MEU IRMÃO MORREU EM 1978… UM ANO DEPOIS, UM ESTRANHO APARECEU COM UMA CARTA DELE

A história completa

Era uma tarde de agosto de 1978, quando um homem que eu nunca tinha visto colocou um papel dobrado na minha mão e disse uma frase que durante muito tempo eu tentei esquecer. “Acho que isso é para você.” Eu estava no ponto de ônibus da Avenida Central, voltando do trabalho. Chovia havia pouco e o asfalto ainda brilhava com a luz do fim da tarde.

Lembro-me do cheiro de chuva, dos carros passando devagar e das pessoas se apertando sob a pequena cobertura de metal. O homem devia ter pouco mais de 50 anos. Usava uma camisa clara, carregava uma pasta marrom debaixo do braço e parecia tão comum que provavelmente eu não teria me lembrado dele se não fosse pelo que aconteceu depois. Ele perguntou meu nome.

“Cerqueira.” Seu rosto mudou. Não foi espanto, pareceu mais alívio. Ele abriu a pasta, procurou alguma coisa entre vários papéis e retirou um pedaço de folha dobrado duas vezes. “Você trabalha na oficina da rua São Bento?” Senti um incômodo imediato. “Quem é o senhor?”

Ele percebeu minha desconfiança. “Meu nome é Valdemar. Não quero vender nada e não estou pedindo dinheiro.” Estendeu o papel novamente. Eu não aceitei. Perguntei como sabia onde eu trabalhava. Valdemar respirou fundo. “Por que esse nome e esse endereço apareceram numa reunião da qual participei?” Quando mencionou a palavra “reunião”, imaginei algum grupo religioso querendo me converter.

Dei um passo para trás e procurei meu ônibus entre os veículos que vinham ao longe. Então ele disse: “Também apareceu o nome Paulo. Meu irmão se chamava Paulo”, pensei. Havia morrido pouco mais de um ano antes. Fiquei parado. Não respondi. Valdemar percebeu que alguma coisa havia mudado em mim. “Paulo era seu irmão?” Até hoje não sei explicar por que não fui embora naquele instante.

Talvez porque ninguém fora da minha família soubesse o quanto aquele nome ainda pesava dentro de mim. Paulo tinha 29 anos quando morreu. Eu tinha 26. Durante quase toda a vida, havíamos sido inseparáveis até nossos últimos meses. Ele havia começado a trabalhar com meu pai muito jovem.

E quando a saúde do papai piorou, assumiu grande parte das responsabilidades da família. Eu, ao contrário, queria distância da oficina, das dívidas e das discussões. Na última vez que conversamos de verdade, brigamos. Não foi uma briga pequena. Acusei Paulo de querer controlar minha vida. Ele disse que eu fugia de tudo quando as coisas ficavam difíceis.

Eu respondi algo que me perseguiu depois: “Um dia você vai perceber que ninguém precisa de você tanto quanto imagina.” Bati a porta e fui embora. Três dias depois, Paulo sofreu um acidente. Nunca voltou para casa. Durante o velório, fiquei ao lado do caixão, imaginando que poderia haver algum momento em que ele abrisse os olhos e eu pudesse retirar aquelas palavras.

Esse momento nunca veio. Minha mãe parecia ter envelhecido 10 anos em uma semana. Meu pai passou a falar cada vez menos e eu guardei aquela última discussão como se fosse um objeto cortante escondido dentro de mim. Não contei a ninguém o que havia dito, nem mesmo à minha mãe.

Agora, um desconhecido estava diante de mim, dizendo o nome do meu irmão morto. “De onde o senhor conhece Paulo?” Valdemar balançou a cabeça. “Eu não conheço.” “Então, quem contou sobre ele?” “Ninguém que eu conheça.” Ele estendeu o papel pela terceira vez. Dessa vez peguei. Pensei que encontraria algum texto religioso, uma oração ou uma tentativa de me impressionar.

Havia somente algumas linhas. Li a primeira, depois a segunda. Na terceira, minhas mãos começaram a tremer. O barulho dos carros pareceu desaparecer ao meu redor. No papel estava escrito: “Diga à mãe que eu não fiquei sozinho” e, logo abaixo, “e diga ao meu irmão que aquela briga terminou antes de mim.”

