22 ANOS DEPOIS DO ENTERRO, DESCOBRI POR QUE AQUELE TÚMULO NUNCA TEVE PAZ
Mas o que aconteceu em agosto de 2001 foi diferente de tudo que eu já tinha visto. Naquele mês, a prefeitura tinha autorizado uma reforma na ala mais antiga do cemitério, a quadra de Santa Luzia. Era uma parte esquecida lá para o fundo, perto do muro de pedra. Tinha túmulo antigo dos anos 70, lápide rachada, números apagados, vasos quebrados e muito mato crescendo entre as pedras.
A ordem era simples. Limpar tudo, refazer alguns caminhos, corrigir as numerações e restaurar as sepulturas que ainda tinham família responsável. Serviço comum, pesado, mas comum. Na primeira manhã, cheguei cedo com dois ajudantes. O céu estava nublado daquele jeito que deixa o cemitério mais fechado. Não chovia, mas o ar estava úmido.
O portão de ferro ainda estava meio molhado do sereno. Entrei pela alameda principal, carregando uma pasta com as anotações da reforma e fui direto para a quadra de Santa Luzia. Quando cheguei lá, parei por alguns segundos. Eu conhecia aquele lugar, mas naquele dia ele parecia diferente.
Não era medo, era outra coisa, um peso, como se aquela parte do cemitério estivesse esperando alguma coisa fazia tempo e agora soubesse que a gente tinha chegado. Um dos ajudantes, Univaldo, percebeu que eu tinha parado e perguntou: “O que foi, seu Arlindo?”
Eu olhei para os túmulos, depois para o chão, depois para o corredor estreito entre as sepulturas. Nada não, vamos começar. Mas não era nada. A primeira sepultura que precisávamos limpar era a de um homem chamado Vicente Lourenço Duarte. A lápide estava muito suja, quase sem leitura. Tinha uma cruz de cimento no alto e, no canto direito, um retratinho antigo protegido por vidro trincado. A foto estava escurecida pelo tempo, mas dava para ver o rosto de um homem sério, de bigode fino, usando camisa clara.
Li o nome com dificuldade. Vicente Lourenço Duarte, nascido em 1918, falecido em 1979. Do lado esquerdo, a uns 2 m, havia outra sepultura. Essa estava um pouco melhor cuidada. Tinha flores de plástico, uma vela já consumida e uma plaquinha de mármore com o nome de Azira Maria Duarte.

Na hora não pensei em nada, apenas anotei os dois nomes na prancheta e comecei o serviço. Durante o dia, limpamos a área, arrancamos mato, juntamos pedaços de vaso quebrado e retiramos umas placas soltas para recolocar depois. Era trabalho de paciência. O cemitério ficou quieto quase a manhã inteira. Só apareceu uma mulher mais velha para visitar um túmulo no corredor de baixo.
Depois ela foi embora e a ala voltou ao silêncio. No fim da tarde, quando eu estava fechando o depósito de ferramentas, senti de novo aquele peso. Não vinha de fora, vinha como uma pressão no peito, leve no começo, depois mais funda. Olhei para trás e vi a quadra de Santa Luzia já meio escura, porque o sol estava descendo atrás do muro naquele momento, e tive a impressão de ouvir uma voz.
Foi baixa, tão baixa, que eu não sabia se tinha vindo mesmo de algum lugar ou se nasceu dentro da minha cabeça. Não é aqui. Fiquei parado com a chave do depósito na mão. Olhei para os lados. Não tinha ninguém perto. O vigia estava lá na entrada. Os ajudantes já tinham ido embora. Eu esperei mais alguns segundos. Nada. Tranquei a porta e fui embora sem comentar com ninguém.
Naquela noite tive o primeiro sonho. Eu estava no cemitério, mas não era de dia. Também não era exatamente noite. Era uma claridade cinza, sem sol, sem lua, sem sombra certa. Eu caminhhava pela quadra de Santa Luzia, mas os corredores pareciam mais compridos do que eram de verdade. Lá no fundo, perto do muro de pedra, tinha um homem parado.
