Duas Irmãs Sumiram Em Fernando De Noronha — 2 Anos Depois Um Drone Filmou Uma Fogueira Acesa Na Ilha

Pescadores locais saíram voluntariamente com seus barcos. Nada foi encontrado. Nenhum corpo, nenhum vestígio, nenhuma peça de roupa, nenhuma sandália boiando. O mar de Noronha devolveu nada. O caso foi arquivado provisoriamente em fevereiro de 2020. A pandemia engoliu o noticiário. A família ficou sozinha com as perguntas.

Dois anos e quatro meses depois, em março de 2022, e um cinegrafista amador que operava um drone sobre as ilhas secundárias do arquipélago, aquelas que ficam fora do circuito turístico e onde o acesso é proibido sem autorização do ICM bio, captou uma imagem que reabriu tudo.

Numa faixa de vegetação rasteira, na ilha Rata, a pouco mais de 1 km da ilha principal, havia uma fogueira acesa e ao lado da fogueira, o que parecia ser uma estrutura improvisada feita com galhos e lona. Fernando de Noronha é um arquipélago de 21 ilhas e ilhotas no meio do Atlântico. A ilha principal tem pouco mais de 17 km². As ilhas secundárias são menores, desabitadas e, na sua maioria, de acesso restrito por questões ambientais.

Não há moradores, não há abrigos, não há água potável. São pedaços de rocha vulcânica cobertos por vegetação de restinga na cercados por um mar que muda de humor sem aviso. Em novembro de 2019, a temporada de chuvas estava começando. O vento nordeste soprava constante. A visibilidade no mar era boa pela manhã e fechava no meio da tarde.

Renata era formada em biologia marinha pela UFPE. Débora estava no quinto período de fisioterapia na mesma universidade. As duas moravam juntas num apartamento no bairro da Madalena, no Recife. Tinham ido à Noronha passar 10 dias com o pai, como faziam todo novembro desde que os pais se separaram.

Era uma tradição, uma rotina, o tipo de viagem que ninguém cancela e ninguém questiona. O pai Sebastião Bastos Cavalcante estava esperando as filhas para o almoço quando percebeu que nenhuma das duas atendia o telefone. Ligou sete vezes, mandou mensagens, ligou para o rapaz que alugava os barcos na praia do porto. O rapaz disse que elas tinham saído cedo, antes das 7, e que deviam estar na Baía do Sancho.

Sebastião esperou até às 3 da tarde, depois desceu até o porto, depois foi à delegacia. Se esse tipo de história faz você parar e pensar no que pode acontecer num lugar que a gente acredita conhecer, inscreva-se no canal e deixe sua opinião nos comentários. A partir daqui, a história avança devagar, cada detalhe importa.

E o que aconteceu naqueles dois anos entre o desaparecimento e a imagem do drone precisa ser contado com o cuidado que merece. O que acontece quando duas pessoas desaparecem num dos lugares mais vigiados e mais bonitos do Brasil e o mar não devolve nenhuma resposta? Até onde um pai é capaz de ir quando o sistema diz que não há mais o que fazer? E o que significa uma fogueira acesa numa ilha onde ninguém deveria estar? Nós estamos em Fernando de Noronha, em novembro de 2019.

A água está a 28º. O céu está limpo, o vento é constante e duas irmãs acabaram de sair do porto num barco de alumínio com motor de popa rumo a um passeio que faziam desde criança. Renata acordou antes das 5. Era costume. Desde os tempos de pesquisa de campo no litoral sul de Pernambuco, quando saía de madrugada para coletar amostras antes que o sol esquentasse, o corpo dela funcionava assim.

acordava com o escuro, tomava café sem falar muito e só começava a ser gente depois de molhar o rosto com água do mar. Tinha essa expressão que o pai repetia com orgulho sempre que contava para os hóspedes da pousada. A Renata é bicho d’água. Nasceu no seco, mas pertence ao mar. Ela não gostava quando ele dizia isso na frente dos outros.

sorria sem graça, mudava de assunto, mas era verdade. A relação dela com o oceano não era de lazer, era de estudo, de intimidade, de uma familiaridade construída ao longo de anos, mergulhando em Recifes, catalogando espécies, medindo temperatura e salinidade em pontos que a maioria dos banhistas nem sabia que existiam.

Aos 29 anos, já tinha participado de três projetos de conservação marinha na costa nordestina e publicado dois artigos sobre branqueamento de corais no litoral de Pernambuco. Conhecia o mar de Noronha como conhecia o caminho de casa. Débora era o oposto em quase tudo. Dormia até o último minuto possível. levantava reclamando do calor, do horário, do café que nunca estava pronto e só se animava quando já estava dentro do barco, com o vento batendo na cara e o respingo de água salgada nos braços. Tinha 23 anos.

Estava no quinto período de fisioterapia na UFPI e não tinha a mesma vocação marítima da irmã. Gostava do mar como quem gosta de uma piscina grande para nadar, para boiar, para esquecer das coisas. Mas seguia a Renata para todo lado desde pequena. Era assim entre as duas. Renata abria caminho.

Débora ia atrás, não por submissão, por confiança. Confiava na irmã mais velha, como se confiasse numa bússola que nunca tinha errado. Naquela manhã de 14 de novembro, as duas seguiram o roteiro de sempre. Saíram da pousada do Pai antes das 6:30. Caminharam pela estrada de terra que desce até o porto, carregando a mochila e os coletes, e encontraram o barco já na água.

amarrado ao trapiche de madeira que os pescadores usavam desde antes de a ilha virar destino turístico. O rapaz que alugava os barcos, um morador local chamado Cícero e que todo mundo na vila conhecia pelo apelido de Índio, ajudou a soltar a amarra e empurrou a proa. disse que o mar estava bonito, que a maré ia virar por volta das 10 e que era bom voltar antes da uma, porque à tarde o vento mudava.

Renata acenou sem olhar para trás. Débora mandou um beijo com a mão. Índio ficou no trapiche vendo o barco se afastar. Aquela foi a última vez que alguém viu as duas irmãs Bastos Cavalcante. O barco sumiu atrás do promontório que separa o porto da Baía do Sancho. O motor fazia um barulho fino, constante, que foi diminuindo até desaparecer.

Índio voltou para o galpão onde guardava os equipamentos. Acendeu um cigarro e começou a lavar os coletes que tinham voltado na tarde anterior. Não pensou mais no assunto. Eram clientes que conheciam a ilha. Não precisavam de guia. Não precisavam de mapa e não precisavam de nada. Amanhã seguiu como qualquer manhã de novembro em Fernando de Noronha.

O sol subiu rápido, o ar ficou úmido. Os primeiros grupos de turistas começaram a descer dos bugs na estrada principal. Os golfinhos apareceram na baía dos golfinhos por volta das 7:30, como faziam quase todo dia. O mar continuou azul, transparente, com aquele tom de esmeralda que aparece nas fotos e que na vida real é ainda mais intenso.

Um dia como qualquer outro, um dia que não dava sinal nenhum do que estava por vir. Renata tinha planejado um roteiro simples. Sair do porto, contornar à ponta norte da ilha, parar na Baía do Sancho para um mergulho livre, seguir até a praia do Boldró para ver uma formação de coral que ela queria fotografar e voltar pelo mesmo caminho antes do meio-dia.

Era um percurso que já tinha feito dezenas de vezes. Levava o caderninho de anotações, a câmera subaquática que o pai tinha dado de aniversário e um saco estanque com os celulares e os documentos. Débora levava protetor solar, água e a disposição de sempre para seguir a irmã sem fazer perguntas. Ninguém sabe em que ponto do percurso alguma coisa mudou.

