que pretendesse desaparecer justamente na manhã da viagem. Adele não se contentou.

Se os policiais acreditavam que Silvia saíra por vontade própria, ela mesma a procuraria. Começou pelos lugares que Silvia frequentava nas tardes de folga e conversou com quem podia conhecê-la. Não surgiu um novo emprego, uma passagem comprada. Ninguém afirmava tê-la visto depois daquela manhã. Quanto mais Adele procurava, mais a história da fuga se desfazia.

E foi nessa busca que a família de Silvia entrou no caso. Silvia nasceu em Tisoi di Belluno, na província de Belluno, entre as montanhas do Vêneto. A Itália do começo da década de 50 ainda vivia as dificuldades deixadas pela guerra. Muitas famílias tinham pouco para comer. O telefone era um luxo e jovens das regiões rurais precisavam deixar os pais para servir em casas mais ricas do norte industrial ou procurar trabalho fora do país.

Antonio Da Pont, pai de Silvia, trabalhava como lenhador. Adelina conhecia bem a vida da filha, pois também serviu como empregada doméstica antes de se casar. Criaram Maria, Silvia, Rosina e Santina com poucos recursos. Silvia estudou apenas até a terceira série. Começou cedo no serviço doméstico e passou por Biella, Feltre e Turim antes de chegar a Busto Arsizio.

Parte do salário seguia para a família. As irmãs faziam o mesmo quando podiam. O trabalho de cada uma ajudava a sustentar a casa. Silvia pretendia usar parte das economias para comprar um presente de aniversário ao pai. Passaria cerca de 20 dias com a família antes de seguir para Roma e combinou de encontrar Maria,

sua irmã mais velha, na estação de Milão. Maria chegou, Silvia não. Em Tisoi, Antonio aguardou notícias que não chegavam. A família tentou contato por todos os meios disponíveis e procurou até parentes de outras cidades. O silêncio não combinava com Silvia, que costumava escrever e jamais deixaria os pais esperando sem uma explicação.

Adele conseguiu entrar em contato com Maria, que trabalhava como babá em Zurique e estava passando alguns dias com os pais. Ao reunirem o que sabiam, perceberam que Silvia não procurou ninguém da família, nem apareceu em outro emprego. A fuga aceita pela polícia começava a perder qualquer sentido. Enquanto isso, os Nimo precisavam cumprir a transferência de Adelchi.

Por volta de 13 ou 14 de setembro, a família mudou-se para Roma, mas boa parte de seus pertences continuou em Busto Arsizio. Adelchi e Adele ainda retornariam algumas vezes para esvaziar a casa. No dia 10 de outubro, Maria foi para Busto Arsizio, procurando a irmã. Com uma fotografia nas mãos, percorria os lugares onde Silvia podia ser reconhecida e repetia que ela não desapareceria por escolha própria.

As duas eram próximas e planejavam voltar juntas para a cidade natal. Quando Adele também retornou à cidade, Maria foi encontrá-la. As duas percorreram a casa e voltaram ao quarto de Silvia. O cômodo continuava exatamente como no dia do desaparecimento. A viagem permanecia interrompida onde a jovem a deixou.

Em uma das áreas de serviço, Maria encontrou uma porta fechada. Adele orientou que pedisse a chave ao proprietário da casa, Carlo Candiani. Ele recebeu Maria com cortesia e apontou um prego ao lado da porta. A chave ficava pendurada ali, escondida à vista de quem soubesse onde procurar. Candiani disse que aquele era um segredo entre ele e Silvia.

Depois lamentou o desaparecimento, disse que a jovem era uma boa pessoa e consolou a irmã. Maria procurou nos espaços a que teve acesso, mas não encontrou nada que explicasse o sumiço. Continuou percorrendo Busto Arsizio e chegou a ajudar Adele durante o dia, enquanto à noite dormia na casa da amiga que a hospedava.

No fim de outubro, a polícia ainda não tinha uma resposta. Os Nimo já viviam em Roma, mas precisavam fazer uma última retirada na Via Galilei. Em 28 de outubro, Adelchi, Adele e dois dos filhos voltaram à casa para buscar o que restava. Naquela noite, o desaparecimento deixou de ser apenas um mistério. Havia papéis velhos que Adelchi decidiu queimar na caldeira.

