A Resposta de Chico Xavier a Silvio Santos Durou 4 Minutos – o Auditório Inteiro Ficou de Pé
de todos que estavam presentes. O motorista era um senhor chamado Geraldo, que dirigia para Chico havia mais de 10 anos. Geraldo era um homem discreto, de poucas palavras, evangélico convertido, que respeitava Chico profundamente, mas nunca tinha se interessado pelo espiritismo. Dirigia porque gostava de Chico como pessoa e porque Chico pagava pontualmente e nunca reclamava de nada.
Naquela viagem iam os dois sozinhos. Marcos Antônio tinha ido antes, de ônibus, para resolver questões de produção. O carro era um Chevette azul desbotado com o vidro traseiro trincado. Geraldo contou anos depois que, durante as primeiras 3 horas de viagem, Chico ficou absolutamente calado, de olhos fechados, mas não dormindo.
De vez em quando mexia os lábios, como se estivesse conversando com alguém que só ele podia ver. Geraldo estava acostumado com isso. Não interrompia, mantinha os olhos na estrada e deixava o rádio desligado por respeito. Quando faltavam mais ou menos duas horas para chegar a São Paulo, Chico abriu os olhos de repente e disse: “Geraldo, para o carro.”
Geraldo olhou pelo retrovisor. Estavam num trecho reto da rodovia, sem posto, sem cidade por perto, só mato e céu escurecendo. “Tudo bem, Chico? O senhor está passando mal?” “Para o carro, Geraldo, por favor.” Geraldo encostou no acostamento e o Chevette parou com o motor ligado, o farol fraco iluminando uns 20 m de asfalto à frente.
Chico olhava para o lado direito da estrada, para o mato escuro, como se estivesse vendo algo entre as árvores. Geraldo olhou na mesma direção. Não havia nada: escuridão, grilos, o barulho do motor. “Chico, o que foi?” Chico não respondeu imediatamente; ficou olhando para aquele ponto por uns 30 segundos. Depois se virou para Geraldo e disse com uma voz que Geraldo descreveu como “a voz mais triste que já ouvi sair de um ser humano”:
“Geraldo, morreu um menino aqui faz oito dias. Ele tinha 17 anos. O carro capotou ali naquela curva e ele foi jogado para fora. Morreu sozinho de madrugada, esperando o socorro que não veio.” Geraldo sentiu um arrepio que subiu das pernas até a nuca. “Chico, como o senhor sabe disso?” “Ele está aqui, Geraldo.
Está do lado de fora do carro, do meu lado, e está me pedindo uma coisa.” Geraldo apertou o volante com força, engoliu em seco: “O que ele está pedindo?” Chico fechou os olhos por um momento. Quando abriu, tinha os olhos marejados: “Ele está pedindo para eu dizer para a mãe dele que ele não sofreu, que foi rápido e que ele está com o avô paterno, que se chamava…”
Chico parou, inclinou a cabeça como quem escuta melhor: “…que se chamava Benedito. Seu Benedito, que tinha uma oficina de sapatos em Ribeirão Preto.” Geraldo olhou para Chico sem saber o que dizer: “E como o senhor vai encontrar a mãe desse menino, Chico?” Chico deu um sorriso triste, muito triste: “Eu não vou precisar encontrar. Ela vai estar hoje à noite no auditório do Silvio Santos.”
Geraldo engoliu em seco de novo, sentiu o estômago apertar: “Como assim?” “Emmanuel me mostrou, Geraldo. A mãe desse menino vai estar sentada no auditório. Ela não sabe por que vai lá hoje. Ela vai pensar que foi porque ganhou o ingresso de uma vizinha, mas não é. Ela está sendo levada até lá por forças que ela não compreende, e eu preciso estar lá para entregar essa mensagem.
É por isso que eu aceitei o convite. Não é pelo programa, não é pelo Silvio; é por essa mãe.” Geraldo ficou em silêncio por um tempo, depois ligou a seta, olhou pelo retrovisor e voltou para a estrada. Dirigiu o resto do caminho sem dizer uma palavra. Mas quando chegaram a São Paulo já de noite, com as luzes da cidade passando pelo para-brisa, Geraldo fez uma última pergunta:
“Chico, o senhor sabe o nome do menino?” Chico respondeu sem hesitar: “Ricardo. Ricardo Almeida Souza, 17 anos. Morreu no dia 7, uma quarta-feira, às 3h40 da madrugada.” Geraldo estacionou o carro na frente do estúdio do SBT com as mãos tremendo. Ele disse depois para quem quisesse ouvir que, naquela hora, ele soube com a certeza que só quem vive uma coisa dessas pode ter: que o que Chico Xavier fazia não era teatro, não era truque, não era memória privilegiada; era algo que ele, Geraldo, como evangélico, não conseguia explicar dentro da sua fé, mas que era tão real quanto o asfalto debaixo dos pneus daquele Chevette.
Chegaram ao SBT por volta das 19h30. O programa ia ao ar às 21h. Marcos Antônio estava esperando na portaria com um crachá de visitante e uma expressão tensa no rosto. Quando Chico desceu do carro devagar, porque os joelhos já doíam naquela época, Marcos veio quase correndo e disse baixo, quase sussurrando: “Chico, temos um problema.”

“Que problema, meu filho?” “O diretor do programa não quer mais a entrevista.” Chico parou, olhou para Marcos: “Como assim?” Marcos explicou falando rápido, nervoso. O diretor de auditório, um homem chamado Jorge Menezes, tinha recebido uma ligação à tarde de um assessor jurídico da emissora. Alguém — Marcos não sabia quem — tinha levantado uma preocupação:
se Chico Xavier dissesse alguma coisa ao vivo que pudesse ser interpretada como exercício ilegal da medicina, ou se fizesse alguma revelação que envolvesse menores de idade, ou se alguém no auditório tivesse uma reação forte demais, a emissora poderia ter problemas jurídicos. O assessor recomendou cancelar. Jorge Menezes concordou.
A entrevista, na visão dele, era arriscada demais. Chico ouviu tudo em silêncio. Depois disse: “Marcos, me leva até esse homem.” “Chico, ele não vai querer falar com o senhor. Ele já decidiu.” “Me leva até ele, meu filho. Eu só preciso de 2 minutos.” Marcos hesitou, olhou para Geraldo, que estava atrás de Chico com a chave do carro na mão.
Geraldo deu de ombros, como quem diz: “Eu já vi coisas demais hoje. Não me pergunte nada.” Marcos respirou fundo e disse: “Está bom, vem comigo.” Eles entraram pelo acesso de serviço, passaram por corredores estreitos com cheiro de café e fumaça de cigarro e chegaram a uma sala pequena com uma mesa cheia de papéis e um monitor que mostrava o auditório vazio.
Jorge Menezes estava sentado atrás da mesa com o telefone no ouvido. Quando viu Chico entrar, arregalou os olhos e cobriu o bocal do telefone com a mão: “Um momento”, disse para quem estava do outro lado da linha, e desligou. “Seu Chico… Desculpe, não era para o senhor vir aqui. Nós vamos resolver isso internamente.”
Chico levantou a mão gentilmente com aquele gesto que ele tinha, que não era autoritário, não era impositivo; era simplesmente tão calmo que fazia a outra pessoa parar de falar por instinto: “Jorge, eu sei que o senhor está preocupado e o senhor tem razão de estar. A televisão tem regras, tem responsabilidades e eu respeito cada uma delas.
Eu não vim aqui para causar problema para ninguém.” Jorge ajeitou os óculos: “Seu Chico, o problema é que, ao vivo, a gente não controla…” “O que, Jorge?” Chico deu um passo à frente. A sala era tão pequena que agora ele estava a menos de 1 m de Jorge Menezes. “Eu vou lhe pedir uma coisa. Não como médium, não como espírita; como um velho que viajou 6 horas para estar aqui e que promete, diante de Deus e dos seus mentores, que não vai falar nada que prejudique essa emissora ou qualquer pessoa que esteja naquele auditório.”
