ELIZE MATSUNAGA: EL CRIMEN QUE CONMOCIONÓ A BRASIL
ele a empurrou com força e deu um murro em seu rosto tão forte que o sangue esguichou pela roupa. Elize tinha 7 anos e, assustada com a cena, ficou abraçada à irmã caçula. As duas estavam assistindo à TV. Quando Valter chegou, ele desligou a televisão e foi embora levando o aparelho junto.
No livro, consta que Valter conheceu essa outra esposa, que ela também sofreu muito nas mãos dele e que, quando ela resolveu deixá-lo, ele a trancou dentro de casa com o bebê no colo e ameaçou atear fogo em tudo. Assim como a maioria das mulheres no interior na época, elas dependiam do marido e por isso não denunciavam. Valter morreu em 2009, aos 47 anos, vítima de cirrose.
A segunda esposa, Terezinha, e sua filha não apareceram no velório. Para elas, a morte dele foi um alívio. Voltando um pouco, depois desse episódio em que Dilza achou que Valter havia retornado (quando, na verdade, ele apenas pegou a TV e foi embora), ela decidiu deixar as duas filhas na casa dos avós. Ela deixou as meninas lá e se mudou sozinha para Curitiba, onde começou a trabalhar como auxiliar de cozinha e também fazia faxinas em apartamentos de classe média.
Foi lá que ela conheceu o recepcionista Wagner Malmann, de 25 anos. Para ela, ele era o oposto de Valter, então ela se apaixonou. Ele morava no município de Agudos do Sul, que fica a 70 km de Curitiba. Para trabalhar, ele precisava fazer uma longa viagem de ônibus todos os dias. Os dois começaram um relacionamento e passaram a se ver com frequência, mas, como ele morava longe, em Curitiba, e ela também trabalhava lá, eles tinham apenas cerca de uma hora por dia para se encontrarem antes dele pegar o último ônibus.
Então, com a ajuda dela, ele comprou um carro. Era um carro usado, mas com isso ele podia ir trabalhar dirigindo e ficava mais tempo com ela. Eles seguiram assim por um tempo, até que do nada ele desapareceu. Dilza ia todos os dias para a frente do local onde ele trabalhava como recepcionista e ele não aparecia. Ela não sabia o que tinha acontecido, até que decidiu pegar um ônibus e ir até a cidadezinha onde ele morava para procurá-lo.
Pode parecer uma ideia muito doida, mas era uma cidade bem pequena. Então ela começou a andar pelas ruas, imaginando que em algum momento o encontraria. E foi exatamente o que aconteceu: ela encontrou o carro dele estacionado próximo a uma igreja e ficou esperando ali do lado até que ele aparecesse. Só que ele estava com a esposa e filhos. Dilza não imaginava que ele era casado.
Ela começou a fazer um escândalo, e ele pediu desculpas. Ele disse que, no momento em que os dois ficaram juntos, ele estava separado da esposa, mas que depois havia voltado para ela. Prometeu devolver os R$ 800 que ela havia emprestado para dar a entrada no carro. Dilza disse que não estava lá pelo dinheiro, mas porque o amava. Mesmo assim, ele devolveu o dinheiro e ela começou a jogar as notas para as pessoas na rua, que as pegavam. Ela guardou apenas o suficiente para voltar a Curitiba.
No ônibus, ela conheceu outro homem, Francisco Gomes da Silva, de 36 anos. Os dois começaram a conversar, se deram bem e, em poucos meses, decidiram morar juntos em Chopinzinho. Então, ela voltou para a cidade onde as filhas estavam morando. Conseguiu um emprego de serviços gerais na prefeitura e aproveitou para buscar as filhas de volta. Ela pegou Adriana e Elize para morarem todos juntos novamente, agora com Francisco.
Para conseguir uma renda extra, Dilza também fazia faxinas em alguns lugares no centro da cidade. Em 1997, a família já havia prosperado um pouco. Dilza era muito trabalhadora e passou a ganhar mais do que Francisco. Ele trabalhava com carteira assinada em uma fábrica de esquadrias, mas decidiu deixar esse emprego fixo para fazer bicos. Com o tempo, Dilza começou a sustentar a casa praticamente sozinha. A família criticava a situação, dizendo que não fazia sentido ela pagar todas as contas, mas Dilza não se importava.
A irmã mais nova de Dilza, Roseli, que tinha 23 anos na época e era muito mais madura e estável emocionalmente, tentava alertar a irmã sobre essas decisões destrambelhadas na vida amorosa e sobre o descontrole que ela demonstrava a cada novo relacionamento. Mas Dilza não dava ouvidos. Com o tempo, Francisco, também conhecido como Chico, começou a beber muito e se tornou alcoólatra, transformando-se em um monstro quando estava embriagado.
Elize tinha voltado a morar definitivamente com a mãe quando tinha 13 anos. Chico sempre dizia que o sonho dele era ter uma família grande, então adquiriu o hábito de colocar Elize sentada em seu colo quando Dilza não estava por perto. Foi assim que ele começou a assediar Elize. As investidas foram aumentando aos poucos, principalmente quando os dois estavam sozinhos em casa enquanto Dilza trabalhava.
Isso continuou até que, num dia em que Elize estava tomando banho e saiu enrolada numa toalha, ele tentou violentá-la. Ela conseguiu empurrá-lo, fugiu de casa e começou a correr pelo matagal. Ele foi atrás dela. Em um determinado momento, ela tropeçou, ele a alcançou e ali mesmo cometeu o abuso. Uma vizinha que morava perto testemunhou tudo: viu Elize sair correndo com o padrasto atrás e, depois, viu Chico voltar sozinho para casa.

Quando a mãe chegou, Elize chorou muito e contou tudo o que havia acontecido. Dilza ficou histérica, disse que iria à delegacia e que denunciaria Chico. Só que ele começou a chorar, a fazer um escândalo e a pedir misericórdia, dizendo que amava Dilza de forma insensata e que, se fosse preso, tiraria a própria vida. Ele alegou que não havia ocorrido abuso nenhum e que era Elize quem dava em cima dele há muito tempo. E Dilza acreditou.
Nesse momento, ela deu uma bofetada no rosto de Elize e a expulsou de casa. Elize saiu imediatamente, pegou uma mochila com algumas coisas e, sem despedir-se adequadamente da irmã, saiu sem rumo e sem dinheiro. Caminhou até a casa de uma tia que gostava muito, inventou que a mãe havia pedido R$ 50 emprestados, pegou o dinheiro e começou a sair de Chopinzinho.
Na mesma noite, a vizinha que presenciou tudo decidiu ir à casa de Dilza como quem não quer nada, com o objetivo de alertá-la. Queria dizer que tinha visto tudo, que era verdade, e aconselhou a mãe a denunciar Chico e a levar Elize ao Instituto Médico Legal para fazer exame de corpo de delito. A vizinha argumentou que Dilza tinha outra filha em casa e que ela também corria perigo. Dilza começou a chorar desesperada, como se o mundo tivesse acabado, e respondeu que não conseguiria viver sem Chico, que precisava de um companheiro ao seu lado e que o amava de uma forma inexplicável.
A vizinha ficou enojada com a fala de Dilza e decidiu ir à delegacia para denunciar Chico. Só que, quando estava a caminho, cruzou com Elize indo embora. Enquanto isso, assim que a vizinha saiu de sua casa, Dilza foi até o bar onde Chico bebia para avisá-lo de que a mulher sabia de tudo. Chico saiu correndo, conseguiu chegar em frente à delegacia ao mesmo tempo que a vizinha e a ameaçou: se ela entrasse para denunciá-lo, ele a mataria. Com medo, a vizinha voltou para casa.
Elize saiu de casa naquele dia decidida a nunca mais voltar a Chopinzinho. Estava cheia de ódio por tudo o que havia passado: fora abusada, a mãe não acreditara nela e ainda a expulsara de casa. Ela tinha apenas 15 anos. Começou a caminhar sem rumo e, no primeiro dia, dormiu em um cemitério. No dia seguinte, estava próxima de um posto de gasolina. Um caminhoneiro ofereceu carona em troca de um programa ali mesmo. Elize começou a chorar.
