A HERDEIRA ERA INTOCÁVEL ATÉ A VERDADE MACABRA QUE ELA ESCONDIA SER DESCOBERTA – São Luís, 1895
O coronel, por sua vez, evitava comentar sobre a filha em conversas com outros homens, desviando rapidamente para assuntos de negócios ou política quando o nome de Abileta surgia. Os empregados da casa, por sua vez, desenvolveram ao longo dos anos um silêncio peculiar em relação à família a que serviam. Benedita, a mucama que atendia diretamente Abileta, trabalhava na casa desde menina e demonstrava devoção absoluta aos patrões.
Joaquim, o criado que cuidava dos afazeres gerais, mantinha-se sempre discreto e eficiente. Sebastiana, a cozinheira, preparava as refeições, sem nunca participar das conversas que eventualmente aconteciam na cozinha, quando outros empregados de casas vizinhas vinham fazer visitas. Damião, o cocheiro, conduzia a carruagem da família com profissionalismo silencioso.
Em maio de 1895, começaram a circular rumores discretos sobre um possível casamento de Abileta. Falava-se que o coronel Inácio estava em negociações com a família Barros Pimentel, cujo filho primogênito, Álvaro Barros Pimentel, tinha 27 anos e já administrava parte dos negócios do pai no ramo de exportação de algodão.
As duas famílias tinham relações comerciais antigas e a união seria vantajosa para ambas as partes. Álvaro fora apresentado a Abileta em abril. Durante uma visita formal ao sobrado da Rua Portugal, o encontro aconteceu no salão principal com a presença do coronel Inácio, dona Eulália e os pais de Álvaro.
Abileta recebeu o pretendente com a cortesia esperada, serviu chá, respondeu perguntas sobre suas leituras e tocou uma peça ao piano. Álvaro mostrou-se satisfeito e, segundo comentários posteriores, impressionado com os modos e a aparência da moça. As negociações entre as famílias avançaram rapidamente. Em junho, já se falava abertamente sobre a data do casamento, previsto para acontecer em setembro, após os preparativos necessários.
Dona Eulália encomendou tecidos finos para o enxoval, contratou costureiras especializadas e começou a organizar os detalhes da cerimônia que aconteceria na Igreja da Sé. Mas, em 23 de junho de 1895, algo aconteceu que abalaria profundamente a estrutura daquela família aparentemente perfeita. Naquela manhã, Benedita subiu às 7 horas para acordar Abileta, como fazia todos os dias.
Bateu à porta três vezes, conforme o costume. Não houve resposta. Esperou alguns instantes e bateu novamente. O silêncio persistiu. Preocupada, Benedita abriu a porta devagar e entrou no quarto. A cama estava feita, os lençóis perfeitamente esticados, as almofadas arrumadas, a janela fechada. Nenhum sinal de que alguém tivesse dormido ali. Benedita caminhou até o closet, verificou o salão de costura, olhou nos corredores.
Abileta não estava em seus aposentos. A mucama desceu apressada e encontrou Sebastiana na cozinha preparando o café da manhã. Perguntou se a cozinheira a tinha visto. Sebastiana respondeu que não, que ainda não tinha começado o serviço de levar as bandejas aos andares superiores. Benedita dirigiu-se então aos escritórios do térreo, onde encontrou Joaquim limpando os móveis.
O criado também não tinha visto Abileta. Foi então que Benedita tomou a decisão de informar dona Eulália. Subiu até o segundo andar e bateu discretamente à porta do quarto do casal. Dona Eulália a atendeu já vestida, preparando-se para descer ao café da manhã. Quando Benedita informou que Abileta não estava em seus aposentos e que a cama não tinha sido usada, a expressão de dona Eulália mudou drasticamente.
A senhora subiu imediatamente ao terceiro andar, seguida pela mucama. Verificou pessoalmente todos os cômodos de Abileta, abriu armários, olhou debaixo da cama, verificou se havia alguma carta. Algum bilhete? Nada. Tudo estava rigorosamente no lugar, como se Abileta simplesmente tivesse se desmaterializado durante a noite.
Dona Eulália desceu rapidamente e dirigiu-se aos escritórios do térreo, onde o coronel Inácio já estava revendo documentos. Informou-o da situação. O coronel levantou-se imediatamente e subiu para verificar pessoalmente. Após constatar o desaparecimento, reuniu todos os empregados na sala de estar. A conversa foi breve e direta.
O coronel perguntou se alguém tinha visto ou ouvido algo durante a noite. Todos responderam negativamente. Ninguém tinha ouvido passos, portas se abrindo, vozes. Ninguém tinha visto Abileta sair pelos corredores. O coronel perguntou especificamente a Damião se alguma carruagem tinha saído da propriedade.

O cocheiro garantiu que não, que os cavalos estavam nos estábulos e que a carruagem permanecera guardada. O coronel ordenou então que fizessem uma busca completa no sobrado. Todos os cômodos foram verificados, desde os porões até o sótão. Verificaram as despensas, os depósitos, os quartos dos empregados localizados numa construção menor nos fundos da propriedade.
Procuraram no jardim interno, nos corredores externos, nas áreas de serviço. Abileta não estava em lugar algum. Por volta das 10 horas da manhã, o coronel tomou uma decisão que surpreendeu a esposa: instruiu que ninguém comentasse sobre o desaparecimento e proibiu expressamente que os empregados falassem sobre o assunto, seja entre si ou com pessoas de fora da casa.
Disse que resolveria a situação de forma discreta e que não queria escândalos ou comentários que pudessem prejudicar a reputação da família. Dona Eulália questionou se não deveriam procurar as autoridades. O coronel foi categórico ao responder que não, que aquilo era um assunto de família e seria tratado internamente. Disse que provavelmente Abileta tinha saído para uma caminhada matinal, que talvez tivesse se sentido mal em algum lugar próximo e que certamente apareceria em breve.
A explicação não convenceu dona Eulália, mas ela acatou a decisão do marido. Durante todo aquele dia, a rotina da casa continuou aparentemente normal. As refeições foram preparadas e servidas. Os empregados realizaram suas tarefas habituais. O coronel trabalhou em seus escritórios. Dona Eulália permaneceu no sobrado aguardando, mas Abileta não apareceu.
À noite, quando ficou evidente que a jovem não retornaria, o coronel subiu novamente aos aposentos da filha. Dessa vez, realizou uma busca mais minuciosa. Abriu todas as gavetas dos móveis, verificou os livros na estante, examinou os papéis no pequeno escritório. Foi então que encontrou algo que parecia ter passado despercebido na primeira busca.
