“A PORTA TRANCADA POR DENTRO E O SILÊNCIO DE 48 HORAS”: O enigma que desafia a perícia e abala Curitiba.
“A PORTA TRANCADA POR DENTRO E O SILÊNCIO DE 48 HORAS”: O enigma que desafia a perícia e abala Curitiba.

A tranquilidade aparente de um condomínio residencial de classe média alta no tradicional bairro Água Verde, em Curitiba, foi estilhaçada por um daqueles episódios em que a realidade supera em tensão e angústia qualquer narrativa de ficção. Por trás de portas de madeira maciça, paredes espessas e rotinas meticulosamente discretas, dramas silenciosos podem se acumular ao longo de anos sem emitir qualquer sinal visível para vizinhos, colegas de trabalho ou parentes próximos. Quando esses conflitos finalmente emergem, o impacto não apenas destrói vidas de maneira irrevogável, mas deixa para trás uma teia intrincada de perguntas sem resposta, onde a ciência forense, os registros judiciais e a psicologia humana colidem na tentativa de decifrar o indizível.
Foi exatamente esse abismo que se abriu na tarde de terça-feira, 25 de agosto, no interior do apartamento 92 do Edifício Taborda Bueno. O que se desenhava como uma diligência burocrática de rotina do Poder Judiciário paranaense culminou na localização dos corpos de três pessoas da mesma família: a médica pediatra Cláudia Tomy Shimada Furuyama, de 57 anos; seu marido, o engenheiro civil Marcos Alberto Furuyama, de 58; e o único filho do casal, Rafael Furuyama, um promissor estudante de engenharia mecatrônica da Universidade Federal do Paraná, de apenas 23 anos.
Conforme os peritos do Instituto de Criminalística e os investigadores da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) avançaram na coleta de vestígios materiais, o cenário revelou complexidades perturbadoras: as portas estavam rigorosamente trancadas por dentro, não havia indícios de arrombamento e duas lâminas ensanguentadas repousavam no chão. Enquanto a comunidade local se via atônita diante de teorias que iam desde rituais orientais arcaicos de honra até uma vingança patrimonial orquestrada, as câmeras de vigilância e os laudos cadavéricos começaram a desenhar uma linha de tempo sufocante, confinando a gênese e a consumação do horror aos próprios limites daquele lar.
A Diligência Interrompida e o Chamado Sem Resposta
O cronômetro da tragédia começou a soar publicamente exatamente à 1h59 daquela terça-feira, quando uma oficial de justiça ingressou na portaria do condomínio. Em suas mãos, ela portava uma notificação de teor implacável: um mandado de imissão na posse expedido pela Vara Cível do Foro Regional de Pinhais. Tratava-se de uma determinação judicial que autorizava a entrega forçada do imóvel ao arrematante que havia adquirido o apartamento em um leilão público decorrente de dívidas pretéritas. O documento, assinado poucos dias antes, conferia poderes extraordinários à servidora da lei, autorizando expressamente a requisição de força policial e o arrombamento das portas de acesso caso houvesse recusa dos ocupantes em desocupar o espaço.
A determinação judicial trazia orientações taxativas para o destino da mobília e das recordações familiares acumuladas pela família ao longo de décadas:
“Havendo bens móveis no local pertencentes ao ocupante, deverão ser arrolados pelo oficial de justiça, ficando o arrematante nomeado depositário fiel pelo prazo de 30 dias, sob pena de remoção ou destinação.”
A missão imediata da funcionária pública restringia-se a constatar se o apartamento 92 ainda se encontrava ocupado. Por meio do sistema de interfonia da portaria eletrônica, o operador realizou sucessivas tentativas de contato com o ramal interno, mas nenhum toque foi correspondido. Diante da ausência de retorno, a oficial decidiu suspender a execução imediata da medida às 2h11 da tarde e enviou uma notificação pelo aplicativo WhatsApp diretamente para o terminal telefônico de Marcos Furuyama:
“Boa tarde, Marcos. Tudo bem? Sou oficial de justiça e preciso falar contigo. Por gentileza, avise quando estiver disponível para que eu possa ligar. Obrigada.”
