(1884, Uberaba) O Horripilante Caso da Família Tormin
O vaqueiro Benedito Silva, que trabalhava na fazenda dos Oliveira, situada do outro lado da mata que separava as propriedades, declarou em depoimento posterior que por várias noites consecutivas ouviu um barulho como de madeira sendo arrastada no chão, vindo sempre depois da meia-noite. As visitas à propriedade Tormim tornaram-se ainda mais esparças durante esse período.
Manuel Santos anotou em seu livro de vendas que entre os dias 10 de abril e 20 de maio, nenhum membro da família apareceu em sua venda. Quando questionado sobre a ausência prolongada, Santos registrou: “É gente esquisita, sempre foram, mas agora até os cachorros param de latir quando passo perto da entrada da fazenda deles.
” O vigário da igreja do Rosário, padre Joaquim Alves de Melo, tentou por duas vezes visitar a família durante esse período, conforme anotado no livro de Registros paroquiais. Em ambas as ocasiões encontrou a casa aparentemente vazia, embora sinais evidentes de ocupação fossem visíveis. Roupas no varal, animais nos currais, uma pequena fogueira ainda fumegando próxima à cozinha externa.
Em sua segunda tentativa de visita ocorrida em 28 de maio, padre Joaquim relatou ter encontrado a porta da frente entreaberta. Ao chamar pelos moradores, ouviu o que descreveu como um arrastar de pés no interior da casa, muito lento, como se alguém arrastasse alguma coisa pesada pelo chão de tábuas. Aguardou por alguns minutos, mas ninguém atendeu ao seu chamado.
O acontecimento que marcaria definitivamente a história da família Tormim ocorreu na madrugada de 3 de junho de 1884. Benedito Silva, o vaqueiro que morava numa casa de pau a pique, a cerca de 2 km da sede da fazenda Tormim, foi despertado por sons que ele posteriormente descreveria como o barulho mais apavorante que já escutei em toda a minha vida.
Segundo seu relato, registrado três dias depois pelo escrivão da vila, Benedito ouviu inicialmente o que parecia ser o som de móveis sendo arrastados violentamente pelo chão de madeira. Em seguida, gritos agudos que duraram aproximadamente 15 minutos. Não eram gritos de dor”, declarou o vaqueiro. “E gritos de medo, como de gente que viu algo que não devia ter visto.
” O silêncio que se seguiu foi descrito por Benedito como mais assustador que os próprios gritos. Durante toda a madrugada, nenhum ruído veio da direção da fazenda Tormim, nem mesmo os ruídos naturais da noite, grilos, corujas, o vento nas folhas das árvores. Era como se até os bichos tivessem morrido de medo”, relatou. Na manhã seguinte, quando o sol já estava alto, Benedito decidiu verificar pessoalmente o que havia acontecido.
Carregando sua espingarda de caça e acompanhado por seus dois cães de estimação, dirigiu-se à propriedade vizinha, seguindo uma trilha que cortava a mata entre as duas fazendas. O primeiro sinal de que algo estava profundamente errado foi o comportamento dos animais. Os cães de Benedito, normalmente corajosos e destemidos, pararam abruptamente a cerca de 100 m da casa principal.
Ambos começaram a ganir baixinho e a recuar com os pelos eriçados. Por mais que o vaqueiro tentasse, não conseguiu fazer com que os animais se aproximassem mais da residência. Continuando sozinho, Benedito notou que o silêncio era absoluto. Nenhum galo cantava, nenhuma galinha ciscava pelo terreiro. Os currais, que deveriam estar cheios de gado, encontravam-se vazios.

As porteiras estavam abertas, mas não havia sinais dos animais nos pastos circundantes. A casa apresentava uma aparência estranha. As janelas estavam todas fechadas, o que era incomum para aquela época do ano. A porta da frente permanecia entreaberta, balançando levemente com a brisa matinal. No terreiro da frente, Benedito observou marcas estranhas na terra, sucos profundos, como se algo pesado tivesse sido arrastado em círculos.
Ao se aproximar da varanda, o vaqueiro notou que as tábuas do assoalho apresentavam manchas escuras que se estendiam desde a porta até a extremidade oposta da construção. As manchas formavam um padrão irregular, como se algo tivesse vazado abundantemente e [limpando a garganta] depois sido parcialmente limpo.
Benedito chamou pelos moradores da casa, mas sua voz ecoou vazia no interior silencioso. aguardou alguns minutos e chamou novamente. Desta vez, ouviu um som fraco vindo do interior, um arrastar lento e constante, como se alguém estivesse se movimentando com grande dificuldade. “Seu Sebastião, dona Francisca”, gritou o vaqueiro, mas não houve resposta verbal, apenas o mesmo som de arraste que parecia se mover de um cômodo para outro no interior da casa.
Dominado por um crescente sentimento de apreensão, Benedito decidiu entrar na residência. A porta principal abria diretamente para uma sala ampla, mobiliada com uma mesa grande de madeira maciça, algumas cadeiras de palinha e um aparador encostado numa das paredes. O chão de tábuas largas estava coberto por uma fina camada de poeira, exceto por uma trilha de marcas que levava da porta de entrada até uma porta fechada no fundo da sala.
As marcas no chão eram perturbadoras. Não se tratava de pegadas humanas normais, mas sim de sucos contínuos, como se alguém fosse incapaz de levantar os pés ao caminhar. Havia também gotículos escuros ao longo dessa trilha, já ressecados pelo tempo. O som de Arraste havia parado assim que Benedito entrou na casa.
O silêncio era tão denso que ele podia ouvir sua própria respiração e os batimentos acelerados de seu coração. As paredes de taipa, caiadas de branco, refletiam a luz que entrava pelas frestas das janelas fechadas, criando padrões de sombras que pareciam se mover quando observados de soslaio. Benedito chamou mais uma vez pelos moradores com a voz já rouca de nervosismo.
