ELA CASOU COM PASTOR E DESCOBRIU UM M0NSTR0
O resto
A vida deles até que era bem tranquila. Na verdade, quem os via de fora imaginava que eles eram um casal feliz e de fé, já que eles estavam até iniciando uma obra de um templo a cerca de 100 metros da casa onde moravam, uma igreja grande que estava bem no começo da construção, apenas com as paredes levantadas. No entanto, cerca de dois anos antes do caso, um incidente fez Auriscleia mudar a visão que tinha sobre Lino. Após um acidente de carro que eles sofreram, em que o carro onde o casal e as duas crianças estavam capotou, Natalino simplesmente não ajudou a família. Cléia disse que depois do acidente ela perdeu o encanto pelo marido, uma vez que após o capotamento do carro, Natalino se preocupou apenas com ele. Ela é que teve que lutar pela vida dela e das crianças sozinha, porque o carro ficou totalmente destruído.
Depois de perceber o quanto o marido era egoísta, Cléia passou a olhar para Lino com outros olhos e ficar insatisfeita com a relação. No entanto, aquele era só o primeiro indício do que viria a acontecer no futuro. Um ano após o acidente, Cléia estava decidida a conquistar a sua própria independência para não depender tanto do marido e nem ficar tão à mercê das decisões dele. Por isso, ela se matriculou no ensino de jovens e adultos, o EJA, e estava no terceiro módulo. No entanto, Natalino a proibiu de continuar estudando, dizendo que não era para ela frequentar mais o curso e que, se continuasse, ela ficaria sem o seu celular e que não poderia visitar mais a sua mãe. Sem perceber, Auriscleia tinha entrado em um relacionamento abusivo, mas mesmo assim ela continuava sonhando com a própria independência.
Poucos meses antes do caso, ela se inscreveu na CNH Social e fazia planos para comprar uma motocicleta e conseguir ir e voltar das aulas sozinha com mais liberdade. Porém, quanto mais ela fazia planos e criava essa independência, mais o pastor Lino a proibia de sair e de falar com as pessoas. Além disso, ele passou a ameaçá-la e a agredi-la psicológica e fisicamente. A violência começou a fazer parte da vida de Cléia, já que ela vivia sob constante controle do marido, que falava que se ele descobrisse que ela queria se separar dele, ele tiraria a vida do filho mais novo dela e que se ela fugisse, ele tiraria a vida da mãe dela também. A rotina de Cléia era basicamente cuidar dos filhos, da casa, cuidar da sua mãe que estava doente e planejar o seu futuro, temendo que o seu marido não a deixasse viver.
Só que Auriscleia ainda não sabia sobre o terrível passado do pastor Lino. Conhecido na comunidade por ser um pastor evangélico, Natalino já tinha vários antecedentes criminais e condenações por crimes hediondos. E por trás daquela fachada religiosa havia um homem violento e perigoso que nem formação religiosa tinha. Na verdade, Natalino era um homem foragido da Justiça, que tinha sido condenado a 35 anos de prisão por três crimes diferentes. E após a Justiça conceder o regime semiaberto para ele, ele descumpriu as medidas cautelares e fugiu para Capixaba, onde se estabeleceu e fingiu ser pastor. Agora vamos saber mais sobre esses crimes que ele cometeu.
O primeiro desses casos aconteceu há 25 anos, no dia 3 de setembro de 2000, na zona rural de Senador Guiomard, a cidade natal do falso pastor. A vítima se chamava Silene de Oliveira Marcílio e foi uma sobrinha dela quem contou os detalhes do caso. Logo após o crime contra Auriscleia, a sobrinha de Silene disse que Natalino era considerado um integrante da família deles e o tio de Silene ajudava Lino desde criança. E ele sempre fazia visitas à família, mantendo amizade com os tios e os primos de Silene. Em setembro daquele ano, houve um jogo de futebol em Senador Guiomard do qual Lino participou e, após o fim da partida, ele decidiu beber e usar entorpecentes. Ele ficou descontrolado e começou uma briga no campo, que foi apartada pelo primo, pelo irmão e pela tia de Silene, que disseram para ele ir para casa dormir.
No entanto, Lino não seguiu para casa e sim foi até a residência de Silene, que era uma jovem que estava grávida de dois meses e tinha dois filhos pequenos. Ele aproveitou que Silene estava sozinha em casa com os filhos, já que o seu marido tinha saído para a roça. Ele chegou na casa e tentou atacar a filha mais nova dela, de 2 anos. Quando Silene tentou defender a filha, ele soltou a criança e começou a desferir golpes com uma faca contra Silene. E só na parte das costas foram mais de 16 golpes. As duas crianças se esconderam atrás de uma moita e, com Silene já sem vida, Natalino iniciou uma relação com ela, cometendo aquela atrocidade na frente das duas crianças e depois ele abandonou o corpo no mato.