Ninguém sabe se houve um desvio de rota, uma decisão espontânea, um imprevisto mecânico, uma mudança de corrente. O mar de Noronha é previsível na superfície e traiçoeiro por baixo. As correntes que passam pelo arquipélago vem do largo do Atlântico e mudam de direção e intensidade, conforme a maré, o vento e a temperatura da água.

Um barco pequeno com motor de popa pode ser empurrado para longe da costa em questão de minutos se o piloto não perceber que a corrente virou. Mas Renata percebia, era treinada para isso. Sabia ler o mar como quem lê um mapa. O pai dizia que ela sentia a mudança de corrente antes de o barco sentir. E mesmo assim, naquela manhã, algo aconteceu que nenhum conhecimento técnico conseguiu evitar.

Sebastião Bastos Cavalcante tinha 61 anos e administrava a pousada de seis quartos na vila dos remédios havia 15 anos. Era um homem calado, de mãos grandes e pele queimada pelo sol do Nordeste, que falava pouco com os hóspedes e muito com os funcionários. Tinha se mudado para Noronha depois da separação em 2004, quando as meninas ainda eram pequenas.

Renata tinha 14, Débora tinha oito. A ex-mulher Marlene ficou no Recife com as filhas. Ele ficou na ilha com a solidão, três funcionários de confiança. Noite uma rotina de café da manhã às 7 e um silêncio que aprendeu a suportar com o tempo, com o trabalho e com a certeza de que as filhas viriam todo novembro.

Era o mês dele, o único mês do ano em que a pousada deixava de ser só um negócio e voltava a ser uma casa. Ele trocava os lençóis do quarto das meninas, comprava frutas frescas no barco de abastecimento que chegava do Recife, fazia suco de caju natural e fritava a tapioca toda a manhã.

Não era um cozinheiro habilidoso, era um pai tentando recuperar em 10 dias por ano o que a distância tinha levado durante os outros 355. Naquele 14 de novembro, Sebastião pôs a mesa para três, como fazia todo dia, desde que as filhas tinham chegado, cinco dias antes. Arrumou os pratos, os copos, no os guardanapos de pano que Marlene tinha mandado de presente anos atrás e que ele nunca tinha usado com os hóspedes.

ligou o rádio na estação local que tocava forró das 7 às 9 e depois passava para as notícias. Sentou na cadeira da ponta e esperou. Às 11:30 olhou para o relógio redondo de parede que ficava acima da pia da cozinha. Um relógio antigo, com ponteiros dourados e números romanos, que estava ali desde que ele tinha comprado a casa.

Ao meio-dia, olhou de novo. À 1 da tarde, começou a ligar. A primeira ligação caiu direto na caixa postal de Renata. A segunda, a mesma coisa. A terceira foi para Débora, caixa postal. A quarta para Renata de Nova, caixa postal. Sebastião não era um homem que se assustava fácil. tinha vivido 15 anos numa ilha onde as coisas aconteciam devagar e onde os problemas se resolviam com paciência e onde a pressa era um defeito de quem vinha do continente.

Mas às 2as da tarde, com sete ligações sem resposta e o almoço esfriando na mesa, sentiu pela primeira vez aquele aperto no peito, que não era fome nem cansaço, era medo. O tipo de medo que chega sem avisar e que se instala no corpo como uma coisa física. Um peso entre as costelas que não sai com respiração funda, nem com copo d’água. Desceu até o porto às 2:30.

Encontrou o índio sentado no galpão consertando uma rede. Perguntou se as meninas tinham voltado. Índio disse que não, que o barco não tinha voltado, mas que era normal. Às vezes o pessoal ficava até mais tarde na baía do Sancho, perdia a hora, voltava com o sol já baixo. Sebastião ouviu, agradeceu e não ficou tranquilo.

Voltou para a pousada, e pegou o telefone fixo e ligou para a administração do distrito. Disseram que não tinham registro de ocorrência. Ligou para o destacamento do Corpo de Bombeiros. Disseram que só podiam abrir busca formal se houvesse indício concreto de emergência ou se passassem 24 horas sem contato.

Sebastião desligou o telefone e ficou parado na varanda, olhando para o mar até escurecer. As meninas não voltaram naquela noite. Na manhã do dia 15, Sebastião voltou ao porto antes das 6. O barco não estava. Índio também já estava lá. com a mesma cara de preocupação que Sebastião tentava esconder. Juntos saíram num segundo barco e fizeram o percurso que Renata costumava seguir.

Porto, Ponta Norte, Baahía do Sancho, Bourró, volta pela costa oeste. Não encontraram nada, nenhum barco, nenhuma pessoa na água, nenhum sinal de qualquer coisa. O mar estava calmo, quase indiferente, como se nada tivesse acontecido. Voltaram ao porto ao meio-dia. Sebastião foi à delegacia de Noronha, uma sala pequena na vila dos remédios, com dois policiais civis e um escrivão, e registrou o boletim de ocorrência.

O agente anotou os dados das duas irmãs, as características do barco, o horário de saída, o roteiro previsto. Perguntou se havia histórico de uso de drogas, problemas psiquiátricos, dívidas, conflitos familiares. Sebastião respondeu que não a tudo. O agente anotou sem pressa e pediu que a família aguardasse o prazo regulamentar antes de qualquer providência adicional.

Sebastião saiu da delegacia com a sensação de que tinha acabado de preencher um formulário para um serviço que ninguém ia prestar. O Corpo de Bombeiros de Fernando de Noronha tem efetivo reduzido em novembro de 2019 e a equipe contava com sete militares na ilha, apoiados por um destacamento da Marinha do Brasil, que mantinha uma lancha de patrulha costeira e dois botes infláveis no porto.

A busca formal começou na manhã do dia 16, quase 48 horas depois do desaparecimento, quando o barco das irmãs foi localizado, encalhado numa faixa de areia na praia do leão, no lado sudeste da ilha, o lado oposto ao porto de saída e fora do roteiro habitual de Renata. A posição do barco não fazia sentido. A baía do Sancho fica a noroeste, a praia do Leão fica a Sudeste.

Para chegar ali, partindo do porto, o barco teria que contornar quase toda a ilha pela costa sul, passando por trechos de mar aberto, onde a corrente é forte e imprevisível, ou teria que ser levado pela correnteza após uma pane no motor ou o abandono da embarcação. Mas o motor funcionava, nem o tanque tinha combustível. Não havia avaria visível no casco, nem no leme.

O barco parecia ter chegado ali sozinho, empurrado por algo que não deixou o rastro. Os bombeiros organizaram as buscas em três frentes: por mar, por terra e por mergulho. A frente marítima cobriu o perímetro da ilha principal e parte das ilhas secundárias nos primeiros quatro dias. Usando a lancha da marinha e os botes infláveis.

A frente terrestre percorreu as praias mais isoladas da costa sul e leste, incluindo trechos de difícil acesso entre rochas, onde era possível que alguém ferido tivesse se abrigado. A frente de mergulho operou nas enceadas submersas próximas à praia do leão, procurando vestígios no fundo, roupas, equipamentos, qualquer coisa que a água tivesse levado para baixo.

11 dias de busca não produziram um único resultado. Nenhum corpo e nenhum tecido, nenhuma sandália, nenhuma pulseira, nenhum fragmento de nada. O mar de Noronha que devolve lixo das correntes atlânticas nas praias do lado de fora com regularidade quase mecânica, não devolveu nenhum vestígio das duas irmãs.