Desta vez ouviu uma resposta. Um gemido baixo e prolongado, vindo da direção da porta fechada no fundo da sala. Não era um gemido de dor física, mas algo que soava como desespero contido, como o som que alguém faz quando tenta falar, mas não consegue formar palavras. Segurando firmemente sua espingarda, o vaqueiro aproximou-se da porta fechada.
A maçaneta de ferro estava fria ao toque e girou facilmente. A porta abriu-se para um corredor estreito que levava aos quartos da família. O cheiro que emanava do corredor era forte e desagradável, uma mistura de mofo, suor e algo mais que Benedito não conseguia identificar. As marcas de arraste continuavam pelo corredor, dirigindo-se para a última porta à esquerda.
Benedito seguiu as marcas lentamente, testando cada tábua do açoalho antes de transferir seu peso completamente. Algumas das tábuas gemiam sob seus pés, produzindo estalos secos que ecoavam nas paredes do corredor. Ao chegar à porta do quarto, Benedito ouviu novamente o gemido baixo, agora mais próximo e mais claro. Era definitivamente uma voz humana, mas distorcida, como se a pessoa estivesse tentando falar através de um obstáculo.
O vaqueiro encostou o ouvido na porta de madeira e ouviu também uma respiração pesada e irregular. “Tem alguém aí dentro?”, perguntou Benedito, mantendo a voz baixa. A respiração do outro lado da porta parou instantaneamente. Seguiu-se um silêncio absoluto que durou vários minutos. Em seguida, o som de arraste recomeçou, mas desta vez afastando-se da porta, como se quem estivesse do outro lado tivesse recuado para o fundo do quarto.
Com crescente apreensão, Benedito testou a maçaneta da porta do quarto. Estava destrancada. empurrou a porta lentamente, permitindo que a luz do corredor penetrasse gradualmente no interior do aposento. O quarto estava mergulhado em penumbra, com as janelas hermeticamente fechadas. O ar estava viciado e quente, impregnado pelo mesmo cheiro estranho que Benedito havia sentido no corredor.
Ao fundo do quarto, próximo a uma cama desarrumada, ele pôde distinguir uma forma humana agachada no chão. A figura estava de costas para a porta, balançando-se lentamente de um lado para outro. Seus cabelos, que pareciam ser de uma mulher, estavam embaraçados e sujos. Ela vestia o que restava de uma camisola branca, agora rasgada e manchada.
Seus pés descalços apresentavam ferimentos que explicavam as marcas de sangue no chão. “Dona Francisca”, chamou Benedito baixinho, mas a figura não respondeu nem se virou. continuou balançando-se, produzindo um gemido baixo e contínuo, que mais parecia um lamento animal do que um som humano. Benedito deu mais um passo para dentro do quarto e pode ver melhor o estado da mulher.
Suas mãos estavam feridas e crostas de sangue seco cobriam seus dedos. Na parede atrás dela, Benedito notou marcas estranhas, riscos profundos na taipa, como se alguém tivesse arranhado a parede repetidamente com as unhas. “Dona Francisca, a senhora está bem? Onde estão os outros?”, insistiu o vaqueiro, mas a mulher continuou alheia à sua presença.
Benedito reparou que ela segurava algo contra o peito, algo pequeno que não conseguia identificar na penumbra do quarto. Foi quando decidiu dar mais alguns passos em direção à figura agachada, que Benedito percebeu outros detalhes perturbadores no quarto. O colchão da cama estava rasgado, com pedaços de palha espalhados pelo chão.
As tábuas do açoalho próximas à parede apresentavam manchas escuras e havia um cheiro doce e enjoativo no ar, como o de fruta podre. Quando se aproximou o suficiente para tocar o ombro da mulher, Benedito finalmente pôde ver o que ela segurava contra o peito. Era um pedaço de tecido sujo, provavelmente parte de uma roupa.
Ela o apertava com tanta força que seus nós dos dedos estavam brancos. Dona Francisca, disse Benedito mais alto, tocando levemente seu ombro. A reação da mulher foi imediata e aterrorizante. Ela se virou bruscamente, revelando um rosto que Benedito levaria anos para conseguir esquecer. Os olhos de Francisca Tormim estavam completamente brancos, como se suas pupilas tivessem desaparecido.
Sua boca estava entreaberta, deixando escapar um fio de saliva misturada com sangue. Mas o mais perturbador era a sua expressão. Ela parecia estar vendo algo terrível que não estava ali, algo que só ela podia ver. A mulher abriu a boca e tentou falar, mas apenas sons guturais saíram.
Benedito percebeu que sua língua estava ferida, coberta por cortes pequenos, como se ela tivesse mordido a si mesma repetidamente. Suas palavras eram ininteligíveis, mas a intensidade de seu desespero era inconfundível. Benedito tentou acalmá-la falando em voz baixa e fazendo gestos tranquilizadores, mas Francisca começou a se agitar violentamente.
Ela apontava para diferentes partes do quarto, como se estivesse vendo coisas que se moviam pelas paredes e pelo teto. Seus gritos ficaram mais altos e mais desesperados. Foi nesse momento que Benedito ouviu passos pesados vindo do corredor. Alguém mais estava na casa. O vaqueiro se virou em direção à porta do quarto, empunhando sua espingarda, mas não viu ninguém no corredor.
Os passos continuaram descendo pela casa, dirigindo-se aparentemente para a cozinha externa. “Quem está aí?”, gritou Benedito, mas não houve resposta. Os passos pararam abruptamente. Na sequência, ouviu-se o som da porta dos fundos, sendo aberta e fechada com força. Benedito estava diante de um dilema terrível. Não podia abandonar Francisca em seu estado deplorável, mas também não conseguia deixar de investigar quem mais estava na casa.
