3 Anos de Caçada: Os Crimes de Gilmar Reolon que Aterrorizaram o Paraná

Então eles trouxeram uma retroescavadeira para revirar os escombros e vasculharam até um poço que ficava no porão da casa destruída pelo fogo. Nada. Nem corpo carbonizado e nem Gilmar vivo. Os quatro corpos foram recolhidos ao Instituto Médico Legal de Francisco Beltrão. A Polícia Científica examinou o local e a Polícia Civil abriu, então, um inquérito, uma investigação.

Nos dias seguintes, os detalhes que foram surgindo só aprofundaram o mistério. Primeiro, a cena não parecia uma fuga. Segundo o jornalista Niomar Pereira, que cobriu o caso desde o primeiro dia, o carro de Gilmar, um Celta, estava guardado na garagem da casa. O cachorro estava preso e ele não tinha levado nem os documentos. Ou seja, se aquele homem saiu vivo dali, saiu provavelmente a pé, só com a roupa do corpo.

E, numa região daquelas, não entrava na cabeça de ninguém que ele pudesse ter ido muito longe, nem que existisse alguém disposto a ajudar um homem depois de uma tragédia daquelas. Nesse sentido, dá para entender que já havia ali algumas desconfianças. Por quê? Bom, segura aí e vai acompanhando. O segundo detalhe, nesse primeiro momento, foi que chegou aos investigadores a informação de que Gilmar enfrentava sérios problemas financeiros na época. E havia ainda uma terceira peça mais antiga e mais sombria, que talvez tenha dado ensejo a essa percepção de que ninguém ajudaria esse cara se o visse. Em maio de 2009, 8 meses antes desse incêndio, o pai de Gilmar — o cara que sumiu —, um agricultor chamado Otávio Reolon, tinha sido morto na zona rural da região, num caso que, segundo os jornalistas que cobriram a história, foi tratado de início como latrocínio (roubo seguido de morte).

Tinham sumido objetos da casa, como uma TV e eletrodomésticos, e vizinhos relataram ter visto um veículo saindo da propriedade sem saber dizer qual exatamente. E esse detalhe do latrocínio é importante nessa história porque ele volta daqui a pouco. O fato é que a investigação avançou e Gilmar virou o principal suspeito da morte do próprio pai.

Segundo a Gazeta do Povo, no fim de 2009, a Justiça de Francisco Beltrão já tinha expedido um mandado de prisão contra ele por esse crime. E aqui fica uma pergunta que as reportagens da época não explicam nas minúcias: por que, mesmo com mandado na praça, ele seguia solto quando a casa dele pegou fogo e toda a sua família morreu? O homem que sumiu do incêndio — que matou a própria família inteira — já era suspeito de ter matado o próprio pai meses antes.

Verdade ou não, dadas as circunstâncias desse novo episódio trágico, seria muito bom, naquele momento, que ele aparecesse para colocar os pingos nos is, não é? A hipótese de que ele fosse uma vítima, naquele momento, virou a hipótese de que ele era o autor, e era por isso que essa percepção rondava a cidade. As buscas na região se intensificaram; porém, nada de Gilmar.

Só que Lajeado Bonito ainda viveria mais coisas ruins, viu? Porque, sete semanas depois desse incêndio, naquela mesma comunidade, aconteceu uma segunda tragédia: o dia da mudança. Sábado, 27 de fevereiro de 2010. A família Pereira dos Santos, moradora da mesma região de Enéas Marques, tinha um dia cheio pela frente. Era o dia da mudança do patriarca, Noel Pereira dos Santos, de 77 anos, que estava saindo de Lajeado Bonito para ir morar na Linha Três Coqueiros.

A família inteira se mobilizou. Quem puxava a mudança de trator era Luís Carlos Mendes, o Carlinhos, como todo mundo ali o chamava, casado com uma das netas de seu Noel. Quase todo mundo foi ajudar, menos uma pessoa: Índia Mara Pereira dos Santos, de 13 anos, neta do senhor Noel. A mãe dela tinha viajado e a menina estava passando uns dias na casa da irmã, Elisângela, casada justamente com Carlinhos.

