A MISTÉRIO, A AMBIÇÃO E O SANGUE: COMO R$ 52 MILHÕES NO JOGO TRANSFORMARAM UM LAVRADOR HUMILDE NA VÍTIMA DO CRIME MAIS MACABRO DO BRASIL
A sorte grande é o sonho acalentado por milhões de brasileiros, a promessa dourada de uma virada de vida definitiva. No entanto, para um homem simples do interior do Estado do Rio de Janeiro, o bilhete premiado da Mega-Sena não trouxe a paz desejada, mas sim a senha para um pesadelo arquitetado nos bastidores do próprio lar. A trajetória que começou na extrema pobreza culminou em uma teia macabra de ambição, traição e execuções a sangue-frio na calçada de um bar.
Do abandono, da doença e da miséria ao bilhete dourado

Antes de estamparem a capa dos principais jornais do país, a rotina de Renê Senna e de sua família era marcada pela sobrevivência diária. Nascido na zona rural de Tomascar, entre os municípios de Tanguá e Rio Bonito, Renê cresceu em uma casa de pau a pique ao lado de dez irmãos. Illiterato e criado no trabalho bruto do campo, abandonou os estudos aos 11 anos para ajudar no sustento da casa.
Na vida adulta, a trajetória pesada do trabalho rural somou-se ao vício do alcoolismo e a complicações severas causadas pela diabetes não tratada. Sem cuidados médicos adequados, as consequências foram devastadoras: um acidente com uma cerca de arame inflamou uma ferida no pé que, agravada pelo quadro diabético, levou a sucessivas amputações. Primeiro um dedo, depois metade do pé e, por fim, a perda total das duas pernas.
Dependente dos cuidados devotados de suas irmãs e vivendo em extrema modéstia na casa dos fundos de uma escola pública, Renê passava os dias em uma cadeira de rodas, mantendo um hábito inabalável há 15 anos: apostar semanalmente nas dezenas da Mega-Sena.
No início de julho de 2005, com R$ 2,00 no bolso e trocando o troco do pão para ter os R$ 1,50 necessários para a aposta, ele escreveu os números 03, 21, 25, 37, 54 e 58 em um pedaço de papel. As dezenas representavam datas de nascimento, falecimentos e até o número da sepultura de entes queridos. Enviou o sobrinho de 11 anos até a casa lotérica e fez uma promessa fervorosa a Nossa Senhora de Nazaré. Naquela noite, a combinação exata foi sorteada: o lavrador humilde tornara-se o único ganhador de um prêmio fabuloso de R$ 52 milhões.
O encanto repentino e a mansão no Recreio: a entrada da viúva

Incapaz de dimensionar a magnitude do valor — a ponto de perguntar ao gerente do banco se o dinheiro daria para pagar uma viagem de avião às praias de Fortaleza —, Renê iniciou uma verdadeira revolução na vida de seus familiares. Comprou imóveis para os irmãos, presenteou a filha única com um carro zero-quilômetro e uma propriedade avaliada em R$ 300 mil, e distribuiu cestas básicas por sua cidade natal.
Contudo, a mudança drástica no patrimônio do novo milionário chamou a atenção de quem antes o ignorava. Adriana Ferreira Almeida, uma jovem cabeleireira de Rio Bonito e antiga conhecida da família, jamais demonstrara qualquer interesse amoroso pelo homem debilitado e sem pernas. Mas, assim que a notícia sobre os R$ 52 milhões se espalhou, o cenário mudou radicalmente.
Em pouco tempo, Adriana aproximou-se de Renê, assumiu o posto de namorada e, em questão de dias, mudou-se com os dois filhos do primeiro casamento para a nova residência de luxo do milionário, localizada no condomínio Maramar, no Recreio dos Bandeirantes.
rapidamente, a mulher assumiu a gestão das contas bancárias do marido, afastando os antigos administradores. A transformação física e financeira de Adriana foi imediata: passou a circular em carros de luxo, frequentar academias de elite, realizar cirurgias plásticas e abrir uma conta conjunta com o ex-lavrador.
Paralelamente, instigou um racha profundo entre Renê e seus irmãos. Sob forte pressão da companheira, em março de 2006 o milionário alterou seu testamento original — que destinava 50% dos bens para os irmãos — e colocou sua filha única, Renata, como herdeira universal.
A fazenda cinematográfica e a vida dupla sob o mesmo teto
Desconfortável com o estilo de vida ostentoso da capital e com saudades do ambiente rural, Renê comprou por R$ 9 milhões a Fazenda Nossa Senhora da Conceição, em Rio Bonito. Com 930 hectares, centenas de cabeças de gado, mansão colonial de dois andares com 58 cômodos, heliponto e estrutura de lazer completa, a propriedade parecia o refúgio perfeito.
Para garantir a segurança do local, Adriana sugeriu a contratação de Anderson Silva Souza, ex-policial militar afastado da corporação. Anderson formou uma equipe armada na fazenda. No entanto, o que Renê não sabia é que a esposa mantinha uma vida paralela e encontros clandestinos.
