A Moça Desonrada que Esperou 5 Anos para se Vingar – SP 1909
Os bondes cruzavam as ruas com o som estridente dos trilhos, aproximando bairros e levando estudantes, trabalhadores, comerciantes e famílias. Nas calçadas, a divisão social se mostrava com nitidez. De um lado, operários se acumulavam em bairros afastados. De outro, uma elite aristocrática imitava costumes de Paris e transformava a aparência em prova de prestígio.
Era nesse ambiente que vivia Albertina Barbosa, uma jovem nascida em uma pequena localidade próxima de Piracicaba. De origem humilde, ela encontrou no estudo uma forma de tentar se erguer em um mundo que oferecia poucas portas abertas às mulheres sem fortuna. Formou-se professora pela escola Caetano de Campos, uma instituição prestigiada, e aos 17 anos parecia carregar um futuro possível, embora esse futuro dependesse não apenas de capacidade, mas também de reputação, família e casamento.
Ao lado da mãe dona Rosa, Albertina enfrentava uma realidade financeira delicada. O fato de o marido ter deixado a família obrigou a matriarca a transformar a própria residência localizada na rua Bento Freitas, número 33, em uma pensão. A casa, que deveria representar abrigo e sobrevivência tornou-se também um espaço de circulação de hóspedes, conversas e aproximações que aos poucos apagaram fronteiras perigosas.
Aos 20 anos, Arthur carregava uma ambição maior do que as condições que a vida lhe oferecia. Seu ingresso na faculdade de direito do Lago de São Francisco representava muito mais do que uma vitória acadêmica. >> [limpando a garganta] >> Na São Paulo daquele tempo, a carreira jurídica podia servir como passaporte para outro círculo social.
Para um jovem sem fortuna sólida, mas com aparência, instrução e boas relações, o diploma abria caminho para prestígio. Artur não buscava apenas formar-se advogado, buscava entrar em um mundo em que o casamento também funcionava como estratégia, onde o Dot decidia destinos e onde uma união vantajosa podia resolver de uma só vez o problema do dinheiro e da posição social.
Foi sob o teto de dona Rosa que os caminhos de Artur e Albertina se cruzaram. Recomendado por um familiar como rapaz distinto e de bons costumes. Ele ocupou um dos quartos vagos da pensão. A convivência diária, a rotina doméstica e o charme dos bons modos que envolvia o jovem estudante aproximaram os dois. O que começou sob a aparência de cortesia transformou-se rapidamente em atração clandestina.
Para Artur, talvez aquele envolvimento parecesse uma passagem da juventude, um episódio sem importância, destinado ao esquecimento. Para Albertina, educada sob valores rígidos, o vínculo carregava outro significado. Uma mulher solteira que se entregava antes do casamento não arriscava apenas um sentimento, arriscava o próprio nome, a confiança da família e qualquer possibilidade de futuro respeitável.
O que para Albertina parecia um compromisso de vida, para Artur talvez fosse apenas uma conveniência passageira. E foi nessa diferença brutal de expectativa que a tragédia começou a tomar forma, mas com uma promessa capaz de prender uma mulher a um destino que ela acreditava seguro. Naquela virada de século, a promessa de casamento tinha valor imenso.
Não era apenas uma frase romântica. funcionava como garantia moral, muitas vezes compreendida como a única proteção possível para uma mulher solteira que se envolvia com um homem antes da união formal. Albertina acreditou na seriedade daquela promessa. Acreditou que Artur, estudante de direito e futuro advogado, assumiria o compromisso e protegeria sua reputação diante da família e da sociedade.

Essa confiança a convenceu de que sua honra não seria abandonada. Ao entregar-se a Artur, entregou também a estabilidade do próprio nome, a confiança da mãe e a possibilidade de circular socialmente sem o estigma da suspeita. Na lógica severa daquele tempo, a intimidade antes do casamento só podia ser suportada se o matrimônio viesse depois, como reparação e confirmação.
Sem isso, a mulher ficava sozinha diante da condenação moral, enquanto o homem seguia com a vida quase intacta. Para garantir o próprio sustento, Albertina aceitou um cargo como professora no interior do estado e partiu para bebedouro. Foi na solidão da fazenda, diante de enjoos repetidos, malestares constantes e sinais cada vez mais difíceis de ignorar, que ela descobriu estava grávida.