Isso tudo para a menina não ficar sozinha. Quando o pessoal saiu para a mudança, Índia Mara ficou lá sozinha assistindo à televisão. Naquela tarde, Índia Mara foi encontrada morta num matagal a poucos metros da casa. Ela tinha tentado fugir e foi morta a pedradas e com golpes de facão na cabeça. A perícia, depois, registrou que não houve violência sexual.

Agora, imagina o tamanho disso. Uma comunidade rural minúscula que, sete semanas antes, tinha enterrado quatro pessoas da mesma família de forma repentina e cheia de desconfianças, estava agora velando uma menina de 13 anos morta no mato de forma extremamente violenta. O velório foi num domingo, e, na segunda-feira, a polícia começou a montar a investigação desse caso.

O tio de Índia Mara, Jesus Pereira dos Santos, recebeu um chamado para prestar depoimento na delegacia de Enéas Marques. Ele foi, só que não voltou para casa. E aqui é importante você entender uma coisa, tá? A prisão de Jesus não foi um “chute”, digamos, da polícia. No papel, o caso contra ele parecia sólido. Mas vai vendo.

Primeiro, a oportunidade. Sabe o triângulo: meios, motivos e oportunidade? No dia da mudança, depois do almoço, Jesus voltou sozinho para Lajeado Bonito, segundo ele, para buscar um cachorro do pai que tinha ficado para trás. Ou seja, ele estava na área sozinho no período em que o crime teria acontecido. E, segundo Niomar Pereira, o jornalista que investigou o caso desde o início, foi exatamente isso que chegou aos ouvidos da polícia.

Alguém relatou que Jesus tinha passado por ali sozinho por volta do meio-dia, momento em que, pelo que se reconstituiu depois, a menina provavelmente já estava morta no mato. Ele não viu nada, seguiu com o dia dele e virou o primeiro nome da lista. Recapitulando, então: a família estava de mudança. Jesus estava ajudando, fazendo o traslado das coisas.

A menina ficou sozinha e foi morta por alguém. Ele voltou para o sítio, dando ensejo à teoria de que poderia ter sido ele; mas ele não viu nada, não viu ninguém e continuou a vida dele. Contudo, esse elemento circunstancial o colocou na cena do crime e fez parecer que um elo estava se fechando. O segundo ponto diante desse caso — vai anotando no seu caderno de investigação, porque são três, como a gente viu, não é? Bom, o segundo ponto, então, do caso de Índia Mara, era uma possível prova física.

Veja só: na delegacia, quando Jesus foi prestar seu depoimento, os peritos aplicaram luminol nele. Todo mundo sabe que é aquele produto químico que revela vestígios de sangue, não é? Eles aplicaram nas mãos de Jesus e no chinelo dele. Deu positivo. Havia sangue debaixo das unhas e sangue no chinelo. Ali mesmo, então, Jesus recebeu voz de prisão e foi levado para Francisco Beltrão.

A explicação dele para isso era até simples, e verdadeira, eu diria. Jesus lidava com sangue de animal o tempo todo. Na véspera, ele tinha carneado galinhas na casa da mãe. No serviço, matava porco quase todo dia. Só que naquela sala e naquele momento, a explicação do dia a dia dele não tinha o mesmo peso de um exame pericial que revelou sangue debaixo das unhas e no chinelo.

Foi por isso que ele acabou recebendo voz de prisão. Só que aí veio o detalhe que emperrou tudo nesse caso: o luminol teria danificado a amostra biológica recolhida. Quando o material foi mandado para Curitiba para o exame de DNA — para dar o xeque-mate, digamos —, o resultado voltou inconclusivo.

