Explorador Desapareceu Na Amazônia — 2 Anos Depois Voltou Mudo E Segurando Um Boneco De Madeira
Estamos em agosto de 2019. Manaus marca 34 ºC e a umidade do ar passa de 80% antes das 9 da manhã. No bairro da Compensa, zona oeste da cidade, os ônibus já circulam lotados na Avenida Brasil e o cheiro de açaí batido se mistura com o do diesel dos barcos que atracam no porto. Num apartamento de um quarto no segundo andar de um prédio sem elevador, um homem de 31 anos termina de fechar a mochila, confere o passaporte, olha pela janela uma última vez e sai sem trancar a porta com duas voltas de chave. Tranca com uma só, como se fosse voltar em breve.
Renato Augusto Figueira tinha 31 anos e trabalhava como técnico em geoprocessamento para uma empresa de consultoria ambiental com sede em Manaus. Não era o tipo de homem que chamava atenção numa sala. Falava pouco, cumprimentava com aceno de cabeça e passava os almoços sozinho, debruçado sobre imagens de satélite que ampliava no notebook até os pixels virarem borrões verdes.

Os colegas sabiam duas coisas sobre ele: que morava sozinho num apartamento de um quarto no bairro da Compensa e que nos fins de semana sumia para dentro da mata com uma mochila que parecia pesar mais do que ele. O que ninguém sabia — nem os colegas, nem o irmão mais velho, que morava em Belém, nem a mãe, que ligava toda quarta-feira às 7 da noite —
é que Renato mantinha, numa pasta parda dentro do guarda-roupa, 17 mapas originais desenhados à mão de trechos da bacia do rio Juruá, dos quais tirava cópias para visitar por conta própria, sem vínculo com nenhum projeto da empresa, sem autorização de ninguém. Renato nasceu em Santarém, no Pará, em 1988. O pai, seu Osvaldo, era mecânico de motores de popa e trabalhava num estaleiro às margens do Tapajós.
A mãe, dona Teresa, era professora do ensino fundamental numa escola estadual do centro. Marcos, o irmão mais velho, era 5 anos mais velho e seguiu para Belém aos 18 para estudar administração. Renato ficou. Ficou com a mãe, ficou com o rio, ficou com aquele hábito silencioso de observar as coisas de longe antes de se aproximar.
Na escola, era o aluno que tirava notas altas sem que ninguém o visse estudar. Não participava de grupo, não jogava bola no intervalo, não ia às festas de São João do bairro. Não era antipático; era apenas um menino que parecia sempre estar olhando para um ponto que ficava um pouco além do que os outros conseguiam enxergar.
A professora de geografia do ensino médio, uma mulher chamada Lucimar, que depois daria entrevista a um jornal do Acre, disse que Renato era o único aluno que ela conheceu em 30 anos de magistério que corrigia os mapas do livro didático. Não por arrogância, por precisão. Ele apontava o dedo na página e dizia baixinho que a curva do rio ali estava errada, que o afluente entrava pelo lado oposto, que a escala não batia. E estava sempre certo.
Aos 22 anos, Renato formou-se em tecnologia em geoprocessamento pela Universidade do Estado do Amazonas, em Manaus. Foi para lá com uma bolsa parcial e um emprego de meio período num escritório de topografia que atendia construtoras. Morava numa pensão na Cachoeirinha, dividia quarto com um estudante de engenharia florestal chamado Thiago, que, anos depois, descreveria Renato como o sujeito mais organizado e mais estranho que ele já conheceu.
Estranho, não no sentido de preocupante. Estranho no sentido de que Renato parecia viver numa camada diferente do mesmo lugar. Acordava às 5, saía para correr na orla do rio Negro antes do calor, voltava, tomava banho, sentava na mesa e desenhava. Mapas, sempre mapas. Thiago perguntou uma vez o que eram aqueles mapas.
Renato respondeu que eram lugares de paz que ele queria conhecer. Thiago perguntou por quê. Renato sorriu, mas não respondeu. Depois da formatura, Renato foi contratado pela Geoverde Consultoria Ambiental, uma empresa de médio porte que prestava serviços para projetos de infraestrutura na Amazônia: estradas, linhas de transmissão, gasodutos. O trabalho dele era processar imagens de satélite, gerar modelos digitais de terreno e produzir relatórios técnicos sobre a cobertura vegetal.
Era um trabalho de escritório: tela, mouse, ar-condicionado, café de máquina. Renato fazia o trabalho com competência e sem reclamação. Mas quem olhasse para ele às 5 da tarde de uma sexta-feira veria um homem que já não estava ali. O corpo ainda sentado na cadeira, as mãos ainda sobre o teclado, mas o olhar já em outro lugar.
Foi nessa época que as saídas de fim de semana começaram. Renato comprou equipamento de campo: mochila de 80 L, mochila de ataque média, barraca leve, rede de selva, cantil, fogareiro, botas de cano alto, e passou a sair de Manaus sozinho quase todo sábado de manhã, rumo a trechos de mata acessíveis por estrada ou por barco.