A mulher continuava agitada, apontando para as paredes e produzindo sons incompreensíveis. Decidiu tentar acalmar Francisca. antes de sair do quarto, aproximou-se dela lentamente, falando em tom. Dona Francisca, sou eu, Benedito Silva, seu vizinho. Vou ajudá-la. Onde estão seu marido e seus filhos? A menção da família teve um efeito imediato na mulher.
Ela parou de se agitar e fixou seus olhos brancos no rosto de Benedito. Pela primeira vez, parecia estar realmente vendo-o. Seus lábios se moveram lentamente, como se estivesse fazendo um esforço imenso para formar palavras. Fo, ram, em, bou, ra. Conseguiu sussurrar com a voz rouca e quebrada. Todos f hamb. R.
“Para onde foram?”, perguntou Benedito, mas Francisca apenas balançou a cabeça negativamente, voltando a apertar o pedaço de tecido contra o peito. Suas lágrimas começaram a escorrer, formando trilhas limpas em seu rosto sujo. Benedito percebeu que não conseguiria obter mais informações de Francisca em seu estado atual. Ela claramente precisava de cuidados médicos urgentes.
Decidiu sair do quarto para verificar o resto da casa e tentar encontrar pistas sobre o paradeiro dos outros membros da família. No corredor, as marcas de arraste continuavam além do quarto de Francisca, dirigindo-se para outras portas. Benedito verificou os outros quartos um por um. O quarto, que aparentemente pertencia ao casal Sebastião e Francisca, estava em desordem completa.
Os móveis haviam sido virados, as gavetas abertas e vasculhadas, roupas espalhadas pelo chão. A janela estava quebrada por dentro, com pedaços de vidro espalhado sobre o peitoril. Os quartos dos filhos apresentavam sinais similares de luta ou busca desesperada. Camas desarrumadas, objetos pessoais espalhados, armários abertos, mas não havia sinais dos próprios filhos, nem roupas, nem objetos que indicassem que haviam feito as malas para viajar.
O último cômodo que Benedito verificou foi a cozinha interna, localizada nos fundos da casa. A porta estava entreaberta e uma corrente de ar entrava pela janela aberta. A cozinha também estava em desordem, com panelas no chão, farinha espalhada, alguns pratos quebrados. Sobre a mesa da cozinha, Benedito encontrou algo que o fez parar imediatamente, um caderno aberto com a última página coberta por uma caligrafia apressada e irregular.
A tinta da última anotação ainda estava úmida, indicando que havia sido escrita muito recentemente. Benedito aproximou-se da mesa para ler a anotação. A caligrafia era claramente feminina, provavelmente de Francisca, mas as palavras eram estranhas e desconexas. Eles voltaram de onde nunca deveriam ter voltado. O lugar embaixo da casa não deveria ter sido mexido.
Sebastião não escutou quando eu disse para não escavar. Agora eles querem o que é deles de volta. A anotação continuava na página seguinte, com a caligrafia ficando progressivamente mais irregular. Os meninos tentaram correr, mas eles são rápidos embaixo da terra. Joaquim gritou muito antes de parar de gritar. Antônio tentou se esconder no paiol, mas eles sabem onde tudo está.
Maria foi a primeira. Ela viu ele saindo do buraco e não conseguiu mais fechar os olhos. Benedito sentiu um frio na espinha ao ler essas palavras, olhou ao redor da cozinha, procurando por mais pistas, e notou que a porta dos fundos estava realmente aberta. Do lado de fora, podia ver o terreiro que levava ao paiol, às cenzalas e aos currais.
decidiu sair pela porta dos fundos para investigar o paiol mencionado na anotação. O sol do meio-dia estava forte, mas mesmo assim Benedito sentiu um arrepio ao pisar no terreiro. O silêncio absoluto que dominava a propriedade era antinatural. Nem mesmo moscas zumbiam ao redor das construções. O paiol ficava a cerca de 50 m da casa principal.
Era uma construção simples de madeira, usada para armazenar ferramentas agrícolas e a colheita de milho. A medida que se aproximava, Benedito notou que a porta do paiol estava parcialmente destruída, como se alguém tivesse tentado arrebentá-la por dentro. Grandes riscos e arranhões cobriam a parte interna da porta, concentrados principalmente na altura onde uma pessoa desesperada tentaria alcançar a tranca.
Algumas tábuas da parede próximas à porta também apresentavam marcas similares. Benedito empurrou o que restava da porta e entrou no paiol. O cheiro ali dentro era insuportável, uma mistura de decomposição e algo que lembrava terra úmida de cemitério. O chão estava coberto por uma camada de palha suja com várias trilhas abertas, como se algo tivesse sido arrastado repetidamente de um lado para outro.
No fundo do paiol, Benedito encontrou o que parecia ser o resto de uma camisa masculina, rasgada e manchada de sangue seco. Próximo à camisa havia marcas mais profundas no chão de terra batida, como se alguém tivesse sido arrastado dali para fora do paiol. Seguindo essas marcas, Benedito saiu do paiol e percebeu que elas se dirigiam para uma área atrás da casa principal que ele ainda não havia investigado.
As marcas passavam por trás das cenzalas abandonadas e se dirigiam para um pequeno declive natural no terreno, próximo a um grupo de árvores antigas. À medida que seguia as marcas, Benedito notou que o solo nessa área havia sido remexido recentemente. A Terra estava solta e apresentava um aspecto diferente do resto do terreno ao redor.
Algumas ferramentas de escavação estavam espalhadas próximas, uma enchada, uma picareta e várias paz. As marcas de arraste terminavam numa depressão rasa no solo de aproximadamente 3 m por 2 m. A depressão parecia ter sido escavada há pouco tempo, como confirmado pela terra fresca ao redor e pelas ferramentas abandonadas.
