DE ÍCONE DA LAMBADA A VÍTIMA DE UM CRIME BÁRBARO: O CASO LOALVA BRAZ
entre março e abril de 1988, ela foi chamada para participar de um concurso que escolheria a voz que seria integrante de um novo grupo que estava sendo formado. A princípio, os empresários desse grupo procuravam por uma mulher que estivesse na faixa dos 20 e poucos anos, mas Loalwa, que já tinha 35 anos, teria feito uma apresentação — ou seja, uma performance — tão incrível que encantou os jurados, e assim ela acabou sendo escolhida para ser a vocalista do tal novo grupo, que era composto por vários participantes de países diferentes. Ela mesma escolheu o nome do grupo, que ficou conhecido então como Kaoma (o que me fez lembrar, inclusive, algo parecido com o Now United hoje em dia, guardadas as devidas proporções e também o estilo musical).
O grupo Kaoma fez sucesso apenas dois meses após a formação com o lançamento da música “Chorando Se Foi”, lançada na Europa em 1989. Essa música tinha um ritmo de lambada contagiante que fazia o povo querer dançar quase que instantaneamente. O ritmo virou febre em todos os locais do mundo, tocando em mais de 100 países, e assim, naturalmente, o grupo Kaoma ganhou fama internacional. Eles venderam mais de 30 milhões de discos em mais de 80 países. O grupo permaneceu no top 50 das paradas musicais da França por 57 semanas seguidas, sendo que em 12 delas eles estavam em primeiro lugar. Loalwa chegou a ser reconhecida pelo Guinness Book como uma das 20 vozes mais ouvidas no mundo.
No Brasil, galera, a lambada, que é um ritmo originário do Pará, já era muito conhecida, mas a música “Chorando Se Foi” foi explosiva e, de norte a sul, era tocada em todas as discotecas da época, festas, aniversários, enfim… era realmente um grande sucesso. O grupo Kaoma conseguiu solidificar esse gênero musical, a lambada, como um ritmo internacional. Mas, logo após o início da fama, um grupo boliviano chamado Los Kjarkas teria entrado com um processo contra eles, pois a música originalmente pertencia a eles e também a uma cantora brasileira chamada Márcia Ferreira. O processo durou alguns anos e foi realmente provado que, de fato, o grupo Kaoma não era o autor da música. Então eles tiveram que pagar uma indenização milionária ao grupo que reivindicou a autoria, o que acabou meio que abalando a estrutura do grupo. Eles teriam se separado no ano de 1998, e Loalwa deu início, então, à sua carreira solo em 2003.
E aí a gente dá um salto no tempo e chegamos em junho de 2015. Nesse momento, Loalwa anunciou o retorno do grupo Kaoma com uma nova formação, mas, por motivos de saúde, ela não pôde dar continuidade ao projeto. Mas, abduzidos, quero frisar aqui que a história por trás da banda Kaoma e da Loalwa Braz é muito maior; a gente trouxe aqui apenas algumas partes para o entendimento sobre o contexto do caso, beleza?

Durante sua carreira, Loalwa morou na França, onde acabou conhecendo um cara chamado Éric Lherbour, que era um empresário francês com quem ela acabou se casando e tendo dois filhos. A família também morou alguns anos na Suíça, mas, após a descoberta de um câncer em meados de 2015, Loalwa, então com 61 anos de idade, teria decidido voltar à sua terra natal, ou seja, ao Rio de Janeiro, no brasilzão. Ela então comprou uma pousada situada na Região dos Lagos, na cidade de Saquarema, no estado do Rio de Janeiro. Ela veio ao Brasil sozinha e seu marido teria ficado na França. Em meio a tudo isso, ela estava tratando o câncer.
Mas, na madrugada do dia 19 de janeiro de 2017, por volta das 3 horas da manhã, o corpo de bombeiros foi acionado para apagar um incêndio que ocorria na pousada de Loalwa. Enquanto ainda estavam controlando as chamas no local, como vocês viram, houve uma segunda chamada dizendo que um carro que estava a mais ou menos 2 km da pousada também estava em chamas e que era preciso verificar a ocorrência. O carro estava precisamente na Estrada de Barreira, no distrito de Bacaxá. Ao controlarem as chamas do veículo, os oficiais encontraram um corpo carbonizado dentro do porta-malas. Tanto a pousada quanto o carro pertenciam a Loalwa Braz. Infelizmente, o corpo também foi identificado como sendo dela.