Jorge olhou para ele, olhou para Marcos, voltou a olhar para Chico. “E eu vou lhe dizer mais uma coisa”, Chico continuou, e aqui a voz dele baixou um tom, ficou mais grave, mais pesada: “Tem uma pessoa naquele auditório hoje que precisa ouvir algo. Eu não sei quem é ainda, mas eu sei que essa pessoa está sofrendo de um jeito que o senhor e eu não conseguimos imaginar.
E se eu não estiver lá hoje, essa pessoa vai sair daquele auditório do mesmo jeito que entrou: destruída. E eu vou carregar isso pelo resto dos meus dias.” Jorge Menezes ficou em silêncio por um tempo que Marcos Antônio descreveu como o silêncio mais longo da sua vida. O monitor atrás de Jorge mostrava o auditório começando a encher:
pessoas entrando, sentando, conversando, rindo, gente comum. Gente que tinha ido lá para ver Silvio Santos, ganhar prêmios, aplaudir e se divertir. E ali, naquela sala dos fundos, um velho de 80 anos, com os joelhos doendo, pedia permissão para entrar. Jorge tirou os óculos, esfregou os olhos e disse: “Está bom, seu Chico, o senhor entra.
Mas se em qualquer momento o Silvio ou eu sentirmos que a coisa está saindo do controle, a gente corta. O senhor entende?” Chico sorriu: “Perfeitamente, meu filho, perfeitamente.” Saíram da sala. Marcos Antônio guiou Chico até uma sala de espera nos bastidores, um espaço pequeno com um sofá de couro sintético marrom, uma mesa com água e biscoitos e um espelho grande na parede.
Chico sentou no sofá, cruzou as mãos no colo e fechou os olhos. Marcos ficou de pé, sem saber se ficava ou saía. Geraldo tinha ficado no estacionamento; disse que ia esperar no carro porque “aquele lugar me dá aflição”. Marcos decidiu ficar, sentou numa cadeira no canto e ficou observando Chico. E foi ali que aconteceu algo que Marcos nunca esqueceu.
Chico, de olhos fechados, começou a falar. Não com Marcos, não com ninguém visível. Ele falava baixo, num tom que Marcos descreveu como uma conversa entre velhos amigos que não se veem há muito tempo. Marcos não entendia tudo, mas captou pedaços. Chico dizia coisas como: “Sim, Emmanuel, eu entendo.” E depois: “Não, eu não tenho medo.”
E depois, num tom mais suave: “Diga a ele que eu vou cuidar. Diga que a mãe vai estar bem.” Marcos sentiu os pelos do braço arrepiarem, porque ele sabia que Chico fazia isso — conversar com Emmanuel, seu mentor espiritual —, mas nunca tinha presenciado de tão perto. Na sala de espera de um estúdio de televisão, com o barulho do auditório filtrando pelas paredes, com cheiro de café e maquiagem no ar,
ali estava Chico Xavier conversando com alguém que não estava ali — ou que estava, dependendo de como você enxerga o mundo. E então Chico abriu os olhos e disse algo que fez Marcos Antônio agarrar os braços da cadeira: “Marcos, a mãe do Ricardo está aqui. Ela acabou de entrar no auditório: fileira 7, perto do corredor. Ela está de blusa azul e está carregando uma foto dentro da bolsa.”
Marcos levantou-se: “Chico, como o senhor…” “Vai lá, meu filho, vai olhar, mas não fala com ela. Não ainda.” Marcos saiu da sala de espera num estado que ele depois descreveu como automático, como se as pernas andassem sozinhas. Caminhou pelo corredor dos bastidores, subiu uma escada lateral e chegou a uma porta que dava para a parte de cima do auditório, de onde a produção tinha visão de todas as fileiras.
Olhou para baixo, procurou a fileira 7 e estava lá: uma mulher de uns quarenta e poucos anos, cabelo castanho preso num coque, blusa azul-clara, sentada perto do corredor. Ela não estava conversando com ninguém, não estava olhando para os lados como todo mundo fazia, com aquela excitação de estar num programa de televisão.
Ela estava parada, com as mãos cruzadas sobre a bolsa no colo, olhando para a frente, para o palco vazio, com um olhar que Marcos não soube descrever de outra forma senão como o olhar de alguém que já desistiu de tudo. Marcos voltou para a sala de espera com o coração batendo tão forte que sentia no pescoço. Entrou e olhou para Chico, que continuava sentado no sofá com aquela calma que parecia de outro mundo.
“Ela está lá, Chico, exatamente como o senhor disse.” Chico assentiu: “Eu sei, meu filho. Eu sei.” “Chico, o que o senhor vai fazer?” Chico olhou para ele com aqueles olhos cansados, gentis, que já tinham visto coisas demais nesta vida e, provavelmente, em outras: “Eu vou fazer o que eu sempre faço, Marcos. Eu vou obedecer.” Às 21h07, Silvio Santos entrou no palco.
O auditório explodiu em aplausos. Silvio fez o que Silvio sempre fazia: brincou, sorriu, jogou aviõezinhos de dinheiro, conversou com a plateia. Fez todo mundo rir. Por quase 40 minutos foi o programa de sempre: jogos, prêmios, gritos de Silvio que ecoavam pelas paredes do estúdio. A mulher de blusa azul na fileira 7 não aplaudiu nenhuma vez, não sorriu nenhuma vez, não gritou nenhuma vez; ficou ali imóvel com as mãos na bolsa.
Às 21h49, Silvio Santos parou, olhou para a câmera central e disse: “Agora, pessoal, eu vou trazer aqui uma pessoa muito especial, uma pessoa que, independente do que vocês acreditem, mudou a vida de milhões de brasileiros. Senhoras e senhores, Chico Xavier!” Chico entrou pelo lado esquerdo do palco, caminhando devagar, com aquela postura curvada que a idade e décadas de trabalho sobre uma mesa de psicografia tinham moldado.
Usava um terno escuro, simples, sem gravata. Os óculos grossos refletiam as luzes do estúdio. O auditório aplaudiu, mas de um jeito diferente: não era o aplauso eufórico de quando Silvio entrava, era um aplauso respeitoso, quase reverente, como se as pessoas soubessem instintivamente que estavam diante de algo sagrado.
Silvio foi até ele, apertou sua mão com as duas mãos, guiou-o até uma poltrona ao lado da sua e sentou-se de frente. As câmeras ajustaram o enquadramento, o auditório se acalmou. Silvio começou a conversa de um jeito leve: perguntou sobre Uberaba, sobre a rotina, sobre quantas cartas Chico recebia por dia. Chico respondia com aquela voz calma, pontuando cada resposta com “graças a Deus” e “com a ajuda dos amigos espirituais”.
Era uma conversa tranquila, quase serena. O auditório ouvia com atenção, mas sem tensão. Alguns minutos se passaram assim. E então Silvio Santos fez a pergunta. Não houve aviso, não houve preparação: Silvio simplesmente olhou para Chico, inclinou a cabeça levemente para o lado — aquele gesto que ele fazia quando ia dizer algo inesperado — e disse: “Chico, me diz uma coisa com sinceridade: você tem medo de morrer?”
O auditório inteiro prendeu a respiração. Foi audível: centenas de pessoas ao mesmo tempo parando de respirar. O silêncio que caiu sobre aquele estúdio foi tão absoluto que dava para ouvir o zumbido das luzes nos refletores. Chico olhou para Silvio, depois olhou para o auditório; depois — e isso as câmeras registraram —, olhou diretamente para a câmera central e ficou em silêncio.
Cinco segundos, dez segundos, quinze segundos de silêncio absoluto na televisão ao vivo. Quem trabalha com televisão sabe que 15 segundos de silêncio ao vivo é uma eternidade. É o tipo de coisa que faz diretor apertar botão de pânico, que faz produtor correr para o estúdio, que faz a emissora inteira entrar em alerta.
