“Eu precisava dar uma prova de amor pra ela” – O C0NTROVERSO CRIM3 DE ÍLHAVO
A polícia então chegou por volta das 4 horas da tarde, bateu na residência e ninguém atendeu. Por essa razão, eles decidiram entrar. Eles entraram, olharam ali a parte da frente da casa e não encontraram nada suspeito. Mas eles foram avançando e, em certo local ali da casa, eles notaram uma mancha de sangue que ia de uma espécie de jardim na frente da casa para dentro de uma porta ali. Então, obviamente, eles seguiram essa mancha de sangue, entraram e ali, logo de cara, na cozinha, eles já encontraram o primeiro corpo, que era da Senhora Maria Fernanda dos Santos, de 48 anos. Havia manchas de sangue pela casa. Os policiais continuaram a investigação, subiram ao segundo andar — era um sobrado — e lá eles encontraram o corpo do Senhor Jorge dos Santos, de 49 anos, um médico superconhecido ali na região de Ílhavo. No corpo, eles encontraram sinais de grande violência, de brutalidade. Quem quer que tivesse feito aquilo tinha usado bastante raiva para efetuar aqueles golpes. Havia muitos sinais de agressão no corpo do casal. Além dessas evidentes feridas que os policiais encontraram ali logo de cara, nessa
verificação inicial da casa, eles notaram que a casa estava ligeiramente bagunçada. Havia combustível sobre o corpo da mulher, havia também fósforos espalhados pela casa e uma boca de fogão aberta. Aquilo ali deixou claro que o assassino ou assassinos queriam incendiar a propriedade para, de repente, acabar com qualquer evidência que pudessem ter deixado ali na cena do crime. Além disso, os policiais notaram que não tinha muita coisa ausente na casa, não estava faltando nada de valor, apenas alguns objetos, coisas bobas assim, digamos, tinham sido
levados da casa — além, claro, de uma coisa evidente que sumiu, que foi o carro do casal. Mas, dentro da casa mesmo, nada, poucos sinais de luta. Então, mesmo que nada de muito valor tenha sido levado da propriedade, a tese naquele momento era de latrocínio: um roubo que não tinha dado certo. Mas eu não sei se os policiais naquele momento assumiram essa tese para dar início ali às investigações ficando com o pé atrás, porque o que dá a sensação, olhando essa descrição da cena inicial, é que um latrocínio nem sempre acontece com tanta
raiva assim, né, brutalidade na execução das pessoas. Normalmente, o criminoso entra na casa com a intenção de roubar, de repente topa ali com o proprietário da casa de surpresa e o crime acontece rápido, né? Um disparo, uma facada, um golpe fatal e fuga. Ali havia vários sinais de agressão, repetições, golpes repetidos, ou seja, quem fez aquilo com o casal fez com muita raiva.
Quando a perícia foi analisar a cena do crime, as coisas mudaram um pouquinho de figura: eles passaram a encarar como principal suspeito daquilo o filho do casal, Antônio Jorge,
conhecido como Tojó. Principalmente porque os objetos que foram levados da casa eram objetos pessoais pontuais; até eu diria que quem pegou sabia exatamente onde estavam. Então toda aquela bagunça no entorno ali da cena do crime parecia ensaiada, sabe, planejada. As coisas estavam reviradas de maneira meio assim: alguém fez, não foi por acaso, uma trombada, um resvalar. As coisas pareciam ensaiadas de uma cena de crime montada. E tem também o fato de que o Tojó, o filho do casal assassinado, não estava vivendo uma condição financeira muito
interessante, sabe? Ele planejava, ele queria, almejava uma vida melhor em termos financeiros. Tudo isso, depois ouvindo testemunhas, pessoas que conheciam o casal, começou a fazer sentido. Então essa tese, esse suspeito principal, nesse momento fazia todo sentido na cabeça dos investigadores. Mas Tojó tinha um álibi — um álibi claro que seria investigado. Na noite do assassinato dos seus pais, Tojó não estava em Ílhavo: o Tojó tinha saído em miniférias, digamos, com a sua esposa, a Sara Machado. Desde o dia 7 de agosto
eles estavam viajando. Eles foram para Coimbra, Figueira da Foz, Praia da Vieira, São Pedro de Moel, Nazaré e Peniche. Eles faziam essas viagens aí com o carro, um carro que estava registrado no nome do pai da Sara, e nem sempre eles tinham dinheiro para dormir em hotéis, portanto, em algumas noites eles dormiam dentro do próprio carro, o que não era do agrado da Sara, a esposa do Tojó. Mas essa questão da Sara torcer o nariz por causa da hospedagem do casal eu conto daqui a pouco para vocês. O que nós temos por hora
são os depoimentos iniciais tanto do Tojó quanto da Sara. Eles disseram que tinham chegado em São Pedro de Moel dois dias antes do crime, e o Tojó disse que por alguma razão ele se desentendeu com a mulher e resolveu ir dar um passeio sozinho na praia. Ele entrou no mar e, como as ondas estavam muito agitadas, ele teria se batido ali em algumas rochas da praia e por isso ele fez um ferimento na mão. Vai vendo. Esse ferimento… Quando ele voltou lá para onde eles estavam hospedados, a Sara perguntou o que ele tinha feito na mão e ele explicou que tinha entrado no mar e batido contra uma rocha ali, e acabou machucando a mão.

