O CRIME que REVELOU um SEGREDO: A diretora que o Estado mudou de gênero.
uma presença que não julgava pela aparência, que não a mandava embora, que não a chamava de feia. O trabalho como doméstica foi um fracasso desde o primeiro dia. Vilhelmine era estranhamente descoordenada para uma mulher do tamanho que tinha: quebrava louças, queimava comida, não levava jeito com os animais; era totalmente desastrada.
No primeiro emprego, trabalhou mais de três meses sem receber nada. Em vez de salário, saiu devendo pelo que havia destruído. Foi de casa em casa, sempre com referências ruins, sempre começando do zero numa cidade que não tinha lugar para ela. Aos 20 anos, sem dinheiro e sem perspectiva, tentou roubar comida para ajudar a mãe, que havia ficado viúva e tinha quatro filhos menores para criar.
Foi apanhada em flagrante e sentenciada a 10 dias de prisão. Na cela, Vilhelmine se viu rodeada de mulheres que viviam de formas que ela nunca havia imaginado de perto. Eram, em sua maioria, prostitutas — mulheres que contavam suas histórias sem pudor: os homens que encontravam, os perigos do ofício, as humilhações sofridas. Vilhelmine ouvia tudo com uma mistura de horror e fascínio.
Nunca havia tido acesso a nada daquele universo. Nunca havia conversado sobre o corpo, sobre desejo, sobre o que acontecia quando um homem e uma mulher se encontravam. Saiu de lá com a fé mais acesa do que nunca e com uma conclusão estranha, particular, que foi construindo aos poucos: a aparência que sua mãe tanto desprezava talvez fosse uma proteção.
Ela nunca havia despertado o interesse de homens; nunca havia sido exposta aos riscos que aquelas mulheres descreviam com tantos detalhes. Havia algo que a diferenciava e, talvez pela primeira vez na vida, ela escolhesse ver isso como uma dádiva. Depois da prisão, passou a frequentar a congregação do pastor Rudolf Frimodt.
Foi numa das pregações que ouviu algo que mudou o rumo de tudo: um discurso sobre o cuidado com o próximo, sobre tratar todo ser humano com dignidade. Vilhelmine saiu dali sabendo o que queria fazer pelo resto da vida. Para trabalhar com pessoas de verdade, era preciso estudar. E Vilhelmine estudou com uma determinação que chamava a atenção.
Juntou dinheiro, foi de instituto em instituto por diferentes partes da Dinamarca, cursou o que pôde em escolas populares. Aprendia com uma velocidade fora do comum. Professores e contatos notavam a inteligência e a dedicação: havia ali uma mulher que merecia mais do que o mundo havia lhe dado até então. Mas, fora das salas de aula, a solidão voltava sempre.
Vilhelmine não se encaixava nos grupos de mulheres jovens, não compartilhava das conversas sobre casamento ou coisas simples, não conseguia participar das amizades que se formavam naturalmente ao redor dela. Anotou nos próprios cadernos naqueles anos: “Eu era muito solitária, e a solidão mais terrível que conheço é estar solitária no meio de muita gente.”
Havia algo de errado nela. Ela sabia; sentia no próprio corpo, na própria pele, uma diferença que não conseguia nomear e sobre a qual não havia onde perguntar. No século XIX, certas questões simplesmente não existiam em voz alta. Não havia vocabulário, não havia espaço, não havia ninguém a quem recorrer.
Vilhelmine carregava aquilo como um peso vago e constante: a sensação de ser inadequada de um jeito que nem ela mesma entendia completamente. E ela notava que algumas pessoas também a olhavam diferente. Foi por meio dos contatos das escolas e da igreja que chegou até Møller Andersen, um comerciante que havia fundado com recursos próprios, em 1877, um orfanato em Frederiksberg chamado Godthaab (em dinamarquês, “Boa Esperança”).