Ele usava calça escura, camisa clara e segurava um chapéu nas mãos. Não dava para ver o rosto direito, mas eu sabia que ele estava olhando para mim. Fui chegando devagar. Quanto mais perto eu chegava, mais pesado o ar ficava. Quando parei a poucos passos dele, o homem levantou a cabeça. Era o mesmo rosto da foto trincada.
O homem da sepultura, Vicente. Ele olhou para mim e disse: “Eu estou no lugar errado”. Acordei sentado na cama com o coração disparado. Minha esposa, dona Célia, acordou assustada e perguntou o que tinha acontecido. Eu disse que tinha sido só um sonho ruim. Ela virou para o lado e voltou a dormir. Mas eu fiquei acordado até clarear.
No dia seguinte, cheguei ao cemitério com aquela frase presa na cabeça. Eu estou no lugar errado. Tentei não dar importância. Homem que trabalha em cemitério sonha com cemitério. Isso acontece. A gente vê nome de morto o dia inteiro, vê família chorando, vê túmulo antigo, vê fotografia de gente que já foi embora.
Uma coisa ou outra fica na cabeça. Mas quando passei pela quadra de Santa Luzia, o ar pesou de novo. Fui até a sepultura de Vicente. A lápide estava do mesmo jeito. O retrato trincado no canto, a terra firme ao redor, nada fora do lugar. Só que as flores que estavam no túmulo de Alzira do lado esquerdo tinham caído no chão, ou melhor, não pareciam ter caído.
Pareciam ter sido colocadas entre os dois túmulos, bem no meio do corredor. Peguei as flores, limpei a terra e devolvi ao lugar. Trabalhamos o dia inteiro sem falar no assunto, mas no fim da tarde, quando Nivaldo foi guardar a enchada, ele voltou com uma cara estranha. Seu Arlindo, o senhor mexeu nas ferramentas? Que ferramentas? As que eu deixei perto do túmulo do Vicente. Fui com ele até lá.
As ferramentas que ele tinha deixado apoiadas na sepultura de Vicente estavam agora encostadas no túmulo de Alzira. Eu olhei para ele. Ele olhou para mim. Foi o senhor? Ele perguntou. Não. Ele tentou rir, mas não conseguiu direito. Deve ter sido o Toninho. Toninho era o outro ajudante. Só que Toninho tinha saído quase uma hora antes para buscar cimento na frente do cemitério. Não falei nada.
Peguei as ferramentas e mandei guardar. Naquela noite sonhei de novo. O mesmo corredor, a mesma claridade cinza, o mesmo homem no fundo da quadra. Dessa vez ele estava mais perto. Eu estou no lugar errado. Ele repetiu. Eu tentei perguntar que lugar era o certo, mas a voz não saiu. No sonho, minha boca não obedecia. Ele olhou para o lado esquerdo, como se enxergasse alguém além de mim, e disse: “Ela está sozinha.”
Acordei com frio. Não era frio de tempo, era frio por dentro. Na terceira noite, o sonho voltou. Na quarta também. Na quinta eu já estava com medo de dormir. Durante o dia, as coisas no cemitério começaram a ficar mais difíceis de ignorar. Toda vez que a gente trabalhava perto da sepultura de Vicente, acontecia alguma coisa pequena.
Uma vela apagava sem vento. Uma paca ia sozinha. O rádio do Nivaldo chiava e parava. O cheiro de flor do campo aparecia do nada, mesmo sem flor fresca naquela ala. E sempre, sempre, as flores de Alzira amanheciam fora do lugar. No sexto dia, o vigia da noite, seu Moassir, me chamou antes do expediente. Ele era homem sério, calado, trabalhava no cemitério havia uns 12 anos e nunca foi de conversa fiada.
