A HISTÓRIA ASSUSTADORA DE GARANHUNS: O CRIME QUE O BRASIL NÃO ESQUECE
de ossos muito pequenos e extremamente porosos.
Foram encontradas vértebras e ossos principalmente das mãos. Esses ossos têm uma quantidade de DNA muito menor em relação aos das outras duas vítimas. Se a gente pega ossos longos, como fêmur e rádio, por exemplo, eles têm uma quantidade muito grande de DNA que você consegue comparar. E não basta ter só o tecido da pessoa; precisamos de um DNA que contenha as regiões usadas para comparação (os STRs, regiões polimórficas de DNA que nos individualizam como humanos). Cada um tem o seu diferente. E é a partir dessa comparação que se chega à conclusão de quem seria aquele corpo.
Lembro que, no outro dia, tive a curiosidade de voltar à casa e os moradores tinham ateado fogo nela. Quando cheguei, estava praticamente tudo destruído. Entrei na residência e no chão havia pequenos trechos do diário de Bruna. Peguei o que consegui desse diário e levei até a polícia.
Depois dessa ocasião, quando a polícia percebeu que a casa estava sendo alvo dos populares, policiais militares ficaram lá tomando conta. Mas no primeiro dia, logo após a descoberta dos corpos, a casa ficou sozinha e a revolta da população destruiu tudo e ateou fogo.
Garanhuns sempre teve crimes chocantes. Já tínhamos feito coberturas de assassinatos que repercutiram bastante na cidade, mas nada que chegasse perto da prática de canibalismo. Quando foi noticiado, gerou grande repercussão. As pessoas ficaram com medo, inclusive de comer coxinhas e empadinhas da rua.
Eles estavam utilizando carne humana como recheio nesses salgados. Então, a população ficou muito temerosa de ter comido. Ouvíamos relatos de pessoas que diziam: “Notei que a carne da empadinha estava estranha, notei um cheiro esquisito”. Algumas relataram que comeram do salgado e outras disseram que o jogaram fora por segurança.
A cidade passou um bom tempo falando sobre o assunto e até hoje se recorda muito. Tanto que eles ficaram conhecidos como os Canibais de Garanhuns. >> Temos testemunhos de algumas pessoas dizendo que o gosto dos salgados era muito peculiar, porém não temos comprovação laboratorial disso. O ideal seria encontrar partes humanas no alimento em preparação.
Seria possível também encontrar DNA humano nas panelas, nas facas e na geladeira. Porém, esse local não foi preservado. Quando começou o grande clamor popular, essa casa foi invadida, saqueada e incendiada. Com isso, perdemos provas técnicas fundamentais. Até porque, em assassinatos em série, os vestígios costumam ser muito tênues e difíceis de rastrear.
Os assassinos agem de forma planejada, não saem deixando vestígios em todo lugar; eles limpam a cena meticulosamente. Então, a quantidade de DNA e de sangue é mínima. A geladeira, por exemplo, foi saqueada. Tudo o que estava ali desapareceu. Possivelmente, havia material humano armazenado para o consumo e preparo deles.
Um corpo humano não pode ser consumido rapidamente. Estamos falando aí de 60 a 70 kg. Em massa muscular, teremos cerca de 40 kg. Isso leva bastante tempo. Essa carne, para evitar que apodreça, precisa ser refrigerada como carne bovina, com a diferença de que não possui os conservantes que a carne industrializada recebe antes do consumo.
Muito provavelmente, teríamos encontrado proteína humana na geladeira, nos utensílios, nas facas e nas panelas. Isso caracterizaria de modo inequívoco o preparo para o consumo. >> O trio, que aparentava viver em uma rotina quase banal, escondia um pacto pavoroso de morte e sangue. Atraíam suas vítimas — sempre mulheres vulneráveis em busca de emprego — para dentro de casa, onde promessas se transformavam em armadilhas.
Ali a vida era ceifada de forma brutal e os corpos esquartejados em um gesto de perversidade que desafia qualquer compreensão. Parte da carne era consumida em rituais macabros. O que sobrava ganhava um destino ainda mais sombrio: recheava salgados vendidos na própria cidade, misturando o horror absoluto à rotina dos moradores da vizinhança. Eu nunca cheguei a ver nenhum dos três, mas a senhora Isabel era bem conhecida pela população porque vendia empadinhas em um recipiente de plástico pelas ruas e nos comércios da cidade.