Mas ninguém se mexeu, ninguém interrompeu, porque havia algo naquele silêncio que não era vazio: era tão denso que parecia ter peso físico. E então Chico falou: “Silvio, eu vou lhe dizer uma coisa que eu nunca disse na televisão, e eu vou dizer porque Emmanuel me autorizou a dizer: eu não tenho medo de morrer. Eu tenho medo de não ter feito o suficiente antes de partir.”
Silvio engoliu em seco. Era visível: o pomo de adão subiu e desceu. “O suficiente como, Chico?” “O suficiente para aliviar a dor das pessoas que eu encontrei nesta vida. Porque a morte, Silvio, não é o que as pessoas pensam. A morte não é uma porta que se fecha; é uma porta que se abre.
E do outro lado dessa porta, as primeiras pessoas que você encontra não são anjos, não são santos, não são figuras de luz. As primeiras pessoas que você encontra são aquelas que você amou e que partiram antes de você, e elas estão esperando. E a única coisa que elas perguntam, a única, é: ‘Você cuidou de quem ficou?'” O auditório estava em silêncio total, mas não era mais só o silêncio de quem prende a respiração; era o silêncio de quem está ouvindo algo que ressoa num lugar muito fundo, que normalmente a gente não acessa no meio da correria do dia a dia.
Silvio ficou quieto por um momento. Ele, que sempre tinha uma resposta, uma piada, uma saída, ficou quieto e então fez algo que surpreendeu todo mundo. Em vez de continuar com a entrevista normal, inclinou-se para a frente e disse, quase sussurrando, mas o microfone captou: “Chico, você está me dizendo que eles estão esperando por nós?” “Estão, Silvio, neste exato momento. E alguns deles estão mais perto do que a gente imagina.”
E foi nessa hora que Chico virou o corpo na poltrona e olhou diretamente para o auditório. Não de um jeito vago, genérico: ele olhou para um ponto específico. Fileira 7, perto do corredor. Silvio percebeu. As câmeras perceberam. O diretor de corte mandou uma câmera buscar o ponto onde Chico estava olhando.
E a imagem apareceu nos monitores: a mulher de blusa azul com as mãos sobre a bolsa, olhando para Chico com os olhos arregalados. “Silvio”, Chico disse sem tirar os olhos da mulher, “eu preciso pedir uma coisa ao senhor. Eu preciso falar com aquela senhora.”
Silvio olhou para a mulher e olhou para Chico. Olhou para o diretor nos bastidores, que Marcos Antônio descreveu como estando branco como papel. Jorge Menezes, o diretor, estava com o dedo no botão de corte. Marcos estava ao lado dele, murmurando: “Não corta, pelo amor de Deus, não corta.” Silvio Santos, para crédito eterno dele, tomou uma decisão naquele momento que definiu a televisão brasileira.
Ele se levantou, caminhou até a beira do palco, estendeu a mão para a mulher e disse: “A senhora pode vir aqui, por favor?” A mulher não se mexeu; ficou parada, olhando para Silvio, depois para Chico, depois para Silvio de novo. As pessoas ao redor dela olhavam sem entender. Uma senhora ao lado deu um leve empurrão no braço dela, como quem diz: “Vai, ele está chamando você.”
A mulher se levantou devagar, como alguém que está num sonho e sabe que está sonhando, mas não consegue acordar. Caminhou pelo corredor lateral, subiu os três degraus do palco e ficou de pé ali, no meio daquele espaço enorme, com os refletores caindo sobre ela diante de 40 milhões de pessoas.
Silvio guiou-a até uma cadeira ao lado de Chico. Ela sentou, com a bolsa continuava apertada contra o peito. Chico olhou para ela e o que aconteceu nos minutos seguintes mudou a vida de todo mundo que estava naquele estúdio, mudou a vida de todo mundo que estava assistindo em casa e mudou para sempre a forma como aquela mulher entendia a morte do filho.
“A senhora é mãe do Ricardo?”, Chico disse. Não perguntou; afirmou. A mulher arregalou os olhos, os lábios começaram a tremer: “Como? Como o senhor sabe?” “O Ricardo está aqui, minha filha. Ele está do meu lado esquerdo neste momento. E ele está me pedindo para dizer uma coisa que ele não conseguiu dizer antes de partir.”
A mulher levou as mãos à boca. As lágrimas começaram a cair sem que ela fizesse som nenhum. Chorar em silêncio total diante de milhões de pessoas é uma das coisas mais devastadoras que se pode testemunhar. “O Ricardo me diz que morreu na estrada, que o carro saiu da pista, que foi de madrugada numa quarta-feira, que faltavam poucos quilômetros para chegar na casa de um amigo onde ele ia dormir.”
A mulher assentiu, incapaz de falar. “Ele me diz que a senhora, desde aquele dia, carrega uma culpa, porque a senhora não queria que ele fosse. A senhora pediu para ele não ir e ele foi assim mesmo. E a senhora, desde aquele dia, pensa todos os dias: ‘Se eu tivesse insistido mais, se eu tivesse escondido a chave do carro, se eu tivesse sido mais firme, meu filho estaria vivo.'”
A mulher soltou um soluço, um único soluço que ecoou pelo estúdio inteiro. O auditório estava petrificado. Silvio Santos estava sentado na sua poltrona, com as mãos apoiadas nos joelhos, completamente imóvel. Chico se inclinou para a frente, pegou as mãos da mulher nas suas e disse com a voz mais suave que se pode imaginar:
“O Ricardo me pede para dizer à senhora que não foi culpa sua, que nada do que a senhora fizesse teria mudado o que aconteceu, porque a partida dele já estava marcada, estava escrita antes dele nascer. E a missão que ele veio cumprir nesta terra foi cumprida em 17 anos. 17 anos bastaram.” A mulher chorava abertamente agora, sem contenção, sem vergonha.
Chorava como só uma mãe que perdeu um filho pode chorar. E o auditório — aquelas centenas de pessoas que tinham ido ali para brincar, ganhar prêmios e gritar o nome do Silvio — estava chorando junto. Homens de 50 anos que nunca tinham chorado em público com lágrimas escorrendo pelo rosto; mulheres agarrando as mãos de estranhas sentadas ao lado.
Um silêncio sagrado que nenhuma igreja, nenhum templo, nenhum centro espírita consegue produzir artificialmente, porque aquilo não era artificial: aquilo era a coisa mais real que jamais tinha acontecido naquele estúdio. E então Chico disse algo que fez Silvio Santos recuar na poltrona: “O Ricardo me diz mais uma coisa, minha filha.
Ele me diz que a senhora trouxe uma foto dele dentro da bolsa. Uma foto dele no aniversário de 15 anos, com uma camisa xadrez vermelha e preta, ao lado de um bolo que a senhora mesma fez: um bolo de chocolate com morangos.” A mulher abriu a bolsa com as mãos tremendo. Tirou de dentro uma foto, tamanho 10×15, desgastada nas bordas de tanto ser manuseada.
Segurou diante de Chico e ali estava: um menino de 15 anos, sorriso largo, camisa xadrez vermelha e preta, ao lado de um bolo de chocolate com morangos. Chico nem olhou para a foto, não precisava. Continuou olhando para a mulher e disse: “E ele me diz que, atrás da foto, a senhora escreveu algo. Escreveu com caneta azul no dia do enterro.”
A mulher virou a foto. Atrás, com caneta azul em letra trêmula, estava escrito: “Meu filho, me perdoa por não ter te segurado.” Chico leu em voz alta não a frase escrita, mas leu o que Ricardo estava dizendo: “‘Mãe, não era a senhora que tinha que me segurar. Era eu que tinha que partir para poder te esperar do outro lado. E eu estou aqui.
E eu estou esperando. Mas não agora. Agora a senhora tem que viver. Tem que viver por mim e pela Ana.'” A mulher arregalou os olhos de um jeito que fez metade do auditório se inclinar para a frente: “Ana…” Chico assentiu: “O Ricardo me diz que Ana é a irmã mais nova dele, tem 13 anos. E que Ana está sofrendo em silêncio porque a senhora, desde que o Ricardo partiu, parou de viver.