Quando ele me chamou, eu soube que era coisa importante. Arlindo, aconteceu um negócio ontem à noite. Eu larguei a caneca de café em cima do balcão. O quê? Ele olhou para a porta da administração, como se não quisesse que ninguém escutasse. Tinha alguém na quadra de Santa Luzia. Meu peito apertou. Alguém? Eu ouvi passo lá por volta de meia-noite.
Fui olhar, não tinha ninguém. Mas quando cheguei perto daquele túmulo que vocês estão reformando, tinha uma vela acesa. No túmulo de quem? Ele demorou um pouco antes de responder da mulher. Azira. Fiquei quieto. E tinha outra coisa. Ele continuou. A vela estava acesa, mas não tinha marca de fósforo, nem resto de vela velha, nem nada.
Parecia que alguém tinha acabado de colocar ali. Só que eu tinha passado lá uma hora antes. Não tinha vela nenhuma. Eu não queria acreditar em tudo aquilo, não por medo, mas porque quando a gente aceita que algo assim está acontecendo, não tem como voltar atrás. Você começa a olhar para o cemitério de outro jeito, começa a perceber que o silêncio não é vazio.
Naquele dia, decidi procurar o livro antigo de registros. A administração tinha uma sala pequena nos fundos. Ali ficavam caixas velhas, documentos amarelados, mapas do cemitério, autorização de reforma, registro de sepultamento e um monte de papel que ninguém queria jogar fora, mas também ninguém organizava direito.
Pedia ao administrador, seu Valdemar, para consultar os documentos da quadra de Santa Luzia. Ele reclamou no começo, disse que era papel demais, que a reforma não precisava daquilo tudo, mas eu insisti. Tem numeração errada naquela ala. Eu falei, foi a desculpa que usei e não era mentira completa.
Passamos quase uma hora mexendo em caixas. O cheiro de papel velho encheu a sala. Encontramos mapas de 1985, 1982, 1977. Alguns estavam rasgados, outros tinham manchas de humidade. Até que achei um livro grande de capa marrom com a lombada quase solta. Registros de sepultamento. 1979. Quando vi o ano, senti o peito apertar. Abri com cuidado.
As páginas estavam amareladas, mas ainda dava para ler. Fui procurando pelo mês da morte de Vicente. Passei o dedo pelos nomes até encontrar. Vicente Lourenço Duarte. Data do sepultamento. 14 de setembro de 1969. Quadra Santa Luzia. Sepultura 38. Anotei o número. Depois olhei a planta velha da quadra. Sepultura onde estava a lápide de Vicente era a 39.
Fiquei parado. Seu Valdemar, falei baixo. Aqui tem uma diferença. Ele pegou o papel da minha mão, colocou os óculos e olhou. Isso aí é erro antigo. Essas plantas vivem com número diferente. Pode ser. Mas eu sabia que não era só isso. Continuei olhando a página. Logo abaixo do nome de Vicente, havia outro registro do mesmo dia.
Sebastião Alves Moreira. Data do sepultamento, 14 de setembro de 1979. Quadra Santa Luzia, sepultura 39. Li uma vez, depois li de novo. Vicente registrado na 38, Sebastião registrado na 39, mas a lápide de Vicente estava na 39 e a sepultura 38 pelo mapa era a que ficava do outro lado do corredor, quase encostada no muro, onde havia uma pedra antiga com o nome de Sebastião Alves Moreira.
Senti um arrepio subir pelos meus braços. Naquela hora, a porta da sala bateu devagar. Não foi vento. A janela estava fechada. Seu Valdemar olhou para trás. Que foi isso? Eu não respondi. Baixei os olhos para a página de novo e vi uma coisa que não tinha percebido antes. Entre os dois registros tinha uma mancha de tinta e uma anotação pequena escrita com letra apertada no canto da folha.
Chuva forte. conferir marcação. Só isso. Três palavras e uma ordem que, pelo visto, ninguém tinha cumprido. Naquela noite, o sonho veio pela sétima vez. Dessa vez, Vicente não estava no fundo do corredor. Ele estava parado ao lado do túmulo de Alzira. A claridade cinza era mais forte. O cemitério parecia suspenso.
