1963: A casa construída sobre um CEMITÉRIO Antigo no Interior de MINAS GERAIS…

Ele parava a uns 10 passos da árvore, ficava choramingando baixo, arranhando a terra com a pata e com o pelo das costas todo arrepiado. Eu, na minha ignorância, achava que era algum ninho de cascavel debaixo da raiz e deixei para lá. No segundo dia, a gente começou a cavar o buraco para fazer a fundação do lado direito da casa, bem na direção de onde ficava o IP.

Lá pelo meio da tarde, um dos rapazes estava cavando fundo. De repente, a ferramenta dele bateu num negócio duro no meio da terra vermelha. Fez um barulho seco. O rapaz parou, agachou no buraco e limpou a terra com a mão. Quando ele levantou o rosto, tava branco que nem papel. Ele puxou o negócio para fora. Era um osso, um osso comprido, grosso, amarelado, de tanto tempo enterrado.

Eu cheguei perto da beirada do buraco, olhei para aquilo e tentei despistar o embaraço. Falei alto que devia ser canela de boi velho ou algum cavalo que quebrou a perna e morreu no pasto antigamente. Mas quem é criado na roça, matando porco e lidando com gado, conhece osso de bicho de longe. Os três rapazes pararam de bater enchada na mesma hora.

O vento até pareceu que esfriou. O seu Benedito, que era o trabalhador mais velho da turma, tirou o chapéu de palha, limpou o suor da testa com as costas da mão e falou bem baixo: “Seu agenor, com todo o respeito ao senhor, mas Boi não tem osso desse jeito. Isso aqui é osso de gente. Eu era teimoso.

O dinheiro que eu paguei na terra era o suor de anos de trabalho e o orgulho falou mais alto que o bom senso. Bati o pé. Mandei o povo continuar cavando. Falei que antigamente o povo enterrava qualquer um na beira da estrada e que a gente não ia parar o serviço por causa de resto de defunto velho. Antes do sol baixar de vez, eles acharam mais três ossos no mesmo buraco.

Tudo arrumadinho, no mesmo lugar. O seu Benedito largou a ferramenta e me chamou num canto da cerca. Ele disse que os mais velhos da cidade contavam histórias ruins daquele pedaço de estrada, que o povo que morria de doença braba em viagem no tempo antigo era enterrado ali mesmo, sem reza, sem cruz e sem caixão, para não levar a doença pra vila.

Falou que o antigo dono da terra com certeza sabia disso e me vendeu barato para se livrar do lugar. Eu escutei, senti um aperto ruim no peito, mas não dei ouvidos. Meu dinheiro tava ali. Mandei jogar a terra toda por cima de novo, socar bem com o pilão de madeira e continuar o serviço do alicerce em cima daquilo mesmo.

Nós levantamos a casa, tijolo, barro, telhavã e chão de tábua corrida nos quartos e no corredor. Mudei para lá no fim daquele mesmo ano com a minha mulher, a Lourdes e meus dois meninos pequenos, o Tião e o Tonho. Nos primeiros meses, a vida foi boa. o dia a dia da roça não tem segredo e ocupa a cabeça da gente. De manhãzinha, a Lourdes acendia o fogão à lenha, coava o café no coador de pano e o cheiro bom espalhava pela casa inteira.

Eu encostava a minha enchada na parede da varanda, ligava o rádio de válvula na mesa para escutar as notícias da manhã e ia pro terreiro tratar das galinhas. Era a vida que eu tinha pedido a Deus, mas não demorou muito pro clima do lugar começar a pesar. Primeiro foram umas coisas bobas, daquelas que a gente acha que é distração da cabeça.

A Lourdes vivia reclamando que a tesoura de costura sumia da mesa e aparecia jogada num tamborete no canto da sala. A colher de pau sumia da gaveta limpa e eu achava caída no meio do corredor. Depois o comportamento do trovão mudou. Ele, que era acostumado a dormir no pé da porta, na varanda, começou a dormir no meio do terreiro, no sereno frio.

Não entrava na casa e não pisava na varanda de jeito nenhum. A gente foi levando, fingindo que não era nada. Até que chegou uma noite de julho, um frio de rachar. Lá pelas 2 horas da madrugada, o rádio de válvula da sala ligou sozinho. Não era música, nem voz de locutor. Era só um chiado alto, um som de estática. seco, rasgando o silêncio da casa que fazia o dente da gente trincar.

Acordei assustado, olhei pro lado e a Lourdes continuava dormindo pesado, um sono tão fundo que parecia que ela estava dopada. Levantei da cama devagar, peguei a lamparina de querosene no criado mudo e risquei um fósforo. Fui pro corredor. O chão de tábua estava gelado, mas não era gelado de inverno.

