Essa Baronesa Era Pura Perfeição… Até Descobrirem Seu Segredo Macabro — São Luís, 1951
O porão, comum nas construções antigas de São Luís devido à umidade e às enchentes, servia para guardar mantimentos, vinho do Porto e objetos sem utilidade imediata. A rotina da baronesa era previsível. Acordava às 6 horas da manhã, assistia à missa na capela particular antes do café, dedicava as manhãs a tarefas administrativas relacionadas aos seus imóveis e investimentos.
Almoçava sozinha, descansava por uma hora e depois recebia visitas ou saía para compromissos sociais. Jantava às 19 horas, sempre servida por Dona Josefa, uma empregada que trabalhava na casa desde os tempos do barão. Após o jantar, recolhia-se aos seus aposentos e ninguém a incomodava até o dia seguinte.
Dona Josefa tinha 58 anos e era natural de Alcântara, município vizinho a São Luís. Trabalhava no solar desde 1937. Era viúva, sem filhos, e morava numa dependência nos fundos do casarão. Cozinhava, limpava os cômodos do térreo e primeiro andar e cuidava das roupas da patroa. Nunca subia ao segundo andar sem autorização expressa, nunca entrou no porão.
Segundo seu próprio depoimento dado anos depois, a baronesa não permitia que ninguém transitasse por certas áreas da casa. Havia regras claras e ela jamais as questionou. Outro funcionário do solar era Severino Ramos, um homem de 35 anos contratado em 1948 para cuidar da manutenção externa do jardim e fazer reparos quando necessário. Severino não morava na propriedade.
Chegava às 7 da manhã e ia embora às 17 horas. Podava as árvores frutíferas do quintal, consertava telhas quando a chuva danificava a cobertura, pintava as grades. Também nunca subiu ao segundo andar, também nunca desceu ao porão. A baronesa pagava bem e pontualmente. Não havia razão para desobedecer.
Durante os primeiros meses de 1951, tudo parecia transcorrer dentro da normalidade esperada. Helena participou do baile de Carnaval do Clube Lítero Recreativo Português, doou uma quantia significativa para a reforma da Igreja do Desterro e foi homenageada numa recepção oferecida pela esposa do governador.
Em abril daquele ano, no entanto, começaram a surgir os primeiros sinais de que algo não estava completamente alinhado com a imagem perfeita que a baronesa projetava. Tudo começou com uma reclamação aparentemente trivial. A família Correia, que morava três casarões adiante na mesma Rua do Egito, comentou com vizinhos sobre um odor estranho que ocasionalmente chegava até suas janelas quando o vento soprava de determinada direção.
Descreviam como um cheiro de matéria orgânica em decomposição, semelhante ao de carne estragada. Imaginaram inicialmente que fosse algum problema no sistema de esgotos comum nas edificações antigas do centro. A prefeitura foi acionada, vistoriou a rede de esgoto da rua e não encontrou nada de irregular. O cheiro, no entanto, permaneceu.
Era intermitente. Aparecia especialmente em dias de muito calor, quando a temperatura em São Luís ultrapassava os 35 °C. Outros moradores da Rua do Egito começaram a notar: uma senhora que morava em frente ao Solar dos Távora mencionou em conversa na feira que às vezes durante a madrugada ouvia sons vindos da propriedade.

Sons que ela não conseguia identificar com precisão, arrastamentos, batidas surdas, nada que durasse muito tempo, nada que se repetisse com regularidade suficiente para parecer preocupante. Em maio de 1951, durante uma das tardes chuvosas características da estação, Dona Josefa estava limpando o corredor do primeiro andar quando escutou um barulho vindo de cima.
Eram passos pesados cruzando o teto sobre sua cabeça, vindos do segundo andar. Ela sabia que a baronesa havia saído para uma reunião da sociedade de damas de caridade e não deveria estar em casa. Largou o pano de chão e ficou imóvel escutando. Os passos pararam; silêncio. Depois recomeçaram, agora mais rápidos, como se alguém estivesse correndo. Então cessaram novamente.