Ia para reservas, para ramais de terra, para comunidades ribeirinhas onde ninguém o conhecia. Voltava no domingo à noite, tomava banho, jantava arroz com ovo e sentava na mesa para desenhar. Sempre a mesma coisa. Mapas que ninguém pediu, de lugares que ninguém indicou, com anotações que ninguém leu. Um colega de trabalho chamado Peterson, que sentava na mesa ao lado da dele na Geoverde,
contou depois à polícia que uma vez, durante o almoço, viu Renato ampliando no computador uma imagem de satélite de um trecho do Alto Juruá que não fazia parte de nenhum projeto em andamento. Peterson perguntou se era trabalho novo. Renato minimizou a tela sem pressa, olhou para Peterson com aquela cara neutra de sempre e disse que era curiosidade pessoal. Peterson deu de ombros. Curiosidade pessoal num técnico de geoprocessamento não parecia nada fora do normal.
O que Peterson não sabia é que Renato já havia visitado aquele trecho pessoalmente por conta própria pelo menos três vezes. Dona Teresa, a mãe, continuou ligando toda quarta-feira. Renato atendia sempre, falava pouco, dizia que estava bem, perguntava da saúde dela, perguntava do cachorro. Nunca mencionou os mapas, nunca mencionou as viagens.
Quando dona Teresa perguntava o que ele fazia no fim de semana, Renato respondia que ficava em casa descansando. Dona Teresa acreditava, não tinha motivo para não acreditar. O filho era quieto, sempre fora quieto. E quietude numa família ribeirinha do Pará não é defeito, é temperamento. Mas havia algo nos mapas que ia além da curiosidade técnica.
As anotações de Renato não eram apenas geográficas. No canto inferior esquerdo de sete dos 17 mapas originais, ele escreveu a mesma frase em letras tão pequenas que o delegado precisou de lupa para ler: “Está lá embaixo”. Ninguém até hoje sabe a que ele se referia. No dia 9 de agosto de 2019, uma sexta-feira de céu fechado em Manaus, Renato pediu férias de 15 dias. O pedido foi aprovado sem perguntas.
Ele tinha 32 dias acumulados. O setor de recursos humanos da Geoverde processou o formulário como processava qualquer outro, com um carimbo e uma assinatura. Ninguém perguntou para onde ele ia. Ninguém perguntou se voltaria bronzeado ou descansado. A rotina de Renato na empresa era tão previsível, tão isenta de atrito, que a ausência dele gerava o mesmo efeito que a presença: nenhum.
Na manhã seguinte, sábado, 10 de agosto, Renato embarcou no voo das 9:20 da Azul Linhas Aéreas de Manaus para Cruzeiro do Sul, com escala em Tabatinga. Levava a mochila de 80 L no porão e a mala de mão na cabine. No check-in, apresentou o RG. No raio-X, a mochila passou sem irregularidades. Roupas, rede de selva, cantil, fogareiro, comida liofilizada, lanterna, kit de primeiros socorros, dois cadernos em branco, três canetas Bic e uma trena de 10 m.
Nenhuma arma, nenhum facão, nenhuma bússola. Isso foi registrado depois, quando a polícia levantou os dados de embarque. A ausência de bússola chamou atenção. Um homem que entra na floresta sem bússola ou confia demais em si mesmo, ou não pretende navegar por conta própria, ou sabe exatamente para onde está indo. Cruzeiro do Sul é a segunda maior cidade do Acre,
mas quem chega de avião vindo de Manaus sente que desceu num lugar onde o tempo corre mais devagar. O aeroporto é pequeno, funcional, com teto baixo e paredes pintadas de bege. Do lado de fora, o calor é diferente, mais pesado, mais colado na pele. O tipo de calor que faz a camisa grudar nas costas antes de se dar o primeiro passo.
A câmera de segurança do saguão captou Renato saindo às 11:14 de boné, calça cargo bege e camisa de manga comprida azul-marinho. Ele foi direto para o ponto de táxi. Não parou na lanchonete, não comprou água, não ligou para ninguém. O taxista que o levou até o porto fluvial não foi identificado pela investigação. Cruzeiro do Sul não tinha, em 2019, sistema de registro de corridas vinculado a câmeras.
Mas o barqueiro que o levou rio acima foi localizado semanas depois pela Polícia Civil. Seu nome era Herivaldo Nascimento, 57 anos, piloto de voadeira com motor de 15 HP que fazia fretes entre o porto de Cruzeiro do Sul e as comunidades ribeirinhas do médio e Alto Juruá. Herivaldo cobrou R$ 180 pela viagem até São Salvador, um preço justo para 6 horas de rio.

Recebeu em dinheiro, não pediu documento, não anotou o nome. Herivaldo contou à polícia que Renato sentou na proa da voadeira, apoiou a mochila entre as pernas e ficou olhando o rio o tempo inteiro. Não puxou conversa, não perguntou nada sobre a região, não tirou foto. Tirou do bolso um saco plástico transparente com um papel dobrado dentro — uma cópia do seu mapa, segundo Herivaldo —
e consultou três ou quatro vezes durante a viagem, sempre conferindo alguma coisa na margem e depois olhando o papel de novo. Herivaldo, que conhecia o Juruá como conhecia a palma da mão, tentou puxar assunto perguntando se Renato era pesquisador. Renato disse que não. Herivaldo perguntou se era turista. Renato disse que também não.
