Ele ganhou 300 milhões… e esqueceu a própria mãe – o que aconteceu depois chocou o país
A história completa
Um homem sortudo ganha na loteria, mas o que ele faz com o dinheiro deixa todos chocados. Tudo começou de forma tão discreta que ninguém poderia imaginar o que estava prestes a acontecer. Se alguém contasse, sem mostrar o bilhete premiado de 300 milhões de reais, ninguém acreditaria. Lourival era um homem de 29 anos que, se cruzasse na rua, talvez você nem notasse. Magro e curvado, como quem carrega um peso invisível, tinha o olhar baixo, sempre atento ao chão. Suas roupas, manchadas de tinta e graxa, contavam histórias de trabalhos duros e dias longos. Sua vida era uma coleção de pequenos bicos feitos de forma irregular apenas para garantir o sustento.
Era o típico trabalhador invisível das periferias de Salvador, vivendo na corda bamba entre o improviso e a necessidade. Um cara comum, sem diplomas, sem contatos influentes, sem qualquer sinal de que o destino lhe reservava algo brilhante. A casa da mãe, onde ele morava, era o retrato da pobreza que os acompanhava há anos. Era uma construção simples. As paredes de tijolos aparentes absorviam o calor implacável do sol durante o dia e, à noite, a casa se transformava em uma verdadeira fornalha.
A mobília, escassa e desgastada pelo tempo, parecia implorar por misericórdia. Um sofá afundado no centro, com molas visíveis escapando pelas costuras gastas, oferecia mais desconforto do que descanso. A mesa de madeira, manchada e cheia de marcas do uso diário, dividia espaço com cadeiras trêmulas que rangiam ao menor movimento. Um rádio pequeno, cuja carcaça desgastada emitia vozes e músicas que quebravam o silêncio da casa, era a principal fonte de informação e entretenimento, trazendo notícias e novelas que aliviavam por instantes o peso do dia a dia. O chão de cimento, áspero e frio, parecia ecoar os passos solitários de Lourival, o único que permaneceu na casa enquanto a mãe e a irmã partiram para outra cidade movidas pela necessidade de buscar algo melhor.
Dona Rita, a mãe, era a personificação da luta. Trabalhava como doméstica em São Paulo, enviando o pouco que podia para ajudar Lourival a manter a casa. As remessas eram irregulares, mas carregavam o peso de sacrifícios constantes. Cada moeda enviada era fruto de horas de faxinas exaustivas em apartamentos luxuosos. Lourival reconhecia o esforço da mãe, mas em meio à dureza do dia a dia, raramente se permitia pensar nas próprias emoções. Ele apenas vivia um dia de cada vez, sem grandes expectativas.
Foi então, em um desses dias aparentemente normais, enquanto voltava do trabalho, que Lourival viveu o episódio que marcaria sua vida para sempre: uma humilhação tão amarga que lhe plantaria no peito o desejo de vingança, um desejo que o destino em breve trataria de alimentar. Lourival caminhava pela calçada com a camisa suada e manchada de tinta, as mãos ainda ásperas do trabalho que havia feito durante o dia. O cansaço era visível no seu andar, mas algo lhe chamou a atenção no lobby de um hotel com paredes de vidro reluzentes e um ar que exalava exclusividade: ele viu uma mulher.
Ela era deslumbrante, com um vestido justo e cabelos perfeitamente alinhados. Lourival parou, incapaz de desviar o olhar. Ela conversava animadamente com um homem bem-vestido, segurando uma taça de espumante enquanto gesticulava com elegância. Por um momento, Lourival deixou sua imaginação correr solta. Ele se viu ao lado daquela mulher, vivendo uma vida diferente, cheia de conforto e status. Pensou em como seria ser alguém que pudesse entrar naquele lugar sem ser olhado de cima para baixo.
Mas antes que pudesse continuar sonhando, uma voz áspera cortou seus devaneios como uma foice: “Ei, o que você tá fazendo aqui? Sai da frente do hotel!” Lourival virou-se confuso, sem entender o motivo do ataque. “Só tô parado aqui, não tô fazendo nada”, respondeu, tentando justificar sua presença. “Esse lugar não é pra gente como você. Anda, some daqui!”, o segurança continuou, agora empurrando Lourival pelo ombro como se estivesse enxotando um cachorro de rua.
A raiva tomou conta de Lourival. Ele tentou resistir, encarando o segurança com os olhos fervendo de indignação: “E quem você pensa que é para me tratar assim, hein? Eu não fiz nada!”, gritou, mas sua voz soava impotente diante da autoridade do homem. “Vai embora antes que eu chame a polícia!”, ameaçou o segurança, cruzando os braços e encarando Lourival como se ele fosse lixo. Lourival sentiu o peito apertar, um misto de humilhação e fúria o consumiu. Ele olhou uma última vez para o lobby, para a mulher que ainda ria e gesticulava, completamente alheia à cena que se desenrolava do lado de fora.
Sem ter escolha, Lourival virou-se e começou a caminhar, mas a cada passo a raiva pulsava mais forte. Ele saiu murmurando xingamentos que não tinham força para atingir seu alvo. “Um dia eu volto aqui. Um dia você vai engolir tudo isso, seu desgraçado”, sussurrou para si mesmo, com os dentes cerrados e os punhos fechados. Naquele momento, ele não sabia, mas sua vida estava prestes a mudar de um jeito que nem ele poderia imaginar. A semente da vingança havia sido plantada, e o destino já começava a mover suas engrenagens para trazer Lourival de volta àquele mesmo lugar. Mas desta vez, ele não estaria de passagem.
Os dias passaram, mas a humilhação continuava viva na mente de Lourival como uma ferida que não cicatrizava. Ele revivia o momento em que foi enxotado da calçada todas as noites, enquanto tentava adormecer em seu colchão velho. O calor abafado da casa parecia intensificar o desconforto, mas era o peso da raiva que o mantinha acordado. Ele sabia que sua realidade era dura, mas até aquele dia nunca havia sentido tamanha indignidade.
Naquela manhã, ao sair de casa para mais um trabalho esporádico, Lourival ainda sentia o gosto amargo do orgulho ferido. Com o dinheiro recebido pelo serviço de pintura, ele comprou pão, feijão e uma pequena garrafa de pinga para espantar o cansaço e afastar os problemas. Enquanto caminhava pelas ruas poeirentas do bairro, um letreiro iluminado chamou sua atenção: “Casa Lotérica, aqui você faz sua sorte.”
Lourival parou por um instante, encarando a placa como se ela fosse lhe oferecer alguma resposta. Não era a primeira vez que arriscava sua sorte; de tempos em tempos, quando sobrava um troco, ele jogava. Seus números eram sempre escolhidos quase ao acaso, mas naquele dia ele decidiu incluir um número estratégico: a data do dia em que estava jogando. O restante foi preenchido sem grande atenção. Ele entrou no pequeno estabelecimento com passos tranquilos, sem grandes expectativas.
Dentro da lotérica, o ambiente era apertado e abafado. A fila avançava lentamente enquanto Lourival preenchia os números com uma caneta presa a uma corrente de ferro corroída pelo tempo. Quando terminou, entregou o papel à atendente junto com algumas notas amassadas. A mulher, com a expressão cansada, pegou o bilhete e fez o jogo quase com movimentos automáticos, inserindo os dados na máquina sem alterar o ritmo. Quando o bilhete impresso saiu da máquina, ela o entregou a Lourival com um sorriso protocolar, desejando-lhe boa sorte. Lourival guardou o bilhete no bolso e saiu da lotérica sem pensar muito no que tinha acabado de fazer. Para ele, era apenas mais uma tentativa. Afinal, sonhar não custava caro, pelo menos não naquele dia. O bilhete permaneceu esquecido no bolso de sua calça por alguns dias. A rotina seguiu como sempre, marcada por trabalhos ocasionais e noites solitárias na casa simples.
Até que, certa noite, enquanto jantava um pedaço de pão com café, o som chiado do velho rádio chamou sua atenção: “Boa noite, ouvintes, agora o momento mais aguardado, o sorteio da Mega-Sena”, anunciou o locutor com entusiasmo. Lourival lembrou-se do bilhete ainda guardado no bolso. Sem muita consideração, puxou o papel amassado e o abriu sobre a mesa. De forma distraída e automática, começou a conferir os números.
