A ATRIZ E APRESENTADORA QUE FOI ESQUECIDA PELO BRASIL | Caso Leila Cravo
que confirmaria sua ascensão. Aos 21 anos de idade, ela foi convidada para apresentar quadros no Fantástico, o programa dominical mais importante da TV brasileira. O Fantástico foi lançado em 1973 e era a vitrine da Globo, o programa que misturava jornalismo, entretenimento, variedades e que toda a família brasileira assistia, reunida, no domingo. Estar ali era o sonho de qualquer jovem artista, e Leila estava lá.
Nessa época, a família toda sentia muito orgulho dela. Seu pai guardava fotos que recebia de amigos, com Leila nas capas de revistas. Sua mãe também se alegrava, mas a maior fã de Leila era, sem dúvida, sua avó Alice. Entre 1974 e 1975, Leila estava no auge. Além do Fantástico e de Corrida do Ouro, ela continuava atuando no cinema. Ela fez Brutos Inocentes, Relatório de um Homem Casado, O Monstro Caraíba, e seu rosto estampava as capas das revistas mais importantes do país, como a Manchete, Fatos e Fotos, O Cruzeiro.
E Leila era figurinha carimbada nas festas mais badaladas do Rio. Nos bastidores da TV Globo, nos círculos de elite cultural e artística carioca, ela tinha acesso aos lugares mais exclusivos, conhecia as pessoas mais influentes e era convidada para os eventos mais importantes. Aos 21 anos, ela estava vivendo um sonho que poucas pessoas da sua geração conseguiam alcançar. Apesar dessa vida glamourosa, de conseguir estar nesses lugares, conhecer gente muito importante, conseguir trabalhar e ter papéis maiores, o trabalho no Fantástico e tudo mais não era tanto glamour assim.
Em entrevista posterior, Leila contaria que se sentia muito frustrada na época, porque queria ser reconhecida pelo seu talento, pela capacidade de atuar, pela sua inteligência, mas sentia que as pessoas só valorizavam a sua beleza e sensualidade. Ela sempre recebia convites para atuar em filmes onde precisava estar nua, onde o corpo dela era sempre mais importante que a sua atuação, e isso a incomodava profundamente.
A Leila trabalhou com Os Trapalhões e ficou muito próxima do Dedé, que se tornou um grande amigo dela, e ele sempre falava o quanto ela era inteligente. Ele reconhecia que ela era muito culta e talentosa, diferente daquela imagem que a mídia fazia de uma mulher apenas muito bonita e sensual. Pouco se sabe sobre como era a vida da Leila nessa época fora das câmeras, se ela teve relacionamentos, sobre a sua rotina, o que ela fazia fora das telas. Mas o que se sabe é que, em 1975, ela estava namorando Artur Braga, um homem rico e casado, que era bem mais velho que ela — tinha a idade do pai dela — e morava em São Paulo.
Antes de eu falar sobre o caso em si, sobre o que aconteceu com a Leila, a gente precisa entender que momento o Brasil estava vivendo. A época era 1975 e o país vivia sob um regime militar desde 1964, quando um golpe derrubou o presidente João Goulart. Em 1975, o general Ernesto Geisel estava havia pouco mais de um ano na presidência da República. Ele havia assumido em março de 1974, prometendo uma abertura política “lenta, gradual e segura”. Mas a realidade nas ruas, nos quartéis e, principalmente, nos porões da ditadura era bem diferente.
Em outubro daquele ano, apenas um mês antes do caso acontecer, um dos episódios mais brutais do regime militar ocorreu: o assassinato do jornalista Vladimir Herzog. Ele era diretor de jornalismo da TV Cultura de São Paulo e foi convocado para prestar esclarecimentos no Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), um órgão de repressão do regime. Ele entrou vivo no prédio no dia 25 de outubro e nunca mais saiu. Ele foi torturado até a morte. A versão oficial do governo militar foi que ele havia tirado a própria vida, enforcando-se com o próprio cinto em sua cela.
Mas a foto divulgada pela imprensa mostrava uma cena impossível: um homem enforcado com os joelhos dobrados tocando o chão, em uma posição que tornava aquilo fisicamente inviável. Todo mundo sabia que era mentira, mas o poder estava com os militares e não havia nada que a sociedade civil pudesse fazer. Em novembro de 1975, quando Leila foi encontrada na Avenida Niemeyer, o aparelho repressivo do regime militar ainda operava com total liberdade e impunidade.
Esse era o nosso país em novembro de 1975. Um país onde a imprensa era censurada e controlada. Um país onde pessoas desapareciam, onde opositores eram presos, torturados, mortos. Um país onde as mulheres, especialmente mulheres públicas, como atrizes, eram vistas como objetos disponíveis; onde o machismo se misturava ao autoritarismo militar, criando uma cultura de violência contra a mulher que era naturalizada e aceita.
É nesse contexto que os motéis ocupavam um espaço paradoxal. A partir de 1968, houve um verdadeiro boom de motéis no Brasil, financiados pela própria ditadura militar. O governo oferecia isenções fiscais e empréstimos facilitados para o setor moteleiro, sob o pretexto de desenvolver a infraestrutura turística e hoteleira no país. A ideia inicial era criar estabelecimentos nos moldes dos motéis americanos de beira de estrada, mas empresários brasileiros, de olho no mercado do sexo, burlaram essa classificação e criaram estabelecimentos com arquitetura e decoração peculiares: camas redondas, espelhos, decoração sensual. O governo fez vista grossa e continuou investindo, mesmo sabendo do que se tratava.
Os motéis se espalharam pelas cidades brasileiras sem nenhuma fiscalização real. Para as mulheres, especialmente as de classe média alta, os motéis se apresentavam como algo contraditório. Viviam o auge do discurso da “moral e dos bons costumes”, que resultava em censura. Não era permitido falar publicamente sobre sexo. A sociedade ainda as julgava duramente. E aí esse espaço de libertação era também um espaço de vulnerabilidade extrema.
Nos motéis, não se pedia documento de identidade à mulher, apenas ao homem. Eles faziam isso para não constrangê-la. As mulheres entravam anônimas, sem registro e sem proteção. Se algo acontecesse com elas ali dentro, quem saberia? Quem iria testemunhar? Quem as defenderia? Um desses motéis era o VIP’s, localizado na Avenida Niemeyer, entre os bairros nobres do Leblon e São Conrado. Era um dos mais luxuosos e famosos do Rio de Janeiro. Era muito mais que um motel comum. Era um estabelecimento de alto padrão, sofisticado, discreto, frequentado pela elite carioca.
O VIP’s fazia parte da rede King’s Motel, que pertencia ao militar Ciro Porto Carreiro. O dono específico do VIP’s era Inácio de Loyola, um empresário que tinha muitos empreendimentos no Rio. Ter uma suíte no VIP’s, especialmente a suíte presidencial, era sinal de status. Era lá que figuras poderosas podiam fazer o que quisessem, longe dos olhares públicos e protegidos pela discrição que o estabelecimento garantia. O Brasil daquela época era um país onde denunciar crimes de homens poderosos não era apenas difícil, era impossível.