Bom, a princípio essa história ficou por aí mesmo. A Sara supostamente teria acreditado na história do Tojó. E já era o dia 14 de agosto, ou seja, dois dias depois do assassinato dos pais do Tojó. Nesse momento, o pai da Sara telefona para eles lá onde eles estão e comunica que eles precisariam voltar a Ílhavo porque os pais do Tojó não estavam nada bem de saúde. Então eles regressam a Ílhavo e nesse momento o pai da Sara comunica o que tinha acontecido, né? Ele comunica da morte dos pais do Tojó, do assassinato e tudo mais. É dito que o Tojó fez uma expressão de espanto, de estar assustado, sem compreender o que estava acontecendo. Ele até disse: “Mas por que fariam isso com meus pais? Eles nunca fizeram mal a ninguém”, né? Mas, como eu disse a vocês, a polícia já estava desconfiada de que o autor daquele crime seria o Tojó. Por isso eles não acreditaram nessa história nem nesse semblante de surpresa do Tojó. Com essa desconfiança pairando no ar, a Sara foi chamada para interrogatório novamente, sem o Tojó, e dessa vez com alguma pressão policial a Sara contou uma história bem diferente
da versão que eles contaram no primeiro depoimento. Dessa vez a Sara disse que eles estavam almoçando em um restaurante ali na região de São Pedro de Moel quando eles começaram a discutir por questões financeiras. Naquela altura da vida deles, apenas o Tojó trabalhava, enquanto a Sara apenas estudava. E nesse momento eles discutiram porque a Sara sempre queria dormir em hospedagens, em hotéis, e o Tojó disse que estava com o dinheiro curto e por isso eles precisavam dormir no carro. Lembram que eu falei que a Sara torcia o nariz de ter
que dormir no carro? Pois é. Então esse teria sido o motivo que causou a discussão, né, causou essa discussão entre o casal. E nesse momento o Tojó teria ficado muito irritado, então ele simplesmente saiu lá do restaurante onde eles estavam comendo, pegou o carro e desapareceu sem dizer para onde ia. Lembrem-se: ele teria ficado irritado por questões financeiras. O Tojó então, depois de ter sumido, teria voltado a se encontrar com a Sara só no dia seguinte a esse desaparecimento, que era o dia 12 de agosto, o dia do crime. Ele chegou para conversar com a Sara já na tarde desse dia, e ele estava com a mão machucada.
E essa versão a Sara meio que corroborou do primeiro depoimento: ela disse que o marido tinha saído para caminhar na praia muito magoado e por alguma razão ele se feriu durante essa caminhada. Muito bem. Enquanto tudo isso se desenrolava, o Tojó já começou a perceber que ele estava figurando como principal suspeito daquele assassinato, daqueles assassinatos. Por essa razão, quatro dias após os crimes, o Tojó acabou confessando a autoria dos crimes. Segundo
ele relatou em entrevistas bem depois dos acontecimentos, anos depois, ele disse que a polícia estava fazendo pressão na mente dele, dizendo que a Sara seria presa porque ela estava se contradizendo nos depoimentos. Enfim, eles assumiram uma estratégia ali de pressão psicológica no Tojó e por essa razão, segundo o Tojó, ele teria confessado o crime. E assim ele teria contado então a versão do que de fato teria acontecido, ou como quase tudo aconteceu: ele precisou viajar 130 km para cometer os assassinatos. Segundo o Tojó, ele de fato discutiu com a esposa,
com a Sara, mas ele não pegou o carro nem sumiu dessa maneira. Ele sim teria entrado em um ônibus, se dirigido até uma localidade onde ele desceu, comprou uma roupa, comprou também uma mochila e uma faca de cozinha. Depois ele pegou um outro meio de transporte, se dirigiu até um ponto próximo a Ílhavo e depois ele fez o caminho até a casa dos pais a pé. Então o Tojó chegou na casa dos pais, bateu à porta, a mãe surpresa, né, porque ela sabia que ele estava viajando com a esposa, abriu, eles entraram na casa, começaram a conversar, subiram pro
segundo andar onde estava o pai do Tojó e lá eles teriam iniciado uma discussão, porque o Tojó chegou já botando o dedo na cara do pai, falando: “É você o culpado de toda essa desgraça que está acontecendo comigo, é você o culpado por essa minha situação”. Claro que o pai ali, espantado, né, pego de surpresa pelo filho tacando o dedo na cara dele, falando que ele era culpado, reagiu a essas agressões e eles começaram a discutir verbalmente. A discussão evoluiu para uma briga física ali, eles acabaram caindo no chão, o Tojó conseguiu pegar a faca que ele
trazia na mochila e ali o crime tinha início. Ele começou a golpear o pai. A mãe do Tojó ficou espantada, perplexa com o que estava acontecendo, e ela tentou fugir. Ela desceu as escadas até lá ao primeiro andar da casa. Nesse momento, Tojó saiu lá de onde o pai já estava todo ensanguentado, todo ferido mortalmente, ele desceu atrás da mãe que já tinha conseguido sair da casa, já estava na parte de fora ali. Ele alcançou a mãe e começou a golpeá-la também, desferindo diversos golpes de faca nela. Depois que ela já estava desfalecida, ele
pegou e arrastou o corpo para dentro da casa — e isso explica aquela cena inicial onde os policiais foram até a casa depois que os vizinhos deram pela ausência do casal: a mancha de sangue estava na parte de fora da casa e aquele rastro de sangue ia até a parte da cozinha da propriedade ali no primeiro andar. Nesse momento, o Tojó diz no seu depoimento, né, durante o interrogatório, que ele começou a entrar em pânico, ficou desesperado quando percebeu o que tinha feito. Aqui me dá a entender que ele de fato discutiu com a Sara — a não ser que ele tenha planejado essa história muito bem para, né, acobertar alguma coisa que a Sara tenha feito; haja paixão, não é? Mas, partindo do pressuposto de que de fato tudo isso aconteceu, ele brigou com a Sara, ficou P da vida, né, por essa questão de grana, a mulher estava lá falando na orelha dele, ele saiu de si e foi lá para castigar os pais. Fato é que ele estava furioso muito em função desse, né, envenenamento por causa dessa briga aí. Ele foi lá já com a intenção de matar os pais. Depois que ele fez e viu todo aquele sangue espalhado pelo chão, ele