“O primeiro número é 14. 1 e 4, 14 é o nosso primeiro número”, anunciou o locutor. Ele olhou para o bilhete. O 14 estava lá. Não era a primeira vez que começava acertando. Não deixou aquilo mexer com suas expectativas, mas serviu para dar um ânimo inicial. “O segundo número é 28. 2 e 8, 28 é o nosso segundo número.” Lourival ajustou os olhos para conferir o bilhete novamente. Sim, o 28 também estava lá. Sentiu seu coração bater um pouco mais rápido do que o normal, mas apenas tentou se conter.
“O terceiro número é 35. 3 e 5, 35, esse é o nosso terceiro número da noite.” A respiração de Lourival ficou pesada. Ele conferiu mais uma vez, aproximando o bilhete da luz fraca da sala. Era outra vez um de seus números escolhidos. Não podia ser. Antes que processasse aquilo, o locutor deu sequência: “E agora vamos para o quarto número da noite, o quarto número é 44. 4 e 4, 44.” A mão que segurava o bilhete começou a tremer ao constatar também o número 44, recém-anunciado. Ele sentiu a vista turva e precisou piscar várias vezes, tentando se concentrar nos números.
Conferiu novamente, passando o dedo por cada linha impressa no papel como se quisesse confirmar que estava vendo direito. “O quinto número é 50. 5 e 0, 50 é o nosso quinto número da noite.” “Meu Deus, meu Deus”, murmurou Lourival ao constatar o número 50 em seu jogo. Com o ar que restou em seus pulmões, por um momento tudo ao seu redor ficou em silêncio, como se o tempo tivesse parado. Apenas o rádio parecia estar em movimento.
“E por fim, o mais aguardado, o mais decisivo, o número do ganhador: nosso sexto e último número.” “Não posso acreditar… só falta o 57. Vamos, vamos.” O locutor fez um silêncio em suspense e, após o toque dos tambores, finalmente anunciou: “Nosso sexto número é 57. 5 e 7, 57 é o último número. Boa sorte a todos e até a próxima, na Mega da Virada.”
Lourival ficou paralisado. Ele conferiu o bilhete mais uma vez, depois outra e mais outra. Olhava para o papel, depois para o rádio, e depois novamente para o bilhete. Sua mente recusava-se a aceitar o que estava acontecendo. “Meu Deus, será que eu tô sonhando?”, murmurou, apertando os olhos e balançando a cabeça como se tentasse acordar de um sonho.
Mas o papel continuava ali, com os números impressos exatamente como o locutor havia anunciado. Ele sentiu o peito acelerar, como se estivesse prestes a explodir. Sua visão ainda estava turva, mas a realidade começava a se formar lentamente em sua mente. “Ganhei. Eu ganhei.” Lourival começou a andar pela sala de um lado para o outro, segurando o bilhete como se fosse um troféu sagrado. A incredulidade misturava-se com uma explosão de emoções: choque, euforia e um medo estranho.
Ele não conseguia parar de conferir os números, como se precisasse se convencer a cada segundo de que aquilo estava realmente acontecendo. Depois de vários minutos nesse estado de confusão e choque, ele finalmente parou no meio da sala, olhou ao redor para a mesa velha, o sofá afundado, a lâmpada fraca no teto. Tudo parecia pequeno demais para a magnitude do que acabara de acontecer.
Lourival havia ganhado. Ele havia vencido o impossível. Por mais que estivesse sozinho naquele momento, a sensação era de que o mundo inteiro o olhava. Ele não fazia ideia de como seria o próximo passo, mas naquele instante, uma coisa era certa: sua vida jamais seria a mesma.
No dia seguinte, Lourival chegou à lotérica com o bilhete cuidadosamente dobrado no bolso. O sol escaldante parecia fazer a fila se arrastar ainda mais lentamente, mas ele esperou pacientemente, lutando contra o impulso de gritar ao mundo o que acreditava ser verdade. Ele segurava o bilhete como se fosse um talismã, evitando qualquer contato visual ou conversa para não chamar a atenção.
Quando finalmente chegou ao balcão, a atendente, já acostumada a atender dezenas de clientes todos os dias, pegou o bilhete com a mesma expressão cansada de sempre. Mas ao conferir os números na máquina, sua postura mudou drasticamente. Ela franziu o cenho e conferiu mais uma vez, depois conferiu novamente. Seus olhos se arregalaram e, por um momento, parecia que o tempo havia parado. Ela apertava os botões com tanta insistência que parecia procurar uma falha, algo que pudesse explicar o que estava vendo.
A atendente levou a mão à boca sem acreditar no que via, e ficou assim por longos segundos, perdida em pensamentos. “Moça”, disse Lourival quebrando o silêncio, “e aí, deu certo?” Sua voz carregava uma mistura de ansiedade e curiosidade. A atendente piscou algumas vezes, voltando à realidade e se inclinou levemente para a frente, falando baixo apenas para ele ouvir: “Senhor… o senhor ganhou”, disse quase em um sussurro, ainda em estado de choque.
Lourival sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Apesar de já saber disso, ouvir aquelas palavras o atingiu de uma forma diferente. Sua boca ficou seca e ele precisou engolir em seco antes de perguntar: “Ganhei quanto?” A atendente, ainda visivelmente atordoada, desviou o olhar, tentando se conter e prosseguiu: “Espere só um instante, por favor. O gerente irá conversar com o senhor”, disse ela, indicando uma salinha ao lado. O tempo parecia se arrastar enquanto ele esperava, mas finalmente, um homem de terno simples entrou, segurando uma pasta. “Senhor Lourival, antes de mais nada, meus parabéns”, disse o gerente, apertando a mão dele com um sorriso.

Parecia conter um misto de respeito e curiosidade. Ele se sentou à frente de Lourival e começou a explicar: “Estamos falando de 300 milhões de reais”, anunciou o gerente com a calma de quem fazia aquilo regularmente. Por um momento, Lourival ficou em silêncio. Ele ouvia as palavras, mas não conseguia processar o significado completo. Trezentos milhões. Ele repetiu o número mentalmente, tentando imaginar o que aquilo representava, mas sua mente não conseguia abarcar tamanha quantia. Nunca havia passado tanto dinheiro por suas mãos, nem de perto. Seus conhecimentos financeiros eram praticamente inexistentes, e tudo o que ele conseguia pensar era que deveria ser muito, muito dinheiro.
O gerente continuou explicando sobre os trâmites necessários: a ida à Caixa Econômica Federal e os procedimentos de segurança. Lourival ouvia apenas metade das palavras, ainda preso à ideia de que sua vida acabara de mudar para sempre. Quando finalmente deixou a lotérica, com instruções detalhadas sobre os próximos passos, Lourival segurava o bilhete como um troféu. Seus passos eram incertos, e ele olhava ao redor como se o mundo inteiro soubesse o que havia acontecido.
Naquela noite, Lourival não pregou os olhos. Ele tinha a vida inteira para imaginar o que faria com tanto dinheiro, mas naquele momento só conseguia pensar em uma coisa: a calçada do hotel. Na manhã seguinte, Lourival acordou cedo, mais por ansiedade do que por hábito. Vestiu a melhor roupa que tinha, uma camisa social desbotada e uma calça jeans surrada, e saiu de casa carregando uma pequena maleta preta que encontrara esquecida em um armário. Ele achava que seria suficiente para levar o dinheiro que acabara de ganhar. O caminho até a agência central da Caixa Econômica Federal foi percorrido em silêncio, com o bilhete premiado dobrado e guardado no bolso como se fosse um amuleto.
Ao chegar à agência, Lourival parou na porta, olhando para o grande prédio de vidro e concreto. Ele respirou fundo e entrou, sentindo os olhares curiosos dos outros clientes. Parecia deslocado naquele ambiente, mas agora carregava consigo algo que o fazia sentir-se grande: era um homem milionário. Assim que apresentou o bilhete ao atendente, a atmosfera mudou. O funcionário olhou para Lourival com uma expressão de surpresa e imediatamente chamou o gerente. Em poucos minutos, um homem de terno bem alinhado apareceu.