Então, agora indo para o caso: entre os dias 8 e 10 de novembro de 1975, Leila viajou para São Paulo. Lá, ela participou de um quadro do Silvio Santos chamado Quem sabe mais, o homem ou a mulher. Ela venceu a competição e levou para casa o troféu. Além desse compromisso de trabalho, essa viagem também era para encontrar o namorado dela que eu citei para vocês, o Artur, que era casado e vivia em São Paulo. A Leila estava completamente apaixonada por ele, e há muito tempo ele dizia para ela, prometia na verdade, que largaria a atual esposa para ficar com ela, e ela acreditava na promessa.

Depois da gravação, Leila foi com Artur para Ilhabela, no litoral paulista. Uma amiga dela, chamada Zélia Zamir, que também era atriz, os acompanhou na viagem. Porém, aquele encontro entre Leila e Artur acabou mal, porque, mais uma vez, ele não tinha cumprido a promessa, que era a de largar a esposa. Então, Leila saiu daquele fim de semana completamente decepcionada e disposta a colocar um fim naquele relacionamento. Eles ficaram em Ilhabela até o meio-dia de segunda-feira, dia 11 de novembro.
Eles voltaram para São Paulo, e Leila pegou um avião para o Rio de Janeiro. Ela chegou no Rio por volta das 9 da noite. Ao chegar, Leila convidou sua amiga Zélia para sair com ela, mas a amiga recusou e foi para casa. Depois disso, Leila seguiu para o encontro que mudaria sua vida para sempre. Ela saiu de casa por volta das 10 horas da noite. Ela morava no bairro da Urca, que é um bairro privilegiado, muito tranquilo, da zona sul do Rio, conhecido pelas ruas arborizadas e, claro, pela vista privilegiada do Pão de Açúcar. Leila vestia uma blusa listrada, um jeans justo e botas azuis.
Naquela noite, ela encontrou o seu amigo Marco Aurélio Sampaio Moreira Leite, e eles foram a um restaurante, segundo uma entrevista que ela deu em 2018. Ela não o via há muito tempo e estava muito triste pelo término com Artur. Então, ele a convidou para um date e ela aceitou, meio que para se vingar de Artur. Eles foram para o bar Antonio’s, que era um dos mais badalados da zona sul do Rio, um ponto de encontro da elite de artistas, empresários e gente bem-sucedida.
A Leila estava muito triste naquele dia por ter sido enganada mais uma vez pelo Artur. Ela estava com aquele sentimento ainda muito recente, que tinha acabado de acontecer. Em determinado momento, Marco Aurélio falou que ia ao banheiro e, quando ele voltou, ela resolveu ir ao banheiro também. No momento em que ela saiu, ela viu o Marco Aurélio conversando com um ministro do governo e com mais um homem.
Quando ele voltou para a mesa, ele sugeriu que eles fossem para um local mais reservado. Ele falou que queria conversar com ela e que percebia que ela estava abatida. Então, ele teria a convidado, segundo essa mesma entrevista que ela deu em 2018, para ir a um motel, para a sauna, para a piscina, porque isso a deixaria mais relaxada. E ela aceitou. Ele já tinha convidado Leila para sair, para encontros, muitas vezes, e ela sempre negava.
Como ela o conhecia já há um bom tempo e confiava nele, ele a levou para o motel VIP’s, que eu citei para vocês na Avenida Niemeyer, que era um local discreto. Os clientes não eram facilmente vistos entrando ou saindo do motel. O que a Leila não sabia, não fazia a menor ideia nesse dia, é que o Marco Aurélio tinha combinado de encontrar outras pessoas no motel. Dois dias antes, no domingo, ela tinha aparecido apresentando o Fantástico, como sempre. As pessoas tinham a assistido na TV. Ela tinha 21 anos, estava no auge da sua carreira e absolutamente ninguém podia imaginar o que aconteceria naquele dia.
Primeiro, eu vou contar para vocês a versão da polícia. A Leila foi para o motel na segunda-feira, como eu falei para vocês. Então, na madrugada de segunda para terça-feira, por volta das 5:40 da manhã, uma madrugada fria e nublada, um taxista que morava na Rocinha estava passando pela Avenida Niemeyer. Foi aí que ele avistou algo que o fez parar o carro. Imediatamente ele viu um corpo nu e ensanguentado rolando pela rua na frente do motel VIP’s. O taxista era Genival Pereira Fernandes.
Ele disse que estava a 70 por hora. Então ele freou o carro bruscamente e saiu para ver o que era. Ele checou o pulso da jovem e percebeu que ela ainda estava viva. Ele conta que começou a gritar para os funcionários do motel, porque ele tinha encontrado o corpo ali na calçada, na frente do estabelecimento. E aí ele pediu para que eles trouxessem um lençol para cobrir a mulher, que estava nua, e os funcionários não fizeram nada. Ele conta que a mulher ficou ali na calçada, nua, ensanguentada e agonizando por cerca de 20 minutos, até que a ambulância chegasse.
Porém, havia contradições desde o início, porque os garçons do VIP’s disseram que viram um homem negro. Eles disseram que esse foi o homem que encontrou o corpo, mas o Genivaldo era branco. E logo depois dele, chegou um segundo taxista, e esse sim era negro. Seu nome era Expedito Isidoro. E esse taxista afirmou que ele, na verdade, foi o primeiro a encontrar o corpo da Leila. As duas versões não batiam. Afinal, quem tinha encontrado o corpo primeiro? As testemunhas já estavam se contradizendo logo no início de tudo.
A ambulância do Hospital Miguel Couto chegou ao local por volta das 6:10 da manhã. Leila foi levada para o hospital e chegou lá às 6:20. Ela não foi identificada imediatamente e a sua identidade foi mantida em segredo nas primeiras horas. Mas era a Leila, uma jovem de 21 anos, que estava toda machucada; ela tinha lesões por todo o corpo, estava gravemente ferida e tinha sido jogada, ou tinha caído, da suíte presidencial do motel, que tinha mais ou menos 18 metros de altura, o que seria o quinto andar do motel. E as lesões da Leila eram horríveis.
Ela teve politraumatismo craniano, múltiplas fraturas nos ossos do rosto, mais de 30 minifraturas causadas por coronhadas de revólver, lesão na coluna, perda total de consciência e ferimentos por todo o corpo. Ela foi imediatamente internada na UTI. Os médicos disseram que ela não sobreviveria, ou que, se sobrevivesse, ficaria deitada numa cama pelo resto da vida com sequelas gravíssimas. Ela ficou três dias entre a vida e a morte antes de entrar em coma profundo, o que duraria 11 dias.
Marco Aurélio Sampaio Moreira Leite foi até a delegacia prestar depoimento espontaneamente. Ele só foi identificado como o acompanhante de Leila porque havia deixado um cheque para pagar a conta do motel. Se não fosse pelo cheque, a polícia talvez nem falasse com ele. A sua versão era simples e foi imediatamente aceita pela polícia. Ele e a Leila haviam ido ao motel depois do Antonio’s. Ficaram juntos no quarto. Leila parecia triste e cansada depois da volta de São Paulo.
