MONSTRO DE SAIA QUERIA CASAR – FERA DA PENHA
Mas Neyde gostava também de ler Nelson Rodrigues; era fã de crônicas como A Vida Como Ela É…, onde há, inclusive, citações sobre vingança. E, como se tudo isso não bastasse, o fato de Neyde passar noites e noites lendo e horas debaixo do chuveiro lhe rendia repreensões do pai por causa da conta de luz que teria de pagar no final do mês.
Esses são os relatos que se têm sobre ela nessa fase, que pouco a pouco se tornava um prato cheio para a mídia, justamente por fugir do modelo de mulher tradicional que era visto com bons olhos pelos homens da época para o casamento.
Apesar de tudo, Neyde teve um namorado, um rapaz chamado William, mas com o tempo os dois não se acertaram. Relatam os registros da época que Neyde era uma mulher de personalidade forte e opiniões firmes. Ela teria justificado o término do namoro com William pelo fato de ele ser excessivamente ciumento.
Dona de si e diferente da maioria das figuras femininas representadas na época, aos 22 anos completos, em 1959, trabalhava como comerciária — nome dado a quem atuava no comércio atendendo ao público, vendendo e operando no caixa. Neyde pegava transporte público sozinha, sem a companhia de ninguém; muito corajosa e independente, ia para o trabalho na loja Ducal, localizada no centro do Rio de Janeiro.
Essa loja era de uma rede muito famosa na época, com filiais em vários estados, voltada ao vestuário masculino e que, no auge das décadas de 1950 e 1960, era a preferida dos homens. Depois de um dia exaustivo, lá estava Neyde voltando para casa: pegava o trem na estação Dom Pedro II, no centro do Rio, e deslocava-se até o bairro de Jacarepaguá, onde morava.
E ali estava aquela mulher fumante — até porque, na época, fumar era moda e trazia um ar de autonomia. Neyde era fumante compulsiva. Dizem que não depilava as pernas, gostava de assistir a provas de ciclismo e interessava-se por leituras policiais, hábitos incomuns para as mulheres daquele período.
Definitivamente, ela não correspondia ao ideal feminino visto pelos homens, transmitindo sempre a postura de quem era dona de si. Pelo trajeto até chegar em casa, segundo contam os jornalistas, ela ia lendo A Vida Como Ela É…. Todo dia a mesma rotina, uma vida morna, sem grandes distrações, amizades ou divertimentos além das leituras.
Até que um dia Neyde percebeu um homem que estava sempre no mesmo horário e local da estação que ela. Sentiu que alguém a observava e notou que aquele homem a olhava com frequência. Tratava-se de Antônio Couto Araújo, nascido no dia 3 de março de 1933, com 26 anos na época e natural
da cidade de Conceição do Coité, no estado da Bahia. Havia se mudado para o Rio de Janeiro para trabalhar como motorista particular no Bairro de Fátima, servindo a Renato Mascarenhas Branco, ligado à Comissão do Vale do São Francisco, um importante órgão federal sediado na capital fluminense. Para Neyde, perceber que estava sendo observada foi algo marcante:
estava chamando a atenção de alguém de modo natural, sendo ela mesma. Não conhecia o homem, mas as trocas de olhares trouxeram um clima de romance à estação. No trajeto de sempre, começou a paquera discreta, e a condução diária passou a ser o momento mais esperado do dia por ela.
Até que um dia Antônio tomou a iniciativa: aproximou-se de Neyde, apresentou-se e puxou conversa, deixando claro que tinham um gosto em comum, que eram as crônicas de Nelson Rodrigues. Conversaram no dia seguinte e nos outros que se seguiram; falaram sobre muitos assuntos, em uma fase inicial onde tudo era novidade e encantamento.
O que começou com uma simples conversa evoluiu para encontros casuais que ocorriam diariamente no horário de almoço, em um apartamento cedido por um amigo de Antônio. Este amigo emprestava o espaço para que Antônio se encontrasse com a jovem. Antônio, contudo, não parecia nutrir sentimentos profundos por ela, agindo de forma leviana.

Assumia uma postura galanteadora típica da época para manter relacionamentos paralelos. Em contrapartida, a relação era vista com grande seriedade por Neyde que, conforme relataria posteriormente, encontrou em Antônio um afeto que não tivera na infância.