O gerente, sorridente, com a mão estendida, dirigiu-se a Lourival com uma cordialidade que ele nunca havia experimentado antes. “Senhor Lourival?”, perguntou com um tom quase reverente. “É um prazer conhecê-lo. Me acompanhe, por favor.” Lourival foi conduzido para uma sala reservada nos fundos da agência. Lá dentro, o ar condicionado criava um contraste marcante com o calor lá fora. O gerente puxou uma cadeira para ele, como se estivesse recebendo um convidado ilustre.
E logo, uma assistente entrou com uma bandeja: café, bolachas. “Fique à vontade”, disse o gerente, quase sem perceber as unhas ainda sujas de graxa nas mãos de Lourival. Lourival aceitou meio sem jeito, segurando a xícara com cuidado. Estava acostumado a ser ignorado, tratado como invisível, mas ali, naquele momento, sentia-se como um rei. O gerente sentou-se à sua frente, inclinando-se ligeiramente com um sorriso profissional estampado no rosto. “Senhor Lourival, estamos aqui para ajudá-lo com tudo o que precisar.”
O gerente estendeu a mão novamente, apertando firme as mãos calejadas de Lourival. “Primeiro, precisamos confirmar o valor. A quantia total do prêmio é de 300 milhões de reais. Gostaria de sacar uma parte em espécie ou transferir tudo para uma conta bancária?” Lourival riu um pouco sem jeito e apontou para a maleta simples que havia trazido, deixada ao lado da cadeira. “Olha, nem conta bancária eu tenho. Queria levar tudo em espécie mesmo, trouxe essa maleta aqui para guardar o dinheiro.” O gerente arregalou os olhos por um breve instante, surpreso com a ingenuidade da resposta.
Mas rapidamente recompôs a expressão, contendo o riso com elegância. “Senhor Lourival, acho que será mais fácil mostrar ao senhor o que 300 milhões representam”, disse com um sorriso educado, enquanto se levantava e fazia um gesto para que Lourival o acompanhasse. Eles caminharam por um longo corredor até uma porta de aço maciça guardada por dois seguranças. Um deles inseriu um código numérico e a porta se abriu com um som pesado e metálico. Lourival ficou paralisado diante do que viu. Dentro do cofre havia pilhas de cédulas empilhadas em compartimentos, organizadas com precisão.
O cheiro característico de papel moeda era quase inebriante. As luzes brancas refletiam nos pacotes de dinheiro, criando uma visão que parecia saída de um sonho. “O que o senhor está vendo aqui não é nem metade do que tem direito a receber”, explicou o gerente com uma voz séria e respeitosa. Lourival arregalou os olhos, incapaz de processar a magnitude. “Tudo isso é meu?”, perguntou quase sussurrando. “Sim, senhor. E mais. O senhor pode retirar uma parte em espécie hoje se desejar, mas sugiro que conversemos sobre como administrar esse montante. É uma quantia extraordinária.”
Lourival, ainda atônito, caminhou até as pilhas de dinheiro, passou os dedos por uma das cédulas, sentindo o papel como se quisesse confirmar que era real. Sua mente começou a girar, tentando imaginar o que faria com tanto dinheiro. Ele havia sonhado em ser alguém grande, mas aquilo ultrapassava qualquer fantasia que já tivera. O gerente, percebendo o impacto daquela visão, tocou levemente no ombro de Lourival: “Podemos ajudá-lo a planejar tudo, senhor. O mais importante agora é garantir que sua fortuna seja bem administrada.”
Lourival não respondeu de imediato. Ele estava perdido em seus próprios pensamentos, imaginando como seria o próximo passo. Naquele momento, porém, algo já estava claro: ele não era mais o mesmo homem que entrou naquele prédio e, pela primeira vez, sentiu que o mundo estava a seus pés. O gerente, com um sorriso profissional estampado no rosto, conduziu Lourival de volta à sala reservada. Sentados à mesa, ele começou a explicar com cuidado os procedimentos para criar uma conta bancária exclusiva para administrar uma quantia tão elevada.
“Senhor Lourival, vamos abrir uma conta especial para o senhor. Será uma conta premium com condições exclusivas para clientes que possuem um patrimônio dessa magnitude.” O gerente pausou, observando a reação de Lourival, que apenas assentiu, ainda tentando processar tudo. “A partir dela, poderemos ajudá-lo com aplicações financeiras e movimentações mais seguras. O senhor terá um gerente particular para auxiliá-lo em tudo.” Lourival balançou a cabeça, como se concordasse, mas era evidente que ele estava mais interessado no dinheiro físico que acabara de ver no cofre.
O gerente percebeu e prosseguiu, mantendo o tom calmo: “Entendo que o senhor queira levar uma parte em espécie. Podemos separar o valor que couber na sua maleta, mas para sua segurança, recomendo que não transporte grandes quantias.” “Só quero ter algo para tocar, sabe?”, respondeu Lourival, olhando para a maletinha ao lado, “para ter certeza que é meu.” O gerente, compreendendo a ansiedade do cliente, fez um sinal discreto para um funcionário que se retirou da sala e retornou minutos depois com um montante organizado em pacotes de notas de R$ 100.
Lourival observava com atenção enquanto o funcionário acomodava os pacotes cuidadosamente na maleta. O peso aumentava a cada pilha colocada e o som das notas sendo manuseadas parecia um tipo de música para ele. “Aqui está, senhor Lourival. Preparei R$ 200.000 para levar consigo. É um valor muito considerável, então tenha cuidado com o transporte”, disse o gerente, fechando a maleta e entregando-a com cuidado.
Lourival segurou a maleta com as duas mãos, sentindo o peso daquilo que parecia ser o início de uma nova vida. Ele agradeceu de forma simples, mas o sorriso que tentava conter revelava sua euforia. “Agora, senhor, sugiro que o acompanhemos até a saída com a nossa segurança. Dessa magnitude atrai olhares e queremos garantir sua tranquilidade.” Lourival acenou positivamente, mas no fundo sua mente já estava em outro lugar. Ele pensava no hotel, na calçada, no segurança que o humilhou. A maleta em suas mãos não era apenas dinheiro, era poder, poder para corrigir aquela ferida que nunca cicatrizou.
Assim que saiu da agência, Lourival foi direto para casa, com o coração acelerado e a maleta firmemente agarrada às mãos. Ele entrou na pequena sala de tijolos aparentes, colocou a maleta sobre a mesa de madeira manchada, abriu o fecho e admirou as notas empilhadas. Respirou fundo como se quisesse absorver cada detalhe daquele momento. Depois de alguns minutos, fechou a maleta novamente e decidiu: aquela não seria mais sua realidade, não naquele dia. Pouco tempo depois, Lourival estava em um táxi com destino ao shopping mais luxuoso de Salvador. Era um lugar onde ele jamais havia pisado antes, sempre observando de longe as vitrines que pareciam inalcançáveis.
Desta vez, no entanto, tudo era diferente. Ele entrou com passos firmes, segurando sua maleta e sentindo o perfume do ar condicionado misturado ao cheiro de novas possibilidades. “Quero o terno mais caro que vocês têm”, disse ele ao atendente de uma das lojas de grife mais exclusivas. O funcionário o olhou de cima a baixo, avaliando suas roupas surradas e a maleta que ele carregava, mas Lourival, percebendo o olhar, abriu um sorriso que exalava confiança. “Posso pagar, aliás, vou pagar à vista”, e abriu a maleta levemente, mostrando o dinheiro.
O atendente se apressou em atendê-lo, trazendo uma variedade de ternos importados que exalavam elegância. Após experimentar alguns, Lourival escolheu um modelo clássico com corte impecável, feito de um tecido italiano fino. Quando o atendente sugeriu uma gravata, Lourival levantou a mão recusando. “Não, não, quero deixar o pescoço livre”, disse, pegando uma correntinha de ouro fino que brilhava sob a luz da loja. A corrente pendia discretamente em seu pescoço, o contraste perfeito com a camisa branca. Lourival deu um sorriso satisfeito ao ajustá-la no espelho, como se fosse o símbolo do poder que sempre imaginou ter.
Nos pés, escolheu um par de sapatos italianos pretos de couro legítimo. Antes de sair, passou pela seção de perfumes e pediu ao atendente: “Quero o mais caro que você tem.” O vendedor trouxe um frasco de um perfume importado com notas amadeiradas e especiarias marcantes. Lourival experimentou o aroma e, satisfeito, adicionou à compra. Ao se olhar no espelho pela última vez antes de sair da loja, ele quase não reconheceu o homem que via refletido. O terno alinhado, os sapatos reluzentes, o perfume caro e a corrente de ouro formavam a imagem de alguém poderoso, alguém que Lourival nunca acreditou que poderia ser. Com a maleta em uma mão e o cartão Black reluzente no bolso, Lourival deixou a loja como se já tivesse conquistado o mundo.