A Ana precisa da mãe de volta.” A mulher levou as duas mãos ao rosto e chorou de um jeito que não era mais dor: era algo diferente. Era o choro de quem acaba de ouvir uma verdade que muda tudo — uma verdade que dói, mas que cura; que corta, mas que ao mesmo tempo costura. Silvio Santos estava com os olhos vermelhos.
E aqui preciso parar e registrar uma coisa que quase ninguém comenta quando fala sobre essa noite: Silvio Santos, naquele momento, não estava sendo apresentador, não estava sendo empresário, não estava sendo o homem que dominava o horário nobre da televisão brasileira. Ele estava sendo um pai, um ser humano, um homem que, diante do que estava vendo, não conseguia manter a máscara profissional.
E ele não tentou manter: ele a deixou cair. Silvio se levantou da poltrona, caminhou até Chico e a mulher e ficou de pé ali, sem dizer nada por alguns segundos. Depois se agachou. Silvio Santos se agachou em rede nacional e olhou para a mulher: “A senhora está bem?” A mulher olhou para ele e disse com a voz quebrada: “Eu vim aqui hoje porque minha vizinha me deu o ingresso e disse que ia me fazer bem sair de casa. Eu não queria vir.
Faz oito meses que eu não saio de casa. Meu filho morreu faz 8 meses e eu parei de viver.” Silvio olhou para Chico, Chico olhou para Silvio e, naquele olhar entre os dois homens — o médium e o apresentador, o homem de fé e o homem de espetáculo —, houve um entendimento que transcendeu qualquer diferença de crença, de filosofia, de visão de mundo.
Os dois entenderam naquele momento que estavam participando de algo que era maior do que os dois, maior do que o programa, maior do que a emissora, maior do que a televisão. Chico voltou a falar: “Minha filha, o Ricardo me diz uma última coisa: ele me diz que ele está com o avô, que o avô se chamava Benedito, que seu Benedito tinha uma oficina de sapatos em Ribeirão Preto e que seu Benedito está cuidando dele como cuidava das crianças do bairro quando era vivo — com paciência, com firmeza e com aquele café com leite que ele fazia de manhã cedo.”
A mulher soltou um riso no meio do choro, um riso involuntário, desesperado, que era ao mesmo tempo a coisa mais triste e mais bonita que aquele auditório já tinha ouvido: “O café com leite do seu Benedito…”, ela disse. E o riso virou choro de novo: “Era o melhor café com leite do mundo. Todo mundo no bairro ia tomar café na casa do seu Benedito.”
Chico sorriu — um sorriso cansado, molhado, de quem carrega o peso de mil almas nos ombros e aceita carregar porque sabe que esse é o trabalho: “Pois o Ricardo me diz que, todo dia de manhã, do outro lado, seu Benedito faz café com leite para ele. E que quando a senhora chegar — não agora, daqui a muitos anos, porque a senhora tem muito ainda para viver —, vai ter uma xícara esperando por você.”
A mulher não conseguiu falar mais. Chico segurou as mãos dela e ficou ali em silêncio enquanto ela chorava. E o auditório inteiro, aquele auditório que normalmente gritava, aplaudia e ria, estava em silêncio absoluto. Um silêncio que durou quase 2 minutos — 2 minutos de silêncio na televisão ao vivo.
Jorge Menezes, nos bastidores, estava com o dedo ainda sobre o botão de corte. Marcos Antônio olhou para ele: Jorge tinha lágrimas nos olhos. O dedo não se mexeu. O botão não foi apertado. Silvio Santos se levantou devagar, voltou para a sua poltrona e ficou em silêncio por mais alguns segundos.
Depois olhou para a câmera e disse com uma voz que ninguém que conhecia Silvio Santos jamais tinha ouvido — uma voz sem pompa, sem charme, sem performance, apenas humana: “Eu faço televisão há mais de 30 anos e eu nunca vi nada igual a isso.” Chico abaixou a cabeça: “Não fui eu, Silvio. Eu sou apenas o telefone. A ligação vem de outro lugar.”
E então Silvio fez a segunda coisa que definiu aquela noite: olhou para Chico e disse: “Chico, eu te fiz uma pergunta antes. Perguntei se você tem medo de morrer. Você me disse que tem medo de não ter feito o suficiente. Agora eu quero saber: depois de tudo o que você fez na vida — os livros, as cartas, as mensagens, tudo —, você acha que fez o suficiente?”
Chico levantou os olhos e o que ele disse fez o auditório inteiro estremecer: “Não, Silvio, eu não fiz o suficiente. Porque enquanto houver uma mãe neste mundo chorando pelo filho que partiu, enquanto houver um pai que não sabe se o filho está em paz, enquanto houver uma criança que perdeu a mãe e não entende o porquê, eu não fiz o suficiente. Nenhum de nós fez o suficiente. Porque o suficiente, Silvio,
é quando não houver mais dor. E isso não vai acontecer nesta terra; vai acontecer do outro lado. E até lá, o nosso trabalho é aliviar, só aliviar um pouquinho de cada vez.” Silvio não respondeu. Não tinha o que responder. E naquele momento, 40 milhões de brasileiros que estavam assistindo em casa sentiram a mesma coisa ao mesmo tempo:
que a televisão, aquela caixa barulhenta que vivia na sala de estar deles, acabava de servir para algo que ia muito além de entretenimento: acabava de servir de ponte, uma ponte entre dois mundos que a maioria das pessoas passa a vida inteira fingindo que não existem. A mulher de blusa azul — que nunca foi identificada publicamente, que nunca deu entrevista, que desapareceu na multidão depois que o programa acabou — se levantou da cadeira, guardou a foto do filho na bolsa, olhou para Chico uma última vez e disse apenas duas palavras: “Obrigada, Chico.”
Chico segurou a mão dela e disse: “Não agradeça a mim, agradeça ao Ricardo. Foi ele que trouxe a senhora aqui hoje.” A mulher desceu do palco, voltou para a fileira 7, pegou a bolsa e saiu do auditório. Ninguém a seguiu. Ninguém pediu para ela ficar. Ela saiu caminhando devagar, com a cabeça erguida de um jeito que não estava quando entrou.
Quem estava ali percebeu: a mulher que entrou e a mulher que saiu não pareciam a mesma pessoa. O programa continuou por mais 20 minutos. Silvio tentou retomar o tom normal, mas não conseguiu totalmente. Fez algumas perguntas mais leves a Chico sobre os livros, sobre Emmanuel, sobre a rotina em Uberaba. Chico respondia com a mesma calma de sempre, mas havia algo diferente no ar, uma gravidade que não se dissolveu até os créditos finais.
Nos bastidores, quando as câmeras apagaram e as luzes do estúdio se acenderam com aquela claridade crua que mostrava a realidade por trás do espetáculo — os fios pelo chão, as marcas de fita adesiva no piso, os refletores empoeirados —, Jorge Menezes foi até Chico, apertou a mão dele e disse: “Seu Chico, me desculpe por ter tentado cancelar.”
Chico sorriu: “Meu filho, o senhor estava fazendo o seu trabalho e fez bem. A prudência é uma virtude.” Jorge abaixou a cabeça: “Mas eu quase impedi aquela mãe de ouvir o filho.” Chico olhou para ele com um olhar que Marcos Antônio descreveu como o olhar de alguém que já viu o outro lado e sabe que tudo, no final, funciona como deveria funcionar, e disse: “Não, Jorge, o senhor nunca teria impedido, porque não era o senhor que controlava esta noite. Nunca foi.”
Jorge não respondeu, virou as costas e saiu pelo corredor dos bastidores. Marcos Antônio disse que o viu parar no meio do corredor, encostar a testa na parede e ficar ali por uns 30 segundos. Depois endireitou o corpo, ajeitou a gravata e voltou a trabalhar. Mas o que aconteceu depois, nas horas e nos dias que se seguiram, é algo que quase ninguém conta, porque o impacto daquela noite não terminou quando o programa saiu do ar.
