“Ela começou a xingar e entrou em luta corporal”: A trama macabra e chocante que uniu um ex-vereador e um pedreiro no brutal assassinato de uma esposa em Piên.
A tranquilidade bucólica de Piên, um município acolhedor com menos de treze mil habitantes situado na região metropolitana de Curitiba, no estado do Paraná, foi estilhaçada de forma irreversível em um dia que ficaria para sempre marcado na memória de seus moradores. O que inicialmente parecia ser mais um caso de violência doméstica em uma chácara isolada, revelou-se, à medida que a polícia civil aprofundava as investigações, uma teia intrincada e sombria de traição conjugal, segredos íntimos guardados a sete chaves, interesses financeiros mesquinhos e uma brutalidade que beirava o indescritível. A perda violenta de Josicleire, uma mulher que dedicou mais de três décadas de sua vida a um casamento que considerava sólido, escancarou as portas para um dos crimes mais torpes e comentados da história recente da segurança pública paranaense. A associação macabra entre o marido da vítima, o ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal da cidade, Leonildes Maahs, e o pedreiro Luan Fabiano Bachel, que prestava serviços na propriedade do casal, chocou não apenas pela força letal empregada com uma marreta, mas pela motivação torpe que guiou a execução: o desejo de ocultar um tórrido caso extraconjugal entre os dois homens e, paralelamente, resgatar uma apólice de seguro de vida cujo valor irrisório jamais poderia justificar a supressão de uma vida humana.

O dia que silenciou a chácara e alertou a vizinhança
A cronologia do horror teve início no dia onze de fevereiro de dois mil e vinte e cinco. A chácara onde Leonildes e Josicleire residiam, normalmente um local de paz e de rotina campesina, tornou-se o palco de uma cena estarrecedora. Moradores de propriedades vizinhas, acostumados com a serenidade do campo, foram abruptamente retirados de sua normalidade por ruídos que gelaram o sangue. Uma das vizinhas do casal, cujo testemunho foi fundamental para alertar as autoridades, descreveu com riqueza de detalhes os momentos de terror que ecoaram até sua residência. Segundo seu relato emocionado, os sons que emanavam da casa de Josicleire não eram simples gemidos de dor, mas sim gritos angustiantes de puro desespero, acompanhados de pancadas secas e surdas, características do impacto de um objeto de madeira pesada, que sugeriam uma luta corporal desigual e desesperada pela sobrevivência. O acionamento imediato da polícia militar levou as viaturas ao local, onde o corpo de Josicleire foi encontrado sem vida, apresentando sinais evidentes de violência extrema, incompatíveis com qualquer cenário que não fosse um homicídio doloso e cruel.
O álibi fabricado e o áudio forjado do pedreiro
Nas horas tensas que se seguiram à descoberta do cadáver, Leonildes Maahs, o ex-vereador conhecido e respeitado nos corredores da política local, apresentou-se às autoridades policiais com um álibi aparentemente inabalável. Com a frieza típica daqueles que julgam estar acima de qualquer suspeita, ele declarou que no exato momento em que sua esposa estava sendo morta, ele se encontrava nas dependências da Câmara Municipal de Piên, imerso em suas obrigações políticas. Para dar ainda mais robustez à sua narrativa defensiva, Leonildes apresentou aos investigadores um áudio estarrecedor que teria recebido pelo aplicativo de mensagens do pedreiro Luan Fabiano Bachel, que realizava obras na chácara. Na gravação de voz, o trabalhador braçal assumia, de forma aparentemente espontânea, a autoria exclusiva do feminicídio. Luan alegava no áudio que, estando sob forte efeito de entorpecentes, havia se desentendido com Josicleire ao exigir dinheiro para sustentar seu vício. Segundo sua versão, diante da recusa da mulher, ela teria pulado em sua direção, provocando uma reação desproporcional na qual ele utilizou um martelo para matá-la. A gravação terminava com um pedido de desculpas a Leonildes, justificando o ato hediondo com a necessidade premente de comprar drogas.
A tecnologia como aliada: câmeras desmontam a versão oficial
A narrativa construída cuidadosamente pelo viúvo começou a desmoronar como um castelo de cartas quando os investigadores da Polícia Civil decidiram recorrer aos recursos tecnológicos disponíveis para validar o suposto álibi. A análise minuciosa das imagens capturadas pelo circuito interno de segurança da Câmara Municipal de Piên revelou uma discrepância temporal fatal para a defesa de Leonildes. As gravações atestaram, sem sombra de dúvida, que o ex-vereador só adentrou o prédio legislativo às quatorze horas e cinquenta e cinco minutos, ou seja, mais de uma hora após o momento estimado pelo perito legista para o óbito de Josicleire. Aprofundando ainda mais a quebra do álibi, as câmeras instaladas na própria chácara do casal registraram Leonildes deixando a propriedade rural às quatorze horas e vinte minutos, exatos cinquenta minutos após o crime ter sido consumado. Com essas provas materiais irrefutáveis em mãos, a hipótese de que o pedreiro agira de forma isolada em um surto psicótico induzido por drogas perdeu completamente a credibilidade. A polícia passou a trabalhar com a convicção de que marido e amante haviam orquestrado a morte de forma premeditada e conjunta, visando eliminar o obstáculo que Josicleire representava para ambos.