Ao passar pela porta, deixou uma nota generosa de gorjeta para o atendente que o acompanhou até a saída com um sorriso de respeito. Lourival sorriu de canto, ajeitou o paletó e seguiu em frente. Naquele momento, ele era tudo o que sempre quis ser. De volta ao táxi, Lourival deu o endereço do Hotel Majestade, aquele mesmo lugar que semanas antes havia sido palco de sua maior humilhação.
Assim que chegou, desceu do carro com passos firmes, seu terno alinhado brilhando à luz do sol, a maleta em uma mão e a outra ajustando o paletó. Lourival atravessou a calçada com a mesma sensação de poder que sentira ao ver o cofre na agência. Na entrada do hotel, lá estava o mesmo segurança. Mas desta vez o homem não o reconheceu. Ao contrário, abriu a porta imediatamente e cumprimentou-o com um sorriso. “Boa tarde, senhor. Bem-vindo ao Hotel Majestade”, disse o segurança segurando a porta com deferência.
Lourival parou, olhando fixamente para o homem, seu sorriso carregado de frieza. “Boa tarde. Você não se lembra de mim, não?”, perguntou Lourival, sua voz afiada. O segurança olhou para ele com expressão neutra, mas o tom de Lourival chamou sua atenção. “Me desculpe, senhor. Não me recordo”, respondeu, ainda tentando manter a postura profissional.
Lourival deu um passo à frente, inclinando-se levemente para encará-lo. “Claro que não lembra, mas eu lembro muito bem de você.” Lourival pausou, o sorriso se ampliando. “Você me enxotou desta calçada como se eu fosse um cachorro. Lembra agora?” O segurança congelou, seus olhos se estreitaram enquanto ele buscava desesperadamente na memória. Então, como se fosse atingido por um raio, a lembrança veio. Sua expressão mudou para um misto de desconforto e arrependimento. “Ah, eu agora me recordo, senhor… Me desculpe. Isso não vai se repetir”, disse o segurança, com sua voz vacilante.
Lourival ergueu a sobrancelha, seu sorriso se tornando mais frio. “Desculpe? Isso é o melhor que você consegue?” Ele deu um passo para trás, olhando para o próprio sapato e fingindo um tom de nojo. “E ainda por cima acabou de cuspir no meu sapato de alguns milhares de reais. Você sabe o que isso significa?” O segurança abriu a boca para responder, mas não conseguiu dizer nada. Lourival, no entanto, não esperou. “Significa que você vai limpar agora, bem aqui na frente de todo mundo.”
O lobby do hotel, com seus lustres imponentes e sofás de couro impecáveis, ficou em completo silêncio. Clientes bem-vestidos e funcionários pararam o que estavam fazendo, atraídos pela cena. Alguns magnatas que conversavam no local olharam com curiosidade, tentando entender quem era aquele homem tão imponente. “Senhor, por favor, isso não é necessário…”, começou o segurança, mas Lourival o interrompeu com um gesto firme.
“Não é senhor, é mestre. E vai fazer o que eu mandei, ou quer perder o emprego?” Lourival apontou para o chão, indicando o sapato. “Vai limpar agora.” Sem alternativa, o segurança tirou um lenço do bolso, seus dedos trêmulos denunciando o constrangimento. Ele se ajoelhou e começou a limpar o sapato de Lourival, enquanto os olhares do lobby estavam cravados nele. Lourival observava a cena com um sorriso satisfeito, ajustando a correntinha de ouro em seu pescoço.
“Isso. Agora ficou melhor”, disse ele recuando o pé. “Mas ainda não terminamos. Sempre que eu aparecer aqui, você vai abaixar a cabeça e depois vai atravessar a rua e esperar na calçada do outro lado. Porque agora sou eu quem está passando e você não é digno de pisar no mesmo chão que eu.” O segurança, com o rosto vermelho de vergonha, murmurou: “Sim, senhor.” Lourival inclinou-se levemente, com sua voz cortante: “Senhor não, mestre.” O homem hesitou por um momento, mas finalmente disse quase em um sussurro: “Sim, mestre.”
Lourival deu um passo para o lado e, com um gesto de desprezo, apontou para fora: “Agora, suma da minha frente. Vai esperar lá fora. Se eu vir a sua lata, não quero você no meu caminho.” O segurança abaixou a cabeça, engolindo em seco, e saiu pela porta com passos rápidos. Lourival ficou parado por um momento, ajustando seu paletó e observando os olhares surpresos ao seu redor. Ele adorava aquele poder, saboreava cada segundo da atenção e do respeito que agora recebia. Ele caminhou até a recepção com passos lentos, como se fosse o dono do lugar.
“Quero a suíte presidencial”, disse, com um tom que não deixava espaço para dúvidas. A recepcionista não hesitou e começou a preencher sua reserva enquanto sorria: “Claro, senhor. Será um prazer acomodá-lo.” Lourival deu um último olhar ao lobby antes de ser conduzido à cobertura mais luxuosa do hotel. Ele tinha acabado de provar para si mesmo que não era mais um homem invisível. Agora os outros é que iriam se curvar diante dele. Mas mal sabia ele que sua ascensão meteórica era apenas o prelúdio de uma queda ainda mais devastadora. Lourival não perdeu tempo em transformar sua nova realidade em um espetáculo de extravagância.
Depois de se instalar na suíte presidencial do Hotel Majestade, um espaço tão luxuoso que parecia pertencer a outro mundo, ele decidiu que o próximo passo seria viver o estilo de vida que sempre invejou. Para ele, não bastava ter dinheiro; era preciso mostrar que tinha dinheiro. Na manhã seguinte, após tomar um café da manhã servido em uma mesa de mármore com vista para toda Salvador, Lourival desceu até a garagem do hotel, onde já o aguardava um motorista particular, por cortesia da administração. Ele pediu para ser levado à maior concessionária de carros de luxo da cidade.
Ao chegar, a recepção foi digna de um chefe de estado. Funcionários impecavelmente vestidos abriram a porta para ele e o conduziram a um showroom onde as luzes brilhavam sobre as superfícies impecáveis de Ferraris, Lamborghinis, Porsches e outras máquinas que Lourival só tinha visto em filmes ou revistas. “Quero o melhor. Aliás, quero vários. Quero um para cada dia da semana”, ele disse, segurando o cartão Black, que parecia brilhar tanto quanto seus olhos.
O vendedor sorriu, claramente animado com a perspectiva de uma comissão tão grande, e começou a mostrar os modelos mais exclusivos. Lourival escolheu sem pestanejar: uma Lamborghini amarela para os fins de semana, uma Ferrari vermelha para exibir pela cidade, um Range Rover preto para os dias em que quisesse algo mais sério, e outros modelos que mal saberia usar. A conta foi fechada em milhões, mas Lourival nem piscou. “Pode mandar todos para o hotel. Quero eles alinhados na entrada”, disse com um sorriso satisfeito.
De volta ao hotel, Lourival subiu para a cobertura, mas a euforia ainda pulsava em seu peito. Ele ligou para o concierge e deu uma nova ordem: “Quero que me levem para as lojas mais caras e providenciem uma lista de joalheiros, alfaiates… o que for. Apenas garanta que seja o melhor.” Minutos depois, um funcionário já o aguardava no lobby com uma limusine. Lourival visitou as boutiques mais exclusivas de Salvador, enchendo sacolas de roupas de grife que ele usaria uma vez e descartaria sem remorso: camisas de seda, ternos feitos sob medida, sapatos italianos. Nada escapava de sua lista de desejos.
Ele gastava como se o dinheiro fosse infinito. E para ele, naquele momento, era exatamente isso que parecia ser. Pouco tempo depois, Lourival decidiu que era hora de comemorar seu sucesso em boas companhias. De volta à cobertura, pegou o telefone e bastou ligar para dois ou três números contando as boas novas. E, como num passe de mágica, já não estava sozinho: amigos que não via há anos, conhecidos do bairro e gente que mal sabia o nome. Todos agora eram seus convidados.