Era um frio que subia pela canela da gente. Parecia que saía debaixo da terra. Quando cheguei na porta da sala, meus pés travaram. Eu não vi assombração de lençol flutuando nem cara de monstro na parede. O que eu vi me deu mais medo do que muito bicho bravo que já enfrentei no mato. As quatro cadeiras de madeira da nossa mesa de jantar tinham sido tiradas do lugar.

Elas estavam arrumadas numa fila certinha, uma do lado da outra, viradas de frente pro corredor escuro, olhando direto para mim. Era como se tivesse quatro pessoas sentadas ali no escuro em silêncio, só esperando eu levantar da cama. No mesmo momento em que eu parei de respirar, o rádio desligou, deu um estalo seco e calou.

A luz amarela da minha lamparina clareou um pedaço da parede da sala. Perto da janela tinha uma sombra preta, uma sombra alta, parada, que não se mexia. Senti um vento gelado bater bem no meu rosto, trazendo um cheiro forte de terra guardada, cheiro de raiz velha. Ali, segurando a lamparina tremendo, a minha teimosia acabou.

Eu vi que mexer com osso de gente traz um preço que o dinheiro não paga. Eu não voltei paraa cama naquela noite. Depois que vi as quatro cadeiras enfileiradas no escuro da sala e senti aquele cheiro de terra guardada, minhas pernas perderam a força. Fui pra cozinha, sentei no banco de madeira de frente pro fogão a lenha que estava apagado e fiquei ali.

Fiquei só olhando a chama da lamparina queimar, escutando o silêncio da casa e esperando o sol nascer. Quando o galo do vizinho cantou longe e a primeira luz do dia entrou pela fresta da janela, a Lourdes levantou. Eu escutei o chinelo dela arrastando no chão de tábua. Ela chegou na cozinha, amarrou o cabelo, olhou pro meu rosto pálido e depois deu uma espiada na sala. Ela viu as cadeiras.

Mulher de roça, não é de fazer escândalo. A Lourdes não deu grito, não saiu correndo e não me encheu de pergunta. Ela só soltou um suspiro pesado, balançou a cabeça e foi cuidar da obrigação. Pegou uns gravetos, acendeu o fogo e colocou a chaleira de ferro para ferver. Quando ela me entregou a caneca de café quente, ela botou a mão no meu ombro e falou baixo: “Agenor, tem mais gente morando aqui com nós. A nossa casa tá dividida.

Naquela mesma manhã eu não peguei na enchada, lavei o rosto no tanque, vesti minha camisa de botão que eu guardava para ir na missa e fui pra beira da estrada esperar a jardineira das 7 horas. Fui pra cidade procurar o padre Antônio. O padre Antônio era o vigário da nossa paróquia, um homem velho, já meio corcunda, de cabelo branco, que parecia algodão.

As mãos dele não eram mãos lisas de quem só mexe com papel. eram grossas, cheias de calo. Ele era padre, mas entendia da lida do campo e da cabeça do roceiro. Achei ele varrendo a calçada da igreja, sentei com ele no banco de cimento da praça e soltei tudo de uma vez. Falei do cachorro que não entrava na casa, do osso grande que a enchada bateu no alicerce, da minha teimosia de não parar a obra e, por fim, das cadeiras na madrugada.

O padre Antônio me escutou quieto, com o queixo apoiado no cabo da vassoura. Quando eu terminei, ele esfregou o rosto, olhou pro chão e falou: “A Genor, a terra cobra o que é dela. Quem foi jogado num buraco sem uma oração, sem uma cruz, não descansa. Esse povo não quer matar a sua família.

Eles estão perdidos no escuro e viram a luz da sua casa acesa. Mas de tarde eu passo lá pra gente benzer esse chão. Ele foi, chegou lá pelas 3 da tarde, andando devagar com a bolsinha de couro dele. A Lourdes tinha deixado a casa um brinco de limpa com cheiro de cera no chão. O padre tirou a água benta, rezou forte em cada cômodo, jogou água nos cantos das paredes e pediu para Deus acalmar quem tivesse penando ali.

Quando ele foi embora, a casa parecia que tinha respirado. O ar ficou mais leve. Ficou tudo tranquilo por uns três dias. A paz voltou pro nosso canto. O trovão até voltou a deitar na beirada da varanda de noite. A Lourdes voltou a cantarolar enquanto lavava roupa no tanque e eu fui cuidar da minha roça de milho com o peito aliviado.