Os mergulhadores relataram visibilidade excepcional nos dias de busca, mais de 30 m em alguns pontos e ausência total de objetos estranhos ao fundo marinho nas áreas vasculhadas. Os pescadores locais que saíram voluntariamente com seus barcos durante a primeira semana voltaram todos com o mesmo relato. Nada. Não viram nada não encontraram nada.

O tenente responsável pela operação de busca registrou no relatório final uma observação que ficou gravada na memória de Sebastião. Em 17 anos de serviço, incluindo buscas em mar aberto, no litoral de Pernambuco e no arquipélago, e nunca conduzi uma operação em que o oceano não devolvesse absolutamente nada. Aência total de vestígios é em si um dado atípico.

Ninguém soube o que fazer com essa frase. A mochila encontrada no barco foi catalogada e fotografada pela polícia civil antes de ser entregue à família. Cada objeto foi descrito no auto de apreensão, com a precisão burocrática que o procedimento exige e com a frieza que a dor não permite. Dentro havia dois celulares, um iPhone 8 branco de Renata e um Samsung Galaxy A20 com capinha azul de Débora, ambos completamente sem bateria.

Havia uma necesserre de tecido impermeável com protetor solar fator 50, dois elásticos de cabelo pretos, um batom cor de boca da marca Natura e um pacote pequeno de lenços umedecidos. Havia uma garrafa de plástico com água pela metade. É um saco estanque transparente com os documentos de identidade das R$40 em notas de 10 e de cinco.

Havia dois coletes salvavidas alaranjados dobrados com cuidado no banco de trás, como se tivessem sido guardados por alguém que não pretendia mais usá-los naquele dia. E havia o caderninho. Era um caderno pequeno de capa preta. com espiral do tipo que se compra em papelaria de bairro por menos de R$ 10. Renata usava cadernos assim desde a graduação.

Levava um para cada saída de campo e anotava tudo: temperatura da água, visibilidade, espécies avistadas, horários de maré, direção da corrente, condições do vento. Era metódica. Cada página tinha data, hora e localização no canto superior direito. Os desenhos eram simples, mas precisos. Contornos de corais, silhuetas de peixes, setas indicando fluxo de corrente.

Um professor da UFPI, que viu os cadernos dela uma vez, disse que eram melhores que muitos relatórios técnicos que ele recebia de profissionais formados. O caderninho encontrado no barco tinha 23 páginas escritas. As primeiras, 18 cobriam os dias anteriores da viagem. Mergulhos na Baía do Sancho, observações de tartarugas na praia do Boldró, medições de temperatura em três pontos diferentes da costa norte.

Tudo normal, tudo dentro do padrão que Renata seguia há anos. Na penúltima página usada, datada de 13 de novembro, um dia antes do desaparecimento, as anotações mudavam de tom. Não havia dados técnicos, não havia desenhos, havia apenas três linhas escritas com a mesma letra miúda e inclinada de sempre, mas sem a organização habitual.

As linhas diziam: “Corrente sul aumentou, canal entre rata e a principal está limpo. A correnteza leva para fora, mas quem conhece volta pelo canal”. A última frase não parecia uma anotação de campo, parecia uma instrução ou um lembrete ou uma decisão que já tinha sido tomada antes de ser escrita. A polícia civil anexou o caderninho ao inquérito.

Nenhum perito foi designado para analisar o conteúdo em detalhe. Nenhum oceanógrafo foi consultado sobre o significado técnico das anotações. O caderninho entrou no processo como mais um objeto pessoal encontrado na embarcação e saiu do processo da mesma forma, sem peso, sem destaque, sem consequência investigativa.

Sebastião pediu para ficar com o caderninho depois que o inquérito foi arquivado. A polícia civil devolveu junto com os outros objetos. Ele guardou numa gaveta do quarto, debaixo das camisetas que não usava mais. Às vezes abria e relia a última página. Ele não entendia completamente o que Renata queria dizer, mas sentia que aquela frase era importante, que aquela frase continha alguma coisa que ninguém tinha parado para ouvir.

Em fevereiro de 2020, o inquérito foi arquivado provisoriamente pela Delegacia de Polícia Civil em Fernando de Noronha, vinculada administrativamente à primeira delegacia seccional de Recife. O relatório final tinha 17 páginas. A conclusão ocupava menos de uma. Na ausência de corpos, vestígios materiais, indicativos de crime, testemunhas diretas do evento ou qualquer elemento que permitisse avançar a investigação, a hipótese mais provável era afogamento acidental com corpos levados por correntes oceânicas para alto mar. A palavra provável aparecia

três vezes no documento. A palavra conclusiva, nenhuma. Vossa família foi notificada por ofício enviado pelo correio, o mesmo correio que levava dias para chegar a Fernando de Noronha e semanas para chegar ao endereço de Marlene no Recife. Sebastião recebeu primeiro, leu o documento sentado na varanda da pousada, numa cadeira de plástico branca desbotada pelo sol, de frente para o mesmo mar, onde as filhas tinham desaparecido três meses antes.

Leu devagar, releu as folhas e guardou no bolso da camisa. Depois entrou na cozinha, serviu um copo de água que não bebeu e ligou para a ex-mulher. A ligação durou 8 minutos. Os dois ficaram em silêncio durante quase o primeiro minuto inteiro antes de alguém conseguir falar. Marlene perguntou se era definitivo.

Sebastião disse que não, que era provisório, que podia ser reaberto se surgissem fatos novos. E Marlene perguntou que fatos novos poderiam surgir no meio do oceano. Sebastião não respondeu: “O arquivamento de um caso de desaparecimento no Brasil não significa que o caso foi resolvido. Significa que o Estado decidiu que com os recursos disponíveis e as evidências existentes não há mais o que investigar no momento.

É uma suspensão, não um encerramento. Mas para uma família, a diferença entre suspensão e encerramento é quase nenhuma. O efeito prático é o mesmo. Ninguém mais procura, ninguém mais liga, ninguém mais atualiza. O caso entra numa pilha de processos inativos e fica ali esperando algo que quase nunca chega.

Para Sebastião, o arquivamento significou uma coisa específica, que a partir daquele dia ele estava sozinho, que o corpo de bombeiros não voltaria a mergulhar, que a Marinha não mandaria mais lanchas, que o delegado não ligaria com novidades, que os pescadores voltariam às suas rotinas, que a ilha voltaria a funcionar como sempre funcionou, recebendo turistas, servindo peixe fresco, vendendo passeios de barco, enquanto as filhas dele continuavam desaparecidas a menos de 1 km da costa.

A pousada continuou funcionando. Os hóspedes continuaram chegando. Sebastião continuou fazendo café da manhã, trocando lençóis, sorrindo quando era necessário. Mas algo tinha mudado na estrutura daquele homem. Os funcionários perceberam, os vizinhos perceberam. O sorriso era o mesmo de antes, mas os olhos não acompanhavam mais.

Ele passou a dormir cada vez menos. Passou a sair de madrugada com o barco de índio e ficar horas parado no mar, olhando para as ilhas secundárias, sem pescar, sem mergulhar, sem fazer nada além de olhar. Não uma vizinha que ajudava na limpeza da pousada disse meses depois que Sebastião tinha parado de almoçar, que a mesa da cozinha, que antes era posta para três, passou a não ser posta para ninguém.

Enquanto Sebastião afundava num silêncio que a ilha inteira respeitava sem entender completamente, Marlene da Silva Bastos fazia o oposto no Recife. Não parou. Não se permitiu parar. Marlene tinha 57 anos. Trabalhava como auxiliar administrativa no hospital das clínicas da UFP e havia 22 anos e nunca tinha faltado um dia sequer.