Então, muitas pessoas conheciam Isabel; ela era uma figura inofensiva que lembrava muito uma avó, com uma aparência que despertava vulnerabilidade e profunda compaixão. Ela não passava temor, ela não passava nada, ela passava mais compaixão.
Para atrair as vítimas, Isabel se utilizava do estereótipo de uma senhorinha de idade, muitas vezes com a Bíblia debaixo do braço, indo à porta de hospitais e escolas para vender e convencer as pessoas a adquirirem empadas produzidas com carne humana. E detalhe: as partes nobres eram reservadas para eles mesmos consumirem dentro do imóvel.
Eles acreditavam cegamente naquela loucura. Podemos dizer que era um trisal de psicopatas. Isabel sempre pareceu meio perturbada com essa relação entre os três; foi perdendo a lucidez progressivamente por conta da submissão a essa dinâmica doentia imposta na residência. Quando nos deparamos com a figura da Bruna, ela não demonstra nenhum arrependimento.
Ela tem um olhar muito frio e apático. Lendo os trechos do diário dela, fica evidente essa frieza brutal. Jorge era professor de artes marciais e chegou a lecionar em universidades federais. Ele possuía grande inteligência, que usava até mesmo para atrair e dominar as vítimas. Utilizava justamente os golpes de jiu-jitsu para imobilizá-las quando decidia matá-las.
Ele era um manipulador hábil, maquiavélico e com elevada inteligência perversa. Sabia exatamente o que queria fazer. Havia uma morbidez intensa na sua manipulação: ele conseguia contaminar as outras mulheres para que fizessem efetivamente o que ele planejava no jogo psicológico.
Não é fácil manipular as pessoas. Quem manipula mente, é pego na mentira, retrocede e tenta enganar novamente. Isso demanda muita energia psíquica e cognitiva constante. Nesse caso, a inteligência afiada e o poder de controle de Jorge explicavam o grande domínio sobre o grupo.
O que eu quero dizer com isso? O fato de ser manipulador revelava perfeitamente a sua estrutura de funcionamento psíquico criminoso. Sabia exatamente o que estava fazendo, dizendo e no que acreditava. Ele mantinha a relação a três, com uma mulher mais velha e outra mais jovem, dominando centralmente os espaços.
Fica perceptível que ele induzia essas mulheres a fazerem o que ele desejava, e elas encontravam nisso uma zona de conforto para explorar a maldade. Havia uma contaminação psíquica: existia o controle dele, mas também a livre manifestação delas em aceitar o caminho criminoso e sádico no qual mergulharam.
A perícia suspeita de canibalismo ou de vilipêndio por troféu quando faltam partes essenciais do corpo, principalmente grandes porções musculares ou órgãos vitais. O coração, por exemplo, carrega um forte simbolismo místico na mente e nas ações sádicas dos criminosos canibais. O fígado também costuma ser subtraído (através de incisão abdominal, expondo as vísceras ou seccionando o peito). A ausência de grandes massas musculares, como quadríceps e glúteos, é típica nas execuções e de grande preferência entre os canibais.

Porém, em cada ritual canibal, o autor criminoso segue um roteiro assustador próprio. Podem cozinhar pernas, cabeça e genitais, demonstrando um grau extremo de sadismo e fetichismo doentio. Há registros de confissões onde os criminosos narram excitação sexual acentuada tanto no desmembramento dos cadáveres quanto na prática final inominável da ingestão da carne.
Ao analisar a inter-relação desse grupo fortemente adoecido, nota-se um homem casado há anos que introduz a amante (sua ex-aluna) na casa, despertando nela a admiração cega pela máscara social do professor e iniciando um trisal letal fundamentado na perversidade irreprimível.
Embora citem a formação de uma seita, a cooptação externa não era real. Tratava-se de um trisal restrito, sem divulgação para o exterior. Afastados e fechados naquela pseudofamília, os abusos eram justificados sob preceitos inventados e dominâncias destrutivas dos líderes no local. A mais jovem costumava dizer que concordava porque era apaixonada.
Ao meu ver, essa mulher mais jovem era a mais fria, calculista e perigosa dos três. Avaliações psiquiátricas comprovaram sua personalidade perversa: ela se identificava em grau máximo com a atrocidade criminosa de assassinar e canibalizar inocentes no cotidiano daquele convívio.
O discurso de “eu gosto, eu amo” refletia, na verdade: “eu me identifico totalmente com essa selvageria e com a tua disfuncionalidade clínica”. Precisavam dar outro nome às torturas. O jogo mental chamou isso de ritual de seita e purificação universal, maquiando as atividades monstruosas que cometiam diariamente no domicílio.
