“Notificação que chegou aqui é que Bigão vai acabar com a Milícia”: A ascensão e queda do homem de guerra que redesenhou o conflito na Zona Oeste do Rio.
A disputa territorial que consome o Rio de Janeiro é um campo fértil para a criação de lendas e nomes temidos que ecoam pelas vielas e repercutem em todo o estado. Na Zona Oeste e na região Sudoeste, a dinâmica do conflito adquiriu contornos cada vez mais intensos e mortais, transformando bairros inteiros em campos de batalha disputados metro a metro pelo Comando Vermelho, pelo Terceiro Comando Puro e por diversas facções milicianas. No meio desse fogo cruzado, figuras ascendem rapidamente na hierarquia das organizações criminosas, conquistando poder e notoriedade através de táticas violentas e audaciosas. Entre esses personagens, um nome se destacou recentemente de forma meteórica: Juan Rodrigues da Silva, popularmente conhecido pelo vulgo de Bigão. Sua trajetória, desde a exclusão de um grupo miliciano até assumir o papel de líder dos “baques” do Comando Vermelho, revela as complexas engrenagens da guerra por território no Rio de Janeiro e ilustra a descartabilidade da vida no submundo do crime.

A ruína da inocência e o falso acolhimento das ruas
Muito antes de ostentar armamento pesado e ser reconhecido como uma liderança impiedosa nas trincheiras cariocas, Juan era apenas um adolescente comum, movido por sentimentos genuínos e um forte apego familiar. Aqueles que conheceram o garoto em seus primeiros anos relatam a imagem de um jovem sensível, cuja inocência foi precocemente estilhaçada por uma sucessão de tragédias implacáveis. O declínio de sua vida começou quando o pai, após se envolver perigosamente com dívidas e falsas promessas de criminosos locais, foi brutalmente assassinado. O choque da perda desestruturou o lar de forma irreversível: consumida pelo desespero e incapaz de lidar com o luto e a miséria iminente, a mãe abandonou a casa, deixando Juan completamente à mercê da própria sorte. Sem teto e atormentado pela fome, o menino passou a vagar a esmo pelas ruas, lutando instintivamente pela sobrevivência diária. Foi em meio a essa vulnerabilidade extrema que o submundo lhe estendeu uma falsa mão acolhedora. Recolhido por membros de uma gangue local que lhe ofereceram comida e um distorcido senso de pertencimento, Juan encontrou no crime a única “família” disposta a adotá-lo. No entanto, o preço desse resgate foi a sua empatia. A convivência diária com a violência, as leis das ruas e a necessidade de provar seu valor aos seus novos protetores corroeram gradativamente seus laços afetivos, moldando-o de forma cruel até transformar o adolescente de coração mole na figura fria, sanguinária e implacável que o estado viria a conhecer.
A origem e a recusa do fuzil no berço da Milícia
A história de Juan Rodrigues da Silva começou na região da Curicica, um dos bairros que compõem a vasta e complexa área administrativa de Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio. Essa localidade é historicamente conhecida como um dos grandes berços da milícia. A expansão miliciana, que teve início em bairros como Campo Grande, rapidamente se espalhou por toda a bacia de Jacarepaguá, consolidando um modelo de exploração de serviços e controle territorial que dominou a região por muitos anos. Foi nesse ambiente, rodeado pela presença ostensiva de grupos paramilitares, que o jovem Juan deu seus primeiros passos no mundo da criminalidade.
No entanto, diferentemente da maioria dos jovens recrutados pelo tráfico ou pela milícia, o caminho inicial de Juan não envolvia o uso de armamento pesado ou o confronto direto. Ele optou por atuar na modalidade do estelionato, uma atividade conhecida no jargão criminal como “artigo 171” ou “17 de ano”. Suas ações focavam-se em fraudes, como a clonagem de cartões de crédito e a aplicação de pequenos golpes financeiros. A ideia de portar um fuzil e entrar na linha de frente do combate armado não fazia parte dos planos de Juan, que preferia a atuação silenciosa e menos arriscada dos crimes contra o patrimônio. Contudo, as engrenagens do crime organizado não costumam respeitar as preferências individuais.
A expulsão, o recrutamento compulsório e o pulo do muro
A permanência de Juan na milícia local chegou a um fim abrupto devido a circunstâncias que permanecem nebulosas nas investigações. O que se sabe com clareza é que o jovem estelionatário foi sumariamente expulso de sua própria comunidade pelos antigos aliados. No mundo do crime, a expulsão é frequentemente acompanhada por ameaças de morte, o que obriga o indivíduo a buscar proteção e refúgio em organizações rivais. E foi exatamente isso que Juan fez. Ao ser expulso, ele foi recrutado compulsoriamente pelo Comando Vermelho, a facção que há décadas tenta retomar o controle da Zona Oeste.