Mas o mais perturbador era que a escavação parecia ter sido interrompida abruptamente, como se os escavadores tivessem abandonado o trabalho subitamente. Benedito aproximou-se da borda da escavação e olhou para dentro. A profundidade era de aproximadamente 2 m. No fundo podia haver fragmentos de madeira apodrecida e alguns objetos metálicos corroídos pelo tempo.
Parecia ser os restos de uma construção muito antiga, talvez anterior à própria casa da fazenda. Foi quando estava examinando esses restos que Benedito ouviu um som que o fez recuar imediatamente da borda da escavação. Do fundo do buraco vinha um arranhão lento e constante, como se algo estivesse tentando cavar sua saída por baixo dos destroços de madeira.
O vaqueiro permaneceu imóvel por alguns minutos, aguardando para ver se o som se repetiria. O arranhão continuou, tornando-se gradualmente mais forte e mais rápido. Em seguida, ouviu-se um ruído como de madeira sendo quebrada ou removida. Benedito empunhou sua espingarda e se afastou mais alguns passos da escavação.
O arranhão havia parado, mas agora ele podia ouvir uma respiração pesada vinda do fundo do buraco. Não era uma respiração humana normal, mas sim algo laboriosa e irregular, como se quem estivesse respirando tivesse dificuldades físicas. “Quem está aí embaixo?”, gritou Benedito, mas não houve resposta verbal, apenas o som da respiração pesada, que agora parecia estar se movimentando no fundo da escavação.
Foi nesse momento que Benedito tomou a decisão de deixar imediatamente a propriedade dos Tormim e buscar ajuda na vila. Ele compreendia que estava diante de algo que estava além de sua capacidade de resolver sozinho. Voltou correndo para a casa principal, onde Francisca ainda se encontrava no quarto. A mulher não havia se movido de sua posição, continuando a balançar-se e a apertar o pedaço de tecido contra o peito.
Benedito tentou convencê-la a acompanhá-lo, mas ela se recusou a sair do quarto, tornando-se ainda mais agitada quando ele tentou tocá-la. “Dona Francisca, eu vou buscar ajuda”, disse ele. “Vou voltar com o padre e com outras pessoas. A senhora vai ficar bem”. Francisca olhou para ele com seus olhos brancos e sussurrou uma única palavra: “Cuidado.
” Em seguida, voltou a fixar o olhar numa parede do quarto, como se estivesse vendo algo que se movia ali. Benedito saiu da casa e correu em direção à trilha que levava de volta à sua propriedade. Seus cães o aguardavam no mesmo lugar onde haviam parado na ida, ainda com os pelos eriçados. Desta vez eles o seguiram imediatamente, claramente aliviados por se afastarem da fazenda Torm.
O vaqueiro cavalgou sem parar até a vila de Uberaba, chegando lá no final da tarde. Procurou imediatamente o padre Joaquim Alves de Melo e relatou tudo o que havia presenciado. O pároco, inicialmente cético, decidiu acompanhar Benedito de volta à fazenda no dia seguinte, levando consigo dois homens da vila.
No entanto, quando o grupo chegou à propriedade dos Torm, na manhã de 5 de junho, encontraram a casa completamente vazia. Francisca havia desaparecido. Não havia mais sinais de sua presença no quarto, onde Benedito a havia deixado. As marcas de arraste pelo chão da casa também haviam desaparecido, como se alguém tivesse limpado cuidadosamente todas as evidências.
A escavação atrás da casa havia sido completamente preenchida com terra fresca. Nenhum sinal das ferramentas de escavação ou dos objetos que Benedito havia visto no fundo do buraco. O terreno apresentava uma aparência completamente natural, como se nunca tivesse sido perturbado. Os registros oficiais da vila classificaram o caso como desaparecimento de família por motivos desconhecidos.
Padre Joaquim anotou em seus registros paroquiais que a família Tormim abandonou sua propriedade entre os dias 3 e 5 de junho, levando consigo todos os pertences de valor e não deixando indicação de seu destino. No entanto, existem outras versões dos eventos que não constam nos registros oficiais. Manuel Santos, o comerciante português, relatou confidencialmente ao escrivão que na noite de 4 de junho, por volta da meia-noite, viu figuras caminhando pela estrada em direção ao cemitério da vila.
Eram cinco pessoas andando em fila indiana, carregando o que pareciam ser trouxas ou embrulhos. Santos descreveu as figuras como pessoas que andavam de modo estranho, como se estivessem muito cansadas ou feridas. Ele não conseguiu identificar seus rostos devido à escuridão, mas tinha certeza de que se dirigiam para o cemitério.
No dia seguinte, quando verificou o local, não encontrou sinais de sepultamento recente, nem qualquer perturbação no terreno sagrado. O coveiro da vila, um homem chamado Inácio Pereira, fez uma declaração ainda mais perturbadora. Segundo ele, na madrugada de 5 de junho, foi acordado por sons vindos do cemitério.
Era como se alguém estivesse cavando declarou. Mas quando fui verificar, não encontrei ninguém. Apenas a terra de algumas sepulturas antigas estava mexida, como se algo tivesse tentado sair por baixo. Dona Eulália Campos, que havia sido a primeira a relatar sons estranhos vindos da propriedade Tormim, fez uma última anotação em seu diário em 8 de junho.
A fazenda dos Tormim continua vazia, mas à noite ainda se ouvem ruídos vindos de lá. Ontem meu marido foi verificar e disse que viu luzes se movendo no interior da casa abandonada. Decidimos não investigar mais. Três semanas após o desaparecimento da família Tormim, a propriedade foi visitada por um funcionário da comarca, responsável por inventariar os bens abandonados.