Ele também fez questão de incluir mulheres que apenas conhecia de vista, justamente aquelas que nunca o olhavam antes. Ele sentia que tinha mais sorte com as mulheres do que antes, pela forma como passou a ser tratado em todos os lugares. Era como se o cúpido estivesse o tempo todo a seu favor. “Venham para cá, festa na cobertura do Majestade! Comida, bebida e música, é tudo por minha conta! Sem falar que seu nome pode ser escolhido nos sorteios de joias que acontecem durante a festa”, anunciava Lourival em tom de oferta irresistível.
Quando a noite chegou, a cobertura do hotel havia se transformado em um verdadeiro paraíso da ostentação. Mesas lotadas de garrafas de uísque caro, champanhes estourando a cada instante, garçons circulando com bandejas cheias de canapés finos. Lourival caminhava pelo local com seu terno impecável, a corrente de ouro brilhando no pescoço e um copo de uísque na mão. A música alta preenchia o ambiente, enquanto mulheres deslumbrantes riam e dançavam.
Lourival era o centro das atenções, cercado por pessoas que o elogiavam, chamavam-no de grande homem e brindavam ao seu sucesso. Ele estava embriagado não só pelo álcool, mas pela sensação de ser o dono do mundo. Em determinado momento, ele subiu em uma mesa e ergueu o copo: “Hoje é só o começo! Agora eu tô no topo e nada pode me derrubar!”, disse Lourival, enquanto a multidão abaixo aplaudia e gritava.
A festa continuou noite adentro. Os carros novos foram usados para levar alguns convidados embora, mas Lourival pouco se importava. Ele sabia que podia comprar outros no dia seguinte se quisesse. No fundo, porém, ele ainda sentia que algo estava faltando. A raiva que o motivou até ali começava a ser substituída por uma inquietação, uma necessidade de provar cada vez mais. Não só para os outros, mas para si mesmo, que ele era grande, que ele era alguém.
Enquanto a noite avançava e as luzes da cidade brilhavam ao longe, Lourival não fazia ideia de que, a cada brinde e a cada gasto desenfreado, ele estava cavando um buraco que, mais cedo ou mais tarde, seria impossível de sair. A cada dia que passava, Lourival mergulhava mais fundo em sua nova vida de excessos. O luxo era sua rotina e a extravagância sua única regra.
Ele acordava tarde, com a cabeça pesada pelo álcool da noite anterior, muitas vezes sem sequer lembrar como tinha chegado ao quarto. Era comum abrir os olhos e ver ao seu lado mulheres deslumbrantes envoltas nos lençóis de seda da suíte presidencial. Elas riam, brincavam e se divertiam ao seu lado. Para Lourival não se tratava de ostentação, era quem ele havia se tornado e aquele era seu harém. Ele caminhava até a sala principal da cobertura onde o café da manhã o aguardava em uma mesa impecavelmente posta com frutas, pães e bebidas que ele mal reconhecia.
Muitas vezes, ele ignorava tudo aquilo, pegava uma garrafa de champanhe e se jogava no sofá observando a vista da cidade enquanto acendia um charuto caro. Era uma rotina que ele nunca imaginou viver, mas que agora parecia tão natural quanto respirar. Enquanto isso, em São Paulo, sua mãe, Dona Rita, continuava a mesma vida dura de sempre, completamente alheia ao que havia acontecido com o filho. O contraste entre suas realidades era cruel.
Dona Rita acordava todos os dias às 5 da manhã. O despertador quebrando o pouco sono que conseguia ter no colchão fino que dividia com a filha em um pequeno quarto de um cortiço apertado. A casa onde morava era um muquifo: paredes manchadas de umidade, goteiras que faziam barulho nas noites de chuva e uma cozinha que mal comportava o básico. Ela esquentava um café ralo e comia um pedaço de pão seco antes de sair para enfrentar o transporte público lotado.
O primeiro trabalho era como faxineira em uma casa de classe alta. A rotina era exaustiva: lavar banheiros imensos, passar roupas de cama de linho que quase não cabiam na tábua e esfregar pisos que brilhavam mais do que qualquer objeto que ela tivesse em casa. Dona Rita muitas vezes trabalhava com dores na coluna, ignorando o desconforto porque não podia se dar ao luxo de faltar. O dinheiro que recebia era pouco, mas era essencial.
Certa vez, enquanto limpava a cozinha luxuosa de uma casa, precisou abrir a geladeira para guardar alguns itens que estavam fora e quase caiu de espanto diante da fartura de alimentos que viu ali dentro. Atordoada com a situação, ela precisou abrir a segunda porta da geladeira para guardar os itens e mesmo assim quase não havia espaço vazio. Parecia ter mais comida ali do que o que ela havia comido em toda a sua vida: iogurtes importados, queijos raros e frutas tão lindas e cheirosas que pareciam ter vindo direto do paraíso, justo naquele momento em que sua barriga doía de tanta fome. Mas ela sabia que, apesar de tudo, ela não podia pegar nada.
Só lhe restava um copo de água da torneira para enganar o estômago enquanto continuava sua jornada. Quando terminava o turno naquela casa, seguia para outro trabalho onde cuidava de um bebê. Enquanto alimentava a criança com papinhas caras e nutritivas, pensava nas vezes em que precisou dividir uma única colher de arroz com sua filha para sobreviver.
Às vezes, a comida que sobrava da casa da patroa era jogada fora sem que ninguém a tocasse. Dona Rita embrulhava tudo cuidadosamente para o lixo, mas ao terminar o turno, voltava ao saco de lixo e pegava o que podia para levar para casa escondida de todos. Os dias eram assim: duros, repetitivos e marcados por privações. O dinheiro que conseguia era contado centavo a centavo e mesmo assim ela ainda encontrava um jeito de enviar parte dele para Salvador, achando que ele precisava de sua ajuda.
Ela nunca imaginaria que o filho, agora milionário, jantava em restaurantes caros e torrava fortunas em festas, roupas e carros enquanto ela lutava para sobreviver. Certa noite, enquanto Dona Rita dormia em seu colchão fino, Lourival estava em outra festa na cobertura. O som alto ecoava pelo ambiente e as luzes coloridas transformavam a sala em uma boate improvisada. Mulheres desfilavam, garrafas de uísque e champanhe eram abertas uma atrás da outra e Lourival estava no centro de tudo, rindo e gastando como se o dinheiro nunca fosse acabar. Ele tinha acabado de comprar mais um carro de luxo e estava exibindo as fotos para os amigos que haviam se juntado a ele. Amigos que, semanas atrás, sequer sabiam que Lourival existia, mas que agora o tratavam como um rei.
Ele oferecia brindes a todos, contando histórias exageradas de sua nova vida, enquanto as mulheres ao seu redor competiam pela sua atenção. No meio da festa, Lourival recebeu uma notificação no celular. Era o aplicativo do banco notificando o recebimento de mais R$ 50 vindo de sua mãe para ajudar nas despesas.
Ele olhou para o celular e deu uma risada alta, chamando a atenção de quem estava ao redor. “Minha mãe ainda acha que eu preciso de dinheiro”, disse, jogando o celular dentro da piscina. Todos riram, sem saber que Dona Rita passava fome para enviar aquele dinheiro. A vida de Lourival havia se transformado em uma sequência interminável de festas, extravagâncias e desperdício. Ele era a personificação do excesso.
Todas as noites ele saía para os lugares mais badalados da cidade, sempre cercado de amigos e mulheres deslumbrantes que não se importavam com nada além do dinheiro que eles esbanjavam nas noitadas. Lourival costumava chegar em um de seus muitos carros de luxo: Ferraris, Lamborghinis, Range Rovers. Ele tinha uma frota para escolher, mas sua relação com eles era tão descartável quanto com suas roupas. Quando o combustível acabava, ele simplesmente parava o carro na rua e o abandonava.
Não fazia questão de abastecer ou buscar depois. “Deixa para lá, não vale o esforço. Até já me enjoei desse. Amanhã eu compro outros”, dizia, dando de ombros, enquanto ligava para seu motorista particular. Ele entrava no carro do motorista e seguia para casa, geralmente sem lembrar como havia terminado a noite. Na manhã seguinte, o carro abandonado se tornava apenas mais uma vaga lembrança. Ele sequer fazia questão de saber onde o havia deixado, confiando que poderia comprar outro a qualquer momento.