Era o tipo de funcionária que chega antes de todo mundo, prepara o café da copa antes que os médicos desçam para o plantão e conhece de cor o ramal de cada setor. Depois do arquivamento, começou a faltar. Não por doença, não por esgotamento, por decisão. Usou as férias acumuladas de 2 anos e usou as folgas por tempo de serviço.

Usou os atestados que um médico amigo da família fornecia sem perguntar demais. Cada dia livre era um dia dedicado a uma única coisa, encontrar as filhas. Nos primeiros meses, Marlene fez o que o sistema não fez. voltou a Fernando de Noronha quatro vezes entre março e agosto de 2020, em plena pandemia, quando os voos para a ilha estavam suspensos e o acesso era restrito a moradores e profissionais autorizados.

conseguiu entrar duas vezes com autorização especial da administração do distrito, alegando vínculo familiar com residente. Nas outras duas, viajou até Recife e de lá pegou carona num barco de abastecimento que fazia o trajeto duas vezes por semana. 21 horas de mar aberto, dormindo num beliche improvisado no porão, para chegar a uma ilha onde ninguém mais estava procurando as filhas dela.

Em cada visita, Marlene seguia um método que tinha desenvolvido sozinha. Levava uma pasta de plástico azul com fotos das duas filhas, impressas em papel fotográfico, em tamanho grande, para que qualquer pessoa pudesse ver os rostos com clareza. Levava cópias do boletim de ocorrência, levava um mapa plastificado da ilha, daqueles que se vendem nos quiosques turísticos, onde ia marcando com caneta vermelha cada ponto que já tinha visitado, cada pessoa com quem já tinha conversado, cada trecho de costa que já tinha percorrido a pé.

Conversou com pescadores que operavam na costa sul da ilha e que raramente tinham contato com turistas. Ele conversou com mergulhadores profissionais que trabalhavam com operadoras de turismo e que conheciam o fundo do mar ao redor do arquipélago melhor do que qualquer mapa batimétrico. Conversou com moradores antigos, gente que vivia em Noronha desde antes da abertura para o turismo, gente que conhecia cada rocha.

cada corrente, cada variação de maré. Perguntava sempre a mesma coisa. Vocês viram alguma coisa naqueles dias? Qualquer coisa. Um pedaço de tecido na água, uma sandália na areia, um barulho de noite, qualquer coisa. A resposta era sempre a mesma. Não. Ninguém viu nada. Ninguém ouviu nada. O mar de Noronha engoliu as duas meninas e não deixou rastro.

Mas Marlene percebeu uma coisa nas conversas que os investigadores não tinham percebido ou não tinham dado importância. Três pescadores. E em momentos diferentes e sem saber que os outros tinham dito a mesma coisa, mencionaram que nos dias ao redor do desaparecimento, entre 13 e 16 de novembro, tinham visto luzes à noite na direção das ilhas secundárias.

Não luzes de barco, não luzes de farol, luzes paradas, fracas, como se fossem fogueiras ou lanternas, em pontos onde não deveria haver ninguém. Dois disseram que era na direção da ilha Rata, o terceiro não soube precisar. Marlene anotou tudo, marcou no mapa. Quando voltou ao Recife, procurou a delegacia seccional e pediu para falar com o delegado responsável pelo caso.

Foi atendida por um escrivão substituto que ouviu o relato, anotou num papel avulso e disse que encaminharia para a análise Marlene nunca recebeu resposta. Tá passou a usar os fins de semana no Recife para pesquisar na internet tudo o que conseguia encontrar sobre correntes oceânicas no arquipélago, sobre as ilhas secundárias, sobre casos de pessoas desaparecidas em ilhas.

Comprou livros de oceanografia na livraria Cultura do Shopping Recife. imprimiu artigos acadêmicos que não entendia completamente, mas que lia com a disciplina de quem estuda para uma prova da qual depende a vida. montou uma pasta separada, uma pasta vermelha, diferente da azul, onde guardava tudo o que encontrava sobre a ilha Rata, mapas, fotos de satélite, relatórios ambientais do ICM bio, registros de acesso.

A ilha Rata aparecia em quase todos os relatos dos pescadores. Era o ponto para onde as correntes da costa sul empurravam qualquer coisa que caísse na água. Era o lugar onde o lixo oceânico se acumulava. Era o lugar que ninguém visitava e que ninguém vigiava. Marlene sabia que as filhas podiam ter morrido no mar.

Sabia que a hipótese de afogamento era tecnicamente possível, mas não aceitava a ausência total de vestígios. Não aceitava que dois corpos, duas mochilas de roupas que ficaram na pousada, dois pares de sandálias havaianas e toda a materialidade de duas vidas pudessem simplesmente evaporar sem deixar absolutamente nada.

O mar devolve, ela dizia, sempre devolve, nem que seja um pedaço, nem que demore, o mar devolve, a menos que as filhas dela não estivessem no mar. Thago Mendes Ribeiro tinha 35 anos, Barbarala, uma tatuagem de tartaruga marinha no antebraço esquerdo e o tipo de bronzeado permanente de quem trabalha ao ar livre o ano inteiro.

Era natural de Parnamirim, na região metropolitana de Natal. Nui trabalhava como produtor de conteúdo audiovisual para uma operadora de turismo ecológico sediada na capital potiguar. Filmava praias, trilhas, fauna, paisagens, tudo com drone, tudo em 4K, tudo para alimentar canais de YouTube, perfis de Instagram e materiais promocionais que vendiam o Nordeste brasileiro para turistas estrangeiros.

Em março de 2022, Thago estava em Fernando de Noronha a trabalho. A operadora tinha fechado o contrato com uma produtora europeia que estava montando um documentário sobre a vida marinha do Atlântico Sul e precisava de imagens aéreas das ilhas secundárias do arquipélago, aquelas que ficam fora do circuito turístico e que a maioria dos visitantes só vê de longe, do mirante do forte dos remédios.

ou da janela do avião na hora do pouso. Para filmar sobre essas ilhas, era necessário ter autorização do ICM Bio e Thiago tinha. A operadora tinha solicitado um císbio, o sistema de autorização e informação em biodiversidade, que permitia sobreos com drone a uma altitude mínima de 50 m, sem pouso, sem aproximação de fauna e sem interferência no ambiente.

No terceiro dia de filmagem, Thago voou o drone sobre a Ilha Rata. Era uma manhã de terça-feira sem vento, com o céu limpo e a luz ideal para imagens aéreas. Aquela luz de meio da manhã no Nordeste que é forte sem serdura, que ilumina tudo por igual e que faz a água parecer vidro líquido.

O drone subiu do barco ancorado a 300 m da ilha, passou a 80 m de altitude e fez um percurso de varredura em linhas paralelas, cobrindo toda a superfície da Ilha Rata em aproximadamente 20 minutos. Tiago acompanhou a transmissão ao vivo no monitor do controle remoto e mas não prestou atenção em detalhes. Estava focado no enquadramento, na estabilidade da imagem e na duração da bateria.

A ilha rata vista de cima era um retângulo irregular de vegetação rasteira, cercado por rochas escuras e espuma branca. Não havia nada de especial. Não havia nada que chamasse atenção numa tela de cinco polegadas sob o sol do meio-dia. Foi só à noite, no quarto da pousada, onde estava hospedado, na vila dos remédios, que Thago sentou no laptop para revisar o material bruto.