A iluminação do porão não estava funcionando. Ele desceu com uma vela e começou a separar o material no escuro. Em um canto do depósito de carvão, caixas e galhos secos de uma antiga árvore de Natal escondiam parte da parede. Ao afastar os volumes, Adelchi viu duas pernas longas, brancas e extremamente magras. Por alguns segundos, tentou compreender o que estava diante dele, aproximou a vela e reconheceu naquele corpo quase irreconhecível e frágil a jovem que trabalhava em sua casa.

Adelchi subiu pálido, tentando não assustar os filhos, chamou Adele em particular e os dois voltaram ao porão. Ao ver Silvia, Adele ficou aterrorizada, entrou em pânico e gritou. Adelchi então chamou a polícia. Ao examinar o corpo, os policiais perceberam que as roupas estavam erguidas até a altura do abdômen.

Havia uma pequena escoriação numa perna, mas nenhum ferimento externo que explicasse a morte. O canto parecia preparado para ocultá-la de quem descesse apenas até a caldeira. Era preciso caminhar até o fundo e afastar os volumes acumulados diante da antiga árvore de Natal. O detalhe mais chocante era o peso.

Silvia tinha aproximadamente 70 kg quando desapareceu. Ao ser encontrada, pesava entre 35 e 40 kg. Perdeu mais de 30 kg, possivelmente perto de 35 kg em 52 dias. O calendário apresentava um problema ainda maior. Silvia estava desaparecida fazia quase dois meses, mas o estado do corpo indicava que ela não morreu em 7 de setembro.

A estimativa inicial situava a morte cerca de uma semana antes da descoberta. Ela permaneceu viva durante o período em que todos a procuravam dentro e fora daquela casa. Como uma jovem podia passar semanas perdendo peso dentro daquela casa sem ser encontrada? As primeiras respostas foram quase tão estranhas quanto a descoberta. Falou-se em vazamento de gás porque o sistema da caldeira apresentou defeitos.

Silvia podia ter descido e perdido a consciência, mas não foi encontrada perto da caldeira. Alguém ocultou o corpo no fundo do depósito. Também levantaram a possibilidade de epilepsia. A família negou qualquer histórico de crises. Um desmaio prolongado por semanas não explicava a posição em que o corpo foi ocultado, sobretudo depois de os Nimo e Maria terem procurado naquelas dependências.

Depois surgiu a hipótese de suicídio por inanição, mas ela não fazia sentido. O emagrecimento ocorreu enquanto Silvia ainda estava viva e a posição final do corpo indicava a ação de outra pessoa. Em 30 de setembro, operários da companhia de gás trabalharam no porão e não viram corpo algum naquele canto. Isso demonstrava que Silvia não permaneceu na posição em que foi encontrada desde a manhã do desaparecimento.

Em algum momento, alguém a escondeu ou a transferiu para o fundo do depósito. O corpo de Silvia foi encaminhado para a autópsia. A perícia revelou que ela morreu por inanição depois de perder mais da metade do peso. Silvia sobreviveu por semanas antes de morrer de fome e os peritos ainda encontraram vestígios de opiáceos em seus órgãos.

Já não se tratava de uma morte repentina, mas de um enfraquecimento lento, enquanto a jovem permanecia incapaz de alcançar ajuda. O rosto guardava outro sinal: fotografias ampliadas mostraram marcas ao redor da boca. Perto do corpo havia um pano amarelado com tiras nas extremidades e manchas avermelhadas.

Para os investigadores, aquele tecido podia ter sido usado como mordaça. O capitão Angelo Mondelli percebeu que investigava um cativeiro prolongado dentro da Via Galilei. A pessoa responsável conhecia os acessos, conseguiu manter Silvia longe de qualquer ajuda e depois ocultou o corpo. Após ouvir várias pessoas ligadas à casa, a investigação chegou ao proprietário do imóvel, o respeitado senhor que morava no térreo, Carlo Candiani.

Carlo Candiani tinha cerca de 70 anos. Alto e magro, mantinha os poucos cabelos sempre bem cuidados. Ficou viúvo duas vezes e construiu a reputação de um comerciante instruído, honesto e metódico. Possuía imóveis e terras em Busto Arsizio, onde poucos imaginariam que seu nome pudesse ser ligado ao destino de Silvia.

