EM 1989, VAQUEIRO SOME NO MATO GROSSO, 14 ANOS DEPOIS, AO TROCAR O CURRAL ENCONTRAM O IMPOSSÍVEL
Benedito sempre volta antes do almoço”, disse dona Conceição pela 20ª vez naquela tarde de março, enxugando as mãos no avental enquanto observava o horizonte através da janela da cozinha. O sol já começava a inclinar para oeste, tingindo de dourado os pastos da fazenda Santa Rita, e ainda não havia sinal do marido.
Era 15 de março de 1989, uma quarta-feira, como tantas outras, no coração do Mato Grosso, a 80 km de Cácceres. Benedito Moreira da Silva, de 34 anos, havia saído antes do amanhecer para verificar o gado na invernada do fundo, como fazia há mais de uma década. Conhecia cada palmo daquelas terras como conhecia as linhas da própria mão.

O calor úmido grudava na pele como mel, típico da estação chuvosa, que se arrastava mais do que o esperado. As cigarras cantavam ensurdecedoras nos ipês amarelos e o cheiro de terra molhada misturava-se ao aroma doce do capim colonião. Benedito havia montado no trovão seu cavalo baio de confiança, levando apenas a bruaca com rapadura, shark e uma garrafa de água, além do facão preso na cintura e o laço enrolado na cela.
“Pai sempre volta”, murmurou Josemar, o filho mais velho de 12 anos, tentando tranquilizar a mãe, mas sua voz traía uma inquietação que crescia a cada hora que passava. A fazenda pertencia ao coronel Antônio Mendes desde 1962. Um homem respeitado na região que tratava bem seus funcionários. Benedito era considerado o melhor vaqueiro da propriedade, capaz de laçar um touro bravo no meio da mata fechada ou encontrar uma rez perdida onde outros nem pensariam em procurar.
havia nascido e crescido naquelas terras filho de antigo capataz, e conhecia cada córrego, cada árvore centenária, cada trilha aberta pelo gado. Quando o sol tocou o horizonte sem que Benedito aparecesse, Conceição sentiu um frio na barriga, que nada tinha a ver com a brisa noturna que começava a soprar.
Ela conhecia o marido há 16 anos, desde quando se casaram na pequena igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Cácceres. E nunca, em todos esses anos, ele havia ficado fora de casa sem avisar. O coronel Antônio chegou à casa dos funcionários por volta das 8 da noite, trazendo mais três vaqueiros. Organizaram tochas e lanternas e partiram em direção à invernada do fundo, seguindo a trilha que Benedito costumava tomar.
O grupo cavalgou por horas na escuridão, gritando seu nome, ouvindo apenas o eco das próprias vozes, se perdendo na vastidão do cerrado. Encontraram trovão solto, pastando tranquilo próximo ao córrego das pedras brancas, ainda com a cela e os arreios intactos. A bruaca estava amarrada normalmente, mas quando a abriram, encontraram tudo do jeito que Benedito havia arrumado pela manhã.
A comida entocada, a água ainda fresca na garrafa. O facão estava no chão a poucos metros do cavalo, como se tivesse caído da cintura durante uma queda, mas não havia sangue, não havia sinais de luta, não havia pegadas que indicassem para onde Benedito havia ido. Era como se ele tivesse simplesmente descido do cavalo e desaparecido.
Naquela noite, enquanto os homens vasculhavam a região com lanternas que tremulavam na escuridão, Conceição permaneceu acordada na cozinha, preparando café para quando o marido voltasse, porque ele ia voltar, tinha que voltar. Benedito conhecia aquela terra melhor que qualquer homem vivo. Mas quando o sol nasceu no dia 16 de março de 1989, Benedito Moreira da Silva continuava desaparecido e a fazenda Santa Rita nunca mais seria a mesma. Ele não sumiu.
Homem como o Benedito não some assim, repetia o coronel Antônio para qualquer um que quisesse ouvir. Mas sua voz já não carregava a mesma convicção dos primeiros dias. Haviam-se passado duas semanas desde o desaparecimento e a operação de busca havia se tornado a maior mobilização já vista na região. Vaqueiros de fazendas vizinhas, bombeiros de Cuiabá, policiais militares e até mesmo alguns índios boros se uniram para vasculhar cada metro quadrado de mata, cada grota, cada buraco onde um homem poderia ter caído.
