Caso Amanda Pedrosa | ENCONTRO F4T4L
CASO AMANDA PEDROSA: ELA PREPAROU UM BANQUETE PARA RECEBER UM HOMEM QUE CONHECEU PELA INTERNET — HORAS DEPOIS, A FAMÍLIA DESCOBRIU UMA CENA QUE MARCOU RECIFE
O que deveria ser apenas uma noite agradável, com petiscos, cerveja e a expectativa de conhecer melhor um homem por quem demonstrava estar encantada, terminou em um dos casos criminais mais chocantes registrados no Recife nos últimos anos.
Amanda Silva Pedrosa, de 39 anos, projetista, reservada e muito próxima da família, havia contado às irmãs que estava conhecendo um homem por meio de um aplicativo de relacionamentos. Segundo os relatos reunidos durante a investigação, ela parecia animada com a nova possibilidade amorosa.

No dia 27 de dezembro de 2022, Amanda preparou comida para receber Rafael José Dornelas Câmara Guedes Alcoforado em seu apartamento, no bairro da Iputinga, Zona Oeste do Recife.
Ela não imaginava que aquela seria sua última noite.
No dia seguinte, após inúmeras tentativas frustradas de contato, sua mãe e outros familiares começaram a sentir que algo estava errado.
Amanda tinha o hábito de falar diariamente com a família. Havia, inclusive, uma espécie de regra entre mãe e filhas: como várias delas moravam sozinhas, deveriam manter contato frequente umas com as outras.
Mas naquela quarta-feira, 28 de dezembro, Amanda não respondeu.
As horas passaram.
Nenhuma mensagem.
Nenhuma ligação atendida.
Nenhum sinal.
A preocupação virou desespero.
A PORTA FECHADA E O SILÊNCIO DENTRO DO APARTAMENTO
Familiares decidiram então seguir até o apartamento de Amanda, localizado na Rua Gaspar Perez.
O imóvel estava escuro. Uma luz permanecia acesa na parte dos fundos.
Vizinhos disseram que não viam Amanda desde o dia anterior.
Inicialmente, alguns acreditaram que ela pudesse ter saído. O carro também não estava na garagem, o que parecia reforçar essa possibilidade.
Mas havia algo estranho.
O cunhado de Amanda conseguiu olhar o interior do apartamento através de uma janela. Com uma lanterna, percebeu latas de cerveja na sala.
Para a família, aquilo não combinava com o comportamento habitual dela.
A mãe, cada vez mais angustiada, pediu que o genro entrasse no imóvel.
A porta acabou sendo forçada.
Logo na sala surgiu o primeiro sinal alarmante: a televisão havia desaparecido.
No quarto, objetos estavam fora do lugar.
Quando o cunhado entrou no dormitório de Amanda, compreendeu imediatamente que a situação era muito mais grave do que todos imaginavam.
Amanda estava sem vida.
A polícia foi acionada e a investigação passou para o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa.
A partir daquele momento, começou uma corrida para descobrir o que havia acontecido dentro daquele apartamento.
DOIS HOMENS FORAM VISTOS NO PRÉDIO
Os depoimentos dos vizinhos seriam fundamentais.
Moradores relataram ter visto dois homens circulando pelo prédio na noite anterior.
Um deles foi reconhecido como Rafael, o homem que Amanda havia conhecido recentemente.
Outro rapaz ainda precisava ser identificado.
Uma das vizinhas contou que viu os dois conversando no térreo. Um deles havia chegado de motocicleta.
Outra testemunha relatou ter visto Rafael segurando as chaves do apartamento de Amanda.
Também houve relatos de movimentação entre o imóvel e o carro da vítima.
Em determinado momento, segundo testemunhas, um dos homens saiu dirigindo o veículo de Amanda, enquanto o outro deixou o local em uma motocicleta.
Ela não estava no carro.
Câmeras de segurança instaladas nas proximidades ajudaram os investigadores a reconstruir os acontecimentos.
Por meio das imagens, os policiais conseguiram identificar a placa da motocicleta.
O veículo estava registrado em nome de Robson Miqueas Ferreira Rodrigues, então com 20 anos.