Passou os clipes em velocidade acelerada, marcando os trechos que poderiam servir para o documentário. O minuto 12 do sobrevoo sobre a ilha Rata parou, voltou, pausou, ampliou. Na borda leste da ilha, numa clareira entre a vegetação rasteira e as rochas que davam para o mar, havia uma coluna fina de fumaça subindo de um ponto no chão.

E não era vapor, não era névoa, era fumaça. A cor era acinzentada, o movimento era vertical, a origem era um ponto definido no solo. E ao lado desse ponto, parcialmente coberto pela vegetação, havia algo que parecia ser uma estrutura. Galhos organizados em forma de tenda, cobertos por um material escuro que podia ser lona, tecido ou plástico.

Thago ampliou ao máximo que a resolução da câmera permitia. A imagem ficou granulada, mas a fumaça continuava visível, a estrutura continuava visível. Não era possível identificar presença humana, nenhuma figura, nenhum movimento, nenhuma sombra que pudesse ser uma pessoa. Mas a fumaça estava ali e a estrutura estava ali. E a ilha Rata era uma ilha desabitada, de acesso restrito, onde não deveria haver ninguém.

Thaago ficou olhando para a tela durante vários minutos antes de decidir o que fazer e pensou em ligar para o ICM bio. Pensou em voltar com o drone no dia seguinte para filmar mais de perto. Pensou em não fazer nada. No fim, fez o que a maioria das pessoas da geração dele faz quando encontra algo que não consegue explicar. publicou o vídeo na internet, postou o clipe de dois minutos numa rede social no dia seguinte com uma legenda simples e sem alarde, filmando as ilhas secundárias de Noronha para um documentário, captei isso na ilha Rata. Alguém sabe explicar?

Em 48 horas, o vídeo tinha sido visto por 200.000 pessoas. Os comentários se dividiam entre explicações racionais. pescadores clandestinos, pesquisadores acampados, fogo espontâneo causado pelo sol em material orgânico seco e especulações que iam muito além do razoável. Mas entre os milhares de comentários, um chamou a atenção de Thago, que era de um perfil sem foto, com nome de mulher, e dizia apenas: “Minhas filhas desapareceram em Noronha em novembro de 2019.

Nunca foram encontradas. Preciso falar com você. Em 72 horas, a família Bastos Cavalcante ligou para Thiago Mendes Ribeiro. A imagem do drone mostrava com clareza suficiente para gerar dúvida e insuficiente para gerar certeza. algo que não deveria estar ali, uma coluna de fumaça, uma estrutura de galhos numa ilha onde ninguém morava, ninguém acampava, ninguém tinha motivo para estar.

A internet fez o que a internet faz. transformou dois minutos de vídeo granulado numa história com dezenas de versões, centenas de teorias e milhares de pessoas opinando sobre algo que ninguém tinha visto de perto. Houve quem dissesse que a fumaça era de origem vulcânica, o que não fazia sentido geológico para o arquipélago. Houve quem dissesse que a estrutura era um ninho de fragata, uma ave marinha de grande porte que usa galhos para construir ninhos enormes em ilhas desabitadas.

Houve quem dissesse que tudo não passava de um artefato de imagem, uma sombra interpretada de forma errada por olhos que queriam ver o que não existia. E houve quem se lembrasse do caso das irmãs Bastos Cavalcante. Os sites de notícias do Recife foram os primeiros a fazer a conexão. Um portal local publicou a matéria com o título: Família de irmãs desaparecidas em Noronha pede investigação após drone filmar fogueira em ilha deserta.

A matéria viralizou em poucas horas. Os portais nacionais reproduziram. O caso, que tinha desaparecido do noticiário junto com as duas irmãs, voltou à superfície. Marlene viu o vídeo no celular, lhe sentada na Copa do Hospital das Clínicas durante o intervalo do almoço. Assistiu três vezes sem dizer nada. Depois ligou para Sebastião.

Sebastião já tinha visto. Um hóspede da pousada tinha mostrado para ele no café da manhã. Os dois ficaram em silêncio no telefone durante alguns segundos. Um silêncio que já era familiar, que já era linguagem. Antes de Marlene dizer: “Eu disse que o mar devolve, Sebastião”. Eu disse: “Mas o vídeo não provava nada.

Não provava que alguém estava vivo naquela ilha. Não provava que as irmãs tinham chegado lá. Não provava que a fogueira tinha qualquer relação com o desaparecimento de 2019. Provava apenas que em algum momento de março de 2022 algo queimou na Ilha Rata e algo foi construído com galhos. O resto era interpretação, o resto era desejo, o resto era dor, procurando um endereço.

Sebastião sabia disso. Mas a razão de um pai que perdeu duas filhas não funciona com as mesmas regras da razão técnica. Não funciona com probabilidades, nem com cautela. Funciona com o que o corpo manda, com o que o peito diz, com aquela voz interna que repete a mesma frase dia e noite. E se elas estiverem lá? E se estiverem esperando? E se o tempo que eu perdi pensando for o tempo que fez diferença? Por isso, Sebastião fez o que qualquer pai faria naquela situação e o que nenhum protocolo, nenhuma lei e nenhum órgão ambiental recomendava.

decidiu ir até a ilha Rata por conta própria. A primeira tentativa foi no dia seguinte à viralização do vídeo. Sebastião desceu ao porto às 5 da manhã, antes do amanhecer, e procurou um barqueiro que aceitasse levá-lo até as ilhas secundárias. Dois recusaram, o terceiro aceitou e mais só até a metade do caminho.

Quando estavam a menos de 500 m da Ilha Rata, um bote do ICM Bio interceptou a embarcação. O agente ambiental explicou que a área era de acesso restrito, que qualquer desembarque não autorizado era infração ambiental passível de multa e processo e que o barco deveria retornar imediatamente ao porto.

Sebastião tentou explicar. O agente ouviu, mostrou compreensão, mas manteve a posição. A lei era clara, o acesso era proibido. Não havia exceção. Sebastião voltou ao porto com a mandíbula travada e os olhos secos. não disse nada para ninguém durante o resto do dia. Na manhã seguinte, antes das 4, saiu de novo. Dessa vez não procurou um barqueiro qualquer. Procurou índio. Índio, Cícero.

O mesmo que tinha ajudado as meninas a soltar o barco naquela manhã de novembro de 2019, conhecia as correntes ao redor das ilhas secundárias, como conhecia os nomes dos próprios filhos. sabia em que horário o mar permitia aproximação, em que ponto as rochas ficavam submersas o suficiente para um barco pequeno passar por cima? Em que ângulo o vento ajudava em vez de atrapalhar.

Saiu com Sebastião de madrugada, sem autorização, sem aviso, sem colete salvavidas, num barco de alumínio com motor de nove cavalos e um tanque cheio de combustível. chegaram à ilha Rata com a primeira luz do amanhecer. O mar estava mais calmo do que nos dias anteriores, mas a aproximação era quase impossível. A ilha não tem praia, não tem ponto de desembarque.

O perímetro é feito de rochas vulcânicas irregulares, cortantes, cobertas de algas escorregadias, nos contra as quais as ondas quebravam com uma força que o motor do barco não conseguia vencer. Índio tentou três aproximações em pontos diferentes. Na terceira, uma onda lateral quase virou o barco. Os dois se molharam até o peito.

Índio olhou para Sebastião e disse sem julgamento, sem emoção: “Não dá, seu Sebastião. Hoje não dá.” Sebastião olhou para a ilha durante vários minutos enquanto o barco se afastava lentamente. A vegetação rasteira cobria quase tudo. As rochas brilhavam de sal e espuma. Não havia fumaça visível, não havia estrutura visível, não havia sinal de presença humana.