João Batista Ferreira, escrivão municipal, fez um relatório detalhado do estado da fazenda, que seria posteriormente arquivado nos cartórios de Uberaba. Segundo o relatório de Ferreira, a casa principal estava em perfeito estado de conservação, como se tivesse sido abandonada há poucos dias. Os móveis permaneciam em seus lugares, as camas estavam feitas, pratos limpos guardados no armário da cozinha.
Não havia sinais de luta, desordem ou remoção apressada de pertences. O aspecto mais intrigante relatado por Ferreira foi a descoberta de roupas da família lavadas e estendidas no varal dos fundos da casa. As peças estavam secas, mas limpas, como se alguém tivesse feito uma lavagem completa pouco antes de abandonar a propriedade.
[limpando a garganta] Entre as roupas havia vestidos de Francisca e Maria, camisas dos homens da família e peças íntimas, todas em perfeito estado. Na cozinha da casa, Ferreira encontrou evidências de que uma refeição havia sido preparada recentemente. Elas, contendo restos de comida seca, estavam sobre o fogão à lenha.
A comida aparentava ter sido cozinhada dias antes, mas os utensílios estavam limpos e organizados, sugerindo que a refeição havia sido consumida normalmente. O escrivão também verificou os currais e estabelos, encontrando-os completamente vazios. Não havia sinais dos animais da fazenda. gado, cavalos, porcos, galinhas, nem mesmo restos de esterco nos currais, como se os animais tivessem sido removidos há mais tempo do que a própria família.
Uma descoberta particular chamou a atenção de Ferreira durante sua inspeção. No quarto principal da casa, ele encontrou um baú de madeira entalhada, contendo documentos pessoais da família. Entre os papéis havia cartas, certidões de nascimento e um mapa desenhado à mão que mostrava a localização de várias propriedades na região.
O mapa incluía marcações estranhas que não correspondiam a nenhuma construção conhecida na área. Pequenos símbolos desenhados a lápis indicavam pontos específicos em várias fazendas vizinhas, incluindo cruzes e círculos que não tinham explicação aparente. Uma das marcações estava localizada exatamente na propriedade dos Tormim, próxima ao local onde posteriormente seria descoberta a escavação mencionada por Benedito Silva.
Ferreira copiou o mapa em seu relatório, mas o documento original desapareceu do baú antes que pudesse ser removido da propriedade. O escrivão anotou que o mapa foi retirado por pessoa desconhecida entre a primeira e segunda visita de inventário, sem que houvesse sinais de arrombamento na casa. Durante os meses seguintes ao desaparecimento dos tormin, a região experimentou uma série de eventos inexplicáveis que foram posteriormente conectados ao caso pelos moradores locais.
Várias famílias de fazendeiros relataram o desaparecimento de animais domésticos durante a madrugada, sempre sem sinais de luta ou rastros que indicassem a direção tomada pelos animais. Dona Mercedes Oliveira, esposa do fazendeiro que possuía a propriedade mais próxima do Tormim, relatou que durante as noites de Lua Nova, luzes fracas podiam ser vistas movendo-se pela casa abandonada.
“Não eram luzes de vela ou lamparina”, descreveu ela. Eram luzes azuladas que se moviam lentamente pelas janelas, como se alguém estivesse carregando uma lanterna muito fraca. O padre Joaquim tentou organizar expedições para investigar esses relatos, mas encontrou resistência crescente entre os moradores. Muitos se recusavam a se aproximar da propriedade mesmo durante o dia.
Outros relatavam sensações de mal-estar e ansiedade sempre que passavam pela estrada próxima à fazenda abandonada. Em dezembro de 1884, se meses após o desaparecimento da família, ocorreu um incidente que aprofundou ainda mais o mistério. Um tropeiro chamado Venâncio Rodrigues, que transitava pela região carregando mercadorias entre Uberaba e Franca, decidiu passar uma noite na casa abandonada do Stormim para se proteger de uma tempestade.
Rodriguez havia feito essa mesma rota dezenas de vezes e conhecia bem a região. Como a casa parecia estar em bom estado e oferecia abrigo adequado, ele amarrou seus cavalos próximos à varanda e instalou-se na sala principal com sua tropa de bestas carregadas. Durante a noite, o tropeiro foi despertado por sons vindos dos quartos no fundo da casa.
Segundo seu relato posterior, eram passos lento e arrastados, como de gente que está muito doente ou ferida. Os passos se movimentavam de um quarto para outro, sempre seguindo o mesmo padrão. Começavam no quarto mais distante, caminhavam pelo corredor e paravam próximos à porta da sala onde Rodrigues estava dormindo.
O tropeiro permaneceu imóvel, fingindo estar dormindo, e aguardou para ver o que aconteceria em seguida. Os passos pararam do outro lado da porta da sala. Rodriguez podia ouvir uma respiração pesada e irregular. como se alguém estivesse parado ali, observando-o através da porta fechada. Essa situação durou aproximadamente uma hora.
O tropeiro não se atreveu a se mover ou fazer qualquer ruído. Em determinado momento, ouviu o som da maçaneta da porta sendo girada lentamente. A porta se abriu alguns centímetros, permitindo que uma corrente de ar frio entrasse na sala. Rodriguez manteve os olhos fechados, mas podia sentir que alguém havia entrado na sala e se aproximava do local onde ele estava deitado.
A presença permaneceu próxima por vários minutos e o tropeiro podia sentir o que descreveu como uma sensação de estar sendo observado muito de perto, como quando alguém está olhando diretamente para seu rosto. Após esse período de observação silenciosa, os passos recomeçaram, afastando-se da sala e retornando para os quartos do fundo da casa.
Rodrigues aguardou até o amanhecer, antes de se atrever a se mover. Quando finalmente abriu os olhos e examinou a sala, encontrou pegadas de pés descalços no chão de madeira, levando da porta até o local onde havia dormido. As pegadas eram peculiares, menores do que seria esperado de um homem adulto, mas com uma pressão irregular que sugeria que a pessoa tinha dificuldade para caminhar normalmente.
