A SENHORA NÃO TEM QUEM A CUIDE E EU NÃO TENHO ONDE MORAR COM MEUS FILHOS, DISSE A MÃE VIÚVA

O resto

“Me chamo Odete Silva”, disse ela. “E ela é Doralice. Ele é Anselmo.” “Não perguntei como se chamam.” “Já sei que não perguntou.” Hermelinda sentiu uma pontada de irritação e algo mais abaixo da irritação, algo que não quis encarar. “Vai embora”, disse. “Aqui não tem nada para você.” Odete pigarreou, mas não se moveu. A menina Doralice puxou a saia da mãe.

Hermelinda viu esse puxão. Viu a mãozinha suja agarrando o tecido gasto. Viu os pés descalços da criança, os chinelos rotos, as unhas pretas de terra, e viu acima de tudo que a menina não chorava. Uma menina de 6 anos morrendo de fome e de cansaço, parada em frente ao portão de uma desconhecida ao anoitecer, e não chorava. Isso só fazem as crianças que já aprenderam que chorar não adianta.

“Senhora”, disse Odete, e agora a voz lhe tremeu um pouco. “Me mandaram embora da fazenda do seu Cássio. Enterrei meu marido há três meses e me deram até hoje para desocupar o casebre. Venho caminhando desde o amanhecer. Meus filhos não comeram mais que um pedaço de broa de fubá desde ontem.”

“Isso não é problema meu.” “Já sei que não.” “Então vai embora.” Odete assentiu devagar, e Hermelinda pensou, com um alívio que lhe pareceu amargo na boca, que agora sim ela iria embora, que pegaria o jumento e voltaria por onde veio, e que ela poderia entrar em sua casa, fechar a porta, esquentar o café da manhã e sentar em sua cadeira para esperar que mais um dia acabasse.

Mas Odete não pegou o jumento. Odete deu um passo à frente até se encostar na cerca de paus e disse a coisa que Hermelinda iria recordar até o último dia de sua vida. “A senhora não tem quem cuide de você”, disse. “Eu não tenho onde morar com meus filhos”. O silêncio que veio depois foi tão grande que se ouviu o jumento resfolegar.

Hermelinda sentiu o sangue subir-lhe ao rosto. Sentiu a mão esquerda apertar o tubo do andador com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Sentiu, pela primeira vez em 18 anos, vontade de gritar, porque não era mentira. Esse era o problema. Não era mentira. Dona Hermelinda Fagundes tinha 78 anos e não tinha quem cuidasse dela.

Não tinha quem lhe trouxesse água do poço quando lhe doía o quadril. Não tinha quem acendesse o fogão a lenha nas manhãs frias. Não tinha quem a levantasse se caísse. Havia um botão de emergência que não existia, um vizinho que não vinha, um telefone que nunca houve. Havia uma casa de três quartos, com dois deles fechados há anos porque não suportava abri-los.

Havia um sítio de 20 hectares que estava sendo tomado pelo mato. Havia uma mulher velha que se movia pela casa apoiada em um tubo de metal e que toda noite, antes de dormir, verificava duas vezes a tranca da porta, não por medo de ladrões, mas porque era a única coisa que lhe restava fazer. E aquela desconhecida, essa mulher magra e suja, parada no caminho com dois filhos e um jumento, tinha visto isso em três minutos.

“Quem você pensa que é?”, disse Hermelinda, e a voz lhe saiu rouca. “Ninguém”, respondeu Odete. “Não me penso ninguém, pois ninguém vem à minha casa me dizer o que me falta.” “Não vim dizer o que lhe falta, senhora. Vim dizer o que me falta a mim.” Hermelinda ficou calada. Odete continuou e agora falava rápido, como quem sabe que lhe resta pouco antes que a porta se feche. “Eu sei trabalhar, sei tirar leite, sei lavar, sei cozinhar, sei curar animais, sei plantar. Meu marido era peão e eu fui peão ao lado dele por 9 anos.

Não peço dinheiro, peço um teto, um canto, o paiol, o armazém, o que for. E em troca eu trabalho para a senhora, cuido da casa, faço a comida e, se um dia a senhora cair, eu a levanto.” “Eu não caio.” “Todo mundo cai.” Hermelinda apertou a mandíbula. “E seus filhos?” “Meus filhos comem pouco.” “Seus filhos comem”, disse Hermelinda.

“As crianças comem, comem o dia todo, e sujam, e gritam, e quebram coisas, e ficam doentes, e tem que tirar luz de cima do poço, e tem que tirar o facão das mãos e tem que…” Ela parou. Parou porque ouviu a si mesma. Ouviu-se dizer tudo isso com uma precisão que só tem quem o viveu e percebeu, com o horror que estava descrevendo, sua própria casa.

Sua própria casa de 45 anos atrás: um menino de 12 pendurado no beiral do poço, uma menina de sete escondendo um gato debaixo da mesa, Osório gritando para ela tirar o menino dali antes que se afogasse e, de repente, a casa se encheu de fantasmas. Hermelinda fechou os olhos por um instante. Quando os abriu, Odete estava olhando com uma atenção terrível, como se tivesse visto algo, como se naquele instante tivesse entendido mais do que Hermelinda lhe havia dito em toda a conversa.

“Vai embora”, repetiu Hermelinda, mas já sem força. “Para onde, senhora?” “Não sei.” “Para a vila, a igreja, a caridade?” “Venho da vila. Cheguei de manhã. O padre me deu duas broas de fubá e me disse que Deus proveria.” Odete fez uma pausa. “Deus proveu duas broas de fubá.” Hermelinda piscou e então, contra toda a sua vontade, contra 18 anos de porta fechada e janela fechada e coração fechado, algo dentro dela riu.

Foi uma risada negra, seca, que não chegou a sair-lhe da garganta, mas estava lá. Aquela mulher do caminho tinha brio, tinha a língua de quem já não tem nada a perder. “Está escurecendo”, disse Hermelinda. “Sim, senhora.” “Há lobos-guarás.” “Sim, senhora.” “E eu não vou abrir o portão para você.” Odete baixou o olhar para a filha. A menina a olhava de baixo, com aqueles olhos negros e imensos esperando, esperando que a mãe resolvesse o mundo, como esperam todos os filhos, sem saber que a mãe estava tão perdida quanto eles. “Então dormiremos aqui fora”, disse

Odete, “contra a cerca. Não a incomodaremos. Iremos embora com o primeiro sol.” “Faça o que quiser”, disse Hermelinda, e deu meia volta. Levou quase um minuto inteiro para percorrer os 4 metros que a separavam da porta de sua casa. Um minuto de andador arrastado sobre as lajes. Taque, taque, taque. Com o quadril ardendo e as costas curvadas e a respiração curta.

Um minuto em que soube, com absoluta certeza, que aquela mulher do caminho a estava vendo, a estava vendo caminhar, a estava vendo demorar um minuto para cruzar 4 metros. E Hermelinda, que em 18 anos nunca havia sentido vergonha de nada, sentiu vergonha, entrou, fechou a porta, pôs a tranca e ficou parada na escuridão de sua cozinha, com a mão ainda na madeira, ouvindo sua própria respiração.

Lá fora, alguém começou a desamarrar os pacotes de um jumento. A casa de dona Hermelinda Fagundes tinha três quartos e dois estavam fechados. O primeiro era a cozinha, que era também a sala de jantar, a sala de estar e o lugar onde ela passava as horas. Tinha um fogão a lenha enegrecido, uma mesa de imbuia com quatro cadeiras.

Quatro, sempre quatro. Embora há 18 anos apenas uma tivesse dono, uma despensa, um cântaro de barro e uma cadeira de balanço junto à janela de onde se via o caminho. O segundo era seu quarto, cama de latão, guarda-roupa, um Cristo de madeira na parede e uma fotografia em uma moldura de flandres, onde se via um homem de bigode sentado com uma mulher jovem de pé ao lado e duas crianças à frente.

A fotografia tinha 52 anos. Hermelinda não a olhava nunca. A havia deixado ali porque tirá-la teria sido pior. O terceiro quarto estava trancado. Tinha sido o quarto dos meninos, Valdir e Antônia. Hermelinda o havia fechado no mesmo dia em que enterrou Osório, 18 anos atrás, e não havia voltado a abrir aquela porta.

Dentro, continuavam as duas camas, os brinquedos de madeira que Osório lhes havia esculpido, um vestido de Antônia pendurado em um prego. A chave estava em uma gaveta da despensa, debaixo das toalhas de mesa. E em 18 anos, Hermelinda a havia tirado exatamente quatro vezes, e nas quatro vezes a havia guardado novamente sem abrir.

Naquela noite, jantou o de sempre, café preto e uma broa de fubá com sal. Sentou-se na cadeira de balanço junto à janela como todas as noites e não acendeu o lampião a querosene como todas as noites, porque o óleo estava caro e porque não tinha nada para olhar. Mas lá fora, do outro lado da cerca, havia uma luzinha. Hermelinda cerrou os olhos.

Haviam feito uma fogueira pequena, três paus cruzados, apenas uma chama do tamanho de uma mão e ao redor da fogueira, três vultos. A mulher sentada com as costas contra um poste, a menina encolhida contra ela, o bebê embrulhado em uma coberta deitado sobre o colchão enrolado. O jumento parado atrás dormia em pé. Hermelinda os olhou um pouco.

Disse a si mesma que não era problema dela. Disse a si mesma que as pessoas passam pelos caminhos o tempo todo. Disse a si mesma que se abrisse o portão para uma, amanhã seriam 10. Disse a si mesma que ninguém lhe havia aberto nenhum portão quando precisou. E essa última se engasgou, porque era verdade. Ninguém lhe havia aberto nenhum portão.

Quando Valdir se afogou na enchente do rio, tinha 17 anos e era o homem mais bonito do vale. O tiraram três dias depois, a 2 km de onde caiu, inchado e com os olhos abertos. Hermelinda tinha 37 anos e ficou de pé junto ao corpo sem chorar, porque Osório sim estava chorando e alguém tinha que segurar Antônia.

Depois vieram os vizinhos com pamonhas, com rezas e com aquela cara de pena que dura duas semanas. E, às três semanas, já ninguém vinha. Quando Antônia morreu de febre, 26 anos depois, já não veio quase ninguém. Antônia tinha 24 e estava noiva, e ficou com o corpo quente em uma terça-feira. E no domingo a enterraram.

Hermelinda sentou-se junto à cova e não quis se levantar até escurecer. Osório teve que carregá-la. E quando Osório morreu, 18 anos atrás, já não veio ninguém. Ninguém. Um vizinho a ajudou a levar a caixa. O padre rezou um responso de 3 minutos porque tinha outro enterro na fazenda ao lado. E às 4 da tarde, dona Hermelinda Fagundes voltou sozinha para a casa do Sítio Esperança, com 60 anos completos, e sentou-se na cadeira de balanço junto à janela.

E lá continuava. 18 anos depois, lá continuava. Hermelinda apertou os olhos. Lá fora, a fogueira tremeluzia. “Que congelem”, disse em voz alta para ninguém. “A mim coube o pior.” E se levantou e foi dormir, e não dormiu. Às 3 da manhã, começou a chover. Não foi uma tempestade, foi uma daquelas chuvas teimosas da serra, finas e frias, que não fazem barulho e que encharcam mais que um aguaceiro, porque duram horas e entram nos ossos sem que a gente perceba.

Hermelinda ouviu da cama, ficou deitada de costas na escuridão, ouvindo a água bater no telhado de telha. E, pela primeira vez em anos, o som não lhe pareceu um som qualquer. “Lá fora tem uma menina”, pensou, virou-se para a parede. “Lá fora tem um bebê.” Fechou os olhos. “Lá fora tem um bebê de um ano no chão sob a chuva.” Sentou-se na cama.

Ficou assim, sentada na beira do colchão, com os pés descalços pendurados e a respiração curta, talvez 15 minutos lutando, lutando de verdade, como se luta com um animal que a gente tem dentro e que há anos está amarrado. “Eu não pedi a ninguém para vir. Não é minha culpa. Eu enterrei meus filhos e ninguém me abriu uma porta.”