Andersen precisava de alguém com convicção, com paciência, com vontade genuína de cuidar. Pensou em Vilhelmine. No Godthaab, Vilhelmine encontrou o que nunca havia tido: um lugar onde cabia. As crianças não julgavam a aparência; viam quem estava na frente delas. E quem estava na frente era uma mulher que abraçava, que brincava, que ouvia, que nunca levantava a mão.
Isso era raro. Os orfanatos dinamarqueses do século XIX seguiam um modelo herdado do sistema militar francês: crianças vivendo em rotinas rígidas, castigadas por desobediência com palmatória, isolamento ou redução de comida. A punição física era não apenas aceita, mas considerada pedagogicamente necessária. Em 1952, o Estado dinamarquês ainda publicava um manual regulamentando quantas palmadas uma criança podia receber por faixa etária.
No século XIX, o modelo era ainda mais severo. Vilhelmine pensava de outro jeito: escreveu em um artigo que o segredo para criar vínculos verdadeiros com crianças era se tornar criança junto com elas. Quando os meninos queriam construir alguma coisa, ela sentava com eles no chão do pátio, serrava madeira, pregava, lixava, ajudava a dar forma a brinquedos que eles mesmos inventavam e depois levavam orgulhosos para mostrar uns aos outros.
Entrava nas brincadeiras, ria com eles, participava de tudo. A disciplina existia, mas nascia do respeito, não do medo. Em 1880, Møller Andersen abriu um segundo orfanato, o Kanaan, na Strandvejen, em Østerbro, no leste de Copenhague. Era voltado exclusivamente para meninos. Vilhelmine foi convidada para assumir a direção como guardiã e mãe substituta.

Era uma posição significativa numa época em que mulheres raramente chefiavam qualquer instituição. Com esse novo papel, Vilhelmine passou a ter também voz pública: dava conferências sobre criação de filhos, escrevia artigos, participava de debates. Em 1889, foi eleita para o primeiro conselho da Kvindevalgretsforeningen,
a Associação pelo Sufrágio Feminino, a primeira organização dinamarquesa dedicada exclusivamente ao direito de voto das mulheres. Quem a via nessa época descrevia uma mulher alta e magra, com cabelos grisalhos penteados para os lados, traços marcados, óculos sobre o nariz afilado, sempre vestida com simplicidade e com um olhar que transmitia pura determinação.
Era respeitada, era conhecida; era, pelo menos do lado de fora, a pessoa mais estável que jamais havia sido. Entre todos os meninos do Kanaan, havia um que era diferente para Vilhelmine: Volmer Sjøgren havia chegado ao orfanato com 3 anos de idade. A mãe, a senhora Sjøgren, era uma viúva adoecida que não tinha condições de criá-lo.
Deixou o filho primeiro no Godthaab e depois, quando Vilhelmine foi transferida, o menino foi junto, como se os dois pertencessem ao mesmo destino. Volmer era difícil, agitado, ansioso, desobediente, incapaz de dormir sozinho. Vilhelmine escrevia cartas regulares à mãe, relatando o comportamento do filho com uma franqueza quase cruel:
“Quanto ao comportamento, deixa muito a desejar. Não há quase nenhum vício que Volmer não tenha.” Mas, ao mesmo tempo, era exatamente desse menino complicado que ela mais gostava de cuidar. Desde pequeno, quando o medo da noite era grande demais, Vilhelmine deixava Volmer dormir em seu quarto, na sua própria cama. O menino se enroscava no travesseiro dela e adormecia com a respiração calma de quem finalmente se sentia seguro.
Era um hábito que começou na infância e foi ficando. Anos se passaram e Vilhelmine nunca encontrou razão para pôr fim àquilo — ou não quis encontrar. Por um tempo era só isso, mas numa noite, quando o menino tinha 11 anos, ele enrolou os braços no pescoço dela e dormiu abraçado a ela. E Vilhelmine sentiu algo que nunca havia sentido antes em toda a vida.