Levantei os olhos. “Quem falou isso para o senhor?” Valdemar não respondeu imediatamente. “Eu não sei se a palavra correta é ‘falou’.” “Então, como escreveu isso?” Ele olhou para o papel em minhas mãos. “Talvez seja melhor eu explicar desde o começo”, mas meu ônibus apareceu naquele momento. As portas abriram, as pessoas começaram a entrar.

Eu poderia ter ficado, poderia ter pedido todas as explicações ali mesmo. Em vez disso, entrei, sentei perto da janela e procurei Valdemar do lado de fora. Ele continuava parado no mesmo lugar. Antes que o ônibus partisse, aproximou-se da janela e disse algo que consegui ouvir, apesar do motor: “Pergunte à sua mãe sobre o hospital.” Não entendi.

O ônibus arrancou. Passei todo o caminho olhando para aquelas duas frases. Eu ainda não sabia, mas a parte mais difícil daquela história não seria descobrir como aquele desconhecido conhecia o segredo da minha última discussão com Paulo. Seria descobrir o significado da primeira frase. Naquela noite, demorei quase uma hora para mostrar o bilhete à minha mãe.

Quando cheguei em casa, ela estava na cozinha cortando pão. Meu pai ouvia o rádio na sala, sentado na mesma poltrona em que passava grande parte das noites desde a morte de Paulo. Guardei o papel no bolso. Durante o jantar, pensei em perguntar se algum homem chamado Valdemar havia aparecido em casa.

Minha mãe teria contado a alguém onde eu trabalhava? Não perguntei. Parecia absurdo demais. Depois que meu pai foi dormir, encontrei minha mãe lavando os últimos pratos. “Mãe, a senhora conhece algum Valdemar, um senhor de meia idade?” Ela fechou a torneira. “Valdemar?” Pensou alguns segundos. “Não.” Tirei o bilhete do bolso.

“Um homem me entregou isso hoje.” Ela secou as mãos no avental e pegou o papel. Observei seu rosto enquanto lia. Na primeira linha, ela parou. Seus lábios se separaram ligeiramente. Na segunda, começou a chorar. Não era o choro que eu esperava. Depois da morte de Paulo, minha mãe chorava de maneira silenciosa. Os olhos enchiam, ela desviava o rosto e continuava fazendo alguma tarefa.

Dessa vez sentou-se. “Quem escreveu isso?” Expliquei o encontro. Quando mencionei que Valdemar havia pedido que eu perguntasse a ela sobre o hospital, minha mãe ficou imóvel. “O que ele disse exatamente?” “Pergunte à sua mãe sobre o hospital.” Ela olhou novamente para o bilhete. “Cerqueira, eu nunca contei isso para vocês.”

Sentei diante dela. Na noite anterior à morte de Paulo, minha mãe havia permanecido algumas horas ao lado dele no hospital. Seu estado era grave. Ele acordava por alguns minutos, falava coisas desconexas e voltava a dormir. Em determinado momento, pouco depois da meia-noite, abriu os olhos. Segundo minha mãe, parecia subitamente calmo.

Olhou para um ponto vazio perto da janela, depois sorriu. Minha mãe perguntou o que estava acontecendo. Paulo respondeu: “A vó tá aqui.” Nossa avó materna havia morrido quando éramos crianças. Minha mãe achou que fosse febre, efeito dos medicamentos ou confusão causada pelo trauma. Tentou tranquilizá-lo, mas Paulo continuou olhando para o mesmo ponto.

“Ela está dizendo que está tudo bem.” Minha mãe segurou sua mão. Paulo apertou os dedos dela. “Mãe, acho que não vou sozinho. Vou embora com ela.” Minha mãe colocou a mão na sua testa para medir a febre. Horas depois, ele piorou. Morreu na manhã seguinte. Minha mãe nunca contou aquela conversa nem a mim, nem ao meu pai.

“Por quê?” Ela demorou a responder: “Porque eu tinha medo de vocês pensarem que eu estava delirando. Depois comecei a pensar que talvez eu mesma tivesse entendido errado.” Olhou para a primeira frase do bilhete. “Diga à mãe que eu não fiquei sozinho.” Senti um arrepio percorrer meus braços. Até aquele momento eu estava concentrado na segunda frase, naquela referência à nossa discussão.

Agora havia outro problema. Se minha mãe dizia a verdade, Valdemar teria de conhecer uma conversa que acontecera em um quarto de hospital, de madrugada, entre duas pessoas, uma delas morta. Mesmo assim, procurei explicações. Talvez minha mãe tivesse contado aquilo a uma vizinha e esquecido. Talvez algum funcionário do hospital tivesse ouvido.