Então ele a convidou para usarem a sauna do quarto, achando que isso a relaxaria. De madrugada, Marco Aurélio disse que estava cansado e pretendia ir embora. Leila, segundo ele, estava sem sono e quis ficar para descansar um pouco mais. Ele, então, pagou a conta e foi embora, deixando-a sozinha no quarto. Horas depois, soube que ela havia caído da varanda. Toda a equipe do VIP’s confirmou exatamente o que Marco Aurélio contou em depoimento.
Cada funcionário repetia a mesma história com pequenas variações, mas sempre corroborando a versão de que Marco Aurélio havia saído e deixado Leila sozinha. O porteiro do motel contou que ligou para a suíte depois que Marco Aurélio saiu para saber se estava tudo bem, já que Leila tinha ficado sozinha e, aparentemente, ela disse que estava tudo certo. O garçom Bonifácio Magalhães foi quem levou uma garrafa de vinho para Leila, às 3 da manhã, depois que Marco Aurélio já tinha saído.
Segundo o garçom, Leila atendeu à porta enrolada em uma toalha e pediu que ele levasse embora as louças sujas que estavam no quarto, e ele obedeceu. Esse garçom, o Bonifácio, tinha uma história interessante. Ele trabalhava havia 3 anos como garçom no VIP’s, mas em alguns depoimentos ele se apresentava como detetive particular ou segurança do motel. Depois voltava a afirmar que era garçom. As contradições em seu depoimento nunca foram adequadamente investigadas. Anos depois, a lei revelaria que Bonifácio ganhou uma casa para morar com sua família e sumir.
Ele foi recompensado pelo seu silêncio. Já outro garçom do VIP’s, chamado Raimundo Rodrigues Bezerra, disse que levou cigarros para Leila. A marca do cigarro era Minister. O problema é que Leila fumava Hilton. No quarto, o maço de cigarros foi encontrado intacto. Por que ela pediria cigarros de outra marca se ela tinha os dela? Raimundo disse que foi o último a vê-la viva. Ele afirmou que nem reparou se ela estava bêbada ou nua. Ele também disse que a louça estava toda no quarto. Mas como, se Bonifácio já tinha tirado as louças?
Raimundo também disse que nem sabia que era Leila Cravo naquele quarto e que, no momento em que ela caiu ou foi jogada, ele estava servindo um cafezinho e levando a conta para outro hóspede. Raimundo sumiu das investigações logo depois. Foi, segundo relatos, afastado do palco dos acontecimentos. Havia 13 funcionários trabalhando no motel naquela noite. 13 pessoas que poderiam ter visto ou ouvido algo, mas todos os depoimentos convergiam para a mesma narrativa: Leila estava sozinha, Marco Aurélio já tinha saído, e ela havia se jogado.
O gerente do motel era Jorge Leal. Curiosamente, Jorge viajou para a Europa poucos dias depois da tragédia, foi embora do país e nunca mais deu explicações sobre aquela noite. O delegado Edgar Façanha, do 15º Distrito Policial, ficou responsável pelo inquérito. A investigação foi rápida, e a narrativa que a imprensa construiu foi devastadora. Leila, a atriz de pornochanchadas, a mulher que se exibia, amante de um homem casado, emocionalmente instável, teria se jogado da varanda do motel em um ato de desespero após ser deixada por seu outro amante.
Manchetes sensacionalistas inundaram os jornais. O caso virou escândalo nacional e Leila, que estava inconsciente em um leito de hospital lutando pela vida, não podia se defender, não podia contar a sua versão, não podia dizer o que realmente tinha acontecido naquele motel. O delegado Façanha conduziu o inquérito e rapidamente concluiu por fortes indícios de suicídio. Uma das hipóteses levantadas por ele foi que a atriz, bastante alcoolizada, havia deixado a suíte sem ser vista, descido até um jardim que separava a construção de um gradil que contornava todo o prédio e de lá se jogado.
O caso para a polícia estava encerrado. Leila havia tentado tirar a própria vida. Ponto final. Já Marco Aurélio foi rapidamente descartado como suspeito. Afinal, ele era influente, rico, de família poderosa e havia se apresentado espontaneamente. Sua versão batia com a de todos os funcionários do motel. E, além disso, por que um homem como ele, com tudo a perder, se arriscaria a agredir uma celebridade dentro de um motel? A polícia não via lógica nisso. E essa foi a versão da polícia.
A Leila estava em coma; como eu falei para vocês, ela ficou 11 dias em coma. Até que no dia 23 de novembro, o dia do seu aniversário, em que ela estava completando 22 anos, ela acordou. Durante o coma, Leila teve uma experiência de quase morte, quando viu o próprio corpo deitado na cama do hospital, completamente deformado. Os pais dela pediram para que tirassem todos os espelhos para que ela não pudesse se ver, para não ver como o seu rosto estava. Ela estava irreconhecível.
Logo que acordou do coma, mal conseguia falar porque estava gravemente ferida. E aí ela contou para a polícia tudo o que lembrava. Ela contou para a polícia tudo que lembrava daquela noite, até o momento em que desmaiou. Mas, mesmo assim, as capas das revistas, das Manchetes, continuavam dizendo que a atriz tinha tentado tirar a própria vida. As pessoas só liam o que a imprensa, o que as revistas publicavam, e o que realmente tinha acontecido com a Leila ficava escondido.
Então, agora eu vou contar para vocês o que realmente aconteceu naquela noite, segundo a versão da Leila, a versão que ela contou para a polícia em 1975 e que confirmou décadas depois. Segundo a Leila, ela foi para o VIP’s com Marco Aurélio, e eles estavam na suíte presidencial e ela decidiu entrar na piscina. Foi aí que percebeu que havia mais dois homens no quarto. Ela não sabia que haveria outras pessoas além de Marco Aurélio e, para ela, ele tinha armado tudo.
Um dos homens era ministro do governo Geisel, uma figura pública conhecida pelo Brasil inteiro, um homem poderoso que Leila nunca revelou o nome por medo. Então, além dele, também havia o segurança dele. Quando ela viu que além de Marco Aurélio havia mais esses dois homens, ela saiu da piscina imediatamente. Ela perguntou o que estava acontecendo, disse que iria embora e que não queria ficar ali. Foi quando ela ouviu do ministro uma frase que jamais esqueceria: “Cala a boca, fica quieta, não adianta gritar que ninguém vai ouvir. E se ouvir, ninguém vai te socorrer, porque o poder aqui sou eu.”
Ali ela começou a lutar, tentou se afastar, tentou resistir, mas eram três homens contra ela. Eles começaram a violentá-la e não houve “abuso”; foi violência pura. Ela afirmou na entrevista de 2018 que, segundo o exame de corpo de delito que a polícia forense realizou, ela foi violentada com uma barra de ferro. A última coisa de que ela lembra é de levar uma coronhada na cabeça com o revólver. O impacto causou múltiplas fraturas em seu rosto. Como eu disse para vocês, eram 30 minifraturas.