A cada dia que passava, ela ficava mais apaixonada por ele. Ia aos encontros na esperança de que, a qualquer momento, ele a pedisse formalmente em namoro e frequentasse a casa de seus pais. Sonhava com um futuro ao lado dele, enquanto os meses se passavam sem nenhum pedido formal de compromisso. E claro que não haveria pedido algum, pois Antônio já era casado.
A esposa de Antônio chamava-se Nilza Coelho Araújo, dona de casa natural do Rio de Janeiro, com quem ele vivia no bairro da Piedade. Nilza, durante a infância, estudou no Colégio Duque de Caxias com um de seus irmãos, Antônio Coelho. Casada havia alguns anos com Antônio Couto Araújo, o casal tinha duas filhas: a primogênita Solange, de 5 anos e meio, e Tânia Maria, carinhosamente chamada de Taninha, então com 4 anos.
Nilza passava a maior parte do dia dedicada aos afazeres domésticos, cuidando das filhas e esperando o retorno do marido. Levavam uma vida comum e dentro da normalidade da maioria das famílias. Nilza era uma mãe dedicada, cuidadosa e atenta ao bem-estar do lar.
Ela não percebia nada de anormal no casamento. Para ela, o marido saía para trabalhar e voltava para casa regularmente. A família era vista pelos vizinhos como um lar tranquilo e estruturado: o marido sustentava a casa e a mulher cuidava do lar, sem que houvesse qualquer rumor depreciativo sobre eles. Mal sabia Nilza que o marido mantinha uma amante havia vários meses.
Até que um dia, no fim do ano de 1959, de forma inesperada, enquanto Neyde estava completamente apaixonada por Antônio e convicta de que o relacionamento logo evoluiria, foi abordada na rua por um homem de cerca de 50 anos. Este senhor a alertou para que tomasse cuidado, pois Antônio levava uma vida dupla:
era casado e pai de duas meninas. Neyde foi tomada por uma fúria imediata; relutou em acreditar, mas, desconfiada de que a informação pudesse ser real, passou a seguir o namorado após os encontros.
Até que, em uma dessas ocasiões, descobriu onde ele morava: observou o homem entrando em uma casa simples na Rua Antônio Vargas, número 108, no bairro da Piedade. Neyde averiguou e confirmou a existência da esposa Nilza e das filhas, sentindo um misto de traição, raiva e humilhação por ter sido enganada enquanto acreditava construir uma relação sólida.
Após essa descoberta, o sentimento de afeição transformou-se em revolta e em uma ideia fixa de vingança. Contudo, ela não fez escândalo na porta da casa nem rompeu o relacionamento imediatamente; continuou comparecendo aos encontros rotineiros, mesmo abalada.
Seguiu frequentando o apartamento do amigo de Antônio até que, alguns dias depois, não conteve o desabafo e confrontou o parceiro, afirmando que sabia sobre o casamento dele. Antônio calou-se, sem ter como negar a vida que levava.
Ele abaixou a cabeça e permaneceu em silêncio. Neyde deu-lhe um ultimato, exigindo que se separasse da esposa para assumir uma vida com ela, estipulando inclusive o prazo de uma semana. Antônio, apavorado e ardiloso, tentou ganhar tempo com promessas de que deixaria a família, mas alegando que a separação não poderia ocorrer de forma repentina.
Pediu paciência a Neyde. A amante, ciente agora de sua condição, cedeu aos apelos por ainda nutrir sentimentos por ele. No primeiro momento, acreditou que valeria a pena insistir na relação, deixando o futuro ao acaso.
Contudo, a situação pesava muito sobre a consciência de Neyde devido aos valores morais com que fora criada. Sabia que manter um relacionamento com um homem casado era visto como algo desonroso perante a sociedade e temia profundamente a decepção de seus pais caso viessem a descobrir.
Neyde continuou mantendo os encontros, mas, à medida que os dias passavam, cobrava com frequência que Antônio tomasse uma atitude definitiva e assumisse o compromisso publicamente. Ele, por sua vez, continuava adiando a decisão com justificativas evasivas.
Essas constantes desculpas passaram a incomodar profundamente Neyde. Perturbada, teve a ideia de se aproximar da esposa de Antônio. Investigou a rotina da mulher a fim de encontrar um pretexto para estabelecer contato e, certo dia, dirigiu-se à residência da família.