entrou em pânico, então ele resolveu acabar com todas as evidências do crime. Por isso é que ele colocou o combustível, pegou tudo que estava, que era inflamável ali na casa para tentar causar o incêndio, mas ele não conseguiu fazer isso, então ele resolveu simular um assalto — e simulou bem porcamente, né, porque de cara os peritos ali, assim como aconteceu no caso da Suzane aqui no Brasil, né, de cara quando eles entram na cena do crime, uma varredura inicial ali, para quem tem o olho treinado, já percebe que quem fez é alguém que
conhecia muito bem a dinâmica da casa. E assim aconteceu no caso do Tojó aí também. Nesse momento então, o Tojó pega algumas coisas da casa ali, alguns objetos, ele coloca tudo na mochila dele, rouba o carro dos pais e foge para a Praia de Mira. Então ele pega todos os objetos, vai para esse local, troca de roupa — supostamente essa roupa que ele comprou na ida, né, quando ele estava planejando os passos aí para o cometimento do crime, lembram-se de que ele comprou uma roupa, depois ele pegou uma condução até lá e foi a pé? Muito provavelmente ele troca essa roupa aí nesse local e abandona o carro numa área ali isolada perto dessa praia. Muito bem. Dando continuidade então ao depoimento do Tojó, ele diz que sim, ele tinha muita raiva do pai, porque o pai era uma espécie de carrasco para ele desde a infância. Então a polícia ficou assustada quando ele começou a dar esse depoimento, né, porque ele teve muita raiva ao fazer aquilo, deixou de lado completamente o amor, né, de pai para filho, de mãe para filho, e colocou em cima disso tudo a raiva que supostamente ele sentia, né, uma aversão
profunda pelos pais, principalmente pelo pai, a quem ele chamou de carrasco por tudo que esse pai teria feito para ele durante a infância; que todas as discussões dentro da casa, quando aconteciam, apontavam-se dedos na direção do Tojó, isso claro na perspectiva dele, depoimento dele. E aqui entra um ponto mais factual na história: a polícia também encontrou um diário da mãe do Tojó na residência e lá, nesse diário, tinha algumas passagens em que a mãe mostrava uma insatisfação com o casamento, né, com o marido, dizendo que o casamento já não estava muito bem. E, inclusive — isso também é um fato —, eles chegaram a se separar judicialmente, então eles não eram mais casados judicialmente, mas eles optaram por continuar morando juntos. Então isso, de certa forma, deu ali subsídio, né, para a declaração do Tojó aí de que o pai não era uma coisa, não era uma pessoa muito bacana no convívio com ele. Muito bem. Depois então de toda essa confissão, de todos esses detalhes, Tojó, junto com os oficiais, se encaminhou lá para o local onde ele abandonou o carro, onde tinha os objetos que ele levou da casa e também a arma do crime, a faca.
A partir desse momento, Tojó teve um mandado de prisão emitido, uma prisão preventiva para aguardar o julgamento. Só que vocês acham que a história acabou simples assim? Claro que não. Tinha muito pano pra manga ainda para se desenrolar nesse caso. Foi a partir desse momento, né, depois dos depoimentos, da prisão preventiva do Tojó, que os investigadores começaram a levantar novas suspeitas: eles acharam que era improvável que o Tojó tivesse conseguido executar aquele assassinato daquela forma tão cruel sozinho, e aí eles levantaram a possibilidade de que ele tinha cúmplices. E aí começou a surgir também as questões satanistas: eles levantaram questões de rituais satânicos, falou-se dessa questão aí do último eclipse solar do milênio, aí começou toda a especulação aí de cunho mais místico, eu diria. E tudo isso, galera, junto aí com o contexto social de 1999, tá? Não havia assim essa quantidade de informações que a gente tem hoje, tudo era meio que ainda boca a boca, notícia, manchetes, jornais. E quando se especulou
essa questão satanista, pô, foi um prato cheio, né, para as manchetes de jornais sensacionalistas. O negócio era estampado assim: “Rituais satânicos”, “Crime satânico em Ílhavo”. E depois vou falar para vocês da banda dele, né, banda de death metal e envolvida em crime satanista. Enfim, aí foi aquela história que vocês já devem supor, não é? Muito bem. O Tojó, pessoal, foi preso no dia 16 de agosto, quatro dias depois do crime, e ele próprio, com seus depoimentos e também com as coisas que ele fazia já em detenção, meio que corroborou toda essa mística em torno do que foi levantado, né, esse negócio satanista e tudo mais, porque ele escreveu uma carta para a Sara — que só foi visitar ele na cadeia 10 dias depois, acompanhada dos pais dela, dizendo que ela pretendia seguir a vida dela sozinha. Eles se casaram em 1994, ou seja, eles estavam casados há cerca de 5 anos. Depois que tudo isso aconteceu, se o Tojó fez isso por causa dela, ela foi lá e deu um belo de um pé na bunda dele dizendo que ia seguir a vida sozinha. E, apesar disso, ele escreveu uma carta para ela na cadeia. Essa carta