Então ele chama de seita, diz que tem que haver uma purificação, invoca rituais místicos. Ele tenta suavizar uma conduta inapropriada, criminosa e selvagem. Esse trisal se conhecia, compactuava e se projetava no crime acima de qualquer coisa. Os três fizeram o que fizeram pela retroalimentação perversa. Jorge nunca expunha abertamente aos outros o que iria fazer; ele apenas alimentava a fantasia macabra no sigilo.
Ele publicou e comercializou um livro intitulado “Diário de um Esquizofrênico”, no qual inseriu os relatos macabros da sua mente; quem lia a literatura jamais imaginava que os assassinatos já eram reais na cabeça dele e em planejamento contínuo para serem executados logo em seguida contra vítimas da cidade.
Temos um indivíduo perverso que cria uma seita ilusória, acreditando que salvaria a humanidade exterminando mulheres vulneráveis. Esse trisal de psicopatas acreditava piamente na teoria de Jorge Negromonte, de que precisariam sacrificar vítimas. Cada vítima representava um elemento: ar, terra, água e fogo. A quinta cabeça funcionaria como a salvação cósmica profana das alucinações absurdas. >> Essa argumentação de purificação era balela, um discurso medíocre que demonstrava perfeitamente a insensatez do ato, a banalidade do mal imperdoável.
Ele dizia acreditar que era líder ideológico de uma seita, mas a rotina, as roupas e o comportamento dele na sociedade eram normais e sem destaque. Ele não possuía nenhum perfil estrutural de um líder sectário influente ou agregador de massas em via pública. O destaque doentio dele existia apenas nos confins da própria cozinha.
Ele não tinha esse destaque. O domínio e o magnetismo doentio aconteciam dentro de casa, tiranizando as duas comparsas. Seu delírio megalomaníaco transformou a sala e o teto doméstico num matadouro sagrado aos próprios olhos cegos, regado a argumentos paupérrimos, falaciosos e profundamente patológicos.
Apesar da pretensa justificativa, ele usava o delírio da seita como fantasia para alimentar fetiches e impulsos parafílicos contra camadas da sociedade. Tanto que eles mesmos só confessaram as mortes provadas. Contudo, há suspeitas sobre o desaparecimento de outras mulheres jovens, pobres, mães e com fragilidade que também teriam sido atraídas ao covil dos leões.
O que poderia unir três pessoas em torno de um pacto de morte? Amor, fé distorcida ou insanidade sociopata? Por trás dessa trama de horror, havia uma relação doentia que misturava fanatismo, manipulação psicológica e desejo de pertencimento. Jorge, Isabel e Bruna viviam um triângulo amoroso inaceitável, sustentado por uma ideologia demoníaca autointitulada “O Cartel”. Eles pregavam que o fim das vítimas abriria portais para o paraíso cósmico que veneravam de forma criminosa e desumana em Garanhuns.
O delírio espiritual se tornava justificativa para a barbárie. Jorge, que alegava sofrer de esquizofrenia, dizia ouvir vozes e interpretar sinais místicos que o orientavam na escolha das vítimas. Para ele, a morte não era um fim, mas uma passagem necessária para um suposto equilíbrio cósmico. Isabel e Bruna, longe de meras coadjuvantes, não só compartilhavam dessas crenças, como também se tornaram cúmplices ativas nos assassinatos, participando de cada detalhe da preparação da armadilha ao ato final de violência. A fé distorcida, somada ao vínculo emocional, criou um laço macabro que transformou amor em instrumento de morte.
Têm relatos até de comerciantes da época que comercializavam esse tipo de salgado, coxinha, empada. O movimento caiu muito por conta dessa história e, depois, a gente sempre ouvia o relato de alguém que tinha comprado a empadinha, de alguém que tinha consumido e que ficou traumatizado, sem conseguir comer coxinhas.
Inclusive, quando saímos da casa, lembro de uma história: a Isabel estava sendo ouvida pela polícia e, durante o depoimento, ela disse a um dos policiais: “Inclusive, você comeu uma das empadinhas”, e o policial saiu passando mal. É natural que a população se revolte, né? Quando você escuta a Isabel, por exemplo, prestando declarações com total naturalidade, contando que cozinhava a carne e que, com os restos, eles produziam esse alimento.