Foi até lá ciente de que o amante não estaria no imóvel. Foi atendida pela própria Nilza, ocasião em que Neyde se apresentou usando também o nome de “Nilza”. Disse que havia ido até lá fazer uma surpresa, acompanhada em tese por uma amiga chamada Jane.
Afirmou que ambas haviam combinado de procurá-la por terem sido colegas de turma no primário do Colégio Duque de Caxias. Inventou que a tal amiga não pôde comparecer por ter de cuidar da avó doente, mas que ela decidira manter a visita.
Todas aquelas informações soaram estranhas para Nilza, esposa de Antônio, pois seria difícil esquecer o rosto de uma antiga colega de escola com o mesmo nome que o seu. Ainda assim, sem jeito diante da intimidade com que a visitante falava, acabou por convidá-la para entrar e tomar um café.
Por meio dessa abordagem, as duas iniciaram conversas e aproximaram-se. Gradativamente, a dona de casa passou a confiar na mulher que batera à sua porta dizendo ser sua antiga colega de classe.
Neyde, usando a falsa identidade, comentou que estava interessada em Nelson, irmão de Nilza que também estudara naquela instituição. A esposa de Antônio empolgou-se com a possibilidade de se tornarem cunhadas, e a convivência entre as duas intensificou-se sem que Antônio soubesse que a amante frequentava seu próprio lar.
Apresentando-se como uma amiga solícita, Neyde conheceu as duas filhas do casal, Solange e Tânia Maria. Passou a levar doces, brinquedos e pequenos presentes para as meninas, que passaram a chamá-la de “tia”. Neyde agia de forma calculada, aproveitando os diálogos para obter detalhes sobre Antônio, sua rotina e seu trabalho. Em dado momento, chegou a indagar a Nilza quem o marido mais amava no mundo.
Nilza respondeu com sinceridade que o maior amor da vida do marido era, sem dúvida, a caçula Tânia Maria, a menina dos olhos do pai e seu xodó absoluto. Ficou claro para a amante qual era o ponto mais sensível de Antônio.
A imprensa da época relatou que tais passos faziam parte de uma estratégia de Neyde para manipular Antônio, enquanto este continuava sua vida dupla de chefe de família no lar e de amante fora dele, utilizando o veículo do trabalho para passear com Neyde, que fingia desconhecer a rotina familiar do parceiro.
Embora Antônio nada desconfiasse da aproximação entre as duas, a relação com a amante começou a se desgastar. A situação agravou-se cerca de um mês após a primeira visita de Neyde à casa da família, quando ela descobriu estar grávida. O sentimento descrito por ela foi um misto de tristeza e euforia.
Em um encontro noturno com Antônio, tomou coragem e revelou que seria mãe, disposta a enfrentar a reação dos pais e criar a criança caso recebesse o apoio necessário. No mesmo instante, o homem exigiu que ela interrompesse a gestação, gerando uma áspera discussão que resultou em agressões físicas mútuas.
Neyde sustentava a intenção de manter a gravidez, mesmo que tivesse de assumir a maternidade sozinha e sem revelar a paternidade aos pais. Antônio, porém, recusou taxativamente a existência de um filho extraconjugal e decidiu intervir de maneira abrupta.
Antônio fingiu um arrependimento temporário e, dias depois, convidou-a para um passeio em Botafogo sob o pretexto de apresentá-la a um amigo. Neyde acreditou e o acompanhou até um imóvel na Rua Voluntários da Pátria, onde percebeu tarde demais que se tratava de uma clínica clandestina.
Ela foi sedada e submetida a um procedimento forçado de interrupção da gravidez, sem o seu consentimento. Nos dias seguintes, enfrentou dores intensas, hemorragias e profundo abalo psicológico. Quatro dias após o ocorrido, os dois voltaram a se encontrar, com Antônio demonstrando crescente frieza e distanciamento.
Os encontros tornaram-se esporádicos. Cerca de um mês após o aborto forçado, Antônio continuou agindo com cinismo, chegando a perguntar ironicamente pela criança. Esse comportamento alimentou em Neyde um ódio profundo contra ele, fazendo-a constatar que não havia nele qualquer consideração, amor ou respeito.
Neyde perguntou a Antônio se ele realmente amava a esposa e as filhas. Ele assustou-se quando ela citou o nome de Nilza, informação que jamais lhe havia transmitido. Diante do espanto do amante, Neyde revelou que já estivera em sua casa, conhecia toda a família e ameaçou atacá-los caso ele não deixasse o lar para casar-se com ela.