A mensagem eletrônica jamais obteve confirmação de leitura ou resposta. Marcos já havia sido notificado formalmente no dia 4 de agosto, ocasião em que aceitou a contrafé da intimação para desocupação voluntária, assinou o documento e forneceu seus contatos digitais, ciente de que o prazo de quinze dias concedido pelo juízo havia expirado em 19 de agosto.
Enquanto a oficial de justiça se retirava do prédio, uma segunda frente de apreensão convergia para o mesmo endereço. Colegas de trabalho da médica pediatra Cláudia Furuyama estranharam sua ausência inexplicável no plantão hospitalar, bem como a falta de atendimento às chamadas telefônicas. Paralelamente, vizinhos de corredor relataram que o cão de estimação da família latia incessantemente há cerca de três dias, emitindo uivos que denotavam isolamento prolongado. Diante da confluência de alertas, um chaveiro profissional foi convocado no final daquela tarde para abrir o imóvel na presença de testemunhas e policiais. Ao destravar o mecanismo interno, a porta revelou o rastro da carnificina.
A Fortaleza Inviolável e o Rastro das Câmeras de Segurança
A disposição física da cena do crime colocou a equipe de perícia forense diante de uma constatação imediata: o apartamento 92 comportava-se como uma fortaleza hermeticamente selada. A fechadura principal encontrava-se trancada pelo lado interno, descartando de plano o uso de chaves convencionais por terceiros que tivessem fugido do local após os fatos. As esquadrias, janelas e venezianas não apresentavam nenhuma ranhura ou vestígio de escalada exterior, tampouco a mobília revelava desordem característica de roubo ou reviravolta patrimonial.
No interior do imóvel, os corpos de Cláudia e de seu filho Rafael foram localizados no chão do quarto de casal, dispostos em proximidade física. No dormitório adjacente, o corpo do engenheiro Marcos Alberto Furuyama jazia sem sinais vitais. Duas armas brancas com resquícios hemáticos evidentes foram recolhidas e acondicionadas para exames laboratoriais de tipagem genética e análise de impressões papiloscópicas.
Para dirimir qualquer incerteza sobre a eventual presença de invasores, a Polícia Civil submeteu o sistema de monitoramento eletrônico do condomínio a uma minuciosa auditoria forense. Mais de 48 horas de gravações contínuas foram decupadas quadro a quadro pelos peritos, abrangendo todas as entradas sociais, garagens, elevadores e áreas de circulação comum.
O relatório visual delimitou um marco temporal inflexível:
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O último membro da família registrado com vida pelas lentes das câmeras foi o jovem Rafael Furuyama, às 19h27 do domingo, 23 de agosto;
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As gravações mostram o estudante descendo normalmente ao hall térreo para recolher uma encomenda entregue minutos antes na portaria por uma amiga de sua mãe;
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Rafael recebe o volume, interage com naturalidade e retorna sozinho ao nono andar pelo elevador do edifício;
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Pouco tempo depois desse registro, o aparelho celular de Cláudia emitiu uma mensagem de agradecimento à amiga pelo envio do pacote — este seria o último contato verificado entre o apartamento e o mundo exterior;
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Desde o retorno de Rafael às 19h29 de domingo até o arrombamento conduzido pelo chaveiro na tarde de terça-feira, nenhuma pessoa acessou ou saiu daquela unidade residencial.
Com base nesse cruzamento de telemetria visual e barreiras físicas, o delegado responsável pelo inquérito, Ivo Viana, declarou formalmente que a intervenção de uma quarta pessoa estava praticamente descartada pela linha investigativa. A dinâmica mortal, com efeito inexorável, transcorreu estritamente entre as três pessoas que compartilhavam aquele mesmo teto.