Entre as páginas de um exemplar de poesias de Casimiro de Abreu, havia uma pequena folha de papel dobrada. O coronel desdobrou o papel e leu o que estava escrito. A letra era de Abileta. Ele a reconheceu imediatamente. O conteúdo, porém, era algo que ele jamais imaginaria ler. O coronel desceu com o papel e trancou-se em seu escritório.
Não chamou dona Eulália, não compartilhou o que tinha encontrado. Permaneceu lá até tarde da noite e, quando finalmente saiu, sua expressão era de alguém que tinha envelhecido anos em poucas horas. No dia seguinte, 24 de junho, o coronel enviou Damião com uma mensagem para a família Barros Pimentel. O conteúdo da mensagem não foi revelado aos demais, mas Damião relatou posteriormente, em conversa reservada com Joaquim, que o Sr. Barros Pimentel recebeu a notícia com surpresa e visível desagrado.
Dois dias depois, a família Barros Pimentel enviou uma carta formal ao coronel Inácio, comunicando que, devido a circunstâncias imprevistas, consideravam inadequado prosseguir com os planos de casamento entre Álvaro e Abileta. A notícia do rompimento do noivado espalhou-se rapidamente pelos círculos sociais de São Luís.
As especulações eram inevitáveis. Alguns diziam que Abileta tinha adoecido gravemente, outros sugeriam que tinha havido desentendimento sobre o dote. Havia quem comentasse que Álvaro tinha se interessado por outra moça. Os boatos multiplicavam-se, cada qual mais fantasioso. A família Cavalcante de Albuquerque manteve silêncio absoluto, não deu explicações, não recebeu visitas, não comentou sobre o assunto.
Dona Eulália passou a ser vista ainda menos que antes. O coronel continuou cuidando de seus negócios, mas com uma severidade e um distanciamento que não demonstrava anteriormente. O sobrado da Rua Portugal parecia ter-se fechado para o mundo exterior. Os empregados, por sua vez, continuavam trabalhando sob a ordem expressa de não comentar nada sobre Abileta.
Benedita permanecia nos aposentos da jovem, mantendo tudo limpo e arrumado, como se ela fosse retornar a qualquer momento. As roupas continuavam nos armários, os livros nas estantes, o piano no salão permanecia coberto por um pano de veludo. Em meados de julho, um evento curioso aconteceu. O padre Antônio Vieira Marques, vigário da Igreja da Sé, visitou o sobrado dos Cavalcante.
A visita não estava programada e aconteceu num horário incomum, por volta das 20 horas. O padre permaneceu no sobrado por aproximadamente 2 horas, trancado no escritório do coronel. Quando saiu, sua expressão era grave, não comentou o motivo da visita com ninguém e partiu apressadamente. Três dias após a visita do padre, Joaquim foi instruído pelo coronel a realizar uma tarefa específica.
Deveria descer até o porão da casa e retirar de lá um baú antigo que ficava guardado numa área de difícil acesso, atrás de caixotes e móveis velhos. O criado obedeceu, mas comentou posteriormente com Sebastiana que o baú estava trancado com cadeado e era extremamente pesado, como se houvesse algo de considerável peso dentro dele. O coronel mandou que Joaquim levasse o baú diretamente para seu escritório.
A operação foi realizada durante a noite, quando havia menos movimentação na casa. Uma vez no escritório, o coronel trancou a porta e permaneceu lá sozinho por horas. Ninguém soube o que ele fez com o baú ou com seu conteúdo. Em agosto de 1895, dona Eulália adoeceu. Os sintomas incluíam fraqueza extrema, falta de apetite e um estado de melancolia profunda que a impedia de realizar até mesmo as tarefas mais simples. Foi chamado o Dr. Henrique Souza Tavares, médico da família há mais de 20 anos.
O doutor examinou dona Eulália e diagnosticou um quadro de esgotamento nervoso severo, recomendando o repouso absoluto e o uso de tônicos fortificantes. O coronel contratou uma enfermeira particular. A mulher, chamada Irmã Germana, era religiosa e tinha experiência no cuidado de enfermos.
Instalou-se num quarto próximo ao do casal e passou a dedicar-se integralmente aos cuidados da patroa. Irmã Germana era discreta e eficiente, raramente conversando com os outros empregados e mantendo total sigilo sobre o estado de sua paciente. Durante esse período, o coronel tornou-se ainda mais reservado. Passou a trabalhar até tarde da noite em seu escritório, muitas vezes sendo visto andando pelos corredores do sobrado nas primeiras horas da madrugada.
Damião relatou que o patrão tinha feito viagens curtas a localidades no interior, sempre sozinho, retornando no mesmo dia ou no dia seguinte. O destino dessas viagens nunca foi revelado. Em setembro, mês em que o casamento de Abileta deveria ter acontecido, o coronel recebeu a visita de um homem que ninguém na casa conhecia.
O visitante chegou ao entardecer, conduzido por Damião, que tinha ido buscá-lo numa hospedaria no centro. O homem era alto, magro, vestia-se com sobriedade e carregava uma pasta de couro. Identificou-se como Lúcio Rodrigues Mendes, advogado de Belém do Pará. O advogado permaneceu no sobrado durante três dias. Foi instalado num dos quartos de hóspedes no segundo andar e teve longas reuniões com o coronel, sempre de portas fechadas.
Irmã Germana serviu as refeições do visitante em seu quarto, seguindo instruções expressas do coronel. Nenhum dos outros empregados teve contato direto com o advogado. Quando Lúcio Rodrigues Mendes partiu, levou consigo vários documentos que o coronel lhe entregou. Joaquim, que ajudou a carregar a bagagem do advogado até a carruagem, notou que a pasta de couro estava consideravelmente mais volumosa do que quando ele chegara.
Outubro trouxe mudanças visíveis ao sobrado. O coronel determinou que os aposentos de Abileta fossem trancados. Todas as suas roupas, livros, objetos pessoais e móveis permaneceriam exatamente como estavam, mas ninguém deveria entrar lá. As chaves ficaram sob responsabilidade exclusiva dele. Benedita, que durante meses mantivera aqueles cômodos limpos na esperança de um retorno, foi proibida de continuar o trabalho.
O piano do salão de música foi coberto permanentemente. As cortinas de veludo das janelas que davam para a rua foram mantidas fechadas mesmo durante o dia. A biblioteca foi praticamente abandonada. O sobrado, antes já discreto em sua relação com o mundo exterior, tornou-se um lugar ainda mais fechado e silencioso. Dona Eulália, por sua vez, não apresentava melhoras significativas.