Antônio não levou a ameaça a sério e não relatou os fatos à esposa para não admitir o caso extraconjugal. Paralelamente, Neyde foi visitar uma antiga conhecida, Zizélia, que morara de aluguel em um imóvel de sua avó e residia em um apartamento no conjunto habitacional do IAPI, próximo ao Matadouro da Penha.
Zizélia era casada e vivia nas imediações do grande complexo do matadouro municipal, que ocupava extensas áreas entre a Penha, Olaria e Ramos.
O local de abate gerava grande descarte de vísceras e resíduos orgânicos, ambiente que naturalmente atraía urubus para a alimentação de carniça. Aquela paisagem chamou a atenção de Neyde.
Ela começou a planejar uma ação no local e buscou informações sobre o destino dado aos restos dos animais abatidos. Ao saber que as aves consumiam a matéria orgânica rapidamente, vislumbrou ali o cenário propício para consumar um crime.
Os fundos do matadouro consistiam em um terreno íngreme, ermo e totalmente desprovido de iluminação durante a noite, oferecendo o isolamento necessário para a execução do plano sem testemunhas. Determinada a levar a cabo o intento, comprou um revólver calibre 22 em uma loja de armas.
Posteriormente, avaliando que o calibre poderia ser ineficaz, retornou ao estabelecimento dias depois e trocou a arma por um revólver calibre 32. No dia 30 de junho de 1960 — dia seguinte às comemorações de São Pedro —, pôs o plano em prática.
Neyde saiu de casa por volta do meio-dia, pegou uma lotação até Cascadura, errou o trajeto inicial, tomou outra condução e seguiu para a Piedade. Entrou em uma confeitaria e telefonou para a escola onde a filha de Antônio estudava. Taninha frequentava o Instituto Joemar, localizado na Rua Gonçalo Coelho, número 233, no bairro da Piedade.
A instituição atendia à educação infantil em uma estrutura residencial adaptada, com poucos alunos e sem linha telefônica própria, utilizando o telefone de uma vizinha para recados urgentes.
Neyde ligou para esse contato apresentando-se falsamente como Nilza, mãe da aluna, e afirmou autorizar uma amiga de nome “Odete” a buscar a criança para uma suposta consulta médica. Em seguida, dirigiu-se à escola. Ao avistar Neyde, a menina Taninha alegrou-se e a chamou de “tia”, acompanhando-a sem qualquer desconfiança.
Neyde retirou a menina do colégio pouco depois do meio-dia e passou a caminhar com ela pelas ruas do Rio de Janeiro durante horas, percorrendo diversos bairros e comprando doces para distraí-la enquanto aguardava o anoitecer.
Por volta das 14h, Nilza compareceu ao Instituto Joemar para levar o lanche da filha e foi informada pela diretoria de que a criança havia sido retirada por uma mulher identificada como “Odete”.
A direção explicou o telefonema supostamente feito pela mãe. Desesperada, Nilza esclareceu que não havia realizado ligação alguma e que alguém se passara por ela. A diretora reiterou que a criança acompanhara a mulher voluntariamente, chamando-a de “tia”.
Consta ainda nos relatos da época que Neyde, durante o percurso com a criança, teria telefonado de forma anônima para Nilza, gerando pânico ao afirmar que a menina fora sequestrada. Em estado de desespero, a mãe dirigiu-se prontamente à delegacia para registrar a ocorrência.
As buscas policiais foram iniciadas com base no nome fictício fornecido no colégio. A ausência de sistemas modernos de comunicação e monitoramento permitiu que Neyde circulasse com a criança por cerca de seis a sete horas sem ser interceptada.
Neyde levou a menina até o apartamento de Zizélia, na Penha. Como a moradora ainda não havia retornado do trabalho, ambas aguardaram no corredor. Ao entrarem no imóvel, a menina tentou olhar pela janela do apartamento, que ficava em andar alto, mas não alcançava o parapeito devido à baixa estatura.
Neyde aproximou um banquinho para a criança subir, atitude repreendida de imediato por Zizélia pelo risco de queda. Indagada sobre a identidade da menina, Neyde alegou tratar-se da filha de uma amiga de Cavalcanti.
Em seguida, pediu uma tesoura emprestada a Zizélia e cortou uma mecha do cabelo da criança, ignorando os protestos da anfitriã, embrulhou a mecha em um papel e guardou-a dentro de sua bolsa.