Ela escreveu mais tarde em seu caderno: “No abraço com Volmer, uma fonte desconhecida se abriu. Era um sentimento estranho para mim. Chegou tarde, mas chegou forte.” Ela tentou entender, tentou raciocinar consigo mesma; escrevia no caderno como se colocar no papel pudesse esvaziar aquilo. Não esvaziou. O sentimento cresceu.
O que fazer com aquilo, ela não sabia e não havia como descobrir. Não se falava sobre desejo no século XIX; não havia onde perguntar. Não existia vocabulário para o que Vilhelmine sentia, que era confuso, sem nome, e que se misturava com a inadequação de toda uma vida. Ela se sentia inadequada de um jeito que nunca havia conseguido entender completamente.
E agora aquele sentimento sem nome havia encontrado um rosto, e o rosto era o de uma criança que dependia dela. A relação foi crescendo com o tempo: beijos, abraços, ternura física que Vilhelmine jamais havia trocado com ninguém. Até o dia em que Volmer se aproximou dela na cozinha e a abraçou pelas costas, pressionando-se contra ela. Havia pessoas ao redor.
Uma funcionária o repreendeu com o olhar. Naquele instante, o peso de tudo a golpeou de uma vez. Ela deu uma bofetada no rosto dele, pôs fim à relação ali mesmo e o proibiu de dormir em seu quarto. Volmer não entendia o que havia feito de errado, mas, depois daquilo, jamais voltou a dormir no quarto da diretora.
Vilhelmine havia cortado todo o contato mais íntimo com Volmer, mantendo apenas o contato que tinha com os outros meninos. Com os dias, tudo foi voltando ao normal, mas a culpa não foi embora. O remorso sobre Volmer não desaparecia. Vilhelmine carregava dois medos que foram crescendo juntos: o medo de que ele falasse sobre o que havia acontecido entre eles, destruindo tudo o que ela havia construído,
e algo em que ela acreditava genuinamente, com a convicção religiosa de quem passou a vida inteira se agarrando à fé: que havia corrompido aquele menino. Vilhelmine sentiu uma culpa imensa. Ela não tinha a compreensão de uma mulher comum de 40 anos, mas se lembrava dos relatos que ouviu na prisão. Buscava amparo na Bíblia.
Porém, sem compreender o que lia, começou a ficar obcecada por uma solução. Convencida de que havia plantado nele algo impuro que o destruiria pelo resto da vida, de que era responsável pela perdição de uma alma inocente, começou a apresentar comportamentos estranhos: passou a ter crises de choro, passou a ter pesadelos, passava noites sem dormir.
Foi então que o Dr. Gottschalck, médico do orfanato, notou que ela mal dormia e prescreveu hidrato de cloral, um sedativo comum na época, usado em pequenas doses para tratar insônia e ansiedade. Numa noite, olhando para o frasco, uma ideia distorcida surgiu: se Volmer morresse agora, antes de sua confirmação, antes de deixar o Kanaan, antes de levar aquela corrupção consigo para o mundo, ele iria para o céu ainda puro.
O pai já estava lá; ele seria salvo. A morte, naquele raciocínio que a fé, o remorso e o sedativo foram construindo juntos, seria um ato de misericórdia. Vilhelmine começou a planejar com a mesma metodicidade com que organizava o orfanato: pensou nas flores para o caixão, nos salmos que seriam lidos, costurou um travesseiro com o próprio avental.
Não era assassinato na lógica que havia construído para si mesma: era salvação. O tempo foi passando. Volmer completou 15 anos. A confirmação se aproximava e, com ela, a saída definitiva do orfanato. Uma vaga de aprendiz numa oficina em Roskilde — cidade que fora a capital da Dinamarca antes de 1443 — esperava por ele. Volmer falava sobre o futuro com animação.
Vilhelmine precisava agir. A festa de aniversário de um dos meninos menores era a oportunidade. Na noite de 28 de fevereiro de 1893, velas iluminavam as janelas do Kanaan enquanto vozes infantis cantavam pelos corredores. Vilhelmine preparou uma tigela de ponche para os rapazes mais velhos — afinal, eram quase homens. Enquanto ninguém olhava, esvaziou o frasco de hidrato de cloral no copo de Volmer.