Eu achei de verdade que a água benta do padre Antônio tinha resolvido a nossa vida. Mas assombração quando cala de vez, muitas vezes é só porque tá pegando fôlego. Na quarta noite, depois da visita do padre, o terror voltou diferente. Eu acordei de madrugada sentindo um cheiro esquisito no quarto. Não era cheiro de terra seca.

A casa inteira estava cheirando a barranco molhado depois de chuva forte, misturado com um cheiro doce, enjoativo, de flor murcha. Olhei pela fresta da janela. Lá fora não tava chovendo, o céu estava limpo, cheio de estrela. Aí o barulho começou noalho do corredor. Era um som de pé arrastando na madeira, mas não era passo de gente normal andando.

Parecia que a pessoa não conseguia levantar a perna direita, como se tivesse puxando um peso morto pelo chão da minha casa. Levantei devagarzinho para não acordar a Lourdes. Peguei minha lanterna de pilha. Quando eu cheguei no corredor, não tinha ninguém. Tudo vazio, mas a porta da frente da casa, aquela mesma que eu trancava na chave e ainda passava um ferrolho grosso de ferro, estava aberta de par em par, escancarada pro terreiro.

Fui andando até a varanda com o coração batendo na garganta. O trovão estava encolhido debaixo do tanque de bater roupa, chorando fininho, com o focinho escondido no meio das patas. Olhei pro fundo do quintal, lá onde a cerca encontrava com o mato. Debaixo do pé de IP tinha um vulto parado na escuridão. Era só uma sombra preta no meio da noite, mas eu sentia o olhar daquilo cravado em mim, um olhar que pesava.

Tranquei a porta de novo, rezei um Pai Nosso tremendo e esperei o dia clarear. Mas o pior daquela noite ainda não tinha passado. O pior veio de manhã na mesa da cozinha. A gente estava tomando café. A Lourdes tinha feito um bolo de fubá. Meu filho mais velho, o Tiãozinho, que devia ter uns 7 anos na época, estava comendo quieto.

De repente, ele parou de mastigar, olhou bem para mim e perguntou na maior inocência do mundo: “Pai, o senhor não vai mandar o vovô de chapéu rasgado ir embora, não?” Ele passou a noite inteira parado na porta do nosso quarto, olhando eu e o Ton dormir. O pedaço de bolo quase entalou na minha garganta. A Lourdes deixou a caneca cair na mesa e derramou café na toalha.

A bênção do padre Antônio não tinha expulsado ninguém da nossa casa, só tinha deixado a coisa mais teimosa. Eu não pensei duas vezes. Larguei o café, botei o chapéu na cabeça e fui correndo de volta pra igreja. Quando contei o que o menino viu, o padre Antônio mudou a feição. Ele ficou muito sério.

Ele cruzou os braços e me disse: “Agenor, água benta limpa o ar da casa, mas não arranca o que tá fincado nas profundezas da terra. Eu vou ter que chamar o padre José da paróquia vizinha. Nós vamos ter que fazer uma novena de libertação, nove noites de reza pesada dentro da sua sala. Mas o Senhor se prepare.

Quando a gente bota uma luz muito forte no escuro, o que tá escondido lá não vai embora sem dar briga. Aquele foi o dia que eu vi que assombração não tem medo de padre se a conta dela for com a terra. Quando a coisa tá enterrada debaixo do seu teto, a reza tem que ser muito mais dura. E as nove noites que vieram pela frente, olha, eu não desejo aquilo nem pro meu pior inimigo.

Na segunda-feira, bem cedo, eu já tava no terreiro rachando lenha pro fogão quando escutei o barulho do motor. Uma caminhonete velha parou na frente da nossa porteira e levantou aquela nuvem de poeira vermelha. O padre Antônio desceu do lado do passageiro e do lado do motorista desceu o padre José. Eu nunca tinha visto o padre José.

Ele era o vigário da paróquia lá da cidade vizinha. Era um homem bem diferente do padre Antônio. Era mais moço. Usava um óculos de grau com lente grossa, fundo de garrafa e andava com a coluna reta. Parecia até militar. Ele não tinha aquele jeito de prosa mole da roça. Desceu do carro segurando um livro velho de capa preta debaixo do braço.

Olhou pros cantos da casa, fez o sinal da cruz rápido e já mandou a gente arrumar a mesa da sala. A Lourdes tinha matado um frango e deixado a casa toda limpa. Ela foi na gaveta, pegou a melhor toalha branca que a gente tinha daquelas engomadas e esticou na mesa. Colocou uma imagem de Nossa Senhora aparecida no meio e duas velas de cebo.