Por se tratar de uma cena de crime, a polícia foi imediatamente chamada e, a princípio, não tinha suspeitos prováveis. Mas os oficiais decidiram interrogar naturalmente todos os funcionários da pousada, principalmente aquele que acionou a polícia. Um deles era Wallace de Paula Vieira, de 25 anos. Segundo ele, Loalwa teria sido abordada por dois homens que a levaram para o porta-malas do carro dela, e ele, Wallace, tentou defendê-la bravamente. O homem de fato estava com alguns hematomas e com sua roupa rasgada, mas ele havia apresentado pequenas contradições em seu depoimento que não se encaixavam muito bem com os fatos, como, por exemplo, ser um dia de folga dele, então não tinha motivo aparente para estar na pousada naquele dia, principalmente de madrugada.
Ao ser pressionado pela polícia, Wallace contou uma história tão macabra e com uma justificativa tão lamentavelmente tosca que foi até mesmo difícil para os investigadores acreditarem (e para nós também, como vocês vão ver). Loalwa contratava funcionários freelancer durante as épocas mais movimentadas da pousada, e janeiro, por ser um mês de férias, era um período em que as pessoas procuravam mais o local. Assim, mais ou menos duas semanas antes do ocorrido (uns 15 dias), Loalwa contratou Wallace para ser o guarda do local, ou seja, a pessoa que ficaria responsável pela entrada, verificando as identidades das pessoas que entravam e saíam da pousada.
Wallace tinha acesso a todo o perímetro da pousada, e um local em particular chamou a atenção do homem: era o salão onde Loalwa deixava todos os seus prêmios que tinha conquistado ao longo da carreira, como, por exemplo, placas de agradecimento, disco de platina e disco de ouro. Esse último item, inclusive, foi o que mais chamou a atenção de Wallace, então o cara passou a desejar esse objeto. Wallace teria passado dias pensando em como roubar o item, mas ficou ainda mais atiçado quando descobriu que Loalwa também guardava dinheiro em espécie dentro da casa. Mas aqui é bom ressaltar que não encontramos correspondência nas fontes sobre como ele descobriu isso, se alguém contou para ele ou se ele acabou vendo por algum descuido da mulher. Ele também sabia que naquela madrugada de quarta para quinta-feira não haveria nenhum hóspede no local e que a maioria dos funcionários não estaria na pousada, restando então somente os funcionários fixos, que eram moradores, mas que ficavam um pouco afastados da casa de Loalwa.
Então, por volta das três da madrugada, ele chegou de táxi ao local acompanhado de mais dois comparsas. Os três arrombaram a porta e invadiram o quarto de Loalwa enquanto ela estava dormindo. Munidos de alguns pedaços de madeira e facas, eles teriam agredido a cantora repetidas vezes com chutes, golpes e pauladas até que ela desmaiasse. Depois disso, colocaram Loalwa no porta-malas do carro dela junto com um botijão de gás (veja que o plano já estava arquitetado nessas mentes malignas). Eles roubaram vários pertences valiosos, como porcelanas, prataria, joias, celular, cartão bancário, um vaso que tinha R$ 15 mil em dinheiro dentro e, por fim, o tão desejado disco de ouro. Mas, para decepção somente de Wallace (convenhamos), ele descobriu que o objeto que tinha em mãos não era de ouro, mas sim de plástico — era só uma simbologia. Então, os três sujeitos acabaram também roubando coisas fúteis, como maquiagens e um aparelho de surdez que a cantora usava.
Os dois comparsas de Wallace fugiram no carro com Loalwa no porta-malas, enquanto Wallace colocou fogo na casa para encobrir o que havia feito ali. Após isso, ele saiu gritando por ajuda e chamando os outros funcionários, dizendo que Loalwa tinha sido sequestrada. Acontece que, a menos de 2 km da pousada, o carro de Loalwa apresentou alguns problemas e parou de funcionar. Os dois comparsas entraram em desespero e ligaram para Wallace, que estava naquele momento na pousada se fazendo de vítima. Ele apareceu lá no local do carro minutos depois e, agora, como já tinham começado toda a barbaridade, na mente deturpada do sujeito ele tinha que terminar o serviço. O que ele fez, então? Colocou fogo no carro de Loalwa com ela ainda viva no porta-malas. O intuito de terem colocado o botijão de gás lá era para que o automóvel explodisse e assim, na mente deles, acabasse com todas as evidências e principalmente com o corpo de Loalwa. Mas o botijão não explodiu.