Essa indiferença aos excessos não se limitava aos carros. Cada aspecto da vida de Lourival refletia o mesmo desprezo por qualquer tipo de limite ou preocupação. O luxo era seu novo padrão e o desperdício uma rotina. As roupas de Lourival eram um espetáculo à parte. Ele nunca repetia nada. Depois de cada banho, suas roupas usadas eram imediatamente descartadas.
Ele exigia que novos conjuntos de grife fossem entregues em sua suíte diariamente: camisas de seda, ternos italianos, calças sob medida. Todas usadas uma única vez antes de serem jogadas fora ou esquecidas em um canto. “Tragam algo novo! Não vou me vestir com restos”, ele ordenava enquanto ajustava o relógio de luxo que mudava a cada dia. Relógios também eram um símbolo de status para Lourival. Ele tinha uma coleção inteira de marcas renomadas: Rolex, Patek Philippe, Audemars Piguet. Cada dia um modelo diferente brilhava em seu pulso, sempre chamando a atenção de quem o cercava. Lourival sequer lembrava de sua família, mas era generoso com seus amigos e especialmente com as mulheres que o acompanhavam. Ele distribuía dinheiro como se fosse papel sem valor. Amigos que ele mal conhecia recebiam presentes caros, jantares extravagantes e às vezes até pequenas quantias de dinheiro para ajudá-los. Mas eram as mulheres que mais lucravam com sua generosidade. As mulheres que andavam com Lourival o tratavam como se fosse o homem mais desejado do planeta. Elas o chamavam de galã, diziam que ele era irresistível e o cercavam de elogios que massageavam seu ego. Algumas declaravam amor eterno, sugerindo que queriam se casar com ele. Mas Lourival sabia que nada daquilo era real. Ele aceitava, no entanto, porque gostava de se sentir no controle, como se fosse o centro do universo delas.
“Para você, qualquer coisa, meu amor”, dizia ele, entregando notas de dinheiro ou até mesmo comprando presentes para as que lhe chamavam mais a atenção. Ele era tratado como um rei e isso era tudo o que importava para ele no momento. A cidade inteira sabia quem era Lourival. Seu nome era comentado em todas as rodas sociais, dos bares mais simples às festas de gala. Homens e mulheres faziam fila para tentar se aproximar dele, cada um com sua própria intenção.
Todos queriam ser amigos de Lourival. Queriam um pedaço de sua fortuna, de sua influência ou apenas estar ao lado daquele que havia se tornado uma lenda em Salvador. Ele recebia convites para eventos exclusivos, era cumprimentado por pessoas que antes sequer olhavam para ele e via sua vida se transformar em um espetáculo constante.
O dinheiro havia lhe dado tudo: poder, status, mulheres e amigos. Mas no fundo, mesmo com toda a atenção, Lourival começava a sentir um vazio que nem as festas, nem os carros, nem o dinheiro conseguiam preencher. Ele ignorava esse sentimento, jogando mais dinheiro no fogo da sua vida de excessos, acreditando que enquanto continuasse no topo nada poderia dar errado. Mas a verdade é que quanto mais alto ele subia, mais longa seria a queda. Os primeiros sinais de desgaste financeiro começaram a aparecer de forma sutil, quase imperceptível para Lourival. Ele continuava vivendo sua vida como se o dinheiro fosse infinito, mas do outro lado, os números na conta bancária diminuíam rapidamente.
O gerente financeiro designado pelo banco, um homem meticuloso e experiente, começou a notar a velocidade alarmante com que o dinheiro era gasto. Certa tarde, enquanto Lourival estava em sua suíte presidencial saboreando um charuto, o telefone tocou. Era o gerente financeiro. “Senhor Lourival, boa tarde. Como está?”, iniciou o homem. “A melhor impossível, meu amigo. Por que a pergunta?”, respondeu Lourival, quase ofendido.
“Bom, tenho acompanhado os gastos e percebi que a movimentação em sua conta está bastante acelerada. Queria confirmar se está tudo bem e se o senhor precisa de alguma orientação. Sabe, gerenciar uma quantia como a sua pode ser desafiador. Estou aqui para ajudá-lo com o que for necessário.” Lourival soltou uma gargalhada alta que ecoou pela sala.
“Orientação? A única orientação que eu preciso é para a próxima festa. Não se preocupe, meu amigo, eu sei muito bem o que estou fazendo. Dinheiro não é problema.” O gerente hesitou por um momento, escolhendo as palavras com cuidado. “Entendo, senhor. Mas apenas gostaria de lembrá-lo que mesmo grandes fortunas podem ser reduzidas rapidamente sem o devido cuidado.”
“Reduzidas? Você acha que 300 milhões vão acabar?”, interrompeu Lourival, ainda rindo. “Relaxa, eu tô no controle. Não precisa me ligar para falar disso. Vai aproveitar o dia igual eu tô fazendo.” E, sem esperar resposta, Lourival desligou o telefone, jogando-o no sofá ao lado. Para ele, aquilo era apenas uma preocupação desnecessária. Ele tinha dinheiro e isso era tudo o que importava.
Enquanto Lourival gastava todo o seu dinheiro com festas e mimos para mulheres, sua mãe continuava na mesma luta de sempre, enfrentando uma realidade que Lourival parecia ter esquecido. Dona Rita vivia com tão pouco que, se soubesse que apenas uma das quantias que ele distribuía casualmente para as mulheres seria suficiente para sustentar sua casa por meses, seu coração ficaria apertado. Certa noite, enquanto Lourival jantava em um restaurante de luxo com um grupo de amigos e mulheres, ele entregou R$ 5.000 a uma das acompanhantes, como se fosse um simples gesto de gentileza.
“Compra alguma coisa bonita para você, meu amor. Você merece”, disse enquanto ela o enchia de elogios. R$ 5.000,00. Esse era o valor que Dona Rita demorava meses para juntar, trabalhando de domingo a domingo limpando casas e cuidando de crianças que não eram suas. Ela vivia de gorjetas e de pagamentos atrasados, mas ainda assim conseguia enviar R$ 50 ou R$ 100 por mês para o filho, acreditando que ele precisava. Uma noite, depois de um dia particularmente difícil, Dona Rita estava deitada em sua cama improvisada tentando descansar.
Suas costas doíam tanto que ela não conseguia encontrar uma posição confortável. Ainda assim, sua mente estava preocupada com o próximo dia, com as contas, com o que cozinharia com os poucos ingredientes que tinha em casa. Ela se levantou e abriu uma pequena caixa onde guardava o dinheiro que havia separado para enviar a Lourival na semana seguinte.
Era pouco, mas para ela era o suficiente para ajudar. Enquanto isso, no mesmo horário, Lourival estava em uma festa particular na piscina da cobertura. Mulheres mergulhavam e saíam da água rindo, enquanto garçons serviam bebidas caras. Lourival olhava para o relógio caro em seu pulso e sorria. Ele havia distribuído mais dinheiro naquela noite do que sua mãe jamais havia visto na vida. Dona Rita ainda se preocupava com o filho, enquanto ele se cercava de pessoas que só se preocupavam com seu dinheiro.
Apesar das festas e da ostentação, os alertas financeiros começaram a se tornar mais frequentes. O gerente ligou novamente algumas semanas depois, com um tom ainda mais sério. “Senhor Lourival, desculpe insistir, mas precisamos conversar sobre seus gastos. Tenho receio de que se continuar nesse ritmo, sua conta possa atingir níveis preocupantes em breve.” Lourival ouviu a preocupação, mas novamente deu de ombros. “Preocupante? Eu tô gastando porque posso. Não se mete nisso, tá? Eu sei o que faço”, disse, desligando sem nem ouvir o que o gerente tinha mais a dizer.
O dinheiro, porém, começava a desaparecer mais rápido do que Lourival imaginava. As festas, os carros abandonados, as roupas descartadas e os relógios de luxo somavam cifras inimagináveis. Ele ainda não percebia, mas o mundo que construíra estava se desmoronando, e ele estava prestes a sentir o peso de suas decisões. Os sinais de alerta estavam por toda parte, mas Lourival os ignorava. Era mais fácil continuar vivendo a ilusão do que encarar a realidade que se aproximava.
