O Terror De Itabela: A Caçada Sangrenta Que Eliminou Um Menino De 11 Anos E Seus Rivais No Extremo Sul Da Bahia
A madrugada sangrenta que estarreceu o extremo sul baiano
Na madrugada de 22 de dezembro de 2018, uma sexta-feira comum transformou-se no início de um dos episódios mais assustadores da história criminal do estado da Bahia. O município de Itabela, uma pequena localidade com cerca de vinte mil habitantes localizada a mais de setecentos quilômetros de Salvador, acordou sob forte comoção popular. Em um terreno baldio nas proximidades de uma festa de som automotivo do tipo paredão, no bairro Bandeirantes, o corpo ensanguentado de uma criança jazia no chão, vítima de uma agressão desumana praticada com pedaços de madeira e golpes profundos na região da cabeça.

A vítima atendia pelo nome de Paulo, mas nas esquinas e nos arquivos policiais da região era amplamente conhecido pela alcunha de PH ou PH do Dapezão. Com apenas onze anos de idade, o menino já acumulava apreensões anteriores, histórico de desentendimentos armados e inclusive a marca física de ter sobrevivido a um tiro em ocasião pretérita. O homicídio, que à primeira vista parecia uma ocorrência isolada de violência urbana, revelou-se a ponta de um iceberg tenebroso envolvendo disputas impiedosas entre organizações criminosas de grande porte que disputam cada centímetro da Costa do Descobrimento.
A encruzilhada de facções rivais em uma cidade pacata
Para compreender a atmosfera que envolveu a curta existência de PH, é preciso analisar o cenário geográfico e tático em que Itabela está inserida. Situada estrategicamente entre os municípios conflagrados de Eunápolis e Porto Seguro, a cidade tornou-se um corredor logístico disputado por três frentes armadas distintas. A primeira delas, conhecida localmente pela denominação de Baixada, atuava como um grupo comunitário de pequeno porte restrito a um setor habitacional específico. As outras duas, contudo, ostentam conexões profundas com o crime organizado em nível nacional.
A facção Mercado do Povo Atitude, originada no complexo do Baianão em Porto Seguro e identificada pela sigla MPA, construiu ao longo dos anos uma aliança estrutural sólida com o Primeiro Comando da Capital. Sob o comando histórico de lideranças como Buyu, homem que rompeu o monitoramento eletrônico após benefício penal, e posteriormente de figuras conhecidas como Chapa, o grupo paulista fornecia armas pesadas e entorpecentes no atacado para abastecer os pontos de venda locais. No lado oposto da trincheira armada surgiu o Primeiro Comando de Eunápolis, facção regional que adotou princípios operacionais próprios, estabeleceu laços diretos com o Comando Vermelho e passou a travar uma guerra sangrenta pelo controle do tráfico de drogas no sul baiano.
A blindagem jurídica do estatuto e a espiral sem freios
No meio desse fogo cruzado entre organizações poderosas, o garoto Paulo encontrou terreno fértil para se embrenhar na criminalidade ainda na fase inicial da infância. Segundo relatos colhidos por investigadores, o menino não frequentava as salas de aula de maneira regular e preferia circular pelas ruas acompanhado de indivíduos muito mais velhos. Aos olhos da legislação brasileira, contudo, o Estatuto da Criança e do Adolescente impõe limites claros à atuação do Estado: menores de doze anos são juridicamente considerados crianças, sendo plenamente inimputáveis perante as leis penais.
Sem poder ser internado em unidades socioeducativas e desprovido de acompanhamento institucional contínuo, PH retornava rapidamente às ruas após cada intervenção policial. A vulnerabilidade jurídica combinada com a convivência diária com bandos armados transformou o menino em alvo e agente de conflitos permanentes. Poucos dias antes de sua morte, a violência já havia atingido seu círculo mais próximo de convivência. No dia 9 de dezembro, o adolescente Adenivan Silva, de quinze anos, foi retirado à força de sua própria residência no centro de Itabela por homens armados, levado para uma área de mata fechada e executado com mais de quinze disparos de arma de fogo.