Ao regressar a São Paulo, o segredo tornou-se impossível de esconder. Artur havia deixado a pensão e estava instalado na casa de seu tio, na general Osório. Quando Albertino o confrontou com a gravidez e cobrou a promessa de casamento, a resposta foi brutal. Palavras que só vieram a público anos depois no tribunal.
preferia a morte a casar-se com ela. No mês de maio de 1905, em uma maternidade da capital, Albertina deu à luz uma menina. Dona Rosa, tomada pela indignação ao descobrir a verdade, recusou-se a abrigar a criança e ordenou que a recém-nascida fosse entregue diretamente a Artur Malheiros. Para a matriarca, aquela criança era a prova viva de uma desonra que ameaçava a casa, o nome da família e a possibilidade de Albertina reconstruir qualquer futuro aceitável aos olhos da sociedade.
Artur, focado em sua escalada social, rejeitou qualquer compromisso. O estudante que prometeu o casamento já não queria carregar nem a mulher, nem a filha, nem as consequências de seus atos. Sem hesitar, decidiu afastar a criança de sua vida. recorrendo ao asilo dos expostos da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, a roda dos expostos era um mecanismo giratório embutido na parede da instituição.
Quem deixava um bebê ali, se aproximava as escondidas, depositava a criança no cilindro de madeira, girava, puxava uma corda para avisar as religiosas do lado de dentro e desaparecia antes de ser visto. Um gesto que apagava rastros e transferia responsabilidades. Foi assim que a filha de Albertina e Artur desapareceu, entregue à instituição sem nome e sem rastro.
O destino posterior da criança nunca foi confirmado e é justamente essa lacuna que carrega o maior peso da história. Para Albertina, não se tratava de uma criança entregue a uma instituição. Era a prova viva da promessa quebrada, retirada de seus braços e empurrada para o anonimato. A partir dali, qualquer ilusão que a Albertina ainda alimentava terminou.
A promessa de casamento foi quebrada, sua reputação ficou comprometida e a filha nascida daquele vínculo saiu de sua vida por uma decisão que ela associava diretamente à frieza de Artur. A ferida não se fechou, apenas mudou de forma. Para uma mulher no início do século XX, sobreviver a uma queda moral, aos olhos da época significava carregar uma sentença de morte social.
Caminhar pelas ruas da capital, depois daquele episódio, transformou-se em suplício diário, porque cada olhar podia parecer julgamento, cada comentário sussurrado podia carregar acusação e cada silêncio podia soar como condenação. A traição de Artur não roubou de Albertina apenas a virtude, no sentido que a sociedade da época atribuía a palavra.
roubou também o direito de existir com dignidade, de projetar casamento, de circular sem medo e de ser vista apenas como professora, filha ou mulher comum. Sem espaço em São Paulo, Albertina reuniu os destroços de sua vida e partiu para um exílio doloroso no interior do estado, lecionando em localidades pequenas e isoladas, como Nuporanga e Mato Grosso de Batatais.
Nas noites solitárias da província, a humilhação não desapareceu. Ao contrário, transformou-se em uma amargura cada vez mais difícil de conter. A distância da capital não apagava o passado, porque a lembrança da promessa quebrada, da criança entregue à Santa Casa e da recusa de Artur seguia com ela, como se sua vida inteira estivesse presa a uma história que não podia ser contada sem destruir ainda mais o próprio nome.
Durante esse período de reconstrução, já no ano de 1908, o destino colocou uma nova peça no tabuleiro. Em Mato Grosso de Batatais, Albertina conheceu um jovem professor. Seu nome era Eliziário Bonilha, um rapaz de 21 anos. Ao contrário do estudante do passado, Elisiara demonstrou interesse genuíno, aproximou-se com intenção de compromisso e rapidamente passou a dividir com Albertina planos de casamento.
A nova relação parecia oferecer uma saída possível, talvez a primeira desde a queda que a afastou da capital. Mas entre o novo casal e o altar repousava uma mancha sobre o nome da família. Um segredo que Albertina sabia que não conseguiria ocultar para sempre. O casamento com Elisiário exigia uma confissão. E essa confissão, quando veio, teve força suficiente para mudar apenas o sentimento do jovem marido, mas também o rumo de todos os envolvidos.
O tempo avançou para o início de 1909. Em janeiro, Albertina informou a mãe que o casamento com Elisiário estava decidido. No dia 18 de fevereiro daquele ano, os dois reencontraram-se na capital e deram início a uma sequência de atitudes estranhas. O casal hospedou-se no hotel dos viajantes, no populoso bairro do Brás, e registrou-se sob identidades falsas, como Lisiário da Veiga e Albertina da Veiga.