Mas Sebastião olhava como quem procura, não com os olhos, mas com algo que fica atrás dos olhos, algo que não aceita o que a vista mostra. voltou ao porto com o barco molhado de espuma com a roupa encharcada com as mãos vermelhas de ter segurado a borda durante a travessia e com uma certeza que ninguém conseguiu tirar dele. Havia alguém naquela ilha ou tinha havido? E se tinha havido, precisava saber quem.

Precisava saber quando. Precisava saber se as filhas dele tinham estado ali enquanto ele dormia. trabalhava e servia café da manhã para estranhos a menos de 2 km de distância. Essa última possibilidade era a que ele não conseguia dizer em voz alta, a possibilidade de que elas tivessem estado perto o tempo todo.

A possibilidade de que alguém poderia ter olhado para a direção certa no momento certo e ter visto alguma coisa. A possibilidade de que o mar não tinha levado as filhas dele para longe, tinha levado para perto, para um lugar tão perto que dava para ver da costa. e mais que ninguém olhava, porque ninguém achava que houvesse motivo para olhar.

Era essa a possibilidade que não o deixava dormir. Em abril de 2022, pressionado pela repercussão do vídeo nas redes sociais e nos portais de notícia e por um requerimento formal apresentado pelo Ministério Público de Pernambuco, provocado por uma petição da família Bastos Cavalcante, com mais de 15.000 assinaturas.

Recolhidas online em menos de duas semanas, o ICMBO autorizou uma vistoria técnica na Ilha Rata. Não era uma operação de busca, não era uma investigação criminal, era oficialmente uma vistoria ambiental com o objetivo de verificar indícios de presença humana não autorizada em área de proteção integral. A diferença pode parecer semântica, mas não era.

Uma operação de busca teria mobilizado bombeiros, mergulhadores, peritos e cães farejadores. No uma vistoria ambiental mobilizou quatro pessoas e um helicóptero. A equipe era composta por dois biólogos do ICM Bio, ambos lotados na base de Noronha, um agente ambiental responsável pela fiscalização das ilhas secundárias e um perito da Polícia Civil de Pernambuco que a família tinha solicitado expressamente que participasse.

Desembarcaram por helicóptero numa clareira natural no centro da ilha Rata, a única área plana suficiente para pouso seguro. O helicóptero pertencia ao grupamento aéreo da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco e fez o trajeto desde a ilha principal em menos de 3 minutos. A vistoria durou 6 horas. A equipe percorreu toda a superfície da ilha a pé, o que não levava mais de 40 minutos em linha reta, mas que exigiu horas devido à vegetação densa e as rochas irregulares e a necessidade de documentar cada ponto com fotografias e

coordenadas GPS. O que encontraram foi suficiente para manter o caso aberto e insuficiente para resolvê-lo. Na borda leste da ilha, no ponto aproximado onde o drone de Thago tinha captado a fumaça, a equipe encontrou vestígios de combustão recente. Havia um círculo de cinzas com cerca de 60 cm de diâmetro, restos de carvão vegetal, aparentemente de galhos da vegetação local.

e marcas de queimada no solo num raio de pouco mais de 1 m. A análise preliminar indicava que o fogo tinha sido aceso e mantido de forma controlada, não espontânea. Não havia sinais de incêndio acidental, nem de combustão natural. Alguém tinha feito aquela fogueira deliberadamente a 5 m do ponto de combustão, e a equipe encontrou uma estrutura rudimentar feita com galhos de árvores e arbustos nativos, parcialmente desmontada, como se tivesse sido abandonada ou derrubada pelo vento. A estrutura tinha formato de

tenda irregular, com aproximadamente 1,5 m de altura e 2 m de comprimento. Entre os galhos havia fragmentos de um material sintético, fino, escuro, parcialmente deteriorado pela exposição ao sol e à chuva. Os biólogos não conseguiram identificar o material em campo. Podia ser lona, podia ser tecido sintético, podia ser parte de um saco de dormir, de uma capa de chuva ou de qualquer outro objeto que alguém tivesse levado para ali.

A equipe vasculhou o restante da ilha durante as horas seguintes. Não foram encontrados restos humanos, não foram encontrados objetos pessoais, nenhuma peça de roupa, nenhum utensílio e nenhum recipiente de água, nenhuma ferramenta. Não foram encontradas pegadas preserváis. O solo da ilha Rata é uma mistura de rocha vulcânica e areia grossa que não retém marcas por mais de algumas horas, especialmente durante a estação chuvosa.

Não foram encontrados restos de alimentos, nem sinais de captação de água. O perito da polícia civil coletou amostras das cinzas, do carvão e do material sintético para a análise laboratorial. As amostras foram enviadas ao Instituto de Criminalística de Pernambuco, no Recife, com pedido de prioridade. O relatório da vistoria, divulgado 40 dias depois confirmava os achados de campo e acrescentava um dado técnico importante.

A análise das cinzas indicava que a combustão tinha ocorrido dentro de um intervalo de 10 a 30 dias antes da vistoria. e que era compatível com a data em que o drone tinha filmado a fumaça. O material sintético foi classificado como polietileno de baixa densidade, o mesmo material usado em lonas plásticas, sacolas resistentes e coberturas improvisadas.

O relatório não concluía nada sobre a identidade de quem tinha estado na ilha. Não concluía nada sobre a relação, se é que existia. entre os vestígios encontrados e o desaparecimento das irmãs Bastos Cavalcante. Não concluía nada sobre quanto tempo aquela pessoa ou aquelas pessoas tinham permanecido ali.

Dizia apenas que havia evidência material de presença humana não autorizada em área de proteção ambiental integral. Nori que o caso deveria ser encaminhado simultaneamente à Polícia Federal, por se tratar de possível crime ambiental em Unidade de Conservação Federal e a Polícia Civil de Pernambuco, por possível conexão com inquérito de desaparecimento previamente arquivado. O relatório foi encaminhado.

A Polícia Federal abriu um procedimento administrativo. A Polícia Civil reabriu o inquérito das irmãs Bastos Cavalcante em maio de 2022, 2 anos e meio depois do desaparecimento. Mas reabrir um inquérito não significa que alguém voltou a procurar. Significa que o papel voltou a circular, que os carimbos voltaram a ser batidos, que o processo saiu de uma pilha de casos inativos e entrou em outra pilha de casos em andamento, onde ficaria esperando a próxima diligência que alguém decidisse realizar.

Sebastião soube da reabertura por telefone. O delegado ligou para informar em tom neutro e correto que o inquérito estava novamente ativo e que novas diligências seriam realizadas conforme a disponibilidade da equipe. Sebastião agradeceu, desligou e olhou para o mar pela janela da cozinha. Não sentiu alívio, não sentiu esperança, sentiu apenas que a máquina tinha voltado a funcionar, lenta, barulhenta, imprecisa, e que ele continuava parado no mesmo lugar de sempre, esperando algo que talvez nunca chegasse.

No mês seguinte, o Ministério Público de Pernambuco solicitou ao ICM Bio uma nova vistoria na Ilha Rata, dessa vez com equipamento mais sofisticado, câmeras térmicas, detector de metais, equipamento de coleta forense ampliada e o ICM Bio negou o pedido com base em parecer técnico que alertava para o impacto ambiental de uma operação daquela escala numa área de proteção integral com ecossistema ensível.