Herivaldo perguntou, então, o que ele ia fazer em São Salvador. Renato olhou para ele com uma expressão neutra, quase amável, e disse que ia conhecer um lugar muito antigo. Herivaldo não insistiu. No Alto Juruá, as pessoas respeitam o silêncio alheio. Nem todo mundo que sobe o rio quer companhia, e nem toda viagem precisa de explicação.
Mas havia algo na maneira como Renato segurava aquele mapa, com as duas mãos, como se fosse um documento frágil, como se a água do rio pudesse alcançá-lo e apagar o que estava escrito, que fez Herivaldo guardar aquele rosto na memória. Não como uma ameaça, mas como uma estranheza. O tipo de estranheza que se nota, se guarda, e que só faz sentido quando alguém bate na porta meses depois
com uma foto na mão e uma pergunta que você não sabe responder. A viagem durou pouco mais de 6 horas. Chegaram a São Salvador por volta das 5 da tarde, com o sol já baixo e os urubus descrevendo círculos lentos sobre a copa das árvores. Renato desceu da voadeira, colocou a mochila nas costas e caminhou pela prancha de madeira que servia de atracadouro sem olhar para trás.
Herivaldo ficou parado no barco por um momento, olhando o homem subir o barranco de terra vermelha com passos firmes, e depois deu partida no motor e virou a proa rio abaixo. Não pensou mais no assunto até a polícia aparecer. O que Herivaldo não sabia, o que ninguém sabia naquele momento, é que Renato já havia feito aquela mesma viagem antes, pelo menos duas vezes.
Os registros de passagem da voadeira eram informais, feitos em cadernos de capa dura que os barqueiros guardavam no fundo do barco e que a umidade destruía em questão de meses. Não havia como confirmar datas. Mas dona Madalena, a mulher que alugava redes em São Salvador, disse à polícia que reconheceu Renato no instante em que ele apareceu no terreiro da casa dela.
Disse que ele já tinha dormido ali duas vezes em meses diferentes, sempre sozinho, sempre calado, sempre com a mesma mochila, e que, das duas vezes anteriores, ele tinha entrado na floresta de manhã e voltado no fim do dia. Desta vez, quando ele disse que ia ficar cinco dias, dona Madalena sentiu algo que ela descreveu com uma palavra simples: aflição.
Não sabia por quê. Não perguntou, apenas sentiu. São Salvador não aparece em muitos mapas. É um agrupamento de cerca de 40 casas de madeira erguidas sobre palafitas na margem esquerda do Juruá, a meio caminho entre Cruzeiro do Sul e a fronteira peruana. Quem chega de barco vê primeiro a igreja, uma construção simples de tábuas pintadas de azul com uma cruz branca no telhado,
e depois o restante. As casas alinhadas ao longo de um caminho de terra batida, os varais com roupas estendidas, as canoas amarradas nos troncos, as crianças que correm descalças até a beira da água para ver quem está chegando. O som é o do rio. Sempre o rio, e por trás do rio, o som da floresta, um zumbido constante feito de insetos e pássaros e galhos que se movem com o vento, que nunca para de todo nem de madrugada.
Dona Madalena Souza morava na terceira casa à direita do caminho principal. Tinha 63 anos. Era viúva desde 2011 e criava sozinha dois netos adolescentes. A casa tinha três cômodos, um fogão a lenha e uma varanda de tábuas, onde ela armava até quatro redes para visitantes. O preço era R$ 20 a noite, com café da manhã incluído:
café coado no pano, farinha de mandioca, peixe assado quando tinha, banana frita quando não tinha. Dona Madalena não anunciava o serviço em lugar nenhum. As pessoas simplesmente sabiam. Pesquisadores do INPA, funcionários do ICMBio, ribeirinhos em trânsito, missionários evangélicos de vez em quando, e duas vezes antes daquela, Renato Augusto Figueira.
Dona Madalena lembrava dele com nitidez. Disse que Renato chegou, cumprimentou com aceno de cabeça, perguntou se tinha rede disponível e pagou adiantado por duas noites. Não pediu comida, tinha a própria. Armou a rede no canto da varanda mais próximo da parede, colocou a mochila debaixo e sentou ali, olhando o rio com um caderno no colo.
Dona Madalena ofereceu café. Ele aceitou, agradeceu com uma palavra: “Obrigado”. E não disse mais nada. Ficou ali até escurecer. Quando a comunidade ligou o gerador às 6 da tarde, a luz amarelada da lâmpada da varanda iluminou o caderno dele. E dona Madalena, que passava por perto, viu que ele não estava escrevendo, estava desenhando.