“E uma voz muito lá dentro, muito velha. Uma voz que ela conhecia porque havia sido sua alguma vez.” “Exatamente por isso.” Hermelinda se levantou, levou 4 minutos para chegar à porta, 4 minutos de andador e de dor e de morder o lábio. Quando finalmente tirou a tranca e abriu, o frio atingiu seu rosto como um tapa. “Mulher!”, gritou. A chuva engoliu sua voz.

“Mulher!” Do outro lado do portão, algo se moveu, um vulto que se levantava. Hermelinda distinguiu a silhueta de Odete se erguendo. E atrás dela, o jumento com as orelhas coladas ao pescoço, e no chão, protegidos pelo colchão posto de lado como um muro, dois vultinhos menores. “Senhora”, a voz de Odete chegou quebrada pela água. “Abra o portão.”

“Não tem cadeado. Nunca teve.” Houve um silêncio e Hermelinda entendeu com uma pontada que aquela mulher havia passado a noite inteira do outro lado de uma cerca que se abria com apenas um empurrão, que não havia empurrado, que nem sequer havia tentado. O portão rangeu. Odete entrou carregando o bebê com a menina agarrada à perna e em quatro passos estava debaixo do corredor.

Ficou ali, escorrendo, sem ousar avançar mais. Hermelinda olhou, estava encharcada até os ossos. O cabelo grudava no rosto, os lábios haviam ficado roxos. E ainda assim, ainda assim, a mulher não tinha cara de agradecimento, tinha cara de vergonha. “O bebê”, disse Hermelinda, “está seco. Eu o cobri com meu pano de ombro e com o colchão.

E você?” Odete não respondeu. “Entre”, disse Hermelinda. “Não quero molhar o chão da senhora.” Hermelinda sentiu que sua paciência se esgotava. “Dona Silva”, disse, e o sobrenome lhe saiu com uma formalidade ridícula, absurda, ali às 3 da manhã sob a chuva. “Tenho 78 anos, o quadril quebrado e um gênio do inferno. Entre na minha cozinha antes que eu me arrependa”, e se fez para o lado.

A cozinha cheirava a lenha velha e a café. Hermelinda acendeu o lampião a querosene. A luzinha amarela encheu o quarto de sombras que se moviam e, pela primeira vez, pôde ver bem os seus rostos. Odete era mais jovem do que ela havia pensado, uns 30 e poucos anos. Tinha o rosto da fome e umas olheiras que lhe chegavam às maçãs do rosto.

Mas debaixo de tudo isso havia uma mulher que alguma vez havia sido bonita e que já nem se lembrava. A menina Doralice era outra coisa. Doralice tinha 6 anos e tinha olhos de velha. Parou no meio da cozinha escorrendo água e, em vez de tremer, ou chorar, ou procurar o fogão a lenha, pôs-se a olhar. Olhou a mesa, olhou as quatro cadeiras, olhou a despensa, olhou a porta fechada do fundo e, por último, olhou para Hermelinda, demorada e direta, sem medo e sem descaramento, com aquela maneira que têm as crianças que viram coisas.

Hermelinda sustentou o olhar. “Como você se chama?”, perguntou Doralice. “Quantos anos você tem?” “Seis.” “Você sabe falar mais de duas palavras seguidas?” A menina pensou. “Sim”, disse, “mas não com você ainda.” Hermelinda ficou pasma e depois, para seu próprio espanto, soltou uma gargalhada, uma gargalhada curta, rouca, enferrujada, que lhe saiu do peito como sai água de uma tubulação que estava seca há anos, suja primeiro e depois limpa.

Odete a olhou alarmada. Hermelinda levou a mão à boca, como se a tivessem flagrado fazendo algo indevido. “Acenda o fogão”, disse a Odete, tratando-a informalmente pela primeira vez, sem perceber. “A lenha está no canto, eu já não me abaixo.” Odete obedeceu. E enquanto a mulher se ajoelhava em frente ao fogão e soprava as brasas, Hermelinda sentou-se na cadeira de balanço, agarrou o tubo de seu andador com as duas mãos e perguntou a si mesma: “O que diabos acabara de fazer?” O fogo acendeu em 10 minutos.

Odete deitou o bebê sobre duas cadeiras juntas, bem coberto com a única coisa seca que trazia. Anselmo nem despertou. Era um bebê tranquilo, dos que não choram. E Hermelinda soube por quê, e pigarreou. Os bebês choram quando aprendem que chorar serve. Aquele não havia aprendido. Doralice sentou-se no chão, bem perto do fogão, e esticou as mãos para as chamas.

Hermelinda a olhou. “Há broas de fubá na despensa”, disse. “Na toalha azul.” Doralice não se moveu, virou-se para a mãe. Odete balançou a cabeça. “Não, senhora, a senhora já nos deu um teto.” “Não estou perguntando.” “É que não viemos para tirar da senhora.” Hermelinda sentiu algo acender-se atrás dos olhos. Uma raiva estranha, uma raiva que não era raiva.

“Mulher”, disse devagar. “Você caminhou desde o amanhecer com um jumento, duas criaturas e uma panela de ágata e parou no meu portão para me dizer na cara que ninguém cuida de mim. Você teve a coragem de me dizer isso e agora não tem a coragem de pegar uma broa de fubá.” Odete baixou a cabeça. “Não é a mesma coisa”, disse baixinho.

“Por que não?” “Porque o do portão eu disse por eles.” Levantou a vista. “Eu, por mim, teria morrido no caminho, senhora. Juro que sim. Mas por eles eu me humilho, por eles eu bato em portas, por eles eu digo coisas que não deveria dizer.” E ali, naquela cozinha, às 3:30 da manhã, com a chuva caindo lá fora e uma menina de 6 anos aquecendo as mãos no fogão, dona Hermelinda Fagundes entendeu Odete Silva completamente, porque ela havia sido aquela mulher.

Ela havia parado 41 anos atrás na porta da fazenda de seu Prisciliano para rogar por um empréstimo, com Valdir já debaixo da terra, e Antônia doente, e Osório sem trabalho. E lhe haviam dito que não, e ela havia agradecido e ido caminhando pelo caminho de terra, sem chorar até que estivesse longe o suficiente para que ninguém a ouvisse. “Por eles, eu me humilho.” “Sim.”

Hermelinda se levantou da cadeira de balanço. Custou-lhe como tudo lhe custava. Atravessou a cozinha, tac, tac, tac. Até a despensa abriu, tirou a toalha azul, tirou quatro broas de fubá, um pedaço de queijo curado e um frasco de feijão da panela do meio-dia e pôs na mesa, nas quatro cadeiras. “Sentem-se”, disse, e custou tanto trabalho dizer que lhe saiu como um latido.

“Sentem-se de uma vez que esfria.” Doralice comeu como comem as crianças que estão há dois dias sem comer. Rápido no início e depois devagar, com medo de que acabasse. Odete comeu meia broa e deixou o resto. “Coma”, disse Hermelinda. “Já comi.” “Você não comeu nada.” “Estou acostumada, Hermelinda.” Hermelinda deixou sua xícara na mesa com um golpe seco.

“Ouça bem”, disse. “Nesta casa morreram quatro pessoas. Bem, três morreram: meu filho, minha filha e meu marido. E eu fiquei, que é a pior forma de morrer. Você sabe o que aprendi em 18 anos sentada nesta cadeira de balanço?” Odete negou com a cabeça. “Aprendi que aguentar não é virtude. Aguentar é o que a gente faz quando não pode fazer mais nada.

E você ainda pode fazer outra coisa, então coma.” Odete a olhou por um longo tempo e comeu. Quando amanheceu, a chuva havia parado. Hermelinda acordou em sua cadeira de balanço com uma coberta em cima que não havia sido ela a colocar. A cozinha estava varrida, o fogão limpo e com lenha arrumada, a panela de feijão lavada e virada para baixo.

Sobre a mesa, havia uma jarra com água fresca do poço e, ao lado, uma xícara com café já servido, ainda morno. Não havia ninguém. Hermelinda se endireitou de repente, sentiu uma pontada no quadril e não deu atenção. Agarrou o andador, foi até a janela. No quintal, Odete estava amarrando o último pacote no lombo do jumento. Doralice segurava o bebê sentada em uma pedra e o sol apenas estava aparecendo atrás do morro, pintando tudo daquele laranja que Hermelinda levava 18 anos vendo, sem ninguém para quem mostrá-lo.

“Estavam indo embora. Estavam indo embora, tal como haviam dito, com o primeiro sol.” Hermelinda ficou parada junto à janela com as duas mãos no tubo do andador e sentiu de repente algo que não havia sentido desde o dia em que enterraram o Osório. Sentiu medo, medo de verdade, medo físico no estômago, o medo de que se feche uma porta que a gente não soube abrir a tempo. Saiu ao corredor.

“Ouça!”, gritou, pigarreou. Odete se virou e dona Hermelinda Fagundes, 78 anos, dona de 20 hectares, viúva de Osório, mãe de dois mortos, ficou parada em seu corredor sem saber o que dizer, porque em 18 anos nunca havia tido que pedir nada a ninguém, e agora resultava que não sabia como se fazia.

“O poço”, disse por fim. “Senhora?” “O poço está a 30 passos da casa.” Hermelinda engoliu em seco. “E eu levo 20 minutos para dá-los.” Odete não disse nada, esperou. “E a lenha está no galpão.” Hermelinda olhou para o chão. “E faz dois anos que não subo no paiol e o curral do fundo caiu nas águas passadas e lá continua jogado.

E tem uma vaca que eu já não ordenho porque não consigo me abaixar e a pobre anda seca e triste.” E sua voz falhou. Ela parou, apertou a mandíbula. “E ontem à noite eu caí”, disse, “há três semanas no quintal. E fiquei no chão por 4 horas até conseguir me arrastar para a parede e subir agarrada ao parapeito. 4 horas. E nessas 4 horas, Dona Silva, não passou um cristão sequer por aquele caminho.”

Odete soltou a corda do jumento. “Hermelinda”, disse Hermelinda. “Me chamo Hermelinda. Pare de me chamar de senhora.” E então a mulher do caminho atravessou o quintal e, sem pedir permissão, sem dizer palavra, pôs uma mão sobre a mão velha e manchada que agarrava o tubo de alumínio. “Odete”, disse. “Me chamo Odete.”

Amigos, digam-me uma coisa, porque quero saber o que aí pensam: já conheceram pessoas que já se esqueceram de como pedir ajuda, ou talvez vocês mesmos já passaram por isso? Contem-me aqui embaixo nos comentários que os leio a todos. A primeira coisa que Odete fez foi o curral. Hermelinda lhe disse que não, que estava caído há dois anos, que não valia a pena, que nem vaca havia para colocar ali.

Odete a ouviu, disse: “Sim, senhora”. Ainda a chamava de senhora quando se distraía. E na manhã seguinte, Hermelinda acordou com o barulho de paus batendo em paus, saiu ao corredor e a encontrou levantando poste sozinha com uma picareta, uma corda e as mãos. Doralice lhe passava os pregos. Anselmo estava sentado em uma caixa de madeira na sombra, mordendo um pedaço de couro, todo feliz.

“Essa força? De onde você tira?”, perguntou Hermelinda do corredor. Odete limpou o suor da testa com o antebraço. “Da raiva”, disse, e continuou trabalhando. Levou quatro dias. No quarto dia, o curral estava de pé, torto, mas firme. E Odete havia encontrado a vaca, uma crioula magra e arisca, que estava há dois anos vagando pelo pasto do fundo.

Ela a havia tocado, a havia colocado para dentro, a havia amarrado e a havia ordenhado. Naquela tarde, pôs um jarro de leite morno sobre a mesa da cozinha. Hermelinda o olhou como se fosse um milagre. “Faz dois anos que não tomo leite”, disse. “Pois tome.” Hermelinda o tomou devagar com as duas mãos ao redor do jarro. E quando terminou, tinha os olhos úmidos e não foi por causa do leite.

Acomodaram-se no paiol. Hermelinda as ofereceu no segundo dia com uma brusquidão que já era sua forma de ser carinhosa. “Ali atrás está o paiol, limpo, entrem.” Odete o limpou em uma tarde. Varreu 20 anos de poeira, tirou três ninhos de ratos, tapou duas goteiras com pedaços de chapa e pôs o colchão enrolado no canto menos frio.