A investigação ganhou velocidade.
A PRISÃO QUE MUDOU O RUMO DO CASO
Na manhã de 30 de dezembro, policiais foram até a residência de Robson, também na região da Iputinga.
Segundo o processo, ele admitiu participação nos acontecimentos e apresentou uma versão detalhada daquela noite.
Robson afirmou que conhecia Rafael desde 2019, quando os dois haviam passado por uma clínica de reabilitação.
Segundo ele, Rafael funcionava como uma espécie de padrinho dentro daquele vínculo de apoio.
Robson contou que foi convidado para ir ao apartamento de Amanda para beber e conversar.
Inicialmente, disse não imaginar que aquela reunião terminaria em crime.
Sua versão, porém, descreveu uma sequência de acontecimentos extremamente grave.
De acordo com o depoimento, durante uma saída para comprar mais bebidas, Rafael teria falado sobre um suposto problema envolvendo Amanda e mencionado a intenção de roubar seus bens.
Robson afirmou que tentou questioná-lo, mas voltou ao apartamento.
A partir daquele ponto, segundo sua versão, a situação saiu completamente do controle.
Robson declarou que Rafael teria colocado comprimidos na bebida de Amanda e que ela ficou alterada algum tempo depois.
Ele disse ter permanecido na sala enquanto Rafael levou Amanda para o quarto.
Posteriormente, segundo Robson, Rafael reapareceu dizendo que algo grave havia ocorrido.
Robson ainda afirmou ter sido ameaçado e obrigado a ajudar na retirada dos pertences.
A versão apresentada pelo Ministério Público sustentou que os dois participaram da subtração dos bens e que Amanda foi colocada em condição de não oferecer resistência.
Diversos objetos desapareceram do apartamento: televisão, celular, monitores, ventilador, documentos, botijões de gás e o carro da vítima.
Parte do material teria sido posteriormente trocada por drogas.
RAFAEL APRESENTOU UMA VERSÃO COMPLETAMENTE DIFERENTE
Quando se apresentou à polícia acompanhado de advogado, Rafael negou ter matado Amanda.
Sua versão entrou em confronto direto com a narrativa apresentada por Robson.
Rafael disse que Amanda teria passado mal e que, posteriormente, Robson teria iniciado o roubo.
Segundo ele, seria Robson quem estava armado com uma faca e quem o teria ameaçado.
Rafael admitiu participação na retirada dos objetos, mas afirmou ter agido por medo.
Também negou ter colocado substâncias na bebida de Amanda, negou a suposta dívida mencionada por Robson e declarou que acreditava que Amanda ainda estivesse viva quando deixou o apartamento.
As versões contraditórias passaram a ser confrontadas com depoimentos, imagens, laudos periciais, objetos encontrados e outros elementos reunidos pela investigação.
Enquanto cada acusado tentava atribuir ao outro a responsabilidade principal, a família de Amanda cobrava justiça.
“ELA FEZ UM BANQUETE PARA RECEBÊ-LO”
Uma das declarações mais dolorosas veio de Adriana, irmã de Amanda.
A família destacava constantemente o contraste entre a confiança demonstrada pela vítima e o que aconteceu naquela noite.
Amanda havia preparado comida para receber Rafael.
Tinha contado às pessoas próximas sobre ele.

Segundo parentes, demonstrava entusiasmo com a possibilidade de iniciar um relacionamento.
Por isso, para a família, havia algo particularmente devastador no fato de o crime ter acontecido justamente dentro da casa de Amanda, depois que ela permitiu a entrada das pessoas envolvidas.
O caso também abriu um debate sobre relacionamentos iniciados em aplicativos e os riscos de entregar confiança a pessoas ainda pouco conhecidas.
Entretanto, o episódio não pode ser reduzido simplesmente ao fato de Amanda ter utilizado uma plataforma de encontros.
A responsabilidade pelo crime, conforme estabelecido judicialmente, pertence aos autores dos atos praticados naquela noite.
OUTRA MULHER TAMBÉM PRESTOU UM DEPOIMENTO IMPACTANTE
Uma ex-companheira de Rafael, identificada como Aline, também foi ouvida.