Linhas finas, curvas com pequenos números ao lado, mapas. Na manhã seguinte, domingo, Renato acordou antes do sol. Dona Madalena, que também acordava cedo para acender o fogão, o viu saindo da varanda com a lanterna na mão, caminhando até a beira do rio. Ficou lá por quase uma hora, olhando a água, conferindo o caderno, olhando de novo.
Quando voltou, tomou o café em silêncio e passou o resto da manhã na varanda, organizando coisas dentro da mochila. Dona Madalena notou que ele separou parte do equipamento: o saco de dormir, a barraca, o fogareiro e uma porção de comida, e colocou tudo numa mochila de ataque média, como se estivesse montando um kit reduzido para levar e deixando sua mochila de 80L para trás.
Foi nesse dia que Renato procurou Raimundo Bessa. Raimundo era pescador, tinha 48 anos e era dono de duas canoas de alumínio que usava para descer os igarapés em busca de pirarucu e tambaqui. Morava com a esposa e três filhos numa casa no fim do caminho, perto do campo de futebol de terra que os meninos da comunidade usavam nos fins de tarde.
Renato chegou à casa dele por volta do meio-dia, apresentou-se pelo primeiro nome e perguntou se podia alugar uma canoa por cinco dias. Raimundo perguntou para onde. Renato disse que queria subir um igarapé que ficava a cerca de 3 horas rio acima, um afluente da margem direita que ele chamou pelo nome: Igarapé do Muriti.
Raimundo conhecia o Muriti. Todo mundo em São Salvador conhecia. E era justamente por isso que Raimundo estranhou. O igarapé do Muriti era navegável por canoa apenas nos primeiros 2 km. Depois disso, o leito se estreitava, a correnteza aumentava com as pedras e a vegetação fechava de tal forma que nem canoa pequena passava. Era um trecho aonde os pescadores não iam.
O peixe era pouco, o acesso era difícil e o retorno era trabalhoso. Raimundo perguntou o que Renato queria fazer lá dentro. Renato disse que queria explorar e encontrar paz. Raimundo perguntou se ele tinha experiência com canoa em igarapé. Renato disse que sim. Raimundo perguntou se queria um guia. Renato disse que não. Raimundo hesitou. Não era homem de recusar dinheiro.
Renato ofereceu R$ 150 pelos cinco dias, pagos adiantados. Mas havia algo naquela conversa que não encaixava. Um homem de fora, sozinho, sem guia, querendo entrar num igarapé que os próprios moradores evitavam. Raimundo perguntou mais uma vez, dessa vez olhando nos olhos de Renato, se ele tinha certeza. Renato sustentou o olhar, assentiu devagar e disse que conhecia o trecho.
Raimundo não perguntou como. Entregou a canoa, um remo de reserva e uma lata de alumínio para tirar água. E ficou parado no barranco vendo Renato descer até a beira do rio, guardar a mochila de ataque na canoa e remar rio acima com braçadas longas e regulares, como quem já fez aquilo muitas vezes.
Dona Madalena também viu, estava na varanda com os netos e observou Renato sumir na curva do rio até a canoa virar um ponto prateado na linha da água e depois desaparecer. Ela contou à polícia que naquele momento sentiu vontade de gritar o nome dele, não para pedir que voltasse, mas para perguntar uma coisa que não havia perguntado antes, nem das outras vezes.
“Por que ali, de todos os rios e de todos os igarapés e de toda aquela imensidão de floresta? Por que sempre aquele mesmo lugar?” Dona Madalena não gritou. Ficou na varanda, olhando a curva vazia do rio, e disse para a neta mais velha, com a voz de quem fala para si mesma, que aquele moço ia voltar diferente.
Na manhã do dia 12 de agosto de 2019, uma segunda-feira, Renato Augusto Figueira partiu de São Salvador numa canoa de alumínio de 3,5 m com um remo, um remo reserva, uma lata de alumínio para tirar água, a mochila média com equipamento reduzido e o caderno de cópias de mapas dentro do saco plástico transparente. A mochila cargueira ficou na varanda de dona Madalena.
A mala de mão ficou debaixo da rede. Renato não se despediu. Saiu antes do amanhecer, quando a comunidade ainda dormia, e o único som era o borbulhar do rio contra as palafitas. O combinado com Raimundo era que a canoa seria devolvida em cinco dias, no sábado, 17 de agosto. Renato pagaria os R$ 150 e seguiria viagem de volta para Cruzeiro do Sul.
Raimundo não esperava complicações. Canoas se alugavam com frequência na comunidade e cinco dias era tempo razoável para quem quisesse acampar, pescar ou, no caso dos pesquisadores, coletar amostras de solo e água. O que Raimundo não sabia é que Renato não era pesquisador, não ia pescar e não pretendia acampar na margem apenas por distração.
Renato ia entrar no igarapé do Muriti e seguir a pé para além do trecho navegável até um ponto marcado na cópia do mapa com o círculo e o traço vertical que ele vinha desenhando havia pelo menos 2 anos. O igarapé do Muriti nasce nas terras altas a sudoeste de São Salvador, num trecho de floresta de terra firme que nunca foi inventariado por nenhuma expedição oficial.