Depois do crime contra Silene, Natalino foi embora da zona rural em direção à cidade onde morava uma tia dele. Ela percebeu que as roupas do sobrinho estavam sujas de sangue e desconfiou que algo tinha acontecido. No entanto, ele apenas tomou um banho e dormiu como se nada tivesse acontecido. Já o marido de Silene chegou em casa apenas no outro dia. Não encontrou a mulher nem os filhos e começou a desconfiar do sumiço deles. Só três dias depois, após buscas em hospitais e na vizinhança, as duas crianças saíram do esconderijo e contaram o que tinha acontecido. Todos ficaram perplexos com o relato e o marido de Silene chamou todo mundo para ajudar a encontrar o corpo dela, localizando-o em um estado deplorável.

E as crianças permaneceram escondidas com a mãe sem vida na mata por quase dois dias. Natalino foi preso no mesmo dia do encontro do corpo e havia muitas provas contra ele, como as roupas sujas de sangue e também a lateral das unhas sujas. Segundo a sobrinha de Silene, Lino nunca demonstrou arrependimento pelo que fez. Ela contou: “Quando ele saiu, ainda disse que ia tirar a vida da minha mãe porque ela tinha ido depor, mas ficou só ameaçando. Ninguém chegou a ver ele depois. Só ouvimos os comentários depois que ele tinha ceifado a vida de um rapaz e sumido. Depois ficamos sabendo que ele era pastor e agora essa tragédia”, lamentou a sobrinha após o crime contra Auriscleia.
A sobrinha ainda descreveu Natalino como frio, calculista e que a possessividade dele chegava ao extremo. Ela disse que ele era um monstro, um lobo em pele de cordeiro que desrespeitou o corpo de Silene enquanto os filhos pequenos dela assistiam à cena. Pelo crime contra Silene, Natalino foi condenado a 27 anos de prisão, sendo 19 deles por ter tirado a vida dela e oito pelos atos não consentidos. No entanto, Lino cumpriu apenas 6 anos em regime fechado, sendo posteriormente beneficiado com a progressão de pena por bom comportamento. À época da condenação, o crime ainda não podia ser enquadrado como feminicídio, porque esse tipo penal só passou a existir na legislação brasileira a partir de 2015.
Então, depois que foi solto, já com duas condenações, Natalino cometeu mais um crime, dessa vez no bairro Palheiral, em Rio Branco, quando ele tirou a vida de um rapaz. E por conta desse novo crime, as penas de Natalino foram unificadas em 35 anos de reclusão. Só que mesmo com essas três condenações, ele ganhou direito à progressão de regime de novo e passou para o regime semiaberto mais uma vez. No entanto, como já era de se esperar, ele descumpriu as condições e passou a ser considerado foragido da Justiça quando se mudou para Capixaba e se autointitulou pastor evangélico. Obviamente, nem Cléia e nem a família dela sabiam sobre esses crimes absurdos que o falso pastor tinha cometido. Só que, quando eles descobriram, já era tarde demais, uma vez que ela já estava casada e sofrendo inúmeras ameaças, sem conseguir terminar aquele casamento.
Quando descobriu sobre o passado de Natalino e, já cansada da violência e da manipulação que sofria, ela finalmente decidiu colocar um ponto final na relação. E é aí que os familiares e amigos começaram a notar uma mudança drástica em Auriscleia. Dias antes do crime, uma amiga de Cléia notou que ela estava muito estranha, como se estivesse sendo coagida a algo. Isso porque ela tinha começado a fazer postagens nas redes sociais muito deprimentes, como se estivesse passando por uma situação complicada. Ela também tinha começado a falar com algumas pessoas que moravam próximas a ela que estava com medo de perder a vida. Cléia falava só pessoalmente que estava com medo de morrer, já que o seu marido poderia pegar o seu telefone e ver o seu pedido de socorro.