Foi ali com a porta da frente trancada e a janela encostada que a nossa novena começou. Eu vou falar uma verdade para vocês que muita gente não entende. Assombração de verdade não é igual filme de cinema. Não teve gritaria, não teve prato voando pela cozinha, nem porta batendo sozinha. O medo de verdade na roça é quieto e ele cansa a gente.

Ele suga a energia do corpo. Nas três primeiras noites, a gente ajoelhava no chão de tábua e começava a rezar. Parecia que a voz da gente não saía da sala. O ar ficava pesado, grosso, difícil de puxar pro pulmão. A Lourdes deixava o fogão a lenha aceso no máximo lá na cozinha. O calor devia espalhar, mas na sala o frio era de doer os ossos.

Era um frio tão esquisito que a gente via a fumaça da respiração saindo da boca da gente enquanto rezava o Pai Nosso. O padre José lia aquele livro dele em latim. Ele suava frio na testa. As velas que a Lourdes colocou não apagavam. Mas quando a rea apertava, a chama ficava tão miudinha que parecia um pingo azul em cima do pavio.

Era a única luz que a gente tinha. Enquanto o padre rezava, a gente escutava uns estalos no telhado da casa. Te como se tivesse menino escondido no escuro jogando pedrinha na nossa telha. E o nosso cachorro, o trovão, que era bicho valente, sumiu. Ele fugiu pro meio do mato e passava a noite inteira uivando de longe, morrendo de medo de chegar perto do terreiro.

A gente rezava, dormia mal e de dia, ia trabalhar na roça com o corpo moído. O joelho da gente estava roxo de ficar no chão duro, mas a coisa mudou de figura mesmo. Foi na sexta noite de novena. Era quase meia-noite. A gente estava no meio do terço. A chama das duas velas baixou quase sumindo de novo, e o frio apertou.

De repente, a Lourdes parou de responder a reza. Eu abri o olho e olhei para ela. Ela estava de joelho, com o terço apertado na mão, mas estava virada pra janela da sala que dava pro nosso quintal. E ela começou a chorar. Só que não era choro de susto. Mulher quando assusta, o choro é desesperado. O choro da minha mulher era de dó, um choro doído, sentido.

Eu parei de rezar e olhei pra janela também. A fresta da madeira estava aberta. Lá fora tinha começado a cair uma chuvinha fina, aquela garua fria de julho. E lá, debaixo do sereno, no meio do quintal, tava o dono da sombra. Era um homem, um lavrador. A luz da vela da sala clarea só um pedaço dele lá fora. Ele estava vestido com umas roupas de algodão cru que o povo antigo usava, mas estava tudo rasgado, sujo de barro.

O pé dele estava descalço na terra molhada. Na cabeça, ele usava um chapéu de palha muito velho, caindo em cima do rosto, igual o meu menino tinha falado. Ele não tava com cara de monstro e nem tentou forçar a porta para entrar na casa. Ele estava só parado, de cabeça baixa, com os ombros encolhidos. Ele tomava aquela chuva fina e escutava a nossa reza calado.

Quando eu bati o olho naquilo, o medo que eu tinha sumiu. Aquele homem parecia a pessoa mais sozinha e cansada do mundo. Ali eu entendi tudo. Aquilo não era bicho ruim querendo levar minha família. Era só um coitado que tinha ficado para trás no mundo e não sabia o caminho de casa. Depois daquela sexta noite, a casa mudou.

foi ficando mais leve. O frio no açoalho foi passando e a chama da vela subiu de novo, queimando forte e amarela. Na oitava noite, o trovão voltou do mato e deitou na varanda. Na nona e última noite, quando o padre Antônio fechou o sinal da cruz, um silêncio muito gostoso tomou conta da nossa sala. Um silêncio de paz. A Lourdes foi pra cozinha, esquentou o café e trouxe uma fornada de pão de queijo pros padres.

O padre José, que era mais calado e não bebia café, guardou o livro dele, limpou os óculos na batina, deu boa noite e foi sentar na caminhonete. Eu fui levar o padre Antônio até a varanda. Ele colocou o chapéu, olhou pro fundo do meu quintal, lá pro lado do pé de IP, e apertou o meu ombro. Ele falou mansinho. Agenor, a sua casa tá limpa, mas preste bem atenção no que eu vou te falar.

A rea tirou o desespero de cima da sua família, mas a terra ainda tem dono. Aquele homem que vocês viram tomando chuva não vai ter o descanso final dele enquanto ninguém souber quem ele foi. A água benta e a bênção não apagam o passado de ninguém. Ele desceu o degrau e foi embora na caminhonete. Eu fiquei ali na varanda enrolado num casaco, olhando pro pé de IP, balançando no vento.

