A PIOR DOR DO MUNDO? Como é Ter uma Pedra no Rim (Cólicas Renais) – e o que fazer para evitá-las
PEDRA NO RIM: A DOR QUE PODE VIRAR UMA EMERGÊNCIA — OS SINAIS QUE O CORPO DÁ ANTES DE O PROBLEMA FICAR MUITO MAIS GRAVE
É uma dor que pode surgir de repente, sem aviso, transformar minutos comuns em desespero e fazer uma pessoa andar de um lado para o outro sem encontrar posição. Começa muitas vezes nas costas, logo abaixo das costelas, avança pela lateral do abdômen e pode descer até a virilha. Náusea, suor frio e vômitos podem aparecer logo depois. Para quem já enfrentou uma cólica renal, a lembrança dificilmente é esquecida.
Mas existe uma questão ainda mais preocupante: quando uma pedra no rim deixa de ser apenas extremamente dolorosa e passa a representar uma verdadeira emergência médica?
Embora a maioria dos cálculos renais não provoque dano permanente quando recebe tratamento adequado, pedras maiores podem ficar presas no ureter — o fino canal que leva a urina do rim até a bexiga — e bloquear parcial ou completamente sua passagem. Dependendo da localização, do grau de obstrução e da presença de infecção, o quadro pode exigir atendimento urgente.

O alerta ganhou força em um relato apresentado pelo cardiologista André Vambier. No vídeo, ele conta a história de um amigo que sofreu com cálculos renais e posteriormente passou a depender de hemodiálise enquanto aguardava transplante.
É importante destacar que chegar à insuficiência renal terminal exclusivamente por uma pedra não é o desfecho habitual. Ainda assim, obstruções urinárias graves, sobretudo quando atingem os dois rins, um rim único funcional ou aparecem associadas a infecção, podem causar complicações importantes.
Por isso, reconhecer os sinais de perigo pode mudar completamente a história.
A PEDRA PODE EXISTIR EM SILÊNCIO — ATÉ COMEÇAR A SE MOVER
Cálculos renais são estruturas sólidas formadas quando certas substâncias presentes na urina, como cálcio, oxalato, fosfato ou ácido úrico, ficam concentradas e começam a formar cristais.
Algumas pedras são minúsculas e saem espontaneamente sem que a pessoa sequer perceba.
Outras crescem.
E o verdadeiro tormento costuma começar quando uma delas abandona o rim e entra no ureter.
Imagine tentar empurrar uma pequena pedra por dentro de um tubo extremamente estreito. O ureter reage com contrações, tentando conduzi-la para a bexiga. Se ela não consegue avançar, o fluxo urinário pode ficar prejudicado e a pressão aumenta acima do ponto de bloqueio.
É daí que pode nascer a famosa cólica renal.
A dor costuma atingir a lateral das costas e pode irradiar para o abdômen inferior e a virilha. Também é comum ocorrer em ondas, mudando de intensidade à medida que o cálculo se movimenta. Náuseas e vômitos podem acompanhar a crise.
Mas existem sinais que mudam o nível de preocupação.
1. DOR TÃO FORTE QUE A PESSOA NÃO CONSEGUE ENCONTRAR POSIÇÃO
A cólica renal pode ser extremamente intensa.
Há pacientes que não conseguem permanecer sentados ou deitados. Levantam, caminham, mudam de posição e tentam encontrar qualquer maneira de aliviar o sofrimento.
A intensidade da dor, entretanto, não revela sozinha o tamanho da pedra nem determina necessariamente o grau de lesão do rim.
Mesmo cálculos relativamente pequenos podem causar crises terríveis.
O alerta aumenta quando a dor permanece muito forte, não melhora, retorna repetidamente ou vem acompanhada de vômitos persistentes.
Segundo a Mayo Clinic, dor intensa a ponto de impedir a pessoa de ficar parada ou encontrar uma posição confortável, especialmente quando associada a náuseas e vômitos, merece avaliação médica imediata.
Em outras palavras: tentar suportar uma crise devastadora durante horas simplesmente esperando que ela desapareça pode não ser uma boa decisão.
2. FEBRE E CALAFRIOS: A COMBINAÇÃO QUE NÃO DEVE SER IGNORADA
Aqui está um dos maiores sinais de alerta.
Pedra no rim acompanhada de febre e calafrios pode indicar que existe uma infecção urinária associada.
