O MICROFONE LIGADO E A CONFISSÃO DO SANGUE: COMO O HERDEIRO BILIONÁRIO ROBERT DURST ENTREGOU SEUS ASSASSINATOS SEM PERCEBER
Por trás de um olhar vago, de uma voz pausada e de uma fortuna estimada em centenas de milhões de dólares, escondia-se uma das mentes mais frias e manipuladoras do crime real. Robert Durst parecia imune ao sistema judicial. Ao longo de quatro décadas, o herdeiro de um dos maiores impérios imobiliários de Nova York viveu como um fantasma, cruzando o país sob identidades falsas, esquivando-se de acusações de homicídio e deixando um rastro de sangue, desaparecimentos e corpos desmembrados.
Entretanto, o império de mentiras e arrogância não caiu devido a uma investigação policial impecável, mas sim pela vaidade do próprio assassino. Ao aceitar estrelar um documentário sobre sua própria vida, Durst cometeu o erro definitivo: esqueceu-se de que o microfone continuava ligado quando foi ao banheiro e sussurrou para si mesmo as palavras que o levariam para a prisão perpetuidade.
O Início do Rastro: O Desaparecimento de Kathie Durst

A trajetória sombria de Robert Durst começou a ganhar contornos públicos no início dos anos 1970. Nascido no seio de uma família aristocrática nova-iorquina, Durst vivia sob o peso da riqueza sem limites. Em 1971, conheceu Kathleen “Kathie” McCormack, uma jovem de origem humilde, trabalhadora e dona de uma inteligência vibrante. O casal oficializou a união em 1972 e, enquanto Durst geria os negócios familiares com apatia, Kathie perseguia seu sonho profissional, ingressando na faculdade de medicina.
Porém, por trás da fachada de casal perfeito, o casamento ruiu rapidamente sob o impacto do comportamento controlador e violento de Robert. Amigos e familiares relataram episódios de agressão física e chantagem financeira. No início de 1982, Kathie deu entrada em um hospital no Bronx com hematomas no rosto e buscou orientação jurídica para dar início ao processo de divórcio, exigindo uma compensação financeira. A resposta de Durst foi cancelar cartões de crédito e cortar o pagamento das mensalidades da faculdade de medicina da esposa, a poucas semanas de sua formatura.
Na noite de 31 de janeiro de 1982, após frequentar uma festa na casa de um amigo em Connecticut trajando roupas casuais e visivelmente perturbada, Kathie voltou para a casa do casal em South Salem. A partir daquele momento, a jovem médica de 29 anos evaporou da face da Terra.
Durst apresentou versões conflitantes às autoridades. Inicialmente, alegou ter colocado a esposa em um trem rumo a Manhattan e conversado com ela por telefone mais tarde. Mais tarde, admitiu ter mentido sobre a história do trem, mas nunca forneceu uma explicação coerente. A polícia só foi notificada do desaparecimento dias depois. Ao revistarem o apartamento do casal semanas mais tarde, os investigadores encontraram os pertences de Kathie jogados no lixo em sacos plásticos, sinal claro de que o marido sabia que ela jamais retornaria. Sem corpo e sob o peso da influência política e financeira da família Durst, a investigação esfriou e o caso permaneceu sem solução por quase vinte anos.
A Porta-Voz e a Execução Estilo Máfia em Beverly Hills

Em 1999, as autoridades do estado de Nova York decidiram reabrir formalmente as investigações sobre a morte de Kathie. A decisão enviou ondas de choque pelo mundo blindado de Robert Durst. Para chegar à verdade, a polícia precisava interrogar pessoas do círculo íntimo do herdeiro, e um nome figurava no topo da lista: Susan Berman.
Susan era filha de David Berman, uma figura histórica do crime organizado de Las Vegas que operou o famoso Hotel Flamengo. Jornalista, escritora e herdeira de uma fortuna do jogo, Susan conhecera Robert durante os tempos de faculdade. Quando Kathie desapareceu em 1982, Susan assumiu voluntariamente o papel de porta-voz não oficial de Durst, gerenciando a imprensa, concedendo entrevistas e sustentando publicamente os álibis fornecidos pelo amigo.
Contudo, quando os detetives entraram em contato com Susan para agendar um novo depoimento no final do ano 2000, o destino da jornalista foi selado. Em 23 de novembro de 2000, o corpo de Susan Berman foi encontrado em sua residência em Beverly Hills. Ela havia sido executada friamente com um tiro na nuca.
No mesmo dia da descoberta, a polícia de Beverly Hills recebeu um bilhete anônimo contendo o endereço da vítima e a palavra “CORPSE” (cadáver). O envelope trazia o nome da cidade escrito incorretamente como “Beverley” — um erro ortográfico peculiar que viria a assombrar o assassino no futuro. Embora Durst estivesse na Califórnia dias antes do crime e tenha viajado de volta para Nova York na véspera da localização do corpo, a ausência de provas materiais diretas impediu que ele fosse indiciado na época.