Dona Conceição não conseguia mais comer. havia emagrecido tanto que as roupas pareciam penduradas no corpo como trapos em um espantalho. Passava os dias caminhando pela fazenda, chamando pelo marido com uma voz cada vez mais rouca, até que Josemar, ou uma das filhas menores, a trouxessem de volta para casa a força.
“Mãe, a senhora precisa comer alguma coisa”, implorava Rosimar, de 10 anos, oferecendo um prato de arroz com pequi que a vizinha havia preparado. Mas Conceição apenas balançava a cabeça, os olhos fixos na estrada de chão batido, por onde Benedito deveria aparecer a qualquer momento. As teorias se multiplicavam como erva daninha. Alguns diziam que ele havia sido atacado por onça, embora não houvesse sinais de sangue ou luta.
Outros susperravam sobre dívidas de jogo ou envolvimento com contrabandistas que cruzavam a fronteira com a Bolívia. Havia até quem murmurava sobre maldições indígenas, pois a fazenda havia sido erguida sobre antigos cemitérios boros. O delegado Firmino Cavalcante, um homem prático de 50 anos que conhecia bem os problemas da região, não acreditava em nenhuma dessas versões.
Vaqueiro que nem o Benedito não cai em buraco, não se perde na mata e não foge da família”, dizia ele, acendendo mais um cigarro continental enquanto estudava o mapa da fazenda pela centésima vez. A investigação revelou detalhes inquietantes. Na manhã do desaparecimento, Benedito havia sido visto conversando com um homem desconhecido perto do curral principal, por volta das 5 da manhã.
A testemunha era João Batista, outro vaqueiro da fazenda, mas sua descrição do estranho era vaga. Homem alto, cheio de chapéu, falava meio diferente. Não era daqui da região. Quando questionado por não havia mencionado isso antes, João Batista baixou os olhos. Pensei que não fosse importante, seu delegado. O Benedito conversava com muita gente.
As buscas se estenderam para além dos limites da fazenda. Mergulhadores vasculharam o rio Paraguai e seus afluentes. Cães farejadores foram trazidos de Campo Grande, mas perderam o rastro sempre no mesmo local, próximo ao córrego das pedras brancas, onde Trovão havia sido encontrado. Seis meses depois, quando as chuvas de outubro começaram a castigar a região, a busca oficial foi suspensa.
O coronel Antônio continuou financiando expedições particulares por mais um ano, mas até mesmo sua determinação começou a esmorecer diante da vastidão do serrado e da ausência total de pistas. A vida na fazenda Santa Rita continuou, mas nunca mais foi a mesma. Conceição envelhecia visivelmente a cada dia, os cabelos embranquecendo precocemente, as mãos sempre tremendo ligeiramente.
As crianças cresceram carregando o peso da ausência paterna e Josemar, aos 13 anos, já trabalhava como vaqueiro para ajudar no sustento da família. Em 1991, 2 anos após o desaparecimento, apareceu um homem na fazenda, afirmando ter visto Benedito em uma cidade do interior de Rondônia.
Conceição vendeu as duas vacas que possuía para pagar a viagem até lá, mas encontrou apenas um homem parecido que não era seu marido. Em 1993, foi a vez de um garimpeiro jurar ter trabalhado com Benedito em um garimpo clandestino próximo à fronteira. Mais uma viagem, mais uma decepção, mais um pedaço da alma de Conceição que se despedaçava.
Os anos passaram como páginas arrancadas de um calendário 1994, 1995, 1996. O coronel Antônio morreu de infarto em 1997 e seus filhos venderam a fazenda para um grupo de empresários de São Paulo. A nova administração não tinha paciência para histórias do passado e demitiu vários funcionários antigos. Conceição e os filhos foram obrigados a se mudar para a periferia de Cácceres, onde ela arrumou o trabalho como doméstica.
Josemar tornou-se soldado do exército. As meninas se casaram cedo e se espalharam pelo Brasil. A família se desfez como um punhado de terra seca jogado ao vento, mas Conceição nunca parou de procurar. Mesmo morando na cidade, voltava à fazenda todos os meses, caminhando pelos mesmos lugares, chamando pelo mesmo nome, esperando o mesmo milagre que nunca chegava.