Continuava em estado de profunda melancolia, passando a maior parte do tempo acamada. Irmã Germana relatou ao Dr. Henrique que a paciente falava pouco, alimentava-se com dificuldade e passava horas olhando para o teto sem demonstrar qualquer emoção. O médico aumentou a dosagem dos tônicos e sugeriu que talvez fosse necessário considerar um tratamento mais rigoroso em alguma instituição especializada.
O coronel recusou a sugestão de forma veemente. Disse que sua esposa permaneceria em casa sob os cuidados da Irmã Germana e que não permitiria que ela fosse submetida a tratamentos em hospitais ou sanatórios. O Dr. Henrique não insistiu, mas em anotações pessoais que mantinha sobre seus pacientes, registrou sua preocupação com a evolução do quadro de dona Eulália.
Em novembro de 1895, ocorreu um episódio que aumentou ainda mais o mistério que envolvia a família Cavalcante. Durante a madrugada do dia 11, Sebastiana foi acordada por sons vindos da área dos fundos do sobrado. Eram sons de ferramentas, como se alguém estivesse cavando ou realizando algum tipo de trabalho pesado.
A cozinheira levantou-se e aproximou-se da janela de seu quarto, que ficava na construção menor, onde os empregados dormiam. De lá, conseguiu ver vultos no jardim dos fundos. Reconheceu a figura do coronel e de Damião. Ambos pareciam estar trabalhando em algo próximo ao muro que separava o sobrado da propriedade vizinha, uma área sombreada por árvores antigas e pouco utilizada.
Na manhã seguinte, Sebastiana comentou discretamente o que tinha visto com Benedita. A mucama aconselhou-a a não fazer perguntas e a esquecer o que tinha observado. Disse que o coronel não apreciaria saber que seus empregados estavam vigiando suas atividades, mesmo que inadvertidamente. Sebastiana concordou e não tocou mais no assunto, mas a curiosidade a levou, dias depois, a caminhar até aquela área dos fundos durante suas tarefas diárias.
Notou que havia sinais de terra remexida, embora alguém tivesse tentado disfarçar. Algumas plantas tinham sido replantadas recentemente. Havia marcas no solo que sugeriam que algo pesado tinha sido movido ou enterrado ali. Dezembro chegou trazendo consigo o calor intenso característico de São Luís. O sobrado da Rua Portugal parecia ainda mais abafado e opressivo.
As janelas permaneciam fechadas, as cortinas cerradas. A vida que ali existia parecia ter-se retraído ao mínimo necessário. As refeições eram preparadas e servidas. A limpeza era feita. Os negócios do coronel continuavam, mas não havia mais nada além disso. Dona Eulália, nesse período, teve uma piora súbita. Numa tarde de meados de dezembro, Irmã Germana chamou urgentemente o Dr. Henrique.
Quando o médico chegou, encontrou dona Eulália num estado de grande agitação. Ela repetia frases sem sentido aparente. Falava de sombras, de silêncios, de coisas que não podiam ser ditas. O doutor administrou um sedativo forte e ela adormeceu, mas continuou tendo um sono agitado, com gemidos e movimentos bruscos.
O coronel, ao ser informado do episódio, mandou que a Irmã Germana redobrasse os cuidados e que não permitisse que sua esposa recebesse visitas de ninguém, nem mesmo de parentes. Disse que ela estava passando por uma crise nervosa temporária e que logo se recuperaria. Mas dona Eulália não se recuperou. Nos dias seguintes, alternava entre estados de apatia profunda e momentos de agitação, onde dizia coisas incompreensíveis.
Irmã Germana mantinha-a permanentemente sedada, seguindo instruções do Dr. Henrique. O quarto de dona Eulália tornou-se mais uma área trancada do sobrado, onde apenas a enfermeira e, ocasionalmente, o coronel, tinham acesso. Em 20 de dezembro, o padre Antônio Vieira Marques voltou a visitar o sobrado.
Dessa vez, permaneceu ainda mais tempo, cerca de 4 horas. Quando saiu, estava visivelmente perturbado. Dias depois, durante a missa de Natal na Igreja da Sé, o padre pregou um sermão sobre silêncios que escondem verdades, sobre culpas não confessadas, sobre o peso dos segredos nas almas. Muitos dos presentes interpretaram como uma pregação geral sobre a condição humana, mas algumas pessoas próximas à família Cavalcante entenderam que havia um recado específico naquelas palavras.
O ano de 1895 terminou sem que Abileta tivesse retornado, sem que qualquer explicação oficial fosse dada, sem que as autoridades fossem formalmente comunicadas de um desaparecimento. A família Cavalcante atravessou o réveillon em completo isolamento, sem celebrações, sem visitas, sem qualquer demonstração de que marcavam a passagem do ano.
Janeiro de 1896 trouxe novidades discretas, mas significativas. O coronel Inácio contratou um novo empregado, um homem chamado Militão, que assumiu funções de vigia noturno do sobrado. Militão era um sujeito grande, de poucas palavras, que já trabalhara anteriormente em propriedades rurais da família no interior.
Sua presença alterou a dinâmica da casa. Agora havia alguém que permanecia acordado durante toda a noite, circulando pelos corredores, verificando portas e janelas. Os empregados antigos estranharam a medida. Nunca antes houvera necessidade de um vigia. O sobrado ficava numa área relativamente segura do centro, rodeado por outras residências de famílias abastadas, mas ninguém questionou a decisão do coronel.
Militão estabeleceu sua rotina. Dormia durante o dia num pequeno quarto que foi preparado para ele no térreo, próximo aos escritórios. Ao entardecer, assumia seu posto. Fazia rondas regulares pelo sobrado, subindo e descendo escadas, verificando todas as áreas. Carregava consigo um lampião e um pesado bastão de madeira.
A presença do vigia teve um efeito colateral nos outros empregados. Eles passaram a sentir-se vigiados, mesmo sabendo que Militão estava ali para proteger a propriedade. Sebastiana comentou com Benedita que não conseguia mais dormir tranquila sabendo que havia alguém circulando pelos corredores durante a noite. Joaquim disse que sentia como se houvesse algo de errado acontecendo, como se o coronel estivesse com medo de alguma coisa ou de alguém.
Em fevereiro, dona Eulália faleceu. A morte foi registrada como resultante de complicações decorrentes de esgotamento nervoso crônico. O Dr. Henrique Souza Tavares assinou o atestado de óbito. O velório foi extremamente discreto, realizado no próprio sobrado, com a presença apenas de familiares muito próximos e pouquíssimos amigos.
O enterro aconteceu no cemitério do Gavião, num jazigo da família, durante a manhã de um dia chuvoso. O coronel Inácio demonstrou pouca emoção durante todo o processo. Cumpriu os rituais exigidos, recebeu as condolências com educação fria, mas não derramou lágrimas, não se mostrou visivelmente abalado. Alguns comentaram que ele parecia aliviado, como se a morte da esposa tivesse removido um peso de seus ombros.