Ela chegou a dizer que se algo acontecesse com ela, era para pegarem o celular dela e enterrarem junto ao seu corpo, começando a falar coisas até sem sentido. Auriscleia também pediu aos seus irmãos que cuidassem dos seus filhos caso ela não vivesse por muito mais tempo. Inclusive, um dia antes do crime, na terça-feira, dia 10 de junho de 2025, o coordenador pedagógico do EJA onde Cléia estudava contou que naquela noite Natalino foi até a unidade de ensino e quase o agrediu por acreditar que o coordenador tinha dado carona para Cléia. O coordenador disse que ele chegou à escola por volta das 19h15. Foi até a sala dele, apontou o dedo e perguntou se ele tinha dado carona para a esposa dele. O coordenador negou e explicou que inclusive ele estava voltando para casa a pé porque o seu carro estava com problema. Mesmo assim, Natalino continuou insistindo na história da carona, dizendo que tinha visto um carro parando e trazendo ela.
Só que o coordenador afirmou que não tinha sido ele e percebeu o pastor com um semblante estranho. Lino então se retirou do local e disse que pegaria Cléia. Naquele momento em que quase foi agredido, o coordenador disse que teve um mau pressentimento de que algo aconteceria com a sua aluna. Ele criou até um plano de, no dia seguinte, colocá-la no carro e a levar direto para a delegacia, mas infelizmente não houve tempo. Isso porque, no dia seguinte, quarta-feira, dia 11 de junho, Cléia já tinha decidido a romper o relacionamento. Eles tinham conversado sobre o término várias vezes naquela semana, mas Natalino não aceitava a separação e insistiu várias vezes para reatar com ela. Na manhã daquele dia, ela pegou seus filhos e foi até a casa de Natalino para tentar um acordo com ele, o que acabou desencadeando uma discussão entre eles, já que Lino queria a guarda do filho mais novo.
Cléia obviamente negou o pedido, o que deixou o falso pastor muito irritado. Natalino então entrou na casa e se armou com um terçado, que é um tipo de facão bem grande usado para cortar vegetação. E no momento em que Cléia estava com o filho mais novo no colo, ele começou a desferir vários golpes nela, atingindo a sua nuca e os seus braços. Durante a confusão, o filho mais novo do casal tentou defender a mãe e foi ferido gravemente com cortes no rosto. Além de Cléia e dos filhos, na casa estava também um cunhado de Natalino que tentou defendê-la e acabou golpeado na região do tórax. Só que por sorte ele conseguiu desviar da maioria dos golpes, que o atingiram de forma superficial.
O cunhado ainda conseguiu acertar Lino com uma cadeira e depois fugir. A casa onde o ataque aconteceu dava para a casa da mãe de Cléia, onde moravam os seus irmãos, que também presenciaram a discussão. Eles disseram que não imaginaram que a briga iria terminar daquela forma, porque na verdade nem parecia uma discussão e sim uma conversa. E ninguém esperou que Natalino fosse pegar um terçado e partir para cima dela. Inclusive, um dos irmãos de Cléia ficou com ela em seus últimos momentos. Sobre isso, aquela amiga de Cléia relatou: “Ela lutou pelos filhos até o último dia da vida dela, porque no auge da morte, desfalecendo, ela puxou o irmão e disse: ‘Luta pelos meus filhos, luta. A guarda deles é para ficar com vocês.’ Ela se preocupou com a guarda das crianças e não queria que Natalino ficasse com eles”, disse a amiga. Após o crime, Lino fugiu do local e seguiu em direção a Rio Branco ou a Xapuri. Como já era foragido da polícia pelos crimes anteriores e tinha mandados de prisão em aberto, os policiais imediatamente começaram uma caçada atrás do fugitivo.
Infelizmente, quando a polícia chegou na residência da família, Auriscleia já estava sem vida, já que os golpes que sofreu foram extremamente cruéis. O seu corpo foi levado para o IML para exames e tanto o seu filho pequeno quanto o seu cunhado foram levados para o hospital para tratarem os ferimentos e se recuperaram bem. Enquanto a família lidava com a dor da perda, no dia seguinte ao crime, a polícia continuava a caçada. Durante a tarde daquela quinta-feira, por volta das 17 horas, Natalino foi visto saindo de uma lanchonete no Araxá, na divisa entre Xapuri e Capixaba. Ele foi visto e reconhecido por populares enquanto estava lanchando. Porém, antes da chegada da polícia, ele fugiu novamente, entrando em uma área de mata. A prisão de Natalino naquele momento era fundamental, uma vez que ele era um homem muito perigoso e toda a comunidade estava morrendo de medo, já que ele estava escondido pelas redondezas. No dia seguinte, 13 de junho, as buscas pelo falso pastor foram intensificadas após ele ser novamente visto por moradores dentro da mata.