O MP recorreu. O recurso ficou parado na Justiça Federal durante 4 meses. Quando finalmente foi concedida a autorização para uma segunda vistoria, em outubro de 2022, a equipe voltou à Ilha Rata e não encontrou mais nada. As cinzas tinham sido lavadas pelas chuvas do inverno. A estrutura de galhos tinha sido completamente desmontada pelo vento.

O material sintético tinha desaparecido. A ilha estava limpa. O tempo e o clima tinham feito o que qualquer pessoa que mora no litoral sabe que fazem. Apagaram os rastros. O perito da Polícia Civil, que participou da segunda vistoria, escreveu uma nota de três parágrafos que foi anexada ao inquérito.

A nota dizia, em resumo, que os vestígios encontrados na primeira vistoria eram reais e documentados, mas que a impossibilidade de realizar análises complementares em tempo hábil e a deterioração natural das evidências impediam qualquer conclusão sobre autoria, permanência ou propósito da presença humana na ilha. A nota terminava com uma frase que ninguém na família Bastos Cavalcante esqueceu.

A janela de oportunidade investigativa se fechou. Marlene leu essa frase num documento oficial e sentiu pela primeira vez em quase três anos algo que não era raiva nem tristeza, era cansaço. tipo de cansaço que se instala nos ossos, que não passa com sono nem com descanso, que fica ali como uma companhia silenciosa e permanente, o cansaço de quem lutou contra um sistema que não funciona na mesma velocidade que a dor, mas o cansaço de quem chegou perto de mais de uma resposta e viu a resposta ser levada pelo vento e pela chuva antes que alguém pudesse

alcançá-la. Mas Marlene não parou. Continuou indo à Noronha, continuou conversando com pescadores, continuou marcando pontos no mapa plastificado com a caneta vermelha que já estava quase sem tinta. Comprou outra caneta, continuou. Sebastião também não parou, mas a forma dele de continuar era diferente, era mais silenciosa, mais solitária, mais difícil de explicar para quem não estava lá.

Continuou saindo de madrugada com o barco de índio. Continuou olhando para as ilhas secundárias com aquela expressão que os vizinhos já conheciam e que ninguém ousava interromper. Continuou servindo café da manhã para os hóspedes, trocando lençóis, sorrindo quando necessário, vivendo uma vida que por fora parecia funcional e por dentro tinha parado de fazer sentido.

A pousada continuou recebendo turistas que chegavam encantados, tiravam fotos no mirante, mergulhavam nas piscinas naturais e iam embora, sem saber que o dono daquela casa tinha perdido duas filhas no mesmo mar onde eles estavam nadando. Sebastião nunca falou do caso com nenhum hóspede, nunca pediu ajuda, nunca colocou um cartaz na recepção.

A dor dele era uma coisa privada, guardada numa gaveta junto com o caderninho de capa preta e com a última frase que Renata tinha escrito: “A correnteza leva para fora, mas quem conhece volta pelo canal”. Ele lia essa frase de vez em quando. Não sabia exatamente o que significava, mas sentia que significava alguma coisa que ninguém tinha tido paciência para decifrar.

Na mesma época em que a segunda vistoria na ilha Rata produzia o nada que produziu, um oceanógrafo aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, um homem chamado Geraldo Fonseca Braga, que tinha dedicado 30 anos da carreira ao estudo das correntes do Atlântico Equatorial, leu uma matéria sobre o caso num jornal do Recife e resolveu fazer algo que nenhum investigador oficial tinha feito.

analisar as correntes ao redor do arquipélago no dia 14 de novembro de 2019, com base em dados de satélite disponíveis publicamente, Geraldo não conhecia a família, não tinha vínculo com o caso, não tinha interesse comercial nem acadêmico, tinha 72 anos, morava num apartamento no bairro de Petrópolis em Natal.

vivia sozinho desde que a esposa tinha morrido em 2018 e passava os dias lendo artigos e consultando bases de dados oceanográficos e assistindo ao Jornal Nacional. Era o tipo de cientista que não consegue se aposentar de verdade, que continua pensando, calculando e questionando mesmo sem laboratório, sem equipe e sem ninguém pedindo.

O que Geraldo descobriu foi simples em termos técnicos e devastador em termos humanos. No dia 14 de novembro de 2019, os dados de satélite do programa Copérnicos, o sistema europeu de monitoramento oceânico, mostravam uma corrente de superfície incomum na região do arquipélago, uma corrente que fluía de noroeste para sudeste, passando entre a ilha principal e as ilhas secundárias, com velocidade estimada entre 1,5 e 2,2 nós.

Essa corrente, que não era habitual para aquela época do ano, não tinha duração estimada de 6 a 8 horas e coincidia com o período entre a saída das irmãs do porto e o momento em que o barco provavelmente chegou à praia do leão. Em outras palavras, a corrente podia explicar como o barco tinha ido parar no lado oposto da ilha sem que o motor estivesse funcionando.

Bastava que o motor tivesse sido desligado por qualquer motivo durante aquele período. A corrente faria o resto. Mas a corrente explicava outra coisa, explicava o canal. Geraldo analisou os dados com mais cuidado e percebeu que entre a ilha principal e a ilha rata, a corrente de superfície criava um corredor estreito, um canal temporário, onde o fluxo de água era mais lento e mais previsível do que nas áreas ao redor.

Esse canal existia apenas durante as horas em que a corrente anômala estava ativa. Nas condições normais, desde a passagem entre as duas ilhas, era dominada por correntes laterais fortes e imprevisíveis, que tornavam a travessia arriscada para qualquer embarcação pequena e praticamente impossível anado. Mas durante aquelas 6 a 8 horas do dia 14 de novembro, o canal estava aberto.

Alguém que conhecesse o mar, alguém que soubesse ler correntes, que soubesse identificar o momento exato em que o fluxo mudava, poderia ter cruzado a nado a distância de pouco mais de 1 km entre a costa sudeste da ilha principal e a borda oeste da ilha Rata. Geraldo escreveu um relatório de seis páginas, anexou os dados de satélite e os mapas de corrente e enviou por e-mail para a Delegacia de Polícia Civil de Pernambuco, para o Ministério Público e para o ICM bio.

Mandou cópia para Marlene, cujo contato tinha encontrado numa reportagem, e Marlene ligou para ele no mesmo dia. Falaram durante 2 horas. O relatório de Geraldo não provava que Renata e Débora tinham nadado até a ilha Rata. Não provava que estivessem vivas. Não provava nada além de uma possibilidade técnica que, combinada com a anotação no caderninho de Renata, a correnteza leva para fora.

Mas quem conhece Volta pelo canal adquiria um peso que ia muito além da oceanografia. Porque se Renata sabia do canal, se tinha anotado no caderninho no dia anterior ao desaparecimento, se tinha planejado ir até a ilha Rata por alguma razão que só ela conhecia. Então, o desaparecimento talvez não fosse um acidente, talvez não fosse um afogamento, talvez fosse uma decisão.

E essa possibilidade, a possibilidade de que as filhas tivessem escolhido desaparecer era para Sebastião e para Marlene, e mais difícil de suportar do que qualquer tragédia natural. Porque uma tragédia não tem culpa. Uma decisão tem motivo. E se tinha motivo, então havia algo que eles não sabiam, algo que não tinham visto, algo que não tinham perguntado, algo que talvez pudessem ter evitado se tivessem prestado mais atenção, se tivessem feito as perguntas certas, se tivessem sido os pais que as filhas precisavam, em vez dos pais que tinham

conseguido ser. Essa é a pergunta que destrói por dentro. Não a pergunta sobre onde elas estão, mas a pergunta sobre porquê. O inquérito reaberto não avançou além dos documentos que foram anexados a ele. O relatório de Geraldo foi juntado ao processo. A análise do material sintético encontrado na ilha Rata, o polietileno de baixa densidade não produziu resultados conclusivos.