Josefa subiu as escadas com cuidado, chegou ao segundo andar. Tudo estava em ordem. As portas dos aposentos do falecido barão estavam fechadas. O quarto de hóspedes também. As duas salas trancadas permaneciam como sempre. Ela tocou na maçaneta de uma delas. Estava quente. Recolheu a mão imediatamente, desceu as escadas sem entender o que tinha acontecido.
Quando a baronesa retornou, Josefa não mencionou o ocorrido. Tinha aprendido ao longo dos anos que certas coisas não deveriam ser perguntadas. A patroa valorizava a discrição, valorizava o silêncio. Quem servia na casa dos Távora sabia que fazer perguntas demais era o caminho mais rápido para ser dispensado.
No início de junho, Severino Ramos estava no quintal podando uma mangueira quando viu algo que lhe pareceu estranho. A janela de um dos cômodos do segundo andar, que sempre permanecia fechada com as cortinas corridas, estava entreaberta. Ele nunca tinha visto aquela janela aberta. Ficou observando por alguns minutos.
Uma cortina de tecido escuro balançava levemente com a brisa. Então, a janela se fechou sozinha ou alguém a fechou por dentro. Severino voltou ao trabalho sem comentar nada. Os eventos seguintes foram relatados por diferentes pessoas em momentos distintos, mas todos convergiam para o mesmo período. Entre junho e julho de 1951, a baronesa começou a mudar sutilmente seu comportamento.
Cancelou compromissos sociais com justificativas vagas. Deixou de receber visitas no solar. Quando encontrada na rua, mostrava-se cordial, mas apressada, como se tivesse urgência em retornar para casa. Sua aparência continuava impecável, mas alguns conhecidos notaram que ela parecia mais pálida, com olheiras discretas que a maquiagem não escondia completamente.
Em uma tarde de julho, a sobrinha da baronesa, Amélia Portela, foi ao solar para uma visita não anunciada. Amélia era filha da irmã mais nova de Helena, morava em São Luís com o marido e tinha 26 anos. Mantinha um relacionamento cordial com a tia, embora não fossem especialmente próximas. Tocou a campainha do portão.
Dona Josefa atendeu e disse que a baronesa não estava recebendo visitas naquele dia. Amélia insistiu dizendo que era família e que só queria conversar alguns minutos. Josefa voltou para dentro da casa. Demorou. Quando retornou, informou que a senhora da casa estava indisposta e pedia desculpas. Amélia foi embora contrariada. Comentou com a mãe que achou estranha a recusa da tia.
A mãe de Amélia, Virgínia Menezes, também ficou intrigada. Conhecia a irmã bem o suficiente para saber que aquele tipo de comportamento não era característico. Helena sempre valorizara as relações familiares, ainda que mantivesse certa distância emocional. Recusar uma visita da sobrinha sem motivo aparente parecia indicar algo errado.
Virgínia esperou alguns dias e então foi pessoalmente ao solar. Era início de agosto. O dia estava nublado e úmido. Ela foi recebida por Dona Josefa no portão, mas dessa vez a baronesa consentiu em vê-la. Foram ao salão de recepção do térreo. Helena estava vestida adequadamente com um vestido cinza de corte elegante, cabelos arrumados, postura ereta, parecia perfeitamente normal. Ofereceu chá.
Conversaram sobre assuntos triviais e quando Virgínia mencionou a visita frustrada da sobrinha, Helena se desculpou dizendo que estava com uma enxaqueca terrível naquele dia e não tinha condições de receber ninguém. A explicação parecia razoável. Virgínia aceitou. Tomaram chá. Conversaram por 40 minutos.
Quando Virgínia se levantou para ir embora, notou algo que lhe chamou atenção. Havia um odor no ar: discreto, mas perceptível. Não era desagradável exatamente, mas era incomum. Parecia uma mistura de remédios, talvez éter ou algo químico com outro cheiro subjacente que ela não conseguiu identificar. Perguntou à irmã se estava tudo bem.
Helena respondeu que sim, que era apenas um desinfetante novo que Josefa tinha usado para limpar os pisos. Virgínia saiu do solar com a sensação incômoda de que algo não estava certo, mas sem nada concreto que justificasse preocupação. Mencionou o episódio ao marido, que sugeriu que ela estava imaginando coisas.