A Irmã Germana deixou o sobrado logo após o funeral. Antes de partir, conversou brevemente com o coronel. Ninguém soube o conteúdo da conversa, mas a enfermeira saiu com uma expressão que Benedita descreveu posteriormente como a de alguém que carregava um segredo pesado demais para ser mantido, porém terrível demais para ser revelado. Com a morte de dona Eulália, o sobrado tornou-se ainda mais silencioso.
O coronel passou a fazer suas refeições sozinho em seu escritório. Raramente subia aos andares superiores, dedicava-se aos negócios durante o dia e trancava-se em seus aposentos durante a noite. Militão continuava suas rondas noturnas. Os outros empregados realizavam suas tarefas em silêncio quase absoluto.
Em março de 1896, chegou ao sobrado uma carta vinda de Belém do Pará. O remetente era o advogado Lúcio Rodrigues Mendes. Damião, que foi buscar a correspondência no correio, entregou-a pessoalmente ao coronel. Pouco depois, o coronel mandou chamar Damião e instruiu-o a preparar-se para uma viagem longa. Partiriam para Belém em poucos dias e ficariam lá por tempo indeterminado.
A notícia surpreendeu todos na casa. O coronel nunca se ausentara por períodos longos. Seus negócios estavam centrados em São Luís e nas propriedades rurais do Maranhão. Uma viagem a Belém não fazia sentido aparente, mas ninguém questionou. Antes de partir, o coronel reuniu os empregados e deu instruções detalhadas.
Joaquim ficaria responsável pela administração geral do sobrado em sua ausência. Sebastiana continuaria com suas funções normais na cozinha. Benedita deveria manter a limpeza das áreas de uso comum, mas os aposentos trancados deveriam permanecer assim. Militão continuaria suas rondas noturnas com redobrada atenção. O coronel e Damião partiram numa manhã de fim de março.
A viagem até Belém naquela época era longa e difícil, envolvendo deslocamento por via marítima e terrestre. Não havia previsão exata de retorno. Durante a ausência do coronel, o sobrado assumiu uma atmosfera ainda mais peculiar. Joaquim tentava manter tudo funcionando, mas era evidente que a casa estava apenas existindo, sem vida real.
As refeições eram preparadas e servidas, mas apenas para três pessoas. A limpeza era feita, mas grandes áreas permaneciam fechadas. O jardim, antes bem cuidado, começava a mostrar sinais de abandono. Sebastiana confidenciou a Benedita que sentia a presença de algo errado naquele lugar. Disse que às vezes durante a noite ouvia sons vindos dos andares superiores, como se alguém estivesse caminhando por lá.
Benedita respondeu que eram apenas os estalos naturais de uma casa antiga, que a madeira expandia e contraía com as mudanças de temperatura. Mas Sebastiana insistia que eram passos, que ouvia claramente o som de alguém andando pelos corredores do terceiro andar. Militão, quando questionado discretamente por Joaquim, disse que também ouvia sons durante suas rondas noturnas.
Confirmou que pareciam vir dos andares superiores, mas sempre que subia para verificar não encontrava nada. As portas continuavam trancadas, os corredores vazios. Militão não demonstrava medo, mas havia em sua voz um tom de inquietação ao falar sobre o assunto. Em maio, algo aconteceu que aumentou o desconforto dos empregados.
Durante a madrugada, Benedita foi acordada por um barulho forte, como se algo pesado tivesse caído no sobrado principal. Levantou-se assustada e olhou pela janela de seu quarto. Viu luz no terceiro andar, especificamente na área que correspondia aos antigos aposentos de Abileta. A mucama vestiu-se rapidamente e dirigiu-se ao sobrado.
Encontrou Militão na entrada, também alertado pelo barulho. Juntos subiram até o terceiro andar. A luz que Benedita tinha visto de longe estava apagada agora. Os corredores estavam escuros. Militão acendeu seu lampião e começaram a verificar as portas. Todas continuavam trancadas.
Foi então que notaram algo estranho. A porta que dava acesso aos aposentos de Abileta, embora trancada, tinha sinais de que alguém tinha tentado forçá-la. Havia arranhões recentes na madeira ao redor da fechadura. O batente parecia ter sido pressionado com força. Militão examinou os sinais com cuidado. Disse que aquilo tinha sido feito recentemente, talvez naquela mesma noite.
Mas, como eles eram apenas três no sobrado, e nenhum deles tinha as chaves daqueles aposentos… As chaves estavam com o coronel, que levara consigo para Belém todas as chaves importantes da casa. Benedita e Militão desceram perturbados. Não sabiam o que fazer. Decidiram aguardar o amanhecer e então informar Joaquim. Quando o dia clareou e os três empregados reuniram-se para discutir o acontecido, chegaram à conclusão de que deveriam enviar uma mensagem ao coronel informando sobre o incidente.
Joaquim escreveu uma carta breve e formal, relatando os fatos sem adicionar interpretações. Enviou a carta para o endereço em Belém que o coronel tinha deixado para correspondências urgentes. A resposta demorou quase três semanas para chegar. Quando finalmente chegou, a carta do coronel era surpreendentemente curta. Dizia apenas que os empregados deveriam manter a calma, continuar com suas tarefas normais e não se preocupar com barulhos ou sinais estranhos na casa.
Reforçava que os aposentos trancados deveriam permanecer assim e que Militão deveria intensificar suas rondas noturnas. Informava também que seu retorno estava previsto para breve, mas não especificava uma data. A resposta do coronel não tranquilizou ninguém; pelo contrário, aumentou a sensação de que havia algo muito errado relacionado àquela casa e àquela família, mas os empregados não tinham alternativa senão obedecer e aguardar.
Os sons noturnos continuaram. Militão relatava que quase todas as noites ouvia passos no terceiro andar. Algumas vezes, também ouvia o que parecia ser o som de móveis sendo arrastados. Numa ocasião, jurou ter ouvido o piano do salão de música tocando uma melodia, embora, quando subiu para verificar, o instrumento estivesse coberto e silencioso, como sempre.
Benedita começou a ter dificuldade para dormir. Dizia que sonhava com Abileta, que via a jovem caminhando pelos corredores do sobrado, vestida com um de seus vestidos brancos, tentando dizer algo, mas sem conseguir emitir som algum. Os sonhos eram tão vívidos que a mucama acordava molhada de suor, com o coração acelerado.