Sua primeira versão foi curta. Candiani disse que viu Silvia sair para comprar leite por volta das 8 horas. Lembrava-se dela com avental e pantufas, mas afirmou que não a viu voltar. Mondelli notou uma contradição: Silvia era vaidosa e não costumava sair à rua com a roupa de trabalho. Além disso, o comerciante que a atendeu naquela manhã recordava-se de que ela usava um vestido comum.

Mondelli voltou à Via Galilei e percorreu a casa na companhia de Candiani. Ao passarem pela lavanderia, o proprietário começou a suar diante de alguns tapetes. Mais tarde, sua mão tremeu tanto ao abrir uma porta do sótão que o capitão precisou ajudá-lo. Tentou explicar uma marca no chão, mas alterava a versão conforme as perguntas avançavam.

O elemento mais importante, porém, apareceu em outro cômodo. Candiani era um entusiasta da farmacologia e da fitoterapia. Mantinha um laboratório particular, estudava plantas e medicamentos e dizia ter curado o próprio diabetes com uma de suas fórmulas. Entre os produtos guardados ali estava o láudano, uma preparação que continha ópio.

Dois dos três frascos encontrados estavam vazios. Também havia soníferos e outras substâncias capazes de alterar o estado de consciência. A descoberta criava um contraste inquietante com aquele idoso respeitável, conhecido pelo título honorífico de cavaleiro. Por trás da aparência cordial, existiria uma segunda vida,

como na história de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. O resultado da autópsia dava ao laboratório um novo significado. Candiani permaneceu no imóvel durante todo o desaparecimento e tinha ao alcance substâncias capazes de provocar torpor. Vestígios de opiáceos foram identificados no organismo de Silvia. Mondelli já não podia ignorar a conclusão mais perturbadora:

Silvia esteve viva dentro daquele imóvel durante semanas e perdeu peso até morrer de fome; enquanto todos a procuravam na cidade, alguém a manteve enfraquecida e longe de qualquer socorro. Mondelli começou pela última vez em que Candiani afirmou ter visto Silvia. Queria entender por que um homem que dizia conhecê-la tão pouco lembrava a roupa que ela vestia e sabia tanto sobre seus horários.

Quando a conversa chegava aos acessos da casa ou às substâncias do laboratório, Candiani se tornava mais tenso e acabava modificando o que dissera antes. O interrogatório avançou por quase 50 horas. Aos poucos, a cortesia deu lugar à irritação e as correções já não conseguiam encobrir as contradições. A segurança do senhor respeitável começou a desaparecer.

Foi então que Candiani apresentou sua primeira confissão. Segundo ele, tudo começou como uma brincadeira: seguiu Silvia até o sótão, aproximou-se por trás e a assustou. A jovem teve um tremor e caiu inconsciente. Candiani alegou que entrou em pânico e, temendo ser acusado, preferiu escondê-la e tentar reanimá-la sozinho em vez de pedir socorro, mas que Silvia acabou falecendo.

Porém, a história da brincadeira apenas substituía uma mentira por outra; não explicava o estado em que Silvia foi encontrada. Mondelli continuou interrogando. Dias depois, surgiu uma confissão mais completa. Mondelli confrontou Candiani com as próprias contradições e com os vestígios encontrados na casa.

Pressionado pelas mentiras que já não conseguia sustentar, ele contou uma nova versão do que aconteceu com Silvia. A partir daqui, o que sabemos sobre os 44 dias de Silvia em cativeiro vem principalmente das confissões de Candiani, confrontadas com a perícia e os vestígios encontrados na casa. Foi com base nesse relato e nas provas circunstanciais que os investigadores reconstruíram o que aconteceu.

Candiani admitiu que era obcecado por Silvia e desejava possuí-la. Sabia que 7 de setembro seria seu último dia em Busto Arsizio. Naquela manhã, quando a viu subir para trocar de roupa antes da viagem, decidiu que não permitiria que ela fosse embora. Esperou Silvia sair de um dos cômodos, aproximou-se pelas costas e pressionou contra seu rosto um grande chumaço de algodão embebido em éter.

Ela perdeu as forças e caiu. Não houve brincadeira nem acidente: Candiani atacou a jovem para sequestrá-la. A partir daquele instante, Silvia ficou inteiramente sob seu poder. Candiani a escondeu no sótão e decidiu sozinho quando se aproximaria dela. Enquanto Adele procurava respostas, a jovem permanecia viva dentro da mesma casa.