A prova que prendeu Jesus, então, era a mesma prova que agora não servia para dizer que ele era 100% inocente, não é? Ou seja, a prova que o prendeu também não conseguia inocentá-lo naquele momento. E essa era a sinuca de bico. Para a comunidade, no entanto, nem precisava de DNA. O caso já estava resolvido: o tio havia matado a sobrinha.

Jesus ficou 57 dias preso, de 1º de março até 27 de abril de 2010, momento em que foi solto porque a polícia não tinha provas suficientes para indiciá-lo. Mas estar “solto”, naquele contexto, não queria dizer estar necessariamente “livre”, tá? Jesus voltou para uma vida em que não dava nem para ir até a cidade sem ouvir ou ver alguém apontando o dedo para ele, chamando-o de assassino.

Ele ficou praticamente enclausurado no interior. Poucos acreditavam na inocência dele. Ele mesmo contou a Niomar Pereira, anos depois, que, quando entrava no supermercado, as pessoas se afastavam. Nas palavras de quem cobriu o caso, Jesus virou um pária. E repara na engrenagem disso tudo: preso dois dias depois do velório por causa de um exame que deu positivo para sangue, seguido de uma soltura por falta de provas, sem nada que limpasse o seu nome.

A comunidade nunca ouviu um desmentido oficial. Mas calma, porque essa história tem chão pela frente, tá? Enquanto isso, o homem que abriu o nosso episódio — que sumiu lá da casa onde aconteceu o incêndio e que matou toda a família — continuava desaparecido. Nenhum sinal, nenhum rastro. O homem invisível.

Os meses foram passando, e o sumiço de Gilmar Reolon virou o maior mistério policial daquela região. Surgiram versões para todo lado, boatos em cima de boatos. A suspeita de que ele tinha fugido do país ganhou tanta força que o nome dele entrou na lista de procurados da Interpol. Gilmar estava na lista dos criminosos mais procurados do Paraná e, ao mesmo tempo, ninguém tinha um único rastro concreto dele. Será? Vamos ver.

Pista de verdade? Nenhuma oficial. Agora, relatos não faltaram, tá? Passou um ano, dois, três… Vai vendo. Porque a foto dele se espalhou pelo Brasil inteiro. O caso ganhou repercussão nacional, evidentemente, e os avistamentos começaram a pipocar. A gente já viu isso diversas vezes, não é? Como lembram os jornalistas que cobriram a história, um caminhoneiro até jurou ter visto Gilmar no interior de São Paulo.

Caçadores da região contaram ter topado, no fim de uma tarde, com um homem cabeludo, barbudo e já grisalho, que saiu correndo quando foi visto. Agricultores diziam avistar de longe um vulto parado os observando. Moradores notavam sinais de que alguém tinha invadido as propriedades: sal sumindo do cocho do gado, fósforos e utensílios desaparecendo dos paióis.

As comunidades do interior viviam num clima de medo. O jornalista que investigou o caso lembra de ter visitado algumas comunidades ali depois de vários abates de bois. Você se lembra lá da abertura do episódio, em que apareciam bois mortos com um pedaço de carne faltando? Pois é. Alguma teoria sobre isso? Já não sei.

Naquele momento, segundo o jornalista, as pessoas estavam apavoradas, e a polícia, nas entrevistas da época, ainda dizia que havia 99% de chance de não ser quem eles estavam procurando. Ou seja, achavam que não era Gilmar que estava fazendo isso. Só que sobrava aquele 1%, não é? E eu vou dizer para vocês: muitos dos avistamentos eram, de repente, reflexo de todo o medo; mas há coisas ali nesses avistamentos que fariam sentido, e daqui a pouco vocês vão entender.

E é aqui que a história volta para a cena do começo, tá? Porque, ao longo de 2012, os sítios da região de Francisco Beltrão começaram a registrar aqueles furtos estranhos de gado: as 16 cabeças abatidas na mata, com a carcaça toda abandonada apodrecendo, mas um pedaço específico de carne levado.