É um afluente menor do Juruá, com cerca de 40 km de extensão, que corre quase inteiramente sob a cobertura da copa das árvores. Nos primeiros 2 km, a partir da boca, onde o igarapé encontra o Juruá, a água é escura, mansa e funda o suficiente para passar uma canoa com folga. A vegetação nas margens é densa, mas há espaço. A luz, há a sensação ainda de que se está num lugar controlável.
Depois do segundo quilômetro, a coisa muda. O leito se estreita, as árvores se inclinam umas sobre as outras e formam uma abóbada que bloqueia o sol. A água fica mais rasa, mais rápida e o fundo passa de lama para pedra irregular. A canoa começa a raspar. O remo bate nas raízes que saem das margens como braços dobrados.
O ar muda de cheiro, perde o frescor do rio aberto e ganha um odor de terra molhada, de matéria em decomposição, de vida exuberante que cresce e morre ao mesmo tempo. Os sons também mudam. O canto dos pássaros fica mais agudo, mais espaçado, como se as aves que vivem ali fossem de outra espécie ou, pelo menos, de outro temperamento. E o zumbido dos insetos, que no rio é fundo constante, vira um silvo fino, quase metálico, que entra no ouvido e não sai.
Raimundo conhecia tudo isso, por isso evitava o Muriti. Disse à polícia que não gostava de entrar ali, que o igarapé dava um pressentimento de imensidão, que era um lugar onde a natureza parecia proteger algo muito antigo. Não falou em maldição, não falou em lenda, falou em respeito. Um igarapé que a própria mata esconde não é lugar para a gente curiosa.
Renato, porém, não era movido por mera curiosidade. Ele não carregava nas costas o peso de gerações de medos ribeirinhos. Carregava outra coisa, uma esperança construída em silêncio, alimentada por mapas desenhados à mão e por viagens que ninguém sabia que ele fazia. E foi com essa esperança, e não com medo, que ele remou para dentro do Muriti naquela manhã de agosto. Sozinho,
sem avisar ninguém, sem deixar coordenadas, sem protocolo de resgate, confiando apenas no instinto que o puxava para a mata profunda. Cinco dias passaram. Seis, sete. No dia 17, sábado, Raimundo esperou na beira do rio desde a manhã. A canoa não apareceu. No dia 18, esperou de novo. Ao meio-dia, decidiu ir procurar. Pegou a segunda canoa e subiu o Juruá até a boca do Muriti, uma viagem de pouco mais de 3 horas.
Encontrou a canoa alugada amarrada a uma árvore caída na margem esquerda, a cerca de 200 m da entrada do igarapé. A canoa estava em bom estado. Dentro dela, a mochila média de Renato aberta, com algumas mudas de roupa sobrando, o cantil vazio e uma lanterna com as pilhas gastas. Ele havia retirado o saco de dormir e a comida para seguir a pé.
Não havia o caderno, não havia o saco plástico com a cópia do mapa. Raimundo chamou, chamou pelo nome, o primeiro nome que Renato tinha dado. Chamou três vezes, cada vez mais alto, e a floresta devolveu o som como um eco denso que morria entre as árvores imensas. Ninguém respondeu. Raimundo olhou para dentro do igarapé e viu o que sempre via: a água escura correndo, a mata fechada,
a luz que desaparecia depois da primeira curva, como se alguém tivesse apagado um interruptor. Não entrou. Amarrou a canoa de Renato à sua, rebocou as duas de volta para São Salvador e foi falar com dona Madalena. Dona Madalena ouviu, fez o sinal da cruz e disse que era preciso avisar a alguém. O problema era que avisar alguém em São Salvador significava esperar.
Não havia telefone, não havia rádio de longo alcance. O único contato com o mundo exterior era o barco de abastecimento que passava uma vez por semana, às terças-feiras, e que levava e trazia recados entre a comunidade e Cruzeiro do Sul. O barco tinha passado no dia 13. O próximo passaria no dia 20. No dia 20 de agosto, oito dias depois de Renato ter entrado no Muriti,
Raimundo entregou um bilhete ao piloto do barco de abastecimento, pedindo que avisasse à polícia em Cruzeiro do Sul que um homem de Manaus tinha desaparecido no igarapé. O bilhete era curto, escrito a lápis num pedaço de papel de caderno. Dizia o primeiro nome de Renato, a descrição física e a data em que saiu. Não tinha sobrenome, não tinha telefone de contato, não tinha nada além do essencial.
O bilhete chegou a Cruzeiro do Sul no dia 21. Ninguém leu naquele dia. O desaparecimento de Renato Augusto Figueira só se tornou oficial no dia 2 de setembro de 2019, 21 dias depois de ele ter saído de São Salvador, e se tornou oficial não por causa do bilhete de Raimundo, que levou nove dias para chegar à mesa de um delegado e mais três para ser associado a uma pessoa real,
mas por causa de dona Teresa Figueira, que de Santarém fez o que mães fortes fazem quando o silêncio do filho dura demais: agiu. Dona Teresa ligou para o celular de Renato no dia 28 de agosto, quarta-feira, no horário de sempre, 7 da noite. A chamada caiu direto na caixa postal. A voz gravada de Renato: “Não posso atender agora. Deixe seu recado.” Soou como sempre soava.
