A Polícia Nunca Descobriu o Assassino… Até Que Ele Já Estava Morto
O ASSASSINO MORREU ACHANDO QUE TINHA ESCAPADO: 50 ANOS DEPOIS, O DNA REVELOU O NOME POR TRÁS DE DOIS CRIMES QUE ASSOMBRARAM OHIO
Durante mais de meio século, uma pergunta atravessou gerações em Boardman Township, no estado americano de Ohio: quem matou Bradley Bellino e o que realmente aconteceu com David Evans? Dois meninos. Duas mortes separadas por menos de três anos. A mesma região. Nenhuma resposta capaz de encerrar o pesadelo.
O mais perturbador é que o homem apontado décadas depois como responsável não era um fugitivo escondido nem um criminoso famoso procurado em vários estados. Ele teria vivido ali, perto das vítimas, dirigido pelas mesmas ruas e seguido sua rotina sem despertar a suspeita necessária para colocá-lo diante de um tribunal.
Quando a ciência finalmente conseguiu chegar até ele, já era tarde demais.
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Joseph Norman Hill Sr. havia morrido na Califórnia em 2019. Seu corpo fora cremado. Não haveria interrogatório, confissão ou julgamento. Restaria apenas o DNA — e uma investigação que se recusou a aceitar que o tempo tivesse vencido.
A história começa na noite de 31 de março de 1972. Bradley “Brad” Bellino tinha 12 anos e estava na casa de um amigo, na região de Applewood Acres. Por volta das 19h30, deixou o local e seguiu a pé em direção à residência da família, na McClurg Road. Era um trajeto comum, em uma comunidade onde crianças ainda caminhavam sozinhas entre casas de amigos sem que isso parecesse perigoso.
Brad nunca chegou.
A família procurou pelo menino e, no dia seguinte, comunicou oficialmente seu desaparecimento. A angústia durou até a manhã de 4 de abril, quando um funcionário que recolhia lixo encontrou o corpo do garoto em uma caçamba atrás do antigo Isaly’s Dairy Store, no Boardman Plaza, próximo à U.S. Route 224.
Relatos da investigação indicaram sinais de violência sexual. Um cinto estava enrolado em seu pescoço, e a morte foi atribuída a estrangulamento. Havia boatos de que o menino pudesse ter ficado preso em algum lugar durante dias. A autópsia, porém, apontava para outra possibilidade: Brad provavelmente morreu poucas horas depois de sair da casa do amigo. Restos do jantar ainda estavam em seu estômago e não havia marcas nos braços ou pernas que sugerissem que tivesse sido mantido amarrado por longo período.
A polícia mergulhou no caso. Pistas chegaram. Suspeitos foram avaliados. Testes de polígrafo foram realizados. Investigadores viajaram atrás de informações. Nada foi suficiente.
Então, quando Boardman ainda carregava o nome de Brad como uma ferida aberta, outro menino desapareceu.
David Evans tinha 13 anos e vivia na Ridgewood Drive. Em janeiro de 1975, seu pai avisou a polícia que o filho não havia voltado para casa. Havia um agravante desesperador: David era diabético e dependia de insulina.
A corrida contra o relógio tinha duas frentes. A polícia precisava descobrir onde o garoto estava, mas também sabia que, sem a medicação, cada hora poderia ser fatal.
Em 23 de janeiro, o corpo de David foi encontrado deitado de costas no quintal de uma casa na Crestline Place, sob temperaturas congelantes. O local ficava a aproximadamente uma milha da área onde Brad havia sido encontrado anos antes.
Ainda assim, os casos não foram tratados da mesma forma.
Na época, a morte de David foi atribuída a coma diabético. A interpretação parecia simples: ele teria desaparecido, ficado sem insulina, entrado em colapso e morrido. Com isso, uma possível investigação por homicídio perdeu força antes mesmo de começar.
E essa decisão se tornaria uma das partes mais chocantes de toda a história.
Décadas se passaram.
Em 2001, a polícia de Boardman reabriu formalmente o caso de Brad. O corpo do menino foi exumado para que novas técnicas forenses pudessem buscar aquilo que os investigadores dos anos 1970 não tinham condições de encontrar.
O trabalho produziu algo precioso: um perfil genético masculino desconhecido obtido a partir das evidências preservadas. Esse DNA foi comparado com bancos de dados criminais, incluindo o CODIS, mas não apareceu uma correspondência capaz de identificar o homem.
A partir dali, suspeitos poderiam ser excluídos com precisão. E foi exatamente o que aconteceu durante anos. Pessoas investigadas foram comparadas ao material genético e descartadas uma a uma.
O assassino continuava sem nome.
Até que a genealogia genética investigativa mudou as regras.
A técnica não depende apenas de encontrar o DNA exato de um suspeito em um banco criminal. Ela pode partir de parentes distantes, reconstruindo árvores familiares inteiras até reduzir o universo de possibilidades.