Foi o delegado à frente do caso Reolon, Davi Ricardo de Andrade Passerino, da 19ª Subdivisão Policial de Francisco Beltrão, quem apontou publicamente, em declaração à imprensa, o detalhe que mudava a leitura de tudo. Segundo ele, o pedaço que sumia de cada animal era a quantidade exata para alimentar um homem por alguns dias.

A leitura da Polícia Civil passou a ser essa: não era um ladrão de gado qualquer; era alguém que provavelmente estava sobrevivendo dentro da mata. E essa constatação de que alguém estava se mantendo na floresta fazia todo o sentido e quebrava de vez aquelas teorias de que Gilmar teria fugido do país e estava sendo procurado pela Interpol.

Naquele momento lá, eu não comentei, mas as pessoas cravavam: “Ele está no Paraguai”, “Está na Bolívia”. Só que tinha um cara que nunca comprou essas teses de fuga internacional: o próprio irmão de Gilmar. Segundo ele mesmo contou em entrevistas na época — como relembram os jornalistas do Jornal de Beltrão —, Idemar Reolon passou dois anos vasculhando as matas da região atrás do irmão, convencido de que ele estava por lá.

E ele tinha um motivo claro que mais ninguém no mundo teria: o jeito de carnear o gado. O modo como aqueles animais eram abertos na mata estava errado. E errado de um jeito muito específico: era exatamente o jeito que os dois irmãos tinham aprendido com o pai deles na infância. Idemar, depois de casado, corrigiu essa técnica com o sogro dele.

Já Gilmar nunca mudou o jeito de cortar, e o irmão sabia disso. Para qualquer pessoa, aquelas carcaças eram um grande enigma, um mistério medonho. Mas, para Idemar, eram uma assinatura digital. A polícia passou a trabalhar, então, com a hipótese de que Gilmar nunca tinha saído do país, nem mesmo da região. Ele estava ali o tempo todo, embrenhado na mata.

O cerco, então, começou a se fechar. Dias antes do desfecho, a Polícia Civil promoveu uma reunião na Associação Comercial de Francisco Beltrão para montar uma força-tarefa e caçar o foragido dentro das matas. Mas, como sempre, há um porém, não é? A força-tarefa nem precisou sair do papel, porque quem encontrou Gilmar Reolon não foi a polícia (pelo menos não do jeito que você está pensando); foi, na verdade, o próprio irmão dele. Mas veja os detalhes da cabana.

Nas primeiras horas da sexta-feira, 11 de janeiro de 2013, Idemar Reolon, irmão de Gilmar, entrou na mata da região do rio Tuna, no interior de Francisco Beltrão, acompanhado de um policial militar chamado José Gilmar de Oliveira, que, por sinal, era compadre de Idemar. A versão dos dois é que eles estavam no mato investigando os furtos de gado por conta própria.

Sobre esse policial, cabe um registro aqui: as reportagens de 2013 o descrevem como soldado da ativa. Já os jornalistas do Jornal de Beltrão o lembram como um policial que estava de folga naquele dia. Seja como for, no meio da mata, os dois encontraram uma cabana de lona improvisada e, dentro dela, dormindo, estava um homem irreconhecível: descalço, vestido com trapos, com o corpo coberto de feridas e picadas de insetos, além de cabelos compridos e barba longa. Era Gilmar.

Segundo o relato do PM, ao perceber a movimentação, Gilmar tentou ir para cima deles com um facão. Ele foi dominado, algemado e amarrado a uma árvore até a chegada do reforço policial. O relato do próprio policial na época dá a dimensão daquela caçada particular: segundo ele, foram mais de dois anos investigando os passos do foragido, vasculhando o mato quase centímetro por centímetro, para, no fim, levarem apenas uns dez minutos para dominar o homem.