Talvez Valdemar conhecesse alguém que conhecesse alguém. Era uma cadeia improvável, mas ainda me parecia menos assustadora do que admitir outra possibilidade. “Mãe, você contou isso para alguém?” “Nunca.” “Nem para tia Vera?” “Não.” “O padre Joaquim?” “Não.” “Alguém do hospital?” Ela me encarou. “Eu estava sozinha com ele e nunca falei disso para ninguém.”

Fiquei em silêncio. Então ela perguntou sobre a outra frase. “Aquela briga terminou antes de mim.” Minha mãe queria saber que briga era aquela. Durante um ano, eu havia escondido aquilo. Naquela cozinha, finalmente contei. Contei sobre a discussão, sobre as acusações e sobre minha última frase. Quando terminei, ela segurou minha mão.

“Seu irmão nunca guardou raiva por muito tempo.” Eu queria acreditar, mas desejar uma coisa não a tornava verdadeira. Na manhã seguinte, voltei ao ponto de ônibus. Valdemar não estava lá. Voltei durante três dias, nada. Perguntei aos comerciantes das proximidades. Ninguém parecia conhecê-lo. Comecei a imaginar que talvez nunca o encontrasse novamente.

Até que, no quarto dia, o dono de uma banca de jornais disse ter visto um homem parecido entrando algumas vezes numa casa antiga, duas ruas adiante. Na fachada havia uma placa discreta: Centro Espírita Caminho de Luz. Fiquei quase 5 minutos diante daquela porta. Eu nunca havia entrado em um centro espírita.

Na verdade, mal sabia o que acontecia lá dentro. Parte de mim queria ir embora e encerrar aquela história. Mas outra parte precisava de respostas a uma pergunta: se aquele bilhete não era uma coincidência, o que exatamente havia acontecido? Como ele sabia que eu era o destinatário daquele bilhete? Empurrei a porta.

Encontrei Valdemar organizando cadeiras numa sala pequena. Quando me viu, não pareceu surpreso. “Você veio? Eu sabia.” Meu tom foi mais duro do que pretendia. “Quero saber quem contou essas coisas sobre minha família.” Ele apontou para duas cadeiras. “Sente.” “Prefiro ficar em pé.” Valdemar não insistiu. Perguntei se conhecia minha mãe, meu pai, meu irmão, alguém da oficina ou algum funcionário do hospital.

A resposta foi sempre a mesma: “Não.” Então perguntei de onde surgira o bilhete. Ele explicou que frequentava o centro havia quase 10 anos. Não se considerava alguém especial. Trabalhava como contador e ajudava nas atividades da casa duas noites por semana. Algumas reuniões eram abertas ao público, outras eram reservadas ao estudo e à prática mediúnica.

“Foi em uma dessas reuniões que meu nome apareceu?” “Como?” Uma das pessoas presentes começou a perceber uma presença. “Ver um espírito?” “Não exatamente.” Ele tentou explicar sem transformar aquilo em espetáculo. Segundo Valdemar, algumas pessoas percebiam impressões, pensamentos, imagens ou emoções de maneira mais intensa.

Na linguagem espírita, aquilo poderia ser associado à mediunidade. Valdemar contou que durante a reunião, uma mulher chamada Vanda começou a sentir uma forte preocupação relacionada a uma mãe. Depois surgiu um nome: Paulo. Em seguida, Cerqueira. Depois, uma oficina e uma referência à rua São Bento.

As informações vieram fragmentadas. Vanda pediu papel e escreveu algumas frases. Entre elas estavam aquelas que eu recebera. “Por que você foi atrás de mim?” “Porque havia um endereço, nomes, e eu precisava entregar o bilhete.” “E se tivesse encontrado outro Cerqueira, eu teria voltado para casa?” Essa resposta me incomodou mais do que uma certeza.

Eu queria que ele dissesse: “Sim, seu irmão falou conosco.” Ou: “Não, foi um engano.” Em vez disso, encontrei prudência. Perguntei se poderia conhecer Vanda. Valdemar hesitou, mas aceitou conversar com ela. Dois dias depois, voltei. Vanda tinha pouco mais de 40 anos, trabalhava como professora e me recebeu com uma serenidade que me deixou ainda mais desconfiado.