E ali dormiram os três apertados, quentes, pela primeira vez em três meses debaixo de um teto que ninguém lhes tiraria no dia seguinte. Hermelinda os via de sua janela. Todas as noites via a luz do toco de vela no paiol. Via a sombra de Odete se movendo. Via como a vela se apagava às 9 e depois ficava um pouco mais olhando a escuridão onde eles estavam.

E depois ia para sua cama e dormia diferente. Isso foi a primeira coisa que notou, que dormia diferente, que já não revisava a tranca duas vezes, que já não acordava às 3 da manhã com o coração batendo nas costelas por nada, que havia gente em sua terra. As semanas começaram a se organizar de uma forma que Odete se levantava às 5: acendia o fogão a lenha, punha o café, tirava água do poço, tirava leite, varria o quintal.

Às 6:30, quando Hermelinda saía de seu quarto arrastando o andador, já havia café servido e já cheirava a broas de fubá. Hermelinda sentava-se, comia pouco, resmungava muito. “Está muito aguado o café, amanhã farei mais forte. E a broa está queimada de uma beirada. Amanhã a viro antes. E não gosto que você trabalhe com o bebê carregado. Esse vai cair.”

Odete levantava a sobrancelha. “Se preocupa com Anselmo ou comigo? Me preocupa o chão que é de laje e está caro.” E Odete ria, ria baixinho, sacudindo a cabeça, continuava varrendo. Hermelinda fingia não vê-la rir, mas depois, sentada em sua cadeira de balanço, ficava com os olhos fixos na janela e uma expressão muito estranha no rosto, uma expressão de gente que está aprendendo algo tarde.

Doralice foi outra coisa. Doralice não se aproximava. Nos primeiros 10 dias, a menina se comportou como um gato de fazenda. Comia o que lhe davam, dormia onde lhe diziam, obedecia à mãe e à Hermelinda e as esquivava com uma habilidade assombrosa. Se Hermelinda entrava na cozinha, Doralice saía. Se Hermelinda se sentava no corredor, Doralice ia para o curral.

Não era grosseria, era outra coisa. Hermelinda aguentou uma semana, no oitavo dia a pegou, foi no corredor. A menina vinha correndo com um ovo na mão e Hermelinda estava na cadeira de balanço e, para passar, tinha que passar por sua frente. E a menina calculou mal, e quando quis desviar-se, a voz da velha a cravou no chão.

“Doralice.” A menina parou. “Venha cá.” Doralice se aproximou três passos, ficou ali com o ovo apertado na mão. “Por que você tem medo de mim?” “Não tenho medo.” “Então por que você foge de mim?” Doralice apertou os lábios. Hermelinda esperou. Tinha 78 anos. Sabia esperar como ninguém. “Porque a senhora vai morrer”, disse a menina.

O corredor ficou muito quieto. Hermelinda sentiu o ar sair-lhe do peito. “Como você diz?” Doralice levantou o rosto e tinha os olhos secos e o queixo apertado e falava com aquela voz plana das crianças que dizem a verdade sem enfeitar. “Lá, meu pai caiu de um telhado. Eu o amava muito e ele morreu.” Engoliu em seco.

“E minha avó também amava e também morreu. E a senhora é mais velha que minha avó. E caminha com isso.” Apontou para o andador. “Então eu já sei o que vai acontecer.” Hermelinda abriu a boca. Nada lhe saiu. “E eu não quero”, disse Doralice. E pela primeira vez a voz lhe tremeu. “Não quero gostar de você e que você morra. Já tive dois.

Não me cabe mais um.” E virou-se e saiu correndo, e o ovo caiu e quebrou nas lajes, e ela nem olhou. Hermelinda ficou sozinha no corredor, com as mãos no tubo do andador, com o sol das 11 caindo em seus joelhos. E, pela primeira vez em 18 anos, dona Hermelinda Fagundes chorou. Não chorou bonito, chorou feio, com a boca aberta e sem ruído, como choram os velhos que já não têm força nem para o soluço.

Chorou por Valdir, inchado na beira do rio. Chorou por Antônia, quente de febre, pedindo água. Chorou por Osório, na caixa de pinho com as mãos cruzadas. Chorou pelos 18 anos da cadeira de balanço e chorou, sobretudo, porque uma menina de 6 anos acabava de lhe dizer na cara a única verdade que ela havia passado a vida sem querer olhar: que as pessoas sentem a dor quando a gente morre, que, se ela morresse sozinha naquela casa, ninguém sentiria a dor, e que isso, exatamente isso, era o que ela mesma havia escolhido 18 anos atrás, quando fechou a porta do quarto dos meninos e guardou a chave debaixo das toalhas de mesa. Naquela noite, Hermelinda não jantou. Odete a encontrou na cadeira de balanço, no escuro, quando foi recolher os pratos. “Hermelinda, deixe-me. A senhora se sentiu mal.” “Me deixe, mulher.” Odete não foi embora. Pôs os pratos na mesa, limpou as mãos no avental e sentou-se em uma das quatro cadeiras em silêncio, sem acender o lampião a querosene.

Ficaram assim por meia hora. “Sua filha me disse que vou morrer”, disse Hermelinda por fim. Odete fechou os olhos. “Ai, Deus, não a repreenda, Hermelinda.” “Eu não a repreenderei.” A voz da velha foi firme. “Ela tem razão.” Silêncio. “Vou morrer”, repetiu Hermelinda. “É a única certeza que tenho. E essa criatura já perdeu um pai e uma avó e não está disposta a perder outra velha.

É inteligente, mais que você e mais que eu.” Odete passou a mão no rosto. “Ela não diz tudo o que pensa”, disse. “Desde que Bonifácio morreu, não chorou nenhuma vez, nem no velório, nem no enterro, nem quando seu Cássio nos tirou do casebre e ela teve que deixar sua boneca de pano porque não cabia no jumento.”

Hermelinda levantou a cabeça: “Deixou uma boneca? Uma boneca de pano que o pai dela fez com um botão por olho, deixou-a no casebre e não disse nada.” Odete falava muito baixinho. “Eu me fiz de quem não viu, porque se eu dissesse algo, eu também me quebraria e não podia me quebrar.” Hermelinda balançou devagar para a frente e para trás.

Para a frente e para trás. “Odete?” “Sim.” “Olhe na despensa. Debaixo das toalhas de mesa há uma chave.” Odete ficou quieta. “Traga-a para mim.” “Qual chave?” “Você traga-a para mim.” Odete se levantou, acendeu o lampião a querosene, abriu a despensa, levantou as toalhas de mesa dobradas e lá estava uma chave de ferro preta antiga com a lingueta gasta.

A pegou e sentiu que pesava mais do que deveria pesar. Quando a colocou na mão de Hermelinda, a velha a apertou e fechou os olhos. “18 anos”, murmurou. “O que, Hermelinda?” “Aquela porta.” Apontou com o queixo para o fundo da casa. “O terceiro quarto, o que sempre estava fechado. 18 anos.” Odete olhou a porta e entendeu.

“Quer que eu a abra?” Hermelinda negou com a cabeça, agarrou-se ao andador, levantou-se, levou seu tempo, como tudo. “Quero abri-la eu”, disse, “mas quero que você esteja atrás.” E as duas mulheres atravessaram a cozinha, tac, tac, tac. Com o lampião a querosene tremendo até a porta que estava há 18 anos sem abrir-se.

A chave entrou com dificuldade. Hermelinda teve que forçá-la e sua mão tremia tanto que Odete teve que pôr a sua por cima para ajudá-la a girar. A fechadura cedeu com um rangido de ferrugem. A porta abriu sozinha, empurrada por seu próprio peso, e saiu o cheiro. Cheiro de poeira, de madeira velha, de tecidos guardados. E por baixo, muito por baixo, quase imaginário, um cheiro de sabão de soda e de cabelo de criança.

Aquele cheiro que as casas guardam nas paredes e soltam 50 anos depois, como se nada. Hermelinda agarrou-se ao batente. Odete levantou o lampião a querosene. O quarto era pequeno. Duas camas de latão, uma de cada lado, arrumadas, arrumadas. Alguém havia esticado aquelas colchas 18 anos atrás e lá continuavam, cinzentas de poeira, mas esticadas entre as duas camas.

Uma cômoda com uma vela consumida até o prato. Na parede, um prego e, do prego pendurado, um vestido de brim branco com florzinhas azuis bordadas na gola e, no chão, junto à cama da esquerda, uma caixa de madeira aberta. Dentro, um cavalinho esculpido à mão, um peão, uma funda, uma vaquinha de madeira com uma pata quebrada.

Hermelinda deu um passo, depois outro. Odete ia atrás com o lampião a querosene no alto, sem respirar. A velha parou junto à cama da esquerda, ficou olhando a caixa de brinquedos e, muito devagar, com uma dor que não era do quadril, foi se dobrando até conseguir alcançar o cavalinho de madeira. Levantou, passou o polegar pelo lombo, tirando a poeira.

“Osório o fez com um pedaço de carvalho”, disse. “Valdir tinha 9 anos, levava-o para a escola e a professora tirava dele e ele chorava.” Riu uma risada mínima. “Depois cresceu e teve vergonha do cavalinho. Guardou aqui e não o tirou mais. E depois se afogou no rio aos 17 anos. E eu entrei neste quarto e encontrei o cavalinho debaixo da cama e o pus nesta caixa.”

Virou-se para Odete. “E depois Antônia morreu e pendurei seu vestido naquele prego. E depois Osório morreu e fechei a porta.” Odete tinha os olhos cheios de lágrimas e não ousava fazer um ruído. “As pessoas creem que a gente fecha os quartos por dor”, disse Hermelinda. “Não, a gente os fecha por medo, porque enquanto a porta está fechada, a gente pode dizer a si mesma que tudo continua lá dentro, que se abrisse lá estariam.”

Apertou o cavalinho. “E já não estão, Odete? Nunca estiveram. Estão na terra, no cemitério da colina, debaixo de três cruzes que faz 8 anos que não visito porque não consigo caminhar até lá.” Odete se aproximou, pôs uma mão no ombro de Hermelinda e Hermelinda, que em 18 anos não havia deixado ninguém tocá-la, não a tirou. “Eu a levo”, disse Odete.

“Aonde?” “Ao cemitério, no Asubo e adeso.” Hermelinda ficou calada por muito tempo. “Pesa!”, disse por fim, com uma vergonha terrível. “Já não sou o que fui, eu peso.” Odete apertou o ombro dela. “Eu carreguei meu marido de um telhado até a casa sozinho, 80 kg, e ainda vivia e ainda reclamava. Vou conseguir a subir em um jumento.”

E algo em Hermelinda, algo enorme, algo de pedra, partiu-se ao meio. No dia seguinte, Hermelinda mandou Odete à vila com uma lista. Era a primeira vez em 18 anos que alguém ia à vila por ela. “Morim branco”, disse, “2 metros de linha e um botão, um só. Grande e preto.” Odete franziu a testa. “Um botão, um só. Hermelinda, para quê?” “Vá logo, que se te faz tarde.”

Odete foi. E naquela tarde, quando regressou com as compras e com o troco contado até o último centavo posto na mesa, Hermelinda não disse nada, guardou o morim em seu quarto e lá ficou a coisa. Passaram cinco dias, cinco dias em que Hermelinda se fechava em seu quarto depois do almoço e não saía até o jantar.

Odete a ouvia mover-se lá dentro, a ouvia praguejar em voz baixa. Uma vez a ouviu soltar um gemido e parou em frente à porta com o coração na garganta. “Hermelinda, a senhora está bem?” “Espetei o dedo. Não é problema seu.” E Odete, do outro lado da porta, riu sem ruído e continuou com o que estava fazendo. No sexto dia era domingo. Hermelinda saiu para tomar café da manhã mais cedo que o costume.

Trazia as mãos escondidas debaixo do xale. Sentou-se em seu lugar, tomou seu café, comeu sua broa de fubá e, quando Doralice ia passando em direção ao curral com o balde de leite, disse: “Menina, Doralice parou de repente com aquela maneira de gato. Venha cá.” A menina se aproximou três passos, como sempre, nunca mais perto.