Depois de três anos, o “homem invisível” estava de volta. Ele foi levado para o 21º Batalhão da PM, apresentado à imprensa e encaminhado para a 19ª Subdivisão Policial. O jornalista Niomar Pereira guarda uma cena da chegada dele à cadeia. A notícia correu solta, e os presos receberam Gilmar aos gritos, até verem a figura macabra que entrou: um homem esfarrapado, ferido e com cara de bicho do mato. Nas palavras do jornalista, todo mundo baixou a bola e se calou.

Só que a forma como essa prisão ocorreu deixou o delegado com a pulga atrás da orelha. Em declarações públicas à imprensa na época, ele disse que desconfiava da versão de que o irmão e o policial simplesmente toparam com o foragido durante as buscas. Havia suspeitas de que Idemar já soubesse onde Gilmar se escondia e o acobertava, e que os dois seriam investigados a partir da semana seguinte a esses acontecimentos.

E aqui, claro, eu preciso ser muito claro com você, tá? Desconfiança do delegado não é acusação, muito menos prova de culpa, OK? É preciso ter cuidado com as alegações, justamente para não haver injustiça, como a gente já viu diversas vezes. Nenhuma das fontes que consultei para fazer este roteiro registra qualquer indiciamento, denúncia ou conclusão dessa apuração contra Idemar ou contra o policial que estava com ele. E, sem isso, o que vale para os dois é a presunção de inocência.

Ou seja, eles não sabiam do paradeiro, foram investigar os ladrões de gado e se depararam com o cara. Do ponto de vista oficial, eles são apenas os homens que tiraram da mata um foragido que a polícia procurava havia três anos. E essa é a ponta que o caso deixou em aberto até hoje, tá? Pensando bem, eu nem sei por que havia tanta desconfiança.

Talvez pelo que foi apurado depois sobre o corte da carne levada — aquela questão de cortar daquele jeito específico. Talvez a desconfiança tenha partido daí. Mas, como eu disse, isso não quer dizer que Idemar sabia onde Gilmar estava. Eles se embrenharam na mata, de repente, para ajudar a encontrar o cara.

Bom, seguindo para o dia da prisão, naquela mesma sexta-feira houve uma virada. De manhã, ao ser apresentado à imprensa, Gilmar negou o envolvimento com a morte de Índia Mara (lembra-se da menina de 13 anos?). À tarde, no depoimento à Polícia Civil, ele confessou tudo. E dali em diante, detalhou os crimes para as câmeras, começando pelo assassinato do pai.

Gilmar contou que a morte de Otávio Reolon foi uma vingança pelas agressões físicas severas que sofrera na infância. Segundo relatou, aos 12 anos, depois de apanhar muito, ele jurou que um dia mataria o pai. Essa é a versão que o delegado contou na época. Jornalistas do Jornal de Beltrão lembram de outro episódio: uma última surra aos 16 anos, quando ele também pensou em matar o pai. Só que a mãe interveio e fez com que Otávio prometesse que nunca mais encostaria a mão no filho.

No dia do crime, os dois discutiram por questões financeiras. Aqui os jornalistas dão o detalhe: a briga envolveu um empréstimo consignado no nome do pai, com parcelas na casa dos 130 reais. Naquele dia, o pai cobrou duas parcelas, mas Gilmar só tinha dinheiro para pagar uma. Os dois discutiram, o pai ameaçou dar uma surra no filho, e Gilmar explodiu.

Na versão do próprio Gilmar, o pai tentou agredi-lo, se desequilibrou, caiu e bateu a cabeça. A polícia sustentava outra coisa: segundo o delegado, Gilmar matou o pai usando uma roçadeira (houve reportagens na época que falaram também em uma foice). Eu confesso que não encontrei muitos detalhes periciais sobre esse crime específico, como a forma exata em que o corpo foi encontrado ou o seu estado.

Mas lembra-se do latrocínio investigado lá no começo, que servia como justificativa oficial antes dessa confissão? Era só teatro. Segundo o relato recuperado pelo documentário dos jornalistas que investigaram esse caso, quem montou a cena do roubo foi o próprio Gilmar.