Em março de 2003, exatos 14 anos após o desaparecimento, ela estava lá novamente, uma mulher de 52 anos, que parecia ter 70, quando ouviu o barulho de tratores e máquinas pesadas vindo da sede da fazenda. Os novos proprietários haviam decidido modernizar as instalações e foi então que o impossível aconteceu.
“Cuidado com essa tábua, ela tá podre”, gritou Valdecir, o mestre de obras contratado para a reforma, quando seus homens começaram a desmontar o curral principal da fazenda. Era uma estrutura antiga de madeira de aroeira, que resistia ao tempo há mais de 40 anos. Era manhã de 18 de março de 2003 e o cronograma era apertado. Os novos proprietários da fazenda queriam tudo pronto antes do início da estação seca em maio.
Curréis modernos, cercas de arame galvanizado, sistema de identificação eletrônica para o gado, tudo para transformar a antiga fazenda Santa Rita em um empreendimento do século XX. Conceição havia chegado mais cedo, como sempre fazia naquele mês. Observava os trabalhos à distância, com o coração apertado ao ver aqueles homens derrubando pedaços da história onde Benedito havia trabalhado tantos anos.
Cada tábua que caía era como se arrancassem um pedaço de suas memórias. “A senhora não pode ficar aqui, dona”, disse o supervisor. “Não, sem gentileza. É perigoso. Tem máquina pesada trabalhando. Mas ela não se mexeu. Ficou ali debaixo da sombra de um pequizeiro, observando o desmonte da sua vida passada.
Foi Toninho, um dos pedreiros da equipe, quem primeiro notou algo estranho quando retiraram as tábuas do fundo do curral. Ô, Valdecir, vem cá ver isso aqui. Chamou ele. A voz estranha apontando para uma das vigas de sustentação. Valdecir se aproximou e franziu a testa. Entre duas vigas de aroeira, no canto mais escuro do curral, havia algo que não deveria estar ali, uma cavidade artificial, como se alguém tivesse cuidadosamente removido parte da madeira para criar um esconderijo.
“Isso não é cupim”, murmurou o mestre de obras, passando a mão pela abertura. A madeira havia sido cortada com precisão, formando um buraco retangular de cerca de 30 cm por 20. E lá dentro, envolto em lona plastificada, amarelada pelo tempo, havia um objeto. Valdecir retirou o embrulho com cuidado.
Era pesado, do tamanho aproximado de uma caixa de sapatos. A lona estava bem amarrada com barbante e quando a desfez, revelou algo que fez todos os homens ficarem em silêncio. Uma caixa de madeira artesanal entalhada à mão com a tampa pregada com pequenos pregos enferrujados. Na tampa gravadas a fogo com ferro de mar cargado estavam as iniciais BMS Benedito Moreira da Silva.
Jesus Cristo! Sussurrou Toninho fazendo o sinal da cruz. A notícia se espalhou pela fazenda como rastilho de pólvora. Conceição, que havia sido afastada do local pelos trabalhadores, soube do achado quando viu os homens correndo em sua direção, falando todos ao mesmo tempo, gesticulando excitados. Quando entendeu o que estava acontecendo, suas pernas falharam.
Josemar, que havia chegado de Campo Grande para visitar a mãe, teve que ampará-la enquanto ela caminhava trôpega até o curral, o coração batendo tão forte que parecia que ia explodir peito. A caixa estava sobre uma tábua improvisada, cercada pelos trabalhadores que a observavam com uma mistura de curiosidade e respeito. Conceição se aproximou devagar, como se fosse uma relíquia sagrada que pudesse se desfazer ao menor toque.
São as iniciais dele”, disse ela. A voz um fio de som. BMS. Benedito Moreira da Silva. Meu marido sempre assinava assim nos documentos. Valdecir olhou para Josemar, que assentiu com a cabeça. Com uma chave de fenda, o mestre de obras cuidadosamente removeu os pregos da tampa. O rangido da madeira seca ecoou no silêncio absoluto que havia se instalado ao redor do curral.
Lá dentro, organizados com o cuidado de quem sabia que estava deixando uma mensagem para o futuro, estavam os objetos que contariam a verdade sobre o desaparecimento de Benedito Moreira da Silva, um caderno escolar de capa dura azul, com páginas amareladas pela umidade, mas ainda legíveis. Uma carteira de identidade em nome de Benedito.