Hermelinda tirou as mãos de debaixo do xale e pôs sobre a mesa uma boneca de pano. Era feia, tinha que ser dito. Era feia, estava mal costurada, com os pontos grandes e tortos, e um braço havia ficado mais comprido que o outro, e o enchimento se amontoava todo na barriga. Tinha o cabelo feito de estambre marrom e tinha um único olho, um botão preto grande costurado com seis pontos.

Doralice a olhou, o sangue lhe fugiu do rosto. “Tinha dois olhos”, disse Hermelinda, e a voz lhe tremeu. “Mas só comprei um botão porque sua mãe me disse que a sua tinha um e não quis errar.” A menina não se movia. “Está mal feita”, disse Hermelinda rapidamente, na defensiva. “Tenho as mãos duras e não enxergo bem de perto.

Se não gostar, eu jogo fora e pronto.” Estendeu a mão para pegar. E a Doralice se jogou em cima dela. Não na boneca, nela. A menina de 6 anos que não chorava, que não se aproximava, que não deixava ninguém a querer porque já havia perdido dois, subiu nas pernas de dona Hermelinda Fagundes, cravou o rosto no peito dela e desabou a chorar como não havia chorado no velório de seu pai, nem no enterro, nem quando deixou a boneca no casebre.

Chorou como uma criança de verdade chora: aos gritos, com soluços, com ranho, agarrando-se à blusa da velha com os dois punhos. Hermelinda ficou rígida, com os braços no ar, sem saber o que fazer com as mãos, e devagar, muito devagar, como quem se recorda de um idioma que falava quando jovem, as baixou e as fechou ao redor daquele corpinho, a apertou e afundou o rosto no cabelo da menina.

Da porta da cozinha, Odete Silva tapou a boca com as duas mãos e saiu para o quintal. Encostou-se na parede e se curvou, e chorou em silêncio com o bebê dormindo no xale. No primeiro domingo de outubro foram ao cemitério. Odete no jumento com duas cobertas dobradas. Levou 20 minutos para subir Hermelinda.

E a velha reclamou de tudo: de que a pegava mal, de que o jumento estava magro, de que ia passar vergonha, de que as pessoas da vila iriam falar. “Que falem”, disse Odete. “Estão há 18 anos sem falar da senhora. Já é a vez deles.” Hermelinda ficou calada e depois soltou uma gargalhada que espantou as galinhas. Foram caminhando, Odete à frente, puxando a corda, Doralice ao lado com a boneca de um olho apertada debaixo do braço, Anselmo no xale e em cima, rígida como uma rainha velha, dona Hermelinda Fagundes, saindo de seu sítio pela primeira vez em 8 anos.

O caminho levou 1 hora e meia, e nesse caminho Hermelinda viu coisas que havia esquecido que existiam. Viu a ponte nova sobre o córrego, viu a roça de milho dos Renteria, viu que haviam derrubado o grande jatobá da curva, viu uma mulher lavando roupa no rio que levantou o rosto e ficou olhando para ela com a boca aberta e depois gritou: “Dona Hermelinda! Dona Hermelinda está viva!” E Hermelinda respondeu sem se virar: “Ainda, dona Cida, mas não para me gabar”.

E Odete, na frente, riu tanto que teve que parar. O cemitério da colina era um pedaço de morro com um muro de pedra e 40 cruzes. Três eram dela. Estavam no canto do fundo, debaixo de um peru. Hermelinda o soube antes de ver. “Lá.” Odete parou o jumento e a desceu devagar e lhe aproximou o andador e lhe ofereceu o braço. Hermelinda o recusou.

“Estes 20 passos eu dou”, disse, e os deu. Levou 8 minutos. Ninguém a apressou. Quando chegou, ficou parada em frente às três cruzes. A grama as cobria quase até os braços. Os nomes mal se liam. Valdir Fagundes, 17 anos. Antônia Fagundes, 24 anos. Osório Fagundes, 63 anos. Hermelinda ficou olhando-os por muito tempo.

Depois disse, muito claro, como quem reporta: “Osório trouxe visitas”, e sua voz falhou na última sílaba. Odete se ajoelhou e começou a arrancar a grama sem dizer nada, com as mãos. Doralice se pôs ao lado dela e começou a arrancar lá também, sem que ninguém lhe dissesse. Com aquela seriedade tremenda das crianças quando entendem que algo importa, Hermelinda as viu limpar as sepulturas de seus mortos e pensou com uma clareza que lhe doeu.

“Se eu tivesse morrido há um ano, ninguém teria vindo arrancar a grama da minha.” E depois pensou outra coisa mais perigosa: “Agora sim.” Na volta, já quase chegando ao sítio, Hermelinda falou de cima do jumento. “Odete?” “Sim.” “Quanto tempo vocês vão ficar?” Odete continuou caminhando. Não se virou.

“O que a senhora disser.” “Não te perguntei. Isso.” “É que não sei responder outra coisa, Hermelinda.” Agora sim se virou. “Eu não tenho para onde ir. Se amanhã a senhora me disser para ir embora, eu pego meus filhos e vou, e lhe agradeço até o último dia da minha vida. Mas eu não vou embora por minha conta.” Hermelinda assentiu devagar.

“Bem”, disse, e não disse mais nada em todo o caminho. Mas naquela noite, depois do jantar, tirou da despensa uma garrafa de cachaça que estava há 18 anos sem abrir. Pôs na mesa com dois copinhos de barro e serviu. “Era de Osório”, disse. “Ele aguardava para o dia em que Antônia se casasse.” Odete olhou o copinho.

“Hermelinda, eu não bebo.” “Eu também não. Estou há 18 anos sem beber”, levantou o seu. “Mas hoje fui ao cemitério montada em um jumento e me gritaram que estava viva. Algo tem que se celebrar.” Bateram os copinhos e as duas fizeram uma careta horrível ao engolir, e tossiram e riram. E Anselmo despertou no paiol e começou a chorar. E Odete saiu correndo.

E Hermelinda ficou sozinha em sua cozinha com o copinho vazio na mão, olhando as quatro cadeiras. Quatro cadeiras. E, pela primeira vez em 18 anos, todas estavam usadas. Seu Cássio Bernardes chegou em uma terça-feira no meio da manhã, montado em um cavalo tordilho que valia mais que todo o sítio de Hermelinda.

Odete estava no curral, ordenhando, o viu vir pelo caminho e seu estômago se revirou. Conhecia aquele cavalo, conhecia aquele chapéu, conhecia a maneira como aquele homem montava recostado para trás, como se o mundo inteiro fosse um pasto seu por onde ia passando. Levantou-se do banquinho, limpou as mãos no avental e ficou parada entre o curral e a casa com o coração batendo nas costelas.

Doralice disse sem se virar: “Entre no paiol com seu irmão e não saia”. A menina olhou o caminho, olhou a mãe e obedeceu sem perguntar. As crianças pobres sabem ler o medo de suas mães antes de saber ler letras. Seu Cássio entrou no quintal sem descer do cavalo. Tinha 57 anos, a barriga dura, o rosto vermelho e uns olhos pequenos e parados que nunca se moviam, nem quando falava.

Não era um homem cruel. Esse era o problema. Os homens cruéis se entediam e vão embora. Seu Cássio não era cruel, era ordenado. E para um homem ordenado, uma viúva com dois filhos ocupando um casebre, que pode ocupar um peão que trabalha, é simplesmente uma linha mal colocada em uma lista.

“Odete”, disse, sem cumprimentar. “Seu Cássio.” “Me disseram na vila que você estava aqui. Não acreditei, pois aqui estou.” Ele olhou a casa, olhou o curral novo, torto, mas firme. Olhou a vaca amarrada, olhou a roupa estendida no varal, roupa de criança, e algo se moveu atrás de seus olhos parados. “E a velha dona Fagundes está dentro.

Ela te deu trabalho.” “Ela me deu teto.” Seu Cássio sorriu apenas. “Teto”, repetiu. “Que palavra tão bonita.” Desceu do cavalo. O fez devagar, com aquela lentidão dos homens que sabem que ninguém os apressará. Amarrou a rédea no poste do portão, ajeitou o cinto e caminhou em direção ao corredor. Odete se colocou em seu caminho. “Aqui veio, seu Cássio.”

Ele parou, a olhou de cima. “Vim falar com a dona. Não com você. A senhora está delicada, por isso vim.” E ali, nessas quatro palavras, Odete entendeu tudo. “Por isso vim.” Sentiu o frio subir-lhe pelas costas. “Ela não vende”, disse. Seu Cássio levantou as sobrancelhas, divertido. “E você? O que sabe do que ela vende ou deixa de vender? Já a fez sua procuradora em três meses, dois meses e meio.

Ah”, ele riu, “menos ainda”, e a afastou com o ombro sem violência, como quem afasta um galho, e subiu os três degraus do corredor. Hermelinda estava em sua cadeira de balanço, o viu entrar pela porta aberta e não se moveu. Não se levantou, não o cumprimentou. Fia, mãe. “Bom dia.” Para trás com as mãos no colo. “Bom dia, dona Hermelinda.” “Bom dia.

Serão os seus, Cássio.” Ele tirou o chapéu, colocou-o contra o peito em um gesto de respeito que não chegava aos olhos. “Venho da parte de meu falecido pai, que descanse em paz. Ele e seu esposo foram amigos.” “Seu pai e meu esposo brigaram por uma divisa durante 22 anos e só se falavam nos velórios. Não me venha com isso, seu Cássio.” Riu de verdade.

“Esta vez continua brava como sempre.” “Continuo velha como sempre. É diferente. Sente-se que me cansa parado.” Ele se sentou em uma das quatro cadeiras. Odete entrou atrás e ficou de pé junto ao fogão a lenha com as mãos apertadas no avental. “Dona Hermelinda”, começou Cássio. “Vou ser direto porque a senhora não é mulher de rodeios.

O sítio Esperança tem 20 hectares. Desses 20, 18 estão tomados pelo mato. A senhora não planta há 8 anos, não tem gado. Fora essa vaca que nem sua era, andava solta. Não tem peões e agora, com licença, também não tem pernas.” Hermelinda continuou se balançando. “Continue.” “Eu lhe dou um bom preço, o melhor que vai conseguir, e não a expulso.

A senhora fica na casa até que Deus disponha. Eu trabalho a terra, cerco, limpo. A senhora recebe seu dinheiro e vive tranquila. E quando Deus dispuser, pois a casa passa a ser minha, também é parte do trato.” Hermelinda parou de se balançar. “Ou seja, você me compra o sítio e de quebra espera eu morrer para me entregar a casa. Assim soa feio se a senhora diz.”

Seu Cássio se inclinou para a frente. “Mas pense bem, para quem vai deixar? Não tem filhos. Seu marido tinha um sobrinho, Florêncio, que é um beberrão e um inútil. E assim que a senhora fechar os olhos, ele estará aqui com um papel assinado. Convém mais um homem sério.” Hermelinda o olhou demoradamente. “Cássio, sim.”

“Você expulsou esta mulher do seu sítio três meses depois que o marido dela morreu trabalhando para você.” Silêncio. Seu Cássio nem sequer se incomodou. “Dei três meses”, disse. “A lei não me obriga nem a um.” “Ela tinha duas criaturas.” “Dona Hermelinda, com todo respeito, se eu sustentar a viúva de cada peão que morre no trabalho, em 10 anos não tenho sítio.

A senhora foi mulher de fazendeiro. A senhora sabe como é isso.” E aqui estava o terrível. Hermelinda sabia sim. Sabia porque Osório havia feito o mesmo uma vez. Um peão chamado Cirilo caiu de um cavalo e quebrou o pescoço. E Osório deu à viúva dois meses e um saco de milho. E a mulher foi embora com seus filhos.

E na casa de Hermelinda, ninguém voltou a mencionar o assunto nunca em 40 anos. E agora dona Hermelinda Fagundes, velha e sozinha, com o quadril quebrado, tinha a viúva de outro homem parada junto ao seu fogão a lenha. E entendia, por fim, 40 anos tarde, exatamente o que havia acontecido com a mulher de Cirilo.

Seu rosto ficou duro. “Cássio”, disse, “vai embora da minha casa, dona. Vai embora da minha casa”, repetiu, e agarrou-se ao andador, e se levantou, e levou seu tempo. E todo mundo esperou em silêncio até que ela estivesse de pé. “E leve seu cavalo bonito, e seu chapéu bonito, e sua proposta bonita. Eu não vendo.”