Então, as pessoas ali de Garanhuns consumiram essa coxinha, comeram essa empadinha. É natural que se revoltem. Por isso a casa foi invadida e incendiada, como forma de a população, revoltada, buscar justiça. O incêndio, contudo, pode acabar com muitas provas que seriam importantes para robustecer o inquérito. Seria muito importante, do ponto de vista pericial, encontrarmos carne humana na geladeira, nos sistemas de limpeza, no chão, nos ralos. A mioglobina humana, que é própria do músculo, nós temos como encontrar, porém o incêndio pode ter prejudicado isso.
Além disso, também havia fitas VHS na casa e não sabemos o que continham. Poderiam ser outras criações “artísticas” dele, revelando as fantasias assassinas e canibais, porque ele fez pelo menos um filme com esse conteúdo, abordando assassinato e canibalismo. Isso mostra que já estava tudo sendo maturado no campo da fantasia. Mas também poderiam ser filmes dos próprios assassinatos reais. Quem garante que não? Afinal de contas, relembrar e rever o crime cometido é muito prazeroso para esses indivíduos. Eles se vangloriam como se fosse um feito heroico.
Esse prazer, de reviver a cena ao contar para outra pessoa ou até mesmo ao tentar chocar o entrevistador, é muito intenso para eles. É interessante voltarmos um pouco no tempo, porque, antes mesmo desses crimes serem praticados, a família relatava que em festas de Natal e de Ano Novo ele conversava com “amigos imaginários”, um menino branco e um menino negro, mas ele se recusava a revelar o nome dessas pessoas.
Ele teve um surto durante o casamento e passou anos sendo acompanhado pelo CAPS. Ele se declarava um esquizofrênico paranoide. Mas, o tempo todo, nas entrevistas, no livro, no filme que ele fez baseado nessa fantasia (que ele roteirizou, protagonizou e dirigiu), ele mantinha o foco. Um esquizofrênico grave não é capaz de fazer isso de forma tão estruturada. Ele exercia controle absoluto da situação, exercia controle na entrevista que dava e exercia controle sobre as vítimas desde o início. Isso o tira do escopo da esquizofrenia, enquanto doença, e o coloca dentro do quadro de transtornos delirantes.
Ele conseguiu convencer a esposa de que ela tinha que aceitar a amante de apenas 16 anos. Ele conseguiu convencer a amante de 16 anos a participar, a morar no lar de um casal que tinha idade para serem os pais dela. Ele foi envolvendo essas mulheres e dominando-as. De fato, ele era um homem muito articulado: estudou em Portugal, vinha de uma família abastada e era professor de artes marciais. Portanto, Jorge Negromonte foi o grande arquiteto de todo esse terror.
A Isabel tinha uma falsa persona social: mostrava-se como uma senhora simpática e empática. Um esquizofrênico em surto não seria capaz de simular tudo isso, de usar esse engodo para atrair as pessoas. Então, ela oferecia para essas mulheres, escolhidas como vítimas, um emprego na casa deles com salário atrativo. A Jéssica ainda ficou alguns dias em poder deles. Talvez tenha havido uma hesitação entre trazê-la como novo membro da seita ou usá-la como sacrifício. Porém, as outras duas não tiveram chance. Ao chegar à casa, já foram mortas e aí se iniciava todo o ritual.
Em nenhum momento um diagnóstico de esquizofrenia por si só leva alguém a cometer atos deliberados de maldade, violência e crime. Não há relação direta da esquizofrenia com a violência, muito menos com a criminalidade contumaz. Evidentemente, qualquer pessoa pode cometer um crime, inclusive alguém com esquizofrenia. Mas não há uma causalidade de que o esquizofrênico vá, obrigatoriamente, se tornar uma pessoa violenta ou criminosa. Ao contrário, pessoas com transtornos mentais graves, como a esquizofrenia, costumam ser avessas à violência e têm dificuldade de se manifestar agressivamente. São, na grande maioria das vezes, mais vítimas do que agressores. É importante ressaltar isso.
Ele não era um esquizofrênico paranoide. Ele não fazia a mínima ideia do que realmente era a esquizofrenia paranoide. Ele se inspirou em outras obras, em outros discursos, e quis forjar para si uma infância, uma adolescência e uma vida diferenciada, quase como um ser místico, que via coisas e era especial. Quis se destacar através do pretenso transtorno mental. Se abrirmos as redes sociais hoje, veremos pessoas que se autointitulam psicopatas com orgulho, narcisistas, assumindo quadros patológicos apenas para dizer: “Eu sou assim”. Qual o motivo? Chamar a atenção. E essa é a pergunta que fazemos em relação a ele.