Não havia impressões digitais, não havia material biológico, não havia fibras de roupa, nem fios de cabelo. O laboratório do Instituto de Criminalística do Recife emitiu um laudo de três páginas, dizendo essencialmente que o material era compatível com centenas de produtos industriais disponíveis no mercado e que não era possível determinar origem, uso ou tempo de exposição com os métodos disponíveis.

A Polícia Federal concluiu o procedimento administrativo sobre a presença humana não autorizada na Ilha Rata, com uma recomendação ao ICM Bio para aumentar a fiscalização das ilhas secundárias. não identificou suspeitos, não instaurou inquérito policial, não fez nenhuma diligência adicional, além de solicitar ao ICM Bio a lista de autorizações de acesso emitidas nos 12 meses anteriores à vistoria.

E a lista tinha quatro nomes, todos pesquisadores ou funcionários do próprio órgão e nenhum deles estava na ilha nas datas relevantes. O caso voltou a estagnar. Mas dessa vez a estagnação não veio acompanhada de silêncio, veio acompanhada de ruído. O vídeo do drone, o relatório de Geraldo, a anotação no caderninho.

Tudo isso circulou na internet, foi discutido em podcasts, foi analisado por amadores e especialistas, foi transformado em teoria por gente que nunca tinha pisado em Fernando de Noronha e que provavelmente nunca pisaria. O caso das irmãs Bastos Cavalcante deixou de ser uma história local e se tornou uma dessas histórias que a internet adota, alimenta e transforma em algo que os próprios envolvidos não reconhecem mais.

Para Marlene, o barulho da internet era ao mesmo tempo uma bênção e uma tortura. bênção, porque mantinha o caso vivo, porque pressionava as autoridades, porque fazia com que as filhas dela não fossem esquecidas. Tortura porque cada teoria nova, cada especulação, cada comentário de desconhecido, dizendo: “Eu acho que elas fugiram ou eu acho que elas foram sequestradas, ou eu acho que elas estão vivas numa ilha”.

Era uma agulha fina entrando num lugar que já não aguentava mais ser perfurado. Sebastião não acompanhava a internet, não tinha redes sociais, não lia os comentários, não via os vídeos, sabia que existiam porque os hóspedes às vezes comentavam: “Ah, o Senhor é o pai daquelas meninas”. E ele respondia com um aceno breve e mudava de assunto.

A dor de Sebastião era analógica. Era feita de silêncio, de madrugadas no mar e de um caderninho numa gaveta, e de um relógio de cozinha que continuava marcando as horas, como se as horas ainda tivessem o mesmo peso de antes. Em dezembro de 2023, 4 anos e um mês depois do desaparecimento, Marlene fez a última viagem a Fernando de Noronha.

Não foi para procurar, foi para se despedir, não das filhas. Porque despedir-se de quem pode estar vivo é uma coisa que nenhuma mãe consegue fazer de verdade. Foi para se despedir da busca da versão dela mesma que tinha surgido em novembro de 2019 e que tinha vivido os últimos 4 anos como uma máquina movida a recusa. recusa de aceitar o veredicto oficial, recusa de parar de procurar, recusa de dormir uma noite inteira sem acordar às 3 da manhã pensando no canal, na fogueira, no caderninho.

Marlene levou a pasta azul com as fotos e o mapa plastificado. L caminhou sozinha pela praia do leão, onde o barco tinha sido encontrado 4 anos antes. Sentou na areia, tirou os sapatos e ficou olhando para o mar durante um tempo que não mediu. Depois levantou, sacudiu a areia da roupa e voltou para a vila.

Encontrou Sebastião na varanda da pousada. Os dois se sentaram lado a lado, como não faziam desde antes da separação, e ficaram ali sem falar enquanto o sol descia atrás do morro do pico. Marlene colocou a pasta azul no colo e abriu. As fotos das meninas estavam desbotadas pelo tempo e pelo manuseio. Os pontos vermelhos no mapa cobriam quase toda a costa da ilha.

Não havia mais lugar para marcar. Sebastião olhou para o mapa e disse a única coisa que disse naquela tarde. Você cobriu tudo, Marlene, tudo o que era possível. Marlene não respondeu, fechou a pasta, guardou dentro da bolsa. Os dois continuaram sentados até escurecer. O caso das irmãs Bastos Cavalcante permanece oficialmente aberto.

O inquérito da Polícia Civil de Pernambuco não foi arquivado novamente após a reabertura de 2022, mas também não registrou nenhuma diligência adicional desde outubro daquele ano. Os nomes de Renata e Débora constam no Sinalid, o sistema nacional de informações de segurança pública sobre pessoas desaparecidas, onde ocupam duas linhas numa base de dados com mais de 80.

000 registros. A pousada de Sebastião continua funcionando na Vila dos Remédios. O quarto das meninas continua com os mesmos lençóis que ele trocou em novembro de 2019. antes da chegada delas. Não foram lavados, não foram trocados, não foram tocados. Marlene voltou a trabalhar no Hospital das Clínicas em janeiro de 2024.

Chegava cedo, no preparava o café da Copa, atendia os ramais com a mesma eficiência de sempre. Ninguém no hospital perguntava mais sobre as filhas. Tinham aprendido a não perguntar. A ilha Rata continua desabitada. protegida inacessível. O ICM Bio reforçou a fiscalização com um sistema de câmeras instalado em 2023 que monitora as ilhas secundárias por transmissão via satélite.

Desde a instalação, nenhuma atividade humana foi registrada, nenhuma fogueira, nenhuma estrutura, nenhum sinal. Mas os pescadores de Noronha, os antigos, os que saem antes do amanhecer e voltam depois do escurecer, continuam dizendo quando alguém pergunta que de vez em quando se vê uma luz fraca na direção da Ilha Rata.

Não toda a noite, não toda semana, mas de vez em quando. Uma luz que acende e apaga, que pode ser reflexo da lua na rocha molhada, mas que pode ser bioluminescência na espuma das ondas, que pode ser qualquer coisa que o mar faz quando ninguém está olhando, ou que pode ser outra coisa, ninguém sabe. E talvez esse seja o ponto.

Talvez o peso real dessa história não esteja no que aconteceu, mas no que não se conseguiu saber. Na distância entre uma pergunta e uma resposta que nunca chega, no espaço vazio entre uma foto de WhatsApp enviada às 6:42 da manhã e o silêncio que veio depois no intervalo entre uma mãe que disse se cuida e duas filhas que não voltaram para dizer voltei passaram-se os anos.

Fernando de Noronha continua sendo um dos lugares mais bonitos do Brasil. Os turistas continuam chegando, tirando fotos, mergulhando nas mesmas águas. O morro dois irmãos continua ali, no mesmo lugar de sempre, e com o mesmo contorno que aparecia na selfie que Renata mandou para a mãe naquela manhã de novembro.

Tudo igual, tudo no lugar, menos duas pessoas, menos as respostas que uma família precisava para conseguir seguir em frente. Menos a certeza, qualquer certeza que permitiria a um pai parar de olhar para o mar toda a madrugada e a uma mãe parar de acordar às 3 da manhã com o coração acelerado. A história não termina com uma explicação, termina com uma fogueira que ninguém sabe quem acendeu, com um caderninho que ninguém soube interpretar a tempo e com duas cadeiras vazias numa varanda em Fernando de Noronha, de frente para um

mar que guarda o que sabe e que não deve nada a ninguém.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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