Uma foto trá quatro da família, um rosário de madeira que Conceição reconheceu imediatamente, era o que ela havia dado de presente de casamento ao marido, e no fundo da caixa, embrulhado em um pedaço de tecido que um dia fora branco, um revólver calibre 38 com apenas quatro balas no tambor. Mas foi quando Josemar abriu o caderno que o silêncio se transformou em algo quase palpável.
Na primeira página, com a letra caprichada que Conceição conhecia tão bem, estava escrito: “Se alguém está lendo isso, é porque eu já morri e finalmente encontraram minha mensagem. Meu nome é Benedito Moreira da Silva e preciso contar a verdade sobre o que aconteceu naquele dia 15 de março de 1989. Não posso morrer sem que minha família saiba que eu não os abandonei.
Eu nunca os abandonaria. Conceição desabou em lágrimas, mas não eram lágrimas de tristeza, eram lágrimas de alívio. Depois de 14 anos, finalmente saberia a verdade. O delegado Cavalcante, agora aposentado, mas ainda morando em Cácceres, chegou à fazenda no final da tarde. Aos 64 anos, caminhava mais devagar e seus cabelos estavam completamente brancos.
Mas seus olhos continuavam atentos e perspicazes. Quando Josemar telefonou contando sobre a descoberta, ele não hesitou em viajar os 80 km até a fazenda. Em 30 anos de polícia, nunca vi nada parecido”, disse ele, foliando cuidadosamente as páginas do caderno. “É como se ele soubesse que ia morrer” e decidiu deixar um testemunho.
Conceição estava sentada na varanda da antiga casa sede, agora transformada em escritório da nova administração. Segurava o rosário de Benedito entre os dedos, enquanto Josemar lia em voz alta os trechos mais importantes do diário. A história que emergia das páginas amareladas era muito diferente de tudo que haviam imaginado durante esses 14 anos.
15 de março de 1989, 4 horas da manhã, começava a primeira entrada. Não consegui dormir a noite toda. Ontem à tarde, quando fui buscar o gado na invernada do fundo, vi algo que não deveria ter visto. Agora não sei o que fazer. A letra de Benedito, sempre caprichada, começava a ficar mais trêmula conforme avançava no relato.
Vi o coronel Antônio conversando com três homens que não conhecia. Homens da cidade, de terno e gravata. Não eram fazendeiros. Estavam próximo ao pasto onde o gado morre sempre. Aquela área que o coronel não deixa ninguém chegar perto, dizendo que é perigoso. Consegui ouvir parte da conversa. Falavam sobre mercadoria enterrada, mudança de local.
Problema resolvido. Um dos homens entregou um envelope grosso para o coronel. Dinheiro, com certeza. Agora entendo porque o gado morre naquela área. Não é doença. Eles enterraram algo lá, algo que mata os animais quando chega perto. Josemar parou de ler e olhou para a mãe. Mãe, a senhora lembra daquele pasto que o coronel não deixava ninguém entrar? Conceição assentiu devagar. Seu pai sempre achou estranho.
Dizia que não fazia sentido deixar pasto bom sem usar, ainda mais pasto de terra preta boa para capim. O delegado cavalcante interveio. Continue lendo os rapaz. Isso está ficando interessante. 5:30 da manhã. O coronel apareceu aqui em casa, disse que queria falar comigo antes que eu saísse para o trabalho. Perguntou se eu tinha visto alguma coisa estranha ontem.
Fingi que não é, mas ele ficou me olhando com desconfiança. Ele disse que uns homens da cidade vão vir aqui hoje à tarde para me resolver uns problemas. Pediu para eu acompanhar eles até o pasto do fundo, mostrar os lugares onde o gado costuma pastar. Estou com medo, Conceição. Se alguma coisa me acontecer, quero que você saiba que foi porque descobri algo que não deveria.
O coronel sempre foi bom comigo, mas hoje havia algo diferente em seus olhos. A voz de Josemar embargou quando chegou à próxima parte. Escondi este caderno e minhas coisas no curral. Se eu não voltar para casa hoje, é sinal de que algo deu errado. Procurem no curral principal, na viga dos fundos, lado esquerdo. Vocês são tudo para mim.