Quando ele fez cara feia para o gosto amargo e tentou devolver o copo, Vilhelmine insistiu com firmeza: “Você já é um homem, assim deve agir como um homem.” E Volmer, que não queria desapontar a mulher que havia sido sua mãe desde sempre, bebeu. Não demorou para ele sentir tontura e náusea. Vilhelmine mandou uma assistente levá-lo ao quarto e deitá-lo em sua cama.
Mais tarde, quando a casa estava quieta, ela entrou sozinha. Ficou parada, olhando para o rapaz que dormia pesado, o rosto relaxado pelo sedativo. Depois pegou dois cobertores grossos de lã e começou a enrolar a cabeça dele com cuidado, devagar, como quem prepara algo sagrado. Apertou com as mãos fortes, puxou, esperou e só foi embora quando tinha certeza de que Volmer Sjøgren não respirava mais.
Na manhã seguinte, o Dr. Gottschalck foi chamado e fez uma verificação rápida, apressada demais. No atestado de óbito, escreveu: “Trombose, nada de suspeito.” Vilhelmine respirou fundo. Havia funcionado: ela havia absorvido o pecado para si e o menino iria para o céu puro. Em 5 de março de 1893, Volmer Sjøgren foi enterrado no Vestre Kirkegård.
O caixão era amarelo, com entalhes de flores. Havia coroas, salmos escolhidos com cuidado e o travesseiro costurado com o avental de Vilhelmine. Era um funeral elaborado demais para alguém da condição de Volmer, e quem conhecia o orfanato notou. Vilhelmine escreveu uma carta detalhada à senhora Sjøgren, descrevendo cada detalhe da cerimônia.
Avisava que o filho havia tido muitos momentos difíceis e que a mãe não deveria se culpar pela morte; prometia cuidar do túmulo quando o verão chegasse. Era a carta de uma mulher que acreditava, com toda a sinceridade, ter feito a coisa certa. Mas a promessa nunca seria cumprida. Dois dias antes do enterro, um dos meninos do Kanaan havia contado algo à própria mãe durante uma visita.
O menino se chamava Louis: era o companheiro de quarto de Volmer e havia relatado que Volmer costumava dormir no quarto da diretora. A mãe de Louis achou aquela atitude estranha e foi direto a Møller Andersen, o fundador do Kanaan. Andersen era um homem que confiava em Vilhelmine com uma lealdade quase cega. Achou tudo um absurdo — “rumores de rua”, disse —, mas considerou justo avisá-la sobre o que andavam murmurando.
Procurou Vilhelmine pessoalmente para contar. A reação dela foi além do que ele esperava: por um instante, ela perdeu completamente o controle, ficou pálida, vacilou, pareceu que ia cair; recuperou-se depressa e negou tudo com indignação. Andersen interpretou aquilo como a reação de uma mulher honesta, horrorizada com uma calúnia.
Não poderia estar mais enganado. Poucos dias depois, Vilhelmine teve um colapso nervoso e foi internada no Hospital Municipal de Copenhague. Chegou delirando, gritando que estava sendo perseguida. Andersen, ainda convicto da inocência dela, foi à polícia pedir uma investigação oficial: queria limpar o nome da diretora do Kanaan de uma vez por todas.
Não imaginava que estava assinando a confissão dela. Quando Vilhelmine recebeu alta, em 22 de março, havia uma convocação esperando por ela na delegacia. O que era para ser uma formalidade rapidamente se transformou em outra coisa: as respostas eram inconsistentes, confusas, cheias de lacunas. Os investigadores, que haviam chegado convictos de que confirmariam a inocência dela em minutos, foram ficando cada vez mais desconfiados a cada resposta.