Calma, breve, serena. Dona Teresa não deixou o recado, desligou e ligou de novo. Caixa postal. Ligou na quinta, caixa postal. Na sexta, caixa postal. No sábado, dona Teresa começou a sentir o que ela depois descreveria como uma dor no meio do peito, que não era do coração, era o instinto materno soando um alarme. Era como se o ar daquela casa de repente faltasse.
No domingo, ligou para a Geoverde. Ninguém atendeu. Era final de semana. Na segunda-feira, 2 de setembro, às 8 da manhã, ligou de novo. A recepcionista confirmou que Renato estava de férias desde o dia 9 de agosto e que o retorno estava previsto para o dia 26. Dona Teresa perguntou se alguém sabia para onde ele tinha ido. A recepcionista disse que não, que não era a prática da empresa perguntar.
Dona Teresa agradeceu, desligou e ligou imediatamente para Marcos, o filho mais velho, em Belém. Marcos Figueira tinha 36 anos, trabalhava como gerente administrativo numa distribuidora de alimentos no distrito industrial de Icoaraci e não falava com o irmão havia quase dois meses. A última conversa tinha sido rápida por WhatsApp sobre o aniversário da mãe, em julho.
Renato mandou uma mensagem de parabéns e um Pix de R$ 200 para Marcos comprar um presente. Marcos comprou uma panela elétrica. Renato mandou um “joia”. Fim da conversa. Era assim entre os dois. Não havia briga, não havia ressentimento. Havia apenas aquela distância natural de quem cresceu junto, mas seguiu caminhos profissionais e cidades diferentes.
Quando dona Teresa ligou naquela segunda-feira, Marcos sentiu a voz da mãe e soube que algo estava errado antes mesmo de ela falar. Dona Teresa não era mulher de ligar fora do horário, nem de falar com a voz embargada, nem de repetir a mesma frase duas vezes. Fez as três coisas. Marcos tentou o celular de Renato: caixa postal. Tentou o WhatsApp. A última visualização era do dia 9 de agosto, às 10:33 da manhã, horário de Manaus.
Tentou o e-mail pessoal. Nenhuma resposta. Tentou o e-mail da empresa. Resposta automática de férias. Na terça-feira, 3 de setembro, Marcos foi à delegacia da Polícia Civil do bairro da Sacramenta em Belém e registrou um boletim de ocorrência por desaparecimento. O atendente anotou os dados, pediu uma foto recente, perguntou se Renato tinha problemas psiquiátricos. Marcos disse que não. Se usava drogas. Marcos disse que não.
Se tinha inimizades. Marcos disse que era impossível. O atendente informou que o BO seria encaminhado à divisão de pessoas desaparecidas e que a família seria contatada caso houvesse novidade. Marcos perguntou quanto tempo isso levaria. O atendente olhou para ele com a expressão sincera de quem lida com burocracia diária e disse que dependia do sistema integrado nacional. Saiu da delegacia com uma cópia do BO, determinado a não apenas esperar.
Ligou para dona Teresa do estacionamento e disse que o boletim estava feito, mas que eles precisavam ser fortes. Dona Teresa perguntou se iam fazer buscas. Marcos disse que sim, que não mediriam esforços. O bilhete de Raimundo Bessa, enquanto isso, seguia seu percurso no interior do estado. O barco de abastecimento chegou a Cruzeiro do Sul no dia 21 de agosto. O piloto entregou o bilhete a um funcionário da prefeitura que trabalhava no porto,
que o colocou num envelope e encaminhou à Secretaria de Segurança Pública Municipal. O envelope foi aberto no dia 26. O funcionário da secretaria tentou localizar o nome Renato nos registros locais. Não encontrou porque Renato era turista ali. Encaminhou a informação à delegacia de Polícia Civil no dia 28. O delegado de plantão leu o bilhete, verificou se havia algum BO compatível no sistema estadual e não encontrou. O BO de Marcos era recente, do Pará.
O cruzamento de dados felizmente ocorreu no dia 5 de setembro, quando um agente atento da delegacia de Cruzeiro do Sul fez uma consulta detalhada no SINALID (Sistema Nacional de Localização) e encontrou a correspondência exata. No dia 6 de setembro, 25 dias depois de Renato ter entrado no Igarapé do Muriti, a Polícia Civil do Acre ligou para Marcos Figueira e informou sobre a comunidade ribeirinha do Alto Juruá. Marcos pediu detalhes com o coração na mão.
O delegado explicou que o morador local relatou que Renato havia alugado uma canoa e adentrado o igarapé pacificamente. A canoa foi encontrada bem cuidada, amarrada. Marcos desligou, respirou fundo, ligou para dona Teresa e contou. Dona Teresa ficou em silêncio por alguns segundos de reflexão profunda. Marcos contou depois e disse que ela respondeu com firmeza de mãe: “Eu sabia que a jornada dele era maior do que a gente pensava”. Nos dias seguintes, Marcos correu contra o tempo. Ligou para a Geoverde e pediu acesso ao apartamento de Renato. A empresa disse que, por leis de privacidade, apenas a polícia ou a família com liminar poderia entrar. Marcos contatou o síndico na Compensa.