Com pena, ele decidiu dar a carona sem pedir nada em troca e a levou até Chapecó, em Santa Catarina. Ela tinha apenas os R$ 50 para se alimentar. Quando o dinheiro acabou, decidiu se prostituir para sobreviver, cobrando R$ 30 por programa. Mais tarde, conseguiu outra carona até Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, e acabou parando em Gravataí, a 700 km de Chopinzinho.
Nesse período, a família começou a questionar Dilza sobre o paradeiro de Elize. Dilza nunca contou a verdade sobre o abuso ou sobre tê-la expulsado de casa; em vez disso, chegou a sugerir que a filha havia sido sequestrada e registrou um boletim de ocorrência. A polícia começou a espalhar fotos de Elize em postes, relatando seu desaparecimento. Ela já estava fora de casa há duas semanas.
Até que, numa operação da Polícia Rodoviária Federal de combate à prostituição infantojuvenil em 1997, Elize foi apreendida e levada para o Conselho Tutelar de Gravataí. Lá, a identificaram como a garota “sequestrada” de Chopinzinho. Em 29 de setembro de 1997, um carro da polícia a levou de volta e a devolveu à sua mãe, exatamente duas semanas antes dela completar 16 anos. Elize, obviamente, não queria voltar a morar com a mãe e decidiu morar com a avó. Ela não contou a ninguém o que havia feito para sobreviver naquelas duas semanas e decidiu focar 100% nos estudos.
Elize sempre teve notas muito boas, mas depois de tudo o que aconteceu, tornou-se uma pessoa muito reclusa e calada. As pessoas percebiam a mudança, mas ninguém sabia o real motivo. Cerca de um ano depois, sua mãe tentou convencê-la a voltar para casa, alegando que Chico era agora um homem diferente. Elize foi direta: só voltaria se a mãe mandasse Chico embora. Dilza respondeu que não deveria ter que escolher entre o companheiro e a filha. Então, Elize pediu que ela esquecesse da sua existência para sempre.
Nesse meio tempo, Elize continuava recebendo assistência do Conselho Tutelar. Ela foi encaminhada a uma psicóloga que percebeu que havia ocorrido um trauma e acreditou que um emprego ajudaria a garota. A psicóloga pediu a um amigo advogado que a contratasse, e Elize começou a trabalhar como secretária, ganhando um salário mínimo. Suas funções incluíam atender os clientes, realizar serviços bancários e faxinar os dois cômodos do escritório. Ela era super eficiente e continuava muito calada.
Foi na mesma época, aos 16 anos, que ela conheceu seu primeiro namorado, um garoto da mesma idade chamado Pedro. Na época em que o conheceu, Elize tinha recém retornado a Chopinzinho pela intervenção do Conselho Tutelar, o que a havia deixado super retraída com a família. No entanto, ela conseguia ser um pouco mais extrovertida fora de casa. Pedro era alto, atlético, mas também muito ansioso e ciumento.
O próprio Pedro contaria depois que, quando conheceu Elize, achou que ela estava fora do seu alcance. Diziam que ela era muito bonita, um “mulherão”, e ele se sentia um “bananão” perto dela. Os dois começaram a namorar, mas o relacionamento não durou muito porque Pedro era extremamente ciumento. Elize já estava decidida a sair de Chopinzinho e se mudar para Curitiba. Como odiava despedidas, eles nunca tiveram uma conversa formal sobre o término: ela simplesmente foi embora.
Ela concluiu o ensino médio e, aos 17 anos, com o certificado em mãos, decidiu partir. Queria estudar enfermagem e recomeçar a vida. Estava sozinha na rodoviária esperando o ônibus para Curitiba, após fazer apenas uma rápida despedida de suas irmãs, da tia de quem gostava muito e da madrinha. De repente, a mãe apareceu na rodoviária. Elize não tinha ido se despedir de Dilza, pois a ignorava e fingia que Chico não existia.
A mãe se ajoelhou, começou a falar um monte de coisas, pediu perdão e chorou desesperadamente. O ônibus já tinha chegado, as pessoas estavam embarcando, e Elize, imóvel, apenas olhava para a mãe sem conseguir dizer nada. O veículo estava prestes a partir, e a garota permanecia paralisada, incapaz de entrar no ônibus. Diante da imagem da mãe em desespero e com dificuldade até para respirar, Elize começou a chorar.
A mãe perguntou se ela a perdoava. Nesse instante, Elize correu atrás do ônibus e pediu para o motorista parar. Ela embarcou e deixou Chopinzinho, jurando nunca mais voltar. Já em Curitiba, aos 18 anos, Elize era aluna da Escola Vicentina Técnica de Enfermagem Catarina Labouré, um curso profissionalizante onde a maioria das alunas era pobre. A instituição, administrada por freiras, oferecia um alojamento com diversos beliches.
Cada cama custava R$ 120 por mês, e Elize dormia em um quarto amplo com outras seis estudantes. Devido às suas excelentes notas, as freiras a indicaram para estagiar como técnica de enfermagem no Hospital Nossa Senhora das Graças, onde ela começou a atuar no centro cirúrgico. Ela não participava diretamente das cirurgias, pois não era sua função; seu papel consistia em receber os pacientes e relatar seu estado de chegada. No entanto, ela presenciava de perto todas as decisões tomadas pela equipe médica.
Foi nesse centro cirúrgico que Elize conheceu a enfermeira Estela Arnud, de 27 anos. Estela, que nunca revelava seu verdadeiro nome, morava sozinha num flat luxuoso no centro de Curitiba e levava uma vida dupla: era profissional da saúde e garota de programa de luxo. Entre seus clientes estavam deputados estaduais do Paraná, vereadores de Curitiba, prefeitos, empresários, executivos, advogados e inúmeros “pais de família” da alta sociedade.
Estela falava muito palavrão, o que inicialmente chocou Elize, mas em pouco tempo as duas se tornaram grandes amigas. Quando Elize conheceu o carro de luxo e o apartamento incrível da amiga, ficou impressionada e acabou confidenciando a Estela tudo o que havia passado em Chopinzinho. As diversas experiências traumáticas deixaram em Elize sequelas profundas que assombravam suas noites.
Ela desenvolveu distúrbios do sono, depressão, sentimento de degradação e perda da autoestima. Carregava culpa, ansiedade e um medo constante de ficar sozinha ou perto de pessoas estranhas. Além disso, sofria com pesadelos recorrentes em que revivia os abusos, desenvolveu síndrome do pânico e tinha dificuldades em relacionamentos íntimos. Gradualmente, Elize passou a nutrir um sentimento de despersonalização, criando uma segunda personalidade para se proteger do mundo.
Essas sequelas já haviam começado em Chopinzinho, mas se acentuaram em Curitiba. Certo dia, Elize perguntou à amiga se ela levava jeito para “esse negócio de luxo”. A amiga respondeu que “só se nascesse de novo”. Decidida a mudar de vida, Elize seguiu os conselhos de Estela e deu o primeiro passo para sair do pensionato horroroso em que vivia: aumentou o limite do cartão de crédito para ter o capital necessário e investir na carreira de garota de programa de luxo.
Ela falsificou o contracheque do hospital, alterando o valor de R$ 1.200 para R$ 11.200, e duas semanas depois recebeu um cartão de crédito com limite de R$ 35.000. Em seguida, ligou para Estela avisando que estava pronta para “renascer”. Elas se encontraram no shopping e foram às compras: Estela dava as dicas e Elize obedecia. Elize gastou R$ 5.000 em roupas, sapatos e acessórios e, depois, seguiu para um salão de beleza indicado por Estela.
Estela pediu ao amigo cabeleireiro que tirasse a “cara de caipira” de Elize e a deixasse com “cara de rica”. Lá, Elize pintou os cabelos castanhos claros de loiro, fez as unhas e, com 30% de desconto, pagou uma conta de R$ 900. Quando reencontrou a amiga em seu flat, Estela ficou espantada com a transformação e as duas brindaram com vinho a nova fase. Estela propôs repassar alguns de seus clientes em troca de uma comissão de 60%, e Elize aceitou.