Não queria deixar vocês, mas não posso fingir que não vi o que vi. Conceição, meu amor, cuide bem dos meninos. Josemar, seja homem de bem e proteja sua mãe e suas irmãs. Rosimar, estude muito para ser alguém na vida. Cleomar e Josimar, obedeçam sempre sua mãe. Se vocês estão lendo isso, é porque Deus quis que a verdade viesse à tona.
Não procurem vingança. Apenas saibam que eu os amei até o último momento da minha vida. O silêncio que se seguiu foi interrompido apenas pelo canto dos bemvis e pelo ruído distante do gado pastando. O delegado cavalcante fechou o caderno devagar e suspirou: “Dona Conceição, a senhora tem ideia do que seu marido pode ter visto naquele pasto?” Ela balançou a cabeça, enxugando as lágrimas com o lenço.
Nunca soube de nada, seu delegado. O coronel sempre foi bom para nós. Mas agora que penso bem, ele morreu muito rico para quem tinha só gado e plantação. Josemar pegou o caderno das mãos do delegado. Tem mais uma coisa aqui no final, disse ele, foliando até a última página escrita. 15 de março, 11 hor da manhã. Voltei do pasto. Vi o que eles enterraram lá.
Tambores de metal com símbolos que não reconheço. Cheiro químico forte que faz os olhos arder. Agora entendo porque o gado morre. O coronel me ofereceu dinheiro para esquecer tudo. Muito dinheiro. Disse que era melhor para mim e minha família, mas não posso aceitar dinheiro sujo. Não posso fingir que não vi.
Vou falar com o delegado cavalcante amanhã de manhã. Ele é homem honesto. Vai saber o que fazer. Se eu não conseguir falar com ele, se algo me acontecer antes, pelo menos ficará este testemunho. A verdade sempre vem à tona, mais cedo ou mais tarde. O delegado cavalcante ficou de pé, o rosto grave. Dona Conceição, seu marido era um homem íntegro.
Morreu porque descobriu algo que poderia ter mudado muita coisa nesta região. Ele olhou para o horizonte, onde o sol começava a se por atrás dos morros. Agora precisamos descobrir onde ele está enterrado e o que aconteceu com aqueles tambores. Três dias depois da descoberta do diário, uma operação conjunta entre Polícia Federal, IBAMA e Ministério Público desembarcou na fazenda Santa Rita.
O caso havia ganhado proporções que ninguém imaginava quando Benedito escreveu suas últimas palavras naquele caderno escolar. Dr. Fernando Leal, promotor federal especializado em crimes ambientais, comandava as investigações. Era um homem meticuloso, de óculos grossos e fala pausada, que havia visto casos similares em outras regiões do país durante os anos 80 e 90.
“Na época do desaparecimento do seu marido”, explicou ele para a Conceição, “era comum empresas estrangeiras pagarem fazendeiros para enterrar resíduos tóxicos em áreas rurais. O Brasil não tinha fiscalização adequada e muita gente ganhou dinheiro fácil com isso. As escavações no Epasto da Morte, como os vizinhos já chamavam a área, começaram na manhã de 22 de março.
Equipamentos especiais de detecção química confirmaram a presença de substâncias tóxicas no solo, enterradas a aproximadamente 2 m de profundidade. Quando as máquinas trouxeram a superfície o primeiro tambor metálico, corroído pela ferrugem e com símbolos de caveira pintados na lateral, todos souberam que Benedito havia pagado com a vida por uma descoberta que poderia ter evitado uma catástrofe ambiental.
Eram 47 tambores no total, contendo resíduos químicos altamente tóxicos de uma indústria farmacêutica alemã. O coronel Antônio havia recebido o equivalente a R$ 200.000 R$ 1.000 da época para permitir o depósito clandestino em suas terras. Seu marido salvou muitas vidas, disse Dr. Fernando para a Conceição, enquanto observavam as equipes especializadas, removendo os tambores com equipamentos de proteção.
E se essa contaminação tivesse se espalhado para o lençol freático, poderia ter envenenado toda a região. Mas ainda faltava responder à pergunta que atormentava Conceição há 14 anos. Onde estava o corpo de Benedito? A resposta veio três semanas depois, através de uma ligação telefônica inesperada. Padre Anselmo da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Cácceres, pediu para falar com urgência com a família de Benedito.
