“Ele disse que tiros acidentais acontecem, mas ficou em silêncio quando perguntei se já tinha visto alguém dar dois tiros por acidente”: A farsa dos carros usados para transportar o corpo de Berenice Ramos.
A investigação em torno do trágico desaparecimento e morte de Berenice Ramos ganhou desdobramentos estarrecedores com a confirmação de novos elementos periciais e o mapeamento detalhado dos passos dos suspeitos. O que inicialmente parecia uma tragédia circunscrita a um momento de fúria e um único deslocamento revelou-se uma trama muito mais complexa e friamente articulada. A revelação de que não apenas um, mas dois automóveis foram utilizados na dinâmica pós-delitiva reacendeu questionamentos profundos sobre o real papel de cada um dos envolvidos: Eliane, seu companheiro Irimar e seu sobrinho Magno. Ao analisar os laudos de necropsia, as análises de sangue e o rastreamento veicular, a polícia e os analistas do caso depararam-se com inconsistências gritantes entre os depoimentos prestados e a frieza das provas materiais.

A pista da caminhonete e a farsa na oficina mecânica
Uma das frentes mais importantes da investigação policial concentrou-se no rastreamento de uma caminhonete Nissan Frontier, veículo pertencente a Eliane e apontado como a cena primária do crime. Consultas detalhadas aos sistemas de monitoramento viário revelaram que o automóvel circulou de maneira atípica entre os municípios de Taubaté e Jacareí, no interior de São Paulo, entre os dias dois e oito de julho. Essa movimentação contínua, ocorrida até oito dias após o desaparecimento da vítima, chamou a atenção dos investigadores por envolver o principal transporte associado ao homicídio.
Quando os mandados judiciais de busca e apreensão foram cumpridos, os peritos constataram que a lataria da caminhonete apresentava sinais claros de reparos recentes. Inicialmente, Irimar Castilho, companheiro de Eliane, negou que o veículo tivesse passado por qualquer intervenção. No entanto, ao ser confrontado com os registros das câmeras de segurança, ele recuou e admitiu que ele e Eliane haviam levado a Frontier a uma oficina em Jacareí.
Diligências no local identificaram o estabelecimento Martelinho de Ouro, cujo proprietário confirmou que a caminhonete permaneceu sob seus cuidados entre os dias dois e sete de julho para a reparação de perfurações de projéteis. Para evitar qualquer desconfiança do funileiro, Irimar e Eliane mentiram para o profissional, afirmando que ambos eram policiais e que as perfurações na lataria haviam sido provocadas por disparos acidentais ocorridos dentro do veículo.

A análise das imagens de monitoramento da muralha viária mostrou com grande nitidez que a caminhonete já trafegava com uma avaria visível na lateral direita, no lado do passageiro, poucas horas após o desaparecimento de Berenice, quando o carro seguia em direção ao Estado do Rio de Janeiro. Esse dano coincidia perfeitamente com os reparos executados posteriormente na oficina de Jacareí, criando um elo irrefutável entre o trajeto do crime e a farsa montada para esconder as marcas de tiro.
O segundo veículo e os rastros biológicos encontrados
Se a presença da Nissan Frontier já era suficiente para desenhar o cenário da agressão, a entrada de um segundo automóvel na cena trouxe uma camada ainda mais sombria ao caso. O veículo em questão é um Renault Duster Oroch, pertencente a Irimar. O monitoramento veicular registrou que a Oroch realizou praticamente o mesmo itinerário percorrido pela Frontier dias antes, deslocando-se para a região de Paraty e Angra dos Reis entre os dias quatro e cinco de julho, retornando no sexto dia após o crime.
Para a equipe policial, essa coincidência de rotas e datas em uma região tão específica não possui caráter casual. Trata-se de um indicativo claro de ações posteriores ao homicídio, voltadas especificamente para a supressão de vestígios e a manipulação do local de ocultação do cadáver. Exames periciais minuciosos realizados pelo Instituto de Criminalística em ambos os automóveis utilizaram reagentes químicos e cães farejadores. O resultado foi estarrecedor: os cães e o luminol marcaram a presença de sangue no interior da Nissan Frontier e também na Renault Duster Oroch.