Na verdade, o que aconteceu depois foi, em muitos sentidos, mais extraordinário do que o que aconteceu ao vivo. Marcos Antônio levou Chico de volta ao carro. Geraldo estava esperando, encostado no Chevette, fumando um cigarro que ele mesmo disse depois que não devia estar fumando, “mas depois daquela noite eu precisava de alguma coisa”.
Chico entrou no carro pelo lado do passageiro, sentou-se e, antes que Geraldo ligasse o motor, disse: “Geraldo, nós não vamos embora agora.” Geraldo olhou para ele pelo retrovisor: “Não? O senhor quer ir a algum lugar?” “Eu preciso ir ao Hospital Santa Marcelina.” Geraldo e Marcos Antônio se olharam. O Hospital Santa Marcelina ficava em Itaquera, do outro lado de São Paulo.
Era quase meia-noite. Chico tinha quase 80 anos, tinha acabado de passar por uma experiência emocionalmente intensa ao vivo na televisão e queria atravessar São Paulo à meia-noite para ir a um hospital. “Chico, o senhor está se sentindo mal?”, Marcos perguntou. “Não, meu filho, eu estou bem, mas tem alguém lá que precisa de mim.”
“Quem?” Chico ficou em silêncio por um momento, depois disse: “Eu não sei o nome, mas Emmanuel me mostrou. É um homem. Está internado, está morrendo e ele tem medo.” Marcos abriu a boca para argumentar: era tarde, Chico precisava descansar, eles podiam ir de manhã. Mas olhou para os olhos de Chico e viu ali a mesma coisa que tinha visto o dia inteiro:
uma determinação que não era teimosia humana; era obediência a algo maior. Geraldo ligou o motor: “Para que lado?” “Pega a Marginal Tietê, Geraldo. Eu indico o caminho.” Atravessaram São Paulo à meia-noite no Chevette azul, com Chico no banco do passageiro e Marcos no banco de trás. A cidade estava acesa, mas vazia naquele horário, com os postes de luz lançando sombras compridas sobre o asfalto molhado de uma chuva que tinha caído enquanto o programa estava no ar.
Chico ia dando instruções com calma: “Vira à direita aqui, seu Geraldo. Segue reto mais dois quarteirões. Agora à esquerda…” — como se conhecesse cada rua de São Paulo, embora raramente viesse à cidade. Chegaram ao Hospital Santa Marcelina pouco depois da meia-noite. O estacionamento estava quase vazio. A entrada de emergência tinha aquela luz fluorescente e fria que todos os hospitais têm,
aquela luz que parece sugar a cor de tudo o que ilumina. Chico desceu do carro com dificuldade — os joelhos, sempre os joelhos — e caminhou até a recepção. A recepcionista, uma mulher jovem com cara de cansada, olhou para ele sem reconhecê-lo: “Boa noite. O senhor veio para internação?” “Não, minha filha. Eu vim visitar um paciente.” “O horário de visitas acabou às 20h, senhor. Só amanhã de manhã, a partir das 10h.” Chico sorriu: “Eu sei, minha filha, mas eu vim de longe e não posso esperar até amanhã.” “Senhor, eu sinto muito, mas as regras…” Marcos Antônio se adiantou: “Com licença. A senhora sabe quem é este senhor? Este é Chico Xavier.”
A recepcionista olhou de novo para Chico, arregalou os olhos: “O Chico Xavier? O do programa do Silvio Santos?” Marcos assentiu: “Ele acabou de sair do programa e precisa ver um paciente.” A recepcionista ficou em dúvida, olhou para os lados procurando alguém com mais autoridade. Não havia ninguém: era meia-noite num hospital de Itaquera. “Eu preciso chamar o supervisor de plantão.” “Chame, minha filha”, Chico disse com a voz mansa. “Eu espero.” Esperaram 15 minutos. O supervisor de plantão era um enfermeiro chamado Antônio Carlos, um homem alto, magro, de uns 40 anos, com um bigode espesso e olheiras profundas.
Ele veio pelo corredor com passos rápidos, parou diante de Chico e disse: “Seu Chico Xavier?” “Sou eu, meu filho.” “Eu vi o programa agora há pouco, estava assistindo na sala dos funcionários.” A voz dele tremeu levemente: “O senhor veio aqui por causa de um paciente?” “Vim, meu filho.” “Qual paciente?” Chico olhou para o corredor atrás de Antônio Carlos.
Olhou como quem não está procurando com os olhos, mas com algo além dos olhos: “Ele está no terceiro andar, quarto 317. Um homem de uns 60 anos. Está lá há muitos dias, não recebe visitas.” Antônio Carlos ficou pálido. Marcos viu a cor sumir do rosto dele: “317…” “Sim, meu filho.” Antônio Carlos engoliu em seco: “Seu Chico, o senhor tem noção do que está me dizendo?” “Eu tenho, meu filho.”
“O paciente do quarto 317 está em estado terminal, com câncer no pâncreas. Ele não tem família, não recebe visitas de ninguém, está internado há 47 dias. E esta semana ele pediu…” Antônio Carlos parou, a voz falhou. Ele limpou a garganta e continuou: “Ele pediu para a gente desligar tudo. Disse que não aguenta mais, que quer morrer.”
Chico assentiu: “Eu sei. É por isso que estou aqui.” Antônio Carlos ficou parado, olhando para Chico. Marcos Antônio contou depois que aquele foi o momento mais surreal de toda a noite — e a noite já tinha sido surreal do começo ao fim. Um enfermeiro de hospital público, à meia-noite, diante de um médium de quase 80 anos que acabava de sair de um programa de televisão, sendo informado de que esse médium sabia da existência de um paciente que ele não tinha como saber que existia. “Eu vou levar o senhor lá em cima”, Antônio Carlos disse. “Mas eu preciso que o senhor entenda: o paciente pode não querer receber visita. Ele tem recusado todo mundo, até padre ele recusou.”
Chico sorriu: “Eu não sou padre, meu filho.” Subiram de elevador ao corredor do terceiro andar: luzes fluorescentes, cheiro de desinfetante e de algo mais — aquele cheiro que os hospitais têm quando a morte está perto, um cheiro que não é de nenhuma substância específica, mas que qualquer pessoa que já perdeu alguém num hospital reconhece imediatamente. Pararam diante da porta do quarto 317. Antônio Carlos bateu de leve. Não houve resposta. Bateu de novo.
Uma voz fraca, rouca, veio de dentro: “Eu já disse que não quero padre!” Antônio Carlos olhou para Chico. Chico colocou a mão na maçaneta e disse: “Deixe comigo, meu filho.” Abriu a porta. O quarto era pequeno: uma cama hospitalar, um suporte de soro, um monitor cardíaco que emitia aquele bipe constante. A janela estava fechada, a cortina puxada.
A única luz era a do corredor entrando pela porta e um abajur fraco na mesa de cabeceira. Na cama estava um homem magro, muito magro, com a pele acinzentada, os olhos fundos e brilhantes de febre. O pouco cabelo que restava era branco. Ele olhou para Chico com irritação: “Quem é o senhor? Eu disse que não quero visita!” Chico entrou no quarto devagar, puxou a cadeira de plástico que estava no canto, colocou-a ao lado da cama e sentou-se.
Não pediu permissão, não se apresentou; simplesmente sentou e ficou olhando para o homem com aqueles olhos que tinham visto o mundo inteiro sofrer e, mesmo assim, continuavam mansos. O homem olhou para ele com mais irritação: “O senhor é surdo? Eu disse que não quero!” “Osvaldo”, Chico disse. O homem parou. A irritação sumiu do rosto:
foi substituída por algo que Marcos Antônio, que estava espiando pela porta entreaberta, identificou como medo: “Como o senhor sabe meu nome?” “Osvaldo Fernandes, nascido em Poços de Caldas, Minas Gerais. Filho de dona Aparecida e seu Joaquim. Teve dois irmãos: Sérgio e Paulo. O Sérgio morreu aos 34 anos de acidente de trabalho numa fábrica em Guarulhos.