Eu não contei nada sobre Paulo. Queria observar se ela tentaria extrair informações de mim. Ela não perguntou como ele morreu, não perguntou minha idade, profissão ou religião. Disse apenas: “Não sei se aquela comunicação era mesmo do seu irmão. Quero que você saiba disso antes de qualquer coisa.” A mesma cautela novamente.

Perguntei o que lembrava daquela noite. Vanda fechou os olhos por alguns segundos. “Primeiro veio uma sensação de aperto no peito, depois muita preocupação com uma mulher mais velha, sua mãe.” Mas aquilo era genérico. Ela continuou: “Também lembro de uma imagem estranha.” “Qual?” “Uma caixa de madeira fechada.” Meu coração acelerou.

Meu pai havia guardado os objetos pessoais de Paulo dentro de uma caixa de madeira depois do funeral. Mas novamente pensei: “caixas são comuns”. Eu não disse nada. Vanda franziu a testa: “E havia um relógio.” Olhei para ela. “Que relógio?” “Não sei. Talvez de pulso. Parecia importante.” Paulo tinha um relógio de pulso que meu pai lhe dera quando completou 18 anos.

Estava dentro daquela caixa. Mesmo assim, permaneci calado. Vanda levou a mão ao próprio pulso. “Ele estava parado.” Foi então que me lembrei. O relógio de Paulo havia quebrado no acidente. Os ponteiros marcavam 11:27. Meu pai nunca mandou consertá-lo. Levantei da cadeira. Minha primeira reação não foi emoção, foi medo. “Quem falou com a senhora sobre essa caixa e sobre o relógio?” Vanda respondeu: “Ninguém.”

Saí do centro mais confuso do que quando havia entrado. Naquela noite, procurei a caixa. Estava no alto do guarda-roupa de meus pais. Meu pai não gostou quando pedi para abri-la, mas minha mãe convenceu-o. Havia fotografias, uma carteira, algumas cartas, um chaveiro e o relógio. Peguei-o. 11:27. Meu pai observou o objeto em minhas mãos.

“Por que você quer saber disso agora?” Eu poderia ter contado tudo. Não contei porque ainda havia uma coisa que me perturbava. No verso do bilhete entregue por Valdemar, havia uma terceira linha, quase apagada, que eu não havia mostrado a ninguém. Dizia: “Ele ainda guarda o que prometeu jogar fora.” Eu não fazia ideia do que aquilo significava.

Durante as semanas seguintes, aquela frase se tornou uma obsessão: “Ele ainda guarda o que prometeu jogar fora.” Perguntei à minha mãe se Paulo havia pedido que meu pai descartasse alguma coisa. Ela não sabia. Perguntei discretamente ao meu pai. Ele ficou irritado. “Por que está mexendo nessas coisas?” “Curiosidade.”

“Algumas coisas é melhor deixar quietas.” A resposta fez minha desconfiança crescer. Uma noite, sentei com ele na varanda. Contei tudo: o desconhecido, o bilhete, a conversa da minha mãe no hospital, Vanda, o relógio. Meu pai ouviu sem interromper. Quando terminei, permaneceu olhando para a rua. “Você acredita nisso?” “Não sei.”

Ele concordou, apenas balançando a cabeça. Mostrei a terceira frase. Meu pai ficou pálido. “Onde conseguiu isso?” “Estava no bilhete.” “Sua mãe viu?” “Não.” Ele se levantou e entrou na casa. Voltou alguns minutos depois, carregando uma pequena caixa metálica que eu nunca tinha visto. Sentou-se e abriu. Dentro havia um maço de cartas amarradas com barbante. Meu pai retirou uma.

“Antes do acidente, Paulo estava preocupado comigo. Naqueles anos, a saúde financeira da oficina estava pior do que eu imaginava. Meu pai havia contraído dívidas e durante algum tempo começara a beber escondido. Paulo descobriu. Os dois brigaram. Meu irmão encontrou várias cartas de cobrança e recibos que meu pai escondia. Ele queria que eu jogasse tudo fora depois que resolvesse as dívidas.” Meu pai tocou as cartas. “Eu prometi e não joguei.” Não perguntei. Por quê? “Porque foi uma das últimas coisas sobre as quais conversamos.” A frase do bilhete voltou à minha cabeça: “Ele ainda guarda o que prometeu jogar fora.”