O esposo de Zizélia chegou pouco depois, e a anfitriã ofereceu jantar. Neyde recusou a refeição para si, mas alimentou a menina com um copo de leite. Despediu-se do casal e deixou o apartamento por volta das 20h. Já na rua, durante a noite, caminhou com a criança até um armazém.
No estabelecimento, comprou um frasco de álcool. Questionada com curiosidade pela menina sobre a utilidade do líquido, respondeu que o remédio serviria caso ela sentisse alguma dor. Em seguida, comprou pipoca para a menina; ambas sentaram-se em um banco público e, depois, seguiram em direção aos fundos do Matadouro da Penha.
O local encontrava-se totalmente deserto e às escuras. Ao chegarem ao terreno íngreme, Neyde conduziu a menina à sua frente; a criança tropeçou no pasto e sujou-se de lama, começando a chorar com dores nas costas.
Nesse momento, Neyde sacou o revólver calibre 32 e efetuou um disparo contra a cabeça da criança, atingindo a região da nuca. O barulho do tiro chamou a atenção de operários que trabalhavam no turno da noite do matadouro, os quais avistaram ao longe apenas o início de uma fogueira.
Após o disparo, Neyde despejou o álcool sobre o corpo da menina e ateou fogo, fugindo em seguida. Os funcionários avistaram um vulto correndo na escuridão, mas, supondo tratar-se de uma queima rotineira de lixo, retornaram ao trabalho sem verificar a fogueira de imediato.
Paralelamente, a equipe policial investigava o rapto. Antônio, ao ouvir a descrição física da mulher que retirara sua filha do colégio, desconfiou de que se tratava de Neyde.
Pressionado pelo sumiço da filha, Antônio confessou ao delegado e à esposa que mantinha um relacionamento extraconjugal com Neyde e relatou as ameaças que vinha sofrendo para abandonar o lar. Antônio forneceu aos policiais o endereço residencial de Neyde.
A polícia dirigiu-se ao prédio onde ela residia com os pais em Jacarepaguá. Por volta das 22h30, os agentes abordaram a mulher na entrada do edifício. Questionada sobre a criança, negou qualquer envolvimento com tranquilidade.
Notando que os sapatos dela estavam sujos de lama, os policiais solicitaram que os acompanhasse até a delegacia. Ela pediu permissão para usar o banheiro em seu apartamento antes de sair. Os agentes a acompanharam e notaram que ela deixara a bolsa sobre um móvel.
Ao revistarem a bolsa, encontraram um revólver e a mecha de cabelo embrulhada em papel. Diante das evidências, foi conduzida imediatamente à delegacia por suspeita de sequestro. Na época, a cobertura jornalística dava-se com forte apelo radiofônico e a notícia do caso atraiu repórteres e fotógrafos ao local. Ao chegar à delegacia, Neyde reagiu posando com frieza para as fotos e sorrindo perante os repórteres.
Durante o interrogatório preliminar sobre o desaparecimento, Neyde negou o homicídio e tentou desviar o foco da apuração: afirmou ter raptado a menina a mando de uma mulher chamada “Vilma”, que supostamente seria noiva de um suposto amante de Nilza.
Afirmou que apenas Nilza saberia dizer quem era o verdadeiro mandante do crime.
A narrativa continha diversas contradições e inconsistências que confundiam os policiais, enquanto a suspeita mantinha a recusa em apontar o paradeiro da criança. Enquanto o interrogatório prosseguia na delegacia, a situação no Matadouro da Penha sofreu uma reviravolta.
Por volta das 23h, um homem a cavalo transitava pelas imediações do matadouro quando o animal assustou-se com as chamas residuais no pasto. Ao descer da montaria para verificar, deparou-se com o corpo carbonizado de uma criança.
Tomado pelo pânico, apagou o restante das chamas e correu até uma empresa próxima para solicitar socorro e o acionamento imediato da polícia. Em poucos minutos, a perícia e os investigadores isolaram o local do crime, colhendo depoimentos dos trabalhadores que confirmaram o estampido e a fuga de um vulto feminino.
A confirmação da localização do corpo foi transmitida à equipe que interrogava Neyde na delegacia. Diante da nova evidência, os agentes conduziram a suspeita até o local do crime no Matadouro da Penha. Ao ser confrontada com o corpo queimado da menina no meio da vegetação, Neyde teve uma crise nervosa.