Houve um espancamento brutal e, depois disso, ela perdeu a consciência. Inconsciente, ainda viva, ela foi levada ao local em que o taxista a encontrou. Marco Aurélio não saiu do motel como disse à polícia. Ele ficou e participou. Ele, que se dizia amigo de Leila, uma pessoa em quem ela podia confiar, tinha planejado tudo. A Leila acredita que ele estava com raiva dela após tantas recusas. Ela acha que ele planejou aquilo como uma forma de vingança, como uma forma de mostrar que tinha poder sobre ela e que podia fazer o que quisesse.
Sobre a questão física da queda, Leila falou na mesma entrevista de 2018 que, se ela tivesse se jogado da varanda ou se tivesse sido jogada, teria caído no mar. O corpo dela tinha mais de 50 kg e um corpo projetado para a frente não volta para trás no caminho. E ela fala que foi colocada propositalmente naquela calçada porque eles queriam que parecesse que ela tinha tirado a própria vida, porque não achavam que ela ia sobreviver. Contrariando até os médicos, que também achavam que ela não ia sobreviver, mesmo com o corpo extremamente machucado, ela sobreviveu.
Havia muitas inconsistências gritantes na cena do crime que foram completamente ignoradas durante a investigação policial. E, além disso, também havia testemunhas que entravam em contradição, provas que desapareciam e peritos que omitiam informações cruciais nos laudos. O relógio da Leila foi encontrado naquele quarto. Ele estava quebrado, danificado, e os ponteiros estavam parados às 4:40 da manhã, uma hora antes da suposta queda. Então, como alguém que decidiu se jogar da varanda teria o relógio lá dentro quebrado?
A Leila usava um anel sempre, nunca tirava, e esse anel desapareceu. Esse anel nunca foi encontrado. Um talão de cheques e 1000 cruzeiros também desapareceram, e ninguém conseguia explicar o que tinha acontecido com essas coisas. Os depoimentos das testemunhas se contradiziam e eu acho que, mais do que tudo, havia a questão física do corpo da Leila, que foi encontrado na calçada em frente ao motel VIP’s. A suíte presidencial ficava do outro lado. Então, aqui ficava a entrada do motel e a suíte, aqui. A vista da suíte era para o mar.
Se ela realmente tivesse sido jogada ou tivesse se jogado da varanda da suíte presidencial, ela teria que ter caído no mar ou ali nas proximidades, e não do outro lado. Não fazia sentido. Ela foi encontrada na calçada da Avenida Niemeyer e não tinha como ela ter ido para lá. Houve dois peritos responsáveis pelo caso: Frascari e Santiago. Décadas depois, quando o caso foi revisitado por jornalistas investigativos, eles descobriram que os peritos tinham omitido muitas informações cruciais nos laudos.
Mas por que eles tinham feito isso? Alguém os tinha obrigado a fazer isso? Eles foram pressionados? Houve alguma interferência externa? Por que isso aconteceu? Essas perguntas nunca tiveram respostas. O inquérito foi encerrado e o caso seria arquivado. Enquanto a imprensa ainda construía essa narrativa de que a Leila tinha tentado tirar a própria vida e a polícia encaminhava o fechamento do caso, uma voz se ergueu em defesa da Leila. E não foi a voz dela, foi a voz da sua irmã, Rosa.
No dia 21 de dezembro de 1975, mais de um mês após a tragédia, o jornal Última Hora estampou em sua capa uma manchete: “Irmã de Leila acusa garçons do VIP’s”. Embaixo, dizia: “A Rosa tem memória melhor que a da irmã”. A Rosa deu uma entrevista para o jornal cheia de revelações. Foi ela quem falou publicamente, pela primeira vez, sobre o amor da Leila pelo Artur Braga. E ela também foi bem enfática, dizendo que a culpa era dos garçons. Ela disse, entre aspas: “O sumiço do anel, do talão de cheques e dos mil cruzeiros complica a situação dos garçons”.
Além disso, ela também fez uma acusação, dizendo que os garçons tinham o costume de assistir os clientes tendo relações. Essa acusação era gravíssima. O Ciro Porto Carreiro, o militar dono da rede King’s Motel, a qual o VIP’s pertencia, reagiu imediatamente, dizendo que as acusações da Rosa eram levianas e mentirosas. Ele disse que todos os funcionários do VIP’s foram escolhidos a dedo por Inácio de Loyola, o dono do VIP’s, e que eram pessoas de confiança.
Ele ainda afirmou que queria a verdade esclarecida e que vinha perdendo dinheiro desde que a tragédia tinha acontecido, porque o caso tinha manchado a reputação do motel. Apesar de essa entrevista da Rosa ter sido considerada bombástica na época, ela não mudou o rumo da investigação. A polícia já tinha decidido que a explicação do caso era suicídio. Então, a carreira da Leila, que estava no auge, em ascensão, tinha sido destruída. O nome dela agora estava associado a um escândalo, uma tentativa de tirar a própria vida, instabilidade emocional.
A sociedade já tinha julgado e condenado a Leila antes mesmo que ela pudesse dizer uma palavra em sua defesa. Fisicamente, as sequelas da Leila eram permanentes e graves. Como eu disse para vocês, ela teve múltiplas fraturas no rosto e, mesmo depois de cirurgias reconstrutivas, aquilo deixou marcas nela para sempre. O olho esquerdo ficou menor que o direito, deformado pelo trauma causado pela coronhada do revólver. Ela perdeu 95% da visão desse olho. Ela perdeu o paladar, perdeu o olfato, tinha dores constantes na coluna e precisou de meses de fisioterapia e tratamento.
Ela ficou internada por quase um mês e, quando teve alta naquele ano, que foi em dezembro, ela saiu carregando não apenas todos aqueles traumas e as sequelas físicas que foram deixadas nela, mas também um estigma, um julgamento, o olhar de desprezo da sociedade, que a via agora como a atriz que tentou se matar no motel. A Leila deu uma entrevista logo após o acidente, que foi para o jornal Última Hora, e ela foi categórica. Ela disse: “Eu não faria isso. Não sei o que aconteceu, mas sei que não voltarei àquele motel”.
Mas essa entrevista dela, que foi publicada, foi engolida pelas demais publicações que estavam sendo feitas sobre o caso com a narrativa que a mídia já tinha construído. Então, as pessoas acreditavam naquilo que elas já tinham visto milhares de vezes nas capas, e não no que a Leila tinha dito. Quando a Leila finalmente se sentiu recuperada o suficiente, quando se sentiu emocionalmente mais estável para poder dar a entrevista onde poderia contar tudo, contar sua versão do que aconteceu, ela rapidamente percebeu uma verdade brutal: ninguém ia acreditar nela.
Não naquele Brasil da década de 70 e não contra um advogado influente da época; e especialmente não contra um ministro do governo Geisel. Como uma jovem atriz de 22 anos, sozinha, com a reputação completamente manchada e toda a sua imagem destruída pela mídia, iria contra essas pessoas? Como ela poderia denunciar o crime que tinha acontecido com ela no meio de tudo isso? Ela sabia que não seria ouvida, então decidiu se calar. Mas esse silêncio não foi uma escolha, foi por sobrevivência.