Ela não permaneceu inconsciente durante todos aqueles dias: alternava longos períodos de torpor com momentos de consciência. Em uma dessas ocasiões, abriu os olhos, reconheceu Candiani e voltou a perder os sentidos. Outras vezes dava pequenos sinais de vida, mas já não tinha forças para reagir ou pedir ajuda.

Depois do ataque com éter, Candiani manteve Silvia sob o efeito de substâncias que guardava no laboratório. Em suas versões, o láudano aparecia misturado ao pouco leite ou vinho que tentava lhe dar. Silvia mal conseguia abrir a boca e algumas colheradas estavam longe de constituir uma alimentação. Convencido do poder de suas próprias fórmulas, Candiani acreditava, de forma retorcida, que poderia manter Silvia confinada, drogada e viva apenas à base de leite e vinho.

Sem forças e incapaz de engolir normalmente, Silvia se tornava pele e osso, enquanto ele se recusava a buscar socorro. Aquilo não era cuidado: Candiani reduziu Silvia a uma boneca viva que só podia ser vista ou tocada quando ele decidia. A obsessão iniciada no último dia da jovem na casa transformou-se em 44 dias de horror. Em parte desse período, Silvia ficou num cômodo do sótão.

Depois, Candiani utilizou uma caixa de madeira com cerca de 1,60 m, menor que o corpo da jovem. Quatro furos foram abertos para a passagem de ar. A caixa só precisava de ventilação porque havia uma pessoa viva dentro dela. Vittorio Tozzi, um ajudante de Candiani, participou do transporte do volume do sótão para o porão.

Mais tarde, afirmou que não sabia o que havia dentro da caixa. Silvia precisou permanecer encolhida, sem conseguir esticar completamente as pernas. Os furos e as dimensões indicavam que a caixa não serviu apenas para uma mudança rápida: ela podia ter passado dias confinada ali no porão. Candiani também a retirava da caixa e apoiava seu corpo numa cadeira.

Antes de sair, tornava a confiná-la. Um baú metálico encontrado no local guardava as fezes de Silvia. Ele recolhia até os dejetos para impedir que alguém percebesse a presença de uma pessoa viva naquele ambiente. Enquanto Silvia definhava, Candiani mantinha os horários de sempre: tomava um café frugal pela manhã, comia pouco ao meio-dia e saía à noite para jantar na casa da filha.

Conversava com conhecidos e voltava para a Via Galilei sem demonstrar que uma jovem morria de fome sob seu controle. No dia 20 de outubro, o corpo de Silvia já não resistiu. Com os Nimo longe de Busto Arsizio, Candiani escondeu o corpo no canto do depósito de carvão, colocou caixas à frente e cobriu-o com os galhos secos da árvore de Natal.

Durante oito dias, retomou a própria rotina. Então, os Nimo voltaram para terminar a mudança e encontraram Silvia. Depois de preso, Candiani passou a ser ouvido por outras autoridades na fase de instrução do processo. Já orientado por seus advogados, mudou de estratégia e começou a negar o que confessara.

Disse que Mondelli construiu a história e que ele assinou sem ler, apenas para encerrar a pressão do interrogatório. Essa alegação era difícil de conciliar com a figura do próprio Candiani. Ele era um comerciante instruído, acostumado a negócios e documentos, além de conduzir com método os estudos no laboratório. Não parecia natural que um homem com esse perfil assinasse uma confissão extensa sem sequer ler o conteúdo.

O problema era que partes importantes da confissão já tinham confirmação fora do interrogatório. O laboratório ajudava a explicar o estado revelado pela autópsia, enquanto o depoimento de Tozzi confirmava o transporte da caixa. Durante a inspeção judicial, o próprio Candiani conduziu os investigadores aos objetos mencionados em seu relato.

Em declarações posteriores, Candiani reconheceu que os detalhes não foram sugeridos pelos Carabinieri. Sua retratação não conseguia explicar por que o relato coincidia com vestígios que já estavam no imóvel. O julgamento começou em Milão, em abril de 1953, e atraiu a atenção de toda a Itália. Ônibus lotados chegavam de outras cidades, trazendo pessoas que se aglomeravam do lado de fora do tribunal.

Carlo Candiani respondeu por sequestro, homicídio agravado e ocultação de cadáver. Vittorio Tozzi, acusado de participação no transporte da caixa, continuava foragido e foi julgado à revelia. No tribunal, Candiani manteve a retratação, voltou a afirmar que viu Silvia sair na manhã de 7 de setembro e acusou Mondelli de pressioná-lo com a ameaça de prisão perpétua.