aí também ajudou a fomentar toda essa questão aí de mística, de satanismo e tudo mais, porque na carta ele chamava a Sara de “deusa de fogo”. E mais, viu, pessoal? Nessa carta o Tojó faz alguns apontamentos bem interessantes: ele diz que o psicólogo que já tinha conversado com ele na cadeia disse que ele tinha tendências aí de perfeccionismo, de que era um cara obsessivo, que ele não queria decepcionar ninguém, que ele precisava fazer tudo da maneira certa. Então aí ele entra falando da Sara, né, que era uma deusa para ele, que ele não podia ver sofrer, não podia ver triste e tudo mais, ele tinha que estar sempre fazendo alguma coisa para que ela se sentisse bem, em plenitude. Tem uma outra passagem da carta que ele diz assim: “É que para mim, na altura, os meus pais eram responsáveis por, ao longo dos 10 anos de tormento, de repressão, agonia e terror, terem esgotado e estragado parte da minha saúde mental”. Aí ele vai descrevendo, né? Tem várias passagens na carta onde ele demonstra aí esse rancor com os pais, esse amor, entre aspas, né, muito profundo pela Sara, que é mais uma espécie de realmente dependência química, dá até essa sensação, né? Ele diz aqui até que, do dia do casamento, ele se propôs a entrar numa espécie de estado onde ele estava sempre querendo realizar as coisas para a Sara, ou seja, ele diz que o casamento ali foi uma opção dele para realizar aquela sua deusa. Uma carta que já começa a nos mostrar aí um certo panorama da vida do Tojó, né, do Antônio Jorge — para quem não se lembra o nome do cidadão —, onde ele mostra realmente que ele tem ali alguns problemas, né, psicológicos, toda essa questão de perfeccionismo, de querer agradar demais as pessoas. O que me dá a entender que de fato ele deve ter discutido com a Sara e ela, por alguma razão, né, ficou ali falando na orelha dele sobre essas questões financeiras, e ele não queria decepcionar a mulher. Até aquele momento talvez eles estivessem ainda conseguindo, né, levar o casamento ali entre tapas e beijos, mas vão se entendendo. Mas talvez naquela viagem que eles resolveram fazer, porque a Sara queria dormir em hotel, hospedagens mais legais, e ele precisava dormir no carro porque não tinha dinheiro, ali ela começou, né, a argumentar, a contar sobre isso, o Tojó saiu de giro e foi lá fazer o que ele fez com os pais justamente por culpá-los por alguma coisa, pela situação financeira dele. Mas deixa eu falar para vocês um pouco sobre como o Tojó, né, o Antônio Jorge, e a Sara se conheceram. Eles se conheceram ainda na escola secundária, pessoal. Enquanto eles estudavam juntos ali, eles começaram a conversar e tudo mais, e apesar de eles serem bem diferentes, eles ingressaram aí num relacionamento. A Sara era descrita como uma pessoa muito extrovertida,
alegre assim, né, líder nata, sabe? A pessoa que chama para ela, né, as pessoas assim, uma espécie de chamariz. Enquanto o Jorge, o Antônio Jorge, o Tojó, era um cara retraído, tímido, na dele, ou seja, eles eram opostos. E, nesse caso aí, realmente os opostos se atraíram. Esse namoro então começou no colégio, isso era em 1993, e foi nesse ano também que eles fundaram a banda de death metal, que foi aí o objeto de muita discussão nesse caso. Eles tinham dois amigos também nessa banda aí; o Tojó, pessoal, era vocalista e guitarrista da banda,
enquanto a Sara era baterista. Então eles tinham bastante coisa em comum. Apesar dessa personalidade, né, diferente aí, um ser mais introspectivo e o outro extrovertido, eles começaram a namorar. Mas não é dito aí nas fontes que eu pesquisei o porquê de os pais não aceitavam muito bem essa relação, então eles foram a Lisboa meio que fugindo para Lisboa por essa falta de aceitação do namoro deles por parte das famílias aí. Então eles ficaram lá um tempo, né, temendo essa rejeição aí, e em dado momento da história deles, eles
conseguiram de alguma forma convencer os pais de que eles realmente se amavam, e aí eles regressaram lá para a cidade natal deles, Ílhavo. Tudo isso aí, galera, permeando as questões financeiras, sabe? Eles tinham o desejo de realmente alcançarem a independência financeira, mas claro que eles eram muito jovens e isso ia demorar para acontecer, né? Eles tomaram o pior caminho possível, se é que era isso que eles estavam buscando, né, quando eles planejaram tudo isso. E inclusive, já dando esse panorama para vocês aí, a gente já consegue perceber algumas ramificações do porquê o crime aconteceu, né? Pode ter sido só um desvio aí na chavinha da normalidade na cabeça do Tojó? Pode. Mas será também que não foi um plano, um crime premeditado no sentido de que eles queriam independência de alguma forma, pegar as coisas que eram dos pais do Tojó? Pode também. Tudo isso foi levantado, tá? Mas vamos por partes. Bom, então depois que o casal regressou aí dessa fugidinha que eles deram, né, pela falta de aceitação aí, já estava tudo mais na normalidade, digamos, né? Os pais de ambos já estavam aceitando esse
relacionamento, tanto que quando eles regressaram eles foram morar na casa dos pais do Tojó. E nessa altura aí o Tojó começou a fazer um curso de informática, cerca de 11 meses depois ele conseguiu um trabalho, enquanto a Sara ainda estava estudando administração e marketing, na verdade num Instituto Português de Administração de Marketing, o IPAM. E nessa altura da vida deles eles eram meio que sustentados por ambos os pais: eles tinham aí uma ajuda financeira tanto dos pais dela quanto dele, mas o Tojó já estava trabalhando, né, depois desses 11 meses estudando aí informática e tudo mais. Só que havia muitas discussões na casa, principalmente com o pai do Tojó. Por essa razão, em algum momento ali eles saíram da casa dos pais do Tojó e foram morar na casa dos pais da Sara. E o Tojó recebia ali um salário pelo trabalho que ele fazia de informática, mas também uma mesada dos pais dele, uma mesada muito mais gorda inclusive do que o próprio salário dele. Então dinheiro eles tinham, apesar de não ser muito para conseguir a independência financeira que eles almejavam, mas eles tinham dinheiro, sim.