Há outras versões dessa história, mas vou seguir o livro que segue por essa linha. Porém, uma coisa é certa, a mãe de Albertina não aprovava o casamento. Tinha receio de outro desastre. Pernoitaram duas noites naquele hotel modesto. No sábado, dirigiram-se ao cartório para oficializar a União, utilizando testemunhas arranjadas de última hora pelo juiz de paz.
Com os papéis assinados, deixaram o Braz e seguiram para o centro da cidade, instalando-se no prestigiado Hotel Bela Vista, no quarto número 59, situado no anexo da Galeria de Cristal. A escolha natural de um casal que acabava de se casar e queria celebrar a altura. A galeria de cristal era um símbolo da São Paulo refinada, erguida com estruturas de ferro importado e amplas vidraças, reunia comércio, circulação elegante, vitrines e olhares curiosos, funcionando como ponto de encontro e observação da sociedade paulistana.
Foi exatamente nesse ambiente, logo depois da consumação legal do casamento, que Albertina decidiu que não podia mais carregar sozinha o próprio fardo. No silêncio do quarto 59, revelou a Elisiário toda sua história com Artur Malheiros. contou o romance antigo, a promessa de casamento, a gravidez, a recusa, a criança entregue ao asilo dos expostos e a destruição de sua reputação.
O impacto da confissão foi devastador. Vizialho sentiu o peso da vergonha cair também sobre seus ombros e chegou a ponderar a anulação daquele casamento recém assinado. Para um homem daquele tempo, descobrir que a esposa carregava uma história assim podia ser interpretado como ofensa pessoal, mancha familiar e humilhação pública.
Contudo, em vez de romper imediatamente a união, a partilha da tragédia acendeu nele uma fúria que se confundiu com a dor de Albertina. Nesse instante, a confissão deixou de ser apenas lembrança e começou a se transformar em vingança. A deshonra de Albertina passou a ser tratada como deshonra do casal e passou a compor uma narrativa de reparação.
Artur, que seguia sua vida de futuro advogado, tornou-se, aos olhos dos recém-casados, o responsável por uma queda que precisava ser cobrada. Para que a vingança se consumasse, faltava um detalhe crucial. Elisiário não conhecia o rosto de Artur. No domingo anterior ao crime, o jovem professor caminhou pelas ruas do centro e, ao passar pela rua direita, avistou o quadro de formatura da turma de direito na vitrine de um estúdio fotográfico.
O rosto de Artur estava ali exposto, entre outros jovens que se preparavam para deixar a faculdade e entrar na vida pública. Eliziário gravou aquelas feições na memória. Na manhã de terça-feira, 24 de fevereiro, Elisiário comprou uma faca em uma loja de cutelaria chamada Doutor das Tesouras.
Durante a tarde, saiu à procura de Artur e o encontrou nas imediações da rua 15 de novembro, distraído, atirando lança perfume em direção às moças que passavam na atmosfera festiva do carnaval. O lança-perfume da época era a base de éter inalado ou borrifado, e seu uso nas festas de rua era tão comum quanto ignorado pelas autoridades.
A cena tinha algo de cruel na sua normalidade, porque enquanto Arthur pulava o carnaval e se embriagava de lança perfume, a tragédia que se preparava se aproximava com passos educados. Elisiário abordou-o com extrema naturalidade e afirmou possuir negócios de caráter reservado para tratar. Seduzido pela curiosidade, Arthur aceitou o convite para conversarem no quarto ondeário estava hospedado.
Os dois homens atravessaram a galeria de cristal e entraram no aposento sem que Arthur compreendesse, ao menos de início, que aquela conversa reservada era o último movimento de uma armadilha. Assim que a porta se fechou, Albertina apareceu de arma em punúo. Ao deparar-se com a mulher que abandonou, Artur compreendeu tarde demais que o passado que tentou deixar para trás voltou em forma de julgamento particular.
Ele ainda tentou balbuciar um apelo, mas o tempo da misericórdia terminou. Os estampidos soaram secos no quarto. Foram dois tiros disparados a queimar roupa, atingindo a vítima na região temporal esquerda. E Artur desabou no tapete. Mas a violência não terminou com os disparos. A faca comprada naquela manhã também entrou em cena e Artur, já caído, recebeu golpes no pescoço e no tórax.
ferimentos que mais tarde levantaram a suspeita de que a execução foi dividida entre os dois recém-casados. Os mesmos aposentos que poucas horas antes abrigavam uma confissão conjugal tornavam-se agora cenário de um dos crimes [música] mais comentados da capital paulista. Poucos minutos depois do homicídio, Elisiário Bonilha caminhou com extrema tranquilidade até a sacada e chamou a atenção do cabo da força pública que fazia sua ronda habitual.