Seu Cássio pôs o chapéu, levantou-se sem pressa e, na porta, virou-se e disse com uma tranquilidade que dava mais medo que um grito: “A senhora não vende hoje.” Olhou Odete de cima a baixo. “Mas um dia a senhora vai cair, dona Hermelinda, e esta mulher vai ter que decidir se a levanta ou se pega o que puder e vai embora. E nesse dia eu venho.”

Tocou a aba do chapéu. “Fiquem bem.” E saiu, e o ruído dos cascos do tordilho foi se apagando pelo caminho. Hermelinda ficou de pé mais tempo do que devia. Odete a viu balançar. “Hermelinda, sente-se.” “Não, sente-se. Por Deus, que não.” A velha apertou os tubos de alumínio até que seus dedos estalaram. “Se eu me sentar agora, me sentirei derrotada, e não vou dar esse gosto a ele.”

Suas forças se esgotaram. Odete conseguiu agarrá-la, segurou-a com os dois braços, a girou, assentou-a na cadeira de balanço. Hermelinda respirava com a boca aberta, com o rosto cinzento e tremia toda. Odete se ajoelhou em frente a ela. “Hermelinda, olhe para mim.” A velha abriu os olhos. “O que ele disse?”, disse Odete muito devagar, articulando cada palavra, “que um dia a senhora vai cair e eu vou decidir se a levanto ou se vou embora.”

“Odete, não…” “Deixe-me terminar.” Agarrou as duas mãos dela. “Ouça-me bem, porque isso eu vou lhe dizer uma única vez na vida e depois não repito mais, e quero que fique gravado até você morrer.” Pigarreou. Seus olhos se encheram. “Eu cheguei ao seu portão porque não tinha para onde ir. É certo.

E a senhora me abriu, mas estou há dois meses e meio nesta casa e já não fico mais pelo teto, Hermelinda. Já não fico porque a senhora costurou uma boneca para minha filha com as mãos inchadas e um botão de olho. E por que minha filha dorme abraçada a essa boneca todas as noites? Fico porque a senhora é o mais parecido com uma mãe que tive desde que a minha morreu quando eu tinha 11 anos.”

Hermelinda começou a chorar sem ruído. “Assim que, se um dia cair”, disse Odete, “eu a levanto, e se não puder levantá-la, eu me deito no chão com a senhora até que possa. E se seu Cássio vier e me oferecer dinheiro, eu cuspo nele. E se me oferecer um sítio inteiro, eu cuspo nele também. Me ouviu?” Hermelinda assentiu com o rosto encharcado. “Diga-me”, insistiu Odete.

“Diga-me que me ouviu.” “Te ouvi!”, sussurrou Hermelinda. “De novo, te ouvi, mulher teimosa.” E a abraçou. A abraçou com aqueles braços velhos e magros, apertando forte, como se a qualquer momento fossem tirá-la. Naquela noite, quando Odete foi para o paiol, Hermelinda ficou sozinha na cozinha e pôs-se a pensar.

Pensou nas palavras de Cássio: “Para quem vai deixar?” Pensou em Florêncio, o sobrinho de Osório, um homem de 44 anos que vivia na vila, que não trabalhava, que se embriagava e que havia vindo exatamente quatro vezes ao sítio Esperança em 18 anos: uma no enterro de Osório, uma para pedir emprestado, e duas para perguntar a Hermelinda com um sorriso assustador:

“Como se sentia de saúde?” Pensou na lei, pensou sobretudo em algo muito simples e muito feio: que se ela morresse amanhã, Odete Silva e seus dois filhos estariam no dia seguinte outra vez no caminho com o jumento e a panela de ágata, e desta vez, sem nenhuma casa à vista, que ela podia lhes dar teto enquanto vivesse e que não lhes havia dado absolutamente nada para depois.

Hermelinda balançou devagar para a frente e para trás, para a frente e para trás, e na manhã seguinte pediu a Odete que selasse o jumento. “Aonde vamos?” “À vila, ao cemitério, outra vez.” Hermelinda negou com a cabeça. “Com o tabelião.” E aqui lhes pergunto, amigos, vocês acreditam que Hermelinda fez bem em não vender? Ou pensam que uma mulher sozinha de 78 anos deve pensar primeiro em sua segurança? Escrevam-me aqui embaixo que gosto de saber o que cada um faria em seu lugar.

O tabelião da vila se chamava Dr. Aurélio Pimentel e tinha o escritório no térreo de sua casa com uma placa de bronze mal polida na porta. Quando viu dona Hermelinda Fagundes entrar, apoiada em um andador e sustentada pelo braço por uma mulher jovem e magra, seus óculos caíram. “Dona Hermelinda, mas eu a dava como morta.” “Aposentada é a mesma coisa, mas com mais anos.” Sentou-se com esforço.

“Preciso fazer um testamento.” O tabelião pegou o papel. “Muito bem. Em nome de quem?” Hermelinda respirou fundo e então aconteceu algo que Odete não esperava. Hermelinda virou-se para ela e disse: “Saia!” “O quê?” “É para você sair. Me espere lá fora, Hermelinda.” “Eu…”

A voz da velha foi de pedra. “Vá lá para fora e leve as crianças. Isso você não vai ouvir. E não me pergunte por quê. Por que não vou te responder.” Odete ficou gelada. Sentiu por um segundo espantoso que havia feito algo errado, que a velha havia se arrependido, que Cássio havia plantado algo, mas obedeceu porque sempre obedecia, porque as mulheres como ela aprendem cedo que perguntar custa caro.

Saiu para a rua com Doralice pela mão e com Anselmo no xale, e sentou-se na calçada para esperar sob o sol, e ficou ali 1 hora e 40 minutos. E nessa hora e 40 minutos, lhe ocorreram 100 coisas. Todas ruins. Lá dentro, Hermelinda ditava que “tudo o que tenho”, disse, “os 20 hectares do sítio conhecido como o Sítio Esperança, a casa, o poço, o curral, a vaca e até a cadeira de balanço em que vou morrer,

passe integralmente para a senhora Odete Silva, viúva de Robledo, e para seus dois filhos, Doralice e Anselmo Robledo Silva.” O Dr. Pimentel levantou a vista. “Dona Hermelinda, é parente sua?” “Não. A conheço há muito tempo? Três meses.” Fez-se um silêncio incômodo. “Com todo o respeito”, disse o tabelião, baixando a voz. “Tenho a obrigação de alertá-la.

Uma mulher jovem que chega à casa de uma senhora de sua idade e, aos três meses…”, Hermelinda o interrompeu com uma risada seca. “Ela não sabe”, como diz? “Ela não sabe, Dr. Pimentel. Está sentada lá fora na calçada, acreditando que eu a vinha expulsar. Não me pediu nada. Não sabe ler mais que seu nome.

Não tem a mais remota ideia do que estou fazendo aqui dentro e não pretendo dizer a ela.” Inclinou-se sobre a escrivaninha. “E esse é precisamente o ponto.” O tabelião ajeitou os óculos. “Explique-me.” Hermelinda ficou olhando a parede. “Há três meses, essa mulher parou no meu portão sob a chuva com duas criaturas e não empurrou o portão.

Estava aberto, Dr. Pimentel. Nunca teve cadeado. Ela podia ter entrado, ido ao meu paiol, comido minhas galinhas, feito o que bem quisesse, e eu, com este quadril, não a teria podido deter.” Virou-se para ele. “E sentou lá fora, contra a cerca no lodo, com seus filhos, a noite toda esperando que eu lhe abrisse.”

O tabelião não disse nada. “Eu estava há 18 anos sem que ninguém me tocasse”, continuou Hermelinda, “nem o doutor. Caí há um mês e fiquei 4 horas no chão. 4 horas, Aurélio, e me arrastei até o parapeito e subi sozinha. E limpei o sangue sozinha e me deitei sozinha.” Sua voz falhou. Recompôs-se. “Agora tenho uma mulher que me sobe em um jumento para me levar para ver meus mortos.

Tenho uma menina que dorme com uma boneca que costurei eu com estas mãos que já não servem. E tem um moleque de um ano que me sobe nos joelhos e me puxa o xale e me enche a saia de baba.” Bateu na mesa com o nó do dedo uma única vez. “Eu não estou pagando a ela”, disse. “Escreva bem. Eu não estou pagando nada a ela. A gente não paga por isso.

Eu só estou pondo o papel em dia com a verdade. Essa mulher e essas crianças são o que me resta de família, e a família herda. Assim de simples.” O Dr. Pimentel escreveu um pouco em silêncio. “Dona Hermelinda, há um assunto.” Largou a caneta. “Seu esposo tinha um sobrinho, Florêncio. Florêncio Fagundes. Se a senhora morre sem descendência e sem testamento, ele é seu herdeiro legítimo.

Com testamento, não lhe cabe nada.” Fez uma pausa. “Mas ele vai brigar. E aqui na vila há juízes que se deixam convencer, sobretudo quando quem briga diz que uma forasteira se aproveitou de uma idosa doente.” Hermelinda ficou muito quieta. “O que preciso?” “Um certificado médico que diga que a senhora está em pleno uso de suas faculdades.

Duas testemunhas que não sejam parentes nem beneficiárias.” E o tabelião a olhou por cima dos óculos. “Recomendo algo mais. Uma carta de seu próprio punho e letra, se puder escrever, colocada no envelope do testamento, explicando por quê. Já me explicou para mim, e eu posso morrer antes que a senhora, não se ofenda.” Sorriu apenas.

“A carta vai ler um juiz ou ela. E acredite, dona Hermelinda, em 40 anos deste ofício, a única coisa que vi ganhar uma briga de herança contra um parente de sangue é uma carta escrita pela defunta.” Hermelinda ficou pensando, depois disse: “Escrevo mal, tenho o pulso tremendo.” “Escreva feio, então, feio”, pigarreou. “Mas seu.”

Quando Hermelinda saiu, Odete se levantou de um salto da calçada, tinha os olhos vermelhos e não disfarçou. “Hermelinda, eu fiz algo. Você não fez nada. É que se a senhora quiser que a gente vá embora…” “Eu…”, Hermelinda parou de repente no meio da rua e, com uma voz que se ouviu até a venda da esquina, disse: “Odete Silva. Em minha vida, conheci uma mulher que se desculpa tanto por existir.

Cale a boca e me ajude a subir no jumento, que estou com fome.” E da venda da esquina saíram duas senhoras para espiar, e uma delas se benzeu. E a outra disse à primeira em voz alta que dona Hermelinda do Sítio Esperança andava pela vila e que parecia mais viva do que há 20 anos. Naquela noite, Hermelinda se fechou em seu quarto com um toco de vela, uma folha de papel e uma caneta.

Escreveu quatro linhas, as rasgou. Escreveu seis, as rasgou. À meia-noite, Odete bateu na porta. “Hermelinda, está muito tarde. Já vou. Está escrevendo?” Silêncio. “Estou brigando”, disse a velha de dentro. “Com quem?” “Com as palavras. São umas danadas.” Odete riu e foi dormir. E dona Hermelinda Fagundes ficou até as 3 da manhã, com a mão trêmula e os olhos cansados, escrevendo a carta mais importante de sua vida.

Florêncio Fagundes apareceu seis semanas depois. Veio a pé porque não tinha cavalo. Trazia a camisa para fora, os olhos inchados e aquele cheiro adocicado de cachaça da manhã seguinte que nunca mais lhe saía. Odete o viu vir pelo caminho e não soube quem era. “Boas”, disse o homem, entrando no quintal sem pedir permissão.

“E você, Odete Silva? Ah”, sorriu com a metade da boca. “Já me contaram da agregada.” Odete sentiu o rosto esquentar e não disse nada. “E a tia, sua tia, dona Hermelinda Fagundes? Sou Florêncio, sobrinho de meu tio Osório, que em glória esteja.” Coçou a barriga. “Venho ver como anda de saúde a pobrezinha.”