Algumas das pegadas mostravam marcas que pareciam ser de ferimentos ou deformidades nos pés. O tropeiro deixou a casa imediatamente após o amanhecer e relatou sua experiência ao padre Joaquim. Assim que chegou à vila. O pároco decidiu investigar pessoalmente e visitou a casa dos Tormim, acompanhado por dois homens da cidade.
Quando chegaram à propriedade, encontraram as pegadas descritas por Rodrigues, ainda visíveis no chão da sala. O padre Joaquim as seguiu até o corredor e verificou que elas continuavam até o último quarto, onde desapareciam próximas a uma parede que não apresentava porta ou abertura aparente. Intrigado, o padre examinou cuidadosamente essa parede e descobriu que algumas tábuas do açoalho próximas a ela estavam soltas.
Quando removeram essas tábuas, revelaram uma abertura que levava a um espaço vazio sob o piso da casa. O espaço sob a casa era mais amplo do que seria esperado para uma simples fundação. Usando velas para iluminar o local, o grupo descobriu que se tratava de uma câmara escavada intencionalmente, com aproximadamente 3 m de comprimento e 2 m de largura.
As paredes da câmara eram de terra compactada, mas apresentavam marcas estranhas, riscos profundos que cobriam toda a superfície, como se algo ou alguém tivesse tentado cavar para sair dali usando apenas as mãos. O chão da câmara estava coberto por uma camada de material que o padre inicialmente identificou como trapos velhos. Examinando mais de perto, padre Joaquim descobriu que o material no chão eram fragmentos de roupas, pedaços de camisolas, restos de calças, sapatos deteriorados.
Algumas peças ainda eram reconhecíveis como roupas que a família Tormim costumava usar, baseadas nas descrições de Benedito Silva e outros vizinhos. Entre os trapos, o grupo encontrou outros objetos perturbadores, cabelos humanos de diferentes cores e comprimentos, alguns ainda presos a pequenos pedaços de couro cabeludo, unhas humanas, algumas quebradas, outras arrancadas pela raiz, dentes, incluindo molares e incisivos, alguns ainda com fragmentos de gengiva aderidos.
A descoberta mais chocante estava numa depressão escavada no centro da câmara. Os humanos de diferentes tamanhos, claramente pertencentes a pessoas diferentes. Os ossos não estavam organizados como em um sepultamento normal, mas espalhados caoticamente, muitos quebrados ou apresentando marcas que sugeriam que haviam sido roídos.
Padre Joaquim imediatamente abençoou o local e ordenou que a abertura fosse lacrada. Os objetos encontrados na Câmara foram coletados em sacos de juta e transportados para o cemitério da vila, onde receberam sepultura cristã em cova comum. A descoberta da Câmara Subterrânea mudou completamente a perspectiva oficial sobre o desaparecimento da família Tormin.
O que havia sido classificado como uma fuga misteriosa passou a ser investigado como um possível crime. No entanto, as autoridades não tinham recursos nem conhecimento suficiente para conduzir uma investigação adequada. O delegado regional, José Maria Fonseca, visitou a propriedade duas semanas após a descoberta da Câmara.
Seu relatório, arquivado nos cartórios de Uberaba, classificou o caso como crimes cometidos por pessoa ou pessoas desconhecidas, com características que fogem aos padrões criminais conhecidos. Fonseca observou em seu relatório que a natureza dos vestígios encontrados sugere atos de selvageria incompatíveis com o comportamento humano civilizado.
Ele recomendou que a propriedade fosse considerada zona interditada e que nenhum civil fosse autorizado a habitar o local sem supervisão oficial. A recomendação do delegado foi aceita pelas autoridades municipais. A fazenda dos Tormim foi oficialmente lacrada em janeiro de 1885, permanecendo desocupada pelos anos seguintes.
Uma cerca de madeira foi construída ao redor da casa principal e placas foram colocadas, advertindo que se tratava de propriedade sob investigação oficial. No entanto, o isolamento oficial da propriedade não impediu que os eventos estranhos continuassem a ocorrer na região. Durante todo o ano de 1885, moradores das fazendas vizinhas relataram avistamentos de figuras humanas caminhando pelos pastos durante as noites sem lua.
As figuras eram sempre descritas de forma similar. Pessoas que caminhavam lentamente, como se tivessem dificuldades para se locomover. Elas não respondiam quando eram chamadas e desapareciam quando alguém tentava se aproximar. Alguns observadores notaram que essas figuras sempre se dirigiam na direção da fazenda abandonada dos Tormim.
Dona Conceição Mendes, que morava numa propriedade a aproximadamente 5 km da fazenda dos Tormim, fez o relato mais detalhado desses avistamentos. Segundo ela, numa noite de setembro de 1885, viu cinco figuras caminhando em fila pelo pasto próximo à sua casa. Elas andavam muito devagar, como se estivessem carregando algo pesado, relatou dona Conceição.
Quando meu marido acendeu uma lanterna para iluminar o pasto, pudemos ver que eram pessoas, mas havia algo errado com o jeito que elas se moviam. Pareciam bonecos sendo puxados por cordas. O marido de dona Conceição, Antônio Mendes, confirmou o avistamento e acrescentou detalhes inquietantes. Quando a luz da lanterna bateu nelas, todas pararam ao mesmo tempo e viraram a cabeça em nossa direção, mas elas não tinham rostos.
Era como se estivessem usando máscaras escuras ou sacos sobre a cabeça. O casal tentou chamar as figuras pensando que poderiam ser viajantes perdidos. precisando de ajuda, mas elas não responderam. Permaneceram paradas por alguns minutos, todas voltadas na direção da casa dos Mendes e depois retomaram sua caminhada lenta em direção à fazenda dos Tormim.