O Paulo mora em Curitiba e não fala com o senhor há 22 anos.” Osvaldo ficou branco. A mão que estava sobre o lençol começou a tremer: “Quem é o senhor?” “Meu nome é Chico Xavier e eu vim aqui porque o Sérgio me pediu.” “O Sérgio?” A voz de Osvaldo falhou: “O Sérgio morreu faz mais de 20 anos!” “Eu sei, Osvaldo. E ele está aqui neste quarto, neste momento, do lado esquerdo da sua cama.
E ele está preocupado com o senhor.” Osvaldo olhou para o lado esquerdo da cama. Não havia ninguém visível, mas alguma coisa no olhar dele mudou. Marcos não soube explicar o que foi: era como se Osvaldo tivesse visto algo que ele sabia que não podia estar ali, mas que, num nível que ia além da razão, ele sentia que estava. “O Sérgio me diz…”, Chico continuou.
E aqui a voz dele ganhou aquele tom específico que as pessoas que conviveram com Chico conheciam — o tom que ele usava quando estava transmitindo, não falando por si mesmo: “O Sérgio me diz que o senhor carrega uma culpa: a culpa do acidente. Porque foi o senhor que conseguiu o emprego para o Sérgio naquela fábrica em Guarulhos.
O senhor que indicou, o senhor que disse: ‘Vai, Sérgio, é uma boa firma, paga bem, é seguro.’ E três meses depois, o Sérgio morreu num acidente com uma prensa.” Osvaldo começou a chorar: sem som, lágrimas descendo pelo rosto magro, doente, caindo no lençol branco do hospital.
Um choro silencioso de um homem que carregou uma culpa por mais de duas décadas e nunca falou sobre isso com ninguém. Chico pegou a mão dele — a mão de Chico, cheia de veias e manchas de idade, envolvendo a mão magra e fraca de Osvaldo: “Osvaldo, o Sérgio me diz que não foi culpa sua, que a hora dele tinha chegado, que se não fosse ali, seria em outro lugar.
E que o senhor passou 20 anos se punindo por algo que não estava nas suas mãos.” “Eu indiquei ele, Chico! Fui eu que levei ele para aquele lugar!” “O senhor levou o irmão para um emprego, Osvaldo; não levou para a morte. A morte já estava marcada. O senhor precisa entender isso. E o Sérgio precisa que o senhor entenda isso.
Porque enquanto o senhor não soltar essa culpa, nem o senhor descansa aqui e nem o Sérgio descansa lá.” Osvaldo fechou os olhos. O monitor cardíaco bipava, o soro pingava. Lá fora, São Paulo rugia com seus milhões de vidas que não sabiam que naquele quarto, naquela hora, algo estava acontecendo que desafiava tudo o que a ciência, a razão e a lógica conseguem explicar.
“O Sérgio me diz mais uma coisa, Osvaldo: ele me diz que, quando o senhor era criança, o senhor e ele tinham um esconderijo atrás da casa da dona Aparecida, no quintal. Tinha um pé de goiaba grande. E embaixo desse pé de goiaba, vocês dois cavaram um buraco e esconderam uma lata: uma lata de Nescau. E dentro dessa lata tinham soldadinhos de chumbo e umas bolinhas de gude.”
Osvaldo abriu os olhos: “A lata de Nescau…” “A lata de Nescau, Osvaldo. E o Sérgio me diz que, quando o senhor chegar do outro lado, ele vai estar esperando embaixo daquele pé de goiaba com a lata, e vão brincar de novo como brincavam quando eram meninos.” Osvaldo fechou os olhos e chorou de um jeito diferente:
não era mais o choro da culpa, era o choro de alguém que, pela primeira vez em muitos anos, sentia algo que já tinha esquecido que existia: esperança. Chico ficou ali por mais 40 minutos: falou baixo, ouviu, segurou a mão de Osvaldo, contou coisas que Sérgio ia dizendo — detalhes da infância, nomes de vizinhos, uma professora chamada dona Lúcia que dava doce no dia do aniversário de cada aluno, o cachorro que eles tinham, um vira-lata chamado Trovão que morreu atropelado e que, segundo Chico, também estava do outro lado esperando. Quando Chico se levantou para
ir embora, Osvaldo segurou a mão dele e disse: “Chico, eu ia pedir para eles desligarem tudo. Ia pedir para morrer.” Chico olhou para ele: “Eu sei, Osvaldo.” “Eu não quero mais. Eu quero esperar. Quero esperar o tempo que tiver que ser, porque agora eu sei que tem alguém esperando por mim.” Chico apertou a mão dele uma última vez:
“Tem, Osvaldo. Tem mais gente esperando por nós do que a gente imagina.” Saiu do quarto. No corredor, Antônio Carlos estava encostado na parede, de braços cruzados, com o rosto molhado de lágrimas. Marcos Antônio estava ao lado dele, no mesmo estado. Nenhum dos dois disse nada. Chico passou por eles, deu um tapinha no ombro de cada um e caminhou até o elevador.
Desceram e saíram do hospital. O ar da madrugada de São Paulo estava fresco, com aquele cheiro de asfalto molhado e de cidade que nunca dorme completamente. O Chevette estava no estacionamento esperando. Geraldo tinha dormido no banco do motorista e acordou com o barulho da porta se abrindo. “Podemos ir agora, Geraldo?”, Chico disse, entrando no carro. “Agora sim.”
Geraldo ligou o motor: “Para Uberaba, Chico?” “Para Uberaba, meu filho. Para casa.” Dirigiram a noite inteira. Chico dormiu a maior parte do caminho com a cabeça encostada no vidro do passageiro, embalado pela vibração do Chevette na estrada. Marcos, no banco de trás, não conseguiu dormir: ficou a viagem inteira olhando para a nuca de Chico, pensando em tudo o que tinha visto nas últimas 12 horas, tentando processar, tentando entender e concluindo a cada quilômetro que não ia entender — que não era para entender, que algumas coisas na vida não
são para serem entendidas, são para serem vividas, aceitas e guardadas em silêncio, como um tesouro que perde o valor se for exibido demais. Chegaram a Uberaba quando o sol estava nascendo — aquele sol que nasce devagar, como se tivesse todo o tempo do mundo, pintando o céu de laranja, rosa e dourado sobre as colinas verdes.
Chico abriu os olhos quando o carro parou na frente da casa dele: uma casa simples, de muro baixo, com um portãozinho de madeira. Desceu do carro, esticou as costas e, antes de entrar em casa, virou-se para Marcos e Geraldo e disse algo que os dois guardaram para o resto da vida: “Esta noite, meus filhos, nós fomos instrumentos.
Não fomos nós que fizemos nada. Nós fomos usados, como um lápis é usado pela mão que escreve. O lápis não sabe o que está escrevendo; ele só precisa estar apontado e disponível.” Entrou em casa. Marcos e Geraldo ficaram parados no meio-fio, olhando para a porta que se fechou. Mas a história daquela noite não terminou ali: houve desdobramentos que levaram semanas, meses e até anos para se revelarem completamente.
A primeira coisa aconteceu três dias depois. Marcos Antônio recebeu uma ligação no Centro Espírita de Uberaba. Era Antônio Carlos, o enfermeiro do Hospital Santa Marcelina. A voz dele estava estranha, como se ele tivesse chorado recentemente: “Marcos, eu preciso te contar uma coisa.” “O que foi?” “O Osvaldo, o paciente do quarto 317…”
“O que aconteceu?” “Ele morreu ontem à noite, de madrugada, às 3h40.” Marcos sentiu um frio na espinha: 3h40, a mesma hora que Chico tinha dito na estrada em que Ricardo, o menino do acidente, tinha morrido. Coincidência? Marcos não acreditava em coincidências — não mais, não depois daquela noite. “Mas tem mais”, Antônio Carlos continuou:
“Antes de morrer, o Osvaldo pediu para eu fazer uma coisa: ele pediu para eu ligar para o irmão dele em Curitiba, o Paulo, o irmão que não falava com ele há 22 anos.” “E você ligou?” “Eu liguei de madrugada. Acordei o homem, disse que o irmão estava morrendo. O Paulo ficou em silêncio do outro lado da linha por um tempão e depois disse: ‘Eu vou pegar o primeiro voo para São Paulo.’