As pessoas da idade de Helena frequentemente desenvolviam excentricidades. Talvez a viuvez prolongada estivesse afetando seu comportamento social. Virgínia aceitou a explicação e decidiu não insistir. Durante o mês de agosto, os vizinhos voltaram a comentar sobre o odor. Estava mais forte, especialmente à noite.
Um comerciante, que tinha uma loja de tecidos na Rua Grande, duas quadras abaixo, mencionou numa conversa no botequim que passava em frente ao Solar dos Távora todas as manhãs a caminho do trabalho e que o cheiro estava ficando insuportável. Outros concordaram. Alguém sugeriu que talvez houvesse um animal morto escondido em algum lugar do quintal.
Outro disse que poderia ser problema na fossa. Severino Ramos foi questionado sobre isso. Disse que vasculhou todo o quintal e não encontrou nada. Nenhum bicho morto, nenhum vazamento. O cheiro, segundo ele, parecia vir de dentro da casa, mas ele nunca entrava nas áreas internas além da cozinha. Não era sua função. Dona Josefa também foi perguntada.
Ela disse que não sentia nada de anormal. Talvez por estar acostumada ao ambiente, talvez por ser mais velha e ter o olfato menos aguçado. No dia 23 de agosto de 1951, aconteceu um incidente que acelerou os eventos subsequentes. Por volta das 2 horas da manhã, os moradores das casas próximas ao solar foram acordados por um grito.
Foi um som agudo, prolongado, que durou alguns segundos antes de ser abruptamente interrompido. Várias pessoas acordaram, acenderam luzes, olharam pelas janelas. Nada aparecia fora do lugar. O Solar dos Távora estava escuro e silencioso, como sempre. Na manhã seguinte, os vizinhos conversaram entre si sobre o que tinham ouvido. Alguns acharam que poderia ter sido um gato brigando.
Outros disseram que não, que o som era humano. Uma senhora afirmou ter certeza de que era uma mulher gritando. Outra disse que poderia ter sido um pesadelo de alguém que gritou durante o sono. As especulações variavam, mas ninguém tomou nenhuma providência oficial. Dona Josefa, quando questionada por uma vizinha que veio comprar ovos que ela vendia, disse que não tinha ouvido nada, dormia pesado.
A baronesa também não mencionou qualquer perturbação. Severino, que não morava ali, não sabia de nada. Em setembro, a baronesa fez algo inédito. Mandou chamar um pedreiro e solicitou que ele reforçasse a vedação da porta que dava acesso ao porão. A porta ficava numa área de serviço nos fundos da casa, próxima à cozinha.
O pedreiro, um homem chamado Antônio Ferreira, foi até lá no dia 5 de setembro. Observou a porta. Estava em bom estado. Perguntou à baronesa o que exatamente ela queria. Ela disse que queria tijolos. Queria que ele construísse uma parede de tijolos, tampando completamente a entrada do porão dentro da casa. Antônio achou estranho, mas não questionou. Era trabalho.
Era trabalho. Ele levou três dias para concluir o serviço. Ergueu uma parede de tijolos maciços com cerca de 20 cm de espessura, rebocou e pintou de branco para combinar com as outras paredes. A porta do porão desapareceu, ficou uma parede lisa. Antônio recebeu seu pagamento e foi embora sem fazer perguntas.
Dona Josefa achou aquilo extremamente estranho. Perguntou à patroa por que havia mandado fechar o porão. A baronesa respondeu que não precisava mais daquele espaço, que era úmido demais, que os mantimentos estragavam, que preferia armazenar tudo na despensa que havia mandado construir no quintal. A explicação fazia algum sentido, mas Josefa continuou achando bizarro.
Nunca tinha visto ninguém construir uma parede para fechar um cômodo inteiro da própria casa. Nas semanas seguintes, o odor que incomodava os vizinhos diminuiu significativamente, quase desapareceu. As pessoas comentaram que talvez o problema tivesse se resolvido sozinho. Talvez fosse algo sazonal, talvez estivesse relacionado às chuvas que haviam cessado.
A vida na Rua do Egito voltou ao ritmo habitual. A baronesa retomou algumas de suas atividades sociais. Compareceu a um chá beneficente no Palácio Episcopal em outubro. Participou de uma missa solene na Catedral em comemoração ao Dia de Nossa Senhora Aparecida. Foi vista caminhando pelo Largo do Carmo numa tarde de sol.