A Leila e seus pais foram ameaçados de morte diversas vezes. Isso aconteceu por mais de um ano. Telefonemas anônimos, recados, avisos claros de que se ela tentasse denunciar as pessoas ou contar o que aconteceu, ela e sua família pagariam o preço. Três meses após o acidente, em fevereiro de 1976, a Leila já estava recuperada fisicamente o suficiente para tentar retomar a sua carreira, que estava em ascensão. Ela estava no auge quando tudo aconteceu.
Apesar da sequela no olho e de todas as fraturas e das cirurgias, o seu rosto estava surpreendentemente recomposto. Ela conseguiu um papel no espetáculo teatral Alta Rotatividade. Em 1976 e 1977, ela conseguiu atuar em mais três filmes: Tem Alguém na Minha Cama, Quem É o Pai da Criança?, e Empregada Para Todo Serviço. Em 1977, ela queria tentar reconquistar aquele espaço que tinha perdido. Então, ela posa para a Playboy. Fazer uma capa da Playboy na época era conquistar o auge, a consagração de símbolo sexual.
E ela esperava que, fazendo isso, conseguisse voltar ao topo onde estava antes. Em 1978, ela conseguiu fazer duas novelas: Te Contei? e Sinal de Alerta. Então parecia que ela estava conseguindo ganhar o espaço de volta. Mas aí os convites foram parando de chegar. Telefonemas que ela fazia, as pessoas não retornavam. Diretores que antes a queriam muito em suas produções agora não a procuravam mais. E aí, na entrevista de 2018, ela disse que muitas pessoas ficaram ricas e ganharam muito dinheiro com o caso dela, enquanto ela ficou impedida de trabalhar, marcada por aquele rótulo de mulher bêbada, drogada, que saía com homens casados, que tinha tentado tirar a própria vida.
Então, a TV, que antes a recebia de braços abertos, agora só a rejeitava, e ela parou de receber convites. Quando ela conseguia algum convite para fazer teatro, eram papéis muito pequenos, sem relevância alguma para a carreira dela. E ela tinha só 24 anos, mas sentia que profissionalmente ela estava morta. Ela processou o motel, foi a única coisa, o único lugar que ela conseguiu processar na época. Em 2018, ela revelou que ganhou esse processo.
O pai dela era escrivão e ele tinha conhecimento de como o sistema funcionava. Então isso ajudou, mas ela conta que a indenização não curou o trauma, não apagou a dor, não devolveu a sua carreira. As últimas produções de que ela participou foram em 1978, mas no ano anterior, em 1977, ela engravidou. O pai da criança era um homem chamado Maurício, que era o namorado dela na época, mas pouco se sabe sobre esse relacionamento, sobre o Maurício ou as circunstâncias da gravidez.
Mas a sua filha, Tatiana, nasceu no dia 11 de novembro de 1977, exatamente na data em que tudo aquilo aconteceu. Dois anos depois daquela noite fatídica no VIP’s, a sua filha nasce no mesmo dia daquela tragédia. Em março de 1978, a Leila foi ouvida pela polícia pela segunda vez, e ela manteve a sua versão — a mesma que ela contou desde o início, dizendo que não tentou tirar a própria vida.
Finalmente, a Justiça entendeu que ela não tinha tentado tirar a própria vida naquele dia, mas a mudança de classificação foi sutil, quase imperceptível. O caso não foi classificado como feminicídio ou tentativa de homicídio, e sim como “crime de natureza sexual grave”. Dessa forma, ele foi transferido para a vara criminal comum. A imprensa não noticiou absolutamente nada sobre isso. Alguns poucos jornais fizeram pequenas notas, mas quase ninguém noticiou e nem quis noticiar que Leila não tinha tentado tirar a própria vida e que, como foi dito durante dois anos, ela tinha sido vítima de um crime.
Em dezembro de 1978, o inquérito foi arquivado por falta de provas. Ninguém nunca foi denunciado pelo crime. Treze funcionários trabalhavam naquela noite. Testemunhas deram declarações falsas, mas ninguém foi responsabilizado. Marco Aurélio seguiu sua vida, sua carreira, sua família. O ministro continuou no poder. O segurança do ministro, quem quer que fosse, permaneceu livre, e Leila ficou sozinha com suas cicatrizes.
Após o arquivamento do caso, ela se afundou ainda mais. Ela contaria na entrevista de 2018 que queria muito voltar a trabalhar, que sofreu muito ao longo dos anos, ficou muito doente e que, quando estava no fundo do poço, percebeu que precisava parar e procurar a volta ao trabalho. Tinha filha, pai e mãe para cuidar. Ela precisava sobreviver de outras formas.
Em 1979, ela lançou o livro Passagem Secreta, publicado pela editora Rocco. Era um livro pequeno, com apenas 105 páginas, mas carregava um peso enorme. Nele, Leila tocou pela primeira vez publicamente no assunto daquela noite de novembro, mas tocou de forma metafórica, cifrada, protegida. Ela não podia dizer a verdade completa. O ministro ainda estava vivo, ainda tinha poder. Marco Aurélio ainda era um homem influente. Ela tinha medo. As ameaças de morte haviam acontecido por mais de um ano. Ela sabia do que aqueles homens eram capazes.
Então ela definiu o estilo do livro como “prosa lírica”. Nele, ela citava a madrugada do dia 12 de novembro com metáforas. Entre aspas: “escurece devagar com a vela que vai chegando ao fim e não clareia”. Ao ex-amigo, referindo-se a Marco Aurélio, ela chamava de “O Rei Trêmulo e Covarde”. Entre aspas: “Existem páginas de revolta indomável, outras de amor infinito, ódio. De algumas pinga sangue, de outras, pétalas”. Ela se referia ao milagre no livro, o milagre de ter sobrevivido àquela noite.
Escrevia sobre trauma, sobrevivência, sobre tentar reconstruir uma vida despedaçada, mas os nomes dos agressores, os detalhes do que realmente aconteceu, tudo isso permanecia oculto, protegido pelo silêncio que ela era obrigada a manter. O livro também tinha homenagens a sua filha, Tatiana, palavras de amor e esperança, mas a sua filha não sabia do livro, nunca soube das homenagens que a mãe fez a ela através das palavras.
A família mantinha tudo em segredo. A Leila não queria que a filha soubesse do seu passado. Ela era muito elogiada como escritora, tinha uma escrita lírica, sensível, inteligente. Aqueles que leram o livro reconheciam nele uma profundidade que ia muito além da imagem de símbolo sexual que a mídia insistia em colar nela. Porém, poucos leram, e Leila continuou, como sempre, sendo reduzida apenas à sua aparência, à sua tragédia e ao escândalo do motel. O livro não teve grande repercussão. A imprensa, que antes se interessava por cada movimento da Leila, agora a ignorava.