Sebastiana, por sua vez, passou a ter crises de choro repentinas. Dizia que não aguentava mais trabalhar naquela casa, que sentia um peso opressor, que tinha a impressão de que as paredes guardavam segredos terríveis. Joaquim tentava acalmá-la, mas ele próprio estava visivelmente perturbado com a situação. Em junho de 1896, finalmente o coronel retornou de Belém.
Chegou sem avisar previamente numa tarde chuvosa. Damião conduzia a carruagem, mas ambos pareciam exaustos. O coronel entrou no sobrado sem dirigir mais que algumas palavras secas aos empregados. Subiu direto para seus aposentos e lá permaneceu durante dois dias inteiros, tendo suas refeições levadas até o quarto e não recebendo ninguém.
Quando finalmente saiu, o coronel tinha uma aparência ainda mais envelhecida. Seus cabelos, que eram grisalhos, agora estavam quase completamente brancos. Seu rosto mostrava rugas profundas que não existiam antes. Seus olhos tinham uma expressão de cansaço que ia além do físico. O coronel reuniu os empregados e perguntou sobre os acontecimentos durante sua ausência.
Joaquim relatou os sons estranhos, as tentativas de arrombamento da porta, os desconfortos gerais. O coronel ouviu tudo sem demonstrar surpresa. Quando Joaquim terminou, o patrão disse apenas que estava ciente da situação e que tomaria as providências necessárias. Naquela mesma noite, o coronel subiu ao terceiro andar, carregando um lampião, dirigiu-se aos antigos aposentos de Abileta, trancou-se lá dentro e permaneceu por várias horas.
Militão, que fazia sua ronda, relatou que podia ouvir o coronel andando de um lado para outro, movendo objetos, abrindo e fechando gavetas. Em determinado momento, ouviu também o que parecia ser choro, mas não podia ter certeza. Quando o coronel finalmente saiu daqueles aposentos, já era madrugada, trancou a porta cuidadosamente, verificou se estava bem fechada e desceu para seu escritório.
Militão notou que ele carregava consigo uma caixa de madeira de tamanho médio que não levava quando subira. Nos dias seguintes, o coronel retomou sua rotina de trabalho, mas com uma diferença marcante. Passou a passar ainda mais tempo trancado em seu escritório. Recebia pouquíssimas visitas e, quando as recebia, eram sempre reuniões extremamente breves e formais.
Suas saídas do sobrado tornaram-se raras. As viagens ao interior, antes frequentes, cessaram completamente. Em julho, o coronel mandou chamar um pedreiro de confiança. O homem foi instruído a construir um pequeno compartimento secreto numa das paredes do escritório do coronel. O trabalho foi realizado durante um período de três dias, sempre com a porta do escritório fechada.
O pedreiro foi orientado a não comentar sobre o serviço com ninguém e foi generosamente pago por seu trabalho e seu silêncio. Joaquim, que ocasionalmente entrava no escritório para limpeza ou para levar documentos, notou que a parede tinha sido modificada, mas não conseguia identificar exatamente onde estava o compartimento secreto. A habilidade do pedreiro tinha sido excepcional.
Em agosto de 1896, o padre Antônio Vieira Marques adoeceu gravemente. Foi diagnosticado com uma febre que os médicos não conseguiam controlar. Em seu leito de morte, o padre pediu para ver o coronel Inácio. A mensagem foi levada ao sobrado e o coronel dirigiu-se imediatamente à residência paroquial, onde o padre estava sendo cuidado.
A reunião entre os dois homens aconteceu a portas fechadas e durou quase uma hora. Quando o coronel saiu, seu rosto estava pálido. O padre morreu naquela mesma noite. Em seus últimos momentos, segundo relatos da irmã de caridade que o assistia, ele repetia frases sobre segredos que pesavam demais, sobre verdades que não podiam ser reveladas, sobre o preço do silêncio.
O padre Antônio foi enterrado com todas as honras devidas a um vigário respeitado. O coronel compareceu ao funeral, mas manteve-se afastado das outras pessoas. Não se aproximou da família do padre, não conversou com outros membros da comunidade religiosa, permaneceu alguns minutos diante do túmulo e depois retirou-se silenciosamente. Setembro chegou marcando um ano completo do desaparecimento de Abileta.
A data passou sem qualquer menção ou reconhecimento por parte do coronel. Era como se Abileta nunca tivesse existido. Seus aposentos continuavam trancados. Suas roupas, livros e objetos permaneciam guardados, mas ninguém falava sobre ela. Seu nome não era pronunciado. Era como se a família e a própria casa tivessem apagado sua existência.
Mas os empregados não conseguiam esquecer. Benedita ainda sonhava regularmente com a jovem. Sebastiana ainda ouvia passos que não deveriam existir. Militão ainda fazia suas rondas, sentindo uma presença que não conseguia explicar. Joaquim mantinha tudo funcionando, mas com a crescente certeza de que aquela casa guardava um segredo terrível que eventualmente viria à tona.
Em outubro, o coronel recebeu uma visita inesperada. Era uma mulher de aproximadamente 40 anos, vestida de forma simples, mas digna, e identificou-se como Rosa Mendes da Silva, natural de uma pequena vila no interior do Maranhão chamada Rosário. Disse que precisava falar urgentemente com o coronel sobre um assunto de extrema importância relacionado à família Cavalcante.
O coronel recebeu a mulher em seu escritório. A conversa estendeu-se por mais de 2 horas. Joaquim, que estava realizando tarefas próximas ao escritório, relatou que ouviu vozes alteradas em alguns momentos, embora não conseguisse distinguir o que estava sendo dito. Quando Rosa Mendes da Silva saiu do escritório, estava visivelmente perturbada.
Suas mãos tremiam. Seu rosto estava pálido. O coronel acompanhou-a até a porta de saída e despediu-se com palavras que Joaquim conseguiu ouvir: “A senhora entende que isso nunca pode vir à tona. A senhora entende as consequências.” A mulher assentiu em silêncio e partiu rapidamente. Nunca mais voltou ao sobrado, mas sua visita deixou uma marca.
O coronel, após o encontro, permaneceu em seu escritório até altas horas da madrugada. Militão relatou que o viu subir ao terceiro andar novamente, entrar nos aposentos de Abileta e ficar lá por um longo período. Em novembro de 1896, o coronel Inácio Cavalcante de Albuquerque tomou uma decisão surpreendente. Anunciou que venderia o sobrado da Rua Portugal e mudaria-se para uma fazenda que possuía no interior, próxima à cidade de Caxias.