A polícia aumentou as buscas, utilizando até helicópteros e cães farejadores. Lino permanecia dentro da floresta, o que dificultava a sua captura. Até que no sábado, dia 14, ele finalmente foi capturado pelas autoridades após quatro dias de buscas. Ele foi preso durante a manhã em uma área de mata da Reserva Legal Promissão, dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes. O delegado do caso disse que um morador entrou em contato com ele avisando que Natalino queria se entregar. Então o delegado foi junto de outro policial até a reserva e lá ele se entregou, sendo levado para Rio Branco, já que havia alto risco de linchamento por parte da população durante o trajeto.
O delegado disse que conversou com Natalino e ouviu dele que as motivações do crime foram principalmente por ciúmes, mas também a discussão com a esposa por conta da guarda do enteado dele, registrado como seu filho. Lino disse ao delegado que no dia anterior ao crime ele e Auriscleia tinham se separado e que então houve a questão da guarda do filho. Quando ele perdeu a cabeça, pegou um terçado e ceifou a vida dela. Sobre a transferência dele para Rio Branco, o delegado comentou: “A população estava querendo pegar ele lá na delegacia. Quando soube da informação que ele queria se entregar, eu fui bem discreto onde eu estava, tirei ele de lá e trouxe para Rio Branco. Quando cheguei aqui e divulguei a prisão, logo em seguida a população foi para a delegacia e cercaram ele lá”, disse o delegado. Ele ainda contou que a prisão só foi possível por conta da ajuda da população, que se mobilizou nas buscas. E assim a polícia fechou um cerco em um raio de 15 km para prendê-lo. Durante os dias que permaneceu escondido, Natalino ficou sempre andando no mesmo perímetro, indo e voltando.
A prisão dele foi convertida para preventiva no dia 16 de junho e o juiz levou em conta a reincidência criminosa, uma vez que ele já tinha sido condenado duas vezes e desrespeitou as medidas cautelares. O juiz ainda disse que é possível que ele também seja condenado pelo crime de falsidade ideológica, já que estava vivendo sob falsa identidade em Capixaba. A decisão que converteu a prisão de Lino em flagrante também levou em conta a necessidade de garantia da ordem pública, já que ele poderia cometer novos crimes. Ele então voltou a cumprir as suas penas em regime fechado, enquanto o novo processo corria na Justiça. Os laudos do IML saíram apontando que Auriscleia recebeu exatamente 37 perfurações, a maioria direcionada ao pescoço e à nuca.
O inquérito do caso foi concluído no dia 1º de julho e ele foi indiciado pelo feminicídio de Auriscleia e as tentativas contra o filho dela e contra o cunhado. No dia 12 daquele mês, a denúncia apresentada pelo Ministério Público foi aceita e ele se tornou réu pelos novos três crimes qualificados: por motivo fútil, meio cruel, contra vítima vulnerável e duas tentativas de homicídio. A última atualização que temos desse caso foi do dia 19 de agosto, que dizia que a primeira audiência de instrução tinha sido marcada pela Vara Única Criminal de Capixaba. Na ocasião, manifestantes espalharam cruzes e cartazes em lembrança às vítimas de feminicídio no Acre. Natalino deve ser condenado a uma nova pena e, se somada às penas anteriores, ele pode contar com quase 90 anos de prisão.
Ele segue preso aguardando o julgamento e, enquanto isso, tudo o que a família de Auriscleia pede é por justiça. Eles não querem que a memória dela seja reduzida a mais uma estatística, porque ela era uma mãe dedicada e, mesmo sob ameaças, ainda tinha fé de que poderia reconstruir a sua própria vida. A sua irmã Cássia pediu que ela não seja esquecida: “Eu gostaria que as pessoas lembrassem dela como ela realmente era. Sorridente, alegre, uma menina humilde que gostava de ajudar os outros”, disse a irmã. Hoje em dia, eles cuidam e protegem os dois filhos de Auriscleia, que infelizmente sofrem muito com a perda da mãe, principalmente o que foi diagnosticado com autismo, que tem crises quando se lembra do que presenciou.
A família contou que, quando ele entrava em estado crítico, só a sua mãe podia tranquilizá-lo. E, infelizmente, ela não está mais aqui para fazer isso. E essas são as últimas notícias que temos do caso. Assim que saírem novidades sobre a nova condenação de Natalino, eu posso voltar aqui para atualizar vocês. Auriscleia Lima do Nascimento foi mais uma vítima de feminicídio que aconteceu aqui no Brasil. Bom, gente, esse foi o caso de hoje. Comentem aqui embaixo alguma mensagem de apoio para as famílias das vítimas que muitas vezes assistem às minhas histórias. Curtam, comentem, compartilhem e sigam a página para apoiar o meu trabalho. Até a próxima história. Beijos.