Ele se autointitulou esquizofrênico. Por que fez isso? O que queria com isso? Porque a forma como ele se comportava no mundo provava o contrário. Ele estudou, fez faculdade, trabalhou. Obviamente, era um criminoso, e os crimes eram diferenciados. O recurso do delírio estava presente, sim. Mas quando pensamos num diagnóstico estruturado de esquizofrenia, ele não preenchia 90% dos critérios; os 10% que ele tinha apontavam para um transtorno delirante. Os pensamentos bizarros, os comportamentos excêntricos, sim, existiam. Mas, tecnicamente, para um diagnóstico efetivo e coerente de esquizofrenia, ele não possuía os sintomas nem os sinais necessários.
Então ele decidiu escrever uma obra literária onde começou a elencar alguns sintomas e afirmar que havia vivido aquilo. Mas era apenas uma invenção dele; observando o comportamento dele com outras pessoas, ninguém dizia que ele delirava, escutava vozes ou apresentava os sintomas positivos, negativos e as alterações cognitivas e comportamentais significativas exigidas num quadro de esquizofrenia. Hoje sabemos que ele não tinha esse quadro. No entanto, o transtorno delirante, sim; esse delírio conseguimos enxergar e considerar como um fato técnico e científico.
Olhando para os três, vemos um certo embotamento afetivo, um certo rebaixamento da consciência, mas o que mais chama a atenção é a ausência total de empatia, de remorso e de culpa. Não vemos nada disso neles. Tanto é que Bruna riu várias vezes durante o julgamento, mesmo ao se deparar com a barbárie que ajudou a cometer (já que elas auxiliavam a matar, desmembrar e cozinhar). Não se via nelas um pingo de arrependimento. Eu vejo três predadores cruéis, com alta capacidade de organização, planejamento e execução.
Esse nível de organização já os tira do diagnóstico de esquizofrenia, pois, para diagnosticarmos uma doença mental grave, precisamos de sinais positivos, negativos e uma série de outros critérios descritos no CID, no DSM ou mesmo em análises psicodinâmicas. Esse nível de planejamento e execução afasta os três da esquizofrenia. A hipótese diagnóstica mais provável é de um transtorno delirante: eles possuem um transtorno de personalidade com crenças fixas, inflexíveis e de conteúdo bizarro. Eles partilhavam dessa fantasia sobre a morte, do sadismo de matar, de uma megalomania onde se achavam superiores ao restante da humanidade e, portanto, detentores do poder sobre a vida e a morte.
Vemos que Jorge tinha um poder de controle imenso sobre essas duas mulheres. Elas apresentavam um rebaixamento de consciência, o que é bem diferente de inimputabilidade legal. Esse controle já existia antes dos crimes. Perceba que ele convenceu a esposa, com quem já estava casado há mais de 20 anos, a aceitar uma outra mulher, muito mais jovem, para fazer parte daquela relação. E Bruna aceitou fazer parte da dinâmica, a despeito da grande diferença de idade. Jorge tinha, inegavelmente, um forte domínio de persuasão e oratória sobre elas. Inclusive, no livro que publicou, autodenominando-se esquizofrênico, é possível notar que ele não escrevia mal.
Existiam crenças fantasmagóricas e muito arraigadas relacionadas à seita, mas que possuíam uma certa lógica interna para eles. Logicamente, não condiziam com a realidade factual partilhada por todos nós; ora eles estavam inseridos na realidade, ora pareciam alheios a ela. Mas esse elevado nível de organização e controle corrobora o quadro de transtorno de personalidade delirante. Não se trata de uma doença mental incapacitante, mas sim da forma corrompida como ele se relacionava com o meio, o seu jeito de existir no mundo. E, para a psicopatia perversa, não existe tratamento. O julgamento do trio mobilizou o país e expôs detalhes arrepiantes da crueldade que praticaram.
Jorge Negromonte, Isabel Cristina e Bruna Cristina foram condenados por homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver, estelionato e vilipêndio de cadáver. Jorge e Bruna receberam 71 anos de prisão, enquanto Isabel foi condenada a 68 anos. As penas refletiam não apenas a brutalidade dos assassinatos, mas também o grau de planejamento, a frieza e a repetição sistemática dos crimes.