Falando sobre o Maurício, pai da Tatiana, ele nunca foi presente na vida da filha. Ele e a Leila terminaram o relacionamento logo depois que Tatiana nasceu. E Leila, destroçada por dentro, carregava um trauma que não podia ser curado, porque não podia ser falado, não podia ser processado. Ela não conseguia ser mãe. A Tatiana foi criada pelos avós, Adalto e Leni, os pais da Leila. Os avós tinham inclusive a guarda legal da neta.
A menina crescia vendo a mãe de longe, sem entender por que ela não estava presente, sem saber o que havia acontecido que tinha transformado Leila naquela sombra de pessoa. Tatiana cresceu ouvindo sussurros, versões distorcidas. A família nunca contou para ela o que realmente tinha acontecido com a sua mãe. A avó rasgou todas as revistas e jornais que falavam sobre o caso. Não queria que Tatiana encontrasse aquele material. Não queria que a neta soubesse sobre o passado da mãe. Era tudo um segredo dentro de casa.
Mesmo nascendo e vivendo na Urca, no mesmo bairro, Tatiana nunca ficou sabendo do passado da mãe durante a infância e a adolescência. A Leila posou com Tatiana em duas ocasiões diferentes para a revista Amiga. Primeiro em 1978, quando a menina tinha um ano, e depois quando ela tinha três. Eram fotos bonitas de mãe e filha sorrindo, mas aquelas fotos escondiam uma realidade muito mais dolorosa.
Tatiana sentia falta da mãe, não entendia por que Leila sempre estava ausente, sempre distante, sempre triste. A Leila entrou em um ciclo vicioso de álcool e drogas que consumiria décadas de sua vida. Ela se transformava quando estava bêbada e drogada. Tinha um comportamento autodestrutivo. Era uma pessoa quando estava sóbria: muito culta, inteligente, sensível. Poucos conheceram essa Leila. Quando bebia, ficava muito agressiva e perdeu ainda mais trabalhos por conta disso.
A Tatiana lembra de Leila acordando tarde, sempre de ressaca. Depois, ficava jogando paciência em seu quarto e, quando chegava a noite, colocava maquiagem, ia para festas, voltava bêbada, brigando, se autodestruindo o tempo todo. Ficava agressiva com os pais. Ela — é a voz da Tatiana — falava muitos palavrões, vomitava e então o ciclo recomeçava. Tatiana tinha muito medo da Leila, se cobria com o edredom como se aquilo a protegesse. Não entendia o que estava acontecendo, e isso acabou causando muitos problemas emocionais na menina.
Hoje a Tatiana entende que tudo o que aconteceu com a Leila — as drogas, o álcool, a agressividade — era reflexo do que houve no dia da tragédia. Era o trauma não curado, a dor não processada e a justiça não reparada. Só que, na época, ela não sabia nada disso. Então, ao invés de compaixão, ela sentia medo e raiva. E aí, então, a família Cravo começou a ser destruída aos poucos, em uma sucessão de tragédias que pareciam não ter fim.
Em 1978, apenas um ano após o nascimento da Tatiana, Kiko, irmão da Leila, tirou a própria vida. Ele tinha apenas 18 anos. Ele era homossexual e, segundo amigos da família, sofria com a repressão dos pais, que não aceitavam sua orientação sexual. Ele tirou a vida com a arma do próprio pai. Em 1983, cinco anos depois, foi a vez de Rosa também tirar a própria vida. Rosa ingeriu veneno para rato.
Mais uma vez, Leila teve que carregar o peso de uma perda familiar, mais um luto, mais uma dor que se somava a todas as outras que ela já carregava. Os seus dois irmãos tinham tirado a própria vida. E Leila, a única filha que tinha sobrevivido e que tinha sido acusada pela imprensa e pela sociedade, continuava carregando um peso que parecia maior que suas forças. Em 1983, outro evento marcou a queda da Leila.
Ela foi presa em Copacabana depois de utilizar cocaína em um restaurante. Ela foi absolvida no processo, mas quando se viu em um noticiário novamente, envolvida em outra polêmica, afundou-se ainda mais. Estar nas manchetes de novo, mesmo que por algo diferente, trouxe de volta todos os fantasmas de 1975, e a Leila não aguentava mais. Com todas as portas se fechando para Leila no Rio de Janeiro, com a família despedaçada, com o peso da culpa e uma dor se tornando insuportável, a Leila acabou aceitando uma oferta de emprego no Paraná.
A princípio, seria para apresentar um programa infantil em uma afiliada da TV Bandeirantes em Cascavel, mas depois ela acabou ficando só por trás das câmeras mesmo, trabalhando na produção. Cascavel era na época, e ainda é, uma cidade que não é tão pequena, mas que fica longe dos holofotes, longe da mídia, longe das festas cariocas e longe de tudo que havia definido a vida da Leila nos anos 70. Era um exílio voluntário. Uma tentativa de recomeçar a vida.
Ela morou lá por três anos nebulosos. Então, não se sabe exatamente como esses três anos foram para a Leila e para sua filha Tatiana. Foi uma fuga para tentar se reconectar consigo mesma, para tentar escapar daquele ciclo autodestrutivo em que ela estava no Rio. Só que aí, depois desses três anos, ela volta para o Rio, volta a morar na Urca e ficou ainda mais distante da filha.
Ela desenvolveu também um TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo) muito grave, em que ela limpava tudo o tempo todo: a casa, as roupas, as mãos. Ela não conseguia passar amor, transmitir o que sentia. Parecia, realmente, que ela vivia presa em seu próprio trauma. Alguns anos depois de voltar para o Rio, ela conhece o Pietro, com quem se relacionou por 20 anos. Ela parou o uso de álcool e drogas enquanto estava com ele. Isso foi positivo; porém, ela viveu um relacionamento super tóxico com ele.
Eles se mudaram para Curitiba e viveram 12 anos lá, distantes da família, longe de todo mundo. O Pietro não deixava Leila socializar com ninguém. Ele controlava com quem ela falava, onde ela ia, o que ela fazia. E ela sempre obedecia. Parecia que a obediência era um reflexo de sobrevivência para ela. Depois de Curitiba, eles voltam para a Urca e moram, inclusive, no mesmo prédio que a Tatiana. Mas ainda assim distantes, o Pietro continuava controlando a Leila. Então ela não via ninguém, não socializava, não construía laços; ela vivia reclusa.
Em 2003, a Tatiana deu à luz sua filha, Ana Júlia, neta da Leila, que foi fruto de um relacionamento da Tatiana com um homem casado. Ela resolveu seguir com a gravidez, e o pai da criança nunca mais a procurou. Quando ela contou para a mãe sobre a gravidez, a Leila nem deu bola. Porém, o nascimento da Ana Júlia foi, pouco a pouco, uma virada de chave na vida da Leila. A Leila quis se aproximar da neta de uma forma que ela nunca conseguiu com a Tatiana.