Quando o militar subiu e entrou no aposento, encontrou uma cena perturbadora, não apenas pela violência, mas pela calma dos envolvidos. O casal não esboçou resistência. Albertina e Elisiário confessaram o crime de imediato, entregaram as armas e justificaram a execução como um ato necessário para restaurar a honra dela.
O primeiro delegado de São Paulo, João Batista de Souza, registrou assim no momento em seu relatório oficial. No quarto número 59 do suplemento do Hotel Bela Vista, uma lúgubre cena de sangue dava fecho a uma sucessão de acontecimentos, nos quais tomaram parte os professores Albertina Barbosa e Elisiário Bonilha e o Dr.
Artur Malheiros de Oliveira, bacharel em direito de 1908. Para a polícia havia corpo, armas, confissão e flagrante. Para a cidade havia escândalo. Para os jornais havia uma tragédia perfeita, porque reunia juventude, sexo, promessa de casamento, abandono, filha entregue à Santa Casa, carnaval, sangue e uma galeria elegante no coração da capital.
Foi nesse ponto quando as edações começaram a transformar o crime em assunto público que a letra fria da lei passou a rondar a narrativa. No antigo Código Penal Republicano de 1890 existia o artigo 27, parágrafo quto. Ele não dizia abertamente que matar em nome da honra era permitido, mas na prática era exatamente isso que garantia.
O artigo previa que não eram criminosos aqueles que agissem em estado de completa privação dos sentidos e da inteligência no momento do crime. Não estava escrito que era uma lei para homens, mas dado o contexto moral da época, os costumes e o fato de que o júri era composto majoritariamente por homens, era ela que justificava maridos, pais e irmãos que matavam em nome da honra da família.
Foi só em 1940, com um novo Código Penal, que essa brecha foi eliminada. 50 anos de impunidade garantida por lei para a cidade de São Paulo em 1909, Albertina havia feito justiça. E foi exatamente aí que o direito e a moral pública entraram em colapso e dividiram a cidade ao meio. Antes mesmo que o tribunal julgasse Albertina e Elisiário, a imprensa já começava a preparar o terreno moral do caso.
Os principais jornais da capital, como o estado de São Paulo, o Correio Paulistano e o Diário Popular, perceberam o potencial daquela história e passaram a explorá-la com intensidade. As manchetes transformaram o sangue [música] derramado em um folhet real, no qual Artur podia aparecer como vítima brutalmente executada, mas também como sedutor e responsável, enquanto Albertina podia ser retratada tanto como assassina fria quanto como mulher deshonrada por uma promessa quebrada.
Repórteres investigaram o passado da professora, a ambição do estudante, a criança abandonada, o casamento recente com Elisiário e a cena no Hotel Bela Vista. A opinião pública dividiu-se de forma apaixonada. Havia quem visse a Albertina como vítima de uma sociedade hipócrita e de um homem que lhe tomou a reputação.
Havia também quem enxergasse no casal uma dupla de assassinos que planejou e executou um crime com frieza. Antes de qualquer sentença formal, o julgamento das ruas já estava em andamento. O encerramento do carnaval de 1909 ficou marcado pela sombra pesada que o crime projetou sobre São Paulo. No dia 25 de fevereiro, a cidade parou para acompanhar o desfecho público de Artur Malheiros.
O corpo, depois de passar pelo exame minucioso no necrotério, foi transladado para a residência de seu tio, de onde [música] partiu o cortejo, em direção ao cemitério do Araçá. O vel e o sepultamento transformaram-se em manifestação coletiva de curiosidade. O trajeto foi acompanhado por uma multidão que se acotovelava para ver o eskif e participar, ainda que apenas como espectadora daquele drama que os jornais elevaram à condição de acontecimento da cidade.
Entre os presentes misturavam-se colegas da Faculdade de Direito, membros da elite paulistana [música] e curiosos atraídos pelo alarmismo que dominava as publicações. A revista Careta, em sua edição de número 40, publicada na semana seguinte ao crime, não hesitou em estampar uma fotografia crua do cadáver no necrotério.