Estela lhe deu aulas de expressão corporal, etiqueta e aconselhou-a a nunca usar seu nome verdadeiro. Assim, Elize adotou o nome de guerra “Kelly”. Na tarde do dia seguinte, ela recebeu seu primeiro cliente: um narcotraficante procurado pela Polícia Federal, descrito como educado, charmoso e carinhoso. Ao final do encontro, ele pagou com vinte notas de R$ 50. Depois, “Kelly” tomou banho, vestiu o uniforme branco, encarnou a técnica de enfermagem Elize e foi trabalhar no hospital.
Sem perceber, ela aprendia no hospital técnicas cirúrgicas que viria a usar no futuro. Elize observava fascinada os procedimentos e, naquele dia específico, acompanhou uma cirurgia em um paciente de 42 anos com câncer de pulmão. Sua função era auxiliar o enfermeiro-chefe, cuidando da conservação e manutenção dos equipamentos. Ela etiquetou e encaminhou ao laboratório o pedaço do pulmão retirado, lavou e guardou os instrumentos na estufa de esterilização e, por seu empenho e delicadeza, recebeu elogios da equipe médica.
Enquanto isso, em sua vida como Kelly, ela sonhava em se encontrar apenas com clientes atraentes, educados e ricos. Estela tentava, em vão, mostrar à amiga que o mundo da prostituição, mesmo a de luxo, não era tão glamouroso quanto na imaginação de Elize. Decidida a atender seus clientes VIPs em um espaço adequado, Elize alugou no dia seguinte um loft mobiliado de 70 m² por R$ 3.800. O local foi inaugurado por seu segundo cliente, Josemar.
Na verdade, Estela havia enviado intencionalmente um homem mais velho e exigente para mostrar a Elize a realidade crua da profissão. O encontro foi um horror e Elize concluiu o óbvio: não existe glamour na prostituição. Diante disso, ela pensou em desistir dessa vida e se dedicar apenas à carreira de enfermagem. Porém, com várias faturas do cartão de crédito para pagar, precisou encontrar uma saída.
Elize começou a cobrir folgas de uma enfermeira cuidadora na mansão de Glória Facry, uma viúva milionária de 66 anos que sofria de câncer de ovário. Cada diária rendia R$ 800. Glória era uma mulher muito simpática e, certo dia, ao saber das dificuldades de Elize, tentou lhe dar dinheiro. Elize, lembrando dos conselhos que havia recebido, recusou a oferta. Ela acabou fazendo diversos plantões na casa de Glória e, pelo relato do livro, as duas desenvolveram um carinho mútuo.
Após o falecimento de Glória, o filho dela, que era casado e pediu sigilo absoluto, convidou Elize para sair e revelou ter fetiche por enfermeiras. Elize estipulou seu preço, mas ele se recusou a pagar e ameaçou denunciá-la ao Conselho Regional de Enfermagem. Sem saída, ela realizou o programa gratuitamente. No entanto, enquanto o cliente tomava banho, Elize se vestiu e se transformou na destemida Kelly, pois já tinha outro encontro marcado para aquele dia.
Quando ele saiu do banho, Kelly começou a falar sobre os cuidados que havia prestado a Glória e expôs suas suspeitas de que a vida da paciente fora abreviada pelo médico a pedido do próprio filho. O homem ficou pálido. Aproveitando o momento, Kelly cobrou R$ 8.000 pelo “programa especial” e mandou-o embora. Ele tentou argumentar que precisava ir a um caixa eletrônico, mas ela logo apresentou uma máquina de cartão. Ela ainda adicionou R$ 160 à conta: a cobrança atrasada por um programa feito aos 15 anos com um caminhoneiro caloteiro. Naquele momento, ela decidira que o filho de Glória arcaria com esse antigo prejuízo.
Como Elize usava sua personalidade alternativa para se proteger dos traumas do passado, percebeu que, como Kelly, não sentia culpa nem se envolvia emocionalmente. A partir daí, decidiu que a destemida Kelly assumiria o comando sempre que fosse necessário atuar na prostituição. Em 2003, aos 22 anos, Elize estava cada vez mais bonita e contava com uma agenda sólida de clientes e pacientes.
Ela pagava suas dívidas com tranquilidade e começou a enviar dinheiro para a família em Chopinzinho. Comprou um carro zero e, mesmo ganhando quase R$ 8.000 por mês como garota de programa, manteve seu trabalho como técnica de enfermagem, profissão que amava. Seus colegas dos dois hospitais em que atuava no centro cirúrgico não desconfiavam da existência de Kelly, tampouco seus familiares. Foi nessa época que Elize conheceu o deputado estadual Mário Sérgio Zaches.
No início, eles se encontravam uma vez por semana no loft, e ela cobrava R$ 800 por programa. Desse valor, Elize ficava apenas com R$ 320, já que todos os clientes eram arranjados por Estela, que ficava com 60% de comissão. Com o tempo, o deputado começou a se apaixonar e passou a visitá-la até quatro vezes por semana. Ele pediu que ela abandonasse a prostituição para ser exclusiva dele.
Elize exigiu uma mesada de R$ 10.000 para aceitar a proposta. Em vez disso, o deputado prometeu um cargo comissionado de meio expediente na Assembleia Legislativa do Paraná. Embora soubesse que ele era casado e considerasse o ambiente político um “covil”, Elize aceitou, com o desejo de abandonar a prostituição e mudar de vida. Ela alegava estar apaixonada e acreditava que, com a estabilidade do novo emprego e o trabalho como técnica de enfermagem, finalmente conseguiria se reerguer.
Estela sabia que a situação daria errado e aconselhou a amiga, mas, vendo que Elize estava determinada, decidiu deixá-la “quebrar a cara sozinha”. A primeira briga entre Elize e o deputado ocorreu quando ela recebeu seu primeiro salário: em vez dos R$ 10.000 prometidos, o valor era de apenas R$ 800. O político acalmou a situação entregando dinheiro por fora e presenteando-a com mimos caros, incluindo um carro zero. No gabinete, Elize assumiu rapidamente a postura de uma “primeira-dama”: exigia limpeza rigorosa, dava ordens aos subordinados, exigia café quente o tempo todo e reclamava da quantidade de pedidos que chegavam.
A situação de Elize começou a se complicar quando desapareceu um “relatório de crise”, documento estratégico elaborado por advogados e assessores do deputado. Esse dossiê, mantido trancado em uma gaveta, continha acusações graves contra ele, como tortura, tentativa de homicídio, fraude processual e porte ilegal de arma, informações sensíveis que seus inimigos políticos poderiam usar.
O deputado foi até o loft de Elize em busca do relatório. Ao chegar, surpreendeu-se ao encontrar um cliente saindo. Ele acreditava que ela havia abandonado os programas, mas Elize explicou que o dinheiro que ele repassava era insuficiente para mantê-la. Furioso por não encontrar o dossiê, ele deu uma bofetada nela e a demitiu. Posteriormente, eles protagonizaram um bate-boca nos corredores da Assembleia Legislativa diante de jornalistas.
Funcionários relatavam que o caso entre os dois sempre foi marcado por brigas públicas. Apesar de Elize não ter recebido o valor integral prometido, ela havia ganhado diversos presentes caros, joias e roupas de grife. Durante as discussões, o deputado tentava negar que a conhecia, enquanto ela o acusava de violência doméstica. Estela, por sua vez, repreendeu Elize severamente pela atitude, pois a confusão afugentou muitos de seus clientes do meio político, que temiam ver seus nomes associados ao escândalo nos jornais.