No dia seguinte, Lourival acordou tarde com a luz do sol entrando pelas enormes janelas da suíte presidencial. Ao seu lado, uma mulher deslumbrante, com cabelos loiros espalhados sobre o travesseiro e um sorriso radiante no rosto. Ele não fazia ideia de quem ela era, mas sabia que a tinha conhecido na festa da noite anterior. Isso pouco importava. Ela era jovem, bonita e estava ali se cercando de atenção, tratando-o como o homem mais incrível do mundo.
“Bom dia, meu amor”, disse ela, com sua voz doce, enquanto passava os dedos pelos cabelos de Lourival. “Você é tão incrível. Nunca conheci ninguém como você.” Lourival sorriu, massageando seu ego com aquelas palavras. Ele se levantou, ajustando o roupão de seda que usava, e pediu que o café da manhã fosse servido na suíte. Depois de comerem, a mulher se aproximou novamente, lançando olhares sedutores. “Você sabe, eu vi uma joia tão linda na vitrine de uma joalheria outro dia. Um colar de diamantes. Fiquei pensando como seria maravilhoso ter algo assim”, disse, sua voz carregada de doçura.
Lourival, acostumado a agradar as mulheres que estavam ao seu lado, riu e deu de ombros. “Um colar de diamantes? Isso não é nada. Vamos agora mesmo buscar ele para você.” Eles chegaram à joalheria em grande estilo. Lourival vestia um terno impecável e um de seus relógios mais caros, enquanto a mulher, de braços dados com ele, exibia um sorriso vitorioso. Dentro da loja, os vendedores imediatamente os atenderam com um sorriso educado, reconhecendo que estavam diante de um cliente especial.
“Quero que ela escolha o que quiser”, disse Lourival com um tom confiante enquanto fazia um gesto amplo em direção às vitrines. A mulher, por estratégia ou coincidência, escolheu o colar mais caro que seus olhos viram. Era uma peça espetacular, com diamantes reluzentes, que parecia ter sido feita para uma verdadeira rainha. O vendedor trouxe a peça para o balcão, mostrando cada detalhe. “Esse é um colar único, senhor. O preço é R$ 290.000,00”, explicou o vendedor, enquanto a mulher olhava para Lourival com os olhos brilhando de expectativa.
Lourival não hesitou. Pegou o seu cartão Black e o entregou ao vendedor como se pudesse comprar o mundo inteiro. Ele cruzou os braços observando o vendedor inserir o cartão na máquina e digitar o valor. Mas, para a surpresa de todos, a primeira tentativa deu erro. O vendedor olhou para a máquina, franzindo a testa. “Deve ser a máquina. Isso acontece às vezes. Vou trocar.”
Ele pegou outra maquininha e Lourival, confiante, passou o cartão novamente. Mas, para sua surpresa, o erro se repetiu. Tentaram mais uma vez e novamente nada. “Como assim?”, perguntou Lourival, com seu tom irritado começando a surgir. “Tem algo errado com a sua máquina, meu cartão nunca dá problema.” O vendedor, visivelmente desconfortável, respondeu com cuidado: “Senhor, talvez seja melhor verificar com o banco. Às vezes pode ser um problema no sistema ou alguma falha do seu cartão.”
Lourival, irritado, pegou o telefone na mesma hora e ligou para o gerente financeiro. “O que está acontecendo com o meu cartão? Estou tentando comprar um colar e não está passando. Deve ser problema do banco. Resolva isso agora”, exigiu, com voz firme e impaciente. Do outro lado da linha, o gerente fez uma pausa antes de responder. Ele digitou rapidamente no sistema para verificar o saldo da conta de Lourival.
O silêncio foi interrompido por uma inspiração profunda. “Senhor Lourival, lamento dizer, mas…” “Mas o quê? Fala logo”, Lourival interrompeu, o tom de voz já irritado. “O problema não é com o cartão, é com o seu saldo bancário.” Lourival franziu o cenho, confuso. “Como assim saldo? Quanto tem?” O gerente hesitou antes de responder, escolhendo as palavras com cuidado.
“Senhor, após analisar sua conta, posso confirmar que o senhor possui atualmente apenas R$ 100.000,00 disponíveis.” Por um instante, Lourival não conseguiu processar o que havia ouvido. Cem mil? Ele repetiu, tentando digerir a informação. “Isso só pode ser um engano, eu tinha 300 milhões.” O gerente, com a voz firme, respondeu: “Senhor Lourival, como tentei alertá-lo antes, os gastos excessivos reduziram rapidamente o seu patrimônio.”
O estômago de Lourival revirou. A realidade o atingiu como um soco no estômago. Ele ficou em silêncio e desligou a ligação, incapaz de processar o que havia ouvido. Ele olhou para a mulher ao seu lado que aguardava ansiosa pelo colar, engoliu em seco e disse com um tom hesitante: “Eu… eu não vou conseguir comprar isso hoje. Quem sabe outro dia, minha linda, sinto muito, viu.”
A expressão da mulher mudou na hora: de doce e carinhosa, passou para incrédula e irritada. “Como assim você não pode comprar? Você disse que ia me dar!”, exclamou, com sua voz carregada de desprezo. Lourival tentou explicar, mas, antes que pudesse dizer mais alguma coisa, ela levantou a mão e deu um tapa na cara dele. O som ecoou na loja, deixando todos os presentes em silêncio.
“Inacreditável. Perdi o meu tempo com você”, disse ela antes de sair da loja, pisando firme sem olhar para trás. Lourival ficou parado ali, a mão no rosto e o orgulho despedaçado. Ele olhou ao redor, vendo os olhares curiosos e desconfortáveis dos vendedores e clientes e sentiu uma onda de humilhação que há muito não experimentava. Ele saiu da loja sozinho, caminhando pelas ruas como um fantasma.
“Cem mil”, repetia para si mesmo, sem acreditar. Para onde tinha ido tudo? Ele não sabia, mas uma coisa era certa: não podia deixar ninguém descobrir seu status. Sua reputação, tudo dependia da ilusão de que ele ainda era o mesmo magnata de antes. Com o rosto sério e o coração pesado, ele tomou uma decisão: ninguém podia saber que seu dinheiro estava acabando. Ele precisava manter as aparências, custasse o que custasse.
Lourival continuou vivendo como se ainda fosse o mesmo milionário que um dia acreditou ser intocável. Mesmo com os avisos do financeiro e a humilhação recente na joalheria, ele recusava-se a aceitar a realidade. Em vez disso, redobrou seus esforços para manter as aparências. Vestia os mesmos ternos de grife, frequentava os mesmos restaurantes caros e ainda tentava cercar-se de amigos e mulheres, embora eles começassem a rarear.
As contas começaram a chegar em um volume que ele nunca havia imaginado. Pagamentos do hotel, despesas com festas, joias compradas em parcelas altíssimas e outros luxos acumulavam-se e os saldos bancários encolhiam cada vez mais. Para bancar sua vida extravagante, Lourival tomou uma decisão que nunca imaginou que precisaria. Começou a vender alguns itens. O primeiro foi um dos carros de luxo. Ele escolheu um dos menos usados, pensando que isso lhe daria tempo para reorganizar as finanças.
A venda rendeu uma boa quantia, suficiente para cobrir as contas mais urgentes e manter sua rotina por alguns meses. Com o dinheiro em mãos, Lourival voltou a gastar como se nada tivesse mudado, aliviado por adiar o confronto com a realidade. Mas o alívio foi curto. Em pouco tempo, o dinheiro acabou novamente. As despesas pareciam se multiplicar e Lourival, sem outra saída, vendeu outro carro, depois mais outro.
O processo era sempre o mesmo: uma venda gerava uma ilusão temporária de que tudo estava sob controle, mas o padrão de gastos continuava e o dinheiro evaporava. Conforme seus bens diminuíam, o círculo de amigos e mulheres também começou a se desfazer. As festas já não eram tão grandiosas e as pessoas que antes o cercavam como abelhas em volta de mel começaram a desaparecer.
Lourival ainda tentava manter o charme, prometendo recompensas e noites de luxo, mas as promessas eram vazias e a ausência de dinheiro começava a transparecer. Uma noite, enquanto bebia sozinho no bar de um restaurante caro, percebeu que estava sendo ignorado. Os garçons não se apressavam para atendê-lo e os clientes que antes o cumprimentavam sequer olhavam em sua direção. Ele pediu a conta e, ao ver o valor, sentiu o coração apertar. Era mais do que ele tinha no bolso. Com um sorriso forçado, chamou o gerente e prometeu que voltaria no dia seguinte para pagar.