O síndico, compreensivo, explicou que precisava do amparo da Defensoria Pública. Marcos acionou a Defensoria em Manaus. A burocracia pedia de 5 a 10 dias úteis, mas a gravidade do caso acelerou o processo. Marcos manteve contato diário com o delegado em Cruzeiro do Sul, que garantiu que a equipe de resgate especializada estava sendo montada para o Alto Juruá.
Cada esforço valia a pena, não havia portas fechadas, apenas trancas a serem abertas com paciência e amor. Enquanto isso, no coração do Igarapé do Muriti, longe do alcance de celulares e relógios, Renato vivia uma experiência que transformaria sua existência para sempre, num mundo onde a floresta ensina seus próprios ritmos a quem a respeita.
A operação de busca tática começou no dia 8 de setembro de 2019, 27 dias depois do sumiço. Montar uma equipe de resgate selva para o Alto Juruá exige tremenda perícia. O Corpo de Bombeiros do Acre não mediu esforços: frete de barco veloz, combustível extra, equipamentos de salvamento de ponta, alimentação e uma estratégia cuidadosa, baseada na leitura do leito fluvial.
Eles enviaram seis especialistas de Rio Branco para Cruzeiro do Sul. De lá, seguiram de barco até São Salvador numa viagem ágil. Levavam um bote inflável de resgate, equipamento de mergulho, cordas táticas, rádios comunicadores e um drone DJI Phantom 4 com baterias extras para mapeamento aéreo da cobertura vegetal daquela região misteriosa da Amazônia profunda.
Junto com os bombeiros heróis, vieram dois agentes da Polícia Civil, garantindo que o resgate cobrisse todas as vertentes, até mesmo a remota chance dele ter cruzado fronteiras em busca de comunidades tradicionais. Quando a equipe ancorou em São Salvador, o pescador Raimundo Bessa estava lá para guiar as autoridades, demonstrando a união do povo ribeirinho em prol da vida.
Mostrou a canoa de Renato, intacta, e os pertences preservados. A lanterna e o cantil vazio confirmavam que Renato havia seguido por terra intencionalmente. O sargento Gilson, líder da equipe, agradeceu o apoio da comunidade e perguntou a Raimundo a rota exata do Muriti. Raimundo ajudou a traçar o plano no mapa das águas.
Na manhã do dia 9 de setembro, a equipe adentrou a mata verde. A base em São Salvador operava a rádio de apoio. A chegada à boca do Muriti foi precisa. O drone de resgate foi lançado e sobrevoou a área por cruciais 25 minutos — o limite exato de sua potente bateria. A câmera 4K gravou quilômetros de dossel arbóreo intacto: uma prova da vastidão majestosa da Amazônia, impenetrável por cima, abrigando segredos milenares no nível do solo. Após registrar as coordenadas limpas, o drone retornou em segurança.
Os bombeiros começaram a subida tática pelo igarapé, marcando fitas laranjas de segurança. O terreno revelava a beleza bruta da floresta de terra firme. O ar cheirava à seiva fresca e os pássaros cantavam melodias que não se ouvem perto das cidades. Não havia sinais de pânico, nem rastros de luta ou abandono descuidado de itens vitais. A trilha invisível de Renato sugeria que ele avançou com serenidade e propósito claro, absorvido pela natureza grandiosa.
No segundo dia, avançaram bravamente pelo leito de pedras até encontrarem uma barreira geológica belíssima, onde o rio mergulhava em galerias rochosas. O sargento Gilson percebeu que Renato, com sua expertise em geografia, provavelmente conhecia rotas por cima dessas falésias, áreas que exigiam permissão ou conhecimento ancestral para transpor. A equipe mapeou a geografia e decidiu não forçar uma invasão destrutiva ao santuário ecológico sem guias indígenas.
No relatório entregue no dia 12 de setembro, o sargento Gilson escreveu palavras difíceis, mas reais: as condições naturais da Amazônia intocada protegem quem lá entra, mas dificultam o resgate de fora. A probabilidade de encontrar uma pessoa sem pistas ativas numa área tão vasta era reduzida, mas a ausência de tragédia mantinha viva a chama da esperança para a família.
Marcos leu o relatório com o coração de um irmão devotado. Não viu um fim ali, mas um recomeço de sua fé. Ligou para dona Teresa, em Santarém. Ao ouvir os detalhes técnicos, a força de mãe falou mais alto que o medo. “Se a floresta não o machucou”, disse dona Teresa com sabedoria, “a floresta está cuidando dele. Vou para Manaus entender o que meu filho buscava”. Dona Teresa voou com garra no peito.