Os dois comparsas de Wallace foram denunciados pelo próprio Wallace (vejam só!), sendo eles Lucas Silva de Lima, de 18 anos, e Gabriel Ferreira dos Santos, de 21. Até o final do mesmo dia, ambos foram localizados e capturados. Wallace mostrou onde havia escondido alguns dos objetos roubados, incluindo o disco de ouro (que na verdade não era de ouro) e o vaso que tinha o dinheiro, mas que já estava vazio. Junto também foram encontradas imagens de um santo e uma placa de computador, mas, segundo a polícia, os R$ 15 mil nunca foram encontrados. É isso mesmo, abduzidos: Wallace tinha sido contratado há apenas 15 dias e foi tempo suficiente para que ele planejasse o roubo e a morte de Loalwa. Wallace já tinha passagens pela polícia por furto, e não fica claro nas fontes se Loalwa sabia disso ou não. Lucas Lima e Gabriel dos Santos tinham passagens por tráfico de entorpecentes.
A tragédia, como podemos imaginar, foi manchete no mundo todo, que noticiava a perda de uma das vozes mais belas do Brasil. Loalwa foi lembrada por já ter feito parcerias com Djavan, Gilberto Gil e Alcione, e por quão importante foi para a música brasileira e internacional, servindo de inspiração até para Jennifer Lopez, que, mesmo 20 anos depois do sucesso do grupo Kaoma, lançou uma versão mais moderna da música “Chorando Se Foi”.
Durante uma reportagem que teria ido ao ar em uma rede de televisão meses antes da tragédia, Loalwa chegou a revelar que já tinha sofrido algumas ameaças de morte e que inclusive já tinha sido sequestrada, tudo isso por conta, obviamente, do dinheiro. Embora houvesse a especulação da ligação do crime com as ameaças anteriores, mais tarde a polícia informou que eram situações completamente diferentes e que não tinham nenhuma ligação.
Mesmo tendo sido identificada no mesmo dia do crime, o corpo de Loalwa tinha sido carbonizado e, por conta disso, era necessário um exame de DNA para poder confirmar a identidade. Mas, por falta de material, o corpo permaneceu no IML durante quase dois meses, sendo liberado apenas no dia 13 de março de 2017. Ela foi enterrada no Espírito Santo no dia 16 de março e, durante o funeral, amigos, familiares e fãs cantaram a música “Chorando Se Foi” como uma última homenagem.
No dia 8 de janeiro de 2018, o trio de criminosos foi julgado na Primeira Vara de Saquarema. Wallace de Paula Vieira foi condenado a 37 anos de prisão por latrocínio (roubo seguido de morte), agravado pelo fato de ter cometido incêndio criminoso ao colocar fogo na casa da vítima. Gabriel Ferreira dos Santos foi condenado a 28 anos e Lucas Silva de Lima a 22 anos pelo crime de latrocínio. Ambos se encontram presos no Complexo Penitenciário de Gericinó, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Até hoje, Loalwa Braz é conhecida como a Rainha da Lambada, e o hit “Chorando Se Foi” é considerado um hino da lambada. Pois é, abduzidos, que história triste e lamentável, né? Que motivo é esse, cara? O cara ficou fissurado pelo disco de ouro que nem de ouro era, cara! A ganância do sujeito com pitadas de psicopatia produziu na mente dele esse plano completamente macabro que ele concluiu supostamente na base do improviso, como a gente viu. Um ato completamente escabroso! Por isso que, na minha opinião — e quero saber a de vocês —, não deveria haver progressão de pena e essas coisas todas que encurtam o tempo de cadeia desses sujeitos. Deixe sua opinião, lembre-se de que o espaço dos comentários é bem terapêutico, beleza? Obrigado pela sua companhia até a próxima história.