Mas não deu tempo, Marcos. O Osvaldo morreu antes do Paulo chegar.” Marcos fechou os olhos: “E o Paulo?” “O Paulo chegou de manhã, entrou no quarto e o corpo do Osvaldo ainda estava lá esperando a funerária. O Paulo sentou na cadeira ao lado da cama — a mesma cadeira onde o Chico tinha sentado — e ficou lá por duas horas.
Não falou nada, só ficou sentado segurando a mão do irmão morto. E quando saiu, me procurou e me entregou uma coisa.” “O quê?” “Um endereço: o endereço da casa onde eles cresceram em Poços de Caldas, a casa da dona Aparecida. E me pediu para dizer ao Chico Xavier que ele, Paulo, ia voltar lá, ia voltar à casa da mãe, que já tinha morrido, e ia procurar uma coisa no quintal.”
“O que ele ia procurar?” “Uma lata de Nescau debaixo de um pé de goiaba.” Marcos desligou o telefone e ficou parado na sala do Centro Espírita por um tempo que ele não conseguiu calcular. Podia ter sido 5 minutos, podia ter sido uma hora: o tempo não fazia sentido naquele momento. Ele foi até Chico e contou tudo.
Chico ouviu em silêncio, assentindo devagar com a cabeça. Quando Marcos terminou, Chico disse apenas: “O Sérgio está em paz agora, e o Osvaldo também. Eles se encontraram.” “E o Paulo, Chico? O Paulo vai encontrar a lata?” Chico sorriu — aquele sorriso que ele tinha, que era ao mesmo tempo o sorriso mais triste e o mais esperançoso que Marcos já tinha visto:
“Vai, meu filho. A lata está lá, sempre esteve.” Duas semanas depois, Marcos recebeu uma carta sem remetente, postada de Poços de Caldas. Dentro havia uma foto: uma foto velha, amarelada, com bordas recortadas. Mostrava dois meninos de uns 8 e 10 anos agachados debaixo de um pé de goiaba, segurando uma lata grande de Nescau, sorrindo para a câmera com aquele sorriso de criança que ainda não sabe que o mundo dói.
Atrás da foto, escrito a lápis: “Encontrei a lata. Dentro tinha os soldadinhos, as bolinhas de gude e um bilhete que eu não lembro de ter escrito. Dizia: ‘Para quando a gente se reencontrar.’ Obrigado.” Marcos levou a foto até Chico. Chico olhou para ela por um longo tempo, passou o dedo pelos rostos dos dois meninos, depois colocou a foto na mesa, tirou os óculos e enxugou os olhos com as costas da mão:
“Os espíritos, Marcos, não são fantasmas, não são assombrações; são pessoas. Pessoas como nós, que viveram, amaram, sofreram, erraram e que continuam existindo do outro lado, torcendo por nós, esperando por nós. E de vez em quando, quando a dor aqui é grande demais e a fé é pequena demais, eles encontram um jeito de mandar um recado: um bilhete dentro de uma lata, uma frase num programa de televisão, uma visita num hospital de madrugada.
São bilhetes de amor, Marcos. Bilhetes de quem já partiu para quem ainda ficou.” A segunda coisa que aconteceu — e esta levou meses para chegar ao conhecimento de Marcos — envolveu Silvio Santos. Silvio, que era um homem reservado sobre questões de fé, apesar da persona pública exuberante, nunca falou publicamente sobre o que sentiu naquela noite, nunca deu entrevista sobre isso, nunca comentou em outro programa. Mas alguém próximo a ele, alguém que trabalhava na sua equipe pessoal, contou a Marcos meses depois, num encontro casual numa
lanchonete de São Paulo, que Silvio Santos, na semana seguinte àquele programa, fez algo que nunca tinha feito antes: visitou um centro espírita. Não em São Paulo, onde seria reconhecido, mas numa cidade pequena do interior paulista, cujo nome essa pessoa nunca revelou. Foi sozinho de carro, sem motorista, sem assessor e sem câmeras.
Ficou lá por três horas e saiu sem dizer uma palavra para ninguém sobre o que viu ou ouviu lá dentro. Marcos nunca confirmou essa informação com Silvio diretamente — nunca tentou. Respeitava demais os dois, Chico e Silvio, para transformar um momento tão íntimo em fofoca. Mas ele guardou essa informação como mais um pedaço do quebra-cabeça daquela noite que mudou tantas vidas.
E havia ainda uma terceira coisa, a mais inesperada de todas. Quatro meses depois da entrevista no SBT, Marcos recebeu uma visita no Centro Espírita de Uberaba: uma mulher jovem, de vinte e poucos anos, cabelo cacheado, olhos grandes e assustados. Ela disse que se chamava Ana. Marcos olhou para ela e sentiu algo se mover no peito: “Ana…”
O nome que Chico tinha dito ao vivo na televisão quando falou com a mãe do Ricardo: “Ana é a irmã mais nova dele, tem 13 anos.” Mas essa Ana não tinha 13 anos, tinha 20 e poucos. E Marcos, por um momento, pensou que era coincidência. Até que a moça disse: “Eu vim porque minha mãe me mandou. Minha mãe é a mulher que subiu no palco do programa do Silvio Santos.” Marcos congelou:
“A mulher de blusa azul…” “Sim, eu sou Ana, a irmã do Ricardo.” Marcos fez as contas rapidamente na cabeça: se Ricardo tinha 17 quando morreu e Ana era descrita como tendo 13, as contas não batiam exatamente. Mas Ana explicou: ela tinha 14 na época, não 13. Chico errou por um ano.
“Ele errou a idade, mas acertou todo o resto”, Ana disse com um meio sorriso que misturava incredulidade e reverência. “Todo o resto.” Ana contou que, desde aquela noite, a mãe dela mudou. Não da noite para o dia, não foi uma transformação instantânea e mágica: foi gradual, dolorosa, com recaídas e dias ruins, mas algo tinha se partido naquela noite no palco do SBT.
A casca de dor que envolvia a mãe desde a morte de Ricardo tinha rachado. E por aquela rachadura entrou uma luz que, aos poucos, foi iluminando os cantos escuros daquela casa enlutada: “A minha mãe voltou a cozinhar”, Ana disse. E, ao dizer isso, a voz dela tremeu: “O senhor não entende o que isso significa.
Ela ficou 8 meses sem cozinhar. 8 meses em que eu, com 14 anos, tive que aprender a fazer comida para nós duas. E um dia, umas duas semanas depois do programa, eu acordei e senti cheiro de bolo: bolo de chocolate. Fui para a cozinha e minha mãe estava lá de avental fazendo um bolo. E eu olhei para ela e ela olhou para mim, e nenhuma das duas disse nada.
Não precisava. A gente só chorou e se abraçou, e ficou ali no meio da cozinha com o cheiro de bolo ao redor, como se o Ricardo tivesse mandado aquele cheiro para a gente, como se ele tivesse dito: ‘Pronto, agora vocês podem viver.'” Ana veio a Uberaba para agradecer a Chico pessoalmente. Marcos levou-a até a casa de Chico.
Chico recebeu-a na sala simples, com os livros empilhados em todo canto e o retrato de Emmanuel na parede. Ana sentou-se na frente dele e disse: “Chico, minha mãe não conseguiu vir. Ela ainda não tem forças para essa viagem, mas ela mandou uma coisa para o senhor.” Ana tirou da bolsa um embrulho pequeno envolvido em papel de seda branco.