E algo na maneira como disse “pobrezinha” revirou o estômago de Odete. Hermelinda o recebeu na cozinha, serviu-lhe café e esteve, durante 20 minutos, mais amável do que Odete jamais a tinha visto. Perguntou pela mãe dele, perguntou pelo trabalho dele, disse “meu filho”. Disse para ele se servir de mais pão. Odete lavava pratos no canto e não entendia nada.

E então Florêncio largou a xícara e disse: “Tia, eu venho porque me preocupo.” “Com o que você se preocupa, meu filho?” “Pois, a senhora sozinha, com o quadril assim…” Olhou Odete de rabo de olho. “…e com gente estranha metida na casa.” “Estranha, tia. A senhora não a conhece. Chegou de um dia para o outro, com dois moleques e um jumento.

Quem lhe garante que ela não está esperando a senhora se descuidar?” Hermelinda assentiu devagar, muito séria. “Você tem razão.” Odete ficou paralisada com um prato na mão. “Eu também pensei nisso”, disse Hermelinda. “Diga-me, Florêncio, o que você me recomenda?” E o homem se endireitou na cadeira e seus olhos se acenderam. E ali naquela cozinha, com o café de Hermelinda dentro, disse o que havia vindo dizer desde o princípio.

“Que arrumemos os papéis, tia, a senhora e eu, entre família. Que ponha o sítio no meu nome desde agora de uma vez, para que ninguém fique esperando a sua morte. Eu a cuido. Eu lhe mando uma moça da vila e essa senhora”, apontou Odete com o queixo, sem virar-se para ela, “vai com seu Deus e seus filhos e todos contentes.” Hermelinda deixou a xícara na mesa muito suavemente. “Florêncio?” “Sim, tia.”

“Quando seu tio Osório morreu…”, o homem piscou. “Bem, faz uns 15 anos, não é?” “18.” “Bem, 18.” “E quantas vezes você veio a esta casa em 18 anos?” Silêncio. “Quatro”, disse Hermelinda. “A primeira ao enterro e você foi embora antes do rosário. A segunda para me pedir emprestado réis que nunca me pagou.

A terceira e a quarta para me perguntar como ia de saúde.” Balançou uma vez. “Nenhuma para me trazer 1 litro de leite, nenhuma para arrumar o curral, nenhuma para me perguntar se comi. Tia, no mês passado, caí no quintal e fiquei 4 horas no chão.” Florêncio se remexeu na cadeira. “Eu não sabia.” “Claro que não sabia.”

Hermelinda sorriu e foi um sorriso terrível. “Para saber é preciso vir.” Fez-se um silêncio muito longo e então a velha agarrou-se ao andador e se levantou. E o ruído dos tubos contra a laje foi o único que se ouviu na cozinha. “Agora vou te dizer uma coisa, meu filho, e quero que entenda bem.” Aproximou-se dele devagar. Tac, tac, tac.

“Essa mulher que você chamou de agregada me ordenha a vaca, me tira a água, me sobe no jumento para me levar para ver meus mortos. Me lava. Florêncio, você sabe o que é uma pessoa ser lavada por outra? Eu também não sabia e tenho 78 anos. E deixe-me dizer que é a coisa mais humilhante e mais bonita do mundo.” Florêncio se pôs de pé, vermelho.

“Ela está lavando o cérebro da senhora, tia.” “Está lavando minhas costas que estavam cheias de sujeira e eu não alcançava. É uma interesseira, nunca me pediu um centavo. Porque está esperando”, pigarreou, “o sítio.” Hermelinda parou e o olhou, e com uma calma absoluta disse: “Não, Florêncio, ela não está esperando o sítio.”

Virou-se para o canto, onde Odete continuava com o prato na mão e o rosto branco. “Quem está esperando o sítio é você. E está há 18 anos esperando, e por isso não veio, porque cada visita lhe custava e a herança era de graça.” Florêncio pegou seu chapéu. “Isso não vai ficar assim. Já sei, vou falar com um advogado.” “Fale.” Hermelinda levantou o queixo. “E, de passagem, pergunte a ele quanto vale uma tia que cai no quintal e ninguém a levanta.”

O homem saiu batendo a porta, e dona Hermelinda Fagundes ficou de pé no meio de sua cozinha, tremendo dos pés à cabeça, até que Odete soltou o prato na pia, atravessou o quarto e a segurou antes que caísse para o lado. Assentou-a na cadeira de balanço, lhe trouxe água, ajoelhou-se em frente a ela e esfregou suas mãos, que estavam geladas.

“Hermelinda, esse homem vai voltar.” “Vai voltar sim, com papéis, com gente da vila.” Odete engoliu em seco. “E vai dizer que eu a enganei. Vai dizer e vão acreditar nele, Hermelinda. Eu sou uma viúva pobre, sem sobrenome e sem terra. A senhora é uma senhora de fazenda. Aqui as coisas são assim.” Hermelinda pôs uma mão na cabeça dela, arrumou uma mecha atrás da orelha, como se faz a uma filha. “Odete?” “Sim.” “Quando eu morrer, não chore muito.” “Não diga isso.” “Ouça-me.” A velha apertou a mão dela. “Quando eu morrer, vai haver barulho. Vai vir Florêncio. Vai vir Cássio. Vão vir com papéis e com advogados e vão querer te tirar daqui à força.” Odete começou a chorar. “E você não vai se mexer”, disse Hermelinda. “Me ouve?

Não vai se mexer desta casa, mesmo que gritem com você, mesmo que mostrem papéis que você não sabe ler, mesmo que digam que a lei está do lado deles.” “E o que eu faço?” Hermelinda inclinou-se para a frente e lhe falou muito perto do rosto, com uma intensidade feroz. “Você vai à vila, à casa do Dr. Aurélio Pimentel, a da placa de bronze na porta, e diz a ele três palavras.

Sítio Esperança, sob selo. Nada mais. Você entendeu? Sítio Esperança, sob selo. Sítio Esperança, sob selo, nem bêbada, nem dormindo, nem morta de medo.” Odete assentiu chorando. “Hermelinda, o que há nesse envelope?” E a velha se recostou na cadeira de balanço, fechou os olhos e sorriu com um cansaço de séculos.

“A verdade”, disse, “que é a única coisa que não se pode roubar.” A história está bem, Henry. Continuidade revisada. Hermelinda está sozinha há 18 anos, caiu há um mês. Ponto. Ela menciona isso. O envelope está com o Dr. Aurélio Pimentel e Odete sabe a senha. Sítio Esperança, sob selo. Aqui vão os pontos 9 a 14, muito mais curtos, continuando exatamente onde o ponto oito parou. Ponto nove.

O inverno chegou seco e com vento, e Florêncio voltou três vezes. A primeira veio sozinho, gritando do portão que sua tia estava mal da cabeça e que a forasteira havia entrado na casa dela. Hermelinda não saiu. Odete também não. Ficaram lá dentro, sentadas na cozinha, ouvindo os gritos, com Doralice abraçada à boneca de um olho e Anselmo dormindo.

Alheio a tudo, Florêncio gritou por 20 minutos e foi embora. A segunda vez trouxe um homem de terno que parou no quintal, contando hectares com os olhos. Hermelinda saiu ao corredor com o andador e lhe disse quatro palavras: “Fora da minha terra!” E o homem foi embora. Porque os homens de terno vão embora quando entendem que não há dinheiro fácil.

A terceira foi a pior. Quarta-feira, 11 da noite, Odete ouviu passos no quintal. Saiu descalça e lá estava Florêncio, bêbado, forçando a porta da cozinha. “Tia, abra-me.” Odete pegou a picareta com que havia levantado o curral e parou em frente a ele. “Vai embora.” “Saia, agregada.” “Vai embora, seu Florêncio. É minha casa.”

“Ainda não.” E algo na calma dessas duas palavras fez o bêbado recuar um passo. Ouviu-se a tranca. A porta abriu e no batente apareceu dona Hermelinda Fagundes em camisola com o lampião a querosene em uma mão e o cabelo branco solto até a cintura como uma aparição. Florêncio baixou a cabeça. “Tia, é que eu não tenho nada. Minha mãe morreu.

Não tenho trabalho. Não tenho mulher. E a senhora tem 20 hectares e não tem ninguém, tia? Não tem ninguém.” E pôs-se a chorar com aqueles soluços babões dos bêbados. Hermelinda o olhou do umbral e, por um instante, o rosto da velha se suavizou, porque ali, jogado em seu quintal, não havia um inimigo.

Havia um pobre de 44 anos, que era, de alguma maneira torta, a única coisa que lhe restava do sangue de Osório. “Florêncio, você sabe como se chamavam meus filhos?” O homem levantou o rosto, confuso. “Valdir e Antônia”, disse ela. “Você tinha 26 anos quando Antônia morreu. Era seu nome e não foi ao enterro.”

Sua voz era muito suave e, por isso, era insuportável. “Não te odeio, meu filho, mas não me peça para te deixar minha casa. Eu não deixo minha casa para quem não soube o nome dos meus mortos.” Florêncio ficou de joelhos na terra. “Odete”, disse Hermelinda, “sirva-lhe um café para que a ressaca passe e que ele vá embora com a luz do dia. Não vá cair no córrego.”

E Odete baixou a picareta e serviu café a um homem que 2 minutos antes havia querido arrombar a porta. Quando ele foi embora, já de madrugada, parou em frente a ela e lhe disse sem olhá-la: “Eu não sou mau. É que ninguém me ensinou a vir da escuridão.” A voz de Hermelinda: “Esse homem não vai brigar pelo sítio por avareza, vai brigar por vergonha. A avareza cansa.

A vergonha não.” Em janeiro, Hermelinda começou a se cansar. Foi devagar, como os velhos se cansam. Primeiro deixou de sair ao corredor nas manhãs, depois começou a comer a metade, depois já não se sentava na cadeira de balanço, mas na cama com as costas contra a parede. O doutor da vila veio um domingo. Chamava-se Nicolas.

Era jovem e cansado e tinha boa mão. A examinou por meia hora. Saiu à cozinha, onde Odete esperava com as mãos no avental. “É sua filha?” “Não.” “Sobrinha?” “Não.” “E quem é a senhora, então?” E Odete, que havia passado a vida abaixando a cabeça e dizendo: “Desculpe o incômodo”, endireitou-se. “Sou quem cuida dela”. O doutor assentiu devagar.

“O coração dela está cansando. Pode durar seis meses, pode durar dois anos, mas não vai melhorar. Vai se apagando, no final vai dormir muito. É o que tem.” Tirou uma folha da maleta, pôs na mesa e assinou. “É um certificado. Diz que dona Hermelinda está em pleno uso de suas faculdades.

Ela me pediu há seis semanas e me pediu para que hoje eu assinasse diante de você, sem lhe explicar nada. Disse que um dia você entenderia de repente.” Odete olhou o papel que não sabia ler. “Doutor, para que serve?” Ele pegou sua maleta, na porta, se virou. “Serve para que, quando ela morrer, ninguém possa dizer que você a enganou e foi embora.”

E Odete Silva ficou sozinha, de pé, com as duas mãos apoiadas na mesa, e entendeu de repente exatamente como Hermelinda havia dito. Naquela noite, entrou no quarto e sentou-se na beira da cama. “O doutor já te disse?” “Sim.” “Chorou?” “Ainda não.” “Boa moça.” “Hermelinda, o que há no envelope?” “Coisas que não ouso te dizer na cara.” “Diga-me.”

“Não, eu não sei ler. Se a senhora morrer, esse envelope vai ler um juiz, um tabelião, um estranho. Todo mundo vai saber o que a senhora quis me dizer, menos eu.” Silêncio longo. “Você tem razão”, disse Hermelinda. “Então vou te mostrar de outro modo, mas não hoje. Hoje estou cansada.” Apertou a mão dela. “E não me solte até eu dormir, que faz 18 anos que durmo sozinha e já estou velha para aprender coisas novas.”

Odete não a soltou e ficou pensando que em sua vida inteira ninguém lhe havia dito: “Não me solte”. E que havia passado 34 anos sem saber que isso era exatamente o que sempre havia querido ouvir. A primavera foi a melhor estação que se viu no Sítio Esperança em 20 anos, porque Odete Silva não ficou chorando. Ela limpou 4 hectares de mato com uma picareta, um facão e as mãos. Levou dois meses.