Eu sabia que se eu quisesse paz de verdade pro resto da minha vida e pros meus meninos, eu ia ter que descobrir quem era o dono daquele osso que minha enchada desenterrou. Os dias foram passando e a nossa rotina voltou ao normal. A vida na roça não espera a cabeça da gente esfriar. O mato cresce e a enchada tem que comer solta.

O milho já estava penduando, bonito que dava gosto de ver. Dentro de casa, a Lourdes já andava pelos cômodos à noite, sem aquele medo nos olhos. O rádio de válvula agora só tocava a viola do Tião Carreiro de manhã cedinho, sem dar um estalo sequer de madrugada. A paz parecia que tinha voltado de vez pro nosso pedaço de chão, mas eu não estava em paz.

Quando eu deitava a cabeça no travesseiro de palha, a fala do padre Antônio não saía do meu juízo. Ele disse que o passado não apaga com água benta e eu ficava lembrando daquele homem na chuva. Aquele fantasma com o chapéu de palha rasgado, não queria me fazer mal. Ele não queria assustar meus meninos. Ele só queria existir para alguém no mundo, já que ninguém rezou por ele quando ele se foi.

Quando chegou o sábado, eu decidi que ia resolver essa história. Tomei um banho de bacia, vesti minha calça limpa, passei uma água no cabelo e fui a pé até o povoado. Eu não ia na prefeitura procurar papel velho ou registro em cartório. Rosseiro, quando quer saber do passado de alguma terra, vai onde a conversa corre livre.

Fui direto na venda do seu Tião. A venda era aquele armazém antigo que tinha em toda a vila. O chão era de cimento queimado, meio esburacado, e as prateleiras de madeira iam até o teto, cheias de lata de óleo, arreio de cavalo, sabão em barra e panela de ferro. O lugar tinha um cheiro forte, uma mistura de fumo de corda, milho seco e cachaça de alambique.

No sábado de manhã, os mais velhos da região juntavam tudo na varanda da venda. Sentavam nos bancos de madeira para jogar prosa fora. Entrei, pedi um guaraná de garrafa de vidro no balcão e fui pra varanda. Sentei no meio da roda de velhos. Fiquei quieto um tempão. Fiquei só escutando o povo falar de falta de chuva, de preço de bezerro na feira e de cerca arrebentada.

Quando o assunto foi morrendo e o silêncio bateu, eu tirei o meu canivete do bolso, cortei um pedaço de fumo de rolo, olhei pro grupo e soltei a minha pergunta. Ô gente, me tira uma dúvida aqui. Alguém do tempo mais antigo lembra daquele pedaço de terra onde eu fiz a minha casa? aquele lote antes do seu Otávio me vender.

A roda de conversa calou na hora. Até o seu Tião, que estava lá dentro limpando o balcão com um pano úmido, parou o serviço para escutar. O seu Zezé era o homem mais velho daquela roda. Ele devia beirar os 90 anos na época. Era cego do olho esquerdo e tinha a mão direita toda torta de tanto bater inchada e machado na juventude. Ele parou de mascar o fumo, deu uma cuspida no chão de terra seca do lado de fora da varanda, balançou a cabeça e deu uma risadinha sem vontade.

“Lá onde tem aquele IP amarelo grande perto da divisa?” O seu Zezé perguntou com a voz falhando. Aquilo lá, no meu tempo de moço, a gente não chamava de lote não, seu agenor. A gente chamava aquele pedaço de parada do desespero. Senti um calafrio subir na nuca. O guaraná até perdeu o gosto doce. E por que esse nome tão feio, seu Zezé? Eu perguntei, segurando o canivete.

O velho encostou as costas na parede de tijolo da venda, ajeitou o chapéu na cabeça e começou a desenrolar a história. Isso foi lá pelo ano de 1932 a Genor. Deu uma febre feia nas bandas do norte, um surto de tifo e febre amarela que pegava o povo igual fogo quando pega em mato seco. Os retirantes vinham descendo a pé pelas estradas de terra, fugindo da morte lá das bandas da Bahia, caçando um lugar para trabalhar e um prato de comida.

Ele apontou o dedo torto na direção da estrada que cortava o povoado. A prefeitura da nossa cidade, com medo da doença chegar aqui no centro e matar os ricos, mandou a polícia bloquear a rodagem. Ninguém que vinha de fora entrava. O bloqueio foi feito bem ali, naquele trecho de estrada onde é a sua casa hoje.