Entregou-o a Chico. Ele abriu com cuidado: dentro havia um pedaço de bolo de chocolate com morangos, embalado em papel-alumínio: “É a receita do bolo que ela fez para o aniversário de 15 anos do Ricardo”, Ana disse. “O bolo da foto.” Chico segurou o pedaço de bolo nas mãos e ficou olhando para ele em silêncio por um longo tempo.
As mãos dele tremiam levemente, mas não de idade ou doença: tremiam de emoção. Marcos contou que nunca tinha visto Chico tão perto de desabar. O homem que carregava mensagens dos mortos para os vivos, que era forte diante de qualquer dor alheia, que mantinha a compostura em qualquer situação, estava ali segurando um pedaço de bolo à beira das lágrimas.
“Diga à sua mãe”, Chico disse finalmente, com a voz embargada, “que é o presente mais bonito que eu já recebi na vida. E diga que o Ricardo está sorrindo agora; está sorrindo porque o bolo chegou.” Ana ficou mais uma hora. Conversaram sobre Ricardo, sobre a mãe, sobre a vida depois da perda.
Chico ouviu mais do que falou, como sempre fazia. E quando Ana foi embora, na porta da casa, ela se virou e disse: “Chico, posso fazer uma pergunta?” “Claro, minha filha.” “O senhor acha que o Ricardo está feliz?” Chico olhou para ela com aqueles olhos que tinham visto dois mundos e sorriu: “Ana, felicidade lá do outro lado não é como aqui.
Aqui a gente acha que felicidade é não sofrer. Lá, felicidade é entender por que sofreu. E o Ricardo entende. E por entender, ele está em paz. E a paz, minha filha, é a forma mais profunda de felicidade que existe.” Ana foi embora. Marcos a acompanhou até o ponto de ônibus; ficaram em silêncio durante o caminho. Quando o ônibus chegou, Ana subiu, olhou pela janela e acenou.
Marcos acenou de volta e o ônibus partiu, levantando uma nuvem de poeira vermelha da terra de Uberaba. Marcos voltou para o Centro Espírita e ficou sentado na varanda por muito tempo, olhando para aquela poeira se assentar no ar da tarde. Pensou em tudo: na ligação que fez para Chico convidando-o para o programa, na viagem no Chevette, na parada na estrada onde Chico viu o espírito de Ricardo, na sala dos bastidores onde Chico conversou com Emmanuel, no confronto com Jorge Menezes, na mulher de blusa azul que subiu ao palco, no silêncio do auditório, na
viagem ao hospital de madrugada, em Osvaldo e na lata de Nescau, em Ana e no bolo de chocolate… E pensou na pergunta que Silvio Santos tinha feito — aquela pergunta que desencadeou tudo: “Chico, você tem medo de morrer?” E na resposta de Chico: “Eu não tenho medo de morrer. Eu tenho medo de não ter feito o suficiente.”
Marcos entendeu naquela tarde, sentado na varanda do Centro Espírita com o sol de Uberaba descendo sobre as colinas, que Chico Xavier nunca acharia que fez o suficiente. Não porque faltasse esforço ou dedicação, mas porque a dor humana é infinita. Porque cada pessoa que perde alguém é um universo inteiro de sofrimento que precisa ser acolhido, ouvido, abraçado.
E uma vida, por mais longa e dedicada que seja, não basta para abraçar todos os universos. Mas Chico tentava todo dia: sem exceção, sem férias, sem descanso, Chico tentava. E naquela noite em São Paulo, diante de 40 milhões de pessoas, numa poltrona ao lado do maior apresentador da televisão brasileira, ele tentou mais uma vez. E mais uma vez, como em tantas outras ao longo de 70 anos de mediunidade, algo aconteceu que a razão não explica, que a ciência não comprova, que a lógica rejeita, mas que o coração reconhece. Porque o coração,
diferente do cérebro, não precisa de provas: o coração sabe. E naquela noite, 40 milhões de corações brasileiros souberam. Geraldo, o motorista, nunca se converteu ao espiritismo; continuou evangélico até o fim da vida, mas nunca mais questionou Chico Xavier. Nunca mais questionou nada que Chico dissesse ou fizesse.
E quando alguém na igreja perguntava por que ele, um evangélico fervoroso, trabalhava para um médium espírita, Geraldo respondia sempre a mesma coisa: “Porque eu vi. Eu estava lá e o que eu vi com estes olhos, nenhuma doutrina do mundo me tira.” Jorge Menezes, o diretor que quase cancelou a entrevista, trabalhou no SBT por mais 15 anos e dirigiu centenas de programas.
Quando se aposentou e deu uma entrevista para um site de memória da televisão brasileira, a única coisa de que ele quis falar foi sobre aquela noite: “Em 32 anos de televisão”, ele disse, “eu vi de tudo: brigas ao vivo, celebridades embriagadas, acidentes no palco, tudo. Mas a única coisa que me marcou de verdade foi a noite em que um velho de Uberaba fez 40 milhões de pessoas ficarem em silêncio.
E eu quase impedi que isso acontecesse. Se eu tivesse apertado aquele botão, se eu tivesse cancelado, aquela mãe teria ido embora sem ouvir o filho e eu teria carregado isso pelo resto da vida.” Antônio Carlos, o enfermeiro do Hospital Santa Marcelina, largou a enfermagem dois anos depois e se formou em psicologia. Abriu um consultório em Itaquera, voltado para o atendimento de pacientes terminais e suas famílias.
Na sala de espera do consultório havia um quadro na parede: uma foto ampliada de dois meninos debaixo de um pé de goiaba segurando uma lata de Nescau. Embaixo da foto, uma placa pequena com uma frase: “Para quando a gente se reencontrar.” E Chico Xavier continuou em Uberaba, continuou psicografando, continuou recebendo filas de pessoas que vinham de todo o Brasil todos os dias com suas dores, suas perdas, suas perguntas.
Continuou sendo o lápis que não sabe o que escreve, mas que se mantém apontado e disponível. Continuou até o dia em que a porta se abriu para ele também, em 30 de junho de 2002. E ele finalmente pôde ir para o outro lado da mesa, sentar-se com Emmanuel, com Sérgio, com Ricardo, com Osvaldo, com seu Benedito, com todos eles, e ouvir a única pergunta que importa:
“Você cuidou de quem ficou?” Naquela noite no SBT, Silvio Santos perguntou a Chico Xavier sobre a morte. O auditório ficou em silêncio. E naquele silêncio — entre a pergunta e a resposta, entre o medo e a esperança, entre este mundo e o outro —, alguma coisa aconteceu que nenhum de nós consegue provar, mas que todos nós, no lugar mais fundo do peito, sabemos que é verdade.
Inscreva-se se você admira o legado de Chico Xavier e se essa história tocou o seu coração. E antes de ir embora, eu preciso te contar uma coisa: porque essa noite no SBT foi extraordinária, mas não foi a única vez que Chico Xavier enfrentou algo que parecia impossível. Existiu uma vez em que um juiz — um juiz de direito com toga, martelo e tudo o que a lei permite — decidiu que não bastavam testemunhos, não bastava fé, não bastava o que as pessoas sentiam no coração.
Ele exigiu provas: provas concretas, materiais, verificáveis de que Chico Xavier realmente se comunicava com os mortos. E o que aconteceu dentro daquela sala de audiência diante de advogados, promotores e uma família inteira destruída pela dor — uma família que dependia daquele julgamento para saber se o assassino do filho deles seria condenado ou absolvido —
deixou todos sem explicação. O promotor interrompeu o próprio argumento no meio da frase, o advogado de defesa largou os papéis na mesa e não conseguiu continuar, e o juiz — aquele juiz que queria provas racionais — ficou em silêncio por 4 minutos inteiros antes de pronunciar uma sentença que dividiu o Brasil e que até hoje é debatida em faculdades de Direito. Porque a carta que Chico psicografou naquele tribunal continha informações que não estavam em nenhum documento, em nenhum depoimento, em nenhum lugar acessível a qualquer ser humano vivo: informações que só o morto poderia saber. A história completa está nesta história aqui. E se você já assistiu, tem mais histórias como essa esperando por você aqui na página.