E quando há, ao mesmo tempo, uma obstrução impedindo a drenagem normal da urina, o problema ganha outra dimensão.
Uma infecção no sistema urinário superior pode atingir o rim e, em casos graves, evoluir rapidamente.
É por isso que alguém com dor compatível com cálculo renal, febre e calafrios não deveria simplesmente tomar um analgésico e esperar até o dia seguinte.
O NIDDK e a Mayo Clinic incluem febre e calafrios entre os sintomas relevantes que exigem avaliação profissional em pessoas com suspeita de cálculo renal.
Esse é especialmente um cenário em que tempo importa.
3. QUASE NÃO SAI URINA — OU A PESSOA NÃO CONSEGUE URINAR
Outro sinal que precisa acender o alerta é uma redução importante da quantidade de urina ou dificuldade para urinar.
Uma pedra localizada em apenas um ureter pode bloquear aquele rim enquanto o outro continua produzindo urina, de modo que a pessoa ainda pode conseguir ir ao banheiro.
Por isso, continuar urinando não elimina automaticamente a possibilidade de uma obstrução.
Por outro lado, incapacidade de urinar ou eliminação de quantidade muito pequena de urina pode indicar um problema mais sério e merece avaliação rápida. O NIDDK lista justamente a incapacidade de urinar ou conseguir eliminar apenas pequena quantidade entre os sintomas que exigem atenção.
A preocupação é ainda maior em quem possui apenas um rim funcional ou já tem doença renal conhecida.
4. ALTERAÇÃO DA FUNÇÃO DOS RINS NOS EXAMES
É possível que o perigo não seja percebido apenas pela dor.
Exames de sangue podem mostrar alterações na função renal, incluindo elevação da creatinina.
A creatinina é uma substância utilizada pelos médicos como uma das referências para avaliar o funcionamento dos rins. Entretanto, um resultado alterado não significa automaticamente que existe uma pedra: diversas situações podem elevar seus níveis.
Quando existe dor sugestiva de cálculo, alteração da função renal e suspeita de obstrução, porém, a investigação ganha urgência.
Exames de imagem ajudam a determinar onde está o cálculo, seu tamanho e se existe bloqueio do sistema urinário.
E esse detalhe muda completamente o tratamento.
SANGUE NA URINA TAMBÉM PODE APARECER
Urina rosada, avermelhada ou amarronzada é outro sintoma possível.
A passagem do cálculo pode irritar as estruturas do trato urinário e provocar sangramento.
Algumas pessoas também apresentam ardor, necessidade frequente de urinar ou sensação constante de que precisam ir ao banheiro.
Urina turva ou com cheiro incomum, principalmente quando acompanhada de febre, também merece atenção devido à possibilidade de infecção.
TODA PEDRA PRECISA DE CIRURGIA?
Não.
E esse é um ponto fundamental.
Muitos cálculos pequenos conseguem atravessar o trato urinário espontaneamente. Nesses casos, o tratamento pode envolver controle da dor, hidratação adequada e acompanhamento médico.
Já cálculos maiores, pedras que bloqueiam o trato urinário ou crises que causam dor muito intensa podem exigir tratamento mais rápido.
Dependendo do caso, o urologista pode utilizar procedimentos para fragmentar ou remover o cálculo. Pessoas com vômitos e desidratação também podem necessitar de atendimento hospitalar e hidratação intravenosa.
O tratamento, portanto, não depende simplesmente da existência de uma pedra, mas de seu tamanho, localização, composição e impacto sobre o organismo.
A MELHOR ESTRATÉGIA AINDA É EVITAR QUE OUTRA PEDRA SE FORME
Quem já sofreu uma crise costuma fazer uma pergunta imediatamente depois: “Como faço para nunca mais passar por isso?”
Não existe uma fórmula única, porque existem diferentes tipos de cálculos.
Mas uma estratégia ocupa o primeiro lugar praticamente sempre:

hidratação adequada.
Beber líquidos suficientes ajuda a deixar a urina menos concentrada e dificulta que minerais se agrupem formando novos cristais.
O NIDDK considera a ingestão adequada de líquidos, principalmente água, uma das principais medidas para prevenir cálculos renais. A quantidade ideal, porém, varia de pessoa para pessoa e deve ser ajustada em quem possui condições que exigem restrição de líquidos.