Parecia ter recuperado sua compostura habitual. Amélia Portela, a sobrinha, visitou a tia novamente em novembro e foi recebida normalmente. Conversaram sobre trivialidades, tomaram café com biscoitos e Amélia saiu sem notar nada de anormal, além de comentar mentalmente que a tia parecia mais magra. Em dezembro, com a aproximação do Natal, a baronesa encomendou reformas no salão de recepção.
Mandou trocar as cortinas, polir o assoalho de madeira e contratar um marceneiro para restaurar uma cristaleira antiga. Tudo indicava que ela pretendia voltar a receber visitas e retomar sua posição na sociedade ludovicense. No dia 22 de dezembro de 1951, véspera de um domingo, Dona Josefa acordou mais cedo que o habitual. Eram 5:30 da manhã.
Levantou-se, acendeu o lampião na cozinha e começou a preparar o café. Escutou um barulho vindo do andar de cima, passos rápidos, depois um baque, como se algo pesado tivesse caído no chão. Ela parou o que estava fazendo e ficou atenta. Silêncio. Esperou alguns minutos; nada mais. Subiu as escadas para verificar se a patroa estava bem.
Bateu na porta do quarto da baronesa. Não houve resposta. Bateu novamente. Silêncio. Girou a maçaneta devagar. A porta estava destrancada; abriu. A cama estava desarrumada, mas vazia. A baronesa não estava ali. Josefa caminhou pelo corredor do primeiro andar, chamando pela patroa. Nenhuma resposta. Subiu ao segundo andar, algo que raramente fazia. Chamou novamente. Nada.
Olhou para as portas trancadas das salas que sempre permaneciam fechadas. Uma delas estava entreaberta. Ela se aproximou lentamente, empurrou a porta. O cômodo estava escuro, cheirava a mofo e a algo químico. Abriu a janela para deixar entrar luz. O que viu a fez dar um passo atrás e levar a mão à boca. A sala estava repleta de objetos que não faziam sentido juntos.
Havia uma mesa de madeira manchada com substâncias escuras, frascos de vidro com líquidos de cores variadas, instrumentos que pareciam médicos ou cirúrgicos dispostos sobre um pano, caixas de papelão empilhadas num canto e, penduradas numa das paredes, havia fotografias, dezenas delas, fotos de pessoas que Josefa não reconheceu, rostos sorridentes.
Algumas fotos eram antigas, amareladas pelo tempo. Ela saiu daquele cômodo rapidamente e desceu as escadas. Procurou pela baronesa no térreo. Não a encontrou. Foi até os fundos da casa. Olhou para a parede que havia sido construída meses antes, tapando o acesso ao porão. Aproximou-se e encostou a orelha na superfície fria dos tijolos.
Escutou algo: um som abafado, ritmado, como respiração pesada. Josefa recuou apavorada, saiu da casa correndo e foi até a residência de Severino Ramos, que morava a seis quadras dali, numa área mais modesta próxima ao Mercado da Praia Grande. Bateu na porta dele insistentemente. Severino atendeu ainda meio adormecido.
Josefa estava pálida e trêmula. Disse que precisava que ele fosse com ela ao solar, que tinha algo muito errado acontecendo. Severino vestiu-se às pressas e foi com ela. Quando chegaram ao solar, Josefa mostrou a ele a sala no segundo andar. Severino ficou tão perturbado quanto ela. Desceram e foram até a parede que fechava o porão.
Josefa contou sobre o som que tinha escutado. Severino encostou o ouvido. Também ficou em silêncio por um longo momento. Então afirmou que tinha certeza de que havia alguém do outro lado. Eles precisavam abrir aquela parede. Severino foi buscar ferramentas no depósito do quintal. Voltou com uma marreta e uma talhadeira.
Começou a quebrar os tijolos. O reboco se esfarelou facilmente. Os tijolos ofereceram mais resistência, mas aos poucos foram cedendo. Levou cerca de 20 minutos até abrir um buraco grande o suficiente para que alguém passasse. O odor que saiu dali era indescritível. Josefa teve ânsias de vômito. Severino amarrou um pano no rosto, pegou uma lamparina e enfiou o braço pelo buraco, iluminando o interior.