A polícia de Boardman trabalhou com a Parabon NanoLabs. O perfil genético do desconhecido foi usado para orientar uma extensa busca genealógica, cruzando parentescos, idades, localização e histórico familiar.
Mas o cerco foi fechando.
Investigadores localizaram um parente de Joseph Norman Hill Sr. disposto a fornecer uma amostra. A comparação apontou forte compatibilidade familiar com o DNA encontrado nas evidências do caso Bellino.
O problema era cruel: Hill não podia mais fornecer a amostra definitiva.
Ele havia morrido em julho de 2019, na Califórnia, e fora cremado.
Mesmo sem uma comparação direta com o corpo do suspeito, investigadores e peritos concluíram que as evidências apontavam para Hill. Em 24 de janeiro de 2023, mais de 50 anos depois do assassinato de Brad, as autoridades tornaram pública a identificação.
Joseph Norman Hill Sr. tinha 32 anos quando Brad morreu. Na época, morava na Shadyside Drive, em Boardman, e trabalhava como motorista de caminhão para uma empresa de água engarrafada. Segundo a polícia, não foi encontrada ligação pessoal conhecida entre ele e a família Bellino. Por volta de 1978, Hill se mudou para a Califórnia.

E então veio a pergunta inevitável: se Hill matou Brad, o que dizer de David Evans?
Os investigadores voltaram ao arquivo de 1975.
O atual legista do condado de Mahoning, Dr. David Kennedy, revisou os registros e chegou a uma conclusão radicalmente diferente da registrada quase cinco décadas antes. Havia lesões que mudavam o significado da cena: ossos quebrados e uma perfuração feita após a morte, sinais considerados incompatíveis com uma simples morte natural.
A classificação foi alterada.
David Evans não era mais apenas um menino diabético que havia sucumbido por falta de insulina.
Sua morte passou a ser considerada homicídio.
Depois disso, cientistas do Bureau of Criminal Investigation de Ohio voltaram às evidências guardadas desde 1975. Roupas preservadas por décadas foram submetidas a métodos modernos de análise.
E o impossível aconteceu outra vez.
Um perfil masculino foi recuperado.
Quando esse DNA foi comparado ao perfil relacionado ao caso de Brad Bellino, houve correspondência. Em 8 de junho de 2023, autoridades de Ohio anunciaram que Joseph Norman Hill Sr. estava ligado também à morte de David. O próprio gabinete do procurador-geral de Ohio descreveu posteriormente os dois homicídios como conclusivamente ligados ao mesmo suspeito.
O homem que morreu sem jamais enfrentar aquelas famílias era agora apontado, pela ciência forense, como responsável pelos dois casos que haviam atormentado Boardman por décadas.
O Ministério Público do condado de Mahoning afirmou que, se Hill ainda estivesse vivo, as evidências seriam suficientes para apresentar os casos a um grande júri em busca de acusação formal.
Mas não havia mais réu.
Não haveria algemas. Não haveria audiência. Nenhuma câmera registraria Hill entrando em um tribunal. Nenhuma família ouviria dele uma explicação. Nenhum promotor poderia perguntar por quê.
A polícia conseguiu um nome, mas o tempo levou embora a possibilidade de uma justiça tradicional.
Após a identificação, autoridades também entraram em contato com investigadores da Califórnia para verificar se Hill poderia ter relação com outros casos não solucionados. O fato de ele ter vivido durante décadas naquele estado aumentou o interesse em revisar crimes antigos que pudessem apresentar alguma semelhança. Isso não significa que outros delitos tenham sido atribuídos a ele; tratava-se de uma linha de investigação surgida depois de sua identificação.
O caso de Brad e David mostra algo que parece roteiro de cinema, mas não é: evidência guardada por décadas pode sobreviver a testemunhas, investigadores e até ao próprio criminoso.
Em 1972, ninguém naquela comunidade poderia imaginar que fragmentos biológicos invisíveis um dia seriam capazes de montar uma árvore genealógica e apontar para um homem específico.
Em 1975, um laudo médico praticamente encerrou a possibilidade de tratar a morte de David como assassinato.
Em 2001, uma exumação devolveu ao caso de Brad a chance de falar.
E em 2023, a ciência juntou as duas histórias.
Há algo profundamente inquietante nisso. Hill teria passado o restante da vida sabendo — se as conclusões policiais estiverem corretas — que havia escapado. Mudou de estado, envelheceu e morreu sem ser colocado diante da acusação que só surgiria depois.
Talvez ele acreditasse que o segredo morreria com ele.
Não morreu.
Bradley Bellino e David Evans não tiveram de volta os anos que lhes foram roubados. Suas famílias também não receberam a justiça completa que esperaram por décadas. Mas finalmente receberam algo que parecia impossível: uma resposta sustentada por evidências.
Às vezes, um caso arquivado parece morto apenas porque a tecnologia ainda não aprendeu a ouvir o que as provas estão dizendo.
Neste caso, ela levou mais de 50 anos.
E quando finalmente falou, o homem que a polícia procurava já não estava vivo para responder.