Meu pai começou a chorar. Foi a primeira vez que eu o vi chorar desde o enterro. Naquela noite, algo mudou dentro da nossa casa. Não porque passamos a afirmar que Paulo havia se comunicado conosco. Meu pai, principalmente, continuou desconfiado. Mas começamos a falar sobre Paulo, sobre culpa, sobre coisas que não conseguimos dizer antes que alguém parta.

Voltei ao centro algumas vezes, não para buscar novas mensagens. Valdemar, aliás, desencorajou exatamente isso. Explicou que, segundo os estudos espíritas que seguia, a morte não transformaria uma pessoa em alguém onisciente, nem colocaria os desencarnados permanentemente à disposição dos vivos. A ideia, para mim, era nova. Eu imaginava que o espiritismo fosse uma tentativa constante de conversar com mortos.

Descobri que grande parte das reuniões que aconteciam ali sequer envolvia manifestações mediúnicas. Havia estudo, distribuição de alimentos, visitas a famílias necessitadas e conversas sobre responsabilidade pessoal. Uma noite perguntei a Valdemar: “Se realmente foi Paulo, por que ele não disse simplesmente ‘sou eu’?” Valdemar sorriu.

“Talvez porque identificação não dependa só de um nome.” Depois ficou sério. “Mas também pode não ter sido ele.” Eu não gostava quando ele fazia isso. “Por que vocês sempre deixam essa possibilidade aberta?” “Porque querer acreditar pode nos fazer acreditar em qualquer coisa.” Ele explicou que, dentro da tradição espírita, uma comunicação deveria ser examinada pelo conteúdo, pela coerência e pelas circunstâncias.

Mesmo assim, a prudência continuava necessária. A frase permaneceu comigo: “Querer acreditar pode nos fazer acreditar em qualquer coisa.” Passei a questionar minha própria interpretação. Talvez Vanda tivesse sabido da caixa por alguém. Talvez meu pai tivesse falado das cartas sem lembrar. Talvez minha mãe tivesse contado a história do hospital durante algum momento de sofrimento.

Talvez eu estivesse costurando coincidências porque precisava desesperadamente ser perdoado. Essa última possibilidade era a mais dolorosa. Certa tarde, procurei Vanda novamente. Perguntei se poderia tentar obter outra mensagem de Paulo. Ela recusou. “Por quê?” “Porque você está procurando uma confirmação, não uma mensagem.”

“Qual a diferença?” “Se eu disser o que você quer ouvir, você vai acreditar. Se disser algo que não reconhece, vai pensar que estou errada. Assim, ninguém aprende nada.” Fiquei irritado, mas ela tinha razão. Antes de sair, Vanda perguntou: “Se nunca mais acontecer nada, o que muda?” Não soube responder. Ela continuou.

“Seu irmão precisara aparecer novamente para você perdoá-lo? Não. Você precisa que ele apareça para pedir perdão.” Fiquei em silêncio. Talvez aquela fosse a parte da história que eu havia evitado desde o começo. Eu estava tão ocupado tentando descobrir se Paulo continuava vivo em algum outro plano que havia esquecido de perguntar o que eu deveria fazer com a vida que ainda possuo aqui.

Quase três meses depois, aconteceu a última coisa que me impediria de esquecer aquele ano. Era novembro. Minha mãe decidiu que finalmente deveríamos reorganizar o quarto onde estavam algumas coisas de Paulo. Meu pai havia pago grande parte das antigas dívidas. As cartas guardadas na caixa metálica foram queimadas numa pequena fogueira no quintal.

Ele fez isso sozinho. Quando voltou para dentro, parecia estranhamente tranquilo. Começamos a separar roupas, livros e objetos que poderiam ser doados. Eu abri uma gaveta da antiga escrivaninha de Paulo. No fundo havia um envelope. Meu nome estava escrito na frente: “Cerqueira.” Reconheci a letra imediatamente.

Pensei que fosse alguma carta antiga. Abri. Dentro havia uma folha datada de dois meses antes do acidente. Paulo aparentemente começara a escrever para mim e nunca entregara. A primeira parte falava sobre nosso pai e sobre a pressão que ele sentia tentando manter a oficina funcionando. Depois falava sobre mim: “Sei que tenho sido duro com você”, escreveu.

“Às vezes acho que estou tentando decidir sua vida porque tenho medo de não conseguir cuidar da minha.” Continuei lendo. Então, encontrei uma frase que me fez sentar. “Mesmo quando a gente briga, eu nunca consigo ficar com raiva de você até o dia seguinte.” Parei, li novamente. Lembrei-me imediatamente do bilhete de Valdemar.