Enquanto a caminhonete de Eliane continha marcas intensas na cabine, a Oroch de Irimar apresentou vestígios biológicos no banco do passageiro, pequenos respingos no banco traseiro e uma confirmação inequívoca de material sanguíneo humano no interior da caçamba. Esse detalhe gera enorme perplexidade, pois a Oroch só viajou para a região do crime dias depois que a Frontier já estava na oficina. A presença de sangue humano na caçamba do carro do companheiro de Eliane sugere que a vítima ou seus vestígios foram transportados de forma secundária.
Testemunhos cruciais e as narrativas conflituantes
O Inquérito Policial reuniu diversos depoimentos, mas duas testemunhas trouxeram informações vitais sobre os momentos que antecederam o desaparecimento de Berenice. Suzan, companheira de Magno, afirmou ter presenciado uma acalorada discussão no Rancho do Cedo, restaurante mantido por Eliane. Ela relatou ter visto Magno passando rapidamente dirigindo a Nissan Frontier ao lado de Eliane, que se mostrava extremamente exaltada e xingava Berenice. Com medo de se envolver no conflito, Suzan entrou para o trabalho, que fica quase em frente ao restaurante.
Por sua vez, Ana Rosa, mãe de Magno e irmã de Eliane, ofereceu um relato que começou a desenhar a dinâmica daquela tarde do dia trinta de junho. Ela contou que o filho recebeu uma ligação telefônica no meio da tarde e em seguida dirigiu-se ao restaurante. Segundo o que Magno lhe disse na ocasião, ele pretendia usar o carro para levar Berenice ao hospital após a briga com Eliane. Contudo, no momento em que ele saía com a vítima, Eliane teria entrado no banco de trás da caminhonete, alegando que precisava ir junto para sacar o dinheiro que devia a Berenice.
O próprio Irimar, ao prestar depoimento, buscou se distanciar dos fatos. Ele declarou que no dia trinta de junho chegou em casa no final da tarde e não encontrou Eliane nem a caminhonete, afirmando que a companheira só retornou após as vinte e duas horas. Ele sustentou que só soube dos tiros no dia dois de julho, quando foram a Jacareí, ocasião em que Eliane teria alegado ter feito dois disparos acidentais com uma pistola não automática.
Questionado pelo delegado se já havia visto alguém disparar duas vezes acidentalmente com uma arma daquele tipo, Irimar silenciou. Em seguida, ele tentou criar uma narrativa alternativa para desviar o foco das investigações, insinuando o envolvimento de um rapaz com quem Berenice teria tido um breve relacionamento no passado. A polícia, contudo, descartou a versão por falta de sustentação probatória. Paralelamente, áudios gravados por José Carlos, filho de Berenice, confirmaram que ele sabia do clima de tensão entre a mãe e Eliane e que havia aconselhado Berenice a pegar a quantia de novecentos reais e ir embora.
A confissão do sobrinho e as contradições de horário
Ppressionado pelas provas acumuladas, Magno dos Santos Neri Barbosa, conhecido como Nei, foi ouvido novamente e apresentou uma versão detalhada, porém repleta de contradições. Ele alegou que no dia trinta de junho passou em frente ao Rancho do Cedo, ouviu a discussão e parou para ver o que acontecia. Diante da briga, Eliane teria pedido a ele que pegasse a chave da caminhonete na casa dela, ao lado do restaurante, para levar Berenice até o centro de Ubatuba.
Magno disse ter colocado as malas de Berenice na caçamba da Frontier. Berenice sentou-se no banco do passageiro dianteiro. Quando Magno se preparava para dar a partida, Eliane teria ingressado repentinamente no banco traseiro, do lado esquerdo, atrás do motorista, insistindo em ir junto para sacar o dinheiro da vítima. Os três saíram do bairro Puruba em direção ao centro da cidade. Segundo o depoimento do sobrinho, a discussão entre as duas mulheres recomeçou na altura do bairro Purubá.
Ainda de acordo com Magno, Eliane, posicionada atrás dele, sacou a arma e efetuou dois disparos contra Berenice. Em seguida, a tia teria ordenado que ele mantivesse a caminhonete na rodovia e seguisse em direção ao Estado do Rio de Janeiro. Ele alegou ter acreditado que Berenice já estivesse morta naquele instante. Ao passarem por Paraty, Eliane o mandou sair da rodovia principal e entrar em uma estrada secundária, ordenando que ele parasse em determinado ponto para arremessar o corpo da vítima em uma ribanceira. Na volta, Eliane teria jogado as malas de Berenice em uma caçamba de lixo na altura de Paraty.