O que ele viu fez com que soltasse a lamparina, que caiu no chão do porão e se apagou. Ele recuou cambaleante. Josefa perguntou o que era. Severino não conseguiu responder imediatamente. Quando finalmente falou, sua voz estava rouca: disse que precisavam chamar a polícia imediatamente. Josefa correu até a casa do vizinho mais próximo e pediu que ele fosse até a delegacia do bairro.
O homem, assustado com o estado dela, não fez perguntas. Foi. A polícia chegou ao Solar dos Távora por volta das 7 horas da manhã daquele domingo, 22 de dezembro. Eram três oficiais comandados pelo delegado Raimundo Brito, um homem experiente que atuava no bairro há mais de 15 anos.
Severino e Josefa explicaram a situação de forma atropelada. O delegado pediu calma e solicitou que mostrassem o que tinham encontrado. Primeiro foram ao segundo andar. O delegado examinou a sala com os objetos estranhos. Anotou tudo: fotografias, instrumentos, frascos. Pediu que ninguém tocasse em nada. Depois desceram e foram até a parede quebrada que dava acesso ao porão.
O delegado iluminou o interior com uma lanterna potente. O porão tinha aproximadamente 20 m². O teto era baixo, pouco mais de 1,80 m de altura. As paredes eram de pedra, não havia janelas. O chão era de terra batida e ali, acorrentada a um pilar de sustentação, estava uma mulher. Ela estava sentada no chão, encostada na parede, com as pernas estendidas.
Usava uma camisola encardida, que já fora branca. O cabelo estava longo, desgrenhado e sujo, a pele pálida coberta de feridas e hematomas antigos. Os pulsos tinham marcas profundas de algemas. Ela estava consciente. Olhou para a luz da lanterna, mas não reagiu. Não falou, apenas respirava com dificuldade.
O delegado entrou no porão seguido por um dos oficiais. Aproximaram-se da mulher com cuidado. Ela não se moveu. O delegado perguntou seu nome. Ela não respondeu. Ele tocou levemente no ombro dela. Nenhuma reação. Havia uma corrente presa a uma argola de ferro fixada no pilar. A corrente estava conectada a algemas nos pulsos dela. Ao lado dela, no chão, havia um balde com água suja, restos de comida em uma vasilha e algo mais embrulhado: pequenos pacotes envoltos em tecido.
O delegado pegou um deles, abriu com cuidado. Dentro havia ossos. Ossos pequenos, humanos. Ele fechou o pacote imediatamente e ordenou que todos saíssem do porão. Mandou um dos oficiais buscar reforços e um médico. Mandou outro isolar a área. Ninguém deveria entrar ou sair do solar até segunda ordem.
A mulher foi retirada do porão com extrema dificuldade. Ela não conseguia andar. As pernas estavam atrofiadas. Dois oficiais a carregaram para fora e a deitaram num colchão improvisado no térreo enquanto aguardavam o médico. Quando o Dr. Augusto Mendes chegou, cerca de uma hora depois, examinou a mulher e constatou desnutrição severa, desidratação, infecções múltiplas, ferimentos antigos mal cicatrizados e sinais de trauma prolongado.
Ela precisava de hospitalização urgente. Foi levada ao Hospital da Santa Casa de Misericórdia, sob escolta policial. Enquanto isso, a busca pela baronesa continuou. Reviraram todo o solar. Ela não estava em lugar nenhum. Verificaram o quintal, os fundos, os cômodos trancados. Nada. Helena de Menezes Távora havia desaparecido. A notícia do que tinha sido encontrado no Solar dos Távora se espalhou rapidamente.
No início da tarde daquele domingo, uma multidão se aglomerava do lado de fora do portão, tentando ver o que estava acontecendo. Jornalistas apareceram. A polícia teve que isolar toda a quadra. Nos dias seguintes, a investigação avançou em múltiplas frentes. A mulher encontrada no porão foi identificada como Carmen Silva Rodrigues, 34 anos, natural de Caxias, cidade do interior do Maranhão.