Depois de matar o pai, ele pegou a TV, o rádio e outros objetos da casa e enterrou tudo num lugar escondido, simulando um assalto para despistar a polícia. Anos depois, já preso, ele levou a polícia até o ponto onde tinha enterrado as coisas. E tem um detalhe ainda mais perturbador: naquele mesmo dia, Gilmar voltou para casa e contou para Gema, sua esposa, que tinha assassinado o pai.

A esposa sabia de tudo e também sabia de outro golpe: um empréstimo tomado enganando a própria mãe dela, dona Petronilha. Ela carregou esse peso e nunca denunciou o marido. Bom, depois de detalhar a morte do pai, ele começou a explicar o massacre de sua própria família (inclusive dessa mesma esposa). Gilmar contou que estava afundado em dívidas na época e que planejava tirar a própria vida.

E a justificativa que ele deu para a chacina da família beira o absurdo. Ele alegou que matou a esposa, os dois filhos e a sogra para que não passassem fome nem sofressem a vergonha de ter um assassino afundado em dívidas como patriarca. Segundo o relato feito aos jornalistas, foi numa noite em que ele não conseguia dormir. Perturbado, agiu entre as 4 e as 5 da manhã do dia 7 de janeiro de 2010. Com a família dormindo, matou a todos a pauladas.

Pelo relato, uma das vítimas teria ouvido os golpes e chegado a se levantar durante o ataque. E o que mais marcou quem o entrevistou foi a extrema frieza do criminoso. Ele descrevia tudo sem alterar a voz, repetindo que naquela noite estava “decidido” e “com coragem”. E o que ele contou que fez em seguida explica perfeitamente a cena que a polícia encontrou. De manhã, ele pegou o Celta e foi para Francisco Beltrão.

Ele rodou o dia inteiro com uma ideia na cabeça: jogar o carro contra um caminhão ou dentro de um rio para cometer suicídio. Mas ele não fez isso. Esperou anoitecer, voltou para casa, guardou o carro na garagem (por isso o veículo estava lá intacto), entrou no imóvel com os cadáveres, ateou fogo a tudo e fugiu a pé para o mato.

Lá dentro da floresta, teria tentado tirar a própria vida mais uma vez, se enforcando, só que não deu certo porque a corda arrebentou. Então, veio a parte da confissão que mudou a vida de mais uma pessoa, de quem acho que você deve estar se lembrando, não é? Jesus, o tio de Índia Mara, a adolescente de 13 anos morta daquela forma brutal.

Gilmar contou que, semanas depois da chacina da sua família, já estava sem comer havia uns três dias. Segundo o que foi apurado pelas reportagens da época, essa greve de fome era mais uma tentativa de tirar a própria vida; ele queria definhar até morrer. Do alto de um morro, ele viu a família de Carlinhos fazendo a mudança de trator (lembra disso?) e presumiu que aquela casa vizinha ficaria vazia.

Ele desceu até lá, encontrou a porta aberta e entrou para roubar comida. A fome, pelo visto, falou mais alto que a vontade de morrer. Só que a casa não estava vazia: Índia Mara tinha ficado lá. Ao dar de cara com Gilmar, a menina se desesperou e saiu correndo. Percebendo que tinha sido reconhecido, ele a perseguiu por uns 200 metros.

Ele conseguiu alcançá-la e, com medo de ser denunciado, assassinou a garota de 13 anos a pedradas e golpes de facão para garantir o silêncio dela. Arrastou o corpo para o mato e voltou a se embrenhar no esconderijo. Em entrevista, com a frieza que chocou a todos, ele disse que nem conhecia Índia Mara; matou-a apenas para que ela não contasse que ele estava vivo.