Os retirantes que chegavam doentes, fracos de fome, ficavam parados ali. Não podiam ir pra frente e não tinham força para voltar para trás. Seu Zezé deu uma pausa para respirar. O silêncio na varanda era tanto que dava para escutar o zumbido de uma mosca varejeira na lata de lixo. Quem caía morto ali no acostamento ficava ali mesmo.

A ordem do prefeito era enterrar no próprio barranco da estrada para não espalhar o contágio na cidade. Sem caixão, sem vela, sem pano, só jogava a terra por cima. Eu engoli seco. Aquele osso que o rapaz achou no primeiro dia de serviço não era de alguém que morreu de velice, era de alguém que morreu de fome e doença, barrado na beira do caminho.

Eu perguntei com a voz meio espremida: “E quem é que enterrava esse povo, seu Zezé?” O velho me olhou com o olho bom dele, bem no fundo da minha alma. A prefeitura pagava um homem para fazer o serviço sujo. O encarregado de abrir os buracos na terra e esconder os defuntos era o pai do seu Otávio. O mesmo homem que deixou aquela terra de herança pro filho te vender anos depois.

Eu levantei do banco devagar, agradeci o seu Zezé, deixei o dinheiro do guaraná em cima do balcão e saí da venda apertando o passo. O sol já estava quente, mas eu não sentia calor. A primeira peça da história daquele homem que chorava na chuva estava na minha mão, mas faltava a pior parte. E quem ia ter que me contar, olhando no meu olho, era o seu Otávio.

Saí da venda do seu Tião, com a cabeça fervendo de pensamento. O caminho até o sítio do seu Otávio dava uns 2 km de estrada de terra, mas eu fui a pé mesmo, batendo a bota no chão duro. O sol de meio-dia estava castigando as costas, mas eu não ligava pro calor. Eu precisava tirar aquela história a limpo. precisava limpar o nome da minha terra e dar um fim naquele sofrimento todo.

Seu Otávio morava num pedaço de terra mais para baixo do morro. Era uma casinha de pau a pique simples, daquelas antigas, com o telhado de sapê já meio caído para um lado. O cachorro dele, um vira lata preto e magrelo, latiu quando eu cheguei na porteira de arame farpado. Olhei pro terreiro e vi o seu Otávio no meio da poeira.

Ele estava batendo feijão seco com uma vara de bambu comprida. O barulho do pau instalando no feijão parou na mesma hora que ele levantou a cabeça e me viu ali na porteira. O homem amarelou na hora. Ficou da cor de uma espiga de milho seca. A vara de bambu escorregou da mão dele e caiu no chão de terra. Ele já sabia o que eu ia perguntar.

Cidade pequena não guarda segredo muito tempo, muito menos segredo de defunto mal enterrado. Eu abri a porteira bem devagar, fechando o arame atrás de mim, para não deixar nenhum bezerro escapar pro mato. Fui chegando perto dele. Não levantei a voz, não apontei o dedo na cara. Homem criado na roça sabe cobrar as coisas sem precisar gritar.

Seu Otávio! Eu falei parando a uns três passos dele. Eu não vim aqui brigar com o senhor, não. O dinheiro que eu paguei na sua terra tá pago, o recibo tá no meu bolso, a casa de tijolo tá levantada e os meus meninos estão dormindo lá dentro. Não quero confusão e não vou pedir um centavo de volta. Mas eu vim da venda do seu Tião agora.

O seu Zezé me contou da barreira da prefeitura e da febre amarela do ano de 32. E eu já vi com os meus próprios olhos, quem é que tá morando debaixo do pé de IP, no meu quintal. Eu só preciso que o senhor me conte. O seu Otávio não aguentou sustentar o olhar no meu. Ele baixou a cabeça, sentou num toco grosso de aeira que tinha ali no quintal e tirou o chapéu de palha.

Eu vi o olho do homem encher de lágrima grossa. Agenor, o Senhor me perdoa! Ele falou com a voz tremendo, esfregando o chapéu na mão calejada. Eu vendi aquele pedaço de terra barato porque eu não tinha coragem nem de passar na frente a cavalo. O meu pai morreu já faz uns 10 anos, mas o velho nunca teve paz na vida por causa do que ele fez ali.

Deixou a terra para mim de herança, mas parece que deixou foi um fardo para eu carregar. Ele limpou o nariz na manga da camisa de botão, puxou o ar fundo e começou a contar o que faltava da história. E cada palavra que saía da boca dele era uma peça que se encaixava na minha cabeça. Naquele ano da febre feia, o seu Otávio explicou, olhando pro mato, quando o meu pai cuidava de impedir o povo de passar na estrada, apareceu uma família de retirante ali.