Para Ana Júlia, a avó ainda era uma pessoa triste. A Ana Júlia nunca viu a avó com energia, clamando por vida ou com um olhar de amor ou paixão pela vida. Ela sempre estava apagada. Mas a relação da Leila com a neta era diferente da relação dela com a filha. Então, depois de um tempo, ela decidiu contar o que tinha acontecido com ela. E, anos depois, ela relata para Ana Júlia tudo que ela tinha passado, tudo que tinha acontecido.
E a neta deixou muito claro ali para ela que ela era vítima e não culpada. As pessoas tinham colocado tanta coisa na cabeça da Leila que, quando ela contava o que tinha acontecido com ela, minimizava, se encolhia, se culpava; ela não contava com a proporção que deveria contar. Ana Júlia acolheu a avó e a incentivou a contar o que realmente tinha acontecido de uma forma em que ela realmente contasse tudo, sem julgamento, sem uma visão machista, com compaixão.
Então, Ana Júlia foi quem implantou essa semente na avó de que talvez fosse a hora dela falar, depois de tantos anos em silêncio. Então, em 2014, Leila conversa com dois jornalistas investigativos: Murilo Fiúza de Melo e Cissa Guimarães. Eles eram os autores do livro Os Motéis e o Poder, uma investigação profunda sobre a relação entre os motéis, a ditadura militar e os crimes que aconteciam nesses ambientes de “liberdade”, que eram, ao mesmo tempo, espaços de vulnerabilidade extrema para as mulheres.
Nessa entrevista, pela primeira vez em 40 anos, Leila contou o que realmente tinha acontecido em detalhes. Falou sobre a ida ao Antonio’s, sobre como estava triste pelo término com o Artur. Falou que Marco Aurélio chamou-a para ir para um lugar mais reservado como amigo, e que, dessa forma, ela confiava nele. Então ela contou tudo e afirmou que ela foi “socialmente assassinada”.
Ela falou várias vezes durante essa entrevista que o Marco Aurélio sempre foi só um amigo e que até hoje ela não entendia por que aquilo aconteceu com ela, por que ele fez isso com ela. Essas perguntas ainda a atormentavam quatro décadas depois. Mas mesmo depois de todos esses anos, em 2014, ela ainda tinha medo de dar o nome do ministro. Aquela frase: “O poder aqui sou eu” ainda ecoava na cabeça dela, nessa entrevista.
Ela também falou uma frase muito forte, extremamente importante para a narrativa, porque parecia que ela estava finalmente entendendo que o que aconteceu com ela não era só sobre ela. Ela disse: “Ninguém ter feito nada sobre o que aconteceu comigo está custando ao Brasil um estupro a cada 10 minutos”. A Leila estava conectando a sua história pessoal à epidemia de violência sexual contra as mulheres no país.
Estava entendendo que a impunidade dos homens que a agrediram era parte de um sistema muito maior de impunidade; que cada vez que um agressor não era punido, a mensagem enviada para outros agressores era clara: “Vocês podem fazer o que quiserem porque nada vai acontecer”. Em 2018, ela contrariou o Pietro pela primeira vez em anos. Ele não queria que ela desse entrevistas, não queria que ela mexesse na história, que ela se expusesse dessa forma, mas ela decidiu que era a hora.
Aceitou participar do programa Domingo Show, da Record, e chamou sua filha para assistir à gravação com ela. Avisou que Tatiana iria escutar coisas sobre um segredo que ela nunca tinha contado para a filha, e, pela primeira vez, Tatiana iria saber a verdade completa. Na entrevista que foi ao ar em fevereiro de 2018, aos 64 anos, Leila contou a mesma história que havia contado em 2014 para os jornalistas, só que agora em rede nacional, para milhões de brasileiros.
Ela disse que queria muito voltar a trabalhar, que sofreu muito ao longo dos anos, que ficou muito doente, mas, quando estava no fundo do poço, percebeu que precisava parar e procurar a volta ao trabalho. Então ela terminou dizendo: “Eu tenho medo do ser humano”. Em 2018, o ministro não estava mais vivo, mas ainda assim Leila optou por não dizer o seu nome. Marco Aurélio também já tinha morrido há muito tempo.
O segurança do ministro, ela disse que não sabia, mas deveria estar livre e vivo, porque ele era mais novo. Ela terminou sua fala na entrevista com uma frase devastadora. Ela disse, entre aspas: “Eu costumo dizer que o meu corpo conseguiu sobreviver, mas a minha alma não”. E a Tatiana, que assistia a tudo pela primeira vez, pôde compreender. No final da gravação, mãe, filha e neta deram um abraço.
Tatiana disse que nunca soube disso e que, se soubesse, teria sido diferente; que ela teria compaixão em vez de raiva. Foi uma reconciliação tardia, mas real. Depois de 43 anos de silêncio, dor, distância, a verdade finalmente havia sido dita. Depois dessa entrevista na TV, amigos antigos de Leila começaram a reaparecer. Pessoas que haviam sumido depois do que aconteceu, que haviam virado as costas quando ela mais precisava, agora voltavam.
Leila estava feliz por reencontrar amigos, por poder sorrir novamente, mas ela ainda estava apagada. Mesmo com a verdade finalmente revelada, mesmo com a reconciliação com a filha, o brilho nos olhos da Leila nunca mais voltou completamente. Dois anos após finalmente contar a verdade, dois anos após se reconciliar com a filha, a Leila morreu. Ela estava com dores abdominais intensas, tinha pneumonia e infecção generalizada.
Ela morreu no dia 5 de agosto de 2020, aos 66 anos, de complicações decorrentes de obstrução intestinal e infecção generalizada. Quando ela faleceu, não saiu nenhuma nota em nenhum lugar. Nenhum grande veículo noticiou. A mulher que havia estampado dezenas de capas de revista nos anos 70, que havia apresentado o Fantástico, que havia sido comparada às maiores musas do cinema brasileiro, morreu e quase ninguém soube. Foi a Sion, que é uma amiga, que postou sobre a morte da Leila no Facebook.
Só então os jornalistas começaram a procurar informações. A imprensa só noticiou dois meses depois. Quase ninguém sabia que ela tinha morrido. A Tatiana ficou com vontade de ter feito mais, de ter feito a mãe ser feliz novamente, de ter tido mais tempo juntas depois da reconciliação. Antes de falecer em 2020, a Leila havia autorizado a produção de um podcast sobre seu caso. Ela queria que sua história fosse finalmente contada de forma completa, com investigação séria e com respeito à verdade.
Queria que sua voz fosse finalmente ouvida, queria justiça, mesmo já sabendo que os agressores tinham morrido, mesmo sabendo que nunca haveria punição. A produção do podcast começou com a Leila ainda viva. Ela conversou com os produtores, autorizou o uso da sua história, participou das primeiras etapas do projeto, mas faleceu antes de ver o resultado final. O Daniel Peck e sua equipe examinaram cada evidência encontrada no quarto de motel, cada detalhe dos depoimentos de 1975, cada contradição ignorada pela investigação policial.