Magno declarou que eles retornaram ao restaurante por volta das onze horas da noite. Esse horário desmentiu diretamente o depoimento de Irimar, que afirmava que a mulher havia chegado às dez. Magno também negou ter limpado o sangue da caminhonete e tentou classificar a tia como uma pessoa extremamente agressiva e capaz de atitudes extremas.
Análise da necropsia e a incompatibilidade da trajetória
Apesar da confissão de Magno tentar desenhar Eliane como a única executora atuando a partir do banco traseiro, os laudos periciais e o exame de necropsia revelaram que essa versão é fisicamente improvável. No interior da Nissan Frontier, o perito identificou uma enorme quantidade de sangue acumulada no banco do passageiro dianteiro, espalhando-se pelo encosto de cabeça, pela base do assento, pelo cinto de segurança e por todo o assoalho e tapetes do lado direito.
A trajetória dos disparos e a disposição do sangue entram em choque direto com o relato de Magno. Do ponto de vista da balística, se Eliane estivesse sentada no banco traseiro esquerdo, disparando em diagonal contra a vítima no banco dianteiro direito, seria quase impossível que a trajetória dos projéteis gerasse o padrão de perfuração e os danos identificados na porta do passageiro e no teto do veículo. A física mostra que a munição não faz curvas em ângulos que sustentem essa hipótese.


A configuração das marcas sugere que a atiradora estava na verdade no banco da frente, ao lado da vítima, ou que houve uma dinâmica de contenção física. A análise da necropsia indica que Magno provavelmente estava no banco traseiro segurando a vítima para impedir que ela se defendesse ou gritasse, enquanto Eliane efetuava os disparos a partir de uma posição frontal ou lateral direta.
O corpo de Berenice apresentava quatro perfurações. Pela análise corporal, é provável que essas lesões tenham sido causadas por apenas um ou dois disparos transfixantes, em que o projétil atingiu o cotovelo da vítima em posição de defesa, transpassou a região torácica e saiu pelas costas. A grande quantidade de sangue no assoalho da caminhonete comprova que Berenice sofreu uma hemorragia severa enquanto ainda possuía atividade vital e circulação sanguínea no interior do veículo.
O mistério do corpo com terra e o revezamento entre os carros
O ponto de maior perplexidade da investigação reside no estado em que o corpo de Berenice foi encontrado e na presença de sangue no segundo automóvel. O laudo necroscópico apontou que o cadáver da vítima estava completamente coberto de terra. Como o corpo foi localizado preso aos galhos de uma árvore em uma ribanceira de quase noventa graus de inclinação, a presença maciça de solo incrustado na vítima desafia a lógica de uma simples queda após ser arremessada da pista.
Surge então a forte hipótese de que o corpo de Berenice tenha sido enterrado inicialmente em um local primário, sob a terra, e posteriormente removido. É nesse contexto que a presença do Renault Duster Oroch de Irimar ganha uma dimensão crucial. Sabe-se que o sangue para de circular após a morte e só flui intensamente em vida. Contudo, o fluido cadavérico e o material biológico em deterioração continuam a impregnar tecidos e superfícies.
O fato de a caçamba da Oroch apresentar marcas expressivas de sangue humano e sinais de escorrimento, associados ao trajeto realizado por Irimar nos dias quatro e cinco de julho, indica que o segundo veículo pode ter sido utilizado para desenterrar e transportar o corpo do local de sepultamento primário até o despenhadeiro em Paraty. Essa manobra teria sido executada para evitar que os investigadores encontrassem uma covas clandestina que pudesse vincular os suspeitos a outros ilícitos.
A presença de dois automóveis em momentos distintos com volumes tão altos de vestígios biológicos desmorona a tentativa dos envolvidos de classificar a ação como um ato isolado. Enquanto a Nissan Frontier foi a cena primária do ataque e da morte, a Duster Oroch funcionou como a ferramenta de translado e remanejamento do cadáver. Diante do quadro apresentado, a Justiça avalia as responsabilidades penais: enquanto Eliane e seu sobrinho Magno enfrentam acusações diretas pelo homicídio qualificado, as condutas atribuídas a Irimar seguem sob minuciosa análise pericial para determinar a exata extensão de sua participação no transporte e na tentativa de encobrir o crime.