A notícia chocou os empregados, que tinham passado anos, alguns deles décadas trabalhando naquela casa. O processo de venda foi rápido. O comprador era um comerciante português recém-chegado ao Brasil, que desejava estabelecer-se em São Luís e via no sobrado uma oportunidade de demonstrar seu sucesso. As negociações foram concluídas em menos de um mês.
Antes de partir, o coronel deu instruções específicas sobre o que deveria ser levado e o que deveria ficar. A maioria dos móveis e objetos seria vendida junto com a casa. Apenas alguns itens pessoais, documentos e a misteriosa caixa que ele guardava em seu escritório seriam transportados para a fazenda. Quanto aos aposentos de Abileta, o coronel mandou que permanecessem trancados até a última hora.
Na véspera da mudança, ele subiu pessoalmente com Militão. Os dois entraram nos cômodos e passaram várias horas lá. Quando desceram, carregavam diversos volumes: malas, caixas, embrulhos. Tudo foi colocado numa carroça separada, coberto com lonas. Joaquim tentou ajudar, mas o coronel recusou: disse que aquilo era a responsabilidade apenas dele e de Militão.
Os dois carregaram tudo sozinhos, trabalhando até a madrugada. Na manhã seguinte, o coronel partiu. Levou consigo apenas Damião e Militão. Os outros empregados foram dispensados com indenizações generosas e cartas de recomendação. Benedita recebeu um valor suficiente para viver confortavelmente por vários anos.
Sebastiana e Joaquim também foram bem compensados. Antes de partir, o coronel chamou Joaquim para uma conversa final, entregou-lhe um envelope lacrado e disse: “Isto só deve ser aberto se algo acontecer comigo. Se eu morrer ou desaparecer, o senhor deve levar este envelope ao cartório da cidade e registrá-lo, mas apenas nessas circunstâncias. O senhor entende?”
Joaquim assentiu, embora não compreendesse completamente, e guardou o envelope cuidadosamente. O coronel partiu sem olhar para trás. A carruagem seguiu pela Rua Portugal, virou na esquina e desapareceu. O sobrado ficou vazio, aguardando seus novos proprietários. O comerciante português e sua família mudaram-se para o sobrado em dezembro de 1896.
Trouxeram móveis novos, decoração moderna, energia nova para aquela casa que passara mais de um ano mergulhada em silêncio e mistério. Os novos donos não sabiam nada sobre o que acontecera ali. O coronel não revelara detalhes sobre a família, apenas dissera que estava se mudando para o interior por questões de saúde.
Durante os primeiros meses, tudo pareceu normal na nova rotina do sobrado, mas gradualmente começaram a acontecer coisas estranhas. A família ouvia passos no terceiro andar durante a noite. Portas que tinham sido trancadas apareciam abertas pela manhã. O piano no salão de música, que tinha sido mantido pelos novos donos, às vezes produzia sons mesmo sem ninguém tocando.
A esposa do comerciante, dona Beatriz, começou a ter sonhos perturbadores. Via uma jovem de vestido branco caminhando pelos corredores, tentando dizer algo. Os filhos do casal, dois meninos pequenos, diziam ver uma moça triste nos quartos do terceiro andar. O comerciante português, homem pragmático e cético, inicialmente descartou tudo como imaginação, mas quando ele próprio começou a presenciar fenômenos inexplicáveis — objetos mudando de lugar, sons de choro vindos de cômodos vazios, a sensação constante de ser observado —, decidiu investigar. Procurou antigos vizinhos do sobrado tentando descobrir informações sobre os antigos proprietários. As pessoas eram evasivas: diziam apenas que a família Cavalcante era muito reservada, que tinham sofrido tragédias, que era melhor não mexer em assuntos do passado. Foi então que o comerciante encontrou Benedita.
A mucama ainda vivia em São Luís e aceitou conversar com ele. Numa tarde de março de 1897, Benedita foi ao sobrado. Ao entrar, começou a chorar. Disse que sentia a presença de Abileta, que a jovem ainda estava ali de alguma forma. Pressionada, Benedita revelou o que sabia: o desaparecimento súbito de Abileta, o silêncio imposto pelo coronel, a recusa em acionar as autoridades, os sons estranhos que sempre ouviram, os aposentos trancados, a partida abrupta da família. Mas quando o comerciante perguntou o que ela achava que tinha acontecido de verdade, Benedita negou-se a responder: disse apenas que havia coisas que não deviam ser reveladas, que o coronel tinha seus motivos para manter o silêncio.
Insatisfeito, o comerciante português decidiu tomar uma atitude mais drástica: contratou um carpinteiro para abrir os antigos aposentos de Abileta, que tinham permanecido trancados e que os novos proprietários não tinham conseguido acessar, pois o coronel levara todas as chaves. O carpinteiro forçou a fechadura numa manhã de abril.
Quando as portas finalmente se abriram, o que encontraram era, ao mesmo tempo, decepcionante e perturbador. Os cômodos estavam vazios, completamente vazios. Não havia móveis, roupas, livros, nada. As paredes nuas, o assoalho limpo, as janelas sem cortinas; mas havia algo estranho nas paredes: marcas, arranhões profundos, como se alguém tivesse tentado escavar a própria parede com as unhas.
E no assoalho de madeira, próximo à janela, havia manchas escuras que pareciam ser muito antigas. O comerciante mandou examinar as manchas. O resultado foi inconclusivo, mas sugeria que poderia ser sangue, há muito tempo exposto. Assustado com as descobertas, o comerciante português decidiu abandonar o sobrado, colocou a propriedade à venda novamente e mudou-se com a família para outra residência.
A notícia espalhou-se rapidamente. O sobrado da Rua Portugal ganhou reputação de mal-assombrado. Ninguém queria comprá-lo. Ficou vazio durante meses. Os vizinhos relatavam ver luzes nos andares superiores durante a noite, embora não houvesse ninguém na casa. Ouviam-se sons de piano, passos, choros.
A propriedade começou a deteriorar-se. Foi nesse período que Joaquim tomou uma decisão. O coronel Inácio tinha falecido em sua fazenda em Caxias em maio de 1897, segundo notícia que chegou a São Luís. Com a morte do antigo patrão, Joaquim considerou que estava liberado da promessa. Abriu o envelope que o coronel lhe entregara.
Dentro havia um documento manuscrito com várias páginas. Era uma confissão. A letra era do próprio coronel. O texto era datado de novembro de 1896, poucos dias antes de ele deixar São Luís. Joaquim leu o documento com crescente horror. Quando terminou, suas mãos tremiam: compreendeu finalmente o que tinha acontecido. A verdade era muito pior do que qualquer especulação que pudesse ter feito.