Três anos depois de ser preso injustamente pelo assassinato da própria sobrinha, Jesus Pereira dos Santos foi finalmente inocentado pela comunidade. Não foi por um laudo ou por um advogado, mas sim pela confissão do verdadeiro assassino, que passou esse tempo todo escondido na mata, perto de todo mundo. Imagina se Gilmar tivesse tido sucesso no suicídio? A culpa recairia para sempre sobre o inocente Jesus, não é? Pois é.

Quanto à sobrevivência de Gilmar na floresta, com o tempo, ele montou um acampamento e passou a abater o gado pontualmente. Ele mesmo confessou ter matado cerca de 10 animais. Os 16 furtos que a polícia registrou se concentraram ao longo do ano de 2012 inteiro, bem depois daquele fevereiro em que ele passava dias passando fome. Talvez, pelas circunstâncias, ele tenha esquecido a quantidade exata de bois, mas a polícia registrou 16 carcaças.

O documentário e as entrevistas da época permitem remontar como era essa sobrevivência selvagem. O gado era apenas uma parte da dieta. À noite, Gilmar colhia o que as lavouras da região davam: melão, milho e mandioca. Com o milho, chegava a improvisar uma espécie de farinha, quase uma polenta.

Furtava sal dos cochos dos animais, além de fósforos e utensílios dos paióis. Lembra quando comentei que as aparições poderiam ser fruto do medo coletivo da região, mas que algumas pessoas relatavam o sumiço de sal e fósforos? Pois é, era ele. Para suportar o rigoroso inverno do sudoeste do Paraná — onde a temperatura na mata chega a ficar abaixo de zero —, Gilmar dormia numa cabana improvisada com lona.

Nessa condição, ele relatou ter sido picado por uma aranha no abdômen, e passou uns dois meses lidando com a infecção severa, a qual disse ter tratado aplicando apenas limão e a própria urina. Fazia a barba com o facão afiado numa pedra (o mesmo facão apreendido na sua captura, que já estava gasto e recurvado de tanto uso). Ele vestiu a mesma calça por três anos seguidos. Frequentemente trocava de esconderijo, mas no acampamento em que foi preso…

…contou ter ficado uns seis meses. Ele chegou a riscar o próprio nome e uma data no tronco de uma árvore. Nas entrevistas, quando questionado sobre qual foi a pior parte daquela jornada insólita, ele não citou o frio, a fome ou a dor da picada. Ele disse que foi a solidão. O homem que aniquilou a própria família sofria por não ter com quem conversar nos últimos três anos. É mole, galera? O cara massacrou a família, matou a menina inocente e o próprio pai, e reclamava de estar solitário.

Bizarro, não é? Vamos ao Júri. Quinta-feira, 3 de abril de 2014, Tribunal do Júri da Comarca de Francisco Beltrão. Antes de chegar ali, Gilmar passou por exames psiquiátricos e, segundo a imprensa da região, os laudos não apontaram nenhuma patologia mental severa (ele era imputável). Foi por isso que a juíza Juliane Veloso Stankeevix o considerou apto a sentar no banco dos réus do Júri Popular.

Os processos das seis mortes foram unificados e julgados num único dia. O julgamento começou às 9h da manhã e terminou às 21h, com o plenário lotado do início ao fim. Na acusação, o promotor Roberto Tonhon e a advogada assistente Débora Maciel. Na defesa, o advogado Gilberto Carlos. Vale registrar que Gilmar era réu confesso.

As reportagens da época não detalham qual foi a linha de defesa sustentada em plenário. Em determinado momento, Gilmar falou. Disse aos presentes que ficava pensando no que fez e que não aceitava o próprio ato. Durante o julgamento, segundo a cobertura da imprensa, ele não conseguiu explicar por que cometeu os homicídios.

A sentença de condenação funcionou da seguinte maneira: ele pegou 30 anos de reclusão por cada uma das seis mortes, o que daria 180 anos. Mas, como os quatro homicídios da família aconteceram no mesmo lugar e no mesmo contexto, um dispositivo do Código Penal (crime continuado) permitiu tratar esses crimes como continuidade uns dos outros, e a pena desses quatro foi fixada em 90 anos.