A partir do momento em que “pulou o muro”, a vida de Juan, agora rebatizado como Bigão, mudou radicalmente. O estelionatário que recusava fuzis precisou se adaptar rapidamente à realidade sanguinária da linha de frente. Aproveitando seu profundo conhecimento da geografia local e das vulnerabilidades das milícias da Curicica, o Comando Vermelho viu nele um trunfo estratégico inestimável. Bigão não apenas aceitou o fuzil, mas também se destacou, assumindo a liderança de um grupo tático especializado em invasões e ataques surpresa, conhecido como a “Tropa dos 700”.
A Tropa dos 700 e a tática de guerra dos Baques
Sob o comando de Bigão, a Tropa dos 700 tornou-se a ponta de lança do Comando Vermelho na região da Jacarepaguá. O grupo era formado majoritariamente por “crias”, jovens originários das próprias comunidades dominadas pelas milícias que, assim como Bigão, haviam sido expulsos e possuíam sede de vingança e conhecimento privilegiado do território. A tática de guerra adotada pela Tropa era o “Baque”. No vocabulário criminal carioca, o baque consiste em uma incursão rápida, violenta e secreta atrás das linhas inimigas. O objetivo principal não é necessariamente ocupar e manter a comunidade a longo prazo, mas sim causar baixas físicas, eliminar gerentes e soldados inimigos, além de gerar imensos prejuízos financeiros através do roubo de armamentos e de estoques de entorpecentes.
A eficácia de Bigão na liderança desses baques logo chamou a atenção da cúpula da facção. Ele passou a ser comparado a figuras lendárias do crime, como o traficante Caioba, famoso por suas incursões letais e precisas. A Tropa dos 700, armada com um poder de fogo assustador, conseguiu desferir golpes duros contra os grupos milicianos, eliminando lideranças significativas e enfraquecendo a resistência paramilitar em pontos cruciais. Bigão, que começou relutante à violência física, havia se transformado em um dos comandantes de guerra mais letais do Comando Vermelho na atualidade.
O cinturão estratégico e o projeto de hegemonia do CV
A ascensão de Bigão não pode ser compreendida isoladamente; ela faz parte de um plano estratégico amplo e ambicioso do Comando Vermelho para estabelecer a hegemonia na Zona Oeste. O mapa do conflito revela que a lendária Cidade de Deus atua como o principal reduto e a base de operações inexpugnável do Comando Vermelho na região. A partir dessa fortaleza, a facção iniciou um projeto de expansão meticuloso, avançando sobre áreas historicamente controladas por milicianos e pelo Terceiro Comando Puro.
A estratégia do Comando Vermelho consiste em formar um cinturão de segurança ao redor da Cidade de Deus, tomando localidades vizinhas como partes da Gardênia Azul, Praça Seca e Anil. O papel de Bigão e de sua tropa era fundamental nesse avanço, especialmente no intuito de invadir as comunidades da Curicica e impedir que as milícias se reorganizassem para atacar a base principal da facção. Além da Curicica, áreas como Rio das Pedras e a populosa Taquara tornaram-se alvos prioritários, com o objetivo final de projetar forças em direção ao entorno de Vargem Pequena, Vargem Grande, Guaratiba e o gigante bairro de Campo Grande, onde se concentra um grande contingente populacional e um imenso mercado de extorsão e comércio ilegal.

A arrogância, o confronto final e a efemeridade do poder
Com o sucesso das invasões e a conquista de território, Bigão adotou o comportamento típico das novas gerações do crime: a ostentação ostensiva. O traficante de pouco mais de vinte e três anos passou a utilizar vídeos para exibir o poderio bélico de sua tropa e proferir ameaças diretas contra seus inimigos. Um de seus principais alvos de intimidação era André Costa Barros, conhecido como André Boto, um miliciano histórico e influente na região da Taquara. A fama de Bigão cresceu a ponto de ele ser citado em comunicações de figuras influentes no meio criminal da internet.
No entanto, a superexposição nas redes e o papel de liderança nas investidas violentas cobraram um preço rápido. A inteligência das Polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro já havia mapeado a movimentação de Bigão, que passou a utilizar a Cidade de Deus, mais especificamente a área dos apartamentos, como seu refúgio seguro. O cerco começou a se fechar em cinco de agosto de 2026. Durante uma abordagem realizada por agentes do 18º Batalhão da Polícia Militar na região Oeste, Bigão, que se encontrava em uma motocicleta na companhia de outro suspeito, recusou-se a acatar as ordens legais e iniciou um intenso confronto armado.
O confronto resultou na morte de Juan Rodrigues da Silva, o temido Bigão, enquanto seu comparsa conseguiu fugir em meio à confusão. A notícia da morte daquele que liderava a guerra na Zona Oeste reverberou de imediato por todos os morros do Rio de Janeiro. A baixa foi sentida como um duro golpe para o Comando Vermelho, mas a cruel realidade do crime organizado logo tratou de mostrar que a engrenagem não para. Se a morte de um comandante estratégico impõe uma perda temporária, a estrutura das facções rapidamente providencia uma substituição. A Tropa dos 700 e a disputa implacável por cada milímetro de asfalto da Zona Oeste seguirão seu curso sangrento, reafirmando que no mundo do crime os reis são temporários, mas a guerra parece ser eterna.