Não tinha pássaro, não tinha vento, não tinha nada. Só eu, ele e aquela sepultura. Ele segurava o chapéu contra o peito. “Eu estou no lugar errado”, ele disse. Dessa vez consegui falar. Onde é o seu lugar? Ele virou devagar e apontou para o túmulo de Alzira. Eu prometi que ficaria perto dela. Acordei chorando.
Não foi choro de tristeza minha, foi uma coisa estranha. como se eu tivesse acordado carregando por alguns segundos uma saudade que não era minha. No dia seguinte, não fui direto para a quadra de Santa Luzia, fui procurar dona Lúcia. Eu tinha encontrado o nome dela em uma ficha antiga como responsável pela sepultura de Alzira, Lúcia Duarte de Oliveira, filha de Vicente e Azira.
O endereço ainda era o mesmo bairro, não muito longe dali. Pedi autorização ao administrador para ir até a casa dela, dizendo que precisava tratar da reforma das sepulturas da família. Dona Lúcia me recebeu no portão. Devia ter uns 50 e poucos anos. Cabelo preso, vestido simples, rosto cansado de quem já tinha vivido muita coisa.
Quando falei do cemitério, ela abriu o portão na hora. Sentamos na varanda. Expliquei que havia uma reforma na quadra e que a gente tinha encontrado diferença nos registros antigos. Não contei do sonho de início. Era melhor ir devagar. Ela me ouviu em silêncio. Meu pai está enterrado lá desde 79, ela disse, “Minha mãe morreu em 84.”
Ela pediu para ficar perto dele. Ela pediu. Dona Lúcia assentiu. Pediu. Minha mãe dizia que meu pai tinha feito ela prometer isso. Eles eram muito unidos. Coisa bonita de ver. Quando ele morreu, ela nunca mais foi a mesma. Todo domingo ela ia no cemitério, levava a flor, conversava com ele.
Quando ficou doente, pediu para ser enterrada perto dele. Disse que pelo menos assim descansava. Fiquei com a garganta seca. A senhora lembra se houve algum problema no enterro do seu pai? Ela pensou. Eu era mais nova, mas lembro que choveu demais. Foi uma chuva feia. O cemitério estava cheio de barro. Meu tio até brigou com um funcionário porque disseram que iam ter que apressar tudo.
Por quê? Eu respirei fundo. Porque o registro antigo mostra uma possível troca de sepultura. Ela ficou me olhando. As troca dois sepultamentos no mesmo dia. Seu pai e outro homem. Os números no livro não batem com as lápides. Dona Lúcia baixou os olhos, ficou quieta por tanto tempo que achei que ela não fosse falar mais.
Depois disse uma coisa que me gelou. Eu sempre achei que tinha algo errado ali. Como assim? Ela passou a mão no rosto. Minha mãe também achava. Fiquei parado antes de morrer. Ela dizia que sonhava com meu pai, chamando ela do outro lado do corredor. A gente achava que era saudade, doença, essas coisas. Depois que ela foi enterrada, eu mesma, ela parou.
A senhora o quê? Eu levava flores para os dois. As flores dela ficavam quietas, mas as que eu deixava no túmulo dele sempre amanheciam caídas. Teve uma época que eu parei de ir porque aquilo me fazia mal. Eu tinha a sensação de que meu pai não estava ali. Eu não disse nada. Naquele momento, ela entrou dentro de casa e voltou com uma caixa de sapato.
De dentro tirou uma fotografia antiga em preto e branco. Era de um casal novo em frente a uma igreja pequena. O homem era Vicente, a mulher Azira. Atrás da foto havia uma frase escrita à mão: Nem a morte separa quem Deus juntou. Vicente e Azira, 1942. Dona Lúcia segurou a foto com cuidado. Minha mãe guardava isso na Bíblia.