“Aquela briga terminou antes de mim.” A carta havia sido escrita antes da nossa última discussão. Portanto, não era uma resposta direta a ela, não era uma prova, mas naquele momento pouco importava. Minha mãe encontrou-me sentado no chão, segurando o papel. Contei o que havia encontrado. Meu pai entrou no quarto e leu também.

Ficamos os três em silêncio. Não houve aparição. Nenhuma voz surgiu no quarto. Nenhum objeto se moveu. E ainda assim eu senti uma paz que não havia experimentado desde a morte de Paulo. Naquela noite tive um sonho. Estávamos novamente na casa onde crescemos. Paulo estava sentado nos degraus dos fundos, usando uma camisa azul que costumava vestir nos domingos.

Sentei ao lado dele. No sonho, eu sabia que ele estava morto. Queria fazer perguntas: “Onde você está?”, “Existe mesmo alguma coisa depois?”, “Foi você quem mandou aquele bilhete?” Mas nenhuma dessas perguntas saiu. Eu disse apenas: “Desculpa”. Paulo olhou para mim, sorriu: “Eu sei”. Acordei pouco antes do amanhecer.

O quarto estava silencioso. Não senti presença alguma. Não ouvi voz. Não havia perfume, luz ou qualquer fenômeno que eu pudesse apontar como inexplicável. Era somente um sonho. E talvez tenha sido apenas isso. Anos depois, quando alguém me perguntava se eu acreditava que Paulo realmente havia enviado aquela mensagem, eu nunca respondia com certeza.

Aprendi, inclusive com as pessoas daquele centro, que fé e credulidade não precisavam ser a mesma coisa. Dentro da visão espírita que comecei a conhecer, a morte não significava necessariamente o desaparecimento da consciência. Os vínculos construídos pelo afeto poderiam continuar, ainda que de uma maneira que os vivos compreendessem apenas parcialmente.

Mas aprendi outra coisa, talvez mais importante. Continuar amando alguém não significa ficar preso ao momento de sua morte. Não sei como um desconhecido encontrou meu nome, meu trabalho ou detalhes que pareciam pertencer somente à nossa família. Talvez alguém tenha uma explicação racional que nunca conseguimos encontrar. Talvez tenha sido uma sequência improvável de coincidências.

Ou talvez, durante alguns minutos, uma distância que julgávamos impossível de atravessar tenha sido menor do que imaginávamos. Quando penso naquela tarde chuvosa, porém, já não me pergunto primeiro se consegui uma prova da vida depois da morte. Pergunto-me por que aquelas palavras chegaram justamente quando minha família precisava voltar a conversar.

E talvez seja essa a parte que mais importa: por quê? Se existe alguma continuidade depois da morte, talvez o amor não funcione como uma corrente que prende os que partiram aos que ficaram. Talvez funcione como uma ponte, uma ponte discreta que nem sempre conseguimos enxergar, construída por lembranças, perdão, saudade e aquilo que fomos capazes de transformar dentro de nós depois de uma despedida.

Naquela tarde de 1978, achei que um desconhecido estivesse apenas colocando um pedaço de papel em minhas mãos. Demorei anos para perceber que ele havia colocado também uma pergunta, uma pergunta para a qual ainda não tenho uma resposta definitiva: e se aqueles que amamos não desaparecerem quando morrem, mas apenas deixarem de estar onde nossos olhos conseguem alcançá-los? Se você permaneceu comigo até aqui, eu agradeço de coração por ter acompanhado essa história até o fim.

Talvez algumas partes tenham despertado lembranças, saudade ou até perguntas que você também carrega há muito tempo. E agora eu quero saber de você: você acredita que os laços de amor podem continuar mesmo depois da morte? Se acredita, escreva nos comentários: “Eu acredito”. Que Deus abençoe você, sua família e todos aqueles que guardamos com carinho em nossa memória.

E, antes de encerrar, faça uma oração pelos nossos entes queridos que já partiram. Que eles recebam nossas melhores lembranças, nosso amor e nossos pensamentos de paz. Que possamos seguir nossas vidas com esperança, fazendo o bem e confiando que o verdadeiro amor não termina com uma despedida. Fiquem todos com Deus e que nossos entes queridos já desencarnados também recebam nossas orações, nosso carinho e nossa paz.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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