Recebi uma confissão que preciso compartilhar, disse o padre, um homem de 78 anos que havia conhecido Benedito desde criança. Seu Manuel Torres está internado em estado grave no hospital, com câncer no fígado. Ele pediu para chamarem vocês. Manuel Torres havia sido capataz da fazenda vizinha a Santa Rita, um homem respeitado na região, casado, pai de quatro filhos, que frequentava a missa todos os domingos e nunca havia dado motivo para desconfiança.
No Hospital São Luís, em Cácceres, ele estava irreconhecível. O câncer havia consumido seu corpo robusto, deixando apenas pele e osso, mas seus olhos ainda brilhavam com a urgência de quem precisa aliviar a consciência antes de encontrar o criador. Dona Conceição! Disse ele, a voz fraca, mas firme. Eu matei seu marido.
Não posso morrer sem pedir perdão. Conceição sentiu o mundo girar ao redor, mas forçou-se a permanecer de pé. Josemar segurou sua mão, dando-lhe força para ouvir o que precisava ouvir. “O coronel Antônio me pagou para resolver o problema do Benedito”, continuou Manuel, lutando para falar entre os acessos de Tose. Disse que ele tinha visto coisas que podiam acabar com todos nós. Me deu 50.
000 cruzeiros e disse que era para o bem da região. Encontrei com o Benedito no córrego das Pedras Brancas no dia 15 de março. Disse que tinha um trabalho para ele fazer longe da fazenda. Quando ele desceu do cavalo para conversar melhor, eu eu atirei pelas costas. Conceição fechou os olhos, respirando fundo. Depois de 14 anos, finalmente sabia como seu marido havia morrido.
Enterrei ele no cemitério da minha fazenda, embaixo do pé de manga que fica atrás da casa sede. Ninguém nunca desconfiou. Toda semana eu levava flores lá, fingindo que era para enfeitar o jardim. Manuel Torres morreu dois dias depois, levando consigo o peso de um crime que havia carregado por 14 anos. Mas sua confissão finalmente permitiu que Benedito fosse encontrado e sepultado com a dignidade que merecia.
O corpo estava exatamente onde Manuel havia dito. Preservado pela terra argilosa da região, ainda era possível identificá-lo pelas roupas que Conceição reconheceu imediatamente e pela aliança de casamento que nunca havia tirado do dedo. Em 15 de abril de 2003, exatos 14 anos e um mês após seu desaparecimento, Benedito Moreira da Silva foi sepultado no cemitério municipal de Cáceres com honras de herói.
Centenas de pessoas compareceram ao funeral, incluindo autoridades federais, ambientalistas e vizinhos, que finalmente entendiam porque aquele homem simples havia desaparecido. Na lápide, Conceição mandou gravar uma frase simples que resumia toda a história. Benedito Moreira da Silva morreu defendendo a verdade.
O coronel Antônio já havia morrido quando a verdade veio à tona, mas seus filhos foram obrigados a indenizar as famílias afetadas pela contaminação e a pagar uma multa milionária pelos crimes ambientais. A empresa alemã, responsável pelos resíduos, também foi processada internacionalmente. Conceição continuou morando em Cácceres, mas agora com a paz de quem finalmente conhece a verdade.
Aos 52 anos, decidiu que ainda tinha muito para viver. voltou a sorrir, voltou a fazer planos, voltou a acreditar que a vida valia a pena. “Ele não nos abandonou”, dizia ela sempre que alguém perguntava sobre Benedito. Ele morreu sendo o homem íntegro que sempre foi. E isso é tudo que importa. Em 2010, 7 anos depois da descoberta do diário, a área da antiga fazenda Santa Rita foi transformada em uma reserva ambiental.
Uma placa na entrada conta a história de Benedito Moreira da Silva, o vaqueiro que sacrificou a vida para proteger o meio ambiente. Às vezes, quando o vento sopra forte sobre os pastos do Mato Grosso, os moradores antigos da região juram ouvir o som de cascos de cavalo ecoando no horizonte. Dizem que é benedito, montado em seu trovão, ainda cuidando daquelas terras que amou até o último dia de vida.
Mas isso talvez seja apenas uma lenda. A verdade, essa sim, estava escondida no curral por 14 anos, esperando o momento certo para vir à luz. E quando veio, mudou para sempre a vida de todos que a conheceram. M.