Ela relatou uma relação marcada por problemas financeiros, conflitos e episódios que posteriormente passaram a ter outro significado para ela.
Segundo Aline, Rafael teria utilizado dinheiro e cartões dela para manter sua hamburgueria.
Ela afirmou ainda que objetos pessoais desapareceram durante o relacionamento.
Aline relatou que só descobriu a ligação de Rafael com a morte de Amanda após pesquisar o caso na internet.
Também entregou à polícia capturas de tela de conversas que, segundo seu depoimento, ocorreram após o crime.
Ela afirmou que Rafael chegou a pedir ajuda e que solicitou que determinadas mensagens fossem apagadas.
O material passou a integrar o conjunto de informações avaliadas durante a investigação.
FEMINICÍDIO OU LATROCÍNIO?
Inicialmente, o caso foi tratado sob a possibilidade de feminicídio devido ao vínculo entre Amanda e Rafael.
A família defendia essa classificação.
No entanto, o Ministério Público apresentou denúncia por latrocínio — roubo seguido de morte.
Essa diferenciação jurídica se tornou um dos pontos centrais do processo.
Segundo a acusação aceita pela Justiça, o objetivo patrimonial estava diretamente ligado à morte e à retirada dos bens da vítima.
A família chegou a manifestar desejo de que o caso fosse enquadrado como feminicídio, mas posteriormente aceitou o resultado judicial pelo crime de latrocínio, destacando que o mais importante era manter os envolvidos afastados da sociedade e responsabilizados pelo que aconteceu.
AS CONDENAÇÕES
Em 6 de setembro de 2023, aproximadamente oito meses após o crime, a Justiça proferiu sentença.
Rafael José Dornelas Câmara Guedes Alcoforado foi condenado a 27 anos de prisão pelo crime de latrocínio.
Na decisão, foram consideradas circunstâncias como a impossibilidade de defesa da vítima e a gravidade da conduta.
Robson Miqueas Ferreira Rodrigues recebeu pena de 22 anos e seis meses.
Segundo a sentença mencionada nos autos do caso, foram consideradas sua participação no crime, as circunstâncias agravantes e também fatores legais ligados à confissão parcial e à idade que possuía na época.
O regime inicial determinado foi o fechado.
Segundo as informações divulgadas posteriormente, ambos permaneceram presos cumprindo suas penas no sistema penitenciário de Pernambuco.
UMA FAMÍLIA QUE CONTINUA VIVENDO COM A AUSÊNCIA
Nenhuma sentença devolve Amanda à sua mãe.
Nenhum número de anos de prisão apaga o momento em que seus familiares entraram naquele apartamento.
Para eles, a condenação trouxe algum sentimento de alívio, mas não encerrou a dor.
Amanda tinha uma rotina.
Tinha planos.
Trabalhava com a irmã.
Falava diariamente com a mãe.
Havia passado por experiências difíceis em relacionamentos anteriores e, segundo familiares, enxergava naquele novo encontro a possibilidade de viver algo diferente.
Na tarde de 27 de dezembro de 2022, ela preparou petiscos e aguardou uma visita.
Pouco mais de 24 horas depois, sua família estava diante de uma realidade impossível de imaginar.
O Caso Amanda Pedrosa permanece lembrado não apenas pela brutalidade do crime, mas pelo contraste perturbador entre a expectativa de uma noite aparentemente comum e o desfecho trágico que se seguiu.
Uma casa preparada para receber alguém.
Uma mesa com comida.
Uma família esperando uma mensagem no dia seguinte.
E um silêncio que, pouco a pouco, começou a revelar que algo terrível havia acontecido.
Amanda tinha apenas 39 anos.
Sua história se tornou um alerta doloroso sobre confiança, manipulação e violência, mas acima de tudo permanece como a história de uma mulher cuja vida não pode ser resumida ao crime que sofreu.
Para a família, há uma certeza que atravessou todo o processo: Amanda merecia justiça.
E, mesmo depois das condenações, é sua memória — e não os nomes dos responsáveis por sua morte — que seus parentes querem preservar.