Antônio Mendes tentou seguir as figuras a cavalo, mas quando chegou ao local onde as havia visto, não encontrou rastros nem sinais de sua passagem. Era como se elas tivessem desaparecido no ar. declarou ele. Relatos similares continuaram durante os anos seguintes, sempre seguindo o mesmo padrão, figuras humanas caminhando lentamente durante as noites, dirigindo-se sempre para a propriedade abandonada do Stormim.
Alguns observadores relatavam que as figuras carregavam objetos ou sacos, mas nunca foi possível determinar o que transportavam. Em 1887, 3 anos após o desaparecimento da família original, ocorreu um evento que trouxe nova perspectiva ao caso. Um grupo de trabalhadores contratados para reparar a cerca ao redor da propriedade dos Tormim fez uma descoberta perturbadora.
Os trabalhadores, liderados pelo carpinteiro Manuel Barbosa, estavam substituindo estacas apodrecidas da cerca, quando encontraram objetos enterrados numa profundidade rasa ao longo do perímetro da propriedade. Os objetos estavam enterrados a intervalos regulares, aproximadamente a cada 10 m.
Cada objeto enterrado era um pequeno embrulho de tecido contendo fragmentos de ossos humanos. cabelos e dentes. Os embrulhos estavam cuidadosamente organizados e pareciam ter sido enterrados seguindo algum tipo de padrão ou ritual específico. Manuel Barbosa relatou a descoberta ao padre Joaquim, que imediatamente se dirigiu ao local acompanhado pelo coveiro da vila.
O exame dos embrulhos revelou que coninham restos humanos de diferentes pessoas, incluindo ossos de crianças e adultos. O aspecto mais perturbador da descoberta foi a observação de que alguns dos ossos apresentavam marcas recentes de corte, como se tivessem sido manipulados ou alterados após a morte. Alguns fragmentos de crânio mostravam perfurações circulares que não correspondiam a ferimentos conhecidos.
Padre Joaquim ordenou que todos os embrulhos fossem coletados e sepultados adequadamente no cemitério da vila. Durante o processo de coleta, os trabalhadores descobriram que havia muito mais embrulhos enterrados do que inicialmente calculado. No total, foram encontrados 43 embrulhos dispostos ao redor de todo o perímetro da propriedade.
A descoberta dos embrulhos levou as autoridades a reavaliar completamente o caso da família Tormim. O delegado Fonseca retornou à propriedade com uma equipe maior e conduziu uma busca sistemática por toda a área. Durante essa busca extensiva, foram descobertas outras câmaras subterrâneas em diferentes pontos da propriedade.
Algumas estavam localizadas sob as cenzalas abandonadas, outras próximas aos currais vazios, todas coninham vestígios similares aos encontrados na primeira câmara. Roupas rasgadas, fragmentos ósseos, cabelos e dentes. E a câmara mais perturbadora foi encontrada sob o paiol, onde Benedito Silva havia descoberto sinais de luta.
Esta câmara era significativamente maior que as outras e continha evidências de ocupação recente. Restos de comida, recipientes de água, uma pequena fogueira improvisada. Nas paredes desta câmara. Os investigadores encontraram inscrições feitas com algum material escuro, possivelmente sangue ou carvão. As inscrições eram principalmente nomes: Sebastião, Francisca, Joaquim, Antônio, Maria, Joana, José, todos os membros da família Tormim desaparecida.
Ao lado dos nomes havia outras palavras que não formavam frases coerentes. Embaixo, esperando, frio, escuro, fome, volta. As palavras estavam escritas repetidamente, como se quem as escreveu estivesse em estado de desespero ou confusão mental. A investigação oficial foi encerrada em dezembro de 1887, sem que os responsáveis pelos crimes fossem identificados.
O relatório final do delegado Fonseca classificou o caso como assassinatos múltiplos cometidos por pessoa ou grupo de pessoas com conhecimento da propriedade e motivação desconhecida. O relatório recomendava que a propriedade permanecesse lacrada indefinidamente e que fosse estabelecida vigilância regular para impedir invasões.
No entanto, os recursos limitados da região não permitiram que essa recomendação fosse cumprida adequadamente. A fazenda dos Tormaneceu oficialmente abandonada, mas os eventos misteriosos continuaram a ocorrer esporadicamente durante as décadas seguintes. Em 1892, 8 anos após o desaparecimento original, um último evento marcaria definitivamente o fim do caso.
Um comerciante viajante chamado Teodoro Santos, sem relação com Manuel Santos, estava passando pela região quando sua carroça quebrou próxima à entrada da antiga propriedade do Storming. Era final de tarde e ele decidiu acampar ali mesmo, planejando consertar a carroça na manhã seguinte. Durante a madrugada, Santos foi despertado por sons vindos da direção da casa abandonada. Eram vozes humanas.
Conversando em tom baixo, como se várias pessoas estivessem discutindo algo em segredo. O comerciante aproximou-se cautelosamente da cerca que rodeava a propriedade e conseguiu ver luzes fracas movendo-se pelas janelas da casa. Santos observou por mais de uma hora, tentando entender o que estava acontecendo.
As luzes continuaram se movendo pela casa e, ocasionalmente ele podia ouvir fragmentos de conversa, embora não conseguisse distinguir palavras específicas. Por volta das 4 da manhã, as luzes se apagaram e as vozes pararam. Santos aguardou até o amanhecer antes de se aproximar mais da propriedade. Quando examinou a casa através das grades da cerca, notou que uma das janelas da frente estava aberta, balançando suavemente com a brisa matinal.
O comerciante decidiu entrar na propriedade para investigar mais de perto. A cerca havia-se deteriorado em vários pontos e foi fácil encontrar uma abertura por onde passar. aproximou-se da casa com cuidado, empunhando uma faca de viagem como proteção. A porta principal da casa estava entreaberta, exatamente como Benedito Silva havia encontrado 8 anos antes.