Somando com os 30 anos pela morte do pai e os 30 pela morte de Índia Mara, o total da condenação ficou em 150 anos de prisão em regime fechado. Só que, na prática, pela legislação brasileira em vigor na época, o limite máximo de cumprimento de pena era de 30 anos atrás das grades. Gilmar já tinha ficado um ano preso até a época do julgamento, então restavam 29 anos. As famílias Casanova e Reolon acompanharam tudo e, mesmo com a pena máxima possível, saíram insatisfeitas.

Nilson Casanova, filho de dona Petronilha, disse não entender como 180 anos de pena viravam, na prática, 30. O próprio Idemar, irmão do réu, esperava uma condenação de mais de 200 anos. E tinha mais alguém naquele plenário: Rosa Pereira dos Santos, mãe de Índia Mara. Ela disse à imprensa que sentia alívio com a condenação, mas também indignação pelo fato de seu irmão (Jesus) ter sido preso injustamente, e desabafou que, desde o dia em que Gilmar tirou a vida de sua filha, ela nunca mais teve paz.

Terminado o julgamento, Gilmar Reolon foi levado para a Penitenciária Estadual de Francisco Beltrão. Em janeiro de 2023, quando o Jornal de Beltrão lançou o documentário, ele seguia preso na mesma unidade. Segundo relatos de pessoas do convívio prisional, recuperados pelos jornalistas, ele tem uma conduta sem uma vírgula de problema: joga bola, toma a medicação e respeita todo mundo.

Quem sentou com ele para entrevistá-lo o descreve como um homem cabisbaixo, de respostas curtas e que não olha nos olhos. Questionado uma vez se se arrependia de ter matado os filhos, disse que sim, mas sem demonstrar nenhuma emoção. No entanto, nos últimos anos, passou a recusar pedidos de entrevistas, inclusive o da equipe do próprio documentário.

E Jesus, galera — que, como a gente viu, foi injustiçado —, só para resumir a parte dele aqui: ele foi solto depois de 57 dias preso porque não havia provas suficientes para indiciá-lo. Vocês se lembram disso? O grande problema é que, nos três anos seguintes até a confissão de Gilmar, a vizinhança inteira olhava torto para ele, tratando-o como se fosse realmente o assassino da sobrinha.

Em 2013, morando na comunidade de São Pedro, no interior de Enéas Marques, e cuidando de um sítio de suínos, ele dizia que ia buscar reparação na Justiça contra o Estado por todo o inferno que sofreu. E, no final das contas, aquelas carcaças de gado, que a princípio ninguém entendia, carregavam uma assinatura macabra, um sinal de que Gilmar Reolon estava ali e continuava vivo.

Inclusive, foi relatado que ele passou esse tempo todo escondido na mata a cerca de 10 km em linha reta da casa onde ocorreu a chacina da família, a uns 4 km da área urbana da cidade e a apenas 500 metros de uma estrada. É mole, o “mateiro”? Impossível não lembrar do caso Lázaro, não é? Apesar de serem crimes bem distintos, essa questão de viver no mato assim, como um homem quase invisível, é algo bizarro.

Mas conta para mim nos comentários: você é aí da região? Conhecia os detalhes desse caso? Espero ter feito um bom apanhado geral aqui. Se, porventura, ficou faltando alguma informação, comenta aqui. Os casos criminais brasileiros nem sempre têm aquela cobertura minuciosa em âmbito nacional, mas, com base no documentário regional, acho que deu para montar um quebra-cabeça bem interessante.

É isso. Não se esqueça de deixar o seu like e um comentário (nem que seja um emoji) para ajudar no engajamento. E, se puder, torne-se membro, pois ajuda muito a nossa página. Um abraço e até a próxima história!

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

Recommended for You

View Archive arrow_forward