Ela estava desaparecida desde 1949. A família tinha registrado queixa na época, mas as buscas não levaram a nada. Carmen trabalhava como costureira e tinha vindo a São Luís procurar emprego. A última vez que foi vista foi quando respondeu a um anúncio de jornal oferecendo posição de empregada doméstica num casarão do centro.
O anúncio tinha sido colocado pela baronesa. A investigação revelou que Carmen não foi a única. Nos registros do jornal Pacotilha, encontraram outros anúncios similares colocados pela baronesa em diferentes períodos entre 1947 e 1950, sempre oferecendo emprego doméstico, sempre exigindo que as candidatas fossem solteiras, sem família próxima e dispostas a morar no local de trabalho.
A polícia começou a procurar por mulheres que haviam desaparecido em São Luís nos últimos anos e que se encaixavam nesse perfil. Encontraram seis casos. Seis mulheres entre 20 e 40 anos que desapareceram sem deixar rastros. Todas tinham vindo do interior. Todas estavam sozinhas na capital. Todas responderam a anúncios de emprego.
Os ossos encontrados no porão foram enviados para análise. Eram de pelo menos três indivíduos diferentes. Todos adultos, todos do sexo feminino. As fotografias encontradas na sala do segundo andar foram comparadas com descrições das mulheres desaparecidas. Cinco delas foram identificadas. Estavam todas ali sorrindo para a câmera.
Dona Josefa foi interrogada extensivamente. Disse que nunca soube de nada, que nunca viu nenhuma dessas mulheres, que a baronesa nunca mencionou contratar ninguém, que ela, Josefa, era a única empregada da casa. Severino também foi interrogado e disse o mesmo. Nenhum dos dois tinha conhecimento do que acontecia dentro do solar.
A busca pela baronesa se intensificou. Verificaram portos, estações de trem, rodoviárias. Distribuíram sua fotografia. Checaram se ela tinha parentes em outras cidades. Investigaram suas contas bancárias. No dia 27 de dezembro, descobriram que ela havia sacado uma grande quantia em dinheiro no dia 20 de dezembro, dois dias antes da descoberta do porão.
Também descobriram que ela tinha comprado uma passagem de navio para Lisboa com saída prevista para o dia 26 de dezembro. A passagem não foi utilizada. Em janeiro de 1952, a história ganhou as páginas dos principais jornais do país. O caso da Baronesa de Praia Grande chocou o Brasil.
Reportagens especulavam sobre os motivos. Alguns diziam que ela sofria de algum distúrbio mental. Outros sugeriam que havia uma motivação financeira, embora nenhuma evidência de roubo tivesse sido encontrada. As vítimas não tinham posses significativas. A família da baronesa foi procurada. Virgínia Menezes, a irmã, deu um depoimento ao delegado, dizendo que nunca notou nada de estranho no comportamento de Helena, exceto nos últimos meses, quando ela se tornou mais reclusa.
Amélia, a sobrinha, disse o mesmo. Outros parentes distantes também foram ouvidos. Nenhum tinha qualquer suspeita. A investigação da vida pregressa da baronesa revelou alguns detalhes intrigantes. Quando Helena se casou com o Barão Cristóvão em 1928, ela tinha 19 anos e ele 42. O casamento foi celebrado na Catedral com grande pompa.
Nos primeiros anos não houve nada de incomum. Mas em 1933 houve um registro médico de Helena sendo tratada por uma crise nervosa. O médico que a atendeu na época já havia falecido, mas os registros indicavam internação breve numa clínica particular. Em 1937, uma empregada que trabalhava no solar foi encontrada morta nos fundos da propriedade.
A morte foi atribuída a um acidente. A mulher teria caído de uma escada enquanto limpava uma janela. A investigação na época foi superficial. Ninguém questionou as circunstâncias. O Barão Cristóvão morreu em 1946. A causa oficial foi infarto fulminante. Ele tinha 60 anos. Foi encontrado morto na cama pela esposa numa manhã de agosto.
O corpo foi velado no próprio solar e enterrado no Cemitério do Gavião. Não houve autópsia. Com base nesses achados, as autoridades solicitaram a exumação do corpo do barão. O processo foi autorizado em fevereiro de 1952. O corpo foi exumado e submetido à análise. Encontraram traços de arsênico nos ossos. A quantidade era suficiente para ter causado a morte.