O alerta de Estela se concretizou e Elize sofreu as consequências das próprias escolhas. Pouco tempo depois, Estela reuniu amigos para celebrar seu aniversário de 30 anos e, emocionada, anunciou que deixaria a prostituição. Ela explicou que havia juntado dinheiro suficiente, R$ 800.000, para realizar o sonho de investir num posto de gasolina, mudando-se de Curitiba para começar um novo capítulo. Declarou também que não desejava manter contato com ninguém daquele universo, buscando um recomeço definitivo.
Na despedida, Elize chorou muito. Chorou de tristeza pela partida da amiga e de alegria ao saber que Estela repassaria para ela toda a sua cartela de clientes. Ver o sucesso da amiga, apesar da vida degradante, renovou as esperanças de Elize de também mudar de vida. Estela deu um último conselho: jamais se envolver romanticamente com clientes, pois eles sempre a veriam como uma garota de programa.
Estela também advertiu Elize de que ela era muito ingênua e confiava demais, aconselhando-a a parar de atender Gilberto, aquele primeiro cliente ligado ao narcotráfico, por considerar que ele traria problemas. Porém, cerca de um mês depois, Elize estava deprimida em casa, recebeu uma ligação de Gilberto e aceitou atendê-lo às 2 horas da manhã. Ele não chegou sozinho: levou bebida, drogas, amigos e até uma amiga para fazer uma festa no apartamento.
A festa durou horas e os vizinhos, incomodados com o barulho, chamaram a polícia. Quando a polícia bateu à porta, Elize se desesperou e tentou esconder as drogas. Para sua surpresa, os policiais eram conhecidos de Gilberto e acabaram se juntando à confraternização. Depois da saída de Estela, Elize sentiu o peso da decadência sem os conselhos da amiga. Para piorar, havia perdido os clientes fixos e mais discretos devido ao escândalo com o deputado.
Tomando decisões erradas, ela concluiu que precisava sair de Curitiba e planejou mudar-se para São Paulo em agosto de 2004, aos 23 anos, com o objetivo de encontrar um marido rico que a sustentasse. Gilberto recomendou que, em São Paulo, ela procurasse a cafetina Aretusa Becker. Elize entregou seu flat em Curitiba, mudou-se para São Paulo, alugou um novo flat no Itaim Bibi e foi até o casarão de Aretusa.
O local, situado em uma propriedade gigantesca rodeada por altos muros e vigiada por 12 câmeras, era super discreto por fora, mas abrigava festas badaladas de quarta a sábado. O espaço, decorado com móveis de couro e equipado com bar e garçons, era frequentado por empresários, políticos, atores, estrangeiros, pilotos de Fórmula 1, jogadores de futebol e agentes esportivos. Lá, não só ocorriam encontros sociais, mas também programas de altíssimo luxo que custavam até R$ 8.000, com Aretusa retendo 60% de comissão. As garotas dessa “mansão” pareciam modelos e dominavam vários idiomas.
Aretusa também havia aberto uma boate na região do Baixo Augusta, voltada para clientes que não podiam pagar valores tão altos, onde os programas variavam entre R$ 300 e R$ 400. Durante a entrevista, Elize apresentou-se como uma garota de luxo de Curitiba, mas Aretusa foi direta ao afirmar que o conceito de luxo lá era muito diferente do padrão de São Paulo. Aretusa explicou que Elize não tinha o perfil das garotas da mansão, mas ofereceu-lhe a oportunidade de trabalhar na boate do Baixo Augusta.
Elize aceitou e foi até o local, onde conheceu o gerente Joel. Ele explicou que o valor do programa seria R$ 300, sendo 50% para a casa, e que ela precisaria aprender a dançar no pole dance e, eventualmente, atuar como garçonete ou ajudar na cozinha. Na boate, Elize também conheceu a garota de programa Chantal, de quem ficou muito amiga. Chantal a aconselhou a criar um perfil em sites especializados, onde os clientes iriam até ela.
O site funcionava como um bordel virtual focado em prostituição de nível intermediário. Elize, temendo que sua família descobrisse, estava hesitante. O gerente Joel, por sua vez, sugeriu repassar clientes para ela por fora, cobrando uma comissão de 30%. Elize topou o acordo clandestino, que violava as regras de Aretusa, pois a cafetina exigia exclusividade de suas garotas.
Até que, num dia, o primeiro namorado de Elize, aquele de Chopinzinho, estava em São Paulo a trabalho e foi indicado à boate onde ela trabalhava. Ele entrou no local, embriagado, e olhou para Elize. Como ela estava muito diferente e já haviam se passado anos, ele não a reconheceu de imediato, e Elize fingiu ser outra pessoa. Quando ele finalmente a identificou e ameaçou contar a todos na cidade o que ela estava fazendo, Elize rapidamente o levou para o seu flat.
Lá, Elize desabafou com Pedro e contou tudo o que havia ocorrido em Chopinzinho — os abusos, a fuga e a razão pela qual não havia se despedido —, detalhes que ele nem imaginava. Comovido, ele prometeu guardar o segredo e nunca revelar nada a ninguém. O livro descreve Chantal, a amiga de Elize, como uma mulher belíssima e de rosto perfeito, mas que se especializou em sadomasoquismo e era espancada na maioria dos programas. Como resultado, ela vivia coberta de hematomas.
Para ajudar a amiga, Elize usava suas habilidades como técnica de enfermagem para tratar os ferimentos. A obra também detalha a triste história de Chantal, que suportava a prostituição para financiar os estudos de odontologia do irmão, na esperança de que, após a formatura, os dois abririam um consultório e ela deixaria essa vida. Além disso, ela precisava sustentar a mãe doente, desdobrando-se para pagar as contas.
Naquele período, Elize estava fazendo poucos programas e precisava de dinheiro. Por isso, decidiu seguir os conselhos de Joel e Chantal e criou um perfil em um site chamado Mclass. Ela se encontrou com o dono do portal, que exigiu que ela fizesse uma sessão de fotos e gravasse um vídeo exclusivo. Elize precisou pagar pelo material e por uma taxa para manter o perfil ativo. No anúncio, ela utilizou o seu alter ego, “Kelly”.
Essa escolha gerou confusão e desavença mais tarde, pois Valter, o pai biológico de Elize, tinha uma filha de 18 anos chamada Kelly com sua segunda esposa, Terezinha. Alguns amigos e familiares encontraram o perfil de Elize e, por se parecerem fisicamente, pensaram tratar-se da irmã. Os amigos começaram a questionar Kelly sobre o valor dos programas, o que a deixou furiosa. Ela queria confrontar Elize, mas Terezinha a impediu.
O perfil de Elize estreou na plataforma em 1º de setembro de 2004 e rapidamente se tornou sua principal fonte de clientes. Cobrando R$ 300 por programa, Elize chegou a faturar cerca de R$ 30.000 por mês. Ela era rigorosa com os horários, usando um CD com duração exata de uma hora para cronometrar os encontros; quando a música terminava, o programa acabava. Ela enviava os clientes esquisitos ou os que pediam práticas mais agressivas para Chantal, que gostava desse estilo de serviço.
O livro reserva uma grande parte para explorar o universo da prostituição, seus perigos e histórias de diversas garotas, além de debater a regulamentação da profissão. Em certa noite, muito cansada após um dia inteiro de trabalho e sem nenhum cliente agendado, Elize tomou banho, vestiu uma camisola e foi relaxar bebendo uma taça de vinho. Eram cerca de 22h quando a campainha tocou. Estranhando que a portaria não a tivesse avisado, Elize atendeu a porta sem retirar a corrente de segurança, apenas entreabrindo-a.
Do outro lado, viu um homem na casa dos 30 anos, vestido com roupas sociais, cabelos pretos, usando óculos e uma aliança de ouro. Ficou claro para ela que ele era casado, perfil comum entre seus clientes, o que dificultava seu plano de encontrar um marido rico. O visitante trazia um buquê de rosas colombianas e uma garrafa de vinho avaliada em R$ 2.000. Elize perguntou se ele tinha horário marcado e ele respondeu que não, justificando que estava de passagem, indo a um apartamento próximo, e resolveu verificar se ela estava livre. Esse homem era Marcos Kitano Matsunaga.