É importante destacarmos que, particularmente nesse caso, a prática do canibalismo no Brasil não possui previsão como crime autônomo no nosso Código Penal. Ou seja, não há responsabilização penal específica pela ingestão de carne humana. De que forma, então, essas pessoas são penalizadas? Através dos crimes que antecederam e envolveram o ato. No presente caso, os três homicídios. Eles foram acusados e julgados pela prática de homicídio qualificado, ocultação de cadáver, vilipêndio e estelionato.
O conjunto probatório contra os três, contra esse trisal, era extremamente vasto. Havia exames de DNA, o depoimento da criança, as movimentações de cartão de crédito, imagens de segurança e a própria confissão dada a um jornalista em TV aberta às vésperas do julgamento. Inclusive, Bruna confessou; todos confessaram. Diante disso, a estratégia da defesa foi alegar insanidade mental. Requereram a instauração de incidente de insanidade mental e os réus foram periciados. O laudo técnico concluiu que eles tinham plena e absoluta ciência da ilicitude do que estavam fazendo.
Eles não eram alienados a ponto de não compreenderem a gravidade de suas condutas. Ou seja, não eram inimputáveis e deveriam, sim, responder criminalmente pelos atos praticados. Todo o processo ocorreu com observância à ampla defesa. Eles foram julgados sob os princípios do devido processo legal, possibilitando à defesa a solicitação e a realização minuciosa das avaliações mentais.
Estatisticamente, assassinos em série, quando soltos, voltam a cometer crimes violentos, principalmente em casos onde não percebem os próprios atos como malignos. Eles acreditam piamente que têm razão e que a sociedade está errada. Portanto, esses perfis criminosos tendem à reincidência violenta. Não se trata de adivinhação, é uma constatação baseada no estudo da personalidade antissocial e da psicologia forense. A literatura científica demonstra fartamente, em diversas bases de dados, que muitos confessam que voltariam a agir se soltos, e que só interromperam as atrocidades porque foram detidos pelas investigações.
A partir do momento em que se virem novamente em sociedade, diante de presas em potencial, agirão como predadores, porque essa é a natureza deles. O horror só começou a ser desvendado após o desaparecimento de duas mulheres, Giselly Helena da Silva e Alexandra Falcão. A investigação policial rastreou movimentações bancárias e imagens de câmeras de segurança, guiando-os até a casa dos suspeitos, mas foi a inocência de uma criança (filha de uma das vítimas) que rasgou o véu de silêncio e impunidade.
Ela foi criada temporariamente pelo trio e, num depoimento crucial, contou à polícia que o pai (Jorge) havia matado as mulheres, indicando exatamente onde os corpos estavam enterrados no quintal. A voz frágil revelou os horrores que a brutalidade tentava esconder. A garota, que vivia ali sob a farsa de ser filha de Jorge e Bruna, era, na verdade, vítima de sequestro e filha biológica de Jéssica. Possivelmente, eles usariam a menina como um novo membro da seita no futuro ou, tragicamente, como mais uma vítima de sacrifício. Ela foi recolhida a um abrigo logo após a descoberta dos fatos, permanecendo na instituição por cerca de dois anos.
Durante esse período, foi acompanhada intensivamente por psicólogos. Posteriormente, a guarda foi concedida a um parente distante. A menina sofreu muito bullying ao longo de toda a infância e adolescência; colegas cruéis perguntavam-lhe qual era o gosto da carne humana ou como era comer coxinha feita de gente. Essa jovem foi indiscutivelmente uma das maiores vítimas de todo o horror, pois o grupo claramente a moldava para se tornar a próxima integrante da seita. Ela presenciou atrocidades. O fato de ter sido vítima e de carregar essas memórias macabras a marcará profundamente em seu futuro adulto se resguardando sempre para si dos abismos passados que viveu de perto.
Todo o canibalismo moderno — excetuando os casos de extrema sobrevivência ou exceção — está intimamente atrelado ao ritualismo e ao simbolismo de controle e dominação. Desde a pré-história, na trajetória da humanidade, existem registros antropológicos do ato. Trazemos isso em porões do inconsciente coletivo humano. Para esses criminosos, a ingestão da carne consistia no exercício do poder absoluto: o controle total ao consumir, destruir e “introjetar” fisicamente o corpo da vítima.