O ataque no terreno baldio e o início da vingança sistemática

Na noite do dia 21 para o dia 22 de dezembro, mesmo sabendo dos riscos iminentes e de ter procurado a polícia dias antes para relatar ameaças sofridas, PH decidiu comparecer à festa de rua no bairro Bandeirantes. Por volta das três horas da manhã, ao se afastar da concentração de veículos e do som estridente, o garoto foi cercado em uma emboscada silenciosa. Agressores utilizaram caibros pesados de madeira para desferir golpes fatais contra o crânio da vítima indefesa, provocando fraturas expostas e tirando sua vida antes de qualquer possibilidade de socorro médico.
O crime brutal causou revolta imediata nos meios criminosos locais. Apenas dois dias após o falecimento do garoto, em pleno dia 24 de dezembro, a resposta veio com a mesma assinatura de crueldade extrema. Jadson Chagas dos Santos, de vinte anos de idade, conhecido no submundo pelo apelido de Jajá e apontado pelas investigações policiais como um dos suspeitos de participar ativamente das agressões que vitimaram PH, foi encontrado morto em via pública, também executado a pauladas por dois homens não identificados. A dinâmica das mortes revelava um tribunal paralelo em pleno funcionamento na véspera do Natal.
A caçada impiedosa que empilhou corpos em sequência
A sequência de execuções sumárias não parou na morte de Jadson. Nas semanas seguintes, uma verdadeira caçada humana foi deflagrada nas esquinas de Itabela e municípios vizinhos. Outro jovem identificado como Darlan Santos Marinho, que mantinha proximidade tanto com PH quanto com os outros rapazes mortos naquelas semanas, acabou sendo eliminado a tiros em uma ação rápida executada por atiradores profissionais. A polícia civil passou a registrar e conectar quatro assassinatos sucessivos como partes integrantes de uma mesma cadeia de retaliação e queima de arquivos.
As autoridades policiais da delegacia regional admitiram na época que parecia haver uma operação clandestina de limpeza em andamento, na qual todos os envolvidos diretos e indiretos com a morte do menino de onze anos estavam sendo perseguidos e eliminados um a um. Os depoimentos colhidos apresentavam contradições dolorosas: de um lado, familiares descreviam Paulo como uma criança comum arrancada brutalmente da família; do outro, os relatórios policiais catalogavam um menor com postura audaciosa, que andava armado e que desafiava a hierarquia do tráfico local, tornando sua eliminação uma questão de honra macabra entre as facções.
O inquérito inconcluso e as marcas eternas de uma tragédia
Mesmo após a captura de diversos suspeitos ligados ao tráfico de entorpecentes em operações subsequentes, incluindo a prisão de investigados de alta periculosidade como Marcos Santos Brito, conhecido pela alcunha de Curiri, o processo formal sobre o assassinato de PH do Dapezão ingressou no rol de casos sem condenação judicial definitiva no tribunal do júri. A maioria dos executores materiais perdeu a vida na própria onda de retaliação mútua que tomou conta das ruas antes mesmo de sentarem no banco dos réus.
O desfecho estarrecedor de Paulo permanece como um dos retratos mais dolorosos da falência social e da brutalidade imposta pelas facções criminosas no extremo sul da Bahia. A história de uma criança de onze anos que trocou os bancos escolares pela rotina de crimes e teve sua trajetória ceifada de forma tão bárbara alerta para os perigos da cooptação precoce de menores pelo narcotráfico. Em Itabela, a memória desses dias sangrentos de dezembro de 2018 ainda ecoa como um aviso sombrio de que a violência desenfreada consome a todos, sem poupar idade, deixando apenas um rastro de destruição, medo e vidas precocemente interrompidas.