Se isso era um fator que também causava frustração no Tojó e na Sara, não sei dizer a vocês. Muito provavelmente, né, talvez aí uma questão de humilhação, né, por estarem sendo sustentados ainda pelos pais. Percebam como a coisa vai começando a surgir, né? A mentalidade assassina vai começando a surgir, são vários elementos nesse caso, né, pessoal? E só para vocês terem uma ideia disso que eu estou falando, em uma dessas cartas que o Tojó escreveu para a Sara já na prisão, ele fala sobre toda essa situação aí, viu, da mesada, do trabalho;
ele disse que para ele estava de boa, mas para ela não: ela sempre achava que aquilo não era suficiente. E ele disse também que jamais esperou que ela virasse as costas para ele naquela situação que ele estava enfrentando. Então percebam, né, que realmente a Sara é um fator fundamental em toda essa história criminal, não é? Apesar de só o Tojó estar preso no momento e, já adiantando aqui para vocês, ter sido julgado e condenado, a Sara tem um fator muito importante na construção mental aí de um assassino. Sabe aquela
história de que mata sem pôr a mão? Pois é. E olha só que interessante: todas essas cartas que o Tojó escreveu direcionadas à Sara e também a alguns amigos foram parar na mão da polícia, e elas ajudaram a polícia na linha de argumentação de que ele não conseguiria fazer aquele crime sozinho. E assim, eu penso que pode até ter sido feito sozinho só pelo Tojó, do jeito que ele descreveu no primeiro depoimento, mas teve aí muita… Vai, vai, vai… Vocês não acham? Mas a polícia não acreditava que de fato ele não teve ajuda material ali na execução dos fatos criminais. Justamente a análise dessas cartas mostra como estava o estado de espírito do Tojó em toda a sua vida, principalmente nos momentos que antecederam o crime. O Tojó, por essas cartas, estava literalmente aos poucos sendo abandonado por todos. E tem uma parte da carta onde ele diz assim, ó: “Eu preciso muito ver a Sara, dar-lhe explicações, pedir desculpas para ela”. Ele escreveu essas partes aí direcionadas a um amigo chamado Hélder Teixeira no ano de 2000, já quando ele estava preso. Ele disse: “Desde o início eu tentei arranjar uma história que pusesse a Sara de lado, mas ela nunca telefonou”. E por essa carta aí, no desespero de proteger a Sara, a mulher, ele acabou por condená-la, né, condená-la entre aspas, né, pessoal, colocá-la aí na mira dos investigadores. “Eu quis inventar uma história que não colocasse ela no holofote”. Quando a polícia leu isso aí, ficou evidente que o Tojó tinha cometido um erro, né? Ele inventou uma história onde colocava a esposa de lado, mas ela tinha alguma participação. Restava saber
como, qual, por qual razão, de que jeito ela participou. E foi aí que a polícia conversou novamente com o Tojó, e ali, conversando, dando uma pressionadinha, ele realmente cedeu e disse que queria fazer uma nova confissão. Tojó disse que por ele aquele crime jamais teria acontecido, ele diz que no verão de 99 ele junto com a Sara começaram a planejar que o Jorge e a Maria Fernanda dos Santos tinham que morrer. Tojó diz, faz uma revelação nada surpreendente para gente que está conhecendo a história agora, né? Ele disse que foi a
Sara que teve essa ideia: ela disse que eles precisavam morrer para eles, enfim, alcançarem a independência financeira. Uma das razões que fez com que a Sara tivesse essa atitude extrema, né, de alcançar logo a independência financeira, é que ela teria reprovado no curso que ela estava fazendo e ela não queria contar isso para ninguém, porque era mais um passo ali de frustração na vida de toda a família, né, de humilhação, então meio que ela precisava urgentemente alcançar a independência financeira. Percebe como estava totalmente… Não estava enxergando a