Mas Joaquim também entendeu por que o coronel mantivera tudo em segredo. As implicações sociais, legais e morais eram devastadoras. Se aquilo viesse a público, destruiria completamente não apenas a memória do coronel e de sua família, mas afetaria várias outras famílias proeminentes de São Luís. Joaquim tomou então uma decisão que pesaria sobre ele pelo resto de sua vida:
queimou o documento. Não o levou ao cartório, não o mostrou a ninguém, simplesmente queimou, transformando aquelas páginas em cinzas que dispersou ao vento. Anos depois, em conversa com Benedita, Joaquim revelou que tinha lido a confissão, mas recusou-se a compartilhar os detalhes: disse apenas que o coronel tinha feito algo terrível para proteger a honra da família, que Abileta tinha pagado o preço por algo que não era inteiramente sua culpa e que todos os envolvidos carregariam aquele peso nas consciências até o fim de suas vidas. Benedita não insistiu. Talvez não quisesse saber, talvez já soubesse, no fundo, o suficiente. Ambos morreram, levando aquele segredo, se é que realmente o conheciam completamente. O sobrado da Rua Portugal eventualmente foi vendido novamente após anos vazio. O novo proprietário era um empresário que não acreditava em histórias de assombração e que conseguiu comprar a propriedade por um preço muito abaixo do valor de mercado.
Fez reformas extensas, mudou a decoração completamente, tentou apagar qualquer traço dos antigos habitantes, mas os fenômenos nunca cessaram completamente. Até hoje, segundo moradores da região, há relatos ocasionais de sons estranhos vindos daquele sobrado: passos no terceiro andar, o som distante de um piano, uma figura de vestido branco vista através das janelas durante a madrugada.
Em 1923, um pesquisador interessado em história local tentou investigar o caso da família Cavalcante. Procurou registros, documentos, depoimentos. Encontrou muito pouco. Os registros oficiais sobre Abileta eram escassos: uma certidão de nascimento, registros de batismo e nada mais.
Não havia certidão de óbito, não havia registro de casamento; era como se ela simplesmente tivesse deixado de existir. Em 1895, o pesquisador tentou localizar Damião, o ex-cocheiro, pensando que ele pudesse ter informações valiosas, já que acompanhara o coronel até o fim. Descobriu que Damião tinha morrido em 1918 na fazenda em Caxias:
não deixara família, não deixara nenhum registro escrito. Militão, o vigia, também tinha falecido em circunstâncias estranhas. Fora encontrado morto numa estrada no interior do Maranhão em 1898, aparentemente vítima de um assalto, mas não havia sido roubado. Seu corpo apresentava sinais de ter sido espancado com extrema violência, muito além do necessário para um simples roubo.
O pesquisador conversou com pessoas idosas que ainda lembravam da família Cavalcante. Todas eram evasivas: diziam que era uma família importante, mas reservada, que tinham acontecido tragédias, que era melhor deixar o passado em paz. Ninguém queria entrar em detalhes. A única informação concreta que o pesquisador conseguiu foi através de um antigo funcionário do cartório de São Luís.
O homem, já muito idoso, lembrava-se vagamente de que em 1896 tinha havido movimentações estranhas envolvendo propriedades da família Cavalcante: transferências de terras, alterações em testamentos, mas os documentos específicos tinham desaparecido, possivelmente destruídos num incêndio que atingira parte do arquivo do cartório em 1905.
O pesquisador publicou um pequeno artigo sobre o caso em 1924 numa revista de história regional. O texto era cauteloso, baseado mais em especulações do que em fatos concretos. Sugeria que Abileta poderia ter fugido, que poderia ter sido enviada para um convento, que poderia ter adoecido e morrido em segredo, mas reconhecia que a verdade provavelmente nunca seria conhecida.
Em 1931, surgiu um boato curioso. Uma mulher idosa, que vivia num vilarejo próximo a Rosário, no interior do Maranhão, contou uma história a um padre local: disse que em 1895, quando era ainda criança, sua mãe tinha acolhido temporariamente uma jovem que chegara de forma misteriosa à vila. A jovem estava doente, assustada e não falava sobre seu passado.
A jovem teria permanecido na casa por algumas semanas, sempre trancada num quarto, sendo cuidada pela mãe da narradora. Então, numa noite, homens tinham chegado. A jovem fora levada embora. A mãe da narradora recebera uma quantia significativa em dinheiro e orientações rígidas para nunca comentar sobre o acontecido. A narradora disse que sua mãe, antes de morrer, confessara que aquela jovem era de uma família importante de São Luís, que estava grávida, que tinha sido escondida ali para evitar escândalo, e que quando os homens vieram buscá-la, a mãe da narradora soubera, pelo olhar da jovem, que ela jamais voltaria para casa. O padre registrou a história, mas não lhe deu muita importância. Parecia ser apenas mais um boato, uma das muitas histórias que circulavam sobre famílias antigas e seus segredos. O registro permaneceu arquivado nos livros paroquiais de Rosário e foi esquecido.
Em 1942, durante reformas no sobrado da Rua Portugal, trabalhadores fizeram uma descoberta perturbadora. Ao escavarem o porão para reforçar as fundações, encontraram ossos humanos. Foram imediatamente acionadas as autoridades. A análise forense, dentro das limitações da época, indicou que eram ossos de uma pessoa jovem, provavelmente do sexo feminino.
Haviam sido enterrados havia muitas décadas. Não havia como determinar a causa da morte, não havia documentação que permitisse identificação. As autoridades tentaram investigar, mas décadas tinham-se passado. Todos os envolvidos com a família Cavalcante original estavam mortos. Os registros eram escassos e muitos tinham se perdido.
O caso foi arquivado como impossível de resolver. Os ossos foram enterrados no cemitério do Gavião, numa área reservada para pessoas não identificadas. Uma simples cruz de madeira marcava o local sem nome, sem datas. Mas entre os trabalhadores que participaram da escavação circulou um detalhe que nunca chegou aos relatórios oficiais.
Junto com os ossos tinham encontrado fragmentos de tecido fino, que poderia ter sido de um vestido branco, e um pequeno objeto metálico, que poderia ter sido parte de um medalhão ou de uma joia. Um dos trabalhadores guardou esse objeto. Anos depois, mostrou-o a um antiquário tentando vendê-lo. O antiquário examinou e identificou como parte de um broche de ouro, típico do final do século XIX, de fabricação francesa.
Era uma peça de qualidade que teria pertencido a alguém de posses. O antiquário comprou o objeto por um valor modesto. Décadas depois, a peça acabou sendo adquirida por um colecionador particular de São Luís. Esse colecionador, interessado na procedência das peças que adquiria, tentou rastrear a origem do broche. Descobriu a história do trabalhador, soube da escavação no sobrado da Rua Portugal, fez conexões com os rumores antigos sobre a família Cavalcante.
