“Aqui o bagulho é grandão, mas já tá pequeno: a gente quer levar os cria mesmo”: O vazamento de um áudio atribuído a Peixão e a complexa articulação que pode mudar o mapa do crime no Rio de Janeiro.
O cenário da segurança pública no Rio de Janeiro é frequentemente marcado por disputas territoriais intensas, alianças estratégicas e constantes tentativas de expansão de facções criminosas. Recentemente, a divulgação de um material gravado trouxe à tona os bastidores das negociações e das táticas utilizadas pelos chefes que comandam o crime organizado na capital fluminense. Um áudio atribuído a Álvaro Malaquias Santa Rosa, popularmente conhecido como “Peixão” ou “Big Fish”, veio a público, gerando grande repercussão nos meios de comunicação e acendendo o sinal de alerta nas forças de inteligência da polícia. A gravação revela uma conversa direta e sem rodeios com um integrante do Comando Vermelho, sugerindo uma tentativa de cooptação e um movimento estratégico que visa redefinir o domínio de áreas de extrema importância tática na Zona Norte carioca.

O Mistério Sobre o Paradeiro do Ladrão de Favelas e a Pressão no Complexo de Israel
Antes do surgimento deste material de áudio, especulações diversas cercavam a rotina e a localização exata de Peixão. Por um período significativo, investigações e setores da imprensa especializada levantaram a hipótese de que o líder criminoso estaria escondido fora do país, possivelmente refugiado na Bolívia. Essa tese ganhou força após a prisão de sua esposa, momento em que as autoridades acreditavam que ela tentava cruzar a fronteira para encontrá-lo. Contudo, após a liberação da mulher, a polícia passou a reavaliar os cenários e a desconfiar de que Peixão jamais esteve tão longe ou que, no mínimo, já havia retornado ao Rio de Janeiro.
Informações sobre eventos e festas no chamado Complexo de Israel reforçaram a tese de que o traficante estaria presencialmente no local para manter o controle absoluto de suas tropas. Essa presença física é vista como fundamental pela liderança do Terceiro Comando Puro para conter o avanço do Comando Vermelho, que vem realizando uma contínua e ostensiva expansão territorial por diversas regiões da cidade, incluindo setores estratégicos da Zona Oeste e do Jacarepaguá. Esse crescimento da facção rival amplia seu poder financeiro e bélico, exigindo que Peixão mantenha suas posições firmes para proteger e consolidar o espaço acumulado ao longo de quase duas décadas na Zona Norte.
A Estratégia de Convencimento e o Alvo em Jardim América
No áudio divulgado pelo programa “Balanço Geral”, apresentado por Tino Júnior, a voz atribuída a Peixão estabelece um diálogo tenso e diplomático com um membro do Comando Vermelho. O objetivo central da conversa é propor uma troca de lado – o famoso “pular o muro” – convidando o interlocutor e os chamados “cria” a integrarem a sua estrutura criminosa. A região em pauta na conversa é o bairro de Jardim América, uma localidade que possui uma posição geográfica extremamente cobiçada por estar colada a Vigário Geral e servindo como uma das portas de entrada e transição para a área do Complexo do Alemão.
Atualmente, o Complexo de Israel é formado por um conjunto unificado que abrange grandes comunidades como Cidade Alta, Vigário Geral, Parada de Lucas, Cinco Bocas e Pica-Pau. No entanto, uma parcela expressiva de Jardim América permanece sob o domínio do Comando Vermelho. Para Peixão, anexar essa localidade ao seu domínio não representa apenas mais uma conquista, mas sim o fechamento de um cinturão de segurança e a criação de uma barreira ainda mais sólida contra os ataques rivais. A tomada ou a cooptação de Jardim América ampliaria a arrecadação da facção e fortaleceria consideravelmente a posição do Terceiro Comando Puro no mapa da criminalidade urbana.
Respeito Familiar e a Retórica da Doutrina Diferenciada
Um dos pontos que mais chamam a atenção na gravação é o tom utilizado na abordagem. Longe do tom meramente agressivo ou de ameaça imediata, a fala busca construir uma narrativa baseada no respeito às conexões familiares e no tempo de convivência no crime. Peixão inicia a conversa destacando a relação entre o homem com quem fala e seu próprio sobrinho, que já atua ao lado da facção de Peixão há cerca de duas décadas. Ele enfatiza que a intenção não é utilizar demagogia, mas sim reconhecer a posição e a trajetória dos envolvidos na hierarquia do crime local.
Em seguida, o áudio faz menção ao histórico de convivência na região. Peixão argumenta que há quase vinte anos está estabelecido em Vigário Geral e que sempre buscou evitar confrontos diretos e desnecessários com os vizinhos de Jardim América. Ele relembra um episódio específico de 2015, no qual um disparo vindo da favela vizinha atingiu o braço de um jovem que estava com seu grupo. Na ocasião, segundo o relato no áudio, ele teria se preparado para a guerra, mas o conflito foi contido. Ele utiliza essa memória para demonstrar que, quando decide entrar em um embate, faz isso até as últimas consequências, usando esse argumento para pressionar o interlocutor a refletir bem sobre as escolhas a serem feitas no futuro.
Vídeo:
A Proposta de Expansão e o Futuro do Território
Na parte final da gravação, Peixão deixa claro que não deseja apenas abrigar refugiados criminosos em seu território atual. O verdadeiro propósito é expandir suas fronteiras físicas e implementar uma nova gestão nas áreas dominadas. Ele afirma que o espaço que hoje controla já se tornou pequeno para as suas ambições e que a intenção é “levar os cria” de volta para seus próprios locais de origem, mas sob uma nova bandeira e uma “doutrina diferenciada”.
A mensagem passada pelo líder criminoso propõe a unificação das comunidades daquela região em prol de um único ideal, alinhado com o modelo de gestão implantado no Complexo de Israel. Ele oferece ao interlocutor a garantia de que não precisará abandonar sua vida ou seus bens do lado de fora, em Jardim América ou Vigário Geral, caso decida se juntar ao seu elenco. A gravação revela como os líderes das facções usam aparelhos de comunicação para negociar tréguas, enviar avisos prévios de invasão e tentar enfraquecer os rivais internamente antes de deflagrar ataques armados.
Enquanto esses áudios circulam e revelam os bastidores das articulações criminosas, a Polícia Civil e os setores de inteligência do estado do Rio Grande do Janeiro monitoram as movimentações e utilizam os registros telefônicos e grampos para mapear os passos dos envolvidos. A disputa entre o Terceiro Comando Puro e o Comando Vermelho no entorno de Jardim América e do Complexo do Alemão permanece como um dos pontos mais críticos do confronto urbano na capital, evidenciando que a busca por território e poder continua a ditar o ritmo da segurança pública fluminense.