Trabalhava desde antes do sol até que já não se viam os sulcos, e voltava preta de terra com as mãos rachadas, e dava de jantar a Hermelinda na boca, colherada por colherada. “Hoje derrubei o grande Luisach, o do morro. Esse foi plantado pelo seu sogro, pois seu sogro tinha mau gosto para árvores.”

E Hermelinda ria, e o ar lhe faltava e tossia. E Odete lhe esfregava as costas. Plantou milho e feijão, comprou galinhas com o dinheiro do leite, uma porca prenhe, arrumou o telhado do paiol com chapa de verdade e, uma tarde, chegou ao quintal puxando uma segunda vaca. “Com que dinheiro?” “Com o dos ovos e o do leite. Juntei por 5 meses.”

“Odete, essa vaca você comprou com seu trabalho em uma terra que não é sua.” Odete encolheu os ombros. “É a terra onde meus filhos vivem.” E continuou caminhando em direção ao curral. E Hermelinda, de trás da janela, tapou a boca com a mão e pôs-se a chorar. E não era de tristeza. Em maio, Doralice completou 7 anos. Hermelinda mandou Odete à vila e lhe disse para não voltar antes das 4.

Quando Odete regressou, a cozinha cheirava a pão queimado e havia farinha no chão, na mesa, no andador e no cabelo branco da velha. Sobre a mesa havia uma coisa escura, torta, afundada no meio. “É um bolo”, disse Hermelinda, desafiadora. Estava horrível. Cru por dentro, queimado por fora, sabia a cinza de Doralice, que nunca em sua vida havia tido um bolo.

Comeu duas fatias e disse que era o mais gostoso do mundo. Naquela noite, no paiol, a menina disse à sua mãe: “Dona Hermelinda é minha avó, não é?” “Mas não de sangue?” “Não. Então, de quê?”

Odete a cobriu. Acomodou a boneca de um olho debaixo do braço, do que realmente importa. Em junho, Hermelinda deixou de caminhar.

Uma manhã quis levantar-se e as pernas não lhe responderam. Tentou quatro vezes. Na quarta, caiu de joelhos junto à cama, com a testa colada ao colchão, e disse a coisa mais humilde que havia dito em 78 anos. “Ajude-me.” Odete a levantou, assentou-a, limpou seu rosto com a manga. “Acabou”, murmurou Hermelinda. “Já não sou nada.” “A senhora se lembra da primeira noite? Eu dormi lá fora na lama com meus dois filhos.

E a senhora não me abriu. E às 3 da manhã começou a chover. E a senhora se levantou de sua cama com esse quadril quebrado e levou 4 minutos para chegar à porta e saiu no frio em camisola para me gritar que empurrasse o portão.” Hermelinda baixou a cabeça e “Sabe o que eu pensei? Pensei: ‘Essa mulher não se levantou porque lhe sobrava, se levantou porque lhe doía’.

E quem se levanta quando lhe dói vale mais do que todos os que se levantam quando lhe sobra.” Odete apertou as mãos dela. “A senhora não é nada. A senhora é a única pessoa no mundo que me abriu uma porta.” E Hermelinda disse com um fio de voz: “Esqueci de fechá-la, só isso.” “Não, senhora. Estava aberta desde o princípio.

A senhora só teve que sair para me dizer.” Daquele dia em diante, Odete a carregava da cama para a cadeira nas manhãs, a levava para o corredor, a sentava na cadeira de balanço, a cobria com um xale, a banhava aos sábados, enquanto Hermelinda dizia que era uma vergonha e uma indecência, e se deixava banhar.

Doralice lhe penteava o cabelo, fazia a trança e, às vezes, lhe punha uma flor de buganvília. E Hermelinda dizia: “Tire-me essa coisa”. E não deixava que a tirassem. Anselmo, que já tinha dois anos, subia em seus joelhos, pegava a trança branca com as duas mãos e lhe dizia: “Mãe!” “Odete, corrija-o! Não, não está bem. Eu não sou essa criança.

Ele não conheceu o pai nesta casa. A senhora é a única coisa velha, a única que estava antes, a única que cheira a família. Que ele a chame como quiser.” E Anselmo puxou a trança. “Mãe!” Hermelinda fechou os olhos e disse muito baixinho: “Ai, criatura”, o verão veio com uma notícia ruim. “Florêncio deu entrada nos papéis”, disse Odete, pálida.

“No tribunal, está dizendo por toda parte que a senhora não está em seu juízo perfeito.” Hermelinda ficou olhando o caminho por um longo tempo. “Traga a carroça dos Renteria e o xale preto, o do baú. E me penteie bem, que as pessoas vão olhar.” “Aonde vamos?” “Ao tribunal, para que me vejam.” E a viram? A viu a vila inteira.

Viram entrar uma carroça emprestada em uma quinta-feira de feira. Viram uma mulher magra e morena levantar nos braços, como se levanta uma criança, uma idosa envolta em um xale preto com o cabelo branco trançado e uma flor na trança. Viram como assentou em uma cadeira e arrastou a cadeira degrau por degrau até a porta do tribunal, enquanto uma menina de 7 anos ia atrás carregando um bebê e uma boneca de um único olho.

O juiz saiu ao ouvir o escândalo. Chamava-se seu Prisciliano Vasconcelos e, quando jovem, havia ido à escola com Antônia Fagundes. “Dona Hermelinda, bom dia, Pris.” O juiz ficou vermelho até as orelhas. “Me disseram que eu enlouqueci”, disse a velha de sua cadeira, “e vim para você me ver o rosto. Porque você conheceu minha filha e sabe bem se estou louca ou não.

Entrem.” “Não.” Hermelinda levantou a voz, e essa voz velha e quebrada chegou até a esquina da igreja, aqui fora, “que todos ouçam”. E, sentada em uma cadeira de madeira na porta do tribunal de Vila Nova, dona Hermelinda Fagundes falou por 7 minutos. Disse seu nome completo, disse a data em que se casou e com quem.

Disse como se chamavam seus dois filhos e de que haviam morrido. E as pessoas da praça foram tirando o chapéu, um por um. Disse que estava há 18 anos vivendo sozinha. Disse que havia caído no quintal e passado 4 horas no chão, e que seu sobrinho vivia a 1 hora e meia dali. Disse que, em uma noite de chuva, havia chegado uma mulher ao seu portão com duas criaturas e um jumento, e que ela não lhe havia aberto, e que a mulher havia dormido na lama por não empurrar um portão que estava aberto.

E disse, olhando o juiz nos olhos: “Pris, eu não dei meu sítio a ninguém. Eu o deixei para minha família. E se você, ou qualquer homem desta vila, quiser me explicar o que é uma família, aqui estou sentada e não consigo me levantar. Mas primeiro que me digam: quem me limpa, quem me carrega, quem me sobe na carroça, quem me diz mãe.”

Ninguém disse nada. Florêncio Fagundes estava parado na esquina da praça com o chapéu nas mãos. Não se aproximou, virou-se e foi embora. E o juiz desceu os três degraus, tirou o chapéu e beijou a mão de dona Hermelinda Fagundes diante de toda a vila. “Vá para casa, dona Hermelinda. Aqui não há nada a julgar.” De volta, na carroça, a velha ia calada.

“Odete, hoje eu disse em voz alta o nome dos meus filhos diante de gente. 18 anos sem dizer, nem sozinha, nem rezando.” Olhava o caminho. “Valdir”, disse provando, como quem prova uma palavra em outro idioma. “Antônia, Osório, Doralice”, que não entendia nada, pegou sua mão e Hermelinda olhou o céu laranja sobre os morros, esse céu que levava 18 anos olhando sozinha de uma cadeira de balanço, e percebeu que era a primeira vez em sua vida de velha que eu estava olhando, acompanhada. “Já posso morrer.”

“Ai, não diga isso.” “Não digo triste, moça, digo aliviada.” Dona Hermelinda Fagundes morreu em outubro, em uma quarta-feira às 6:20 da manhã. Foi se apagando por duas semanas, como havia dito o doutor. No final, falava com gente que não estava no quarto. “Osório, não deixa a porta aberta que o frio entra.” “Já fechei, Hermelinda. Durma.

E o menino Valdir anda no rio.” “Já voltou. Está dormindo.” E a velha suspirava tranquila e dormia de novo. Na última noite, despertou lúcida. Eram 2 da manhã. “Suba aqui na cama. Suba, mulher, que eu não mordo.” Odete deitou-se de lado em frente a ela, tão perto que se respiravam. “Vou te contar o do envelope.”

“Cale a boca, me resta pouca língua e quero gastar. Lá vem.” Fechou os olhos e juntando forças: “Nesse envelope está meu testamento. Tudo o que é meu é seu. O sítio Esperança, a casa, a terra, as vacas, o poço, em seu nome e no das crianças.” Odete tapou a boca. “Já sabia. Suspeitava e nunca me perguntou nem uma vez em um ano.”

Hermelinda sorriu apenas. “Por isso te deixei.” Respirou. “Mas a outra folha, uma carta, eu a escrevi de meu punho à noite em que fomos com o tabelião. Levei até às 3 da manhã porque minha mão tremia e porque não sabia como dizer.” “E o que diz?” E, na escuridão daquele quarto, a velha recitou de memória o que havia escrito palavra por palavra, porque levava um ano repetindo a si mesma todas as noites antes de dormir.

“Para o caso de eu, dona Hermelinda Fagundes, em meu são juízo, deixo constância do seguinte: enterrei meu filho Valdir, aos 17 anos afogado. Enterrei minha filha Antônia aos 24 de febre. Enterrei meu esposo Osório e fiquei 18 anos sentada em uma cadeira de balanço, em que, em todos esses anos, ninguém me trouxe um prato de comida, nem me tirou água do poço, nem me perguntou se havia jantado.

Que em uma noite de chuva chegou ao meu portão a viúva com duas criaturas e um jumento, e me pediu pousada, e eu a neguei. Que ela dormiu na lama e não empurrou meu portão, embora estivesse aberto. Que eu me levantei às 3 da manhã com o quadril quebrado e a abri. E esse foi o único ato verdadeiramente bom de minha vida inteira, que essa mulher se chama Odete Silva, que ela nunca me pediu nada, nem um real, nem um papel, nem uma promessa. Que me ordenhou a vaca, me limpou as sepulturas de meus mortos, me lavou o corpo, me carregou à vila e ensinou a sua filha a me pentear, que seu filho Anselmo me chama mãe e que eu o deixei porque estava há 18 anos sem que ninguém me chamasse de nada. Que se alguém ler isso pensando que me enganaram, quero que saiba que sim, me enganaram. Toda a vida me enganaram, dizendo que família era sangue, e o sangue não veio quando caí no quintal e fiquei 4 horas no chão.

Que família é quem te levanta? Que por isso deixo tudo o que é meu para Odete Silva e seus filhos. Não em pagamento, porque isso não se paga, mas em justiça, porque isso se herda. E que me enterrem junto aos meus três mortos e que em minha cruz ponham que morri acompanhada.” Hermelinda se calou.

Odete chorava sem ruído, com o rosto afundado na coberta. “Não chore, não consigo.” “Bem, então chore, mas me abrace que estou com frio.” E Odete a rodeou com um braço e encostou a testa no ombro dela. “Moça, meu erro não foi ficar sozinha. Meu erro foi acreditar que estar sozinha me fazia forte e não me fazia dura, que não é a mesma coisa.”

O ar lhe faltou. Recuperou-o. “O forte se dobra e não se rompe. O duro não se dobra e, por isso, se quebra.” Silêncio. “Eu estive 18 anos sem me dobrar e já ia me quebrar. E você chegou, Hermelinda. Obrigada por abrir meu portão.” E pigarreou a velha, com a voz mais tênue do mundo, disse a última coisa que disse a alguém.

“Não, minha filha, obrigada por bater.” Dormiu às 4. Às 6:20, Odete sentiu a respiração parar. Foi assim, simples. Hermelinda inalou e não exalou. E no quarto ficou um silêncio diferente de todos os silêncios que Odete havia ouvido em sua vida. Um silêncio que confortava. Lá fora, o sol aparecia atrás do morro.