Gritou pedindo para ser retirada dali imediatamente, prometendo relatar os fatos na delegacia, e confirmou que o corpo era o da menina procurada. Ela foi escoltada para a 24ª Delegacia de Polícia, no bairro do Encantado, mantendo uma postura impassível durante o trajeto.
No novo interrogatório, admitiu ter realizado o rapto, mas insistiu em negar a autoria do homicídio com absoluta frieza. O depoimento estendeu-se por horas, permeado por versões fantasiosas.
Os policiais mantiveram-na de pé e a impediram de fumar para vencer sua resistência, mas a acusada permaneceu calada e impassível por longo período.
Do lado de fora, a indignação pública crescia alimentada pelas transmissões de rádio que narravam os detalhes do crime, reunindo uma multidão enfurecida em frente à delegacia.
Em 1960, a cobertura jornalística de casos policiais contava com grande liberdade de acesso às dependências policiais. O repórter Saulo Gomes obteve autorização para entrevistar a acusada ao vivo no interior do prédio, em uma transmissão histórica pela Rádio Continental.
Nos corredores da repartição, Neyde posava para fotografias sem demonstrar qualquer sinal de arrependimento. Durante a entrevista ao vivo com Saulo Gomes, após mais de doze horas de depoimentos e sob intensa pressão, declarou de forma categórica: “Quer saber? Eu não vou dizer nada. E digo mais: só não matei a família toda porque não tive tempo.”
A declaração gerou revolta imediata. Uma multidão de cerca de 300 pessoas cercou o edifício aos gritos de linchamento, tentando invadir o local para fazer justiça com as próprias mãos. Para conter o tumulto e transferir a presa com segurança, a polícia utilizou uma viatura descaracterizada vazia pela porta da frente para despistar os manifestantes, enquanto Neyde era retirada por uma saída lateral em um carro comum, sendo transferida para a penitenciária feminina.
O velório de Taninha provocou comoção coletiva e chegou a ser temporariamente suspenso para exames complementares no Instituto Médico-Legal, a fim de verificar se a vítima inalara fumaça antes do óbito.
O laudo oficial confirmou que a morte decorreu do disparo de arma de fogo na cabeça antes de o corpo ser atingido pelas chamas. O sepultamento reuniu centenas de populares no Cemitério de Inhaúma, onde a criança foi sepultada diretamente na terra com uma estrutura protetora decorativa.
O local passou a receber flores, orações e homenagens de moradores e visitantes, que passaram a considerar Taninha uma figura angelical e intercessora. Paralelamente, os jornais exploravam a frieza do crime e o triângulo amoroso.
A imprensa popular consagrou a alcunha de “A Fera da Penha” para se referir a Neyde, ao lado de outros termos pejorativos como “o monstro de saias” e “escorpião fêmea”. A repercussão gerou manifestações hostis na porta da antiga residência da família da acusada.
O pai de Neyde deparava-se frequentemente com protestos e práticas de cunho ritualístico deixadas na porta de sua casa pela população enfurecida, que cobrava punição severa pelo crime cometido. A cobertura da imprensa detalhava o perfil independente da acusada, utilizando seus hábitos de leitura e seu comportamento reservado para reforçar o estigma de frieza e crueldade.
Para os pais de Neyde, a descoberta do crime e da ligação com o homem casado representou um choque devastador. Segundo registros acadêmicos sobre o caso, Neyde recusou-se a receber visitas do próprio pai enquanto esteve detida.
O comportamento de Antônio também gerou debates críticos posteriores, tendo em vista sua conduta e a coação exercida no aborto forçado, embora na época a cobrança social e midiática tenha recaído quase que exclusivamente sobre a figura da amante.
Antônio não sofreu sanções penais pelo relacionamento e continuou a vida conjugal com Nilza, que engravidou novamente pouco tempo depois. A defesa de Neyde, conduzida pelo advogado Dr. Celso Nascimento a partir de 1961, sustentou a tese de insanidade mental para evitar o julgamento pelo Tribunal do Júri.
A perícia psiquiátrica oficial foi chefiada pelo Dr. Rodrigo de Carvalho, diretor do Manicômio Judiciário. A matéria gerou intenso debate público, contando com declarações do psiquiatra Jurandir Manfredini, que defendeu a aplicação de penas rigorosas para crimes cruéis contra crianças e criticou as brechas da legislação penal da época.