De acordo com as investigações policiais, a cabeleireira mantinha um caso extraconjugal com um motorista de van e acabou aproximando-se amorosamente também de Anderson, o chefe da segurança da própria fazenda. Juntos, Adriana e o amante do crime chegaram a planejar um falso sequestro dos próprios filhos da mulher para extorquir mais dinheiro do milionário.
O plano foi descoberto por outro segurança da propriedade, Davi Vilena, homem de confiança de Renê, que alertou o patrão sobre os antecedentes criminais dos homens contratados pela esposa. Assustado, Renê demitiu Anderson e outros seguranças imediatamente. A resposta dos criminosos foi brutal: cinco dias após a demissão, o segurança Davi Vilena foi abordado em uma falsa blitz e executado a tiros, tendo o corpo desovado no tronco de um veículo no Rio de Janeiro.
A descoberta da traição e a execução a sangue-frio
Mesmo com a expulsão dos seguranças, a ameaça continuava dentro de casa. Em outubro de 2006, pressionado novamente por Adriana, Renê assinou o seu terceiro testamento. O novo documento estipulava que 50% de toda a sua fortuna ficaria para a filha e os outros 50% pertenceriam integralmente a Adriana Ferreira Almeida.
Garantida no testamento, a mulher continuou a agir nas sombras. Usando a conta conjunta sem o conhecimento do marido, retirou R$ 300 mil em dinheiro vivo para comprar uma cobertura de luxo em Arraial do Cabo, destinada aos encontros amorosos com seu amante.
No Réveillon de 2007, Adriana abandonou o marido sozinho na fazenda para passar a virada do ano no imóvel secreto com o parceiro. A farsa caiu por terra no dia 3 de janeiro de 2007, quando Renê conversou com o gerente do banco e descobriu o desfalque milionário em sua conta. Furioso, o ex-lavrador expulsou a mulher de casa no dia 5 de janeiro e fez uma ameaça categórica: reverteria a conta conjunta e alteraria o testamento na semana seguinte para retirar seu nome da herança.
A partir desse ultimato, a contagem regressiva para o crime foi deflagrada. Na manhã de domingo, 7 de janeiro de 2007, Renê quebrou sua rotina e dirigiu-se em seu quadriciclo até o bar do Penco, no distrito de Lavras, sem acompanhamento de seguranças. Enquanto conversava na calçada sobre a viatura improvisada, uma motocicleta com dois homens encapuzados aproximou-se do local.
O carona — mais tarde identificado como o ex-segurança Anderson Silva Souza — desembarcou, apalpou a cintura do milionário para confirmar se ele estava armado e desferiu quatro disparos à queima-roupa. Os tiros atingiram a nuca, a têmpora, o olho e o queixo de Renê Senna, que morreu na hora. Os assassinos roubaram a pochete da vítima e fugiram em disparada.
Bastidores da investigação, reviravoltas judiciais e o destino dos R$ 100 milhões
O crime que chocara o país deu início a uma complexa investigação liderada pela Polícia Civil do Rio de Janeiro. A atitude gélida da viúva nos dias seguintes ao assassinato despertou suspeitas imediatas. Além de não demonstrar luto, Adriana apresentou um recibo de mercado como alibi e tentou transferir R$ 1,8 milhão da conta do falecido marido para sua conta pessoal poucos dias após o sepultamento.
A quebra do sigilo telefônico revelou que Adriana realizara diversas chamadas para o assassino Anderson no próprio dia do homicídio. Diante do conjunto de provas, a mulher foi presa e apontada formalmente como a mandante do assassinato do próprio marido.
O embate nos tribunais estendeu-se por mais de uma década e desenrolou-se em meio a anulações, recursos e decisões conflitantes:
2009: Os executores materiais do crime, os ex-policiais Anderson Silva e Ednei Gonçalves, foram condenados a 18 anos de prisão.
2011: Em um primeiro júri popular repleto de polêmicas, Adriana foi absolvida. Contudo, o julgamento foi anulado em 2014 após a comprovação de que jurados haviam quebrado a incomunicabilidade obrigatória ao frequentarem um posto de gasolina.
2016: Submetida a um novo júri, a viúva foi formalmente condenada a 20 anos de prisão por homicídio duplamente qualificado.
2018: A Justiça do Rio de Janeiro anulou o testamento de outubro de 2006 por constatar fraude e manipulação dolosa por parte de Adriana. No mesmo ano, após decisão de execução de pena, a viúva foi presa.
Atualmente, Adriana Ferreira cumpre pena sob regime flexibilizado, tendo sido declarada judicialmente indigna e sumariamente excluída de qualquer direito à fortuna de Renê Senna.
Após longos anos de disputas judiciais envolvendo os irmãos da vítima, ex-esposas e recursos civis, a Justiça do Rio de Janeiro confirmou a validade do testamento no qual Renê nomeara sua única filha, Renata Senna, como a herdeira legítima e universal do patrimônio — hoje avaliado em mais de R$ 100 milhões.
A história de Renê Senna permanece como uma das crônicas mais sombrias sobre os perigos da ambição desmedida. O homem que tirou a sorte grande no jogo descobriu, da forma mais dolorosa e fatal, que no xadrez da vida real a fortuna inesperada pode se transformar na atração irresistível dos piores predadores.