Ou seja, aquela regra difundida nas redes sociais de simplesmente multiplicar o peso corporal por determinada quantidade de mililitros não deve ser tratada como uma prescrição universal.
E A FAMOSA ÁGUA COM LIMÃO?
Existe ciência por trás de parte dessa história, mas não exatamente do modo milagroso frequentemente apresentado na internet.
Frutas cítricas possuem citrato, uma substância capaz de dificultar a formação de certos cristais urinários. O NIDDK informa que alguns estudos encontraram benefício de bebidas cítricas, como limonada e suco de laranja, na prevenção de cálculos devido ao conteúdo de citrato.
Isso não significa, contudo, que espremer um limão pela manhã seja capaz de “derreter” qualquer pedra existente.
Diferentes cálculos possuem composições diferentes, e uma pedra que está causando obstrução não deve ser tratada apenas com receitas caseiras.
Água com limão pode fazer parte de uma estratégia alimentar para algumas pessoas — não substitui avaliação médica quando existem sinais de emergência.
O SAL PODE SER UM INIMIGO SILENCIOSO
Outra recomendação importante é controlar o consumo de sódio.
Uma alimentação excessivamente salgada pode aumentar a quantidade de cálcio eliminada na urina e favorecer determinados tipos de pedra.
Para pessoas com histórico de cálculos de oxalato ou fosfato de cálcio, o NIDDK recomenda atenção ao sódio da dieta.
E o problema não está somente no saleiro.
Embutidos, salgadinhos, refeições prontas, fast-foods, molhos industrializados e temperos ultraprocessados podem carregar grandes quantidades de sódio sem que a pessoa perceba.
CORTAR O CÁLCIO PODE SER UM ERRO
Talvez uma das maiores confusões sobre pedra no rim seja pensar:
“Minha pedra tem cálcio, então vou parar de comer cálcio.”
Isso pode sair pela culatra.
Para muitas pessoas com cálculos de oxalato de cálcio, manter uma quantidade apropriada de cálcio proveniente dos alimentos é importante. O cálcio alimentar pode se ligar ao oxalato no intestino, reduzindo sua absorção.
A Mayo Clinic ressalta que alimentos ricos em cálcio normalmente não precisam ser eliminados, embora suplementos de cálcio mereçam avaliação individualizada.
A dieta ideal depende do tipo de cálculo, e é por isso que analisar uma pedra eliminada ou realizar investigação metabólica pode ajudar quem sofre com crises recorrentes.
E O CHÁ DE “QUEBRA-PEDRA”?
O nome parece uma promessa irresistível.
Mas nenhum chá deveria ser apresentado como substituto do tratamento de uma pedra obstrutiva.
Plantas conhecidas popularmente como “quebra-pedra” vêm sendo estudadas, mas a evidência clínica é muito menos definitiva do que a fama popular sugere.
Além disso, plantas medicinais podem interagir com medicamentos e não são apropriadas para todas as pessoas.
Se existe dor intensa, febre, vômitos persistentes, alteração da urina ou suspeita de obstrução, o caminho seguro não é a cozinha.
É o atendimento médico.
A DOR É TERRÍVEL — MAS O PERIGO MAIOR PODE ESTAR NO QUE ACOMPANHA A DOR
Pedra no rim pode realmente provocar uma das dores mais intensas que alguém já experimentou.
Mas a mensagem mais importante não é disputar se ela dói mais que parto, fratura ou qualquer outra condição.
O fundamental é reconhecer quando há algo além da cólica.
Dor insuportável que não melhora. Febre e calafrios. Vômitos persistentes. Dificuldade importante para urinar. Sangue na urina. Alterações da função renal.
Esses sinais merecem atenção.
Porque uma pedra pequena pode ser apenas uma experiência extremamente desagradável e passageira.
Uma pedra provocando obstrução e complicações é outra história.
E existe uma diferença enorme entre descobrir isso cedo e descobrir quando o organismo já está sofrendo as consequências.
Os rins trabalham silenciosamente todos os dias, filtrando o sangue e mantendo o equilíbrio interno do organismo. Na maior parte do tempo, você nem percebe que eles estão ali.
Até o dia em que uma pedra começa a se mover.
E quando esse pequeno cristal provoca um grande pedido de socorro, ignorar os sinais pode ser a pior escolha.