Odete não gritou. Acomodou as mãos dela sobre o peito, penteou o cabelo branco com os dedos e fez a trança devagar, como Doralice a fazia. Pôs uma flor de buganvília. Depois abriu a janela para que ela fosse, e só então sentou-se no chão e chorou como não havia chorado nem por sua mãe, nem por seu marido. Depois lavou o rosto, saiu para o paiol e lhes disse a verdade a seus filhos, porque nunca lhes havia mentido: “Morreu a avó”. E Doralice, que não havia chorado no velório de seu pai, nem no enterro, nem quando deixou sua boneca no casebre, desabou aos gritos sobre o colchão, enquanto Anselmo a olhava sem entender e dizia: “Mãe, mãe!” Procurando a velha da trança. O velório foi na casa. Chegaram 40 pessoas. 40 à casa de uma mulher que estava há 18 anos, sem que ninguém tocasse sua porta. Chegou dona Cida, a que lavava no rio, e pôs-se a chorar no corredor. Chegou o Dr. Nicolas, chegou o juiz, seu Prisciliano de Terno, e sentou-se 3 horas junto à caixa sem falar. Chegou o padre da vila e rezou um rosário completo, e desta vez não tinha outro enterro esperando.

E às 5 da tarde parou no portão o cavalo tordilho. Seu Cássio Bernardes desceu, tirou o chapéu e avançou entre a gente até o corredor, onde Odete estava de pé, vestida de preto, com Anselmo dormindo no xale. “Era uma mulher terrível”, disse. “Sim, meu pai tinha medo dela. Eu também.” Nos primeiros dias, o homem girava o chapéu entre as mãos.

“No dia em que vim oferecer para comprar o sítio, eu disse a você que um dia ela ia cair e que você ia decidir se a levantava ou se pegava o que pudesse e ia embora.” Pigarreou. “Me enganei.” Odete não disse nada. “E a outra coisa em que me enganei há um ano e meio. Quando lhe dei três meses para desocupar o casebre…” Baixou a vista.

“Seu marido caiu do meu telhado trabalhando para mim e…” Pigarreou. “Eu lhe dei três meses e um saco de milho e disse a mim mesmo que a lei não me obrigava nem a um.” Levantou o rosto. O queixo lhe tremia. “E ontem à noite me deitei pensando que essa mulher que eu joguei na rua passou um ano carregando nos braços uma velha que não lhe devia nada.

E me perguntei: ‘Que tipo de homem sou eu?'” Odete o olhou por um longo tempo. Podia tê-lo cuspido. Tinha todo o direito, mas acabara de enterrar a mulher que lhe ensinou que o duro se quebra. “Entre rezar, seu Cássio, tem café.” E o homem entrou e ajoelhou-se junto à caixa e chorou um pouco. E a ninguém estranhou, porque nos velórios chora até a gente que não sabia que podia.

Às 7 chegou Florêncio a pé, sóbrio, com a camisa para dentro e o cabelo molhado e penteado. A gente do quintal se calou. Parou a 3 metros com o chapéu nas mãos. “Eu não venho brigar, venho lhe perguntar uma coisa.” Levantou o rosto. Tinha os olhos vermelhos. “Como se chamavam?” “Quem?” “Os filhos dela. Ela me perguntou como se chamavam seus filhos e eu não soube. E estou há um ano sem dormir por causa disso.”

Fez-se um silêncio enorme no quintal. Odete desceu o degrau, parou em frente a ele. “Valdir e Antônia.” Florêncio fechou os olhos, repetiu os nomes, movendo os lábios sem som, como quem aprende uma oração. “Posso passar para rezar pelos três?” E Odete se fez para o lado. A enterraram no dia seguinte, debaixo do peru. Junto aos seus três mortos, foram 60 pessoas.

Odete carregou um dos quatro cantos da caixa e ninguém ousou-lhe dizer que as mulheres não carregam caixas. E quando começaram a jogar terra, Anselmo, que tinha 2 anos e meio e não entendia nada, soltou-se da mão de sua irmã, parou na beira da cova e disse, bem claro, com sua voz de criança pequena: “Mãe!” e 60 pessoas se quebraram ao mesmo tempo.

Três semanas depois, Odete desceu à vila, foi à casa da placa de bronze, sentou-se em frente ao Dr. Aurélio Pimentel com as mãos no colo e disse as três palavras que estava há um ano guardando: “Sítio Esperança sob selo.” O tabelião se levantou devagar, tirou de um arquivo um envelope amarelo lacrado.

“Dona Hermelinda me disse que a senhora viria e me disse que a senhora não sabe ler.” Odete baixou a cabeça. “Sei escrever meu nome.” “Então, com sua licença, eu o leio.” E lhe leu o testamento com suas cláusulas e seus 20 hectares. E depois lhe leu a carta completa, sem pular uma palavra. Quando chegou a “que a família é quem te levanta”, teve que parar, tirar os óculos e limpar os olhos com o lenço.

E o tabelião de Vila Nova, que estava há 40 anos lendo testamentos, disse em voz alta que em toda a sua carreira nunca havia lido uma coisa igual. Odete escutou sem se mover, com as costas retas. “Doutor Pimentel, pode me escrever uma cópia dessa carta grande, com letras grandes?”

“Para quê?” “E Odete Silva, viúva de Robledo, dona de 20 hectares, disse:” “Para pendurar lá na parede da cozinha e para aprender a ler com ela.” Passaram 11 anos. O Sítio Esperança já não era um sítio comido pelo mato. Eram 20 hectares limpos, plantados de milho e de feijão, com dois pastos, 18 reses e um poço com beiral novo.

A casa continuava sendo a mesma, com uma diferença. Os três quartos estavam abertos. No do fundo, o que havia estado fechado por 18 anos, dormia Anselmo, que tinha 13, e trabalhava como homem desde os 10. Sobre sua cama, pendurado no mesmo prego, continuava o vestido branco com florzinhas azuis de Antônia Fagundes. Odete jamais o havia tirado e Anselmo jamais havia perguntado por quê.

Doralice tinha 18 e estudava para ser professora. E Odete Silva havia aprendido a ler aos 35 anos, com uma carta emoldurada na parede da cozinha. E a paciência infinita de uma menina de sete, que lhe apontava as letras com o dedo, levou dois anos. A primeira palavra que leu completa, sem ajuda, foi Hermelinda. E a última frase, a que lhe custou 8 meses, a que aprendeu de memória antes de poder lê-la, era a que estava no meio da folha, escrita com uma letra trêmula que ia para baixo, no final de cada linha: “que a família é quem te levanta.” Todos os domingos, sem faltar um só em 11 anos, iam ao cemitério, limpavam as sepulturas, arrancavam a grama, trocavam as flores. E a quarta, a do canto, com uma cruz de pedra que havia custado seis meses de leite e de ovos, dizia exatamente o que a velha havia pedido: “Hermelinda Fagundes, 78 anos, morreu acompanhada”. Nada mais, sem datas, sem versículos, sem “descanse em paz”.

E as pessoas da vila, quando passavam e liam aquela cruz, ficavam paradas um pouco, porque em Vila Nova todos sabiam a história. Todos sabiam que dona Hermelinda havia passado 18 anos sozinha em uma cadeira de balanço e que em uma noite de chuva havia fechado a porta para uma viúva com duas criaturas, e que às 3 da manhã havia se levantado com o quadril quebrado e a havia aberto.

Florêncio Fagundes morreu no ano passado. Morreu sóbrio. Estava há 9 anos sem beber. Odete havia lhe dado trabalho no terceiro inverno, quando o encontrou dormindo na porta da igreja. Ele lhe disse que não queria caridade. Ela lhe respondeu que não era caridade, que era um trabalho e que se aparecesse bêbado uma única vez, o expulsaria.

Não apareceu bêbado nenhuma vez. Trabalhou 8 anos na terra que havia querido tirar à força. Quando morreu, Odete o enterrou a 10 passos de Hermelinda e pagou uma cruz para ele. Anselmo, que tinha 12, perguntou: “Por quê?” “Porque sua avó me ensinou que as pessoas devem ser levantadas e não me disse que só as que merecem.”

Uma tarde, já grande, Anselmo perguntou a sua mãe como ela era. Odete parou de moer, limpou as mãos, sentou-se em frente a seu filho em uma das quatro cadeiras. “Era a mulher mais dura que conheci em minha vida. Me negou pousada. Me deixou dormir na lama com você nos braços, com sua irmã tremendo de frio, e nem sequer me respondeu: ‘Bom dia!’.” “E por isso a amávamos, não é?” Odete olhou pela janela em direção ao portão, em direção ao caminho de terra por onde havia chegado em uma noite de outubro, com um jumento e uma panela de ágata e nenhuma esperança. “Nós a amávamos porque às 3 da manhã, quando começou a chover, com o quadril quebrado e sem ninguém que a obrigasse, essa mulher se levantou de sua cama.” Seus olhos se encheram. “Qualquer um é bom quando lhe sobra, meu filho. Qualquer um distribui quando tem de sobra.” Bateu na mesa suavemente com o nó do dedo, exatamente como Hermelinda fazia.

“O difícil é abrir a porta quando a gente sente dor ao se levantar. Isso sua avó fez, e isso é a única coisa que quero que você ensine a seus filhos.” Anselmo ficou calado por um tempo. “E por que a senhora não empurrou o portão, mãe, se estava aberto?” Odete sorriu. “Porque uma porta aberta não é um convite. O convite é alguém sair para te dizer.”

Naquele domingo, depois do cemitério, Odete ficou sozinha no corredor. O sol baixava atrás dos morros, pintando tudo daquele laranja queimado que dura apenas alguns minutos antes que o mundo se torne azul. Tinha 46 anos, as mãos como couro, 20 hectares escriturados, uma filha que ia ser professora e um filho que sabia ler melhor que ela. E tinha uma cadeira de balanço vazia. Nunca se sentava nela.

Em 11 anos, nem uma única vez. A limpava, a engraxava, a punha junto à janela em seu lugar exato, orientada para o caminho, mas não se sentava. Naquela tarde, sem saber por quê, sentou-se. E de lá viu o que dona Hermelinda Fagundes havia visto durante 18 anos. O corredor, o portão, a cerca de paus e, mais além, o caminho de terra descendo para o vale, vazio, longo, interminável, e entendeu de um só golpe a solidão daquela mulher.

18 anos olhando aquele caminho, 18 anos esperando que alguém viesse. E um dia veio alguém, e esse alguém não trazia nada, nem dinheiro, nem saúde, nem parentesco, nem papéis. Trazia um jumento magro, uma panela amassada, duas criaturas famintas e uma frase: “A senhora não tem quem cuide de você e eu não tenho onde morar com meus filhos”.

Odete se balançou uma vez para a frente e para trás, e no silêncio daquela tarde de domingo disse em voz alta: “Para ninguém, ou talvez para a única pessoa que poderia ter lá ouvido. Nós nos salvamos, as duas, Hermelinda.” E continuou se balançando até escurecer, muitos anos depois. Quando Doralice já era professora na escola de Vila Nova, as pessoas da vila notaram uma coisa curiosa.

Cada vez que chegava um aluno novo à sua sala, um daqueles que chegam no meio do ano letivo, sujos, calados, com os olhos de quem havia caminhado muito, a professora fazia sempre o mesmo. Não o mandava formar fila, não lhe perguntava o nome na frente de todos, levantava-se de sua carteira, atravessava a sala inteira, abria ela mesma a porta que já estava aberta e saía para dizer a ele: “Entre, aqui tem lugar”.

E ninguém na vila entendia por que a professora fazia isso. Ninguém, salvo um homem alto e magro que se chamava Anselmo, dono do Sítio Esperança, que todos os domingos subia à colina do cemitério para limpar cinco sepulturas, e em uma delas, a do canto, debaixo do peru, com a pedra já comida pelo musgo, ainda se conseguia ler:

“Hermelinda Fagundes, 78 anos, morreu acompanhada.” Aqui termina esta história, amigos. Antes de irem, quero lhes pedir algo de coração. Pensem nessa pessoa que hoje está sozinha, esse vizinho, essa tia, esse velhinho que vive no final da rua e que ninguém mais visita. E digam-me aqui embaixo nos comentários quem vocês vão visitar esta semana.

Escrevam-me seu nome, mesmo que seja só o nome, eu os leio a todos. Nos vemos na próxima história.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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