A vítima deixa de existir, pois o agressor a “consumiu” por completo. Esse é o pavoroso simbolismo do canibalismo desviante. Tais falsas seitas são reflexos diretos de recalques psicológicos severos, de instintos sádicos inconscientes e das parafilias narcisistas do criador do culto e daqueles que o seguem. Embora raros, crimes motivados por seitas destrutivas existem e já presenciamos casos que resultaram em homicídios e suicídios coletivos. Imagine o nível de persuasão letal necessário para que fiéis tirem a própria vida ou a de terceiros em nome de falsas promessas celestiais e descoladas da nossa moral fundamental na sociedade humana civilizatória das gerações mundiais normais.
Isso é extremamente grave. Ao mesmo tempo, esses líderes carismáticos perversos possuem grande habilidade em selecionar seguidores com fragilidade psicológica e emocional suficientes para absorver a doutrina e obedecer cegamente, perdendo qualquer capacidade de questionamento, reflexão ou discernimento crítico. As vítimas dessas lideranças acabam operando sob forte rebaixamento de consciência e submissão total.
Existiram outros casos notórios pelo mundo. Tivemos um casal russo, Natalia e Dmitry, que mataram inúmeras pessoas e praticaram canibalismo. No Brasil, tivemos casos isolados, como em Peruíbe, envolvendo homicídio e mutilação. Houve também o caso chocante de uma senhora que assassinou um morador de rua, extraiu seus órgãos, cozinhou parte das vísceras e serviu em forma de sopa para outros indivíduos em situação de rua. Internacionalmente, destaca-se Andrei Chikatilo, o Estripador de Rostov, na Rússia, que cometeu mais de 50 assassinatos atrelados ao canibalismo. Nos Estados Unidos, entre as décadas de 1920 e 1930, operou Albert Fish, que violentou centenas de crianças e confessou o canibalismo de várias vítimas infantis.
Observa-se que o canibalismo ritualístico moderno está ancorado na psicopatia e no desejo doentio de poder e controle. Historicamente, conforme a antropologia, civilizações humanas utilizaram o canibalismo não como forma de nutrição dietética comum, mas sim em cerimônias de cunho guerreiro ou religioso. Povos originários, como tribos Tupinambás na costa brasileira do século XVI, ou o império Asteca no México, devoravam a carne de adversários valorosos em rituais honrosos de guerra e absorção de bravura e coragem.
Naquela época, o ato canibalístico significava o reconhecimento e a tentativa de assimilação da força do oponente — um rito de bravura que nossa sociedade moderna obviamente não partilha. Feitas as ressalvas antropológicas, é inquestionável que o canibalismo em Garanhuns foi movido unicamente pela morbidez, sadismo e barbárie criminosa, e não por qualquer espiritualidade ancestral legítima. O ato de dilacerar e devorar representava para o trio o ápice máximo da maldade, a consagração absoluta de suas perversões fantasiadas e delírios assassinos contra pessoas inocentes.
Os três cumprem penas totalmente isolados em suas unidades prisionais, visto que a própria massa carcerária os repudia e teme a brutalidade de seus crimes; ninguém aceita dividir cela com eles. Permanecem no isolamento solitário, o que ironicamente diminui o risco de cometerem infrações disciplinares contra outros detentos. Se os crimes fossem julgados sob a legislação penal atual (Lei 13.964/2019 – Pacote Anticrime), as vedações para benefícios como livramento condicional a criminosos hediondos reincidentes específicos seriam ainda mais rígidas, proibindo tais concessões.
Porém, como os assassinatos ocorreram bem antes das recentes alterações legislativas, o Código Penal permite que pleiteiem progressão de regime após o cumprimento de rigorosas frações da condenação. Eles enfrentaram dois tribunais de júri: o primeiro focado na morte da vítima Jéssica, e o segundo abordando as execuções de Giselly e Alexandra. Trataram-se de fatos autônomos. Por isso, a partir da segunda condenação, já pesava sobre eles o status legal de reincidentes específicos em crimes hediondos.
Nessa configuração, qualquer pedido de progressão aos regimes semiaberto ou aberto exige o cumprimento mínimo de 3/5 do total penal — um prazo extenso. Ademais, além do requisito temporal matemático, a soltura depende de aprovação em complexas avaliações psiquiátricas e criminológicas elaboradas por juntas médicas. Dificilmente as perícias penitenciárias recomendariam o retorno seguro desses assassinos às ruas. Entretanto, sob a égide constitucional brasileira anterior ao Pacote Anticrime, o limite máximo de cumprimento efetivo de pena em regime fechado era de 30 anos; esgotado o prazo, o Estado é obrigado a libertar o apenado.