realidade, né? Estava fora de si a mulher também. E ele completamente encabrestado ali, né? Um… Literalmente um pau-mandado da mulher, que foi caindo na lábia dela e entrando num beco sem saída. E aí, como a Sara era a rainha dele, a deusa dele, a mulher para quem ele não negava nada, que ele nunca queria ver triste, magoada, quando ela começou a falar, falar, falar desse plano na cabeça dele, ele não teve saída, né? Ele já estava condicionado, o cérebro dele já estava programado para não magoar a queridinha. Tojó ainda diz nesse novo depoimento que ele argumentou sim algumas vezes, sabe, dando alternativas para a Sara, falando: “Ó, a gente pode fazer isso, vamos fazer aquilo”, mas ela continuava batendo na tecla. E ele diz que não tinha outra coisa a fazer, ele precisava dar essa prova de amor para ela. Já imaginou dar uma prova de amor matando os próprios pais? Pois é. As pessoas que foram ouvidas que conheciam o casal deram depoimentos bem esclarecedores também: eles disseram que a Sara era uma espécie de dominadora na relação, né? Todos que conheciam o casal
diziam que o Tojó fazia de tudo para agradar a mulher e que ela era assim, dominante na relação e levava o cara ali realmente no cabresto. E muito bem, eles estavam aí nessa conversa, nesse plano, o Tojó já estava convencido de que ele ia fazer isso mesmo. E aí, em conjunto, eles planejaram, premeditaram o crime. Eles chegaram à conclusão de que seria o caminho mais fácil realmente para eles atingirem a independência. Fizeram todo o planejamento com essa viagem que eles fariam, né, que começou no dia 7 de agosto. Eles estavam criando o álibi deles, né? Então o Tojó foi para lá, mas ele estava viajando, ninguém supostamente viu o homem furtivamente fazer o que ele fez, então eles tinham um álibi contundente, a não ser por essa confissão nessa versão dos fatos aí que o Tojó estava dando. A Sara era a autora intelectual do crime, inclusive ela teria comprado os elementos ali que ele usou para executar o crime, como, por exemplo, roupas, um lençol para esconder o cabelo, um chapéu, duas facas e uma lanterna em um hipermercado lá em Coimbra. Inclusive, a polícia teria encontrado esse registro
de compra, né, registrado ali na fatura de um cartão da Sara. E o Tojó diz ainda, né, que a Sara planejou tudo e também foi ela quem se livrou dos elementos aí, das provas do crime. Com esse novo depoimento em mãos, a polícia, enquanto averigua tudo, o juiz emitiu um mandado de prisão para a Sara, só que era uma prisão domiciliar. A Sara ficou de boa na casa dela, enquanto o Tojó estava cumprindo prisão lá na cadeia mesmo, né? Só que a Sara ficou pouquinho tempo presa, mesmo que em prisão domiciliar, porque eles não continuaram investigando aí, mas não
tinha nenhuma prova que ligasse ela diretamente a não ser esse argumento aí do Tojó, então ela acabou saindo. E nesse momento da investigação um novo nome surge, tá, pessoal: Nuno. Surgiu a suspeita de que ele tinha colaborado com o crime, e ele também ficou em prisão domiciliar preventivamente. Tudo isso em função das questões que eu vou falar agora para vocês, das lan… Da banda de death metal, questões satanistas e tudo mais. Com esse depoimento do Tojó, a polícia começou a acreditar de fato naquela tese lá de que tinha sido um crime, uma obra pro diabo,
um crime de satanismo e tudo mais, feito em conjunto com os membros dessa banda. A polícia estava convicta de que de fato o Tojó não tinha condições de cometer aquele crime daquela forma brutal, bestial, sozinho. E aí, quando ele começou a confessar toda essa questão da mulher, outras evidências começaram a surgir, essa tese aí do crime de satanismo ganhou força. E aí você sabe como é, né? A imprensa ajudou divulgando isso, começou a ficar aquele burburinho na cidade de que era um crime satanista, meio que, né, reação de manada. A polícia também queria provar que de fato era um crime com esse cunho místico. Aí entra a questão de que o Tojó só se vestia de preto, os membros da banda também, era uma banda de death metal, e eles planejaram isso segundo a polícia, né? Eles teriam planejado a execução do crime para esse dia onde aconteceria o último eclipse solar do milênio. E aí, pessoal, assim, vou falar brevemente para vocês que é infelizmente uma questão, não sei se de época, se isso ainda existe, mas beira, né, a ignorância, uma coisa leviana dessa, sem provas materiais de que de fato aconteceu.