O caso foi reclassificado como homicídio. A busca pela baronesa continuou por meses sem sucesso. Ela simplesmente desapareceu. Alguns acreditavam que tinha fugido para outro país usando documentação falsa. Outros achavam que poderia ter se suicidado em algum lugar remoto. Houve até especulações de que teria sido assassinada por algum cúmplice que nunca foi identificado.
Carmen Silva Rodrigues, a mulher resgatada do porão, permaneceu hospitalizada por três meses. Recuperou-se fisicamente, embora tenha ficado com sequelas permanentes nas pernas; psicologicamente nunca se recuperou totalmente. Foi entrevistada diversas vezes pela polícia, mas suas declarações eram confusas e fragmentadas.
Lembrava de ter respondido ao anúncio. Lembrava de ter ido ao solar para uma entrevista. Depois disso, suas memórias eram nebulosas. Falava de um chá que a baronesa havia lhe oferecido, de acordar no escuro, de dor, de frio, de vozes, mas não conseguia formar uma narrativa coerente. Os médicos que a trataram disseram que ela havia sofrido trauma psicológico extremo e que, provavelmente, tinha sido drogada repetidamente durante o período de cativeiro.
Seus relatos incluíam menções a outras mulheres no porão, mas isso nunca foi confirmado. Talvez fossem alucinações, talvez fossem memórias reais das outras vítimas que já estavam mortas quando Carmen chegou. Em abril de 1952, uma comissão especial foi formada para investigar se havia outras vítimas que não tinham sido identificadas.
Revisaram casos de desaparecimento em todo o Maranhão nos últimos 20 anos. Cruzaram informações com anúncios de emprego publicados pela baronesa. Encontraram mais três casos suspeitos, mas sem evidências suficientes para confirmar conexão. O Solar dos Távora foi lacrado pela Justiça. A propriedade foi confiscada pelo Estado, já que não havia herdeiros diretos e a dona estava foragida.
Em 1953, foi leiloada e comprada por um empresário que pretendia demolir e construir um edifício comercial. No entanto, os operários se recusaram a trabalhar no local. Diziam que escutavam sons vindos do porão, mesmo depois de terem removido todos os escombros. Diziam que sentiam presenças. O projeto foi abandonado.
O casarão permaneceu vazio e em deterioração pelos anos seguintes. Tornou-se conhecido como a casa da baronesa maldita. Crianças eram proibidas de se aproximar. Moradores evitavam passar pela frente à noite. Houve relatos de pessoas que juravam ter visto luzes nas janelas do segundo andar, embora não houvesse eletricidade funcionando.
Em 1958, houve um incêndio no solar. As chamas consumiram grande parte da estrutura de madeira. A causa nunca foi determinada. Poderia ter sido vandalismo, poderia ter sido um curto-circuito, poderia ter sido intencional. O que restou foi demolido finalmente em 1959. No lugar, construíram um estacionamento que existe até hoje.
Quanto à Baronesa Helena de Menezes Távora, nunca foi encontrada. Em 1961, uma mulher que se assemelhava a ela foi vista em Belém do Pará embarcando num navio mercante com destino à Europa. A polícia investigou, mas não conseguiu confirmar. Em 1963, houve outro suposto avistamento em Buenos Aires. Novamente, nada foi confirmado.
O caso oficialmente permanece em aberto. Helena foi declarada foragida da Justiça brasileira sob acusação de seis homicídios comprovados e suspeita de outros. Um mandado de prisão internacional foi emitido, mas nunca executado. Carmen Silva Rodrigues voltou para Caxias em 1953 e passou o resto da vida sob cuidados da família. Raramente saía de casa.
Nunca se casou, nunca trabalhou. Morreu em 1967 de causas naturais aos 50 anos de idade. Foi enterrada no cemitério local numa cerimônia discreta. Dona Josefa continuou trabalhando como empregada doméstica em outras casas de São Luís. Nunca mais falou publicamente sobre o caso. Morreu em 1964. Severino Ramos mudou-se para o interior e trabalhou como agricultor.