As perguntas foram ficando mais diretas. No terceiro interrogatório, ela quebrou: confessou que havia mantido por cerca de 8 meses uma conduta imprópria com Volmer Sjøgren. O silêncio que tomou conta da sala foi total, e uma suspeita nasceu: e se Volmer fora assassinado? Com aquela confissão, a polícia mandou exumar o corpo. O exame foi conclusivo:
Volmer não havia morrido de trombose; havia sido asfixiado. O Dr. Gottschalck havia feito um trabalho deplorável. Mas Vilhelmine negava o assassinato: interrogatório após interrogatório, ela negava. Confrontaram-na com o corpo de Volmer: ela olhou sem reagir e continuou negando. Vilhelmine foi presa. Eles queriam entender o que havia acontecido entre ela e Volmer.
Foi durante a missa de Páscoa na prisão que algo dentro dela cedeu. A liturgia, os hinos, o peso daquelas semanas de interrogatórios — tudo veio junto. No dia 3 de abril de 1893, Vilhelmine Møller confessou que havia matado Volmer Sjøgren. Quando perguntaram por quê, respondeu: “Eu havia destruído o menino. Então tirei sua vida para que ele pudesse ter uma vida no céu melhor do que a que eu esperava aqui na terra.”
Quando eles aprofundaram as perguntas, ficou claro que nada havia sido consumado. Ainda assim, eles não entendiam a motivação. Vilhelmine foi enviada ao presídio feminino de Copenhague: costurava, rezava, esperava. O assessor Bruun a visitava com regularidade, fazendo perguntas sobre o crime, sobre a relação com Volmer, sobre os anos no Kanaan.
Com o tempo, as perguntas foram ficando mais específicas. Os promotores tentavam entender a extensão do que havia acontecido entre ela e o menino. E aí surgiu algo que ninguém havia antecipado: Vilhelmine não sabia responder. Ficava confusa diante de questões sobre anatomia feminina, sobre como a intimidade física funcionava.
Era como se ela não conhecesse o próprio corpo. Os examinadores chegaram a uma conclusão perturbadora: não havia ocorrido intimidade consumada; não havia como ter ocorrido consumação. Aquela mulher de quase 50 anos parecia genuinamente desconhecer a anatomia que supostamente era a sua. Bruun ficou com uma suspeita que parecia absurda demais para ser dita, mas a voz grave, a estatura imponente, os fios grossos que teimavam em nascer no rosto de Vilhelmine — tudo aquilo o levava a uma pergunta que ele acabou fazendo diretamente numa das sessões de
interrogatório: “A senhora é um homem?” Vilhelmine reagiu com horror: “Sou quem sou. Uma mulher perto dos 50. Deus lhe perdoe, senhor juiz.” Mas o assessor não se convenceu. No dia 29 de setembro de 1893, Vilhelmine recebeu a ordem para se despir diante de Bruun, dos médicos da prisão e dos membros do corpo jurídico presentes.
Era uma humilhação terrível. Ela ficou parada, exposta, enquanto os homens ao redor examinavam o que havia sob as roupas — o corpo que ela havia habitado por quase cinco décadas sem que ninguém, nem ela mesma, tivesse olhado para ele dessa forma. O professor Stadfeldt, que conduziu o exame, encontrou o que não estava procurando.
Ao examinar Vilhelmine, viu o que parecia, à primeira vista, uma anatomia feminina: dobras de pele, uma fenda central. Mas, ao examinar mais de perto, percebeu que as dobras eram testículos não descidos e, entre eles, um falo muito pequeno, de cerca de 2 cm. Pela ciência médica do século XIX, a conclusão era direta:
onde há testículos, há um homem. Stadfeldt declarou que Vilhelmine não era mulher, nem hermafrodita: era um homem, ainda que de desenvolvimento anormal, mas absolutamente um homem. Em horas, os cabelos de Vilhelmine foram cortados à força. Suas roupas foram trocadas por vestes masculinas. O seu nome foi alterado de Vilhelmine para Vilhelm Møller, a versão masculina.