Santos empurrou a porta lentamente e entrou na sala principal. O interior da casa estava exatamente como descrito nos relatórios oficiais. móveis em seus lugares, tudo limpo e organizado, como se a família tivesse saído há poucos dias, mas havia uma diferença significativa. Sobre a mesa da sala, Santos encontrou cinco pratos com comida fresca: pão, queijo, frutas e carne.
Tudo aparentando ter sido preparado recentemente. Os pratos estavam dispostos como se uma família estivesse prestes a fazer uma refeição. Ao lado dos pratos, havia copos com água limpa e talheres bem organizados. No centro da mesa, uma vela havia queimado até o fim, com cera ainda mole, gotejando sobre a madeira. O cheiro de comida cozida impregnava o ar da sala.
Santos examinou a comida mais de perto e percebeu que ainda estava morna, como se tivesse sido preparada há poucas horas. Alguns dos alimentos haviam sido parcialmente consumidos com marcas de dentes visíveis no pão e na fruta. Profundamente perturbado por essa descoberta, o comerciante decidiu sair imediatamente da casa, mas quando se dirigiu para a porta, ouviu passos vindos do corredor que levava aos quartos.
eram vários pares de pés caminhando lentamente em sua direção. Santos correu para a porta, mas antes de conseguir sair, ouviu uma voz feminina chamando-o pelo nome, Teodoro. Teodoro Santos. A voz era fraca e distante, como se viesse de muito longe, mas claramente pronunciava seu nome completo. O comerciante não parou para descobrir quem o estava chamando.
Correu em direção à sua carroça, consertou-a apressadamente e deixou a região imediatamente, mesmo com a roda ainda instável. Ele fez questão de relatar sua experiência ao padre da primeira vila que encontrou a mais de 50 km de distância. O relato de Teodoro Santos foi o último registro oficial de atividade misteriosa na propriedade dos Tormim.
Após esse incidente, os avistamentos noturnos cessaram e a região gradualmente voltou à normalidade. Em 1895, 11 anos após o desaparecimento da família, a propriedade foi leiloada pelo governo municipal para quitar dívidas de impostos não pagos. foi adquirida por um fazendeiro de outra região que demoliu a casa principal e construiu uma nova residência em local diferente da propriedade.
O novo proprietário, coronel Francisco Pimenta, relatou apenas um incidente estranho durante seus primeiros anos na fazenda. Durante a demolição da casa original, os trabalhadores encontraram uma última câmara subterrânea que havia escapado às investigações anteriores. Esta câmara estava localizada exatamente sob a sala principal da casa e continha apenas um objeto, um caderno encadernado em couro com páginas amareladas pela umidade.
O caderno continha anotações em diferentes caligrafias. aparentemente escritas pelos membros da família Thormim durante seus últimos dias. As anotações começavam de forma normal, registrando atividades diárias da fazenda, cuidados com os animais, reparos necessários na casa, planos para o plantio da próxima safra.
Mas gradualmente o tom das anotações mudava, tornando-se cada vez mais ansioso e confuso. Uma das últimas anotações, escrita com caligrafia trêmula, que parecia ser de Sebastião Tormim, dizia: “Eles querem voltar para cima. Disseram que é a vez deles agora. Francisca não para de chorar. As crianças se esconderam no paiol, mas eles sabem onde estão.
Eu não deveria ter escavado. Eles estavam quietos embaixo da terra por tanto tempo. Por que eu tive que escavar? A anotação final do caderno, escrita numa caligrafia diferente e quase ilegível, continha apenas algumas palavras repetidas. Escuro, escuro, escuro. Fome, fome, fome. Frio, frio, frio. Embaixo, embaixo, embaixo.
Sempre, sempre, sempre. Coronel Pimenta entregou o caderno ao padre Joaquim, que decidiu queimá-lo após ler seu conteúdo. O pároco anotou em seus registros que algumas verdades são pesadas demais para serem preservadas e alguns segredos devem ser enterrados junto com aqueles que os carregaram. A propriedade permaneceu em poder da família Pimenta por várias décadas, sendo posteriormente vendida e subdivida em lotes menores.
Hoje, a área onde ficava a fazenda original dos Storming abriga diferentes propriedades rurais e poucos moradores atuais conhecem a história completa dos eventos de 1884. Os registros oficiais do caso foram transferidos para os arquivos estaduais em Belo Horizonte durante a reorganização administrativa de 1902.
Em 1956, durante uma revisão de arquivos antigos, os documentos relacionados ao caso da família Tormim foram classificados como extraviados e removidos dos catálogos oficiais. Padre Joaquim Alves de Melo permaneceu como pároco de Uberaba até sua morte em 1908. Em seus últimos anos, ele ocasionalmente mencionava o caso dos Tormim em suas homilias, sempre advertindo sobre os perigos de perturbar o que deve permanecer em descanso.
Benedito Silva, o vaqueiro que primeiro descobriu o desaparecimento da família, mudou-se para outra região poucos meses após os eventos. Segundo relatos, ele nunca mais conseguiu trabalhar em fazendas isoladas. preferindo permanecer sempre próximo a áreas habitadas. Manuel Santos, o comerciante português, fechou sua venda na estrada entre Uberaba e Sacramento em 1886.
Ele se mudou para a área urbana da vila, alegando que o comércio rural estava se tornando perigoso para pessoas solitárias. Dona Eulália Campos e seu marido venderam sua fazenda em 1887 e se estabeleceram numa propriedade mais próxima ao centro de Uberaba. Em suas últimas anotações sobre o caso, dona Eulália escreveu: “Há lugares onde a Terra guarda segredos que não devem ser revelados.
A família Tormim aprendeu isso tarde demais.