Porque claro que existe isso, mas você especular uma coisa dessa só porque os caras tinham uma banda chega a ser bizarro, né? É aquela mesma história de quando acontece um crime porque fulano de tal assistia a um filme, jogava um jogo; uma coisa só isolada assim não pode determinar que foi o motivo, né, ensejador de um crime. Para se chegar ao cometimento de um crime, principalmente com um crime como esse, com tanta fúria, raiva, existem diversos outros fatores. Isso pode ter contribuído se de fato eles eram satanistas, tinham essa questão aí
de rituais e tudo mais? Pode. Mas isso que eu estou falando, a opinião popular, a opinião pública da época, os jornais sensacionalistas causavam ali uma sensação de que estava havendo um preconceito, porque só se falava da banda, a questão de death metal, porque eles se vestiam de preto, cruz e tudo mais, cabelo, não sei o quê, não sei o quê. Era uma questão puramente preconceituosa naquele momento, não tinha evidência factual de que houve um ritual. O negócio do eclipse aí pode ter sido muita coincidência, sabe? Só que mesmo sendo descabida essa comparação, toda essa coisa que foi permeada aí na história manchou demais o estilo musical na época, sabe? Todo mundo ficou com bastante preconceito em relação a esse estilo aí, isso foi objeto de discussão em programas de rádio, em programas de televisão lá de Portugal, tudo permeava o fato de “há uma ligação do crime de Ílhavo com death metal, heavy metal“, todos esses estilos musicais de rock mais pesado. Pô, a cena do crime mostrava que foi um crime de raiva, de fúria, sabe? A mulher tentou fugir, o cara pegou, arrastou para dentro, depois… Antes tinha matado o pai lá em cima, já no segundo andar da casa. Mostrava… Tinha alguns elementos ali, apesar de uma cena armada, tinha alguns elementos que mostravam que de fato houve uma discussão lá. Aí você pode até argumentar: “Não, mas a questão satanista foi só o motivo, né, de eles terem ido lá para fazer o crime lá, óbvio que talvez não tenha saído do jeito que eles planejaram”. Ah, né? É só fazer um esforço para pensar nisso. Enfim, pessoal, por todo esse imbróglio aí, toda essa questão, já alguns meses após o crime a polícia já tinha quatro acusados: era o
Antônio Jorge Machado, né, o Tojó, a mulher dele, a Sara, e também, deixa eu ver aqui, o Nuno Lima, o Hélder Teixeira e depois ainda entrou o Mário Antônio, todos membros ali, integrantes desse movimento aí do death metal e tudo mais, pessoas que depois foram descartadas — já resumindo aqui para vocês, né, o que mostra que foi uma grande… Uma situação atabalhoada da investigação. Fato é que dois desses suspeitos extras aí foram descartados, e a acusação continuou contra o Tojó, a Sara e o Nuno. Só para vocês terem uma ideia, o Tojó já estava com 25 anos, a Sara com
26 — ela era um ano mais velha do que ele —, e o Nuno tinha 21 anos. Todos eles então foram julgados porque, segundo aí despacho de acusação, todos eles professavam o culto a Satanás, o culto à morte. Só que a participação desse Nuno no crime não era muito clara nem nas argumentações ali durante o julgamento, nem no inquérito policial, nada disso. A única coisa que eles tinham é que supostamente teria sido encontrado um vestígio de sangue do Nuno no carro dos pais do Tojó, aquele carro que ele abandonou lá perto de uma praia. A isso ele explicou que o Tojó e ele se comunicavam por cartas e sempre eles selavam a carta com uma gotinha de sangue; talvez isso justifique esse sangue dele ter sido encontrado aí no carro dos pais do Tojó. Tinha também uma suposta vizinha que viu o carro do casal assassinado ali na manhã do crime com duas pessoas dentro, depois esse carro saiu, né? Então quem seriam essas duas pessoas que estavam dentro do carro: Tojó e esse Nuno? Tojó e a Sara? Não dá para saber, é só uma vizinha que teria visto isso. E são somente essas coisas que a gente tem sobre a
participação do Nuno no crime. Depois, várias pessoas foram ouvidas durante o julgamento, né, que foi calcado basicamente nessa questão aí das roupas pretas, da banda de death metal, do satanismo e tudo mais. E uma dessas pessoas disse que a Sara era a compositora da banda, que escrevia todas as letras, e as letras falavam coisas assim pesadas e tal, e realmente se confirmou que ela exercia ali um controle sobre o Tojó. O próprio Nuno, que figurava ali como um suspeito, né, um acusado já porque ele estava no julgamento,
né, definiu que o Tojó era um cara muito mais ligado a coisas terrenas do que espirituais. Então, para esse Nuno aí que estava sendo ouvido lá como acusado e como testemunha, na cabeça dele não tinha nada a ver com questão satânica, era sim um crime material e que provavelmente os dois tinham planejado, a Sara e o Tojó. E vocês acham, pessoal, que parou por aí? O negócio foi muito além, tá? Teve conversa entre as polícias de Portugal e de outros países onde estavam acontecendo crimes parecidos, né, com envolvimento de satanismo e tudo mais,
com criminosos que se vestiam de preto… Enfim, foi uma grande confusão. Na verdade não era fato, não tinha nada concreto, era tudo baseado realmente em achismos. O que tinha de fato de concreto é que em Ílhavo, lá em Portugal, tinha acontecido um crime impiedoso, cruel, contra os pais de um dos acusados, que acabou confessando o crime, deu várias versões, mas ele sempre figurava como o autor dos fatos. E também o que tinha de concreto era um julgamento esquisito, cheio de dúvidas e questionamentos que nunca foram respondidos. Os três estavam sentados no banco dos réus: Tojó, a esposa Sara e o amigo deles aí, o Nuno. E era consensual e visível no julgamento que os dois, a Sara e o Nuno, tentavam responsabilizar somente o Tojó pelo crime. Para além, né, de toda essa questão aí meramente especulativa, o que a gente sabe é que a Sara se fez ali de vítima, né, falou o oposto do que o Tojó falou sobre ela, que na verdade ele era controlador, que dizia como ela deveria se vestir. Enfim, ela se colocou na posição contrária daquilo que o Tojó tinha falado sobre ela — não só o Tojó, mas as
testemunhas, né, que falaram que ela era uma pessoa venenosa, controladora. Ela se colocou como o oposto. Como não tinha nada de muito concreto contra ela, ela estava ali figurando como acusada, mas certamente ela sairia impune. A Sara disse também que, depois que o Tojó já estava preso, ele ligava insistentemente para ela na casa dos pais, quando ela estava… Enquanto ela estava… Não, ela ficou solta, não é? E ela precisou mudar de número de telefone, disse que ele era bem obsessivo. E de fato isso ele próprio falou, né, que ele era obcecado por ela e tudo mais. Só que a verdade é que, à medida que o julgamento ia avançando, a dúvida principal continuava: como que o Tojó sozinho conseguiu dar dezenas de facadas nos pais? Ele próprio descreveu mais uma vez no julgamento como tudo aconteceu: ele disse que brigou lá com o pai, caiu no chão, o pai e a mãe tentaram tirar a faca dele, nenhum conseguiu, ele correu atrás da mãe, golpeou ela lá fora da casa, depois arrastou para dentro. Ou seja, ele falou novamente como tudo aconteceu. A Sara disse ainda que o Tojó tinha muita raiva dos pais, já tinha brigado com eles diversas vezes, enfim, ela quis jogar aí a culpa total no lombo do marido, ex-marido agora, não é?