Saiu dali envergonhado, com passos apressados, percebendo que sua fachada começava a ruir. As coisas se agravaram rapidamente. Lourival já não tinha mais carros para vender, suas roupas começaram a parecer gastas, pois não tinha dinheiro para comprar novas. Ele ainda tentava se manter no hotel, mas as dívidas acumulavam-se em um ritmo assustador. Tentou pedir crédito ao banco, mas seu nome já estava manchado pelos constantes atrasos e pela falta de garantias.
Uma manhã, foi chamado à recepção do hotel. O gerente, que antes o tratava como um rei, estava agora sério e direto: “Senhor Lourival, precisamos conversar. Suas dívidas com o hotel chegaram a um ponto insustentável. Não podemos continuar hospedando o senhor sem pagamento.” Lourival tentou argumentar, mas sabia que não tinha mais saída. Seu último carro foi vendido para abater parte da dívida, mas o valor não foi suficiente para cobrir tudo.
Finalmente, o hotel deu-lhe um prazo de dois dias para sair. Naquela noite, Lourival ficou sentado na sala da cobertura, olhando para a cidade através das janelas. Lembrou-se de como chegou ali, cheio de sonhos de vingança e ostentação, e de como acreditava que o dinheiro nunca acabaria. Agora, tudo o que tinha era uma maleta vazia e um coração pesado. Dois dias depois, Lourival deixou o hotel a pé, carregando apenas uma mochila com algumas roupas e 100 reais no bolso. Caminhou pelas ruas sem rumo, sentindo o calor implacável do sol sobre sua cabeça.
O homem que um dia fora um milionário, que ostentava carros, roupas e festas, agora estava de volta à estaca zero. Talvez pior. Sem amigos, sem dinheiro, sem rumo, Lourival caminhava pelas ruas de Salvador como um fantasma. O peso de suas escolhas o acompanhava e ele sabia que sua queda não era culpa de ninguém além dele mesmo. Lourival retornou à casa de sua mãe no final da tarde, após horas de caminhada.
Ele parou em frente ao portão de ferro enferrujado e olhou para a casa que parecia ainda mais velha e desgastada do que quando ele a havia deixado anos atrás. As paredes de tijolos aparentes, o telhado cheio de buracos e o quintal tomado por mato alto eram um reflexo da negligência do tempo. Ele abriu o portão e entrou, sentindo um misto de nostalgia e vergonha. Tudo estava exatamente como ele havia deixado.
A mesa de madeira com as marcas do tempo ainda ocupava o pequeno espaço da sala e o sofá afundado parecia ainda mais desconfortável do que antes. A casa estava vazia e silenciosa, mas para Lourival aquele era o som de sua nova realidade. Sem dinheiro, sem amigos e sem família por perto, Lourival começou a reconstruir sua vida a partir do nada. Ele encontrou trabalho como flanelinha nas ruas da cidade, ganhando algumas moedas por dia para vigiar os carros estacionados. O dinheiro era pouco, mal dava para comprar comida, mas ele fazia o possível para economizar. E aos poucos tentava consertar a casa.
Era uma luta constante. Cada tijolo, cada saco de cimento comprado era fruto de um dia inteiro de trabalho sob o sol escaldante de Salvador. Com o passar dos anos, Lourival casou-se com uma vizinha da comunidade, uma mulher simples e trabalhadora que via nele um homem arrependido e disposto a mudar. Eles tiveram uma filha e, apesar de todas as dificuldades, a chegada da criança trouxe uma nova luz para sua vida. Ele sabia que não poderia mudar o passado, mas estava determinado a fazer o possível para construir um futuro, mesmo que humilde.
Enquanto isso, em São Paulo, Dona Rita lutava contra o peso da idade e da saúde debilitada. Já não conseguia trabalhar como antes e a falta de condições obrigou-a a retornar para sua casa em Salvador. Quando chegou, encontrou um lar ainda em construção, cheio de imperfeições, talvez ainda mais deteriorado do que quando ela o havia deixado. Mas para ela, aquele era o único lugar onde podia descansar e viver seus últimos anos com dignidade, mesmo que de forma precária. Lourival nunca teve coragem de contar à mãe que um dia havia ganhado na loteria, muito menos que foi milionário e que perdeu tudo em luxos e excessos.
Não foi uma escolha consciente. Foi o peso da vergonha e o desejo de enterrar o passado. Ele sabia que admitir a verdade significaria expor sua irresponsabilidade diante de quem realmente se sacrificou por ele. Dona Rita, mesmo debilitada e alheia ao que havia acontecido, tentava ajudar como podia. Cuidava da neta enquanto a nora trabalhava, lavava roupas e preparava as refeições simples com o que havia disponível.
Seus dias eram silenciosos, marcados por lembranças e reflexões. Mas ela não reclamava. Para ela, estar com o filho e a neta era suficiente. O destino, no entanto, tinha planos de trazer à tona os segredos do passado de Lourival. A história dele, de homem que ganhou milhões na loteria e perdeu tudo, começou a se espalhar pela cidade. Os detalhes de sua trajetória chegaram aos ouvidos da imprensa e logo repórteres começaram a aparecer na casa humilde. A curiosidade sobre o homem que havia desperdiçado uma fortuna em festas e luxos enquanto a mãe vivia em condições precárias era irresistível.
Quando os repórteres chegaram, Lourival não hesitou em contar sua história. Ele falava com naturalidade, sem quase nenhum traço de arrependimento ou remorso. “Foi uma fase boa, aproveitei a vida, fiz o que quis fazer”, dizia, rindo enquanto gesticulava com confiança. Os jornalistas perguntavam sobre os gastos extravagantes, as mulheres, os carros e os hotéis, e Lourival respondia como se estivesse relembrando uma aventura gloriosa. Ele não mencionava a mãe ou a família, apenas se concentrava nos momentos de ostentação e poder que vivera. Dona Rita assistia à cena à distância, encostada no batente da porta, com o pano de prato nas mãos. Ela ouvia cada palavra do filho e, a cada frase, sentia o peso da realidade cair sobre si. Nunca soubera que Lourival havia ganho tanto dinheiro. Nunca imaginou que, enquanto ela trabalhava até o limite de suas forças em São Paulo, ele gastava milhões em festas e futilidades.
Uma lágrima solitária rolou por seu rosto. Ela tentou enxugá-la rapidamente. “Que vergonha”, murmurou, mas os olhos a traíam. Ela sentiu uma mistura de decepção, tristeza, mas também uma incompreensão profunda. Como o filho que ela tanto ajudou, mesmo na dificuldade, nunca pensou em retribuir? Como ele pôde viver tanto tempo sem sequer lembrar dela? Lourival, no entanto, não percebeu o olhar da mãe. Continuou a entrevista como se nada mais importasse. Os jornalistas tiraram fotos dele no quintal e pediram que mostrasse a casa humilde onde vivia agora.
Ele posava como se fosse um personagem, sem se importar com o julgamento de suas ações passadas. Quando os repórteres foram embora, Dona Rita voltou para dentro de casa, ainda segurando o pano de prato. Ela não disse nada a Lourival, guardou seus pensamentos para si, como sempre fazia, e continuou sua rotina silenciosa. Para ela, a única certeza era que a vida seguiria simples e dura. Assim via um rei. Em suas mãos agora, vivia com quase nada. O dinheiro se foi, junto com os amigos, as mulheres e os luxos que ele tanto ostentou.
Sua renda agora vinha de um auxílio-doença, um valor ínfimo perto daquilo que ele já possuiu. Com esse dinheiro, ele comprava o básico para sobreviver, enquanto continuava seu trabalho como flanelinha. As roupas caras, os relógios de luxo, os carros importados, tudo se foi. Restou apenas a lembrança, que para Lourival parecia mais um sonho distante do que uma realidade que um dia foi sua. E você, o que faria se ganhasse 300 milhões de reais? Deixe sua resposta nos comentários.
E antes de encerrarmos, gostaria de mandar um muito obrigado pelo carinho de vocês. Um grande abraço e até a próxima.