Marcos nasceu em 1º de outubro de 1970, em São Paulo. Ele era neto de Yoshizo Kitano, o imigrante japonês que fundou a empresa alimentícia Yoki na década de 1960. O Marcos passou a infância no bairro do Parque Continental, zona oeste de São Paulo, próximo ao Butantã. Estudou nos melhores colégios da região, formando-se em 1988 no prestigiado Colégio Santa Cruz. Pouco se sabe sobre sua infância. Seu pai, Mitsuo Matsunaga, foi CEO da Yoki, e sua mãe, Misako Kitano Matsunaga, filha do fundador da empresa, dedicava-se exclusivamente à casa.
Ambos os pais de Marcos nasceram no Japão e emigraram para o Brasil. Marcos tinha um irmão mais novo, Mauro. O casal, juntamente com a irmã de Misako, detinha a maior parte das ações da indústria de alimentos Yoki. Em 2010, a empresa faturava em média R$ 1 bilhão por ano e empregava 5.200 trabalhadores. A marca Yoki consolidou-se na década de 80. O pai de Marcos atuava anteriormente na fabricação de amortecedores para veículos e motocicletas; com o tempo, desfez-se do negócio e investiu na empresa da família da esposa, tornando-se sócio e, mais tarde, CEO.
Após o ensino médio, Marcos estudou Administração na Fundação Getúlio Vargas com o objetivo de assumir o controle dos negócios da família. Ele se tornou diretor executivo, focado na área agrícola, embora possuísse uma participação simbólica de menos de 1% nas ações das empresas subsidiárias, o que não lhe dava poder nas decisões estratégicas. Funcionários o descreviam como um chefe metódico, organizado, respeitador e calmo, embora pudesse se alterar quando subordinados cometiam erros. Sua vida pessoal era mantida sob sigilo.
Por outro lado, o irmão caçula, Mauro, dois anos mais novo, tornou-se diretor de logística e depois responsável pela área industrial. Os irmãos tinham personalidades completamente opostas, mas Marcos sempre foi o preferido da mãe, que acobertava as “loucuras” do filho. Na adolescência, por exemplo, ele usava o cartão de crédito dela para bancar viagens e noitadas com prostitutas de luxo. Já Mauro era discreto, caseiro, tímido, de saúde frágil, abstêmio, raramente saía à noite e era casado com sua namorada de adolescência, mantendo uma relação mais próxima com o pai.
Essas diferenças criaram um abismo entre os irmãos, que não conviviam fora da Yoki e raramente se falavam, encontrando-se apenas nas reuniões da diretoria. Na empresa, cada irmão recebia um salário bruto de R$ 31.000, quantia insuficiente para custear o estilo de vida luxuoso de Marcos. Para complementar sua renda, Marcos montou secretamente uma empresa de exportação dentro da própria Yoki, que faturava em média 32 milhões de dólares anualmente. Era com os recursos desse esquema clandestino que ele financiava seu alto padrão de vida e viagens excêntricas pelo mundo.
Na época, Marcos era casado com Lívia de Souza Pontes e morava numa mansão no Alto de Pinheiros. O casal tinha uma filha pequena. Após uma tentativa de assalto em sua residência, Marcos passou a andar armado o tempo todo e começou sua coleção bélica. Ele frequentava aulas de tiro, dirigia uma BMW blindada e, por precaução, quando ia se encontrar com prostitutas no centro da cidade, utilizava outro veículo — uma Pajero TR4 blindada — e deixava em casa itens luxuosos como relógios Rolex.
O livro relata o caso de uma prostituta famosa em São Paulo, de 28 anos, conhecida como Tati Chanel. Na década de 2000, ela conseguia clientes pela internet através de um blog com 36 fotos bem produzidas e seu número de telefone. Na época, Marcos tinha 31 anos e contratou os serviços de Tati. O encontro aconteceu num apartamento limpo e arejado, que Marcos mantinha exclusivamente para esses programas.
Logo que Tati chegou, Marcos disse que ela era bem diferente da foto e que lhe pagaria R$ 50 para ir embora. Tati rebateu, argumentando que ele deveria ter dito isso antes de ela entrar e cobrou o valor total do programa. Marcos insistiu, atirou uma nota de R$ 50 no colo dela, mas Tati exigiu os R$ 150 restantes. A tensão escalou quando ela pegou o telefone, simulando uma ligação para o “Delegado Gusmão”, pedindo uma viatura para resolver a situação no apartamento na Bela Vista.
Antes que ela pudesse dizer o endereço, sentiu a ponta fria de um fuzil AR-15 na nuca, arma avaliada em R$ 45.000 e parte de sua coleção de 33 armas, avaliada em R$ 300.000. O susto a paralisou. Marcos tomou o celular e o arremessou na parede, destruindo-o. Em seguida, apontou a arma para o peito de Tati, e uma tortura psicológica se iniciou. Enquanto ela chorava e implorava por misericórdia, rezando em voz alta, ele esfregava o cano da arma no rosto dela. Finalmente, Marcos rasgou a blusa de Tati e a expulsou do local nua, forçando-a a caminhar sozinha por uma rua deserta.
Marcos mantinha duas vidas completamente distintas: por um lado, era um respeitado empresário e pai de família; por outro, era um homem violento, viciado em prostitutas e agressivo com as garotas. Sua escolha de companhias variava das garotas “mais baratas”, como Tati Chanel (atendidas num apartamento simples no Centro), até profissionais de alto padrão (recebidas num flat sofisticado no Itaim Bibi), que custavam até R$ 10.000. Paranoico com a possibilidade de ser sequestrado, ele evitava motéis e raramente abordava as mulheres nas ruas.
Para sustentar a farsa, usava dois celulares: um apenas para a família e para o trabalho, e o outro, que nunca levava para casa, exclusivo para gerenciar seus programas. A vida dupla de Marcos era um segredo bem guardado em seu meio profissional, compartilhado apenas com amigos íntimos, como Paolo, engenheiro de 39 anos, e Lincoln, um supermercadista que também sofria do mesmo vício sexual. Os três costumavam visitar a mansão de Aretusa, além de outros prostíbulos e sites de acompanhantes.
O comportamento compulsivo de Marcos e seu desejo por prostitutas ocultavam distúrbios profundos. Ele apresentava ninfomania (satiromania em homens), caracterizada por um desejo sexual incessante, e uma condição chamada “timidez do amor”, que o impedia de seduzir pessoas de forma natural devido à ansiedade crônica. Por conviver intensamente com garotas de programa, Marcos desenvolvia frequentes envolvimentos emocionais.
Em 2002, aos 33 anos, ele contratou a garota “Luluzinha” (Luzia Savóia), uma mulher com currículo invejável, incluindo participações como dançarina na TV e em revistas masculinas. A relação rapidamente se aprofundou e, com seis meses de namoro, ele a presenteou com uma Pajero TR4. Embora dedicasse tempo à amante e ao seu casamento com Lívia, o empresário continuava saindo com outras profissionais em segredo. Ao mesmo tempo, ele exigia exclusividade das prostitutas com quem se relacionava mais a sério, chegando a pagar mesadas de R$ 30.000 para bloquear a agenda de Luluzinha e impedir que ela visse outros clientes.
Certa vez, durante um jantar, Luluzinha mexeu no celular de Marcos e descobriu suas traições. Ela fez um escândalo público, gritando que aceitava ele ser casado, mas que não tolerava encontros com outras prostitutas. O ciúme crescente de Luluzinha destruiu o encanto do relacionamento, e, embora ela tenha ficado com o carro, Marcos cortou a mesada.
O livro relata outros casos de ameaças de Marcos a garotas de programa. Em um episódio, Marcos levou seu amigo Lincoln para almoçar com uma das três prostitutas com as quais ele namorava simultaneamente. Naquele momento, Marcos, com quem Elize se relacionava há quase três meses, ainda não havia terminado definitivamente com Luluzinha. Durante o almoço no restaurante, Luluzinha entrou, viu o grupo, e fez um barraco que terminou com o gerente ameaçando chamar a polícia e expulsando todos.