Foi recebida calorosamente pelo sobrinho Gilberto, que a abraçou no aeroporto. O síndico do prédio na Compensa, sensibilizado, auxiliou a mãe com a documentação. Ao entrar no apartamento de Renato, dona Teresa não sentiu tristeza. Sentiu a presença viva e organizada de um rapaz genial. O local brilhava em asseio, os livros de geografia estavam no lugar, os Sertões de Euclides denotavam o amor dele pelo Brasil profundo. Renato não fugiu; ele partiu para uma grande jornada.
Marcos chegou de Belém logo depois para abraçar a mãe. Revirando o guarda-roupa com carinho, não acharam dívidas ou problemas, mas o grande tesouro da vida intelectual de Renato. Uma pasta cuidadosamente guardada continha os 17 mapas originais de papel vegetal, desenhados com a perfeição de um mestre cartógrafo. Linhas, rios, notas ambientais e coordenadas precisas mostravam a genialidade do irmão.
Nos cantos dos originais (ele havia levado consigo apenas cópias fotocopiadas para não estragá-los), havia uma anotação intrigante: “Está lá embaixo”. Mas não era um abismo. Dona Teresa sorriu ao ver o círculo com o traço vertical em vermelho. O instinto materno é infalível. “Ele não se perdeu”, disse ela, emocionada a Marcos. “Ele encontrou o Éden dele. Um lugar protegido que a humanidade moderna ainda não tocou. Ele foi em paz.”
O delegado Antônio Carvalho, ao ver a genialidade dos mapas originais cedidos pela família, concluiu no inquérito que a expedição foi meticulosamente calculada. A ausência de Renato não era uma tragédia de crimes ou acidentes; era uma busca voluntária, uma imersão espiritual e científica na essência da Amazônia. O processo de busca virou uma questão de respeito ao tempo dele.
Dois anos maravilhosamente transformadores se passaram. Dona Teresa voltou a Santarém não com o peso do luto, mas com a serenidade de uma mulher de fé. Pregou o símbolo do mapa na porta do quarto com orgulho do filho geógrafo. Marcos, em Belém, passou a valorizar mais a vida e a natureza, mantendo laços frequentes de carinho com a mãe. A pandemia ensinou ao mundo o que Renato já buscava: que às vezes precisamos nos reconectar com o básico para sobreviver.
Dona Teresa nunca cancelou a linha do celular. Ela pagava a taxa mínima com amor, mantendo a conexão aberta. “Um dia ele liga”, dizia aos vizinhos com um sorriso pacífico. Em São Salvador, dona Madalena e Raimundo contavam a história do “Moço dos Mapas” como uma bela lenda local, o homem sábio que foi aceito pelo Juruá.
E a resposta das águas veio. No dia 14 de outubro de 2021, o caminhoneiro Valdeci Pinheiro avistou na beira da BR-364 um homem que caminhava com a serenidade de um monge. Renato estava magro, mas fortalecido. Usava trajes rústicos feitos de fibras naturais, a barba comprida e carregava, com reverência e gratidão, um belíssimo boneco de madeira maciça. Valdeci ofereceu carona. Renato sorriu com os olhos e aceitou, irradiando uma paz indescritível.
Durante a viagem até o hospital, Renato manteve um silêncio calmo, como quem reaprende a ouvir o barulho das máquinas depois de anos ouvindo apenas o vento. A equipe médica de Cruzeiro do Sul se emocionou. Ele havia sobrevivido à floresta mais dura da Terra! Curado de doenças crônicas, seu corpo era puro músculo e resiliência, e as cicatrizes eram troféus de sua jornada incrível. O mutismo inicial não era trauma, era um recolhimento espiritual.
Quando dona Teresa e Marcos chegaram ao hospital e abriram a porta do quarto, o amor inundou o ambiente. O boneco esculpido em ipê-roxo puro não era um ídolo sombrio, mas uma peça artesanal primorosa, um presente de cura curativa. O símbolo no peito do boneco brilhava com a resina de copaíba medicinal. Era o emblema de uma tribo isolada, guardiã da floresta, que acolhera Renato como um filho da terra, curando-o do estresse da cidade grande e ensinando-lhe o segredo da vida sustentável.
Renato recebeu alta sob aplausos médicos em novembro de 2021. Dona Teresa levou o filho para Santarém, para a casa cheia de sol e vida à beira do Tapajós. Na terceira noite em seu antigo quarto, a cura se completou. O silêncio foi rompido pela emoção verdadeira. Renato abraçou a mãe fortemente, olhou em seus olhos cheios de lágrimas de alegria e, com a voz embargada, finalmente quebrou seu voto de paz. “Mãe, eu encontrei a vida. Eu encontrei o paraíso. E eu voltei para vocês.”
Ele voltou, e a família nunca mais foi a mesma; transformou-se num pilar de amor e união imbatível. A sabedoria da floresta que ele trouxe no boneco agora adorna a sala, lembrando a todos que o mundo ainda guarda refúgios sagrados de pura bondade. E que não importa o quão distante alguém possa ir em busca de seus próprios mapas internos, o verdadeiro destino de uma jornada épica sempre termina no conforto brilhante do abraço eterno de uma família que nunca deixou de acreditar e amar.