A imagem mostrava os ferimentos e a expressão estática [música] de Artur, circulando entre leitores que buscavam detalhes cada vez mais concretos do crime. O caso deixava de pertencer apenas à polícia e aos tribunais. passava a pertencer também ao espetáculo da imprensa. Enquanto Albertina e Elisiário aguardavam seus destinos nas celas da cadeia pública da capital, o caso transformou-se em um dos grandes embates jurídicos do início do século XX.
A autoria não estava em discussão da maneira comum, porque havia confissão, armas entregues e prisão em flagrante. O verdadeiro combate seria travado em torno do significado moral do crime. Mas o governo do estado de São Paulo não esperou a justiça. Ainda em julho de 1909, enquanto o processo criminal seguia, Albertina e Elisiário foram demitidos de seus cargos no magistério público por não terem, nas palavras do processo administrativo, capacidade moral para o exercício da profissão.
Absolvida pelo júri, Albertina não conservaria nem assim o emprego. A estratégia dos advogados de defesa era audaciosa. A tese central não negava o ato, mas buscava justificá-lo como reação de honra, como explosão de sofrimento, como consequência de uma violência anterior praticada contra a Albertina no campo moral.
A defesa argumentou que a verdadeira vítima era a professora, cuja virtude foi tomada pelas falsas promessas do bacharel, e que o crime não podia [música] ser compreendido sem a história da promessa quebrada, da criança entregue à Santa Casa e da ruína social imposta a uma mulher jovem. As sessões do Tribunal de Júri reuniram uma população dividida.
Uma parte exigia condenação severa, afirmando que o crime foi planejado e executado com frieza. Outra parte, via Albertina como mulher destruída por um homem que usou a promessa de casamento para obter dela o que queria, abandonando depois as consequências. Elisiário, por sua vez, era apresentado, ora como cúmplice calculista, ora como marido que assumiu a [música] vergonha da esposa e agiu para restaurar a dignidade do nome familiar.
A tese da defesa da honra ganhou força porque dialogava com valores profundamente enraizados [música] naquela sociedade. A lei escrita falava em crime, autoria e responsabilidade, mas os jurados também ouviam a linguagem da vergonha, da reputação e da reparação. Foi nesse choque entre Código Penal, imprensa e moral [música] pública que Albertina e Elisiário passaram a ser julgados.
Não apenas pelo que fizeram, mas também pelo que a cidade acreditava que Artur fez antes. Apesar da retórica apaixonada da defesa e do apelo popular, a justiça não concedeu o perdão imediato. O processo transformou-se em um labirinto de apelações e novos juris, [música] no qual o percurso de Albertina não foi exatamente o mesmo de Elisiário.
A como pública ajudava, mas não resolvia tudo. Havia provas, havia ferimentos, havia a suspeita de premeditação e havia a necessidade de acomodar dentro do tribunal uma narrativa capaz de transformar vingança em ato emocional. Albertina enfrentou três julgamentos distintos. No primeiro júri, em 1909, conseguiu a absolvição, resultado que fortaleceu a leitura de que parte da sociedade estava disposta a enxergá-la como vítima antes de criminosa.
A promotoria recorreu e o caso voltou. No segundo julgamento, em 1910, o peso das evidências prevaleceu e a Albertina foi condenada a 25 anos de prisão em um revés que chocou seus defensores. Foi no terceiro julgamento em 1911 que a absolvição veio em definitivo pelo chamado voto de Minerva. Elisiário enfrentou seu próprio calvário.
Tinha apenas 21 anos quando entrou naquele quarto e 24 quando saiu das celas da cadeia pública. Lidou com a desconfiança sobre sua participação direta no crime e com imagem de marido que não apenas acompanhou, mas executou junto. passou por dois julgamentos e sua situação só se resolveu em 1913, quando foi finalmente libertado.
Durante as sessões do tribunal, os depoimentos revelaram a determinação absoluta dos envolvidos. Albertina assumiu a autoria integral dos disparos em uma tentativa clara de protegerário e sustentar diante dos jurados que a vingança partiu dela. Ao subir ao banco dos céus, não demonstrou a fragilidade que muitos [música] esperavam de uma mulher daquela época.
Suas falas foram firmes, diretas e marcadas por uma frieza que impressionou os presentes. Quando questionada pelos juízes sobre os últimos momentos no 4:59, Albertina relatou o instante do reencontro. Segundo as transcrições históricas, quando Artur, em choque ao vê-la armada, perguntou: “Que é isso, Albertina?”, Ela respondeu com a brutalidade de quem já decidiu tudo antes daquela porta se fechar.