Como ressocializar indivíduos que são biologicamente ou psicologicamente incapazes de enxergar o sofrimento que causaram? No caso de Garanhuns, até hoje eles não internalizaram a crueldade dos assassinatos nem demonstram remorso genuíno. Dentro do delírio da seita, faltaria sacrificar uma última mulher para selar a “purificação”. Se recolocados em liberdade, a chance de retomarem as predações é altamente crítica. Não se sabe se tentariam se reunir ou se Jorge arregimentaria novos seguidores, criando subgrupos delirantes disfarçados de credos bizarros para justificar novamente a sua necessidade doentia e sádica de torturar e assassinar.
Era dificílimo para a vizinhança identificar o banho de sangue que ocorria a portas fechadas. Neste exato momento, enquanto seguimos nossa rotina, atrocidades anônimas ocorrem no interior dos lares sem que percebamos os sinais. O trio parecia normal: faziam compras, conversavam na calçada, viviam em sociedade. O esquema ruiu porque o autor cometeu a falha crassa de tentar utilizar o cartão de crédito de uma das vítimas recém-abatidas, alertando as investigações. Na ótica da psicologia e segurança penitenciária, a reabilitação de psicopatas hediondos é praticamente impossível; a reincidência letal é a única garantia estatisticamente aceitável e temida.
Logo, a libertação de homicidas em série representa ameaça contínua. Embora a legislação não permita punições de caráter perpétuo absoluto, a estrutura psicológica perversa, a maldade impregnada e a total ausência de freios morais evidenciam que, nas ruas, o trio sempre ofereceria grave perigo letal à sociedade. Crimes dessa envergadura jogam na cara da civilização o quão instintivos, primitivos e cruéis podemos ser. Revelam a nossa falência empática, alertando para o limite sombrio em que seres humanos são capazes de subjugar, violentar e descartar brutalmente os próprios semelhantes em nome de mentiras sádicas.
A sociedade, tristemente, acostumou-se a consumir noticiários violentos, porém demonstra aversão extrema a atos repudiantes, exigindo condenações e punições rigorosas. Embora a justiça pelas próprias mãos seja equivocada e criminosa, a fúria das massas contra agressores hediondos revela o grau de indignação, pavor e exaustão coletiva diante da impunidade. O filósofo aponta que trazemos em nós a gênese de todos os terrores que assolam a humanidade; travamos lutas constantes contra os instintos selvagens para mantermos a ordem, sem, no entanto, cairmos numa paranoia de suspeitar incessantemente de todos ao nosso redor.
O grande escudo de preservação moral é reconhecermos as falhas da nossa natureza para coibirmos o avanço do mal em nossas próprias atitudes diárias. A criança resgatada do imóvel amaldiçoado em Garanhuns foi imediatamente afastada dos criminosos algozes. Entregue aos cuidados do Conselho Tutelar e posteriormente encaminhada a parentes protetores, reconstruiu sua trajetória no anonimato, distante das correntes sádicas do passado opressor. Sua sobrevivência corajosa simboliza um raio de esperança e reinício, provando que é possível se curar mesmo após transitar no epicentro absoluto do inferno humano.
O que extraímos ao fitarmos o abismo da maldade e constatarmos que as faces do terror habitam casas simples nas ruas em que moramos? O caso dos canibais de Garanhuns repousará eternamente como um dos capítulos mais medonhos e sombrios da crônica criminal latino-americana. Mais do que mortes sucessivas, a tragédia rasgou o véu que cobre as trevas do sadismo aliado ao delírio narcisista pseudorreligioso. Uma narrativa cravada de perversão psíquica e manipulação sectária, escancarando a perigosa inclinação humana de transformar vidas carentes em objetos de mutilação. A condenação pesada trouxe ínfimo alento às famílias dilaceradas pelo luto brutal e irremediável perpetrado pela brutalidade disfarçada.
Mas o legado de espanto continua ecoando nas mentes do país como permanente alerta sociológico. Os predadores sádicos trajam sorrisos educados, carregam Bíblias dissimuladas, vivem em pacatas residências interioranas e dividem a calçada conosco. A triste lição sepultada junto aos túmulos das mulheres vitimadas em Garanhuns é de que apenas a proteção efetiva do Estado e o amparo social incisivo a populações em extrema vulnerabilidade poderão, um dia, erguer bloqueios reais capazes de frear as armadilhas perversas montadas por covardes sádicos à espreita nas ruas. Siga a página para acompanhar as próximas coberturas analíticas e investigativas desses casos históricos.