Começou então a investigar por conta própria: visitou arquivos, conversou com descendentes das famílias antigas da cidade, tentou localizar qualquer documento que restasse. Foi assim que, em 1964, encontrou algo extraordinário. No arquivo da Cúria Diocesana de São Luís, entre documentos antigos que estavam sendo catalogados, o colecionador encontrou o diário do padre Antônio Vieira Marques.
O padre tinha mantido anotações pessoais durante anos e em 1895 e 96 tinha registrado suas impressões sobre um caso que o perturbara profundamente. O padre não mencionava nomes explicitamente, mas falava de uma família proeminente, de uma jovem que tinha desaparecido, de um segredo terrível que tinha sido revelado a ele sob confissão.
Escrevia sobre o peso de manter aquele segredo, sobre o conflito entre o dever do sigilo confessional e a necessidade de justiça. Numa entrada datada de agosto de 1896, poucos dias antes de morrer, o padre escrevera: “Não posso revelar o que me foi dito. Não posso quebrar o sagrado sacramento da confissão, mas carrego um peso que está me matando.
Uma alma inocente sofreu e o silêncio que deveria proteger tornou-se cúmplice de algo terrível. Peço a Deus que me perdoe por não ter encontrado um caminho para fazer justiça sem quebrar meus votos.” O colecionador ficou fascinado. Tentou publicar suas descobertas, mas enfrentou resistência. Descendentes das antigas famílias de São Luís não queriam que histórias antigas fossem reexaminadas.
Havia ameaças legais, pressão social. O colecionador recuou em 1968. Pouco antes de morrer, o colecionador doou toda a sua coleção, incluindo o broche e cópias dos documentos que encontrara, para o Museu Histórico do Maranhão. Os itens foram catalogados e guardados nos arquivos do museu, onde permanecem até hoje, acessíveis apenas a pesquisadores com autorização específica.
Paralelamente a essa linha de investigação, outra descoberta aconteceu em 1966. Um historiador que pesquisava registros de testamentos e inventários do século XIX encontrou documentos relacionados ao coronel Inácio Cavalcante de Albuquerque. No testamento do coronel, redigido pouco antes de sua morte, havia uma cláusula enigmática.
O documento estabelecia que uma quantia significativa em dinheiro deveria ser entregue anualmente e de forma perpétua a uma instituição religiosa em Rosário. O dinheiro deveria ser usado especificamente para missas em memória de uma alma que partiu sem os confortos devidos. O historiador tentou rastrear essa doação.
Descobriu que os pagamentos tinham sido feitos religiosamente durante décadas, administrados por um escritório de advocacia em São Luís. Os pagamentos só cessaram em 1950, quando o fundo estabelecido pelo coronel finalmente se esgotou. Ninguém sabia, ou pelo menos ninguém revelava, pela alma de quem aquelas missas eram oferecidas. Os registros da instituição religiosa em Rosário mencionavam apenas uma intenção particular da família Cavalcante.
O historiador publicou um artigo sobre essa descoberta em 1967, levantando questões sobre qual seria a conexão entre a família Cavalcante de São Luís e aquela pequena vila no interior, mas não conseguiu respostas definitivas. Em 1969 aconteceu algo que poderia ter lançado luz definitiva sobre o mistério, mas que acabou gerando ainda mais perguntas.
Durante demolições de construções antigas no centro histórico de São Luís, trabalhadores encontraram na parede de um prédio próximo ao antigo sobrado dos Cavalcante uma pequena caixa de metal que tinha sido emparedada décadas antes. Dentro da caixa havia cartas: eram correspondências trocadas entre Abileta Cavalcante e alguém identificado apenas pelas iniciais MS.
As cartas eram de 1894 e início de 1895. O conteúdo era perturbador: Abileta escrevia sobre sentimentos que não podia revelar, sobre um amor impossível, sobre o medo das consequências. As respostas de MS eram ainda mais explícitas, falando sobre planos de fuga, sobre a necessidade de manterem seus encontros em segredo, sobre o sonho de uma vida juntos longe de São Luís.
As últimas cartas, datadas de maio de 1895, tinham um tom de desespero. Abileta escrevia que tinha descoberto algo que mudava tudo, que não sabia o que fazer, que tinha medo. MS respondia, dizendo que encontrariam uma solução e que nada os separaria. Depois disso, não havia mais cartas. As autoridades tentaram identificar quem era MS. Especialistas analisaram a caligrafia e tentaram encontrar pistas nas referências contidas nas cartas.
Houve especulações de que poderia ser Miguel Souza, um jovem professor de literatura que tinha dado aulas particulares a Abileta em 1893 e 94, ou poderia ser Martim Santos, filho de comerciantes que moravam próximo ao sobrado dos Cavalcante. Mas ambos tinham deixado São Luís em 1895. Miguel Souza tinha se mudado para o Rio de Janeiro e de lá para Portugal, onde teria morrido em 1912.
Martim Santos tinha ido para Belém do Pará e seu rastro se perdera completamente após 1896. Não havia como confirmar se algum deles era o autor das cartas. E, mesmo que fosse, o que aquilo provava? Que Abileta tinha um envolvimento romântico secreto. Isso explicaria o desaparecimento, mas não esclareceria todos os outros elementos misteriosos do caso.
O silêncio absoluto da família, a recusa em acionar autoridades, os ossos encontrados no porão, as viagens do coronel, o depoimento enigmático do padre moribundo. As cartas foram catalogadas e guardadas nos arquivos do Estado. Geraram alguma discussão acadêmica, mas nenhuma conclusão definitiva.
Hoje, quando a brisa do Atlântico sopra sobre as ladeiras de pedras de cantaria do centro histórico de São Luís, a figura de Abileta de Albuquerque Cavalcante sobrevive na imaginação popular como a lendária “Moça de Branco da Rua Portugal”. Mais do que uma simples lenda urbana de arrepiar, a sua memória tornou-se o símbolo silencioso de tantas outras mulheres que tiveram suas vidas, amores e vozes apagados pelo orgulho e pelo peso implacável do patriarcado colonial. E assim, enquanto o antigo sobrado de azulejos resiste à passagem dos séculos, aqueles que caminham à noite pelas ruas desertas juram que a verdade nunca morre por completo: ela continua a sussurrar nas sombras do passado. Dizem que, após a descoberta de suas cartas, a aparição de vestido branco que assombrava os corredores deu um último e sereno suspiro antes de desaparecer para sempre na neblina da madrugada, tendo finalmente encontrado a paz e a liberdade que a vida terrena lhe negou.