A Linguagem dos Ferimentos e a Sombra do Harakiri
Se a rota de acesso externa havia sido eliminada, a elucidação do enigma passou a residir na anatomia dos ferimentos sofridos pelas vítimas. A medicina legal debruçou-se sobre os corpos com rigor analítico, e os laudos preliminares trouxeram divergências morfológicas estarrecedoras entre os três cadáveres:
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O corpo da médica pediatra Cláudia Furuyama exibia pelo menos sete perfurações profundas compatíveis com lâmina branca, distribuídas na região torácica e abdominal;
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O corpo de Rafael apresentava padrão semelhante, com sete a oito estocadas violentas na parte frontal do tronco;
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Tanto a mãe quanto o filho ostentavam lesões profundas nas palmas das mãos, nos dedos e na face anterior dos antebraços;
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Em contrapartida, o corpo do engenheiro Marcos Alberto exibia apenas três ferimentos no abdômen — sendo um golpe mais penetrante e dois cortes nitidamente superficiais — e nenhuma escoriação ou corte em suas mãos ou membros superiores.
Na prática forense, as lesões observadas nos membros de Cláudia e de Rafael são classificadas como ferimentos clássicos de defesa e de intervenção. Elas ocorrem quando a vítima ergue os braços em gesto reflexo para amortecer o impacto de um golpe cortante ou tenta agarrar a lâmina diretamente para desarmar o agressor. A presença simultânea dessas marcas na mãe e no filho comprova que ambos estavam acordados, reagiram ativamente e lutaram desesperadamente contra os ataques até a perda total de consciência. A ausência absoluta de marcas defensivas no corpo de Marcos apontava que ele mantinha o controle exclusivo da arma em seus instantes finais.
A ascendência nipônica dos envolvidos e a natureza dos ferimentos no abdômen de Marcos rapidamente deram margem a especulações sobre a realização de um antigo ritual de suicídio cerimonial da tradição japonesa: o seppuku, popularmente difundido no Ocidente pelo termo harakiri. Na antiga cultura feudal dos samurais, o corte horizontal no abdômen — considerado o epicentro espiritual das emoções — era praticado para resgatar a dignidade perdida diante de um fracasso vergonhoso ou evitar a humilhação do cativeiro militar. O ritual previa trajes alvos imaculados, a redação de um poema derradeiro de despedida (jisei) e a assistência obrigatória de um colaborador de confiança (kaishakunin), cuja função era decapitar o guerreiro logo após a primeira incisão para abreviar uma agonia insuportável.
Entretanto, as evidências colhidas no apartamento 92 distanciam-se profundamente dessa mística ritualística. Os investigadores não localizaram cartas de despedida, inscrições ideográficas, poemas fúnebres ou qualquer elemento litúrgico no cômodo. Mais importante ainda: o código moral do harakiri jamais prescreveu o assassinato de familiares indefesos, tratando-se de um ato estritamente individual de expiação pessoal de honra. As marcas de resistência desesperada nos corpos da médica e do jovem estudante desmontaram qualquer hipótese de adesão voluntária a um pacto ritualístico místico, evidenciando uma explosão de violência crua em ambiente doméstico.
A Derrocada Silenciosa e o Abismo Processual
Para desvendar os alicerces psicológicos que alimentaram a tragédia, os investigadores mergulharam na vida financeira de Marcos Alberto Furuyama. O que emergiu dos autos dos tribunais paranaenses foi a reconstituição de uma longa e angustiante asfixia patrimonial que se arrastava havia mais de uma década.
As raízes da ruína financeira remontavam ao ano de 2009. À época, Marcos atuava como sócio da Construtora Gomelli, empresa contratada sob o regime de administração direta para edificar uma residência de alto padrão no condomínio residencial Alphaville Graciosa, no município de Pinhais. O contrato estabelecia que os custos reais da obra seriam suportados pelos clientes, cabendo à construtora uma remuneração de 13% sobre o total gerido.
A obra foi entregue com cinco meses de atraso em relação ao cronograma original e repleta de falhas estruturais de acabamento. Em 2014, a construtora acionou o Poder Judiciário cobrando dos proprietários uma diferença contratual alegada de 113 mil reais decorrente do aumento de insumos. Os proprietários da residência contestaram a cobrança com veemência, argumentando que o orçamento inicial de 317 mil reais havia sido descontroladamente inflado por desorganização gerencial da empreiteira.