Revelaram provas que sempre estiveram ali, mas foram ignoradas. A equipe tentou contato com todos os nomes que aparecem na história. A maioria não quis dar entrevista. O silêncio continua protegendo os culpados, mesmo décadas depois. A maior parte das pessoas que se lembra do acontecimento conhece apenas a versão de que a atriz tentou tirar a própria vida, sem saber que essa versão era negada pela própria Leila. Em 2021, durante a produção do podcast, Tatiana e a equipe de jornalismo foram ao Tribunal de Justiça pedir acesso ao inquérito completo do caso.
Eles queriam entender o que realmente aconteceu naquela investigação de 1975 e 1978, mas não foram atendidos. O juiz negou o pedido duas vezes. Até hoje, o conteúdo completo do inquérito é um ponto de interrogação. O que está escondido naqueles documentos? Por que, mesmo quase 50 anos depois, mesmo com quase todos os envolvidos mortos, o caso continua sendo mantido em segredo?
É muito doido tudo isso, eles não darem acesso nem para os jornalistas, porque há muitas perguntas sobre esse caso sem resposta. Quais as verdadeiras razões para o taxista Genival ter mentido ou mudado a sua versão? Por que os peritos omitiram informações cruciais nos laudos? Por que o garçom Raimundo foi afastado? Por que Bonifácio mudou sua versão tantas vezes? Uma hora era garçom, outra hora ele era segurança, depois era detetive, aí ele ganhou uma casa e sumiu.
Por que Jorge, o gerente, simplesmente se mudou para a Europa? Todas essas perguntas permanecem sem respostas até que alguém consiga acesso a esses inquéritos para poder ler tudo que foi escrito sobre o caso durante a investigação. Fora todas as outras coisas sobre o caso que ainda me deixam muito curiosa. Eu queria saber todos os detalhes e a gente não sabe quem era o ministro. Mesmo depois de morto, ela não quis dizer o nome dele; por quê?
Mesmo depois do que aconteceu com a Leila, os motéis continuaram operando e as coisas continuaram acontecendo, e a mensagem que tudo isso passava era: “Isso aconteceu com essa mulher, mas vocês podem fazer o que quiserem, porque não vai acontecer nada com vocês.” Fora que os anos se passaram, as coisas mudaram, mas, assim, a gente ainda vive em uma sociedade onde o feminicídio ainda é uma questão extremamente importante que acontece todos os dias.
E vocês sabem, pelos casos que eu conto aqui, e muitas pessoas não conhecem o caso da Leila, justamente por todo esse silêncio, esse mistério em volta do que realmente aconteceu, e obviamente porque não dá para ter acesso aos laudos e porque as pessoas não falam sobre. Ela foi realmente esquecida pela imprensa depois de eles terem lucrado horrores colocando ela na capa durante a época em que o caso aconteceu, e depois ela simplesmente foi esquecida.
E para mim, acho que o mais doido é porque não é uma coisa complexa para a época de se entender. Uma coisa que para mim é simples. A varanda ficava de um lado, ela foi encontrada do outro, e mesmo assim ninguém questionava nada; nem a própria imprensa, nenhum veículo, pressionou a polícia para que investigassem direito, para que tentassem encontrar outras respostas para concluir esse caso. Então, óbvio que o momento em que esse caso aconteceu, na ditadura militar, é uma questão muito importante.
Por isso que eu citei assim, com ênfase, porque o contexto da época é muito importante nesse caso para a gente tentar entender por que todas essas coisas aconteceram. Era um momento em que as pessoas simplesmente não questionavam as coisas, todo mundo ficava em silêncio, tinha muito medo. Mas eu realmente quero, eu ia falar “queria”, mas eu quero, que essas respostas sejam encontradas em algum momento, algum dia; que alguém consiga chegar nessas respostas para todas essas perguntas que ainda cercam esse caso.
Quero muito saber o que vocês acharam, se vocês já conheciam o caso da Leila Cravo. O podcast que eu usei para fazer este conteúdo é da Globoplay, vale muito a pena. Então, indico muito que vocês ouçam. Nesse momento também estão falando muito sobre o caso Ângela Diniz, que eu já contei para vocês aqui na página. Vou deixar aqui em cima, porque saiu uma série, inclusive muito boa, sobre esse caso, e a forma como esse caso foi tratado é completamente diferente da forma como trataram o caso da Leila.
A jornalista Cissa Guedes tenta explicar por que eles foram tratados de maneira tão diferente pela mídia e pelas pessoas, que realmente abraçaram o caso da Ângela. Depois daquilo, para quem não sabe do caso, ela foi morta pelo namorado dela na época, que era o Doca. Ele foi a julgamento, pegou só 2 anos e, depois de 3 anos, ele teve uma nova condenação de 15 anos. Isso só aconteceu por conta de um grande movimento das mulheres.
Então, por que isso não aconteceu com a Leila? Então, a Cissa tenta explicar por que as pessoas não apoiaram Leila da mesma forma que apoiaram a Ângela Diniz. Então, ela fala que a Ângela, apesar de ser uma mulher que queria viver livre, estava reconstruindo a sua vida. Enquanto a Leila era “a doidinha do motel”, a mulher bêbada, drogada, que tentou se jogar da varanda.
O local onde o caso aconteceu importou muito na época, porque o caso aconteceu em um motel. Isso foi imperdoável. Mesmo que ela tenha sido a vítima, era imperdoável para uma mulher estar no motel. Enquanto, no caso Angela Diniz, ela foi morta em uma casa de praia, então um lugar “mais respeitável”. Enfim, essa questão do local onde cada caso aconteceu importou muito na época. Então acho que é legal citar isso para vocês.

A história da Angela Diniz eu já contei. O caso dela vai estar aqui em cima. E depois de quase 50 anos desde que aconteceu o caso da Leila, o Brasil segue matando mulheres. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública de 2023, o Brasil registrou um feminicídio a cada 6 horas. Foram 1463 mulheres mortas apenas por serem mulheres. A cada hora no Brasil, 18 mulheres são vítimas de violência física. E, assim como a Leila, muitas dessas mulheres têm as suas histórias distorcidas.
A gente não vive mais sob a ditadura militar, mas ainda assim a gente tem esses números extremamente assustadores. Se o caso da Leila não tivesse acontecido na década de 70, mas sim neste ano, será que ela seria vista de outra forma? Será que a investigação aconteceria de outra forma? Será que ela seria ouvida ou seria desacreditada e silenciada? A verdade incomoda muito nesse caso, porque a gente vive um momento em que muita coisa permanece igual.
Até hoje, muitas vítimas preferem o silêncio, preferem omitir, preferem se esconder, porque viram o que aconteceu com a Leila e o que aconteceu com milhares de outras mulheres. Por isso que para mim esse caso era muito importante trazer aqui para a página e para que vocês conhecessem e falassem mais sobre ele, porque não tem como. Já se passou muito tempo e ainda assim é um caso pouco conhecido.
Então, por isso que eu resolvi trazer para vocês. Quero muito saber a opinião de vocês sobre tudo isso. Então, me conta aqui nos comentários. Se você gostou desta história, clique no botão “Curtir” e siga a página. Obrigado por ler a história completa.