Após a cena humilhante, Marcos terminou o relacionamento com Elize e ligou para Luluzinha, finalizando a relação com ela em meio a ameaças de morte. O escândalo levou Marcos e Lincoln a se afastarem das garotas de rua e a investirem mais nas “profissionais de luxo”, ou naquelas de nível intermediário encontradas na internet (com programas variando de R$ 300 a R$ 500). Foi durante esse período que eles visitaram a mansão de Aretusa e conheceram Alícia, uma jovem de 26 anos, muito bonita, que queria ser atriz. Marcos a convidou para acompanhá-lo em uma viagem até uma das unidades da Yoki no Mato Grosso, e os dois acabaram se tornando amigos.
De volta ao momento em que Marcos apareceu de surpresa no apartamento de Elize: ela o deixou entrar, o que resultou no primeiro encontro profissional com ele. Durante a conversa, Marcos confessou ser casado, ter família, esposa e filha, justificando que a vida dupla lhe trazia a “calmaria” necessária para o lar. Ele se mostrava um homem abastado — pelo relógio, pelas roupas e pelos acessórios de grife —, mas não lhe disse que era milionário.
Às quatro da manhã, ele decidiu ir embora e pagou os R$ 300 acordados. Embora ele comumente se referisse às prostitutas como objetos e de forma desrespeitosa (como atestado em várias falas transcritas no livro), Marcos descrevia Elize — apresentada como Kelly — de modo surpreendentemente respeitoso e cheio de elogios para os amigos, o que levantou a hipótese de que ele estava se apaixonando.
Na mesma noite, Marcos mandou mensagem para Elize marcando um novo encontro. Chegou ao flat dela e, após cerca de duas horas, percebeu o celular apitando com notificações de outros clientes; ele perguntou quantos programas ela ainda faria. Elize respondeu que havia pelo menos mais três. Marcos, então, exigiu que ela os cancelasse, pois pretendia passar a noite toda e o café da manhã com ela. Para encobrir o encontro, Marcos mentiu para a esposa dizendo que viajaria para Nova Prata a trabalho, viagem que Lívia acreditou e jamais questionou.
Marcos ficou com Elize e pediu um jantar luxuoso com vinho caro, indo embora apenas ao meio-dia seguinte e deixando R$ 2.500 pela companhia dela. Em seguida, os amigos Marcos, Paolo e Lincoln combinaram de ir à mansão de Aretusa — uma programação habitual às quintas-feiras. Saindo da festa sem nenhuma acompanhante, Marcos decidiu ir, de surpresa, até o apartamento de Elize. A porta estava trancada, pois ela estava atendendo outro cliente, e ele ficou duas horas sentado do lado de fora, esperando a sua vez.
Quando Marcos finalmente entrou, Elize o alertou que, como não havia horário marcado, ele precisaria ir embora rápido, pois outro cliente já estava agendado. Marcos, entretanto, ignorou as palavras dela, deitou-se na cama e dormiu. Sentindo-se encurralada, Elize desmarcou o cliente e deixou que o empresário descansasse. Às 10h da manhã, Marcos acordou cercado de mensagens da esposa e ligações do trabalho. Desculpou-se apressadamente e partiu, sem pagar pelo encontro. Pouco depois, entrou em contato novamente, expressando o desejo de se retratar e de levá-la a um dos restaurantes mais prestigiados de São Paulo.
O empresário passou para pegá-la no apartamento rigorosamente às 20h. Elize ficou admirada com o cavalheirismo que ele demonstrou ao abrir a porta do carro e pela elegância da BMW de luxo que ele dirigia; ela nunca tinha experimentado tamanho tratamento por parte de um homem. Durante o jantar, as habilidades de Marcos sobre a gastronomia também a deixaram fascinada. Após a refeição refinada, ele levou Elize ao seu apartamento no Itaim.
Ao entrar, a jovem deu um grito assustador: num canto da sala havia um javali embalsamado, tão bem preservado que parecia vivo. Marcos, amante da caça esportiva, costumava empalhar e exibir os animais abatidos como troféus. O casal dormiu no apartamento e, pela manhã, Marcos preparou o café na cama e, em um tom apaixonado, perguntou o verdadeiro nome dela. Elize respondeu que revelaria sua identidade apenas quando também se apaixonasse. Ele concordou, prometendo esperar com paciência e lhe repassou R$ 4.000 pelo encontro.
Em 2004, após dois meses saindo com ele, Elize finalmente confirmou à amiga Chantal que estava apaixonada. Eles se encontravam ao menos duas vezes por semana, e ela ainda mantinha seus outros clientes, enquanto ganhava cerca de R$ 30.000 por mês. Marcos perguntou quanto Elize cobraria para ser exclusiva dele, e ela pediu os mesmos R$ 30.000. Embora a plataforma Mclass exigisse exclusividade de suas profissionais, Elize usava serviços de uma cafetina chamada Violeta para agendar encontros por fora.
O dono do site Mclass descobriu e a baniu, coincidindo com o momento em que Marcos pediu exclusividade. Eufórico ao não encontrar mais o perfil de Elize online, ele comprou flores e foi até o apartamento dela, comemorando. Ao vê-lo emocionado, Elize sentiu-se confiante o suficiente e, enfim, lhe disse o seu verdadeiro nome. Os dois passaram a se ver com frequência, circulavam publicamente como namorados, eram afetuosos, e tudo corria de forma harmônica; Paolo, Lincoln e Alícia, amigos de Marcos, apoiavam o relacionamento com certo espanto, visto que ele nunca demonstrara tamanho apreço por outra garota antes.
Os relatos e as promessas apaixonadas fizeram com que Elize acreditasse ser capaz de abandonar definitivamente a prostituição. Marcos demonstrava muito zelo e cuidado, o que se fortaleceu ainda mais quando ela revelou toda a sua sofrida história no Paraná. Compadecido, ele via em Elize a fragilidade que o atraía. Eles iam aos restaurantes mais luxuosos, ao zoológico (atividade favorita de ambos) e tiravam fotos com juras de amor eterno, em um ambiente em que ele agia totalmente desligado de seu compromisso matrimonial com Lívia.
A ilusão atingiu um novo ápice durante um jantar com amigos, quando ele demonstrou carinho excessivo, alimentando as esperanças de Elize de que aquele homem seria a sua salvação. Na terceira semana de namoro, o empresário levou Elize em uma viagem oficial de negócios à fábrica da Yoki em São Bernardo do Campo — o mesmo lugar em que ele já havia levado Alícia anteriormente. Até então, ele ainda não havia feito o pagamento acordado pela exclusividade.
Cobrando a promessa sob a justificativa do aluguel atrasado, Marcos continuou a enrolá-la com o pagamento. Elize ameaçou manter clientes especiais se ele não a remunerasse como prometido. Após retornar de uma viagem em família, Marcos foi ao encontro dela e entregou-lhe um celular de última geração com um novo número, exigindo que ela lhe desse o aparelho antigo. Sua intenção era apagar qualquer rastro de números ou contatos da época da prostituição.
Junto a isso, o empresário determinou que Elize entregasse o flat onde morava, buscando evitar que os antigos clientes voltassem a procurá-la. Em apenas uma semana, Elize mudou-se para o apartamento que Marcos mantinha para receber outras garotas de programa de luxo no Itaim Bibi. As atitudes autoritárias dele causaram desconforto, mas ela interpretou isso como provas de amor intenso, ignorando os conselhos de Chantal sobre como a violência começa nas pequenas coisas.
Além de obrigá-la a mudar, ele gastou quase R$ 40.000 renovando o guarda-roupa da mulher para adequá-lo ao de uma “mulher de família”, conforme a definição do empresário. Nessa época, Elize desconhecia que o namorado mantinha dois aparelhos celulares: ele alegava que um era exclusivo para negócios e contato com ela, enquanto o outro servia apenas para ligações à família. A verdade era que um celular estava com as ligações “sérias” e o outro, apenas para manter contato com as garotas de programa.