A resposta que lhe dei foi um tiro afirmou diante dos jurados. Albertina detalhou ainda que sua determinação não vacilou nem diante do pedido de perdão do antigo amante, dizendo que ele pediu perdão e que ela firmemente descarregou o revólver pela segunda vez. Elisiário, com apenas 21 anos, manteve uma calma perturbadora nos interrogatórios, confirmando a narrativa da esposa e procurando sustentar a lógica de reparação moral.
As testemunhas de acusação tentaram atingir a reputação de Albertina, mencionando comportamentos considerados suspeitos. Mas essas alegações foram combatidas pela defesa, com o argumento de que o nome da família foi manchado de forma irreparável pelas ações diretas de Artur. Para além das motivações morais e jurídicas, visto com os olhos de hoje, o crime permite uma leitura psicológica perturbadora sobre a dinâmica entre os recém-casados.
Já em junho de 1909, o Dr. Isidro Guimarães escreveu no Comércio de São Paulo. No fundo desse drama, uma perturbação mais complexa, em que duas vontades parecem ter se confundido, duas almas se penetraram e uma ideia fixa tomou a forma de fatalidade. Embora o termo técnico não fosse comum nos tribunais de 1909, é possível aproximar aquela relação daquilo que a psiquiatria chama de foli a.
A expressão quer dizer loucura a dois. É um fenômeno em que uma pessoa absorve tão completamente a visão de realidade de outra que as duas passam a compartilhar os mesmos medos, as mesmas certezas e, em casos extremos, os mesmos impulsos. Não é manipulação consciente, é contágio emocional, uma fusão psíquica em que a dor de um se torna a dor do outro até que a fronteira entre os dois desaparece.
A amargura de Albertina Barbosa, acumulada durante meses de isolamento, depois da entrega da filha ao asilo dos expostos, não ficou confinada ao íntimo. Ela transbordou o paralelisiário, envolvendo o jovem marido em uma intensidade tão grande que a vergonha dela passou a ser dele. A humilhação dela passou a ser sentida como ofensa conjugal.
E a história antiga com Artur deixou de ser um passado anterior ao casamento para se transformar em causa comum. No isolamento emocional do casal, formou-se um círculo fechado em que a realidade externa foi substituída por uma lógica própria de reparação. A necessidade de agir tornou-se missão partilhada e o casamento, recém-oficializado, nasceu marcado por uma confissão que não produziu afastamento, mas pacto.
A União de Albertina e Elisiário não foi apenas contrato civil, tornou-se aliança de dor, vergonha e vingança. Albertina e Elisiário desapareceram na multidão como haviam chegado sem rastro. Os autos, as reportagens, as fotografias e os depoimentos ficaram eles não. A memória da pequena filha de Albertina permaneceu como um fantasma silencioso, uma presença ausente que ajudou a mover a engrenagem inteira da tragédia.
A galeria de cristal foi demolida em 1924 para dar lugar a um banco, levando junto o anexo que imitava as passagens cobertas de Paris, onde ficava o quarto 59. No lugar ficou o silêncio de uma cidade que segue crescendo sobre seus próprios crimes esquecidos. Embora os crimes de honra tenham deixado de figurar como brecha legal em 1940, os crimes passionais não deixaram de ocorrer.
E mesmo que homens também sejam vítimas, são os feminicídios que lideram disparados nas estatísticas de 100 anos depois. O patriarcado, a não aceitação da liberdade do outro segue igual ou pior do que na São Paulo de 1909. O objetivo desse vídeo é alertar homens e mulheres sobre a importância da responsabilidade emocional com o outro. Vale mesmo a pena o engano? Tantos casos que vemos aqui, ou boa parte deles, começam com uma mentira que acaba em tragédia.
O segundo e último ponto é deixar claro que não queremos inflar mais albertinas, nem como autoras, nem como vítimas. Se este vídeo impedir que apenas uma pessoa cometa um ato de vingança, salvando não só a vida do outro, mas também a sua própria, nossa missão já estará cumprida. Se você está passando por algum tipo de violência psicológica ou doméstica, não espere chegar a um ponto sem retorno.
Procure ajuda especializada ou acione a polícia da sua localidade. Esperamos que este história tenha sido informativo e interessante. E claro, a sua opinião é muito bem-vinda. Você acha que Albertina planejou sua vingança por anos ou decidiu se vingar por medo de perder o casamento com Elisiário? Obrigado e nos vemos em breve.