Ao final do julgamento — dois meses de julgamento, ou seja, eu resumi bastante aqui para vocês, mas aconteceram muitas coisas, principalmente focadas nessa questão aí das bandas e tudo mais, das músicas, esse preconceito que rolou também nessa parte aí mais de convívio, né, de relacionamento, de questões psicológicas e tudo mais —, mas os juízes entenderam que não era o Tojó que dominava a mulher, mas sim a Sara que o dominava. Também não ficou comprovado que ele tinha ódio dos pais, que ele já tinha brigado com os pais. E na sentença lida em 17 de abril de 2001, o que ficou claro é que muitas dúvidas ainda continuavam, não tinham certeza absoluta do que aconteceu lá no dia dos crimes. Então isso beneficiou muito o Nuno e a Sara, e pelo fato de não ter uma certeza plena da participação do Nuno e da Sara lá nos assassinatos no dia, usando a faca, eles foram absolvidos. A isso no Direito dá-se o nome de in dubio pro reo, né? Na dúvida, beneficia-se o réu. E o Tojó, meus amigos, que sempre confessou, né, sempre deu detalhes do que ele fez lá na cena do crime, teve as versões que ele contou, etc. e tal, mas sempre tinha muita coisa igual, né, nessas versões dele, então o tribunal falou: “Beleza, foi você que fez mesmo”. Portanto, o Tojó foi condemned à pena máxima lá de Portugal, de 25 anos. Ele foi considerado uma pessoa plenamente normal, tinha condição, não tinha nenhuma perturbação.
Só um ponto que aconteceu depois da condenação do Tojó é que houve aí mais desdobramentos na questão da herança, né, que era o fator principal aí que eles queriam, né, para ter independência financeira. Essa herança foi motivo de muita briga na justiça também lá em Portugal, mas vou falar só resumidamente para vocês: com os avós do Tojó, né, eles ficaram extremamente chocados com o assassinato, os avós paternos, né, eles entraram na justiça para eles receberem a herança. Isso se desenrolou por muito tempo. O avô do Tojó acabou falecendo depois do crime, a avó entrou na justiça para conseguir receber uma indenização, né, pelo que o neto tinha feito com o filho e tudo mais. Isso se desenrolou por anos na justiça, o Tojó não tinha dinheiro para pagar a indenização, então eles entraram numa organização lá que faz esses pagamentos ordenados pela justiça quando o cara que é condenado não tem condições. Esse órgão disse que o Tojó tinha sim meios para fazer o pagamento, não pagou, isso foi se desenrolando ao longo do tempo e a senhora, a avó do Tojó, não recebeu nada.
A própria casa lá em Ílhavo onde o crime ocorreu estava financiada, e anos depois dos assassinatos ela foi vendida, e esse dinheiro aí meio que foi para o próprio banco, coisa e tal, né, essas coisas jurídicas aí de dívidas. A casa foi vendida por incrível que pareça, né, umas pessoas interessadas compraram a casa, disseram que não se importavam com o que tinha acontecido lá anos atrás, para eles estava tudo certo. Pintaram a casa de outra cor, fizeram uma reforma e hoje a casa está lá. E não foi só a casa que mudou, esta pintura, todos os envolvidos acabaram mudando ao longo de todos esses anos. A Sara inclusive se casou, teve filho, se mantém distante de toda essa história, não dá entrevista. O Nuno desapareceu aí na história, ninguém sabe o paradeiro dele ao certo. E o Tojó, meus amigos, cumpriu 17 anos de prisão — foi condenado a 25, né —, e no dia precisamente, deixa eu ver aqui, no dia 7 de março de 2017 ele foi colocado em liberdade. Ele conseguiu essa liberdade condicional fazendo estudos, né, dentro da cadeia, procurando emprego e tudo mais, convencendo o juiz, a juíza do caso, enfim, o sistema judiciário lá do país de que ele tinha condição sim de ser reinserido em
sociedade. E o cumprimento integral da sentença dele termina em agosto de 2024, portanto Tojó agora é um homem livre. Diante de tudo isso que eu contei para vocês, caríssimos abduzidos, o que é que vocês acham? Vocês acham que a Sara teve participação no crime? Aquele Nuno lá, aquele sangue lá foi uma baita coincidência estar lá, teve algum tipo de participação, ajuda? A Sara foi a mandante intelectual ou não, foi tudo coisa da cabeça do Tojó mesmo, que foi envenenado talvez por essa questão financeira de alcançar a independência financeira? O que é que vocês
acham? Qual a opinião de vocês sobre esse crime lá de Portugal que eu trouxe aqui para vocês a pedidos, atendendo a pedidos dos nossos amigos lá portugueses que sempre estão aqui com a gente acompanhando as histórias? É isso, espero que vocês tenham apreciado. Obrigado pela companhia, um beijo e até a próxima história da página.