E ela foi transferida do presídio feminino para o masculino em Christianshavn, rogando para ficar separada dos outros presos por medo do que podiam fazer a ela. Era o que todos ao redor acreditavam ter descoberto: que a diretora do Kanaan era, na verdade, um homem que havia enganado a todos durante toda a vida —
uma acusação pela qual ele, já sendo oficialmente “ele” pela força do Estado, iria ser julgado. Vilhelmine estava aterrorizada: fora criada como mulher, vestida como mulher, vivera quase 50 anos como mulher; mas, ao mesmo tempo, estava resignada. Haviam dado um nome para aquelas estranhezas. Mas havia uma pessoa que ainda não havia falado. E é importante esclarecer que o que naquele tempo era visto como uma aberração em Vilhelmine hoje é reconhecido como a condição de intersexo, uma variação biológica natural do próprio corpo humano.
Segundo dados oficiais do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, cerca de 1,7% da população nasce com essas características. Para você ter uma ideia, isso é tão comum quanto nascer com cabelos ruivos. E vale reforçar um ponto crucial: ser intersexo nada tem a ver com orientação sexual.
É uma questão de biologia, de corpo, e não de atração. Infelizmente, a grande tragédia de Vilhelmine foi a sua época: o profundo desconhecimento médico e a falta de orientação da mãe em um mundo que não aceitava o que não conseguia rotular. Desde 1930, quando a Dinamarca registrou a primeira alteração reconhecida pelo Estado, muita coisa evoluiu.
Saímos de uma era de procedimentos médicos obrigatórios e invasivos para um acompanhamento focado na autonomia e na dignidade. Hoje, o foco é o respeito à escolha e à integridade de cada indivíduo. O julgamento foi um evento que sacudiu o país: Vilhelmine Møller era uma figura conhecida, associada às causas da luta feminina da época.
Agora estava sentada no banco dos réus, explicando que havia envenenado e asfixiado o adolescente que havia criado como filho. Durante o processo, quando os promotores já haviam estabelecido os fatos do crime, chegou a hora de uma testemunha que poucos haviam notado entre os convocados: Caroline Wilhelmine Møller era uma mulher velha e simples, sem instrução, que mal compreendia metade das perguntas que lhe faziam.
A mãe de Vilhelmine — a mesma mulher que havia chamado a própria filha de feia durante anos, que a havia mandado embora antes mesmo da confirmação, que nunca havia perguntado como ela estava —, quando tomou a palavra, disse algo que transformou tudo o que o tribunal acreditava saber. Caroline explicou que, quando Vilhelmine nasceu, havia olhado para o bebê e concluído que era uma menina.
Ela acreditava que órgãos masculinos, quando presentes desde o nascimento, pareciam com os de um homem adulto desde o primeiro dia. O que havia visto no recém-nascido era irreconhecível; havia dado à luz e estava convicta de que era uma filha, e havia criado Vilhelmine como menina porque era nisso que acreditava, sem qualquer dúvida de que ela era.
O tribunal ficou em silêncio. Aquela mulher sem instrução, confusa diante das perguntas formais do processo, havia revelado algo que mudava a natureza de tudo: Vilhelmine talvez nunca soubesse, em nenhum momento da vida, o que havia no próprio corpo. Havia crescido como menina porque era no que todos acreditavam; havia vivido como mulher porque era o que o mundo via.
A inadequação que sentia desde criança, a diferença sem nome que carregava, o desconhecimento da própria anatomia que havia confundido os interrogadores — tudo aquilo ganhava outro sentido com as palavras simples daquela mãe no banco de testemunhas. A inadequação não era dissimulação; era ignorância forçada.
E a culpa que havia transformado o afeto em catástrofe, o remorso que havia construído um raciocínio distorcido sobre salvar Volmer da corrupção — tudo aquilo havia crescido dentro de alguém que nunca tivera as ferramentas para entender o que era, o que sentia ou por que sentia. Não havia como saber se aquela revelação comoveu os juízes.