Eu olhei para aquela frase e tive certeza de que não estava ali por acaso. Voltei para o cemitério naquela tarde e contei tudo ao administrador. Ele não queria problema. Ninguém quer mexer com sepultura antiga. Tem documento, família, prefeitura, autorização, burocracia. Mas também não podia ignorar um erro daquele.
Seu Valdemar chamou a secretaria responsável pelos registros. Depois chamou um funcionário antigo aposentado, seu Damaceno, que tinha trabalhado no cemitério nos anos 70. Seu Damaceno chegou no dia seguinte, andando devagar com uma bengala. Estava velho, mas a memória ainda era boa. Quando mostramos os nomes, ele ficou sério. “Eu lembro dessa chuva”, ele disse.
Ninguém falou nada. Foi uma das piores daquele ano. Caiu água a tarde inteira. Teve dois enterros quase no mesmo horário. Um era esse Vicente, o outro era Sebastião. Naquele tempo, a marcação era feita com estaca de madeira. Se mexeram as estacas naquela chuva, pode ter dado confusão. O senhor lembra se conferiram depois? Perguntei.
Ele ficou olhando para o livro? Pelo visto não. Naquela tarde, enquanto os documentos eram separados para pedir autorização, uma coisa aconteceu. Eu estava sozinho na quadra de Santa Luzia. Os ajudantes tinham ido buscar material. Fiquei olhando para os dois túmulos, o de Vicente e o de Sebastião. Depois olhei para o túmulo de Alzira.
Pela primeira vez entendi a tristeza daquele lugar. A lápide de Azira ficava voltada para um túmulo que todos achavam ser do marido dela. Mas se os registros estivessem certos, Vicente estava do outro lado do corredor, longe dela. E outro homem, Sebastião, tinha ficado todos aqueles anos onde Vicente deveria estar.
Não era culpa de Sebastião, não era culpa de Alzira, talvez nem culpa de ninguém vivo ainda. Foi chuva, pressa, descuido, papel molhado, número mal conferido, mas o erro estava ali fazia mais de 20 anos e alguém queria que fosse corrigido. Naquele momento, uma folha seca caiu sobre a lápide de Alzira.
Não tinha vento. A folha caiu bem em cima da foto dela. Depois escorregou devagar até o chão, na direção da sepultura 38. Eu acompanhei com os olhos e então ouvi a voz. Não foi sonho, não foi pensamento, foi uma voz baixa perto do meu ouvido. Agora você sabe. Virei rápido. Não tinha ninguém. O procedimento para corrigir tudo levou quase um mês.
Foi preciso localizar a família de Sebastião, explicar a situação, pedir autorização formal, conferir documentos antigos, chamar representante da prefeitura e fazer tudo com respeito. Não foi uma coisa simples. E eu faço questão de dizer isso porque tem gente que acha que cemitério é bagunça, que é só abrir e mudar. Não é ali tem gente mesmo depois da morte ainda é gente.
Tem nome, tem história, tem família, tem memória. E tudo precisa ser tratado com cuidado. Durante esse mês, os sonhos pararam, mas o peso na quadra continuou. Eu passava pela ala e sentia. Não era o mesmo peso do começo, era uma espera, como se o lugar soubesse que a verdade já tinha aparecido, mas ainda faltava a última parte.
Dona Lúcia voltou ao cemitério algumas vezes nesse período. Na primeira vez, ficou parada diante dos três túmulos e chorou em silêncio. Não era um choro desesperado, era um choro antigo de coisa guardada por muitos anos. Então, minha mãe sabia. Ela disse, talvez sentisse. Respondi. Ela olhou para o túmulo de Alzira. Coitada.
Morreu achando que ia ficar perto dele. Eu não soube o que responder. No dia marcado para a correção, cheguei antes do sol nascer. A quadra de Santa Luzia estava coberta por uma neblina baixa. O cemitério inteiro parecia prender a respiração. O vigia abriu o portão para mim, sem dizer nada. Ele sabia. Todo mundo ali já sabia que aquele não era um serviço qualquer.