Por fim, Marcos fez o primeiro pagamento de R$ 20.000, argumentando que a quantia de R$ 30.000 não era mais necessária, já que Elize não tinha mais despesas com moradia. O combinado se fixou nesse valor mensal. Certo dia, Elize estava no apartamento com Chantal quando ouviu barulhos na porta. Como a chave já estava na fechadura pelo lado de dentro, a pessoa do outro lado não conseguia abrir a porta.
Elize abriu a porta para checar quem era e encontrou uma mulher bonita, elegante, com cerca de trinta e poucos anos e sotaque gaúcho. A jovem, que se identificou como a esposa de Marcos, questionou quem eram as ocupantes da residência. Elize ficou estarrecida, pois não conhecia o rosto de Lívia nem por fotografia.
Tomando as rédeas da situação, Chantal assumiu a identidade de universitária, mentindo que ambas alugavam o apartamento do empresário. Lívia, educadamente, pediu desculpas, pois sabia que o marido possuía imóveis alugados, embora desconhecesse a situação daquele em específico. Percebendo a timidez da mulher, Chantal a convidou para tomar café e conversaram de maneira amistosa. Em pânico, Elize enviava mensagens ao namorado, que reagiu determinando que ela expulsasse a esposa dali imediatamente e sem levantar suspeitas.
Inspirada para tirar Lívia de lá, Elize inventou uma emergência e se desculpou, garantindo que precisavam sair naquele exato momento. Encantada com a cortesia de Chantal, Lívia trocou de número com a mulher para se encontrarem depois, pois, como recém-chegada em São Paulo, tinha poucas companhias. Sobre Lívia, o namoro com Marcos começou na fábrica do Rio Grande do Sul: encantado com a operária gaúcha, ele a chamou para jantar e o namoro evoluiu a passos largos, chegando ao casamento em seis meses com a bênção dos pais da jovem, em uma cerimônia que custou cerca de meio milhão de reais.
Lívia, oriunda de uma vida simples, passou a ser esposa do herdeiro milionário, morando numa mansão em Pinheiros de três mil metros quadrados, equipada com um quadro enorme de empregados. No princípio, o casamento parecia harmonioso e repleto de viagens incríveis. Mas, após alguns meses de estabilidade, o comportamento de Marcos mudou, levando-o a se reaproximar dos antigos amigos e de seu universo noturno de excessos, frequentando bordéis sem o conhecimento da mulher.
As prolongadas viagens a trabalho (chegando a deixá-la abandonada em casa até às 2h da manhã) deixaram a recém-casada deprimida e desamparada, resultando em frequentes visitas aos pais no Sul. Buscando uma motivação a mais no casamento, e por indicação da mãe, ela decidiu atuar na administração dos imóveis que ele possuía. O inventário a conduziu, exatamente, ao flat de Elize. Marcos a proibiu de trabalhar novamente como corretora.
Quando Lívia engravidou de uma menina após 4 anos de casados, Marcos voltou a ser um marido presente, dedicado e carinhoso. O encanto acabou quando a criança tinha apenas um mês, período que coincidiu com a “oficialização” do namoro de Marcos e Elize. Conectando as peças que a incomodavam sobre o relacionamento do empresário, Lívia perguntou se ele conhecia a universitária chamada Elize; ele mentiu que não a conhecia e ordenou que ela se afastasse dos imóveis. Mas Lívia estava convencida, pois no encontro havia notado uma foto do casal estrategicamente escondida por Elize.
Com as suspeitas confirmadas e amparada pelo fato de manter contato semanal com Chantal, a esposa decidiu confrontar o marido, pedindo para ver o contrato de aluguel. A briga terminou em gritaria e a confissão impetuosa de Marcos: Elize era sua amante há três anos, e a ordem era que Lívia arrumasse as coisas e desaparecesse de sua vida imediatamente. Com medo da violência armada do marido, a esposa recolheu o básico, pegou a bebê e passou a noite em um hotel. No dia seguinte, decidida a seguir para o Sul, ela passou no flat do Itaim e pediu para conversar com Elize.
Em sua rápida visita, Lívia aconselhou a amante a “pular do barco enquanto havia tempo”. Afirmou com conhecimento de causa: “O Marcos se apresenta como um homem romântico e amável, mas é perigoso, cruel, desequilibrado e machista. Ele vai mostrar a você um mundo encantado e, depois, destruí-lo. E você, como tantas, se cegará para tudo”. Recusando os conselhos que iriam se confirmar trágicos futuramente, Elize agradeceu o aviso, acreditando ingenuamente que a sua situação era diferente. A mulher abandonada fugiu para Nova Prata, vivendo de uma pensão de apenas R$ 8.000, considerando a sonegação da riqueza de seu ex-marido (que tinha salário declarado de R$ 31.000).
Elize, ignorando completamente as palavras da antiga esposa, apenas sentiu a glória de saber que Marcos estava oficialmente livre, mergulhando no mundo das promessas e se consolidando na rotina social com o novo companheiro. Ele apresentou Elize à família e pagou religiosamente os R$ 20.000 mensais prometidos, garantindo, em partes, que não encontrava outros homens, mesmo tendo quebrado sua exclusividade em segredo com Gisele. Esta era uma profissional com quem saía frequentemente entre 2001 e 2008.
Marcos bancou Gisele de todas as formas: pagou sua faculdade, a enchia de presentes e concedeu um carro 0km, até ela se mudar definitivamente com o parceiro americano e estabelecer uma vida formal nos Estados Unidos. A rotina com Elize também foi transferida para o apartamento do Itaim; com quatro anos de namoro e as brigas dominadas pelo ciúme excessivo do empresário, eles passavam horas vigiando um ao outro. Com a jovem usufruindo da beleza em salões e nas academias de luxo que ele próprio pagava, a paranoia de Marcos em perdê-la incentivou nele mesmo uma necessidade de repaginação física e novos cuidados pessoais.
Como hobby mútuo, eles decidiram investir na paixão armada de Marcos e matricularam Elize num famoso estande de tiros no bairro da Lapa. Em apenas um mês, ela ganhou uma pistola Taurus e atingiu os níveis intermediários das lições táticas em um ritmo muito avançado, demonstrando precisão e técnicas aprimoradas pela grande frequência e pelos treinos de simulação de manuseio e mira que efetuava na própria residência com armas descarregadas (os chamados “tiros a seco”).
Pressionando o empresário para explorar na prática essas táticas, o casal logo começou a vislumbrar e a projetar caçadas esportivas pelo sul do país, visitando rotineiramente espaços naturais, zoológicos e os safáris em São Paulo. Dessa rotina selvagem resultou um dos maiores mimos exóticos de Marcos para a esposa: um filhote de jiboia apelidado de Gigi. O casamento foi desenhado ao longo do relacionamento e, no mesmo ano, ela foi aprovada para cursar Direito pela Universidade Paulista.
Com o casamento cravado, Marcos surpreendeu a noiva e, antevendo o patrimônio pós-núpcias, comprou duas belíssimas coberturas duplex na Vila Leopoldina (na mesma região de São Paulo, que juntas compunham espaços gigantescos de 370m², adaptados exclusivamente ao exagero consumista e bélico dele). Além dos incontáveis bens e cômodos majestosos, a mansão abrigava o gigantesco arsenal armamentista trancafiado como bunker por conta do intenso pavor de assaltos e sequestros de Matsunaga.
Sendo também apaixonada pela cobra exótica e usufruindo do ambiente enorme, o casal a mantinha livre, passeando pelos corredores entre a banheira e a mini-selva decorada especialmente para ela. Coroando os acontecimentos, Marcos também transferiu um Pajero blindado em comemoração aos imóveis, somado a todo acesso direto do dinheiro nas contas de Pessoa Física do marido; com isso, Elize abdicou integralmente das antigas mesadas, em favor de legitimar sua relação “familiar”, eliminando qualquer vínculo profissional com a união.