Mesmo assim, o veredito não mudou. Em 4 de março de 1894, Vilhelm Møller foi condenado à morte. A Suprema Corte confirmou a sentença em 22 de junho do mesmo ano. O advogado havia argumentado que o réu era uma vítima, alguém dividido entre dois mundos, forçado a viver numa existência que nunca correspondeu ao que sentia por dentro. O argumento foi rejeitado:
a deformidade não eliminava a responsabilidade, concluiu o tribunal. Mas então o rei Christian IX interveio. O monarca dinamarquês tinha o hábito de exercer clemência em casos que julgava extraordinários, e o de Vilhelm Møller claramente o era: por ordem real, a pena de morte foi comutada para prisão perpétua com trabalhos forçados.
Vilhelm foi mandado ao presídio de Vridsløselille em cela separada. Os outros presos o aterrorizavam; passava os dias costurando, já que não conhecia nenhuma atividade considerada masculina, e lendo a Bíblia. E ali anos se passaram. Os meninos do Kanaan cresceram, muitos já tinham seus próprios filhos e muitos ainda se lembravam de Vilhelmine com uma ternura que os anos não haviam apagado:
aquela figura estranha e imponente que brincava no pátio, que nunca os bateu, que os havia feito sentir amados por alguém. Em 1905, um número suficiente deles escreveu cartas ao rei pedindo a libertação de Vilhelm. Eles alegavam que a criação que receberam foi decisiva em suas vidas e, assim, o indulto foi concedido.
Oito dias depois de sair do presídio, Vilhelm Møller se casou. A noiva era Agnes Juliane Larsen, 13 anos mais jovem, que havia sido guarda no presídio feminino onde Vilhelmine havia cumprido os primeiros meses de pena. Agnes havia se tornado amiga de Vilhelmine; após a transferência para outro presídio, passaram anos trocando cartas.
Nesse período, Vilhelm foi adquirindo hábitos de sua nova condição — ou talvez da condição com a qual, de fato, havia nascido. Agnes foi visitá-lo algumas vezes e ali uma forte aliança de confiança e compreensão nasceu. Após ganhar a liberdade e se casar, viveram tranquilos e no anonimato. Vilhelm conseguiu trabalho como contínuo no escritório do advogado que havia conduzido sua defesa.
Em 1907, formalizou uma última mudança: trocou o nome oficialmente para Frederik Vilhelm Schmidt. Frederik e Agnes ficaram juntos até a morte dela, em 1925. Ele viveu mais 11 anos, morrendo em 24 de dezembro de 1936, em Vangede, aos 91 anos de idade. Quando perguntavam a Vilhelm como se identificava, a resposta era sempre a mesma: “Um ser humano duplo.”
Era a única definição que parecia honesta, uma que não escolhia um lado nem negava o outro; uma que reconhecia que havia vivido dentro de uma contradição que o mundo do século XIX não tinha instrumentos para compreender — e que talvez tenha custado a vida de um menino de 15 anos que não tinha culpa de absolutamente nada disso.
Volmer Sjøgren está enterrado no Vestre Kirkegård, num túmulo do qual Vilhelmine prometeu cuidar quando o verão chegasse. O verão chegou; ela não voltou. Mas a contradição não matou Volmer Sjøgren: Vilhelmine o matou. A ignorância sobre si mesma foi real, o isolamento foi real, a culpa que virou paranoia e o remorso que se transformou em raciocínio distorcido — tudo isso foi real.
E ainda assim, entre tudo o que Vilhelmine não sabia sobre si mesma, havia uma coisa que ela sabia perfeitamente: o que estava fazendo naquela noite. Planejou cada detalhe do funeral com o mesmo cuidado com que planejou a morte: escolheu as flores, escreveu os salmos, costurou o travesseiro e, em nenhum momento, nem antes nem depois, pareceu entender a diferença entre as duas coisas.
Volmer Sjøgren tinha 15 anos, uma vaga de aprendiz esperando em Roskilde e a vida inteira pela frente. Qualquer que fosse a dor de Vilhelmine — real, incompreendida, sem nome —, foi ele, apenas ele, quem pagou por ela.