“O carro estava encomendado e você estava sequestrada”: O chocante relato da idosa que sobreviveu ao “Golpe do Don Juan” e a uma tentativa de assassinato em um penhasco em Santa Catarina.
O universo dos relacionamentos amorosos e da busca por companhia na terceira idade esconde, muitas vezes, perigos silenciosos que desafiam a ingenuidade e a boa-fé das vítimas. No litoral de Santa Catarina, uma noite de lazer que prometia ser o início de uma agradável amizade transformou-se rapidamente em um verdadeiro filme de terror psicológico e físico. Um criminoso com uma ficha criminal extensa e uma habilidade incomum para a manipulação emocional utilizou o clássico e nefasto “Golpe do Don Juan” para enredar uma mulher de 71 anos, culminando em um sequestro brutal, tortura psicológica e o abandono da vítima à própria sorte em uma ribanceira íngreme. O caso, que chocou o país e mobilizou forças de segurança em uma verdadeira corrida contra o relógio, expõe a frieza de predadores sociais que rondam locais de socialização idosos em busca de vulnerabilidades, transformando promessas de afeto em ferramentas de extorsão e violência extrema.

A sedução calculada nos salões de dança de São José
A história teve início em um tradicional salão de bailes localizado na cidade de São José, na região metropolitana de Florianópolis. A vítima, uma idosa ativa que frequentava o estabelecimento em busca de momentos de distração e convívio social, foi abordada por um homem carismático, polido e aparentemente interessado em sua companhia. Apresentando-se de forma calorosa, o suposto pretendente puxou conversa, convidou-a para dançar e fez questão de demonstrar uma atenção exagerada, criando rapidamente uma atmosfera de romance e complicidade que parecia saída de um conto de fadas. O que a mulher não sabia era que aquela abordagem não passava do resultado de um planejamento meticuloso. Conforme apurado pelas investigações policiais, o agressor frequentava o mesmo estabelecimento há semanas com o único objetivo de estudar a rotina da vítima, mapear seus hábitos e escolher o momento ideal para desferir o bote. Utilizando falsas identidades e narrativas envolventes sobre sua suposta vida profissional, ele conquistou a confiança da idosa, preparando o terreno para a tragédia que se desenharia nos dias seguintes.
Do suposto romance ao cativeiro e à descida ao inferno
O que parecia ser o desabrochar de um relacionamento tardio e promissor transformou-se em pesadelo quando o casal iniciou uma viagem por diversas cidades catarinenses, passando por destinos turísticos como Balneário Camboriú, Itapema, Itajaí, Penha, Piçarras e Gaspar. Durante o trajeto, a máscara do sedutor caiu por completo. Sob o pretexto de que o veículo da idosa já estava encomendado por terceiros, o criminoso revelou suas reais e sinistras intenções, anunciando o sequestro. A mulher foi rendida, brutalmente agredida, amarrada com fita adesiva e lacres plásticos conhecidos como “enforca-gato”, e trancada no porta-malas do próprio automóvel, onde permaneceu incomunicável por cerca de três horas. O terror culminou em uma área de mata fechada e relevo acidentado, onde o falso Don Juan a arrastou para a beira de uma ribanceira de aproximadamente duzentos metros de profundidade. Jogada no vazio da vegetação densa e úmida, a idosa viu-se sozinha, ferida, submetida a temperaturas congelantes e lutando desesperadamente pela sobrevivência em meio à escuridão da noite.
A operação de resgate e a dramática luta contra a hipotermia
Enquanto a vítima passava horas terríveis deitada sobre o solo úmido e gelado, enfrentando chuvas insistentes e um frio avassalador que ameaçava sua vida a cada minuto, a família percebeu o sumiço repentino e acionou imediatamente as autoridades policiais. O desaparecimento mobilizou equipes especializadas de resgate que refizeram minuciosamente cada passo do trajeto percorrido pelo casal. A operação foi marcada pela dificuldade de acesso ao terreno íngreme, exigindo o uso de cordas e técnicas avançadas de salvamento em áreas de mata fechada. Quando os policiais finalmente localizaram a idosa, ela já se encontrava em estado de hipotermia severa, apresentando tremores incontroláveis, hematomas espalhados pelo corpo e uma fraqueza extrema nas pernas que a impossibilitava de ficar de pé. Os socorristas foram unânimes em afirmar que, se o resgate tardasse por mais algumas horas, o desfecho teria sido fatal. A força de vontade da mulher em conseguir se desvencilhar parcialmente das amarras e emitir gritos débeis de socorro foi o elemento crucial que permitiu sua localização a tempo, salvando-a de uma morte certa no fundo do precipício.
O passado criminoso e a rede de enganos do falso galã
A fuga do agressor durou pouco tempo. Localizado e preso em flagrante pelas equipes de segurança no norte do estado, mais precisamente na cidade de Joinville, onde tentava se esconder no telhado de uma empresa, o criminoso foi identificado como Maicon de Moura, de 42 anos. Em seu depoimento inicial, ele tentou justificar a barbárie alegando estar sob forte pressão de facções criminosas devido a dívidas acumuladas. No entanto, a checagem de seus antecedentes revelou uma realidade ainda mais alarmante: tratava-se de um criminoso contumaz, acumulando dezenas de condenações judiciais por crimes de roubo, estelionato e furto, com especialização no famigerado “Golpe do Don Juan”, voltado primordialmente para a exploração financeira de mulheres viúvas e idosas vulneráveis. O depoimento de sua ex-noiva, que manteve um relacionamento de seis meses com ele sem conhecer sua verdadeira face, escancarou o modus operandi do farsante. A mulher relatou que o falso príncipe encantado utilizava a própria residência como base de operações para aplicar golpes em amigos e familiares dela, subtraindo somas expressivas de dinheiro sob falsas promessas de venda de veículos e investimentos fraudulentos.
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A reconstrução da vida e a esperança de justiça
Enquanto o criminoso permanece recluso sob acusações formais de roubo qualificado, extorsão e sequestro, a vítima segue o seu processo de reabilitação física e psicológica cercada pelo apoio incondicional da família. A Polícia Civil continua aprofundando as investigações para apurar se houve a participação de cúmplices, como funcionários do estabelecimento de entretenimento que possam ter repassado informações privilegiadas sobre a frequentadora. O caso serve como um alerta doloroso, porém necessário, sobre os perigos da vulnerabilidade emocional na maturidade e a astucia de criminosos que mascaram a crueldade sob a fachada do romantismo. Para aqueles que cruzaram o caminho do falso sedutor catarinense, resta agora o alívio de vê-lo atrás das grades e a esperança coletiva de que sua capacidade de causar novos danos tenha sido definitivamente neutralizada pela justiça.