Próximo das núpcias, o casal dedicou-se à reconciliação forçada em Chopinzinho, o que restabeleceu algum vínculo entre Elize e a mãe, em busca da aceitação para a cerimônia e de uma conexão rompida há quase 10 anos devido ao abuso silencioso e encoberto pelas mãos frias de Chico, do qual ela optara, em luto silencioso, fingir desconhecimento. Os votos, celebrados na igreja Anglicana, trouxeram os nomes de batismo definitivos.
Eles casaram-se no dia 17 de outubro de 2009 sob comunhão parcial de bens: no caso de Elize, apenas herdaria em vida 50% de tudo aquilo que o casal produzisse a partir da assinatura da união matrimonial, de modo que toda a gigantesca fortuna preexistente em nome de Marcos e da Yoki permaneceria fora de divisão perante eventuais divórcios.
O relacionamento exótico dos recém-casados abrangeu caçadas brutais de longa distância, aniquilando coalas e cangurus na Austrália, desmembrando corpos, esquartejando cabeças para empalhar e executando impiedosamente lobos, coiotes, alces, ursos, gansos, veados e cães nas imensas trilhas do Canadá (e colecionando macabras decorações espalhadas pelas luxuosas varandas dos apartamentos na Vila Leopoldina).
Mas o luxuoso e desumano namoro durou muito pouco e uma intensa guerra passional começou; o vício de Marcos transparecia nos encontros marcados por trás de uma funcionária chamada Claudinha e as discussões explodiam em violência moral, em face de sua obsessiva conexão com a garota do sul que a mulher considerava perigosa ameaça ao relacionamento.
Na balança emocional do descontrole recíproco e as desavenças insanas por pequenas e severas desconfianças de traições, Marcos reconciliava os atritos mediante vultosos gastos bélicos; com uma Pistola semiautomática IMbel GC, 380 acalmou temporariamente a dor e amansou as incertezas, antes do casal finalmente começar a decidir ter filhos. Sem um progresso claro nas tentativas clínicas, Elize engravidou de maneira natural num intervalo conflituoso das investidas hormonais no final de 2010 e trouxe finalmente ao mundo a sonhada bebê em 15 de abril de 2011, pouco antes de conquistar sua formação integral em Direito, aliviando o casamento sob nova paixão avassaladora de Marcos pelos cuidados em função do pai amoroso, o qual reformava ambientes em casa para receber a herdeira da Yoki.
Enquanto a menina começava os primeiros passos e a fábrica recebia ofertas trilionárias, o casal se deleitava na projeção em investimentos no exterior; planejando as contas sobre o prometido prêmio de 100 milhões que Matsunaga embolsaria pela venda da corporação e em seu ambicioso comércio milionário envolvendo garrafas e bebidas, porém secretamente as brigas eclodiam constantemente e Marcos se isolava no medo, espalhando perigosos e ocultos revólveres em múltiplos espaços, além de enviar a odiosa (mas estimada) jiboia para a propriedade vizinha com Lincoln, logo nas primeiras crises infantis ao longo de um final de semana eufórico em adultério; retornando para o desespero e gritaria matrimonial ao lado do réptil no fim.
As rotinas e traições noturnas logo reapareceram com saídas e mentiras constantes com falsas reuniões; e Elize sucumbiu na profunda depressão paranoide, com o casal passando a pernoitar em recintos opostos para conter os ciúmes exacerbados que as clínicas conjugais em poucas visitas, e os reverendos ambiciosos sob pagamentos ilegais de auxílios, falharam em mediar após os primeiros computadores se quebrarem sob a fúria da desconfiada.
Em 21 de maio de 2012, após exílio temporário da dor em acomodações praianas na Bahia, Elize firmou a drástica vontade para destituir a farsa; convocou a mais ardilosa e bem sucedida advogada especializada em falências e traições luxuosas na capital, estipulando que o divórcio viria, contanto que se expusesse em provas fotográficas os romances imundos fora da instituição, na premissa de um flagrante que lhe gerasse o lucro de reparações processuais de infidelidade, em valores colossais na divisão judicial mediante os honorários extorsivos.
E enquanto o conselheiro René instigava falsos temores mortais contra a vida de Matsunaga sobre possíveis riscos de tiros de uma companheira que detinha inúmeras armas na casa, aconselhava, de modo assustadoramente cínico, em afastar as relíquias de seu campo de visibilidade. Mas o descaso arrogante e os caprichos de um homem viciado resultaram em encontros perversos com Nathália (garota que encontrou na internet, que mantinha os R$ 27.000 como prostituição e luxúria oculta recebendo o novo carro do marido), resultaram num conflituoso final com Elize afirmando em face limpa os passos da separação.
Com gritos ameaçando tomar e ocultar a criança perante a suposta debilidade insana de quem acusa os adultérios diários, ele garantiu em brutal violência e com terror em face a esposa o fim dela, alertando o som fulminante dos disparos na sua direção e, a despeito do ocorrido ter envolvido as chamadas dos porteiros nos esporros noturnos na cobertura, o caso afunilou na recuada assombrada e trégua momentânea que as noites fingiram adormecer.
Buscando provar e afundar a vida daquele que se recusava, deitando os olhos nos crimes dele, o rastreio e acompanhamento na vigilância contratada pela exígua barganha com o detetive resultaram em gravações chocantes que expunham em definitivo o amante abraçando a acompanhante nos estacionamentos abastados do restaurante e flat.
Elize desceu ao sul levando as coisas no fim da viagem à família, para que adquirisse em sigiloso plano e com firme frieza a cortante e famosa “Serra Elétrica” em posse total da coragem de pôr final a infame história antes das negociações para a Yoki finalizarem sob a ira. Desembarcando em clima insalubre das chuvas nos terminais e adentrando em furioso veículo por sob as direções extremadas pelas chamadas interrompidas, o marido nervoso esmurrou as marchas.
Na calada residencial com as funcionárias demitidas da folga para o final da semana fatídico, no jantar as indagações acerca dos chamados e compromissos irreais das reuniões finais começaram e desencadearam gritos raivosos entre o embate físico. Com tapas que dilaceraram seu ser em meio às carreiras esquivas até o sombrio acervo militar da escrivaninha. Empunhando a munição guardada de presente contra o seu peito no exato limite das repetições cruéis perante as humilhações de classe, a atiradora premiada em aulas desabafou sua cólera mirando certeira o rosto desguarnecido e pondo fim à violência.
Um único disparo derrubou o executivo arrogante e a fúria e o horror seguiram-se através das feridas dilaceradas pelas exímias facas em movimentos anatômicos cirúrgicos. Limpando os restos da monstruosidade que manchara os pisos da fortuna, com táticas cirúrgicas apuradas durante 10 exaustivas horas do macabro ofício sobre o sangue do pavor.
Elize estancou a história em bolsas, empacotando em plásticos da Yoki o cruel legado divido pela dor, conduzindo a brutal e desesperada despedida pelas caladas pistas nos destinos ocultos com seus retalhos depositados pela imundície ao redor nas fazendas locais distantes, desovando perfeitamente a perversidade da trama para dissimular sob falácias e mensagens falsas até a queda na terrível prova, sob os fatos que a levaram na busca das prisões e nas descobertas inóspitas, do que viria assombrar a pátria sobre as traições.
Após as incansáveis descobertas dos membros encontrados no caos em cachorros do campo, e pelo esgotamento final do falso cenário mediante os achados plásticos com os investigadores do caso em auxílio dos desesperados parentes que escavavam vídeos confidenciais das saídas irrefutáveis, ela sentenciada e confessada ao mundo relatou o desvaneio total do escrutínio num processo duramente penalizado nas audiências sob as controvérsias psiquiátricas do medo na penitenciaria até as brechas em novos horizontes para quem se diz consumida sob fantasmas de outrora na dolorida esperança com os remorsos a própria carne de menina isolada em riqueza. Se gostou, deixe seu “like”, siga a página porque trago muitas histórias extras e os links e vídeos em episódios completos nas telas para sua maratona em relatos intensos da realidade; é isso, deixo todos com a melhor despedida no acompanhamento e vejo todos vocês na próxima história.