Vinham andando lá do sertão da Bahia. Era o pai, a mãe e dois meninos pequenos. Os meninos deviam ter a idade dos seus moleques hoje. A família inteira chegou ali no acostamento doente da febre. Como a criança não tem a sustância do adulto, a doença pegou os dois meninos primeiro. Morreram os dois num domingo de tarde. O cachorro preto chegou perto e deitou no pé do seu Otávio.

Ele fez um carinho na orelha do bicho, engoliu em seco e continuou. A mãe das crianças não aguentou o tranco. De tanto chorar em cima do corpo dos filhos, sentada na terra, a febre piorou. Ela morreu na terça-feira. O homem, o pai da família, estava fraco da doença e com a barriga vazia, mas ainda tinha força de pai.

Ele cavou um buraco raso com as mãos e um pedaço de pau. Enterrou a mulher e os dois filhos ali na beira do mato. Só que no dia seguinte, de tanto esforço e tristeza, o corpo dele não aguentou. Ele caiu morto também. O seu Otávio olhou pro chão de terra, morrendo de vergonha da atitude do próprio sangue. Meu pai era o encarregado da prefeitura para dar sumiço nos corpos.

Aquela família de baiano não tinha um documento, não tinha parente e não tinha um cruzeiro no bolso. Meu pai não quis perder tempo, suando a camisa para abrir cova separada. Ele abriu uma vala só, bem funda, debaixo da raiz daquele IP amarelo. Jogou os quatro lá dentro, o pai de chapéu de palha, a mãe e os dois meninos. Tudo amontoado num buraco só.

jogou terra por cima, bateu o pé para esconder a cova e foi embora beber pinga no armazém. Ninguém rezou um terço, ninguém acendeu uma vela por eles. Eu escutei aquilo e o meu peito apertou de uma dor que não era minha. Aquele vulto na chuva, as quatro cadeiras enfileiradas na minha mesa da sala, era a família inteira arrumada no escuro.

Fui embora do sítio do seu Otávio, sem falar mais nenhuma palavra. Cheguei em casa no fim da tarde. O sol já estava baixando, pintando o céu de vermelho e as galinhas já estavam subindo no poleiro para dormir. Quando pisei na varanda, senti o cheiro bom de fumaça. A Lourde estava passando o café de fim de tarde no fogão à lenha.

O trovão veio me receber na porta, abanando o rabo frouxo. Entrei na cozinha, pendurei o meu chapéu no prego da parede, sentei no banco da mesa e contei tudo para ela. Falei do pai, da mãe e dos dois meninos que a minha enchada tinha acordado lá no alicerce. A Lourdes escutou quieta. Ela me entregou a caneca de esmalte com o café quente, sentou do meu lado e ficou um tempão calada.

Depois ela arrumou o avental no colo, olhou nos meus olhos e falou com aquela firmeza que só mulher de roça tem. Agenor, cemitério a gente faz no pátio da igreja, não no quintal de casa. A gente não vai fincar cruz de madeira na nossa terra, porque cruz e túmulo só chama a tristeza e o luto de volta. Os nossos meninos precisam brincar nesse terreiro sem medo.

O que essa família de baiano precisa é do que o pai do Otávio roubou deles há 30 anos. Eu dei um gole no café que desceu quente, queimando a garganta, e perguntei: “E o que a gente vai fazer então, Lurtes?” Ela respondeu sem gaguejar. Eles precisam de respeito. Precisam saber que não são resto de bicho.

Nós vamos dar para eles uma despedida de gente. No sábado seguinte, bem na tardezinha, o sol já estava quase sumindo atrás do morro. A temperatura começou a cair, aquela brisa fresca de julho que desce do mato. A Lourdes pegou uma vassourinha de mato lá no fundo da cozinha e foi direto pro nosso quintal, bem embaixo do pé de IP amarelo.

Ela varreu o chão de terra batida com o maior cuidado do mundo. Tirou as folhas secas, os gravetos caídos e deixou a terra vermelha limpa, redondinha, parecendo o piso de uma capela. O trovão foi atrás dela, mas dessa vez ele não latiu, não ficou com o pelo arrepiado e nem choramingou. Ele deitou no chão, encostou a cabeça nas patas, bem pertinho da árvore, e ficou quietinho, só olhando a gente trabalhar.