Segundo ele, as confissões eram falsas e foram assinadas sem leitura. A retratação não bastou para anular a confissão. O próprio Candiani reconheceu mais tarde que certos detalhes partiram dele, e o tribunal considerou confiável a parte do relato sustentada pelas provas. A defesa retomou a hipótese de suicídio por inanição e tentou transformar a timidez e os momentos de tristeza de Silvia em sinais de que ela desejava morrer.

Nada confirmou essa alegação, e a forma como o corpo foi escondido continuava incompatível com o suicídio. Os peritos também discordaram: Caussade e Lacroix confirmaram os vestígios de opiáceos, enquanto Cazzaniga ainda defendia a possibilidade de inanição voluntária. Como a medicina não podia reconstituir sozinha todo o período, a corte avaliou os exames junto com o que foi descoberto no laboratório artesanal da casa.

Tempos depois, alguns chegaram a levantar a hipótese de que Silvia pudesse ter recusado alimento em algum momento de consciência, talvez por acreditar que sofreu algum tipo de abuso. Isso jamais pôde ser comprovado. O estado de sedação e a fraqueza extrema já dificultavam a deglutição, e nem mesmo Candiani teria condições de saber se houve uma recusa deliberada.

Adele e os demais integrantes da família Nimo testemunharam. Os pais e a irmã de Silvia também foram ouvidos, assim como vizinhos e outras pessoas que conheceram os envolvidos. Em 30 de abril de 1953, Candiani foi condenado a 25 anos de prisão por homicídio doloso, sequestro e ocultação de cadáver.

A sentença reconheceu a responsabilidade por uma sequência iniciada com o ataque e prolongada pela decisão de manter Silvia escondida e narcotizada, sem condições de fugir, oferecer resistência ou gritar por socorro. Em 4 de novembro daquele ano, o Tribunal de Apelação de Milão reclassificou o crime como homicídio preterintencional e reduziu a pena para 14 anos.

A nova decisão entendeu que Candiani praticou os atos que levaram à morte, embora não pretendesse necessariamente produzir aquele resultado desde o início. Candiani foi levado para a prisão de San Francesco, em Parma. Sua idade, a posição social e a antiga reputação não lhe devolveram a liberdade. O homem conhecido como proprietário respeitável terminou os últimos anos preso.

Em 9 de agosto de 1957, sofreu um colapso cardíaco e morreu na prisão. Tinha 76 anos. Viveu menos de 6 anos depois da morte de Silvia. O fim de Candiani não deve ocupar o lugar central dessa história. Ele pôde se defender e recorrer das decisões; Silvia não teve sequer a oportunidade de contar o que viveu enquanto esteve escondida.

O caso se tornou ainda mais perturbador porque o responsável parecia um senhor idoso e inofensivo. Por mais monstruoso que tenha sido o crime, nós não gostamos de usar a palavra monstro. Monstros pertencem ao mito e à ficção. Quando chamamos alguém assim, parece que afastamos essa pessoa de nossas casas, de nossas famílias e da vida comum.

Mas homens como Candiani mantêm horários, cumprimentam os vizinhos e constroem uma reputação de respeitabilidade. O horror está justamente nisso: eles não chegam de um mundo distante, vivem entre nós. Durante semanas, todos procuraram Silvia longe da Via Galilei. A resposta estava no mesmo terreno que ela percorria todos os dias, sob o controle do homem que conhecia cada acesso.

Candiani escolheu o silêncio porque acreditou que sua reputação valia mais do que a vida de uma jovem humilde. O leite deixado na cozinha marcou o último instante comum de Silvia Da Pont. Depois disso, tudo que parecia respeitável naquela casa passou a esconder uma história de obsessão, controle e morte. O caso de Silvia Da Pont é um crime atípico que envolve um senhor respeitável com conhecimentos farmacológicos e que, em uma obsessão doentia, imaginou ser capaz de manter uma pessoa escondida, viva, guardada como uma boneca, utilizando de

diversos fármacos para mantê-la sob controle à base de leite e vinho branco. Candiani não era um louco que desconhecia suas ações, embora haja elementos de possíveis alterações mentais. Ele conhecia a ilicitude de seus atos, além de agir com crueldade extrema ao testemunhar a agonia de Silvia, que sequer tinha forças para falar.

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Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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