Segredo de alcova: a revelação de uma relação extraconjugal e o flagrante
A linha de investigação inicial, que apontava para um crime motivado puramente pela ganância de receber uma apólice de seguro de vida no valor de dez mil reais — uma quantia ínfima diante da atrocidade cometida —, sofreu uma guinada dramática e chocante durante os interrogatórios. Encurralado pelas evidências inegáveis de sua presença na cena do crime, Leonildes Maahs decidiu alterar sua estratégia defensiva e fez uma revelação que estarreceu os investigadores e a sociedade local: ele confessou sua homossexualidade e admitiu manter, às escondidas, um caso amoroso intenso com o pedreiro Luan Fabiano Bachel. Segundo a nova versão apresentada pelo ex-vereador e por seu advogado de defesa, o estopim da tragédia não teria sido financeiro, mas sim passional e de foro íntimo. O marido alegou que Josicleire teria flagrado ele e o pedreiro em um momento de extrema intimidade dentro da chácara. Dominada pela fúria da traição e pela dor da descoberta, a esposa teria ameaçado revelar o segredo de alcova a toda a cidade, o que mancharia irremediavelmente a reputação do político conservador. De acordo com a defesa, durante essa discussão acalorada e cheia de xingamentos mútuos, Josicleire teria entrado em confronto físico direto com Luan, momento em que o pedreiro, agindo isoladamente, desferiu os golpes fatais com a marreta, enquanto Leonildes permanecia em estado de choque e paralisia, incapaz de impedir o assassinato da mulher que cuidava de sua saúde há três décadas.
As provas ocultas no tanque e o passado sombrio dos acusados
A tese de que Leonildes foi um mero espectador inerte e assustado da morte de sua esposa logo foi derrubada por depoimentos adicionais. A mesma vizinha que ouviu os gritos de socorro relatou ter avistado, momentos após o silêncio fúnebre tomar conta da casa, o ex-vereador e o pedreiro lado a lado, com as roupas e as mãos sujas de sangue, lavando-se apressadamente em um tanque nos fundos da propriedade. Diante dessa evidência macabra de coautoria, a prisão de Leonildes foi decretada no dia doze de fevereiro. Luan Fabiano Bachel tornou-se um foragido da Justiça, dando início a uma caçada policial que culminaria na sua prisão dois dias depois, em quatorze de fevereiro, na cidade catarinense de São Bento do Sul. Enquanto a dupla aguardava o julgamento nas celas do sistema prisional, a polícia continuou vasculhando a cena do crime. Em três de fevereiro, peritos encontraram no fundo de um tanque da chácara o equipamento que armazenava as imagens de segurança, na tentativa frustrada da dupla de destruir as provas, além da marreta ensanguentada utilizada para esmagar a vida de Josicleire. A apuração também trouxe à luz o passado pregressos dos envolvidos. Leonildes já havia frequentado o noticiário policial em dezembro de dois mil e dezesseis, quando foi preso preventivamente sob a suspeita de envolvimento no homicídio do prefeito eleito de Piên, Loir Dreveck, que foi metralhado dentro de seu carro. Embora ele e o ex-prefeito Gilberto Dranka tenham sido inocentados pelo júri popular seis anos depois, a mancha em sua biografia já estava presente. O pedreiro Luan, por sua vez, carregava o estigma de uma denúncia recente, formalizada no ano de dois mil e vinte e três, pelo crime de maus-tratos a animais de forma cruel.

O veredito do Tribunal do Júri e o fim trágico de uma família
O desfecho judiciário desse enredo intrincado e revoltante ocorreu no dia dezenove de setembro de dois mil e vinte e cinco, quando a comarca de Rio Negro, município sede que abrange os casos de Piên, sediou o aguardado Tribunal do Júri. Durante a sessão, que atraiu a atenção de curiosos e familiares em busca de um encerramento para o luto prolongado, a acusação do Ministério Público conseguiu convencer o corpo de jurados de que o crime não foi fruto do acaso ou da atitude isolada de um homem drogado. A dinâmica aceita pelo júri popular foi a de uma execução cruel e conjunta, na qual um dos agressores segurou a indefesa Josicleire por trás, limitando qualquer possibilidade de defesa, enquanto o outro desferia os golpes mortais com a ferramenta de construção. Diante da comprovação das qualificadoras de motivo torpe, meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima, os jurados não hesitaram em condenar ambos os réus. O ex-vereador Leonildes Maahs, marido que deveria ser o protetor do lar, recebeu uma sentença duríssima e exemplar de quarenta anos de prisão em regime inicial fechado. O pedreiro e amante, Luan Fabiano Bachel, também sentiu o rigor da lei ao ser sentenciado a trinta e três anos e quatro meses de reclusão. As pesadas condenações, embora não possam restituir a vida de Josicleire nem apagar o trauma indelével causado à vizinhança pacata de Piên, enviaram uma mensagem inequívoca da Justiça paranaense: não importa o status social, a trajetória política ou a tentativa elaborada de encobrir motivações sórdidas por trás de paixões clandestinas ou pequenas ganâncias financeiras. A verdade, por mais que os criminosos tentem afogá-la no fundo de um tanque d’água ou em álibis de papelão, sempre encontrará um caminho para vir à tona e exigir a devida punição para aqueles que, em nome de um amor tórrido, esquecem o valor sagrado da vida humana.