Eu fui logo atrás com os meus dois meninos, o Tião e o Tonho. No bolso da minha calça de brin, eu tinha colocado quatro velas brancas novas, grossas, daquelas que a gente comprava na venda para usar em dia de novena. Nós quatro nos ajoelhamos ali na terra limpa do nosso quintal, a poucos metros da janela da cozinha.

Eu tirei o fósforo do bolso, risquei e acendi a primeira vela branca. Espetei ela bem firme no chão de terra vermelha. Falei baixinho: “Isso aqui é pro pai, para quem aguentou o peso do mundo sozinho.” Depois acendi a segunda vela do lado e disse: “Isso aqui é pra mãe que chorou os filhos e descansou com eles.

E por fim acendi as outras duas velas mais miudinhas, uma do lado da outra. E essas duas são pro par de anjinhos que foram cedo demais. A luz das quatro velas amarelas subiu, cortando a penumbra que começava a deitar embaixo da árvore. O tronco grosso do IP parecia que ganhava vida com aquele clarão. A Lourdes tirou o terço de contas de madeira escura do bolso do avental.

Ela passou o fio nas mãos calejadas, fechou os olhos e a gente começou a rezar sem pressa no ritmo da roça. A cada Pai Nosso que a gente rezava, a Lourdes pedia para Deus olhar com bondade para aquela família de retirantes que tinha ficado perdida na estrada. Ela pedia perdão pelo desrespeito de quem enterrou eles como lixo e pedia pra alma daquele pai, daquela mãe e dos dois meninos encontrar o rumo da luz.

Eu respondia a reza, prestando atenção no silêncio que foi descendo sobre o mato. As cigarras tinham até parado de cantar. No meio da última dezena do terço, o vento mudou de direção. Não deu barulho feio. O rádio na sala não chiou. A casa continuou firme. Foi só um vento morno, um bafo de ar doce que bateu na copa do IP amarelo.

Os galhos da árvore balançaram de leve e uma chuva de folhinha amarela começou a cair bem devagar em cima de nós, cobrindo o chão e as velas igualzinho a um tapete de ouro. Eu levantei os olhos e olhei em direção à cerca do quintal, onde o pasto escuro começava. Lá estava ele, o lavrador.

Ele estava parado na beirada da luz da vela, mas ele não estava com a cara triste de antigamente, nem com as costas curvadas. Ele estava de pé, com o corpo firme, vestido com aquela roupa simples de algodão. Ele tirou o chapéu de palha esburacado da cabeça com a mão direita e colocou no peito. Ele olhou bem nos meus olhos. Eu vi que o rosto dele tinha mudado, estava com uma paz bonita.

de quem finalmente podia descansar os pés cansados. Ele deu um aceno de cabeça muito devagar para mim, para Lourdes e pros meus dois meninos. Depois disso, a imagem dele foi desmanchando no vento, virando fumaça e poeira brilhante, até sumir de vez na escuridão da noite. O trovão deu um suspiro comprido no chão, fechou os olhos e dormiu sossegado.

Naquele exato segundo, eu senti no meu peito que Deus tinha colocado tudo no lugar certo de novo. Os anos foram passando como água de córrego. Meus meninos cresceram, viraram homens, casaram e ganharam a vida deles. Eu fui envelhecendo, o cabelo ficou branco, a vista ficou fraca para enxergar a linha da agulha, mas a nossa roça nunca deixou faltar nada na mesa. A casa de tijolo continuou firme.

Nunca mais uma colher sumiu da gaveta. Nunca mais uma cadeira arrastou no corredor e nunca mais o rádio deu um pio fora de hora. O medo foi embora pelo mesmo caminho que chegou. Hoje o IP amarelo tá enorme, faz uma sombra que cobre metade do terreiro e os meus netos passam correndo por baixo dele o dia inteiro, jogando bola e brincando de pega pega.

Eles não sabem da história e eu prefiro deixar assim para não assustar a infância deles. Mas depois daquele dia, nunca mais encostei uma enchada ou uma pá naquele pedaço de terra. Aquilo virou solo sagrado. Tem um costume que eu nunca perco, nem quando a chuva aperta. Todo ano no dia de finados, a Lourdes passa um café bem forte logo cedo e de tardezinha a gente vai lá pro pé da árvore.

Eu acendo quatro velas na terra vermelha, escuto o barulho do vento nos galhos e faço uma oração em silêncio. Você pode acreditar ou não nas coisas que eu te contei aqui, mas o que a vida na roça me ensinou é que a gente compra o título de um pedaço de chão, mas nunca compra a alma e a história dele. E quer saber de uma coisa? Um pingo de respeito e uma reza sincera valem muito mais do que um rio inteiro de água benta.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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