Os representantes chegaram por volta das 8. Veio o administrador, dois funcionários da prefeitura, um padre chamado Frei Augusto, dona Lúcia e um sobrinho de Sebastião. Os dois familiares assinaram os papéis. O padre fez uma oração curta, pedindo respeito por todos os envolvidos. Eu fiquei com a equipe responsável pelo procedimento.
Não vou entrar em detalhes porque não precisa. Só digo que tudo foi feito com cuidado, silêncio e dignidade. Quando a primeira confirmação apareceu, ninguém comemorou. Não era momento para isso. Apenas olhamos os documentos, as marcações antigas, os números e entendemos que o erro era real.
Vicente não estava onde a lápide dizia. Sebastião também não. Por mais de duas décadas, dois mortos tinham ocupado lugares trocados. Dona Lúcia levou a mão ao peito e fechou os olhos. “Meu Deus”, ela sussurrou. O sobrinho de Sebastião ficou sério, mas não pareceu revoltado. Ele disse apenas: “Então vamos pôr cada um no seu lugar”. Foi isso que fizemos.
A correção levou horas. O soliu, a neblina desapareceu e a quadra ficou clara. Mas mesmo com o movimento das pessoas, havia um silêncio diferente ali. Ninguém falava alto, ninguém fazia piada. Até os ajudantes mais novos pareciam entender que aquele serviço não era como os outros.
Quando tudo terminou, Vicente Lourenço Duarte foi colocado no jazigo correto ao lado de Alzira, conforme a família sempre havia desejado. A lápide foi retirada, limpa e recolocada no lugar certo. A de Sebastião também. Frei Augusto fez outra oração. Dona Lúcia colocou uma flor branca no túmulo do pai e outra no túmulo da mãe. Depois tirou da bolsa a fotografia antiga dos dois, aquela da igreja, e encostou por alguns segundos na lápide de Vicente.
“Pronto, pai”, ela disse chorando baixo. “Agora o Senhor está com ela.” Foi nesse momento que aconteceu. Eu estava a poucos passos segurando minha boina na mão. O sol já estava quente, mas senti um frio leve passar pela quadra. Não era o frio pesado dos outros dias, era diferente. Era como uma brisa limpa dessas que entram pela janela depois de muito tempo com a casa fechada.
A vela que dona Lúcia tinha acendido no túmulo de Alzira tremeu uma vez. Depois ficou reta, quieta, e aquele peso que estava ali desde o primeiro dia simplesmente foi embora. Não aos poucos, foi de uma vez. Eu senti no peito, senti no ar, senti no silêncio. O cemitério continuava sendo cemitério, claro, continuava tendo lápide, terra, cruz, saudade e nome gravado em pedra.
Mas aquela parte específica, aquele corredor não parecia mais preso em alguma coisa aniga. Era como se alguém tivesse soltado uma corda invisível que estava amarrada ali havia anos. Dona Lúcia olhou para mim. Eu acho que ela também sentiu porque não perguntou nada. só enxugou o rosto e ficou olhando para os túmulos dos pais agora lado a lado.
Naquela noite dormi sem medo pela primeira vez em semanas e sonhei uma última vez. Eu estava de novo na quadra de Santa Luzia, mas agora não havia neblina cinza, nem corredor comprido, nem peso no ar. Era fim de tarde. O céu estava claro com aquela luz mansa que aparece depois de um dia de chuva. Vicente estava parado ao lado de Azira.
Eu não via o rosto dela com nitidez, mas sabia que era ela. Os dois estavam de mãos dadas. Ele segurava o chapéu na outra mão, do mesmo jeito que nos sonhos anteriores. Ele olhou para mim e fez um aceno pequeno com a cabeça. Não disse nada, também não precisava. Quando acordei, eu sabia que tinha acabado. Depois daquele dia, a quadra de Santa Luzia mudou.