Em julho de 2016, a magistrada de primeiro grau proferiu sentença de procedência parcial: embora admitisse haver valores residuais de gestão, condenou a construtora a indenizar o casal em mais de 80 mil reais por danos materiais e 10 mil reais por danos morais, aplicando as normas protetivas do Código de Defesa do Consumidor e invertendo o ônus probatório.
Com o trânsito em julgado consolidado em 2020, iniciou-se a fase de cumprimento de sentença. Diante da constatação de que a construtora não possuía capital de giro ou saldo em contas para satisfazer a execução, os credores requereram a desconsideração da personalidade jurídica da empresa. Em 29 de maio de 2023, o tribunal deferiu o pedido, estendendo a dívida diretamente ao patrimônio particular dos sócios.
Foi nesse ponto que a trajetória de Marcos Furuyama ganhou um contorno enigmático. Enquanto seus antigos sócios constituíram advogados de renome, apresentaram impugnações e interpuseram sucessivos recursos contra bloqueios de contas bancárias e veículos, o engenheiro adotou uma postura de inércia absoluta. Nos registros informatizados do Tribunal de Justiça, ao lado do nome de Marcos Alberto Furuyama, figurava de maneira constante a anotação processual:
“Parte sem advogado.”
Ele não contestou a decisão que atingiu seus bens pessoais, não interpôs embargos à execução e não se manifestou quando o apartamento onde residia com a família, no Água Verde, foi penhorado pela justiça em dezembro de 2024. Quando o bem foi avaliado em 650 mil reais e lançado para arrematação em leilão judicial eletrônico, Marcos permaneceu calado. Ele absteve-se de invocar a Lei nº 8.009/1990, que concede a proteção legal da impenhorabilidade ao bem de família — o único imóvel destinado à moradia do núcleo familiar.
O aperto financeiro da família, na realidade, possuía raízes ainda mais antigas e diversificadas. Em setembro de 2018, o próprio Condomínio Edifício Taborda Bueno ajuizou uma execução de 11 mil reais referente a treze taxas condominiais atrasadas desde 2016 — ação extinta em 2019 por falta de recolhimento de custas pelo condomínio. Já em julho de 2025, o Município de Curitiba ingressou com uma execução fiscal cobrando dívidas tributárias municipais referentes ao mesmo endereço.
O Peso do Segredo e o Vértice das Últimas Horas
A Polícia Civil ouviu formalmente onze depoimentos de pessoas conectadas ao círculo íntimo do casal, incluindo irmãos, cunhados, vizinhos e colaboradores de trabalho de Cláudia e Rafael. O consenso entre os depoentes descortinou um dado revelador: nenhum dos familiares tinha conhecimento de que a situação judicial havia chegado ao extremo da perda do apartamento. Parentes sabiam da existência de pendências antigas da extinta construtora, mas ignoravam por completo que o imóvel da Água Verde já havia sido leiloado e arrematado por terceiros.
Mais desconcertante ainda foi a constatação de que nem Cláudia, uma médica atuante e dedicada ao cuidado de crianças, nem Rafael, um estudante com o futuro planejado na engenharia, pareciam ter ciência de que o prazo final para a expulsão do imóvel expirara dias antes. Tudo indica que Marcos isolou o peso da derrocada financeira sob sigilo absoluto, absorvendo o colapso em silêncio.
Se a realidade foi revelada aos familiares na intimidade do domingo ou se a gravidade do despejo forçado foi ocultada até os últimos segundos antes da tragédia, permanece como um dos mistérios mais densos do inquérito. A reconstrução da dinâmica exata daquela noite — o que foi conversado entre os três, como se iniciou o confronto corporal no quarto do casal e a ordem precisa dos acontecimentos fatais — aguarda o fechamento minucioso dos laudos complementares de toxicologia e projeção de manchas de sangue.
O que se sabe com certeza é que, na confluência de um prazo judicial vencido e de portas rigorosamente trancadas pelo lado de dentro, três vidas foram ceifadas prematuramente, deixando para a história pericial de Curitiba um enigma que permanecerá como um dos episódios mais complexos e perturbadores já documentados pela polícia do Paraná.