O Disfarce no Texas: Viver Como Mulher e a Morte de Morris Black
Sustentando a paranoica certeza de que seria preso pelo desaparecimento da primeira esposa ou pela morte de Susan, Robert Durst decidiu desaparecer. Em vez de utilizar sua fortuna para se esconder no exterior, adotou uma estratégia bizarra: mudou-se para Galveston, no Texas, alugou um quarto modesto em uma pensão barata e passou a viver sob a identidade de uma mulher muda chamada Dorothy Ciner. Ele usava perucas, vestia-se com roupas femininas e comunicava-se com os vizinhos apenas por meio de bilhetes manuscritos.
Nessa mesma pensão vivia Morris Black, um idoso de 71 anos de hábitos solitários. A convivência entre os dois vizinhos terminou de maneira trágica na noite de 28 de setembro de 2001.
De acordo com o depoimento posterior de Durst, ao retornar ao seu apartamento, encontrou Morris no local segurando uma arma de fogo pertencente ao próprio herdeiro. Seguiu-se uma luta corporal e a arma teria disparado acidentalmente, atingindo Morris na cabeça. O que aconteceu a seguir estarreceu as autoridades: em vez de acionar a polícia, Durst usou serras de arco, um machado e uma faca de manteiga para esquartejar o corpo do vizinho. Em seguida, colocou os pedaços em sacos de lixo pretos e os atirou na Baía de Galveston.
Dois dias depois, partes do corpo foram encontradas flutuando na água por um pescador. Uma nota fiscal encontrada dentro de um dos sacos guiou a polícia até a pensão. No local, marcas de sangue ligavam o quarto de “Dorothy Ciner” ao de Morris Black. Durst foi preso em 9 de outubro de 2001, mas pagou uma fiança de 300 mil dólares no mesmo dia e fugiu imediatamente.
A fuga durou 45 dias. Em 30 de novembro de 2001, o bilionário foi preso em uma pequena cidade da Pensilvânia após tentar furtar um sanduíche de frango e um jornal em um supermercado — apesar de carregar 500 dólares em espécie no bolso e mais de 37 mil dólares em dinheiro no carro alugado, além de duas armas e a carteira de motorista da vítima morta.
Em um dos julgamentos mais inacreditáveis da história jurídica americana, ocorrido em 2003 no Texas, os advogados de defesa sustentaram a tese de que a morte de Morris Black ocorrera em legítima defesa e que o esquartejamento fora motivado pelo estado de choque do réu. Como a cabeça de Morris jamais foi recuperada pela perícia, os promotores não puderam desmentir tecnicamente a versão do disparo acidental. Para o espanto geral, o júri absolveu Robert Durst da acusação de homicídio, condenando-o apenas por destruição de provas e violação da fiança.
“Eu Matei Todos Eles”: A Armadilha de Um Documentário e a Justiça Final
Livre das acusações de homicídio e bilionário, Durst poderia ter vivido o restante de seus dias no anonimato absoluto. Contudo, em 2010, o diretor Andrew Jarecki lançou o filme Entre Segredos e Mentiras, inspirado na vida do herdeiro. Durst não apenas assistiu ao longa como entrou em contato com o cineasta para elogiar a produção e oferecer uma série de entrevistas exclusivas.
Entre 2010 e 2015, foram gravadas dezenas de horas de conversas que deram origem à minissérie documentária The Jinx: A Vida e as Mortes de Robert Durst, exibida pela HBO. Durante a produção, a equipe do documentário obteve um documento devastador: uma carta enviada no passado por Durst a Susan Berman. A caligrafia da carta era idêntica à do bilhete anônimo enviado à polícia no dia da morte de Susan — incluindo a grafia errônea da palavra “Beverley”.
Confrontado pelas câmeras com a evidência irrefutável, Durst tentou manter a postura, mas demonstrou forte desconforto. Ao término da entrevista, dirigiu-se ao banheiro do estúdio sem perceber que seu microfone de lapela continuava ligado e gravando. Sozinho no recinto, entre suspiros e frases desconexas, Robert Durst proferiu a confissão que o mundo esperava ouvir há quatro décadas:
“Aí está. Você foi pego. Que diabo eu fiz? Matei todos eles, é claro.”
A revelação no episódio final do documentário parou os Estados Unidos. No dia 14 de março de 2015, um dia antes da exibição do último capítulo, Durst foi preso em Nova Orleans pela morte de Susan Berman.
Após um longo e complexo julgamento na Califórnia, focado no assassinato da jornalista e na prova grafotécnica decisiva, Robert Durst foi considerado culpado de homicídio em primeiro grau em setembro de 2021. Ele foi sentenciado à prisão perpétua sem direito à liberdade condicional. Pouco tempo depois, promotores de Nova York finalmente o indiciaram pelo assassinato de sua primeira esposa, Kathie, reclassificando o desaparecimento como homicídio.
Aos 78 anos e com a saúde severamente debilitada, Robert Durst morreu na prisão em 10 de janeiro de 2022, antes de ser levado a júri pelo assassinato de Kathie. Embora tenha falecido cumprindo pena, o mistério sobre a localização do corpo de sua primeira esposa e da cabeça de Morris Black foi levado por ele para o túmulo — encerrando a trajetória de um dos criminosos mais soturnos, intrigantes e impunes da era moderna.