Também evitou falar sobre o assunto. Faleceu em 1966. O delegado Raimundo Brito se aposentou em 1958. Em entrevistas anos depois, dizia que o caso da baronesa foi o mais perturbador de sua carreira, que nunca conseguiu entender completamente as motivações dela, que suspeitava que havia muito mais vítimas do que as que foram descobertas.
Morreu em 1967, sem nunca ter visto a baronesa ser levada à Justiça. Os arquivos do caso foram selados em 1969 e transferidos para o Arquivo Público Estadual, onde permanecem até hoje. Pesquisadores que tiveram acesso aos documentos descrevem fotografias perturbadoras, depoimentos chocantes e evidências de uma crueldade sistemática que durou anos sem que ninguém percebesse.
A família Menezes, envergonhada pela associação com o caso, abandonou o sobrenome e se dispersou pelo país. Virgínia mudou-se para São Paulo com a família e mudou seu nome. Amélia fez o mesmo, estabelecendo-se no Rio de Janeiro. Nenhum descendente jamais retornou a São Luís. A Rua do Egito mudou ao longo das décadas.
Muitos dos antigos casarões coloniais foram demolidos e substituídos por construções modernas. O comércio se expandiu. A memória do que aconteceu no Solar dos Távora foi gradualmente esquecida pela maioria, mas alguns moradores mais antigos ainda lembram, ainda evitam o local onde a casa ficava, ainda contam histórias em voz baixa sobre a baronesa que parecia perfeita, mas escondia um segredo que ninguém poderia imaginar.
No ano de 1968, um jornalista investigativo tentou reabrir o caso para uma série de reportagens. Conseguiu entrevistar algumas das poucas pessoas ainda vivas que tinham conhecimento direto dos eventos. Visitou o local onde ficava o solar, pesquisou nos arquivos, mas antes que pudesse publicar seu trabalho, morreu num acidente de carro em circunstâncias que alguns consideraram suspeitas.
Seus arquivos e anotações desapareceram. A série nunca foi publicada. Existe uma teoria nunca comprovada de que a baronesa não agiu sozinha, que havia alguém ajudando-a, alguém com conhecimento médico ou anatômico. Os instrumentos encontrados na sala do segundo andar eram cirúrgicos. Os cortes nos ossos eram precisos, sugerem conhecimento técnico, mas nenhum cúmplice jamais foi identificado.
Outra teoria sugere que o Barão Cristóvão sabia do que estava acontecendo e era conivente, que talvez até participasse. Sua morte por envenenamento poderia ter sido Helena eliminando uma testemunha, ou poderia ter sido ela se livrando de alguém que ameaçava expô-la, ou talvez ele tivesse tentado encerrar as atividades e ela o eliminou para continuar.
Há também especulações sobre o que exatamente acontecia no porão. As vítimas eram mantidas vivas por períodos prolongados. Carmen ficou lá por mais de dois anos. O que a baronesa fazia com elas durante esse tempo? Os ferimentos documentados sugerem experimentos, testes. Mas com que propósito? Algumas hipóteses apontam para sadismo puro, prazer derivado do sofrimento alheio.
Outras sugerem alguma motivação psicológica mais complexa relacionada a traumas de infância ou experiências durante o casamento. Mas sem a baronesa viva para interrogar, tudo não passa de especulação. O que se sabe com certeza é que Helena de Menezes Távora conseguiu manter uma fachada impecável por anos enquanto cometia atrocidades no porão de sua própria casa.
Frequentava a igreja, participava de eventos beneficentes, era admirada pela sociedade e ninguém suspeitou de nada até que fosse tarde demais. A pergunta que permanece é: quantas outras pessoas ao longo da história conseguiram fazer o mesmo? Quantas fachadas perfeitas escondem realidades monstruosas? Quantos porões nunca foram abertos? O caso da Baronesa de Praia Grande serve como lembrete perturbador de que a maldade nem sempre tem uma aparência óbvia.
Às vezes veste roupas elegantes, às vezes frequenta os melhores círculos sociais, às vezes mora na casa mais bonita da rua. E às vezes as paredes que construímos para esconder nossos segredos acabam sendo derrubadas. Mas nem sempre há tempo de salvar quem está do outro lado.