Não foi coisa que só eu percebi. O vigia comentou que as noites ficaram mais calmas. Nivaldo disse que não sentia mais arrepio quando passava por ali. As ferramentas pararam de aparecer fora do lugar. As flores de Alzira nunca mais amanheceram no corredor. Dona Lúcia voltou a visitar os pais todo o mês.
Nos primeiros tempos, ela sempre me procurava quando chegava. Depois, com o passar dos anos, a visita foi ficando mais silenciosa. Ela entrava, ia até os túmulos, limpava as duas lápides, trocava as flores e ia embora. Uma vez ela me disse: “Sabe, seu ar lindo, agora quando eu venho aqui eu sinto paz.” Eu respondi: “É isso que importa”. Ela sorriu com tristeza.
Minha mãe esperou muito. Eu fiquei olhando para os nomes gravados lado a lado. Vicente Lourenço Duarte, Azira Maria Duarte. Às vezes, dona Lúcia, o tempo dos mortos não é igual ao nosso. Ela não respondeu, só fez o sinal da cruz e foi embora. Continuei trabalhando naquele cemitério até me aposentar.
Vi muita coisa depois disso. Vi família que brigava por túmulo. Vi gente que nunca visitou os pais a aparecer só na hora de resolver documento. Viúva que conversava com lápide como se o marido ainda estivesse sentado na varanda. Vi criança levar desenho para avô enterrado. Vi homem forte desabar diante de uma cruz simples.
Mas nunca esqueci Vicente. Não porque foi a coisa mais assustadora que vivi. Não foi. Eu já ouvi barulho que não tinha explicação. Já vi sombra onde não tinha ninguém. Já senti peso em túmulo recém-fechado e já vi vela a apagar em dia sem vento. Mas o caso de Vicente ficou comigo por outro motivo. Ele não queria assustar, não queria castigar ninguém, não queria aparecer para fazer mal.
Ele só queria cumprir uma promessa. Queria ficar perto da mulher que amou em vida e que tinha pedido para descansar ao lado dele depois da morte. E isso para mim foi o que tornou tudo mais forte, porque às vezes a gente pensa que as coisas grandes são as que mais pesam: crime, segredo, culpa, maldade. Mas naquele caso não era nada disso.
Era um erro antigo, uma troca de número, uma anotação esquecida em um livro molhado pela chuva, uma falha pequena para quem olha de fora. Mas para ele não era pequena. Para ele era estar longe de quem tinha prometido nunca deixar. Hoje, com 76 anos, eu ainda passo de vez em quando perto do cemitério São Miguel.
Não trabalho mais lá. Minhas pernas já não ajudam como antes e minha esposa vive dizendo que eu tenho que parar de ficar voltando para lugar de serviço antigo. Mas às vezes eu vou, entro pelo portão devagar, cumprimento quem está na administração, caminho pela alameda principal e sigo até a quadra de Santa Luzia.
A reforma que fizemos naquela época já envelheceu. Algumas pedras voltaram a rachar. O mato sempre encontra um jeito de nascer onde a gente acha que não vai nascer mais. O tempo não respeita obra nenhuma, mas os túmulos de Vicente e Azira continuam lado a lado. Sempre que passo ali, tiro o chapéu, mesmo que ninguém esteja vendo.
Fico parado alguns segundos e lembro daquele sonho. Lembro da voz dele. Lembro da frase repetida sete noites. Eu estou no lugar errado e lembro do silêncio depois que tudo foi corrigido. Não sei explicar o que existe depois da morte. Não sou padre, não sou estudioso, não sou homem de teoria. Sou apenas um velho funcionário de cemitério que viu mais coisa do que consegue contar.
Mas uma coisa eu aprendi, às vezes os mortos não pedem muito, pedem só que a gente escute. Pedem que a gente respeite. Pedem que a gente corrija o que ficou torto. Pedem que os vivos façam a coisa certa. E quando isso acontece, até o silêncio do cemitério muda. Se você acredita que existem coisas que a gente não explica, mas sente, escreve aqui embaixo: “Eu acredito que Deus proteja você e sua família”.