A perícia psiquiátrica oficial concluiu, em 1963, que Neyde era plenamente imputável e responsável por seus atos, atestando que, à exceção de sua conduta passional, não apresentava doença mental incapacitante, determinando sua ida a júri popular.
Paralelamente, o túmulo de Taninha no Cemitério de Inhaúma transformou-se em ponto constante de visitação, onde fiéis passaram a depositar ex-votos, brinquedos e pedidos de intercessão, dando início à devoção popular em torno da menina.
O primeiro julgamento ocorreu no Segundo Tribunal do Júri do Rio de Janeiro entre os dias 5 e 6 de outubro de 1963, presidido pelo juiz Bandeira Stampa, com acusação conduzida pelo promotor Antônio Vicente da Costa Júnior e defesa do Dr. Celso Nascimento.
A sessão transcorreu sob forte comoção com a presença dos pais da vítima. A acusação sustentou a qualificadora de premeditação e motivo torpe, destacando a ocultação do cadáver e a frieza no rapto da criança. A defesa reiterou a alegação de perturbação psíquica para atenuar a pena.
Após 16 horas de julgamento, o Conselho de Sentença condenou a ré à pena total de 33 anos de reclusão (30 anos pelo homicídio triplamente qualificado e 3 anos pelo sequestro). Pela legislação processual da época, penas iguais ou superiores a 20 anos conferiam direito automático a um novo julgamento pelo protesto por novo júri.
O segundo júri realizou-se nos dias 20 e 21 de abril de 1964, sob a presidência do juiz Arnaldo Freitas, com o promotor Antônio Vicente e o assistente René Ariel Dotti na acusação, e os advogados Milton Eirado e Ramiro Mota na defesa. A decisão do júri manteve a condenação e a pena de 33 anos de reclusão.
Neyde permaneceu recolhida na Penitenciária Lemos de Brito. Inicialmente ameaçada pelas demais detentas, com o tempo passou a manter uma rotina disciplinada e comportamento exemplar dentro do estabelecimento prisional. Cuidava de sua cela, realizava trabalhos manuais e costurava roupas infantis.
Consta que obteve permissão para ter uma boneca na cela, objeto ao qual dedicava atenção diária, além de manter o hábito de rezar pela alma da menina Taninha. Registros penitenciários apontam que, durante o cumprimento da pena, apresentou quadros de isolamento e alterações psicológicas.
Neyde cumpriu cerca de 15 anos de pena e obteve a liberdade condicional por clemência e bom comportamento em 9 de outubro de 1975. Passou a residir com os pais de forma reservada, mantendo o estilo de vida solitário.
Após a morte dos pais, mudou-se para o bairro do Campinho, onde trabalhou como arquivista em um escritório de advocacia até os 67 anos de idade, residindo a menos de 2 km da antiga moradia de Antônio e Nilza.
O casal Antônio e Nilza permaneceu unido, completando 50 anos de matrimônio, e teve mais três filhas após a tragédia, somando netos e bisnetos. Em entrevistas em 2011, Nilza relatou a persistência da dor pela perda da filha. Antônio faleceu em 5 de julho de 2017 e Nilza em agosto de 2020, sendo sepultada no mesmo cemitério onde repousa Taninha.
O túmulo de Taninha consolidou-se como memorial de fé popular, recebendo visitas de devotos que atribuem graças e curas à memória da menina, mantendo a sepultura repleta de brinquedos e flores. Um marco memorial também foi fixado na área onde funcionava o antigo matadouro, hoje espaço público de convivência.
Neyde Maria Maia Lopes viveu seus últimos anos em isolamento. Em decorrência de um acidente vascular cerebral, foi internada no Hospital Municipal Souza Aguiar, onde faleceu no dia 2 de maio de 2023, aos 84 anos.
Seu sepultamento ocorreu no Cemitério de Inhaúma, na mesma necrópole onde a vítima foi sepultada, em uma sepultura simples e sem inscrições de destaque. O caso permaneceu registrado na história da crônica policial brasileira como um marco sobre a violência passional e seus reflexos sociais.
O caso da Fera da Penha tornou-se uma referência emblemática no imaginário carioca da década de 1960. Espero que vocês tenham acompanhado com atenção todos os detalhes desta história. Deixo aqui a minha sincera gratidão a todos vocês. Um grande abraço a todos.